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Qualquer iniciado em História sabe que, ciclicamente, se apresentam duas potências rivais, tendentes a disputarem, entre si, o domínio do mundo.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaProcuremos fixar alguns desses grandes momentos.
Por vezes pode tratar-se de mera hegemonia espiritual, como no dissídio Babilónia-Sião, lucubrado na toada:
Sobolos os rios que vão
Por Babilónia me achei
Onde sentado chorei
As lembranças de Sião
E quanto nela passei
Então um rio corrente
Foi de meus olhos manado
E tudo bem comparado
Babilónia ao mal presente
Sião ao tempo passado.

Quase sempre, porém, é a luta pela hegemonia política e o domínio territorial.
Comecemos por Tróia.
Recordemos a poética causa belli:
Quando se viu ao espelho
A bela Helena chorou
Por causa dum rosto velho
É que Tróia se arrasou.

Agamemenao, o pastor de todos os povos do Ocidente conglobara e concitara exércitos para se vingar de Paris e Poicena.
Arma virunque cano Troia ab oris.
Tróia arde, mas Eneias, filho de Vénus e Anquises, desloca-se para Ocidente.
Entretanto, a querela renasce perto de onde Tróia tinha sido antes de arder.
São as guerras medicas ou persas, onde gregos e medos se disputam o domínio do Bósforo, símbolo do domínio mundial.
Atenas e Esparta tentam dividir um mundo à sua moda.
Como depois, a Macedónia de Alexandre, o Magno, e os seus quarenta generais, partindo o nó gordio, abriu caminho até ao Oriente quase último.
A questão renasce com as guerras púnicas, já que Anibal, o grande peno, filho de Amílcar e neto de Asdrubal, disputa o domínio dos povos mediterrânicos, a única parte do mundo que interessava, à Roma pré-imperial.
Séculos depois, quando os herulos, chefiados por Odiacro, apeiam Augustulo dum trono que já não existia, ninguém aspirou à hegemonia mundial, que a barbaria obstava a qualquer projecto de união, indispensável a intentos de domínio à escala mesmo dum pequeno mundo.
Breve renasceriam os sonhos imperiais e com elas as perspectivas de partilha.
Os sucessores de Carlos Magno e de Otao Grande dividem as respectivas heranças, dividindo a parte do Mundo que, ao tempo, interessava – o coração da Europa.
Mas o Império Romano renasce, tetrárquico ou diárquico.
E depois de as suas duas metades – Roma e Constantinopla – se haverem disputado primasias, eis que aparece um terrível émulo a exigir a divisão do Orbe – o Império Turco.
Que passa da intenção à acçao, tomando Constantinopola, que mais uma vez muda de nome e avançando até às costas dalmáticas.
Entretanto surgem as duas potências ibéricas – Portugal e Castela – que, depois de delimitarem os velhos continentes, dividem em Tordesilhas o Mundo ainda por achar.
A hegemonia tornou-se duradoira e ainda hoje as três Américas, da Florida à Patagónia dão sinal da validade da partilha.
Temporalmente muito próxima de nós, à distância efectivamente de pouco mais de um século, foi a partilha de África, onde vingou a bicefalia Inglaterra-França.
A primeira conseguiu a ligação Cairo-Cabo, bastante à custa dos nossos direitos que iam de Angola à contra-costa em Moçambique.
A segunda alijou para regiões inóspitas as ambições alemãs e italianas e coartou lesivamente a influência espanhola a Norte e Ocidente.
Com a Segunda Grande Guerra, foram duas novas potências que se impõem a todo o Mundo… Estados Unidos e União Soviética.
Foi o tempo da chamada guerra fria que só se aquietou com a queda do chamado Muro de Berlim e o desmoronar do Império Bolchevista e a irrupção de algumas dezenas de novos estados, grandes uns, como a Ucrânia e a Bielo-Russia, médios alguns, embora territorialmente vastos, minúsculos muitos deles, mas correspondendo a bem vincadas nacionalidaddes.
O sonho de hegemonia mundial dissipou-se.
Mas não há tempo para vacaturas.
E, no seu lugar, está para já de pedra e cal, o colosso chinês, apostado também no domínio económico-financeiro do nosso orbe já pequeno para tanta ambição…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A longa viagem de mais de dois meses que o então chefe do governo chinês Chou En Lai levou a cabo em África na parte final de mil novecentos e sessenta e três marca uma data importante, pois foi por ela que aquela potência que começava a ter intenções de hegemonia mundial saiu do seu próprio continente, para potenciar o movimento revolucionário no chamado Terceiro Mundo.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaJá antes, em em mil novecentos e quarenta e nove, Liu Shao Chi, que havia de ser presidente da república, defendera a tese de que a via chinesa é a via que devem tomar todos os países coloniais e semicoloniais no seu combate para a independência nacional. Era a formação de frentes nacionais.
Os elementos de vanguarda da luta revolucionária, preconizava, devem atrair a si os elementos patriotas da burguesia nacional e formar com eles uma frente tão larga quanto possivel. Mas a direcção dessa Frente deve pertencer à classe operária, leia-se ao partido comunista.
Porque a partilha do poder com a burguesia nacional não conduziria ao triunfo da Revolução, mas à prevalência de interesses burgueses.
Ponto essencial era também o da necessidade da luta armada, relembrando os ensinamentos de Mao Tse Toung, segundo o qual o poder está sempre nos canos das espingardas.
Mas esta luta só de per si é insuficiente e não pode ser levada a cabo só pelos povos colonizados. É fundamental o auxílio dos países socialistas
Enfim, os povos da Ásia, da África, da América Latina devem aplicar na sua luta contra os colonizadores a técnica revolucionária que o povo chinês praticou e se encontra sintetizada nas lições de Mao.
Tem de ser assim, dizia o compêndio.
Para o Egito, a Argélia, Marrocos, o Quénia, as três Guinés, o Mali, a Somália, o Tanganica, Zanzibar, o Iemen, a Palestina, o Paquistão, o Ceilão, nas Antilhas, nas Caraíbas, no Peru, na Nova Caledonia…
Como se vê, não há limites geográficos para o expansionismo chinês.
Poderá perguntar-se das razões pelas quais Pequim decidiu intrometer-se tão larga e profundamente por todo o Terceiro Mundo.
Porque os países ocidentais ou abdicaram ou se mostram apenas preocupados com a colonização económica, única que também em seu entendimento interessava aos soviéticos.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Nos grandes debates sobre descolonização apresentaram-se como campeões da ideia a Rússia, a China, os Estados Unidos, o Japão, a União Indiana.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaE, no entanto, todos aqueles países eram ao tempo, tinham sido antes e dificilmente se poderão despir de aspirações de hegemonia e expansionismo, colonizadores no pior sentido do termo e sempre ávidos por mais e mais extensão.
Aliás, para além de eventuais diferenças de base ideológica ou de praxes políticas, que vêm opondo os governos de Moscovo e Pequim, assenta na chamada questão dos limites.
Com efeito, mau grado a enorme Área territorial daque1es dois colossos (mais de vinte milhões de quilómetros quadrados a Rússia, cerca de dez milhões a China), ambas se reivindicam rnutuamente parcelas fronteiriças.
E nenhuma delas se coibiu de continuar na senda das anexações. Que o digam, na Europa, a Polónia, a Finlândia ou a Roménia, amputadas largamente no fim da Segunda Guerra por um imperialismo não contente ainda com a incorporação da Sibéria, do Turquestão, do Cáucaso, da Transcaucásia…
Antes, alargara-se para o Báltico e Proximo Oriente, mesmo à custa da Suécia (não se esqueça que Sao Petersburgo, que assim nasceu, mas já foi Petrogado e Leninegrado, está construido em territórios extorquidos por Pedro o Grande à Suécia) e aquém da Sublime Porta, ex-dona da Crimeia e limítrofes.
Quanto à China, bastará recordar a anexação do Tibete, da Mongólia, da Manchúria, duma parte do Turquestão, e de todo um extenso rosário de arquipélagos espalhados por todos os mares da região.
De resto, as aspirações de hegemonia de uns e outros não se circunscrevem a questões de fronteira.
Reflexamente, influenciam também o dissídio Índia/Paquistao, relativamente às tendências expansionistas da primeira, que se julga predestinada ao domínio de toda a península, não obstante o autêntico mosaico de raças e culturas determinantes de cerca de uma vintena de estados, que são tantos quantos compõem a Índia, importa como fre-quentes e sangrentas irrupções bem demonstram.
Antes do colapso militar que lhe foi imposto pelos bombardeamentos de Hiroshima, também o Japão praticou uma política agressivamente expansionista, iniciada em fins do século passado. Vencendo sucessivamente russos e chineses, conquistou a Manchúria e ocupou as únicas áreas industrializadas da China, formando assim o Grande Império do Sol Nascente.
Além disso, incorporara também as ilhas que no Pacífico haviam constituído, até Versalhes, o império alemão.
Os Estados Unidos, para além da projecção da doutrina de Monroe (a América para os americanos), que naturalmente lhes conferia uma posição hegemónica, vem praticando desde fins do século passado uma política de expansão territorial, conseguida de diversos modos.
Em 1867, compraram o Alasca aos russos. Em 1889 anexaram as ilhas do Havai. A guerra hispano-americana, desencadeada pela posse de Cuba, terminou pela derrota da Espanha e a transferência para o domínio americano de Porto Rico, Guam e as Filipinas.
Mas não se quedou por aqui o alargamento do territorio. Por compra, adquiriam à Dinamarca as Ilhas Virgens. Na América Central, têm o domínio perpétuo da zona de protecção do Canal do Panamá.
A sorte dos dois últimos conflitos de que tem sempre ernergido vencedores, assegurou-lhes, por igual, outras zonas do domínio ou tutela: caso de antigas possessóes alemãs ou japonesas em diferentes áreas do Pacífico…
O anticolonialismo norte-americano (naturalmente hipócrita) explica-se por uma causa no mínimo dupla: por um lado, ao seu grande poderio económico-militar não interessava minimamente a influência das antigas metrópoles europeias; por outro, tratava-se de conquistar simpatias dos chefes que se julgavam independentizados. Todavia, por uma especie de justiça imanente, os territorios por que decidiram atacar as velhas soberanias têm-se revelado para Washington fonte das maiores preocupações e até de terríveis problemas, ainda não solucionados.
Bastará citar quatro exemplos. Contra o domínio espanhol, intervieram em Cuba que inicialmente satelitizaram, mas que com a ascenção de Fidel – aliás por eles mesmo promovida e potenciada – se lhes tornou o mais incómodo dos vizinhos.
Contra a hegemonia japonesa, intervieram na Coreia e as sequelas do conflito ainda não sararam.
Mas a pior de todas as provas emergiu na Indochina, onde se quiseram substituir aos franceses.
Falta saber como se saldará a substituição da influência britânica nas regioes onde foram Ur, Babilónia e Ninive.
A descolonização fez-se assim por influência de simples interesses comerciais ou devaneios ideo1ógicos.
A conversão em estados dos antigos territórios sob administração europeia fez-se não tendo minimanente em conta os interesses das populacões autótones, nem os irnperativos geográficos.
Bem pelo contrário, escreveu urn especialista (Ligório Marcela, in «Apontamentos de Geografia Política») firmou a divisão mais artificial do mundo… Com efeito, muitos dos novos estados além de não terem sido precedidos pela formação das nacionalidades têm fronteiras que não correspondem a divisórias naturais e que separam frequentemente povos da mesma etnia… E daí os genocídios que sinistramente irrompem para subjugar populações que são forçadas a permanecerr em esta¬dos arbitrariamente organizados e protegidos.
E a tragédia repete-se todos os dias.
A colonização movera-se de início por motivos de ordem espiritual. À descolonização, todavia, presidiram meros intentos economicistas, mesmo que disfarçados sob a capa da emancipação dos povos.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

O Reino Unido conseguiu o maior império que a História regista.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaDo compêndio de Geografia já noutra crónica referido, consta uma extensa listagem de colónias britânicas que passamos sumariamente a enumerar, anotando a superfície que o livro lhes atribui e que são:
Na Europa:
Heligolândia (0,5 km2), Gibraltar (5) e Malta (370).
Na Ásia:
Chipre (960), Índia (2.400.000), Ceilão (640.000), Estabelecimentos do Estreito (3.800), Hong-Kong (83), Labuão (78), Nicobar (1.800), Andamão (6.500), Laquedivas (2.000), Kuria-Muria (55), Adem (20), Pérsia (2.000.000), Kamarao (165) e Keeling (22).
Na Oceânia:
Novas Gales do Sul (800.000), Norfolk (14), Vitória (230.000), Gucensland (2.000.000), Austrália Meridional (1.000.000), Territórios do Norte (1.400.000), Austrália Ocidental (2.500.000), Indígenas da Austrália (100.000), Tasmânia (70.000), Nova Zelândia (270.000), Chatam (1.600), Fidji (20.000), Rotuma (36), Aucland (500), Lord Hove (8), Carolina (5), Starbuck (3), Malden (90) e Funning (40).
Na África:
Colónia do Cabo (572.000), Basulolândia (22.000), Griquelândia Ocidental (45.000), Transkai (40.000), Natal (50.000), Transval (300.000), Indígenas do Transval (100.000), Walthis-Bay (20.000), Serra Leoa (2.600), Gâmbia (179), Costa do Ouro (40.000), Lagos (200), Santa Helena (123), Ascensão (83), Tristão da Cunha (116), Maurícia (2700) e Nova Amesterdão com São Paulo (100).
Finalmente, nas Américas:
Canadá (8.500.000), Terra Nova (110.000), Bermudas (60), Honduras (20.000), Bahamas (14.000), Ture (25), Caicos (550), Jamaica (10.000), Cayman (600), Leward-Island (1.800), Windward-Islands (2.000), Staten-Island (2.000), Trindade (5.000), Guiana Inglesa (220.000) e Falclândia (12.500).

A enumeração, conquanto fastidiosa, não consigna, mesmo assim, a totalidade dos territórios que chegaram a estar dependentes da coroa britânica; e, quanto à sua extensão territorial, para a maioria dos casos, peca por deficientíssima, sendo certo que os dados procederam de repartição administrativa que só considerava os quilómetros quadrados sitos onde a jurisdição efectivamente funcionaria.
Com efeito, para numerosas parce1as, as superfícies indicadas apresentam valores manifestamente ridículos quando confrontados com as dos estados que actualmente lhes correspondem.
Acresce que, ao tempo, os Estados Unidos, outrora a mais importante e rica colónia do império se havia já emancipado; que o Império Turco ainda se não havia desmembrado e parte importante daquele, nomeadamente a Palestina e o Egipto, haviam de passar para a administração britânica, tal como a península arábica; e que territórios que na partilha da África haviam sido consignados à Alemanha transitaram, por virtude dos tratados que puseram fim à Primeira Grande Guerra para a posse ou, minime, a zona de influência de Londres.
Resumindo, poderá dizer-se que um súbdito de Sua Majestade britânica podia ir do Cairo ao Cabo, ou da Serra Leoa ao Corno de África sem ter de prestar obediência a outro chefe, que imperava em toda a Oceânia, na América do Norte, no Próximo, Medio e Vero Oriente, ou em todo um longo rosário de ilhas esparsas par tados os oceanos, ou mesmo por todos os mares.
Na génese de tão vasto império intervieram razões como a do espaço vital e a das oportunidades comerciais.
A população inglesa subiu rapidamente de menos de vinte milhões para mais de cinquenta. Daí a emigração para a América do Norte e a África do Sul, territórios de grandes riquezas agrícolas e mineiras e grande aptidão para a pecuária, ainda com a vantagem de serem dotadas de c1imas perfeitamente adaptados à raça branca.
Mas também a pirataria e o crime assumiram aqui poderosa influência.
Os portos de onde se vigiavam as mais concorridas rotas: as ilhas que rnais recôndito esconderijo fossem capazes de propiciar aos corsários que actuaram nos sete mares; as costas mais difíceis para servirem igualmente de coito: ou as embocaduras dos mais caudalosos rios usados para os raides fluviais, enfim todos os lugares eleitos por uma pirataria muito activa, eficiente e gozando da tolerância ou mesmo da protecção da Coroa e da sua política de canhoneira – acabaram por vir a tornar-se parte integrante do Império.
Mais importante do que a acção destes viquingues da Idade Moderna se revelou a dos condenados que eram remetidas para lugares de degredo onde poderiam vir a fixar-se como colonos livres se ali dessem provas de regeneração e, numa primeira fase, se comprometessem a não regressar à metrópole.
Como exemplo deste tipo de colonização costuma citar-se a Austrália, onde se começou pela parte sul da costa oriental, antes explorada pelo capitão Cook e por ele designada Nova Gales. Foi um oficial de marinha que, com cerca de oitocentos condenados, fundou a cidade de Sydnei.
A carência de mulheres já que os criminosos condenados à morte ou penas de degredo eram guase só homens, resolveu-se com a deportação das que na Inglaterra se dedicassem à prostituição.
O País, mau grado a procedência da generalidade da população, cedo atingiu elevados níveis de prosperidade e civi1ização e pouco tempo após o papel de colónia penal passou para a Tasmânia.
Como se vê, foi muito heterogéneo o contributo dos que a1icerçaram a maior comunidade de povo. ligado por laços de soberania, cultura e idioma, jamais existente.
O inglês tornou-e assim uma língua praticamente universal, sendo falado e tido como oficial nos mais variados lugares do mundo.
As independências começaram há mais de duzentos anos e ainda não terminaram.
Mas a Comunidade, tendo como principal elo, a língua inglesa e acatando também genericamente como símbolo a casa real assume-se como realidade que sabe resistir a interesses e posições, não raro aparentemente irrecinciliáveis.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Sob o título em epígrafe, lê-se na «História Geral da Civilização», de Adriano Vasco Rodrigues:

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNo reinado de Francisco Primeiro, correndo os anos de 1533/1534, Verazzano, um florentino ao serviço da corte francesa, percorreu parte das costas da America do Norte. Mais tarde Cartier descobriu o estuário do São Loureço. Ainda em 1534, iniciou-se a colonização francesa do Canadá. Aproveitando-se da situação criada a Portugal pela ocupação filipina, os franceses tentaram estabelecer-se no Brasil e na India. Richelieu não se preocupou apenas com os limites naturais da França. No seu tempo, ensaiou-se a colonização do Canadá, das Anti1has, do Senegal e de Madagascar. No tempo de Carlos IX fundaram a Carolina, em homenagem aquele soberano, o mesmo fazendo com a Luisiana, no tempo de Luis XIV. Esta colónia foi o foco da Guerra dos Sete Anos, durante a qual a França perdeu grande parte do seu império colonial. Mesmo assim, na India possuíu até aos nossos dias Pondicheri, Carical, Mlahe, Tainao e Chandernagor…
E, diremos nós agora, manteve a Indochina até 1960, a Argélia, o Saara e a África Ocidental, a Africa Equatorial, Madagascar e parte das Antilhas, além de numerosos arquipélagos meio oceânicos, meio insulindícos, até a grande vaga de independências forçadas pela ONU e pelos partidos de esquerda em Paris…
Compêndio escolar adoptado nos nossos liceus em fins do século passado continha esta relaçao:
África: Argélia, Tunísia, Gabão, Senegâmbia, Reunião, Maiota, Nossibé e Santa Maria de Madagáscar;
Ásia: Índia Francesa e Conchinchina Francesa; e, ainda protectorados sobre o Reino do Cambodja, Tubuai, Vovitou, Rapa, Tuamutu e Gambier;
América: Guiana, Guadalupe, São Bartolomeu, Martinica, São Pedro e Miquelou;
Na Oceânia: Nova Caledónia, Taiti, Moerea, Tetuarea, Raiatea, além de numerosas ilhas (Loyalti, Marquesas, Cliperton, entre outras…).
Dos impérios ultramarinos foi este sem dúvida o segundo em importância, logo a seguir ao inglês.
Menos mercantilista e mais interessado em trazer os povos indígenas aos benefícios da civilização, só podia ser atacado em nome de princípios que não tinham em conta o humanismo.
Aliás, muito mais do que as populações autóctones, genericamente satisfeitas com a colonização e até orgulhosas com a sua ligação à França, quem lançou as sementes da revolta foram internamente os partidos e intelectuais de esquerda (uns por pretensões de vanguardismo, outros por obediência a Moscovo) e externamente a Rússia ou a China ou até os Estados Unidos, todos com aspirações e intenções imperialistas e os últimos para agradarem aos afro-asiáticos que tinham a maioria na ONU e lhes forneciam oportunidades comerciais inusitadas.
Os militares franceses, não obstante a situação de abandono a que a classe política os votou, escreveram páginas de glória na defesa do Império.
Os Centuriões, embora livro romanceado, dão-nos épico testemunho. No pórtico, escreveu o autor, Jean Larteguy:
Conheci muito bem os centuriões das guerras da Indochina e da Argélia. Durante algum tempo, fiz parte deles; depois jornalista, tornei-me sua testemunha, por vezes seu confidente. Sentir-me-ei para sempre ligado a esses homens, mesmo que um dia deixe de estar de acordo com eles quanto ao caminho que seguiram… E dedico este livro à memória de todos os centuriões que pereceram para que Roma sobreviva.
A Indochina ficaria na memória de todos:
Naquela noite, os oficiais tinham-se reunido em casa de Esclavier que, como se servia dos móveis dos legionários, possuía a cozinha mais confortável… Primeiro beberam por Merle e todos os companheiros que já estavam mortos; depois por eles próprios a quem talvez acontecesse rapidamente o mesmo; por Si Lachen, que foram obrigados a matar; pelo coronel Quarterolles, por Moine, por Vesselier que teriam gostado de fuzilar. Mas, à medida que se afundavam na sua bebedeira, esqueciam a ArgéIia (onde então se encontravam) e a França e, dentro em pouco, todos falavam ou sonhavam com a Indochina. Nessa mesma hora, todos os oficiais, todos os sargentos e todos os soldados do exército francês que tinham conhecido o Tonquim ou a Conchinchina, a Região Alta, o Cambodja ou o Laos, quer estivessem sentados em suas cozinhas, escondidos numa armadilha, ou dormindo sob a tenda, reavivavam da mesma forma a chaga da doença amarela, arrancando-lhe as finas crostas que a cobriam.
Esclavier nao pudera suportar por muito tempo as discussões e safra. Avançara entre as ruínas do acampamento romano… Sentou-se sobre o fuste de uma coluna quebrada e tacteou uma inscrição: Titus Caius Germanicus, centurio Tercia Legio Augusta.
Vinte séculos antes, um centurião romano sonhara junto daquelas colunas e espreitara no fundo do deserto a chegada dos númidas. Quedara-se ali para defender as pontas do Império, enquanto Roma apodrecia, os bárbaros acampavam junto às Três Vias e as mulheres e filhas dos senadores juntavam-se-lhe durante a noite para copular com eles…
Esclavier sentia o ódio, a repugnância a invadi-lo contra todos aqueles que em Paris se felicitavam antecipadamente com a derrota e a perda do império.
Titus Caius Germanicus devia sentir a mesma coisa a respeito dos progressistas de Roma…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Este imperialismo radica em linha directa nas expedições normandas. Arianos daquilo que hoje chamaríamos a Escandinávia (Suécia, Noruega Dinamarca), começaram nos últimos séculos do nosso primeiro milénio, um ciclo expansionista que os levou da Amèrica do Norte ao Mar Cáspio e do Arca Polar à Sicília e Bizâncio.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaContra eles, assinala Daniel Rops, in A Igreja dos Tempos Bárbaros, lançou Carlos Magno as suas frotas; e, por terra, fez pesar uma ameaça sobre os seus estabelecimentos de origem, tentando aniquilar-lhes na Dinamarca e na Noruega as suas bases de partida. Mas não pode fazer mais. De modo que um seu cronista evoca uma viagem marítima do Imperador da Barba Florida que, vendo desfilar as velas dos viquingues (termo que também identifica os normandos) que se lhe afiguravam sinistras aves negras, começou repentino choro, com uma clara consciência dos perigos que representavam para o Ocidente Cristão.
E continua o mesmo autor:
Os normandos! A custo se poderá imaginar hoje quanto terror estas duas sílabas guturais da língua germânica espalharam por toda a Europa durante o século IX. Quando os postos de escuta e espia, nas embocaduras dos rios, assinalavam a chegada dos terríveis piratas do mar, logo o sino tocava a rebate; as cidades fechavam-se; as muralhas de defesa viam-se logo cheias de ansiosos defensores. E as herdades e mosteiros que não tinham possibilidades de combater viam desfilar longas vagas de infelizes que se destinavam mais provavelmente à chacina do que à salvação. Envolvidos pelo mistério com que os rodeava a opaca bruma donde surgiam; escoltados por uma merecida reputação de selvajaria, os homens do Norte apavoraram a Europa como símbolos vivos do castigo reclamado pelas suas faltas.
A tal ponto que as próprias litânias viriam a incluir um versículo para os exorcizar:
A furore normandorum, libera nos, Domine.
Numa primeira fase, os assaltos dos dinamarqueses voltaram-se para a Europa, não tendo havido cidade importante que não recebesse tão incómoda visita: nas embocaduras do Reno e do Escalda, Saintonge, de repente em Hamburgo e no dia seguinte na Gironda. São depois visitadas Lisboa e Sevilha, enquanto a Itália litúrgica esperava a sua vez. Em França, não se podem enumerar os seus pontos de ataque: Beauvais, Chartres (atacada em plena noite), Melum, Orleaes, Blois… A lista alonga-se todos os dias. Paris foi cercada quatro vezes, saqueada três, incendiada duas…
Aliás, estas incursões haveriarn de, à distância, determinar como que uma implantação legal dos viquingues em terras de França. No começo do século X, Carlos, o Simples, teve a ideia, aliás excelente, de se entender com eles, de os estabelecer em França, e foi assim que, em 911, o chefe viquingue, Rollon, se tornou duque, dando ao seu feudo o nome, que ainda persiste, de Normândia.
Na Europa, os raides terminaram com o advento do novo milénio. Os povos cristinanizaram-se nas suas terras de origem ou nas zonas para onde se haviam deslocado.
Aproveitando a sua enorme experiência como navegadores e as viagens feitas nos anos de aventura, os dinamarqueses mantiveram até quase aos nossos dias um império colonial localizado nas regiões semi-glaciares do Norte e cujos úlltimos elementos foram a Islândia e a Gronelândia, valiosas essencialmente como base piscatórias.
Há, assim, uma longa tradição na arte de marear. Nos túmuIos dos chefes encontraram-se barcos onde eles quiseram dormir o sono eterno: os seus dacares.
Nos museus da Dinamarca, podem-se ver esses longos barcos de vinte e cinco metros, sem ponte, cuja forma afilada, proporções perfeitas e ornamentações de popa e proa nos dão uma instinta impressão de obra-prima. Movidos a remo ou a vela, desenvolviam facilmente os seus dez nós e o calado permitia-lhes passar sobre todos os fundos. Quanto ao raio de acção, podemos avaliá-lo pelo raid reptição, montado experimentalmente em 1950 da Escandinávia a Nova Iorque, feitos comemorativamente em exemplar adrede construído.
E foi montado em número de cinquenta sobre cada um desses maravilhosos animais marinhos, sob o comando de chefes especiais, os Viquingues, cuja glória é celebrada nas estrofes das sagas que os dinamarqueses (e os demais homens do Norte, agora modelos de civilização) se lançaram na sua aventura.
Recordemos parte duma saga:
A tempestade ajuda os nossos remadores; O vento está ao nosso serviço e leva-nos onde queremos ir…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Como já anteriormente deixámos exarado, o Portugal atlântico, imperial, evengelizador, que toma nessa hora de quinhentos o lugar do povo-chefe, de povo guia, mesmo, do universalismo ocidental, nasce graças à vontade infléxivel do Infante Dom Henrique…

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaComo escreveu João Ameal, impulsionados por ele, não mais parámos no seguimento da sua obra. Lembremo-nos de que, se Dom Duarte quer em vão Tânger e Dom Afonso V acaba por subjugar aquela cidade depois de Alcácer-Céguer e Arzila, as conquistas marroquinas não fazem esquecer o empenho, central e primordial do avanço pelo litoral africano. Os marinheiros de Sagres prosseguem esse avanço sob o comando directo de Dom Henrique, até 1460, ano da sua morte. E não mais se detém. Com Dom João, o ritmo acelera-se e Bartolomeu Dias alcança a extremidade meridional do Continente. Pouco mais de uma década será necessária para que, sob Dom Manuel, Vasco da Gama aporte a Calecute e Pedro Álvares Cabral a Vera Cruz. No entretanto, e quando já tudo era previsível, obtivera o Principe Perfeito, ao fim das negociações porfiadas e habilidossíssimas de Tordesilhas, que o Papa sancionasse a partilha das terras conhe¬cidas e desconhecidas entre Portugal e a Espanha. E na nossa metade compreendem-se a África inteira, a Ásia e o Brasil.
Ludibriada pela enorme ciência dos nossos sábios, que conheciam bem mais as terras situadas na nossa metade, ao contrário dos seus marinheiros que julgavam ter chegado à India pelo Ocidente e da América só se haviam dado conta da parte mais reentrante, a Espanha acabaria por vingar-se depois de Alcácer-Quibir e com o colapso da Invencível Armada, lançaria no seu e nosso império, a cobiça de ingleses, holandeses e franceses.
De qualquer modo, a Espanha foi a segunda das grandes potências marítimas.
E, se Camões, podia, na dedicatória de «Os Lusíadas», saudar Dom Sebastião, dizendo:
Vós, poderoso rei, cujo alto império
O sol, logo em nascendo, vê primeiro,
Vê-o também no meio do hemisfério
E quando desce o deixa derradeiro…

Filipe II de Espanha poderia, depois de ser também o Filipe I de Portugal, considerar-se rei de um território, onde nunca o Sol se punha.
Ao descobrimento da América por Cristóvão Colombo em 1492 (agora estamos a transcrever de Francisco Ligório Morcela, in «Apontamentos de Geografia Política», seguiram-se no reinado de Carlos I, as conquistas de Fernando Cortez (México), Almagro (Bolívia e Perú), Mendoza (Argentina) e Pizarro (Chile, Colombia e Perú) que, destruindo os poderosos indígenas dos astecas e dos incas, constituiram um imenso império colonial que abrangia parte da Ámerica do Norte, praticamente toda a Central e mesmo a do SuI, exceptuando o Brasil.
Como recordação da viagem de Fernão de Magalhães (no feito, com verdade, português, mas não na lealdade), ocuparam ainda as Filipinas, na Insulíndia.
Detendo grande parte do norte de Àfrica, instalaram-se por igual num extenso rosário de ilhas atlânticas, das Canárias a Fernando Pó e Ano Bom, com ocupação efectiva, já na costa ocidental, do chamado território do Rio Muni, núcleo da Guiné Espanhola, integrante também daquelas duas ultímas ilhas.
Com pés de barro, como todos os Impérios terreais, foi-se destruíndo. A administração ruinosa da Metrópole e o exemplo da independência dos Estados Unidos vieram, com outros factores, desenvolver um poderoso movirnento de emancipação nas colónias espanholas da América, devido principalmente à acção de Bolívar e San Martin. As ambições políticas de expansão externa dos Estados Unidos (continua Ligóno Morcela, obra citada) levaram o seu govemo a declarar-se paladino da independência das nações americanas e a tentar impedir, por todos os meios, a hegemonia europeia naquele continente. E, quando, em 1823, as colónias espanholas se agitavam para sacudir o jogo da metrópole, Monroe, então presidente dos Estados Unidos, enviou uma célebre mensagem aos seus congressistas, na qual preconizava a doutrina de «a América para os americanos».
E, nos fins do século passado, os Estados Unidos intervieram para assegurar a emancipação de Cuba e conquistarem Porto Rico. Aliás a sua acção antiespanhola não se circunscreveu ao Continente Americano.
Acabaram também por anexar as Filipinas a que mais tarde dariam a independência.
Maldição ou simples sina histórica, Cuba, como mais tarde o Vietnam, de que correram os franceses, tornou-se para os norte-americanos uma tremenda preocupação e um caso que ainda não conseguiram liquidar.
Voltando ao exemplo espanhol, assistimos já na década de sessenta do século passado, à emancipação dos territórios do Rio Muni, Fernando Pó e Ano Bom, que deram a chamada República da Guiné Equatorial (12/10/1968) e a devolução do Ifni a Marrocos em princípios do ano subsequente (4/1/1969).
De modo que hoje praticamente lhe restam apenas as ilhas Canárias, as afortunadas, na nossa linguagem da primeira dinastia e por onde, em tempos de D. Afonso IV, se ensaiou a nossa vocação expansionista.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A Europa, têmo-lo repetido, vale como sinónirno de humanismo, cristandade, cavalaria (no mais nobre sentido do termo) e civilização.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNão admirará, em corolário, nem o ascendente que, desde os luminosos séculos da Hélada, vem mantendo sobre o resto do mundo, nem a missão de disseminador da cultura que se propôs.
O mais pesado fardo do homem branco, evocado nalguns cantos de epopeia, e que refere exactamente a obrigação que o europeu sempre sentiu de actuar como responsável pela promoção civilizacional dos aborígenes dos demais continentes, não representa efectivamente mero sentido de retórica e longe de constituir causa de recriminação ou motivo penitencial deve dar-nos inspiração para mais altos cometimentos em prol da humanização.
Para além das razões económicas com que muitas vezes se mascarou aquele propósito eminentemente digno, não deixando de condenar a exploração, os abusos e até os crimes de muitos colonizadores, a verdade é que, mesmo fora do campo estritamente religioso que normalmente foi o motor inicial (alargar a Santa Fé de Nosso Senhor Jesus Cristo e trazer a ela toda as almas que se queiram salvar, diria o lnfante Dom Henrique em carta ao Papa, então reinante), há sobejos motivos de consolaçãoo ou até de cristão desvanecimento pela obra de promoção que a Europa levou a cabo nas demais partes do mundo.
A nós, portugueses, coube o papel de iniciadores, como recorda o poeta:
Nascido dos combates pela Cruz
Portugal veio ao mundo já cristão
O melhor baptismo é o da luz
Que Deus deixou nas margens do Jordão

Somente os ungidos por Jesus,
São Pedro, São Tiago, São João…
Ao «ide e ensinai» fizeram jus
E nós que somos povos de missão
Deus é que fez o mundo e redimiu-o
O génio português redescobriu-o
Em nova criação a Deus o dando…

Todos os nossos poetas, de resto, se deixaram tocar pela sublimidade do tema.
Camões:
Assim fomos abrindo aqueles mares
Que geração alguma não abriu…

Vimos buscar do Indo o grão corrente
Por onde a lei divina se acrescente.

Guerra Junqueiro:
Astros do céu, povos da terra, ondas do mar
Viram passar como uma águia ovante
Meu pendão quimérico nos ares
Retumbaram maus feitos de gigante
Pelo universo em feitos seculares…

Fernando Pessoa:
Ao imenso e possível oceano
Ensinam estas quinas que aqui vês:
O mar com fim será grego ou romano
O mar sem fim é português.

Corrêa de Oliveira:
Mare nostrum dos antigos
Foi latim a breve modo
O português deu à vela
Nosso mar era o mar todo…

Afonso Lopes Vieira:
O que era dantes o mar?
Um quarto escuro
Onde os meninos tinham medo de ir.
Agora o mar é livre e é seguro
E foi um português que o foi abrir…

Com os poetas eruditos, ombreiam os cantadores ao desafio:
Portugal, senhor da terra
E senhor do mar também
Só não é senhor do céu
Que é de Deus e mais ninguém.

Áfricas, Índias, Brasil,
Tudo no mundo foi meu…
Proas de nau, nem eu sei
Como as não meti ao céu…

Enfim, todos repetiam com Camões:
… Entanto que cegos e sedentos
Andais do vosso sangue, ó gente insana
Não faltaram cristãos atrevimentos
Nesta pequena casa lusitana.
Tem da África os marítimos assentos
É na Ásia mais que todas soberana,
Na quarta parte nova os campos ara
E, se mais mundos houvera, lá chegara…

Sobreveio Alcácer-Quibir e o nosso esforço iria ser aproveitado por outros.
Logo pelos espanhóis, já émulos connosco. E daí a trova:
Áfricas, Índias, Brasil,
Tudo no mundo foi nosso
Portugal dizendo à Espanha
Toma lá que que eu já não posso…

Consumara-se aquilo a que os historiadores chamam o século português, de algum modo o do Infante Dom Henrique, a quem, na lapidar expressão de Oliveira Martins, nós, portugueses, devemos uma segunda pátria, mas que transcendeu em muito os limites de uma pátria, pois deu igualmente outra pátria a todos os europeus…
A personalidade e a acção do Príncipe de Sagres exige, por isso, que o coloquemos ao alto e ao centro da História da Civilização do Ocidente e mesmo do Mundo.
E que a exigencia não se revela descabida, acentuam-no vários autores:
Beazlei que o situa entre os que modificaram, vital e realmente, o curso da História Mundial e sem cuja obra toda a nossa sociedade moderna, e a civilização de que nos orgulhamos, seria profundamente diferente.
Elaine Sanceau, que disse: «0 Infante realizou a maior transformação que o mundo vira ou viu até hoje»…
Gilbert Renaud: «Dom Henrique voltou uma página decisiva da História do Homem»…
Até porque foi o precursor e primeiro realizador da Europa Imperial para além dos mares.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

O prestígio de Roma atingiu culminâncias tais, quer no plano espiritual, quer no tocante às coisas do mundo, que a Igreja escolheu a cidade para sua sede e todos os imperadores que têm reinado sobre o velho continente se pretendem sucessores dos que brilharam em Roma.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaAté pelo título, já que César, como os reis de França se intitulam desde Carlos Magno, Kaizer, como os de raça germânica desde Otão, ou Czar, nome ostentado pelos de raíz eslava, não são mais do que transcrição literal ou corruptela do cognome de Caio Júlio. Aliás, seria este ao escrever o Bellum Gallicum, por nós mais comummente conhecido por De Bello Gallico (o nome completo será Commentarii de Bello Gallico) quem lançaria as bases para os futuros impérios centro-europeus.
Recordemos o intróito da famosíssima obra:
Gallia est omnis divisa in partes tres, quraum unam incolunt belgae, aliam aquitani, tertiam qui, ipsorum lingua, celtae, nostra, galli apeelantur. Hi omnes, lingua, instituti, legibus, inter se differunt. Gallos ab aquitani Garumna flumen, a Belgis Matrona, et Sequana dividit.
Horum omnium fortissimi sunt belgae, propterea quod a cultu atque humanitate provin-ciae longissime absunt, atque ea animos effeminat, important. Proximique sunt germanis, qui trans Rhenum incolunt, quibuscum continenter belIum gerant.

A tentativa de unir esta série de povos, alguns dos quais em luta incessante, como recorda a expressão «Quisbuscum continenter bellum gerant», muitas vezes ensaiado, tem, repetidamente também, falhado.
Carlos Magno foi mesmo o único que teve algum êxito neste pormenor, já que, depois do Imperador da Barba Florida, a França sempre se revelou insusceptível de fusão com a parte oriental do império carolíngio, que, de resto, não sobreviveu ao seu fundador.
Depois, de Otão aos nossos dias, com a sede em Viena, em Berlim ou qualquer outra cidade, sob hegemonia austríaca ou prussiana, centralizando à maneira bismarquiana toda a administração ou permitindo a coexistência de quatrocentas casas reinantes, todas elas, aparte um ou outro reino ou principiado de maior dimensão, bem pequenos feudos, os antigos galos, celtas ou francos eximiram-se à unificação, não relevando as tentativas de Napoleão (que seriam de sinal contrário), ou as de Guilherme II ou Hitler.
Principiados, condados, ducados, arquiducados, marcas ou marquesados (não esque-cendo que marquês ou pargrave era mesmo o governador militar duma província fronteiriça, a marca), baronias, bispados, até hansas de raíz corporativa, eis os ingredientes sobre que se exercia a autoridade imperial.
De resto, também o sentido expansionista ou concentracionista deste Império sofreu acentuados desvios.
A sua ideia-força resistiu no pangermanismo, mitigado é certo, pois nunca tentou atingir os britânicos, também germânicos, ou os escandinavos, que igualmente o são.
E, mesmo em relação propriamente ao chamado mundo alemão, houve, por igual opções várias. Quando, por volta de 1860, Bismark deu por terminada a unificação da Alemanha, excluíu deliberadamente os alemães que eram, ao tempo, súbditos dos Habsburgos.
E o próprio Hitler, mau grado o furor extremo do seu pangermanismo, deixava de fora a população alemã do Norte de Itália, possivelmente como concessão a Mussolini, seu futuro aliado (futuro, porque esta ideia consta do Mein Kampf, escrito, como se sabe, antes da tomada do poder).
Outros pretendiam que o Império avançasse para Leste, o que significaria a retomada do antigo ódio aos eslavos, que esteve na base da fundação na Áustria, da Ostmark e conduziu os cavaleiros teutónicos até ao Báltico e para além dele.
Era esta a tese dos militaristas prussianos, como se extrai dum exeerto de Ludendorf:
Kovno (nome da capital da Lituânia) ostenta ainda um castelo construído pelos Cavaleiros Teutónicos, um símbolo da civilização alemã no Leste Europeu… Ao contemplá-lo, o meu espírito ficou inundado de poderosas recordações históricas e mentalmente decidi retomar nesses territórios a obra civilizadora que os nossos antepassados ali levaram a cabo, durante séculos. A população, estranha mistura de raças, bem precisará da nossa ajuda, sem a qual cairá sob qualquer dominação, sem dignidade ou elevação…
Para estimular os desejos de conquista, faz-se renascer o tema por um novo Tchinggis Knan – o que nós conhecemos sob o nome de Gengiscão e que no século XIII semeou a ruína desde o Vietname ao Adriático e ao Iemen…
Abastardava-se, assim, uma ideia cheia de significado e heroicidade na sua origem.
O Sacro-Império, como os que o precederam e se lhes seguiram detiveram efectivamente a missão de enfrentar o perigo asiático.
Mas não se limitavam à acção militar.
Civilizavam e cristianizavam, transformando o inimigo de ontem, depois de convertido, em indefectível aliado.
Foi o caso, entre outros, dos húngaros, povo cristão só a partir do século XI, mas que segundo o historiador Sayons, bem pode ser comparado a defensor intemerato da sua nova crença contra os seus irmãos de outrora. Povo ultra-altaico, estranho à origem ari-ana, conquistador imposto à Europa como novo flagêlo de Deus, voltou-se pelas conversões do Rei Geda e seus principais nobres, e, sobretudo pela acção de reis como Santo Estêvão e Ladislau I, contra as imensas aglornerações de tribos altaicas lançadas à conquista dos países eslavos, germânicos e até latinos.
Amálgama de feudos, o Império revelou-se também cadinho de raças…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A terceira guerra púnica, arrastando as legiões para o oriente, aonde se havia refugiado Aníba1 e a perseguição que teve de ser feita a este e aos seus aliados acabou por deslocar o eixo do Império, cada vez a tender mais para a orientalização.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaRoma, capital unida e incontestada, começou a ter de dividir com outras cidades a sua eminente dignidade de cabeça do mundo antigo.
A tetrarquia, com os dois césares e os dois augustos, cada um dos quatro instalados em diferente parcela do Império.
E, mesmo antes, quando Roma atinge o auge territorial, que coincide com a época de Trajano, a orientalização ensaiava-se já.
Como todas as coisas deste mundo, com vantagens e desvantagens. Daquelas, a mais importante consistiu certamente na sobrevivência da Império Romano do Oriente, por cerca de mil anos, à deposição de Augustulo.
A sua capital, a Bizâncio pré-romana, nome aliás mantido até Constantino que a crismou com o seu nome, a Istambul, segundo o recrisma dos turcos seljucidas, até pareceria criada para fazer a união entre dois mundos, que, todavia, até hoje ninguém conseguiu fundir ou manter aparentemente unidos a não ser por períodos curtos e com a hegemonia, em regra tirânica, de um deles.
O desatino começou logo com o cerco de Tróia querepresenta mais do que lendária antecâmara das más relações entre os povos de aquém e além do Bósforo, em todo o devir histórico.
Aos aedos que construiram ou carrearam o material para a Ilíada e a Odisseia, a Virgílio que na Eneida nos faz remontar ao mais fragoroso do cerco ilíaco, podemos já juntar trechos históricos ou quase históricos, como o «De rebus gestis Alexandri Magni», de Quinto Cúrcio Rufo; a «Retirada dos dez mil», de Xenofonte; os trabalhos de Tucidides…
As guerras médicas, sob outro nome, e tendo como contendores outros povos, ou mais precisamente os actuais representantes (melhor os que em cada época ostentam tal qualidade) vêm-se revelando uma constante.
A Europa, minúsculo apêndice superpovoado das imensidades asiáticas tem, salvo em períodos especiais, conseguido triunfar.
Muitas vezes, pelo engenho ou pela astúcia.
Desde, aliás, o Cavalo de Tróia, de cujo bojo saíram os incendiários para a noite terrível:
Quis cladem illius noctis, quis funera fando Esplicet aut possite lacrimis aequare laboris?…. Crudelis ubique.
Luctus, ubique pavor et plurima mortis imago.

Assim relata Eneias, tebano salvo por sua mãe Vénus (pois era apenas semi-deus, porque filho de homem, Anquises) o que foi a noite de Tróia, quando o enorme paláicio de Deifobos se transformara em ainda mais enorme braseal.
Simbólico, o cavalo prenuncia novos e bem mais vastos incêndios.
A tomada de ConstantinopIa, pelos janizaros de Maomet II, quando em 1453 acaba o Império Romano do Oriente.
A História tinha sinistras falhas,
Uma das quais se chama Kerkaporta…
Grasnam corvos, recrocitam gralhas
Bizâncio é já cidade morta…

União contra-natura de tantos e tão desencorados povos, em qualquer das suas versões, continha em si mesmo o fermento para todas as guerras e todos os ataques vindos do exterior.
Para cristãos e mouros, cada comunidade em socorro dos seus membros sujeitos a poder religiosamente oposto, dava incentivos de guerra santa.
Camões revelou-se arauto de uma intervenção:
Gregos, traces, arménios, georgianos,
Bradando-vos estão que o povo bruto
Lhe obriga os caros filhos aos profanos
Preceitos do Alcorão, duro tributo…

Com fronteiras que para o lado europeu chegavam a pôr em perigo a cidade de Viena (e daí o marquesado dos Habsburgos) e do lado asiático dominavam até aos plainos iranianos, ocupando ainda a maior parte da África rnediterrânea, só um governo tirani-zante lhe podia assegurar paz, de resto sempre efémera e a estilhaçar-se aos primeiros sinais de fraqueza.
O papel de Serajevo na Primeira Grande Guerra, os sangrentos conflitos jugoslavos no pré e post-titismo, os conflitos israelo-árabes e iracoiranianos, as questões dos curdos, dos arménios e até dos chechenos, bem podem fazer-se radicar na heterogeneidade de um império que contranatura se manteve por cerca de mil anos e de um outro, ainda mais anti-natural, o otomano, que durou quatro séculos…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Na Europa, o signo imperial nasceu sob a égide dos filhos da Loba. Recordemos a origem, mantendo a narração latina.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaProca, rex albanorum duos filios, Numitorem et Amulium, habuit. Numitori regnum legavit, sede Amulius pulso fratre, regnivit. Deinde, cum eumsobole privare cuperet. Rheam Silviam, eius filium, Vestae sacerdotem fecit Haec tamen Romulum er Remum uno partu edidit. Tune Amulius ipsa in vinculo, conjecit, parvulos alveo imposuit et abjecit in Tiberim que forte tunc exundaverat. Sed, relabente flumine, eos aqua in sicco reliquit. Vastae tunc in iis locis solitudines erant. Tradunt lupam ad vagitum infantiam acurrisset: EOS LINGUA LAMBISSE, MATRISQUE MINISTERIUM SUSCEPISSE.
É afinal, a velha história.
Amulei destronou o irmão e cativou-lhe a filha. Todavia, esta, mesmo virgem de Vesta, concebeu de Marte e assim nasceram Rómulo e Remo.
Deitados à àgua do Tibre, sobreviveram; e uma loba, atraída pelos vagidos, perfilhou-os, tomou o mester de mãe…
Crescidos, fundaram a cidade. Rómulo traçou-lhe os limites. Remo saltou-os, dizendo: assim entrarão os inimigos em Roma.
Rómulo, lembrado possivelmcnte do exemplo do tio-avô, já que não deveria conhecer a história de Caim e Abel, liquidou-o, dizendo: assim morrerão os inimigos da cidade.
Não há mulheres, mas o rapto das sabinas findará a quarentena.
Houve necessariamente luta e os sabinos estão quase a veneer. Rómulo eleva a sua arma aos céus e promete um templo a Jupiter, que permanece impassível.
Mas as sabinas lançam-se entre os combatentes e fazem as pazes.
Raptae mulieres, crinibus passis, ausae sunt se inter tela volantia inferre: et, hinc fratres, inde viros deprecate, pacem conciliarunt…
A população crescia, o território tornava-se exíguo.
A pequena cidade tinha de lutar pela sobrevivência, começando obviamente pelos vizinhos.
Nebulosamente, passam os reis lendários: além de Rómulo, Numa Pompílio, Túlio Hostílio, Anco Márcio, Sérvio Túlio: os dois Tarquínios, já históricos. Anno trecentesimo trigesimo quinto ab urbe condita, Veientes contra romanos rebellaverunt. Dictator contra ipsos missus est Furius Camilus…
Como este, muitos outros heróis celebra a história, ainda nimbada de lenda: Coriolano, Cincinato, os trigemini Horácios, Cevola, Menénio Agripa, o diplomata, inventor e narrador da fábula dos membros revolados contra o estômago:
Olim, humana membra, cum ventrem otiosim viderent, ab eo discordarunt et conjuratio-nem adversus eum fecerant…
Os séculos rodam e uma potência concorrente emerge do outro lado do Mediterraâneo. Seguem-se as guerras púnicas. Caio Duilio obtém a primeira vitória naval; mas Aníbal estava já para surgir com o seu eterno ódio aos romanos, jurado na infância com as mãos em cadáver esventrado. Conquistador de Sagunto, vencedor em Canas e no Transimeno, acabaria vencido em Zama pela pertinácia de Cipião Emiliano e do delenda est Cartago.
As Espanhas e o Norte de África caíam assim sob o jugo romano que a terceira guerra púnica estenderia para Oriente.
Mais tarde vêm César e Augusto e com eles o Império continua a crescer.
Anno Urbis conditae sescentesimo nonagesimo tertio, o primeiro que mais tarde será imperador, é eleito cônsul com Lúcio Bibulo. Destacado para a Gália e a Ilíria com dez legiões, vence os helvécios que ao tempo se chamavam sequanos, conquista as três Gálias, avança para além do canal… Domuit omenm Galliam, que inter Alpes, flumen Rhodanum. Rhenum et OceanDum est et circuit, patet ab his et tricies centena milia passuum. Britannis mox bellum intuit…
Com o seu sucessor Augusto, as conquistas continuam, anexando-se o Egipto, a Can-tábria, a Dalmácia, a que outros juntarão a Judeia, a Arménia e os planaltos do Irão.
A excessiva grandeza do império e sobretudo a helenização de Roma no pior sentido do termo, cultivavam já o gérmen da decadência. Gracia victa ferum victorem coepit…
A cultura grega, que se impôs em Roma pela sua superioridade, trouxe também a degradação moral.
Juvenal, nas suas sátiras, atribui a esta grecização da cidade e do Império a raiz de todos os males.
Antes do furacão dos bárbaros são estes ventos, ou antes estas brisas de supercivi-1ização, de aspecto negativo que prepararão o aviltamento.
Eram os erotomanos que impunham à sociedade romana a sua decadência. Daí a interrogação de Umbritius:
Que faz em Roma quem como eu não sabe mentir nem efeminar-se? Eu que não posso suportar uma Roma grecizada?
Não há nada, para eles, estes celerados gregos, que esteja ao abrigo da sua lubricidade, nem mães de família, nem filhas virgens, nem o filho imberbe, à falta de melhor, a sua lubricidade satisfazer-se-ia com a avó do seu melhar amigo, ou com o avô…
Após sucessivas arremetidas, os bárbaros que começaram como servidores, passaram a aliados, depois até a condutores, acabaram por submergir todo o Ocidente do Império.
Foi quando Odoacro, chefe dos hérulos, depôs Augustulo, até no diminutivo do nome apenas arremedo da imperial autoridade.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Não nos ocupámos, como poderia supor-se dos estados minúsculos, que também os há, na enorme panóplia deste Velho Continente, repartido até demais atenta a sua escassa superfície, comparada, por exemplo, com a do colosso asiático, seu vizinho.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNão é de Andorra (com apenas 465 quilómetros quadrados), do Mónaco (só com dois), de São Marinho (com sessenta e um), do Vaticano (com quatro), de Vaduz (cento e cinquenta) ou do Luxemburgo (o maior entre os mais pequenos, com dois mil e seiscentos) que, efectivamente, falámos, mas das numerosas nações europeias saídas em regra do retalhamento de impérios e que apareceram, salvo uma ou outra excepção, na cena política, só no século passado ou mesmo neste, inclusive nos dias de agora.
O desmembramento dos impérios austro-húngaro e otomano, os restos até dos impérios nórdicos, ou os ajustamentos de fronteiras, geraram novos estados que cabem quase todos no conceito de pequenos.
Na Europa, a regra tem sido a cissiparização.
O único caso em que se verificou, ao invés uma fusão, é representado pela Itália que praticamente absorveu toda a Península, uma vez que a Vaticano e São Marinho, como já referimos, não tem expressão territorial.
De resto, é de crer que aos países saídos da divisão da Checoslováquia e da fragmentação da Jugoslávia, ocorridos nos nossos dias, juntaram-se muitos outros, gerados pelo inevitável estilhaçar da URSS, autêntica manta de nacionaIidades, cerzida bem contra a mãe natureza.
Fazendo um pouco de rememoração histórica e de peregrinação geográfica, seguindo, neste particular, o sol, no seu movimento diurno aparente, encontraremos a Grécia, a Bulgária, a Roménia, e a Albânia, saídas, no século passado, da decomposição da Sublime Porta, fenómeno de causas intrínsecas e potenciado do exterior, como o atesta, por exemplo, a campanha de Lord Byron.
Aliás, tratava-se de nações com forte individualidade histórico-étnica. A Grécia, por uma cultura única no mundo. A Roménia, como até o nome recorda, pelo grau de latinização a que ascendera no mundo antigo. A Bulgária, por ter chegado a ser émula de Bizâncio. A Albânia, com largas tradições no embate contra o turco, como quando, em 1451, a dois anos da fatídica queda de Constantinopla, o seu chefe Seanzer-Berg vence o sultão Amurade.
Para o norte, Finlândia e Noruega, os balto-russos estónios, letões e lituanos, a Dinamarca e a Islândia, excepção feita à penúltima, que já teve ambicões imperiais, são de data recente e de intermitentes independências.
Para Ocidente, Bélgica e Holanda ora unidas, ora separadas, ora independentes, ora subjugadas por vizinho poderoso, vêm cumprindo a sua litânia.
Portugal com quase nove séculos de independência é caso raro, senão único, sendo nas suas fronteiras, o estado mais fixo e antigo de todo o Continente, ou mesmo de todo o mundo. Tal como a Suíça, por força dos Alpes.
Na Europa marítima, deparamos no Atlântico, com dois estados integráveis no grupo:
Islânlia e Irlanda. E, no Mediterrâneo, com outros dois: Malta e Chipre, também saídos, como outros já atrás referidos, do turbilhão otomano.
No centro, há a Áustria e a Hungria, os checos e os eslovacos, a Sérvia, a Croácia, a Eslovénia, a Bósnia-Herzegovina, o Montenegro.
Por que sumúla de razões estes povos geraram países que resistem e subsistem?
João Amaral, versando particulannente o caso húngaro, deixou exarado:
«Independentemente dos inegáveis dons que um observador honesto tem o dever de atribuir a certos grandes povos, é claro que o simples facto de serem grandes – o representarem importantes massas populacionais – lhes assegura, só de per si, meios consideráveis de expansão, de poder, até de predomínio. Aos povos mais pequenos, de massa populacional reduzida cumpre tomarem-se grandes pela energia íntima, pela consciência de missão, pela vontade de resistência a quaisquer golpes de fortuna, de riscar um caminho através das provações e dos obstáculos…»
Volto, portanto à imagem de que são povos de qualidade.
Por seu turno, Milan Kundera, ele próprio filho duma pequena nação, pois é checo, escreveu:
«As pequenas nações. Não se trata de um conceito quantitativo. Designa uma situação, um destino. As pequenas nações não conhecem a sensação feliz de existirem desde sempre e para sempre. Todas elas passaram, num momento ou outra da sua história, pela antecâmara da morte. Sempre confrontadas com a arrogância ignorante dos grandes, vêem a sua existência perpetuamente ameaçada ou posta em questão; porque a sua existência é questão.»
Na sua maioria, as pequenas nações europeias emanciparam-se e alcançaram a independência ao longo dos séculos dezanove e vinte.
O seu ritmo de expansão é portanto específico… formando uma outra Europa que pode ser definida em contraponto por referência às grandes… Uma pequena nação pode chamar-se uma grande famí1ia e gosta de se apresentar como tal… Na língua do mais pequeno dos povos europeus, em islandês, família quer dizer obrigação múltipla e os 1aços familiares fios de múltiplas obrigações.
A noção de solidariedade revela-se, em corolário, muito mais actuante e viva nos pequenos estados, mesmo até para as grandes cruzadas.
E daí que o avanço turco sobre a Europa, depois da queda de Constantinopola tenha sido travado por pequenos povos: os hungaros, e albaneses, na frente europeia; nós, portugueses pelas navegações.
Retornamos a João Amaral:
«Assim enquanto magiares e albaneses enfrentam com memorável heroicidade o choque terrestre das hordas islâmicas e barram o caminho à invasão bárbara, nós concebemos e executamos o vasto plano marítimo que permitirá ferir o adversário no seu centro vital e reduzi-lo, por fim à impotência.»
A onda que avassalara impérios desfez-se face ao muro erguido por pequenas comunidades nacionais…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A vizinhança dum estado poderoso constitui históricamente um factor de risco, agra-vado enormemente se ao poderio se juntam ambicões expansionislas.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaA hegemonia sofre-se sempre; e, mesmo quando se fazem solenes e bem intencionadas declaracões de não intervenção, há o domínio económico, a exploração da matéria-prima, a atracção sobre a mão-de-obra mais qualificada e a tendência para a colocação dos excedentes de menor qualidade.
Pode enjeitar-se ou repudiar-se o absorcionismo politico-administrativo mas não deixarão de sobrevir as formas larvadas ou até invisíveis de dominação.
O que normalmente salva os pequenos países, rodeados de grandes potências. ou confinando com elas, são os jogos de equilíbrio de poderes entre aquelas.
Nós, portugueses, tanto como ao nosso temperamento, na verdade indomável, devemos a sobrevivência como nação independente, já lá vão quase nove séculos, ao receio de a Inglaterra, potência marítima, se ver desprovida de bases de apoio no Continente, e de a França, inimiga desde a divisão do império de Carlos Magno da parte germânica daquele colosso, temer o peso da Ibéria, se unificada, na balança dos Áustrias.
Mas, quando em vez dum vizinho poderoso, a história encurrala qualquer povo entre várias potências, o mais natural é que passe obrigatóriamente a ser parte do momentaneamente mais forte ou entao seja esquarecjada a benefício de todos.
As sucessivas partilhas da Polónia, os colapsos da Boémia, da Morávia, da Eslováquia, da Sérvia, do Montenegro, da Croácia, da Bósnia, a incerta sorte da Catalunha, do Milanado, da Alsácia-Lorena, em dados períodos históricos, não apresentam outra génese.
A Finlândia, situada entre a Rússia e a Suécia, vem intercalando as fases de independência com as de parcelas daqueles impérios.
A partir da guerra dos trinta anos, ou mais concretamente da sua fase nórdica, passou a Rússia a ser praticamente a única responsável pelos infortúnios do país das renas.
Da Finlândia preparou Lenine a Revolução, o que não o impediu de utilizar o País como moeda de troea na paz de Brest-Litowsque.
Como se sabe, ao dealbar da insurreição, vivia ele no exílio suiço.
Kroupskaia, a sua companheira, relata assim o que aconteeeu nesse dia 3/16 de Março (a dupla datação põe em confronto o calendario russo com o gregoriano) de 1917:
«Depois do almoço, no momento em que Ilicht (Lenine chamava-se Vladilir Ilicht Oulianov) se preparava para ir para a biblioteca, enquanto que eu acabava de arrumar a louça, Bronksi apareceu sobressaltado:
– Vocês não sabem nada? A revolução está em marcha na Rússia.»
Atabalhoadamente deu-lhes conta dos telegramas que acabavam de chegar em edição especial. Quando Bronksi se calou, foram à Praça ver os textos afixados.
Impõe-se a partida. Mas só os alemães lhe podem permitir o regresso à Rússia. Pois bem, pactuará com o verdadeiro inimigo, na circunstância, da sua Pátria.
Através dos socialistas alemães, é posto em contacto com o quartel-general do Kaiser, onde tudo se prepara com vista ao imediato regresso de Lenine e o seu corpo de agita-dores para a decomposição do espírito de resistência.
Pela Alemanha, depois pela Suécia, os proscritos na Helvécia chegam à Finlândia.
Dali e depois duma breve incursão a São Petersburgo é que dirige o ataque final.
Para além do mais, vai atacar o problema dos alígenos – polacos, estónios, letões e lituanos – que querem ver-se independentes; dos ucranianos, que exigem reformas, e até dos arménios que, apesar de viverem ainda aterrorizados pelo medo dos turcos, de que pouco antes haviam saído, não esquecem que são uma nação.
Mas a Finlândia é que seria a verdadeira moeda de troca.
Ali ficaria até à I Revolução de Outubro, até à conquista do poder.
Ouçamos o testemunho de Estaline:
«Então fomos acusados de espiões a saldo da Alemanha Imperialista.
As autoridades requereram a presença de Lenine e Zinoviev para serem julgados. Alguns, entre os quais Kanenev. aconselharam a obediência. Mas eu que conhecia o estado de espírito da reacção e sabia, por isso, os perigos que corriam os dois responsaveis bolchevistas se se apresentassem, convenci-os do contrário.
Fui eu quem tratou do disfarce de Lenine, colando-lhe a barba e o bigode e fazendo-lhe um penteado que o tornava irreconhecivel. Depois, ajudado por Sergio Aliliev, em casa de quem a cena se passou, acompanhei Lenine, através de ruas pouco frequentadas, até à gare marítima. O nosso dirigente, dali a pouco estava na Finlândia, onde ficou até à Revolução de Outubro, donde nos enviava conselhos, instruções e textos teóricos que nos projectaram para a vitória.»
Depois, apesar da grande indignação da França e da Inglaterra, assina separadamente a paz com a Alemanha, sua protectora como já vimos e que lhe forneceu os meios financeiros para manter a agitação.
O tratado foi assinado em Brest-Litovsk, em cinco de Março de 1918 e as condções impostas pelos alemães ao governo dos sovietes, as mais humilhantes e draconianas da história russa: instalação de forças de polícia alemã nos Países Bálticos, submissão da Polónia russa aos alemães, cessão de territórios à Turquia então aliada da Alemanha, um enorme tributo de guerra, evacuação da Ucrânia e da Finlândia.
Enfim, mais uma vez a Finlândia era usada ao sabor dos interesses das potências vizinhas.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Periodicamente surge ali uma esperança de independência quase sempre afogada em tragédia. Recordemos uma das mais tristes.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNaquele ano de 1830, a Polónia parece forte: exércitos bem treinados, finanças robustas, agricultura próspera.
A opinião pública europeia aprova as ambições de independencia e a coragem dos polacos roçava já pela lenda.
Infelizmente, falta-lhes um lider. O general Klopicki e o seu colaborador Krukowiecsi, que mais tarde o substitui, são antigos oficiais de Napoleão, esgotados pelas arrasantes campanhas do grande corso.
E, em 1831, enquanto que a Bélgica, definitivamente libertada passa, com o apoio da Inglaterra e da França, a reino independente, a Polónia é esmagada pela Rússia, após uma resistencia épica.
Em sete de Setembro, os exércitos do Czar apoderam-se de Varsóvia.
C’est la curée, la nouvelle (et non derniére) curée sur l’infortuné pays qui ne sait ni trembler ni ceder.
Mantemos no original a narrativa dum especialista.
E mais uma vez, a Polónia será submetida a uma repressão terrivelmente bárbara e os soldados russos vont déchirer à belles dents le pays vaincu, comme un quartier de chevreuil, sous les yeus indiferents de l’Europe. Et tandis qu’ils brulent des maisons, qu’ils fusillent des otages, le maréchel francais Sebastiani, a ce mot tristement célebre que resume la cruauté des temps: L’ordre regne à Varsovie (Mais urna vez utilizámos em directo a linguagem de Michel de Saint Pierre).
Depois em 1867, Alexandre II, ao tempo Czar de todas as Rússias, visitava a corte francesa, convidado por Napoleão III.
A visita suscitaria reparos nas bancadas do parlamento gaulês, indignado (e diga-se que com razão) já pela quarta partiIha da Polónia, decretada pelo Congresso de Viena, já pela opressão que se lhe seguiu.
Em consequência, o deputado Mr. Charles Fauquet, futuro presidente da Câmara e, mais tarde, do Conselho de Ministros, saudou, com estas palavras de reprimento, o visitante:
– Majestade, viva a Polónia!
Periodicamente, esquartejada pelo vizinho, de Leste, Sul e Oeste, aquele país é, por certo, o que, não só na Europa, mas por todo o Mundo, tem suscitado maior número de frases históricas. Quem se não lembra, por exemplo, da frase dirigida por Frederico II, da Prussia, à grande Catarina, da Russia:
– Quando Augusto bebe (referia-se a Frederico Augusto), toda a Polónia se embebeda.
Ou do finis Poloniae, dedicado ao herói nacional, Thadée Kosciusko, dado como morto em batalha, em 10 de Outubro de 1704; de «a ordem reina em Varsóia», pronunciada no Palais-Bourbon, a 16 de Setembro de 1913, pelo Marechal Sebastiani, ministro dos Negócios Estrangeiros; ou o Polónia Restituta, nome dado pelo Marechal Pilsudski, na véspera da ressurreição do estado mártir, em 1919, segundo as cláusulas do tratado de Versalhes.
Já neste século a Polónia de Casimiro, de Segismtndo, de Sobieski, de Estarislau Leszczynski, de Pilsudski, de Paderewski, sofreu o jugo dos soviéticos, mais duro do que o de todos os czáres e antigos dominadores, russos, alemães, austríacos ou suecos.
Mas não é menos verdade que a histórica resistência dos polacos a todos os tiranos se mantém indefectível.
Nos últimas décadas, apesar de a Igreja não ser deste Mundo, a eleição de Joao PauIo II e a sua peregrinação à terra patrum fortificaram ainda mais aquela fé que derruba montanhas. Tal como a nomeação, para Cardeal-Arcebispo de Paris, de um polaco de ascendencia judaica, Monsenhor Lustiger, filho de um mártir de Auschwitz.
Nao foi a Igreja que suscitou o aparecimento do Solidariedade e de Lech Walesa. Mas sem a sua benção silenciosa e longínqua, Varsóvia teria então sofrido golpes tão rudes como os de Praga e Budapeste.
A prudência russa teve as suas razões. A heresia polaca, relativamente à filosofia económica e social do bloco comunista, só foi tolerada porque os senhores do Kremlin temeram uma reacção espiritual que podia alastrar de Berlim às fronteiras do Cambodja.
Não é necessário recordar o massacre de Katin, a exterminação do ghetto de Varsóvia, ou a inssurreição popular de 1944, para se saber que o povo polaco é indomável: que prefere a miséria ou a morte à escravidão e que nada inveja da ocidental sociedade de consumo.
Os polacos sabiam que o Ocidente de então se assemelhava aos persas vencidos pelos gregos, aos gregos vencidos por Roma, ao desaparecimento do Império Romano do Ocidente, e, mil anos depois, ao de Bizâncio; ao da França em 1789, ou da Rússia, em 1917.
Aqui como na Roma de Juvenal, a única preocupação de governantes e governados eram panem et circenses.
Na Po1ónia havia outro espírito.
Em consequência dele e só por ele, foi o primeiro dos países de leste a libertar-se da tutela russa e das imposições do marxismo.
A fé católica e a influência do maior papa dos últimos séculos assumiram-se como elemcntos determinados, cadinhando a coragem de um povo ciclicamente submetido às mais duras provas.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Região onde o embate Oriente/Ocidente mais cedo e duradouramente se revelou, por ali, embora com frequentes oscilações se estabeleceu a fronteira entre impérios: primeiro os dois romanos; depois o bizantino e o sacro; finalmente, o austro-hungaro e o otomano.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNa sua função de Kraina (que significa exactamente limes ou raia) se manteve até ao fim da primeira grande guerra, terminada, como se sabe, em 1918, pela derrota dos impérios centrais (Alemanha, Austria-Hungria e Turquia) e perda de territórios, ou mesmo desmembramento, como sucedeu aos dois últimos.
O fluxo e refluxo das armas provocou a convergência dum autêntico mosaico étnico que, desde logo, torna o vocábulo (Jugoslavia, ou à letra, terra dos eslavos do sul) bastante falacioso.
Com efeito, ao lado dos sérvios, que efectivamente se podem reclamar de eslavos (título que também servirá aos montenegrinos e eslovenos), há que ter em linha de conta os croatas (de raiz germânica), os bósnios (de ascendência turca), os macedónios (naturalrnente bizantinos de filiação grega).
Como se vê, não havia correspondência entre as realidades estado e nação, já que a um estado se contrapunham, no mínimo, seis nacionalidades, sem falar noutros grupos de menor expressão.
A manta de retalhos étnica complicava-se ainda pela diferença de línguas, a oposição de credos religiosos, até a diferenciação de alfabetos.
Nascido como monarquia, ainda forma de governo mais capaz de aglutinar diferentes ou mesmo contrários, passou, após a segunda grande guerra e pela traição dos britânicos que abandonaram o general Mialovitch, para o regime da democracia popular.
Tito que fora sargento nos exércitos imperiais, caíra prisioneiro e fora catequizado pelos russos, que o protegeram na guerrilha antigermânica e antes se celebrizara como recrutador das brigadas intenacionais para a guerra civil de Espanha, tendo abatido os monárquicos daquele general passou a governar como satrapa o reino, como vimos já de efémera duração.
Mas era um pragmático. Embora comunista, cedo rompeu com Moscovo, havendo assinado, sob as benções de Washington, um tratado anti-soviético que conglobava também a Turquia e a Grécia.
Permitiu e estimulou até um tipo de economia mista, que, aliada aos proventos vindos do turismo e as remessas dos emigrantes que fomentou, e aproveitando ainda os meios financeiros propiciados pela América, conseguiu naquela Babel para além de um aceitavel nível de vida, uma convivência que, por ferreamente vigiada e disciplinada, obstou a qualquer conflito.
Mas, apesar de tudo, não havia homogeneidade em termos humanos ou de riqueza, já que o norte, por mais germânico e estar mais em contacto com o mundo não comunista, sempre se revelou mais desenvolvido.
A heterogeneidade vinca-se tambem ao nivel demográfico, já que não é raro encontrar-se uma bolsa rácica em zona tradicionalmente de outra etnia.
Mas ia-se vivendo em paz. Com a morte de Tito, as sementes de violência que se encontravam espalhadas por toda a àrea (apesar do ditado, não foi Deus quem separou as raças e as religiões mas os homens) irromperam abrupta e fortemente.
Ern 1990, a unidade jugoslava termina e começam os processos de independência.
No ano seguinte é a guerra.
O exército regular compunha-se praticamente só de sérvios que assim poderiam, à primeira vista, dominar os outros povos.
Mas não pode esquecer-se que Tito, em obediência ao seu passado de guerrilheiro na própria terra e de organizador do caminho secreto para a Espanha vermelha defendia o princípio do povo em armas, pela qual em todas as regiões existiam milícias, relativamente bem treinadas e até municiadas.
Em corolario, as condições de êxito relativizavam-se.
Mas, acima de tudo foram as simpatias de base rácica que determinaram os apoios internacionais e o desfecho (se é que o houve ou haverá alguma vez) do conflito.
Os croatas colheram as benções dos alemães, enquanto que a Rússia nao esqueceu o seu papel de protectora oficial dos servios.
Só que os gravíssimos problemas internos com que Ieltsin se debateu e a perda de protagonismo de Moscovo, a nivel mundial e particularmente europeu, tornaram a atitude deste pouco mais do que platónica, transparecendo apenas na solenidade de algumas declarações, logo esquecidas.
O nome de Serajevo assume-se, de resto, como fatídico, e gerador de conflitos de grande dimensão.
Talvez por isso no livro Vite et mort de la Yougoslavie, de Paul Garde, professor de linguística eslava em Aix-Ia-Provence, se escreva: «Este conflito faz-nos possivelmente entrar para sempre na nova desordem mundial». Para sempre…
A atribuição de carácter eterno num mundo, onde tudo, até o nosso planeta desaparecerá como tenda de uma só noite, mostrar-se-á certamente excessiva.
E pelo muito que, pelos séculos, têm sofrido os povos na Kraina aglomerados e pela tragédia que no nosso tempo sobre eles desabou, bem mereceriam que a paz se instalasse perenemente, ou ao menos até uma virgem voltar a ser mãe, para nos servirmos da revelação do oráculo de Capri.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A Europa nasceu sob o signo imperial.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaCom pés de barro, como na visão do chamado festim de Baltasar, foram-se, mesmo assim, os impérios que neste velho Continente se começaram a erigir no tempo de César, mantendo, na generalidede até fim da Primeira Grande Guerra, tendo-lhe alguns até sobrevivido.
A queda de Roma, no último quartel do século V deixou logo o fermento para três novas sedes imperiais: o bizantino (que, de resto, desde a tetrarquia já rivalizava com aquela), o franco (que terá atingido o seu zénite europeu com Carlos Magno, o Imperador da Barba Florida, de resto também precursor do terceiro) e o germânico que remontará no mínimo a Otão, o Grande, pai de um amplexo que tentou a fusão de dois mundos culturais através da instituição do Sacro Imério Romano-Germânico.
Mais tarde, viriam ainda a afirmar-se com apetência imperial a Prússia e a Suécia, com pretensões apenas em relação ao Continente; a Rússia, mais voltada para a Ásia; e as potências marítimas – Portugal, a Holanda, a Espanha, a Inglaterra, a França, a Bélgica e até a Dinamarca.
Outros impérios, não de raiz europeia, mas asiática, exerceram grande influênda no nosso continente.
Para além de hunos, mongóis, e tártaros, que passaram como relâmpagos, há a referir os califados Bagdad e Damasco, ou, acima de todos, o turco, a Sublime Porta do Grão-Turco.
Bizâncio, que depois se chamou Constantinopla, e, mais tarde ainda, Istambul, nasceu mesmo fadada para urn destino imperial, tendo sido por mil anos nó fulcral duma civilização, e, por mais quinhentos, da que lhe sucedeu.
Na Europa, a irrupção de nacionalidades operou a secessão, dando origem aos actuais estados da Grécia, da Bulgária, da Roménia, da Albânia e das repúblicas por que se cissiparizou a Jugoslávia…
Os czares russos e seus sucessores, sempre apostados na dilatação das fronteiras ocuparam-lhe extensos territórios na regiãoo caucásica, enquanto que os austríacos os haviam repelido de todo o cisdanúbio.
A Inglaterra e a França, empenhadas na expansão para além dos mares, apoderaram-se, a primeira da i1has mediterraânicas de Malta e Chipre (embriões de futuros estados), Palestina, Egipto e vastas parcelas das Arábias; enquanto que a segunda estabelecia zonas de influência ou impunha mesmo a sua soberania em zonas imperiais sobrantes do Norte de África e Próximo Oriente.
E até a Itália, país de recentíssima implantação (só em 1861, o Rei do Piemonte se faz aclamar monarca de todo o actual território, aliás depois de, no ano anterior, Garibaldi, com um exército de apenas mil homens, ter arrebatado Nápoles e Sicília aos Bourbons), ainda apareceu a tempo de ficar com uma parte dos despojos; os arquipélagos de Rodes e Dodecaneso nos extremos do mare nostrum; a Tripolitânia e a Cirenaica, que, fundindo-se, geraram a actual Líbia.
Aliado da Áustria e da Alemanha na Primeira Grande Guerra, havia de pagar, quando sobreveio a derrota, a factura sempre exigida aos vencidos, que, na circuntância se cifrou essencialmente na perda de terras.
Dos impérios continentais, só a Rússia, tendo embora sofrido pequenas desanexações, se não viu excluída dos grandes dominios territoriais na Europa e seus limes.
No intervalo entre dois grandes conflitos de dimensao mundial, as potências europeias consolidaram as suas posições para além dos mares.
Mas também esta dominação se revelou éfemera…
Em Ialta e Potdsam.,Estaline e Roosevelt tratavam de revoltar contra a Europa os territórios dos demais continentes onde a colonização estava em marcha, impondo aos povos que as não desejavam, nem para elas estavam preparados, ilusórias e precoces independências, que haviam de levar todos os flagelos aos povos supostamente emancipados.
O homem europeu que, genericamente, acreditava em vantagens recíprocas da sua acção junto dos pretos, amarelos e índios, viu-se contra vontade, liberto de ónus de civilizador.
Esquecia-se, assim, um dos mandatos do Evangelho: Ite et docent omnes gentes.
Esquecia-se também que a génese imperial da Europa nascera com a autoridade papal que se situava acima dos reis e dos povos e esteve na base do nascimento e consolidação de muitos reinos.
O papa encontrava-se efectivamente chefiando uma federação de estados, uma sociedade das nações, a que ele imporia a obrigação de estabelecerem por toda a parte o reino de Cristo, combatendo também pelo aumento da Cristandade.
Monarcas, principes, grãosduques, bem como outros poderosos senhores, embora de menor grau em soberania, buscaram a protecção da Santa Sé.
Uns procuravam protecção contra aspirarações hegemónicas de estados vizinhos (casos de Aragão e da Hungria), dos monarcas normandos das Duas Sicílias ou de Quieve. Outros pretendiam ver-se reconhecidos eomo reis por um poder superior, como Portugal ou a Boémia, as realezas da Sérvia e da Dinarmarca, os reinos cristãos que as cruzadas fizeram nascer no Próximo Oriente.
Outros ainda, como João-Sem-Terra pretendiam também controlar os desmandos dos seus barões. Aquele pobre rei da Inglaterra, em luta contra a França declarou-se vassalo da Santa Sé a quem pagaria anualmente mil libras esterlinas de censo, possivelmente por ver ali uma última esperança de sobrevivência.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Em Fevereiro de 1948, o dirigente comunista Klement Gottwald subiu à varanda de um palácio barroco de Praga para falar às centenas de milhar de cidadãos aglomerados na praça principal da velha cidade. Foi uma grande viragem na história da Boémia. Um momento fatídico, como acontece uma ou duas vezes por milénio.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaGottwald fazia-se acompanhar pelos camaradas; e ao lado, muito perto, estava Clementis. Nevava, fazia muito frio, e Gottwald vinha de cabeça descoberta. Clementis, muito solícito, tirou o gorro em pele que usava na circunstância, e colocou-o na cabeça de Gottwald. A secção de propaganda fez centenas de milhares de fotografias da cena…
Nesta varanda, começou a história da Boémia comunista. Todas as crianças passaram a conhecer a fotografia, por ela passar a figurar nos cartazes, nos livros escolares, nos museus.
Quatro anos mais tarde, Clementis foi acusado de traição e enforcado. A secção de propaganda fez com que ele desaparecesse imediatamente da Hist6ria e, em corolário, de todas as fotografias…
Temos estado a transcrever as primeiras palavras de Le livre du rire et de l’oubli, do autor Milan Kundera, nascido em Brno, na Checolosvaquia, em 1929.
Livro escrito em 1979, quando o autor é tornado apátrida por decisão do governo do seu País que lhe retira a nacionalidade (a situação de Heimathossen não se revelaria duradoura, porque a França lhe concederá nova cidadania logo em 1981) circula em Portugal em edição, nomeadamente do CircuIo de Leitores.
Ali se retrata uma história sem tempo.
O drama da Checoslováquia sob o regime comunista, ou antes sob o império moscovita não diferia do então vivido pelos chamados países satélites.
Só que para os checos a situação repetia-se, não milénio a milénio, ou à razão de duas vezes por dez séculos, como na obra se refere, mas praticamente todos os dias.
Situada no centro da Europa, e em corolário, no limite dos impérios asiáticos que sempre sonharam com o domínio desta velha alma mater de civilizacões, ou daqueles que, para os enfrentar, se constituiram herdeiros de Roma, acabariam por sofrer o fluxo e refluxo das conquistas oscilando entre a barbaria eslava e o autoritarismo germânico.
O nome de Checoslováquia, usado até aos nossos dias, quando se opera a natural secessão entre duas comunidades que nada tinham a aproxima-las, senão a desgraça e a situação geográfica, revela bem a dicotornia, mais evidente ainda na antítese de culturas.
Desde a cristianização por São Cirilo e São Metodio, desde a accão de reis e rainhas, coma Santa Ludmila e São Venceslau, que se tentara a miscegenação.
Provavelmente, o eslavo e o germânico, por natural contraposição nunca permitiriam a sintese.
Prevaleceria, bem pelo contrário, a impossibilidade lógica que havia de levar a sucessivas intervenções dos poderes da Europa e Anti/Europa, muito mais interessados em manter dependente o território do que em outorgar-lhe, consentir-lhe ou assegurar-lhe uma verdadeira autonomia.
Mesmo quando, como Frederico Barba-Ruiva declaravam a Boémia um reino e lhe concediam um rei, a situação não mudava. O duque Ladislau, com a sua coroa, embora áurea, não passava, efectivamente, de súbito do grande inperador.
E, se o poder real não vinha de um senhor temporal, mas do papa, colocado por Deus acima dos imperadores e dos povas, nem assim o ceptro se considerava soberano e o reino se julgava estabilizado. Foi o caso de Otokar, apesar de ter recebido a coroa através do legado pontifício. Ou da acção da ordem dos Stelifer, humildes servos de Cristo e, todavia, imponentes, com a sua cruz vermelha e a estrela sexpoteada da mesma cor.
A cristianização deste povo de raiz celta, os boios, encurralados entre germanos, não lhes asseguraria um estatuto de independência e os boémios haviam de continuar a sofrer com a vulnerabilidade de fronteiras e o choque de civilizações.
O Sacro Império chegava ao curso inferior do Elba, ao curso médio do Oder, ao Reisengebirge e aos Sudetas.
Por isso, tradicionalmente a Boémia, apesar de povoada por checos, figurava com a sua parcela. E a seu monarca não passava normalrnente de um eleitor, embora grande, mas com o estatuto dos demais.
No plano cultural, já a região se eleva a grande plano. E é no seu coração, em Praga, aliás sua tradicianal cabeça, que nasce a primeira universidade do Império, já célebre quando surgem as de Viena (1366) e vinte anos após (l366) a de Heidelberg…
É este ascendente cultural que vai tornar a Boémia ponto fulcral na reforma protestante, com o cortejo de consequências, a maior parte nefastas para o povo checo.
A independência só lhes chegaria com os tratados que puseram fim à primeira grande guerra, criando-se, assirn, a Checoslováquia que, para além do núc1eo central, abrangeria rambém a Moldávia e a Eslováquia, sem tradições de autonomia, mesmo no plano cultural.
O pangermanismo de Hitler tornaria éfemera a vida da nova repíblica, que privada de parte do território em 1938, com a charnada anexação dos sudetas, viria a ser totalmente ocupada logo no ano seguinte.
A invasão russa apenas fez mudar o nome do opressor e só nos nossos dias houve retoma da independência, seguida aliás da divisão em dois estados: a República Checa e a Eslováquia…
Permita Deus que acabe assim o dilacerante drama que ali ciclicamente se vive.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Conhecida por campo de batalha da Europa, a Bélgica, logo por este nome, aliás de bem trágicos ressaibos, mostra a sua face de estado martirizado.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaJúlio César no De Bello Gallico, considerava-a uma parte da França, quando escrevia:
Gallia est omnis divisa in partes tres quarum unam incollunt belgae, alteram aquitani, tertiam quae ipsorum lingua cetlae, nostra gali apelluntur. Hi omnes, lingua, institutis, legibus,inter se differunt. Gallos ad Aquitanis, Garumna flumen, a belgis, Matrona et Sequana dividt. Horum omnia fortissimi sunt belges, proptera quod a cultuadque humanitate Províncias longissime absunt, minimeque ad eos mercatores saepe comeant, atque ea quae animos effeminant, important. Poximique sunt germanis, qui trans Rhenunm incolunt, qui buscum continenter bellum gerunt.
Quem souber latim, verificará que César os tratou de hostis à civilização e terrivelmente corajosos.
Mas nem a heroicidade os libertou, ou talvez fosse até aquela virtude, que os perdeu.
Mal romanizada, passaria ao império carolíngio, cujas vicissitudes de sucessão partilhou, não escapando a nenhuma das mil e uma quesílias que os sucessores directos e indirectos, ou os simples herdeiros espirituais do Imperador da Barba Florida ao longo dos séculos se têm empenhado em cultivar.
E nem sequer o conflito Europa Insular/Europa Continental a deixou indemne.
Dependente da França pelo ducado da Borgonha, na Guerra dos Cem Anos que efectivamente durou 116 (de 1337 a 1453), tomou o partido da Inglaterra, país de que dependia para o abastecimento das suas indústrias de lanifícios, e isto marcou-a profundamente.
Quando o eixo do conflito se desvia para as duas maiores nações saídas do desmembramento do Império Carolíngio, França e Alemanha, a Bélgica torna-se então e autenticamente na arena da Europa.
Com Carlos V, nascido, de resto, no seu território, vemo-la passar para o ramo espanhol, sofrendo uma dominacão bem feroz levada a cabo pelos tércios de Dom João de Áustria, bastardo do imperador. Daqui transitou para o Reino dos Países Baixos, suportando uma sujeição que, embora mais humana, prima mesmo assim pela exploração, mais evidente no plano económico.
Depois, quer nas campanhas napoleónicas, quer na guerra franco-prussiana, quer nos grandes contlitos mundiais de 1914/1918 ou 1939/1945 o seu território retalhado e martirizado, torna-se palco das mais sangrentas e decisivas batalhas.
Bastará lembrar Waterloo, os lamaçais das trincheiras, as Ardenas…
E genericamente, mau grado uma ou outra intervenção libertadora, os belgas pouco mais tem ouvido do que declarações de pias ou bombásticas intenções, quase sempre tão quixotecas como a daquele nosso director de pequeno semanário de província que, impressionado pela notícia de que o Kaiser invadira o fraco e novel estado não se pôde conter que não exclamasse:
– O quê, o leão vai degolar o cordeiro? Deixem-me regressar à vila que o meu jornal se encarregará de destruir o Kaiser e a Alemanha.
De qualquer modo, a heroicidade e o espírito tenaz, laborioso e inventivo, do seu povo e da sua casa reinante tem triunfado sobre todas estas vicissitudes e sobre a dualidade racial, religiosa e linguística que opõe valões e flamengos.
Nascido na actual formulação apenas em 1830 e duma secessão com a Holanda, seu parceiro e dominador nas antigas Províncias Unidas, obteve uma casa reinante que, embora de raíz alemã, se soube identificar com os ideais de independência e do progresso.
Elemento de ligação, como já se referiu, entre as duas comunidades básicas do país (que comporta também cidadãos de língua alemã) os seus monarcas impuseram ainda a Belgica ao mundo.
A sua acção humanitária na Bacia do Congo, criando a antiga co1ónia, a hoje independente República do Congo, já chamada Zaire, e que, para além de ter elevado a Bélgica ao estatuto de país colonizador, prestou assinaláveis serviços à causa da humanidade, nomeadamente no combate à escravatura, que ali tinha um dos seus mais importantes centros de abastecimento, nunca será suficientemente realçada.
Pena foi que – com a independência, precoce, como a generalidade das que ocorreram na Africa ao Sul do Saará, levasse ao poder indivíduos ainda mal saídos da idade da pedra que tiveram como preocupações únicas o enriquecimento pela corrupçãao, a redução dos concidadãos à classe de servos e o apagamento dos sinais da colonização – se enjeitassem os nomes de Leopoldoville, Albertville ou Elisabteville, rematando em ingratidão.
Mas a lição histórica manter-se-á e demonstra como uma pequena nação sabiamente conduzida pode ter um enorme papel na história mundial.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Possivelmente, nenhuma outra região europeia suscitou até hoje tantos conflitos ou se manteve numa linha de indecisão de soberanias como a Alsácia.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaBárbara até Júlio César, entrou pelas vitórias deste sobre Ariovisto, chefe godo abatido no ano de 58 antes de Cristo, na órbita romana.
Limes imperial, converte-se numa constelaçao de fortalezas, correspondentes a cidades que logo ganharam notoriedade: Argentorate (actual Estrasburgo), Três Tabernas (agora Saverne), Argentovaria (a actual Hamburgo), Salécio (a nossa Setlz).
Quinhentos anos depois, sobreviria à queda do Império; e Átila, seu inimigo frontal, procuraria destruir todos os sinais de romanidade.
Sofrendo as vicissitudes por que passaram as monarquias góticas, apareceria cerca de setecentos da nossa era como uma unidade politíco-administrativa regida por um dux. De entre os vários, assinala-se como indiscutivelmente o mais famoso, o pai de Santa Odila, que a História regista sob o nome de Etichão ou Estilicão.
Integrada no Império Carolíngio, viveu com ele uma era de paz e prosperidade que, todavia, se havia de revelar de efémera duração.
As lutas pela sucessão de Luís, o Pio, filho do famoso imperador da barba florida, marcam o início dum tempo de extraordinária confusão.
Em 840, com o tratado de Estrasburgo, redigido simultaneamente em latim e alemão, imiscui-se na questão entre Carlos, o Calvo, e Luís da Baviera, por um lado, e Lotaário, pelo outro.
Quando os três partem o império pelo tratado de Verdun, o primeiro torna-se rei da França, o segundo da Baviera, e o terceiro da Lotaríngia, onde se inclui a Alsácia. Este reino, à semelhança de cerca de quatrocentos que pelos séculos se haviam de estabelecer na região, foi de meteórica existência. Não tardaria a sobrevir Otão, o Grande, fundador do Sacro Império Romano Germânico, base e embrião de varios outros que como aquele integrariam a Alsácia.
Daí que a região sofresse mudanças de esfera política, até excessivamente dramatizadas.
Na primeira centúria do milénio que findou, realça a questão das investiduras que opõem os bispos à alta aristocracia, guiada pelos Hobenstaufen. Triunfantes estes grandes senhores, verifica-se um grande surto de prosperidade que atinge o climax com Frederico II, fundador de numerosas cidades e impulsionador das corporações de artes e ofícios.
Aos Hobenstaufen seguem-se os Habsburgos. Mas nem tudo corria bem por então. O império mais uma vez ameaçava desagregar-se enquanto Luís IV da Baviera, substituindo-se ao imperador, enfrenta Filipe o Belo, rei de França, que desafia tanto a autoridade pontifícia como a dos sucessores de Rodolfo de Habsburgo, seus vassalos e aliados.
Inseguras, as cidades alsacianas formam uma liga defensiva, a Decapolis, integrada por Colmar, Mulhouse, Munster, Turcheim, Kayserberg, Selestat, Obermar, Rosheim, Wissembourg e Haguenau.
A liga dá origem a um florescente estádio de desenvolvimento: as cidades engrandecem-se; o comércio e a indústria progridem, a burguesia e as corporações ocupam um espaço dia a dia mais importante no govemo da república.
Já se aproximam, no entanto, as guerras religiosas. A cizânia espalha-se, com cada uma das mais importantes cidades a adoptar seu credo. Estrasburgo torna-se luterana, Mulbouse calvinista, outras ainda houssitas, enquanto que em muitos permanece a fé cató1ica e dominam os prelados.
Posteriormente, a confusão revela-se ainda maior. Como se pode ler, em «Toda Alsácia» cuja versão espanhola estamos a seguir, a região cissipariza-se em numerosos e pequenos senhorios que só muito paulatinamente, aliás, se irão agrupando, dando origem aos chamados Estados Gerais da Alsácia.
As guerras religiosas agravam-se. Os jesuítas, dominantes em Molsheim atacam Estrasburgo, que como ja referimos se tornara um balularte do protestantismo.
Na Guerra dos Trinta Anos, os suecos, primeiro, e os franceses depois acabam por dominar toda a região.
Daí para cá, tem sido entre a França e a Alemanha que tem oscilado a soberania.
Na Guerra Franco-Prussiana, de setenta, o triunfo das armas germânicas deu o território ao Império, de que a Alsácia-Lorena haveria de fazer parte até ao primeiro grande conf1ito mundial.
Não obstante a oposição de parte da população, decantada nalguns poemas que correram mundo (antigamente, dizia o velho professor, a escola era risonha e franca…) a Alsácia, foi anexada ao II Reich do Hoenzolern e só com o Tratado de Versalhes, voltaria à soberania francesa, aliás por um período curto, pois cerca de doze anos depois viria a cair sob o domínio de Hitler.
Com o fim da segunda grande guerra e a construção da Europa, para livrar a região de velhos fantasmas, elevou-se Estrasburgo à dignidade de capital europeia.
E a famosa Argentun Ratum de Júlio César é bem o símbolo das feridas, que têm dilacerado esta velha mater de civilizações que é a Europa.
Marco de fronteira a evitar o avanço das tribos bárbaras que ainda desafiavam Roma, arrasada por Átila e o seu eterno ódio aos Césares; renascida das cinzas sob o nome, pela primeira vez, de Stratiburgum, símbolo das cidades burguesa dos fins da Idade Média; grande empório comercial quando o Reno era a grande via angustiada pelo espiríto da reforma logo nos alvores do luteranismo, ora do sacro império, ora dos Hobenstaufen, ora dos Honenpolern, ora do Habsburgos, ora dos Bavieras ora dos reis franceses, quando não mesmo da coroa sueca cimentou-se ali um europeísmo, difícil de fazer convergir em qualquer outra parte.
E se há no mundo região que mereça na plenitude o título, é efectivamente a daquela que Estrasburgo servia de capital, antes de ser elevada à dignidade de capital de toda Europa.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A Itália existe? Ou, pelo contrário haverá duas Itálias, ou até uma por região. É uma questão que os tratadistas habitualmente se põem (por todos Patrick Meney, in «A Itália de Berlinguer»).

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNa obra referenciada, pode, com efeito, ler-se:
«Parece tratar-se de dois países: um rico, industrializado; outro pobre, em vias de desennvolvimcnto; dois mundos, onde apesar de tudo, se fala a mesma língua, mas em que as palavras nem sempre têm o mesmo sentido; dois mundos em que o elemento de unidade mais aparente é o Fiat 500.
Mas um Fiat 500 que, no Norte, é utilizado como segundo carro e que, no Sul, é um automóvel que serve para tudo, por único.»
Como se sabe, a República Italiana tem pouco mais de meio século: nasceu do referendo popular de 2 de Junho de 1946, três anos após o derrube de Mussolini. E a unificação italiana ainda não atingiu os cem anos.
E, naquela manta polícroma de cidades que forarn estado, mantem-se fortemente acentuado o contraste norte-sul.
Passamos mais uma vez a palavra a Patrick Meney:
«Mezzogiorno, Sicília.,Calábria, Apúlia, Campanha, Sardenha, Basilicata, Molise.
Um sul que se estende bem para o interior da bota. Em que, ainda mesmo agora, o turista pouco se aventura. O Cristo parou em Emholi. O estrangeiro não foi para além de Roma. O industrial, esse, não passou de Nápoles…
Mostra-se bem diferente o Norte: Nevoeiros, chuvas, chaminés de fábricas, zonas industriais,cruzamentos de auto-estradas, grandes cidades tristes com avalanchas de operários que, de manhã cedo, são tragados pela Fiat ou pela Alfa Romeu. Combóios de mercadorias. Navios… É a outra Itália, a que produz, a que trabalha, a da reconstrução, a do êxito… Com todos os industriais do País, com os créditos, a de que os italianos se orgulham, a que permite ao País colocar-se entre os sete mais; a que serve de caução aos empréstimos vindos do estrangeiro…
Enfim, uma Itália que se dá ares de Alemanha…»
Milão vale como símbolo de toda esta opulenta região de que é verdadeiramente a capital, sendo também por isso, a capital económico-financeira de toda a Península.
Aliás, o seu valor de símbolo não vem de hoje.
O império sacro-romano-germânico tinha-o na conta de uma das suas melhores jóias.
Pelos séculos, as rivalidades entre as potências que aspiravam ao domínio da Europa centrava-se por ali.
Francisco I, de França, o galo indino verberado pelo nosso Camões, revelou-o numa frase lapidar:
Eu e meu primo Carlos V estamos finalmente de acordo. Ambos queremos Milão. Ou, diria um outro imperador, se a Itália fosse uma vaca, Milão ou meIhor o Milanado, seria o lombo.
O seu contributo para o equilíbrio da balança de pagamentos; a elevada percentagem no produto interno bruto, o prestígio de que goza a nível interno e externo fazem da região (uma das vinte em que a Itália se decompõe) um autêntico oásis.
De tal modo que assegura quase um quarto do rendimento nacional.
Não releva apenas a raça, mais próxima dos bárbaros vencedores de Rómulo Augustulo do que dos etruscos ou sabinos.
A madre natura ajudou também: as montanhas que ocupam 43% do território não são, ao contrário do que poderia pensar-se, uma desvantagem. Bem pelo contrário: desde o começo da Revolução Industrial que elas fornecem os cursos de água necessários à produção de energia. Estão, por isso, na base da arrancada industrial.
Aliás, o alto grau de pluviosidade, em marcada oposição com a secura escalavrante do Sul e Ilhas serviu de antecâmara à criação da riqueza, potenciando uma agricultura rentável, geradora de fundos afectáveis a outras iniciativas.
Enfim, entre o Milanado e a Calábria verificam-se diferenças que impõem o regionalismo.
A invectiva camoniana a uma distância de quatrocentos anos, a passar, dá-nos conta do que para sempre há-de opor os italianos:
Pois que direi daqueles que em delicias
Que o vil ócio no mundo traz consigo
Gastam as vidas, logram as divícias.
Esquecidos do seu valor ant1igo?
Nascem das tiranias inimicícias
Que o povo forte tem de si imigo
Contigo, Itália, falo já submersa
Em vícios mil e de ti mesma adversa…

Poderá a Europa das Regiões desagregar à Europa das Pátrias? Ou, pelo contrário, acabarão as regiões, por cimentarem mais fortemente as Pátrias?
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

No mosaico de nações que compunham a antiga URSS, estado, aliás, muito mais asiático do que europeu, ressaltam parcelas cuja filiação em Bizâncio não pode sofrer contestação.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaAlgumas situam-se para além do limite europeu, caso da Geórgia, política e culturalmente já individualizada no século XIII.
Missionários nestorianos, à compita corn católico-romanos originaram uma diocese em Tsifilis, sua capital, de então e agora.
Daí para cá, tem sofrido a sorte da maior parte dos territórios sitos na região, passando de império para império um pouco ao sabor da sorte das armas ou da ocasional genialidade de qualquer chefe.
Eis um exemplo.
O rei da Transxoniana, isto é no País Samarkand e de Sucara, Timur, denominado Hong, «O Coxo», tinha constituído um vasto império que ia do Afeganistão à Cilicia e que ele procurava ainda engrandecer. Todos os pequenos emires abatidos por Orknan e Bajavet, chefes turcos, encontraram junto dele um acolhimento caloroso. Em 1398 tinha tomado a Mesopotâmia, a Geórgia, a Arménia, uma parte da India… Este terrível bárbaro que, no entanto, se assumira como salvador da Europa, era Tamerlão.
Oscilando entre o Império Romano e o Imperio Otomano, até à queda do primeiro; zona de domínio do segundo ou do império moscovita, depois, eis a sorte da Geórgia, a sofrer as influências cruzadas daqueles tipos de civilizações.
No Século XX viria a celebrar-se por ser a pátria de Estaline, que, como satrapa, havia de governar todo aquele vasto mundo por algumas décadas.
Os autores que falam da arrancada vers la prise du pouvoir pelos comunistas, referem: «Un georgien de trente huit ans aux cheveux noirs et o pulents à la moustache fournie, aux yeus faux. Il se nomme Joseph Djougachivill, dit Staline».
Outro dos grandes construtores do marxismo, ou mesmo o mais importante de todos eles, também não nasceu longe.
Lenine, com o.nome batismal de Vladimir Ilicht Oulianov, veio, efectivamente, ao mundo em Simbirsk.
Mas a Geórgia já enquadrada na região caucasiana, apresenta enormes conotações com a cultura ocidentaI.
Chersonesa Taurica, na geografia antiga; terra do Tosão de Ouro, na mitologia grega, lugar onde se teria de ir raptar o velocino, a sua imagem reveste-se, para nós, de todos os cambiantes.
Sucessivamente dominada por romanos do ocidente e oriente, persas, árabes, tártaros. mongois e turcos, vêmo-la, mesmo assim, essencialmente ligada aos luminosos dias da Hélada, até quando jazendo sob a pata do urso moscovita.
Aqui mostra-se rival da Crimeia, minúscula língua de terra, hoje parte integrante da Ucrânia, a separar, no entanto, os mares Negro c de Azof.
Riviera russa, onde se situa, por exemplo, a aprazível estâbcia de Ialta, tão religada aos tratados que assinalaram o fim da Segunda Grande Guerra, viveu uma aventura histórica semelhante à da Geórgia.
Colonizada por mercadores gregos, abandonada à sua sorte, ante os tártaros, membro de pleno direito da Horda Dourada, canato, absorvida pela Russia, mas república autónoma de 1921 a 1945, manteve, no entanto, sempre uma forte individualidade, quer pela geografia que a predestinou, quer pela história que lhe fundiu em harmonioso cadinho, os traços de numerosas civiIizações, com particular relevância para a bizantina.
Na transição da Europa para a Ásia, limes, como recorda o Poeta, quando diz que ali acaba um mundo mas não nasce logo outro, antes tudo se passando por sucessivas ondulações, os seus povos despertaram sempre a solidariedade dos espíritos verdadeiramente ocidentais. Não os esqueceu Camões no seu terrível libelo contra os europeus acomodados.
Gregos, traces, arménios, georgianos,
Brandando-vos então que o povo bruto
Lhes obriga aos caros filhos aos profanos
Preceitos do Alcorão, duro tributo…

Desprovidos da força de Estados, podem, exactamente por isso, recuperar na Europa das Regiões o que não puderam garantir na Europa das Nações… E a Geórgia está, hoje, de novo, na ordem do dia
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A primeira referência histórica ao povo basco data do ano IV antes de Cristo e vem inserida na «Vida de Jugurta», do escritor latino Salustio.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaAo contrário dos celtas e iberos, que não influenciaram as tribos pirináicas, os romanos modificaram-lhes fortemente os costumes, destruindo a tradição matriarcal e a língua que latinizaram.
Com a queda do Império Romano, os bascos foram forçados a organizar-se para se defenderem dos bárbaros (visigodos e francos).
No século IX, é fundado o reino de Navarra. O monarca Sancho, o Grande (999/1036), conseguiu governar todas as terras ocupadas pelos bascos, as quais se estendiam de Navarra a Castela, Aragão, Gasconha e condado de Tolouse.
Esta unidade foi efémera…
Estas pinceladas históricas extraímo-las duma entrevista concedida por um dirigente do PSAN (Partido Socialista de Libertação Nacional), e que vem integralmente publicada no livro «A Oposição em Espanha» que já noutra parte referenciámos, sendo certo que os bascos se consideram pouco espanhóis.
Esta independência caracteriza igualmente os seus irmãos de raça sediados já na zona francesa dos Pirinéus.
Socorremo-nos de Jean Lartéguy, in «Os Centuriões». O coronel Raspeguy, o super-herói da Indochina, passou um dos três meses de licença na sua aldeia natal dos Aldudes, na quinta da família, perto do desfiladeiro de Urquiaga. Era basco; filho de basco francês e de mãe basca espanhola. Mas, em sua casa, a mãe nunca falou qualquer daquelas línguas: apenas basco…
Aliás, os filhos de casamentos mistos sentiam-se diminuídos. O coronel Mestreville tinha uma voz que rolava como uma queda de água, a força dum carvalho e a teimosia duma mula; usava sempre grevas de cabedal por cima das velhas calças de montar, uma boina que nunca abandonava, e interpretava o papel de velho basco, guardião das tradições. Mas só era basco pelo lado da mãe e sofria por usar um apelido que tanto cheirava à Ilha de França ou à Norrnandia…
A independência, a guerra e o amor a seus foros eis a triplíce virtude dos bascos, para quem o patriotismo não é somente o amor da terra, mas também, e sobretudo, o culto do passado. Os séculos, escreveu Almeida Braga, como relha do arado revolvendo o chão, abrem na alma leivas fundas… A raça e a história são o fecundo humus criador. E para que a planta humana cresça fortemente e venha a ser capaz de lançar braços ainda mais robustos, é necessario deixá-la absorver ern vagaroso trabalho, quotidiano e obscuro, toda a seiva física e moral da terra, pois é uma longa sucessão de vontades que fixa no homem aquele grau de força que lhe permite desenvolver todas as suas faculdades criadoras. Conhecendo a própria terra e o esforço das gerações que a fizeram e amaram, é que cada homem se poderá conhecer a si rnesmo.
Por esta tenacidade no afinco à terra e à tradição se caracterizam os bascos e se distin-guem dos demais povos.
Basco, basconço, vasconço, bascongado ou vascongado, adquire assim um significado simultaneamente de apego ao passado e nao tergiversação na construção do futuro.
A questão não é de hoje, mas de séculos. E, de resto, não se circunscreve à Vascónia, mas tem sido levantada por todos os defensores dos tradicionais foros das várias regiões espanholas, os chamados communeros.
Recorde-se aqui o que Don Juan de Padilla, chefe daqueles, escrevia à sua cidade, horas antes de ser decapitado:
«A ti, cidade de Toledo, que és a coroa de Espanha e a luz do Mundo, que já no tempo dos godos eras livre, e que prodigalizaste o teu sangue para assegurar a tua liberdade e a das cidades tuas irmãs, Juan PadiIla, teu filho legítimo, te faz saber que, pelo sangue do seu corpo, mais uma vez vão ser renovadas as tuas antigas vitórias.»
Era o grito Ubi libertas, ibi Patria. E, em relação aos seus tradicionais foros, podia dizer qualquer basco: Le quiero más que a mi sangre…
De Gipuscoa ou de outra parte da Biscaia, como indómitos montanheses têm-se batido de conforrnidade.
A primeira verdadeira guerra civil espanhola, em reacção contra a Constituição de Cadis, foi por ali que se desenrolou. Dali irromperam os tércios de réquétés, onde muitas vezes figuravam três membros da mesma família, avô, pai e filho, representando, assim, três gerações em armas, Iutando pelo mesmo ideal.
O sentido de luta estende-se também às mulheres, nao sendo por acaso que o conhecido romance etnográfico «A donzela que vai à guerra» começa por declarar:
Pregonadas son las guerras de Francia con Aragon

Estaba un dia buen viejo
Sentado en un campo al sol.
Como las haré yo triste
Viejo, cano y pecador

É conhecida a nossa tradição:

Ai de mim que já sou velho
E as guerras me acabarão!
De sete filhos que tive
Nenhum me saíu varão
Responde a filha Elisarda,
Com muita determinação,
Venham armas e cavalo
Eu farei de capitão…

E a vasconia respondeu e no fim pode exclamar:

Sete anos andei na guerra
E fiz de filho varão
E ninguém me conheceu
Senão outro capitão;
Conheceu-me pelos olhos,
Porque por fraqueza não…

Pai, eu volto, que vencemos
Por sobre a França Aragão
E sobre a Espanha também…

É, afinal, o sentimento de superioridade e independência de que sem nada dizer se jactava a mãe de Raspeguy do romance «Os centuriões».
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Probe Galicia, no debes
Chamarte nunca española
que Españia de ti se olvida
cando eres, ai tan hermosa.

Catelhanos de Castela
Que é que fazeis aos galegos
Quandovão, vão como as rosas
Quando tornam vêm negros….

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaQue a Galiza tem mais afinidades com o Minho do que com qualquer outra parcela ou região de Espanha, ou das Espanhas, está dito e redito.
O rio que entre ambas as regiões corre, se consitui obstáculo natural, individualiza e harmoniza as duas regiões, únicas aliás que em todo o mundo produzem vinho Alvarinho, ou mesmo genecamente vinho verde.
A Galiza, identifica-se, na verdade, perfeitamente com o Entre Douro-e-Minho, região génese da indepêndência portuguesa.
Os galeguistas reconhecem-no:
Um minhoto é um antigo galego. A estrutura psíquica e mesmo a realidade sociológica não é diferente aquém e além rio. Portugal e a Galiza têm interesses comuns: A Galiza pela cultura e a história cristã está ligada a Portugal tanto ou mais do que a Espanha.
É um retalho do noroeste que olha para Portugal e Espanha com interesse nos dois Estados, se quer levar a cabo um desenvolvimento, social e político correcto. Por razões económicas e culturais bem evidentes, não pode prescindir de Portugal, que, afinal, também nasceu do mesmo retalho…
O que Miguel de Umamuno escreveu da Galiza, aplica-se também à província portuguesa.
Repare-se nesta passagem do mestre, extraída de «Por Tierras de Portugal y España»:
A paisagem na Galiza é feminina. Tanto pela beleza e graciosidade, como, porque nela se não vêem mais do que mulheres. Efectivamente, os homens emigram para terra ou para o mar.
Do nosso lado, o Brasil foi em grande parte constituído por gentes do alto Minho. De tal modo que, no Rio ou em São Paulo, em Olinda ou São Salvador, não se gritava, Aqui de-El-Rei, mas Aqui-de Viana.
Os pescadores de Alto Mar recrutavam-se preferencialmente na mesma zona.
Por seu turno a América Espanhola, desde o México ao Chile, passando por Cuba, valiam como Eldorado para os habitantes de além-rio:

Galiza está pobre
E a Havana me vou
Adeus prendas mias.
Adeus corazon…

A pesca longínqua não encontra também melhores praticantes, entre todos os espanhóis.
Aqui não haveria, pois, razões espirituais para a separação. Falharia totalmente a justificação de Correia de Oliveira:

Separei-me em tenra idade
Dos meus irmãos das Espanhas
Almas diversas apartam
Mais do que o mar e as montanhas.

Mais, como escreveu um grande mestre, a literatura galega, espelho da alma do seu povo, es la hermana mayor de la portuguesa…
Mau grado o seu eminente sentido prático, ditado até pela escassez de recursos, mais penosa ainda lá do que cá, eles são como nós endogenamente poetas.

De ser galego me debo alabar
Porque aprendi liricamente a cantar…

Na Galiza, há, efectivamente, uma milenária tradição vática.
Martin Codax apresenta-se como patriarca:

Mandado hei camigo
Ca ven meu amigo:
E irei, madre, a Vigo…

Ondas do mar de Vigo
Si vistes meu amigo?
E ai Deus se verá cedo!

Ondas do mar levado
Si vistes meu amado
E ai Deus se verá cedo!

Parece que estamos a ouvir trovar Dom Sancho I ou D. Dinis, João de Guilhalde ao Pero Soares Taveiro…
Lá como entre nós el bard y el cisne contaban su morir.
Entre as palavras especificamente portuguesas conta-se o vocábulo «saudade» tão nosso que, diz-se, não tem mesmo tradução em qualquer outra língua.
No Galego há o equivalente morrinha.

E Rosália vai mais longe:
Campanas de Bastabales
Cando vos oya tocar
Morrome de soidades

Cando vo soya tocar,
Campaniñas, campaniñas.
Sin que torno a chorar
Cando de lonxe vos oyo
Penso que por mim chamades
E das entrañas me rojo…

Mas não é so no verso que as almas se aproximam. Na Casa da Rua de Tróia, confundem-se os autores galegos com Eça de Queirós…
Enfim, são tantas as afinidades que melhor fora não ter existido a questão Conde de Trava e os condados, ao tempo incertos, a Galiza e Portucale tivessem feitos juntos a sua jornada histórica.
De qualquer modo, há uma forte contraposição entre a secular alma da Galiza, filiada em bardo celta, filho do vento e da chuva – mas do vento mareiro e a de Castela, nascida da aridez e do vento suão.
E o que afasta um galego dum castelhano aproxima-o de um português.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

No livro «A oposição em Espanha», da portuguesa Loy Rolim, pode ler-se: «Não é segredo para ninguém que na Idade Média, depois da invasão árabe as nacionalidades espanholas se formaram de maneiras diversas. No começo, a Catalunha foi uma marca franca do Império Carolíngio, – a marca era uma divisão administrativa do tempo de Carlos Magno – por essa razão, manteve laços muito estreitos com o sul de França, com a Occitânia, até à batalha de Muret, em que os franceses do norte desmantelaram a civilização albigense, na cruzada contra os cátaros. Nessa altura, a Catalunha encontrou-se separada da Occitânia e, estendeu-se pelo sul, pelas terras de Valência e pelas Ilhas Baleares. A expansão catalã nunca foi, contudo, uma expansão de caráter imperialista. Teve sempre um espírito federalista. Quando foi até Valência, por exemplo, conservou o reino de Valência com a sua autonomia. E fez o mesmo em relação à Maiorca. Mais do que imperialismo, tratava-se de uma expansão comercial e industrial. Sob este aspecto a Catalunha aparenta-se às cidades comerciais da Itália.»

Catalunha

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNa verdade, o exemplo vale. E, como se sabe, nunca Genova ou Veneza. cidades marítimas, Florença, cidade de banqueiros, ou Milão grande empório fabril, tiveram ambições territoriais. Numa época em que pela superioridade técnico-táctica que possuiam, facilmente poderiam ter ascendido a impérios pela conquista nos Balcãs, na Asia Menor ou no Norte de África, nunca abandonararn a natureza de cidades-estado as três primeiras; e Milão, se foi cabeça de território, o facto deveu-se a imposição dos monarcas que a incorporaram e não a determninação dos milaneses.
«Barcelona», disse Victor Hurtado, membro na década de setenta do Reagrupement Democratic y Socialista da Catalunya, «contentou-se sempre em ser o motor dum aglomerado de países, ao passo que, em Castela, foi a concepção do estado militar e administrativo que prevaleceu. Isto criou evidentemente uma diferença entre as duas sociedades, diferença esta que se tornou importantíssima no século XIX, dado que Castela ainda se não tinha adaptado nessa altura à nova concepção do mundo que era o capitalismo burguês, ao passo que a Catalunha já estava muito perto dela».
Nascida, embora, de preocupaçõs militares (já atrás se assinalou a sua função de marca, conquistada e mantida por Carlos Magno, tanto para desviar das suas proprias fronteiras o perigo mouro como para incentivar as cruzadas do Ocidente), a Catalunha marcou sempre uma posição muito mais relevante no campo económico.
Valência, as Baleares. uma parte da Itália, até Portugal, têm sido beneficiados pelos seus capitães de indústria. E entre nós há numerosas empresas cujos titulares ostentam nomes autenticamente catalães. Muitas vezes tratou-se de simples operários altamente especializados que aqui deram expansão a projectos que na terra natal, já com unidades fortemente implantadas, não poderiam ter feito triunfar.
No plano militar ou das simples alianças, contrariamente, a regra tem sido o fracasso ou a inoperância.
Possivelmente, desde Roncesvales, onde segundo a lenda, Roldão, o belo e heróico sobrinho de Carlos Magno perdeu a vida por um erro de táctica: ou seja a escolha dum desfiladeiro para acantonamento e evacuaçãao de tropas.
Mas tem sido frequentemente origem de conflitos, a pontos de merecer a designação de Alsácia-Lorena da Península.
Para o êxito da nossa Restauração, em 1640 encontrava-se sublevada contra os Áustrias, dos quais mais tarde seria aliada face aos Bourbons, o que, com a vitória destes, lhe acarretaria novas restrições e maior dependência.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Mais uma vez nos socorremos de Camões, seguindo o roteiro europeu logo no pórtico do canto III:

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaEis aqui se descobre a nobre Espanha
Como cabeça ali da Europa toda
Em cujo senhorio e glória estranha
Muitas voltas tem dado a fatal roda;
Mas, nunca poderá com força ou manha
A fortuna inqueita pôr-lhe nada
Que lha não tire o esforço ou ousadia
Dos belicosos peitos que em si cria

Com Tingitânia entesta e ali parece
Que quer fechar o Mar Mediterraneo
Onde o sabido estreito se enobrece
Com extremo trabalho do Tebano
Com nações diferentes se engrandece
Cercadas com as ondas do Oceano
Todas de tal nobreza tal valor
Que cada qual cuida que é melhor.

Tem o Terragonê que se fez claro
Sujeitando Penélope inquieta
O Navarro, as Atú-irias que reparo
Já foram contra a gente Maometa
Tem o Galego cauto e o grande Ebraro
Castelhanoa quem fez o seu Planeta
Restituidor da Espanha e Senhoras e senhores:
Bétis, Granada com Castela

Esta desabada mesc1a de povos, coexistindo sob a mesma soberania, não passa desapercebida a nenhurn dos muitos estudiosos que se tem debruçado sobre o caso.
Fidelino de Figueiredo, por exemplo, fala-nos das duas Espanhas. A sua obra, todavia, mais do que o exame em cada momento histórico, reflecte ciclos alternativos. A um período em que o ideal é unidade e terá encontrado sob os Astúrias e Franco a sua mais perfeita concretização, contrapõe-se outra em que a regra será a tendência para a dissiparidade ou, no mínimo, para o reconhecimento das mais plenas autonomias regionais.
A parte final da Primeira Republica, com governos em Barcelona, Valencia. Bilbau… simbolizava, por oposição, o periodo de retorno ao pré Fernando e Isabel.
Joan Sauret que foi secretário-geral da Esquerda Republicana, recordou em entrevista à portuguesa Lay Rolim os perigos do separatismo e até de um mal entendido federalismo.
E, todavia, trata-se de personalidade marcadamente de esquerda e que pelas suas ideias sofreu a prisão e o exílio e quase por milagre escapou aos campos da morte em Dachau.
Tendo pertencido às Juventudes Nacionalistas Catalãs em 1930, e sendo alto dignatário da esquerda ao tempo da vitória franquista, teve de exilar-se para França e sofrer as contingências da invasão hitleriana, com a consequente ocupação da maior parte deste país e a subordinação aos alemães da restante. Mas, para ele, o separatismo só terá tido justificação moral nos últimos tempos da monarquia e depois no consulado de Franco.
É que, no contexto espanhol revela-se extraordinariamente dificil obter soluções de carácter autonómico. Só circunstâncias muito especiais de privação de liberdades farão com que os povos se vejam de certo modo forçados a aceder à autonomia.
Sera preferível e desejavel, isso sim, o federalismo. Mas até este só se mostrará aceitável desde que catalães, bascos e galegos não julguem ser os únicos povos em Espanha com direito a leis próprias.
É certo que são aqueles três os que histórica e sociologicamente mais justificariam a posição. Mas não pode esquecer-se que Granada só foi absorvida em finais do século quinze; ou que houve reis e princípes em várias outras regiões: Valência, Baleares, Sobrabre, Gipuscos…
Com enfraquecimento do poder central, logo nos primeiros anos da República é que começaram as últimas grandes reivindicações autonómicas.
A Catalunha viu o seu Estatuta votado e aprovado logo nas Cortes de 1932; durante a Guerra Civil obtiveram os bascos o seu, tal como, de resto, os galegos. Mas a coexistência entre todos esses elementos e os demais, referenciados, aliás, por Camões nas estrofes com que inicíamos esta crónica, nunca se mostrou fácil. Alguém tinha de mandar, depois da unificação.
O centralismo não se impôs a não ser na medida em que a periferia o consentiu.
Ortega Y Gassett in «Espanha Invertebrada» não se coibiu de escrever:
Se a Catalunha e as Cascongadas tivessem sido aquelas raças indómitas que agora imaginam ser teriam dado uma terrível resposta a Castela quando esta começou a ser parlicularista, isto é, quando deixou de contar devidamente com ela. E esse abalo talvez tivesse despertado as antigas virtudes do centro e não se teria caído certamente na duradoura modorra de idiotice e de egoísmo que caracteriza os últimos trezentos anos da História espanhola, os que afinal se seguiram ao despotismo dos Áustrias.
Para o grande pensador, a quem terá de dar-se o desconto de ser ele próprio castelhano, o centralismo, palissiana verdade, só triunfou porque as populacões das orlas marítimas, a norte, ocaso, sul e levante das fronteiras pirinaica ou lusa, não tiveram força e discernimento para se lhe oporem.
Aliás, os movimentos de pessoas, de grandes massas ou mesmo só de individuos desgarrados, reforçam a tendencia para o centralismo e a redução das autonomias.
Não deverá esquecer-se, por exemplo, que os dois maiores centralizadores do nosso século, foram Primo de Rivera, marquês de Estela e Francisco Franco, um galego de Ferrol.
Até a portuguesíssima terra de Olivença, por tudo quanto hoje nela conta é governada de Madrid, embora por oliventinos que nascidos embora na velha cidade, só a ela se deslocam em ocasiões de cerimónia.
Como se vê, a Espanha não constitui, nunca constituíu, aliás, uma só nação.
Voltando a citar Camões, lembraremos antes que:
Com nações diferentes se engrandece
Todas de tal nobreza e tal valor
Que qualquer delas cuida que é melhor…

«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Os reinos da Europa medieva surgiram duma fusão de povo e solo, catalizados por um chefe de excepcional envergadura, por vezes mesmo exógeno. Reveste-se, em corolário, de alguma verdade a afirmação de que deve buscar-se nas regiões a génese dos estados.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNo caso português, foram os fidalgos que entre Douro e Minho ja tinham castelo e terra murada quando os barões francos desceram de pendão e caldeira nas hostes do Burguinhão, quem com estes novos ingredientes (apoio militar e incontestado comando) lançou as raízes da nação.
Na vizinha Espanha, a irrupção nasceu nas montanhas nordestinas. Os ingredientes vieram da fé, da memória dos concílios toledanos, da fereza dos cantabros, do génio militar dos leoneses (recordados de que o nome da sua cidade radicava num antigo acampamento romano, uma légio geminata com o a que na Gália deu origem a Lião), da crueza dos castelhanos (mistura de homem, cão e lobo, na lapidar caracterizaçao de Mestre Aquilino em «O Homem que Matou o Diabo»).
Além Pirinéus, depois de Clóvis ter consolidado a monarquia franca, por Carlos Magno elevada à dignidade de império, será este mesmo Aureus Carolus quem, no ano de 806, prevendo a morte, dividiu as terras sob seu ceptro, aliás segundo o costume bárbaro, dando origem a três novos reinos.
Todos os estados que a História registou dos Pirinéus aos extremos da grande planície germano-polaca encontram a sua raiz naquele acto de partiIha, causa da instabilidade que nunca mais deixou de verificar-se na região, com reinos a nascerem e a morrerem e quatro marcas: a da Catalunha, a de Viena, a de Milão e a da Alsacia-Lorena, a perturbarem a estabilidade.
A França, a futura Alemanha, o Império, a Mongó1ia da Europa, a Bélgica, a Holanda, a Itália (por mil anos dilacerada em lutas fratricidas), a Dimanarca, a Polónia, a Boémia, a Morávia, a Eslováquia, enfim os Estados que perene ou momentaneamente se criaram até à fronteira russsa, estavam ali em potência ou acto.
E a imprecisão de lirnites, bem como a memória das marcas pelos séculos hão-de servir de causa belli.
Nomes como Aquitânia, Neustrénia, Austrásia, Suábis ou Lombardia, que hoje não dirão muito à generalidade das pessoas, tiveram ao tempo grande voga, significando estados que nasciam e sucumbiam ao ritmo das divisões hereditárias ou da sorte dos exércitos.
Como o de Lotaríngia, Ostefália, Vestefá1ia, Ângria ou Nordalíngia.
Os paises nórdicos, hoje tidos como supercivilizados e que habitam a Escandinávia ficavam para além dos limites do Império.
Tinham a fama e proveito de terríveis selvagens. Eram mesmo um dos terrores cujo combate se fiava também da Divina Providência. Daí a inclusão nos hinos litânicos da prece: A furore normandorum libera nos Domine. E o termo normando aplicava-se genericamente a suecos e noruegueses.
Há ainda outras três zonas que escapam à semente de trigo lançada por Carlos Magno e à cizânia dos seus descendentes.
As grandes ilhas britânicas (Inglaterra, Irlanda e Islândia) o Transdanúbio, ao tempo dominada pelo Imperio Romano do oriente e cujos territórios apenas viriam a ascender a estados independentes com o desmoronar do Imperio Turco – sucessor daquele, e as imensidades da Rússia.
Bizâncio que converte os eslavos, converte-se depois ao cesarpapismo. De facto, o seu patriarca, o único já que os de Antioquia, Alexandria e Jesuralém residiam in partibus infidelium e em corolário se viam desprovidos de influência, juntamente com o irnperador, garantia a unidade num território imenso.
Deixando de lado por estar fora do nosso âmbito de análise tudo quanto fica para além do Helesponto, constata-se que na transição de milénios, lhe pertenciam os actuais territórios da Grecia, Bulgaria, Romenia, Albania e ex-Jugoslavia, o sul da Itália e ainda os estados insulares de Chipre e Malta.
Mas, como atrás dissemos, todos estes países deviam esperar pelo desmoronar não apenas do império bizantino mas do turco que lhe sucedeu em tais domínios, para assumirem veleidades de independência. E os casos de ilhas, entrementes transitadas para o império marítimo da Inglaterra só nos nossos dias é que viraram estados, aliás de duvidosa sobrevivencia.
De qualquer modo, foi da combinação do princípio étnico-histórico das nacionalidades como o da implantação geográfica dos povos que surgiram os estados: a Roménia, de tradição latina; a Bulgária, eslavo-bizantina; a Albânia, mais islâmica, tal como partes da ex-Jugoslávia (nomeadamente a Bósnia), a Grécia, ainda marcada pelos tempos em que a Helada dominava espiritualmente.
Na Rússia, só há pouco comegou a afirmação da força das nacionalidades que naturalmente levará também a profundas consequências políticas.
Os dois grandes estados medievais, com capital ao tempo em Quieve e Novagardia, parecem reconstituídos, não se considerando que os canatos porventura até coevos detenham força para se imporem como nações, até porque só lhes davam unidade, chefes de efémeros mandatos.
Mas, para além da Ucrânia e da Bielorrússia, tambem a Geórgia, a Lituânia, a Moldávia, a Letónia, a Estónia, a Arménia e evidentemente a Rússia, que até agora serviu de elemento aglutinador são estados europeus, mais germânicos, uns, mais eslavos outros (aliás os mais importantes e influentes), bizantinos ou aturquestados outros.
Enfim, geografia e história, elementos em toda a parte definidores dos estados e seus limites e que, quando contrariados, se vingam através dos mais terríveis cataclismos.
Basta lembrar os casos históricos da Catalunha, da Alsácia-Lorena, do Milanado. Ou o recente drama da ex-JugosIavia. Para não falar já das Guerras dos Cem Anos, dos Trinta Anos, dos Sete Anos, da Franco-Prussiana, das duas últimas grandes guerras…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

As escolas capitulares, que, como já vimos, funcionavam junto das sés catedrais, e os colégios sustentados nos conventos, com a natural evolução e o também aperfeiçoamento que se tenta imprimir a todas as obras, podem considerar-se o embrião para essas resplandescentes lâmpadas da cultura que, no século XIII, começaram a surgir e pronto se disseminaram por toda a Cristandade – as universidades.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaOs historiadores chamam-lhes irmãs, segundo o espirito, das catedrais. E a designação vale perfeitamente, na medida em que umas e outras assinalaram, de acordo com a sua índole e feição, duas das mais luminosas criações do génio humano.
A instituição tem uma raiz corporativa, união de mestres e discípulos para formarem uma comunidade do espírito: universidas magistrorum et scholiarium…
Para além da abrangência de todos os interessados, há também uma globalização de matérias…. rio de ciência, de todas as ciências que rega e fecunda, o terreno da Igreja ou lâmpada que resplandece na casa de Deus.
Na fase inicial, essa universitas de disciplinas divide-se par secções: as faculdades que eram quatro, a saber; Teologia, Decretais, Medicina e Artes, cada uma dirigida por um decano, e no conjunto pelo reitor, inicialmente o chefe da Faculdade das Artes, que, ao tempo, congregava um grande número de especialidades, ao ponto de, sózinha, contar o dobro ou mesmo o triplo dos alunos das outras, todas juntas…
Arrancando nos fins do século XII, princípios do seculo XIII, embora uma ou outra surgissem ainda no primeiro quartel do XII (caso, por exemplo de Montepilher, que parece datar de 1125), as universidades cedo constituiram uma rede bastante densa.
Em França, para alem da de Paris, possivelmente modelo para as demais, encontram-se várias outras. Efectivarnenle, Orleaes, Tolosa, Lião, Narbone, faziam gala das suas escolas já famosas por volta de 1250 da nossa era.
Na Itália, sabe-se da existência duma espécie de universidade ambulante, a Studium Curiae, que acompanhava a corte pontifícia; encontramos as de Salemo e Bolanha (esta gloriosa desde 1111), a de Napoles e Palermo, a de Pavia e Pádua (sendo de frisar que nesta ensinou o nosso Santo António).
Na Inglaterra, existiam Oxford e Cambridge, daquela destacada. No Império Alemão, as de Praga e Carcóvia, de Viena e Heidelberg. Na Península temos duas: Coimbra, em Portugal, e Salamanca, em Leão e Castela.
Esta última celebrizou-se mesmo no rifoneiro, já que Quod Deus non dat, Salamantica non prestal, o que o nosso Malhadinhas traduzia por Salamanca, a uns cura, a outros manca…
Como assinala um historiador da especialidade, em todo o mundo cristão se tornaram célebres estas cidadelas da inteligência. Conheciam-se os nomes dos professores que ali ensinavam e o aparecimento dum professor de grande fama era suficiente para arrastar multidões de alunos.
Mas as universidades também se especializavam. Para ser bom médico, era preciso estudar em Salemo. Os juristas saíam de Bolonha. Mas ninguem se fartava de ser bom teóIogo, se não tivesse estudado em Paris.
Todavia, o que os mestres e alunos apreciavam era o saber pelo saber, estando longe da concepção da república dos professores, na construção de Thibaudet.
A universidade, pela sua cultura e pela sua frequência, pelo seu espírito e até pelos seus patronos, valia como universalizante.
Os alunos não se circunscreviam a cidadãos da área geográfica ou sequer do país de implantação. Os nossos monarcas, por exemplo, sempre patrocinaram, atraves da concessão de numerosas e vultosas bolsas de estudo, a saída de estudantes para Bolonha ou Paris, Viena ou mesmo Heidelberg.
E portugueses houve que enriqueceram com suas magistrais lições o currículo das mais famosas cátedras do seu tempo.
De resto, entre nós, o aparecimento da Universidade suscitou o maior entusiasmo.
Camões toma o facto por extraordinário e dedica-lhe uma das mais sonoras estrofes de «Os Lusíadas». Vem no Canto III, quando se fala de um rei poeta:
Eis, depois, vem Dinis bem parece
Do bravo Afonso estirpe nobre e dina
Com quem a fama grande se escurece
Da liberdade alexandrina,
Com este o reino próspero floresce
Alcançada já a paz áurea, divina,
Em constituicões, leis e costumes,
Na terra franquila claros lumes…

Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
O valoroso ofício de Minerva,
E de Helicona as musas fez passar-se
A pisar do Mondego a fértil erva
Quanto pode de Atenas desejar-se
Tudo o soberbo Apolo aqui reserva
Aqui as capelas tecidas de ouro
Do bácaro e do sempre verde louro…

Os nossos mestres tinham universal prestígio. Um chegou a Papa sob o título de João XXI. De outro se dizia que assegurara a imortalidade per omnes rei publicae cristianas regiones. Outro era novo Cícero…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Vários historiadores, possivelmente deslumbrados com os resplendores culturais da alta latinidade e depois impressionandos com o desmantelamento do império, apodam a Idade Média de noite milenária da cultura.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaAquele período durou efecitvamente à volta de mil anos. Mas só poderá classificá-lo de noite cultural quem não queira conhecer o papel naquele sector prosseguido peIa Igreja, já directamente pelas suas próprias instituições; já incitando e apoiando realizações dos monarcas e grandes senhores.
Nas igrejas paroquiais, juntamente com as verdades da fé, aprendiam-se rudimentos de leitura, escrita e aritmética.
Nas capitulares, assim chamadas por funcionarem junto dos capítulos (nós hoje chamamos-lhes cabidos, com o que significamos corpos de cónegos de uma diocese), ensinavá-se o trivium e o quadrium, embrião dos actuais cursos de letras e ciências, compreendendo o primeiro a retórica, a gramática e a dialéctica, espraiando-se o segundo pela matemática, geometria, astronomia e música.
Depois, não pode esquecer-se a obra dos mosteiros, tanto na salvaguarda e recuperação das riquezas culturais da antiguidade, como na elevação do nível intelectual das populações.
Muitos conventos ostentavam até atraentes dísticos, convidando à alfabetização: «se queres aprender a ler, entra, que tens aqui – e de graça – o que procuras».
Não falaremos da Universidade, também naquele período surgida e instituição que, só de per si, relevaria todas as eventuais faltas que à Idade Média se pudessem assacar.
Nos domínios da produção artística, o Te Deum, aparecido ainda no primeiro milénio, bastaria igualmente.
Raras vezes, o espírito humano tem voado tão alto como naquele admiravel texto, onde da forma mais elevada se exprimem as três dominantes da alma cristã: a alegria do triunfo, a angústia perante o futuro sempre incerto e a imorredoira confiança em Deus.
«Nós Te louvamos, Senhor; nós Te confessamos. A Terra inteira Te venera, e os Anjos e os Arcanjos, os Principados e as Potestades, os Tronos e as Dominações. O corpo glorioso dos Apóstolos, na sequência dos Profetas, e o branco exército dos Mártires cantam em conjunto a Tua glória. E, por toda a Terra, a Igreja é confessada…
Senhor, só em Ti está a nossa confiança. Nós Te glorificamos pelos seculos dos seculos. Que a nossa súplica seja ouvida e que o nosso clamor chegue até Ti. Senhor, está connosco. Fica com a nossa alma…»
Texto sem autor identificado, atribuído por uns a Santo Ambrósio, por outros a Santo Agostinho, por outros a um obscuro prelado dos confins balcânicos, ressaiba a epopeia jamais ultrapassada.
E, se o Te Deum, simboIizando e expressando, embora, todo um milénio, se pode considerar ainda urna obra isolada, produto apenas duma mente genial, naturalmente muito acima do seu século, há já movimentos culturais que interessam senão multidões, ao menos a importantes massas populacionais.
O mais conhecido é, por certo, o Renascimento Carolíngio.
Achen, nome germânico de Aix-La-Chapelle, à francesa, ou Aquisgrano, à latina, a cidade das águas correntes, funcionou como a capital não só política e militar, mas também científica, de todo aquele extenso período em que Carlos Magno, São Carlos Magna, se revelou o primeiro dos chefes da cristandade e também o primeiro cristão.
A Escola Palatina, sediada na antiga vila do tempo de Pepino, o Breve, viu passar pelas suas cátedras, todos os grandes espíritos da época.
Ali, à sua volta, Carlos Magno, como verdadeiro precursor da Europa do espírito, reuniu tudo o que contava nos domínios da cultura, dos sábios, dos letrados, dos teólogos. Da Gália do Sul, vieram Agobardo e Teodulfo, este último refugiado godo das Espanhas. Da Inglaterra, Alcuino, porventura o mais brilhante de todos os grandes paladinos e primeiro-ministro espiritual do próprio Imperador. Da Italia, Paulo Diacono, Pedro de Pisa e Paulino da Aquileia. Da Irlanda, Clemente e Dungal. Dos países nordicos, Engilberto e Eginhardo, este também notável.
Onde quer que os seus esculcas intelectuais lhes apontassem urn nome célebre, Carlos Magno mandava recrutá-lo.
A todos retribuindo principescamente, mesmo no sentido rigoroso do termo, pois ao já referido Engilberto casou-o com sua filha…
Com menos brilho, embora, outras escoIas funcionaram também, nomeadamente, em Tours.
E, mesmo que na sombra, lançavam-se as bases para o grande renascimento que adviria logo no princípio da idade moderna e que só foi possivel porque os centros culturais da época precedente (que se teima em cIassificar de obscura) se mantiveram vigilantes e operosos.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A guerra movida ao latim, que foi praticamente banido do curso geral dos liceus na década de quarenta do século passado (efectivamente a chamada Reforma Pires de Lima manteve-o apenas para certas alíneas dos então sexto e sétimo anos) fez com que a generalidade da população não relacione o vocábulo convento com o seu elemento essencial.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaOs que se iniciaram nas complicadas operações da enunciação e conjugação dos verbos naquela língua, esses certamente que recordarão o venio, venis, venire, veni, ventum, que a muitos terá provocado o àspero contacto com a féruIa e vara, meios didácticos cssenciais numa escola que, por orbilana, se baseava na regra – a letra com sangue entra.
O prefixo com e a raiz ventum dão ao termo a ideia da reunião a que ocorriam, no caso, todos os vizinhos; e daí o seu caracter de assembleia que, na alta idade média, se substituiria ao município que, como já referimos, apresentava origem romana.
Mas da transição para a mescla produzida da fusão daquelas instituições com as leis e costumes dos invasores do império resultaram efectivamente outras novas onde a vontade popular se exprimia por voto directo.
E uma das mais interessantes e que mais profundamente haveria de marcar o relacionamento entre os habitantes da mesma área geográfica e influenciar futuramente toda a organização administrativa a que hoje chamamos autárquica foram as assembleias de vizinhos no período visigótico.
Os visigodos eram um desses numerosos povos germanicos que tendo visto no império uma carreira nele penetraram como servidores e de que, com o colapso de Roma, se tornaram senhores.
Efectivamente, nas grandes movimentações que se seguiram a 476, ano símbolo, mas impreciso quanto a extremações temporais, enquanto que os burgundios se fixaram em torno de Viena e na actual Suiça; os francos ou galos entre os Pirinéus e o Reno (os belgas, os aquitanos e outros cabendo na designação de Germanos misturavam-se com eles); os ostrogodos mostraram preferência pela Península Itálica e uma enorme multidão de bárbaros se quedavam ainda por aquilo que hoje se chama a planície germano-polaca, os visigodos venceram as dificuldades dos altos desfiladeiros e derramaram-se pela Ibéria de onde acabaram por expulsar suevos e vândalos, se é que estes últimos, povo mais nómada do que sedentário, não preferiram, da sua expontânea vontade, demandar o Norte de África e os suevos não rumaram, também, às Ilhas Britânicas lato sensu.
De qualquer modo, os visigodos lançaram profundas raízes, fundiram-se com os ibéricos, romanizados ou não, e influenciaram poderosamente toda a vida peninsular, através nomeadamente da sua tendência para os grandes debates que ocupavam desde as simpIes comunidades vicinais até aos concílios nacionais de Toledo.
Esta tendência para absorver de cada civilização o que dela melhor pudesse coutribhuir para o aperfeiçoamento do sistema permaneceu.
O município, instituição de base romana beneficiou, assim dos aportes do direito visigótico, reformulado e enriquecido, que viria a influenciar mais tarde as comunidades rurais da Idade Média e receberia até influxos da Cabília magrebiana, copiando parte das regras dos seus ajuntamentos.
Assim se gerou a tradição duma recta e regular administração municipal e depois também provincial.
E o município, lembrou Alexandre Herculano, representa, de modo verdadeiro e eficaz, a variedade contra a unidade, a irradiação da vida política contra a centralização, revelando-se a única instituição capaz de assegurar a liberdade das classes laboriosas e populares.
Aliás todos os povos, se os deixarem, tendem para a gestão autárquica, o que levou Toqueville a afirmar que o município e as instituições que lhe são similares (conventus publicus, comunidades medievas, ajuntamentos da cabília) parecem ter saído mesmo das mãos de Deus.
Só por seu intermédio se pode realizar o duaIismo tão fecundo de uma boa governação: autoridade ao alto, liberdade nas estruturas inferiores; competência dos governantes; fiscalização dos governados…
Na grande Europa que existe como realidade institucional e a que se pretende dar um corpo de leis, impõe-se axiomaticamente o respeito por essas comunidades de base e fará, por isso, algum bem recordar a mera legalidade positiva, existindo, não por qualquer delegação, mas por direito próprio…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Hoje fala-se da Europa das Regiões. Ao tempo da sua construção e nos mil anos que se seguiram, era a Europa das Monarquias.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaO primeiro reino a estabiIizar-se na nova ordem e que ha-de durar milenio e meio (os historiadores falam dos quarenta reis que em tão dilatado período a erigiram) foi a França.
A grande gesta começa no baptismo de Clovis por outros chamado Clodoveus, trazido à fé de Cristã por São Remígio, arcebispo de Reims, cidade ainda hoje célebre pela sua catedral.
Carlos Magno, São Luís, Filipe o Belo, Luis XIV, Luis XVI, Napoleao, Luis XVII!, os cristãos e os hereges, os momentos de grandeza e de desânimo, tudo ali se filia.
Aliás, Clodoveus como Caros Magno, mais do que cabouqueiros da simples França foram-no de todoss os estados da Europa Central, nomeadamente da Alemanha, da Bélgica, da Holanda, do Luxemburgo… De resto, ao tempo, as fronteiras mantinham-se imprecisas e a Germânia simbolizava toda uma vasta região.
Clotilde, a santa mulher de Clovis, era uma princesa burgunda. Pois a Burgundia estava dividida em dois reinos, com capitais, respectivamente, em Viena e Genebra.
A vocação cristã da França, na bela imagem de Lacordaire ou o seu génio do Cristianismo, para se usar o título devido a Lamartine, como toda a Gesta Dei per Francos, radica efectivamente naquela cerimónia batismal.
Na Inglaterra e nos extremos ultimos da Germania, onde a cristianizacão foi obra de monges, só corn a instituição de monarquias cristãs, os povos ganharam dimensão nacional
Tal como a Península Escandinava se moldou politicamente através das suas monarquias.
O mesmo sucedeu para além dos limites do Imperio. Partindo de Hamburgo, os missionários aportaram à Escandinavia, cristianizada por reis que foram santos ou receberam nomes de profunda influência religiosa: Cristiano tornou-se comum entre os membros da casa real da Dinamarca, Suecia ou Noruega, persistindo ainda nos nossos dias, ao lado de Olavo, este a radicar mesrna em monarca elevado à dignidade dos altares. A Boémia, que por longos anos foi monarquia independente, deve-se a dois grandes missionários, tambem eles canonizados, São Cirilo e São Metódio… O mesmo sucedeu à Morávia e à Po1ónia, ao Montenegro e à Servia, à Bulgária e à Ucrânia… De resto, os nomes mais em voga naquelas regiões rememoram os monarcas que delas fizeram reinos: Boris, Vladimiro, Estêvão, Venceslau, Simeão, de parceria corn as variantes lacais de João e José – nomes bíblicos – e Carlos ou Alexandre – nomes heróicos…
O mosaico de estados tem variado profundamente, excepções feitas a Portugal e a França, secularmente estabilizados.
A Rússia, a Alemanha e a Jugoslavia testificam-no. Na primeira, cabem mais de cem nacionalidades e mesmo só na sua dimensao europeia, canatos e reinos abundaram. Na Alemanha, há quatrocentas familias que descendem de reis de outros tantas paises. O drama jugoslavo é por demais conhecido.
A nós, interessa-nos, sobretudo, o que se passou aquém Pirinéus, onde passaram os vândalos, deixaram sólidos vestígios os suevos e se fixaram os visigodos.
Aqui, depois de uma autêntica guerra religiosa que atirava uns contra os outros os próprios membros da familia real, dá-se a conversão de Recaredo.
E, como acontecera em toda a parte, a conversão do soberano e das mais altas figuras do Reino ao catoIicismo, terá também na Espanha consequêcias decisivas.
Começa a fusã das raças, a unificação do direito, a criacão dum verdadeiro espírito nacional, temperado embora pelo cristianismo de sua essência universal.
A fé com efeito tudo domina. E até os reis, para o serem, precisam de um novo sacramenta, a unção.
Toledo torna-se o simbolo da nova realidade e da nova realeza. Os seus concílios volvem-se permanentemente fonte de direito e de aperfeiçoamento da fé e dos costumes.
E ao monarca passou mesmo a chamar-se oitavo sacramento da nação.
De Recaredo a Rodrigo, morto nas margens do Crissus, ante a invasão berbera, há uma notável pleíade.
E, quando das furnas cantábricas emergir o levantamento contra o árabe que a traição de uns e a cupidez de outros permitiu se instalasse na Península, são ainda descendentes de Recaredo quem dá o grito de insurreição, comanda a guerrilha e obtém as primeiras vitórias que, todavia, só se consumarão quando Gonçalo de Córdova, às ordens de Fernando e Isabel, outros dois descendentes de Recaredo, expulsar de Granada, Boabdil, descendente de Mafoma.
Mas, aquém e além Pirinéus, os Monarcas reconhecem, mesmo que, contra a vontade, o primado espiritual e até institucional da Igreja.
Não é outro o significado da coroação, através do cerimonial da sagração.
O monarca, para o ser (e assim sucedia entre os francos e os visigodos, os celtas e os britânicos), tinha de receber a unção da parte dum legado pontifício, em regra o bispo do local.
Este submisso ajoelhar de quem tudo passa a mandar, com direito de vida e morte até sob os súbditos e como dono único das riquezas que podia dar e confiscar, ante um prelado tantas vezes obscuro, simbolizava bem que no seu mosaico de reinos a Europa se afirmava como unidade espiritual.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Poucas palavras contarão tão arrebatadoras ressonâncias como esta de Cavalaria.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaA simbologia e ritualismo com que os jovens, ao findar a adolescência recebiam a pranchada nobilitadora: as fórmulas sacramemais usadas para o juramento de iniciação; o comportamento, verdadeiramente exemplar de membros da ordem, com virtudes acima das fraquezas humanas; o imaginário popular em redor tecido; as novelas postas a circular por toda a Europa culta e oralmente transmitidas por trovadores e menestréis, enfim toda uma série concertada de circunstâncias e influências felizes deixaram-nos uma imagem que que possivelmente terá muito de mirífica, mas dominou até ao fim da lenda, satirizada mais tarde por numerosos escritores, com particular relevância para Cervantes, é ainda hoje, apesar de tudo, respeitável.
Prosaicamente definida como instituição militar, própria da nobreza feudal e consagrada pela religião, condensara, todavia em si, uma auréola de virtudes.
Os poetas exalçavam os seus membros.
Transcrevemos de Camões. Lusíadas, canto X, aconselhando Dom Sebastião:
Os cavaleiros tende em muita estima
Pois com o seu sangue intrépido e fervente
Entendem não sómente a lei de cima
Mas inda vosso império proeminente.

Aliás, em muitas outras passagens da epopeia se verifica igual culto peIa instituição e seus seguidores, alargando-a mesmo a outras civilizações e tornando-a semel de reis:
Estes, o Rei que têm não foi nascido
Príncipe, nem dos pais aos filhos fica,
Mas elegem aquele que é famoso
Por CAVALElRO, sábio e virtuoso…

Antero, num dos seus mais belos sonetos evoca tambem a figura:
Sonho que sou um cavaleiro andante,
Por desertos, por sóis, por noite escura
Paladino do amor, busco anemante
O palácio encantado da ventura.

Aliás, o cavaleiro andante, pelo seu desprendimento em relação às riquezas, bem se pode considerar o protótipo, pois, segundo os dicionários, era aquele que ia pelo mundo. apresentar-se nos torneios, justar contas com todos os opressores e em favor de todos os oprimidos, buscar aventuras unicameme para alcançar a fama.
Em acrescento ao EPÍGRAFE DAS CANTIGAS (Cancioneiro de Afonso, o Sábio), lembra-se que lhe faltou ser cavaleiro:
Dom Afonso de Castela
De Toledo e de Leão
Rei e bem desde Compostela
Até ao Reino de Aragão
De Cordova e de Janeiro
E de Sevilha, outrossim
E de muita doação
Lhe fez Deus como aprendi,
Do Algarve que ganhou
Aos mouros por nossa fé
Mais e muito mais faria
Na Ordem da Cavalaria…

E em todo o caso, aos títulos reais ainda podia acrescentar Dom Afonso, o Sábio, o de Poeta:
Sendo certo que
Trovar é coisa em que fez entendimento
Mas quem o faz tem de o haver e haver assaz…
Porque isso a Deus apraz
Poeta foi Salomé
Cavaleiro Galaaz.

Só que, e mais uma vez nos socorremos de Daniel-Raps, entre todos os tipos da Idade Média que se gravaram na nossa memória não há nenhum que mais nos impressiona a alma a comova o coração do que o cavaleiro… Aquele guerreiro justo e recto, nimbado de intacta pureza e cujo fim último é mais o sacrifício do que a vitória, mais o sangue oferecido do que o sangue derramado.
A ideia é cristianíssima.
E, todavia, não foi em terra cristã que nasceu o cavaleiro, mas nas tradições das tribos germanicas, onde um mancebo não usava armas que não tivesse recebido – fosse escudo, fosse capacete, fosse framea, das mãos de seu pai ou chefe. E com que lentidão e paciencia não trabalhou a Igreja para fazer da investidura militar essa espécie de sacramento em que viria a transformar-se o ingresso na Cavalaria!
A entrada era efectivamente acompanhada por uma cerimónoia, a um tempo minuciosa e grandiosa. Os velhos ritos germânicos, como o banho purificador e a entrega da espada, integram-se agora numa noite santa, vigília pascal ou de qualquer outra festa essencial. E uma noite de oração e meditação. E daí até ao acto final há toda uma longa liturgia.
Finalmente, adianta-se o padrinho que, com a espada desembainhada, a estende ao donzel para que a beije.
Segue-se a pranchada nobilitadora, como lembrança do antigo ritual germanico.
Finalmente, temos a fórmula de consagraçao, o cingir da espada e o juramento com a mão direita estendida, diante do altar.
Podia lembrar-se também a velha frase:
Tota licet veteres exornent undique cerea atria nobilitas sola est atque unica virtus.
Se bem que velhas figuras de cera exornem de todos os lados os palácios das grandes famí1ias, a única e exclusiva nobreza reside na virtude, ou antes na prática concertada de todas as virtudes.
Era esta a máxima da cavalaria, segundo a qual só é valente o que tem valor de corpo e bondade de alma.
Era esta a mentatidade imperante e a transluzir em a Canção de Rolando, o Poema de Cid, a Demanda do Santo Graal, obras que ajudaram a fixar a missão da Europa, como a mãe de ideais e civilizações.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A sociedade hodierna, saturada de preconceitos radicalmente igualitários, acolhidos pelas massas, consciente ou subsconscientemente, vive impregnada na ideia dos malefícios que terão decorrido dos direitos senhoriais.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaA submissão a concepções dominantes que se apoiam apenas em modas esquece contraditoriamente, por um lado, o relativismo histórico e, por outro, que os elementos sociais que hoje pretendem ocupar ou ocupam efectivamente o lugar deixado vago pelas antigas elites não melhoraram, bem pelo contrário, os padrões de serviço à comunidade, vividos por aqueles que tão asperamente censuram.
Felizmente que, ao lado dos que só se evidenciam pela força económiva e ambição de poderio, se verifica, mesmo em países sem passado monárquico ou nobiliárquico, a formação de elites, com tónus arisrocrático.
É que também nas democracias de recente data e que não têm atrás de si qualquer passado feudal, se foi formando pela própria essência das coisas, uma espécie de nova nobreza ou aristocracia. Tal é a comunidade de famílias que se habituaram a por ao serviço da comunidade nacional, ou seja do Estado, do governo e da administração, e sobretudo das populações, as suas energias e sinergias…
Neste sentido, e estamos a seguir a lição de Pio XII, tambem as novas élites se podem afirmar como propulsoras do verdadeiro progresso e guadiãs da tradição.
O nosso intento, hoje, cifra-se, todavia, unicamente no papel que o feudalismo assumiu na construção europeia.
Os direitos senhoriais não podem, é certo, deixar de chocar a nossa mentalidade, com o c1ima de violencia e extorsão, muitas vezes vivido nos limites do feudo, ou as constantes irrupções pelos territórios vizinhos, domínios de irmãos e parentes muito próximos, quando não até de pais ou sogros.
Mas não pode esquecer-se, que ao tempo, as ocupações correntes de grande número de indivíduos eram saquear, devastar e matar, em que cada um dos agredidos e espoliados fazia repercutir sobre o que em força e poder se lhe situava abaixo os agravos de cima recebidos.
O senhor, monopolizando a autoridade, violenta ou violentíssima até, adentro do seu limes, era a única entidade capaz de obstar àquela série intermináveI de conflitos, repetidos em cada um dos degraus duma escada de forças, com miríades de clivagens.
A autoridade real, tanto pelas dificuldades de intervenção, como pelas flutuações de fronteiras, como pelo reduzido leque de matérias em que a coroa se propunha intervir, era escassa e precisava efectivamente de ser complementada por quem actuasse sobre o terreno.
Cunhando moeda, administrando a justiça, assegurando o abastecimento das populações, desenvolvendo a economia, preparando os seus próprios exércitos, os senhores feudais cumpriram uma missão ao tempo essenciaI.
Através da cadeia de fidelidade ajudaram ainda a consolidar os tronos e as fronteiras das várias monarquias que se foram estabelecendo a Ocidente.
Defeitos naturalmente que tiveram muitos, mas onde há homens, há condição humana.
A guerra impunha-se-lhes como paixão. Gostam mais de combater do que de ouro fino ou de comer. É o que expressava a Canção de Antioco. E noutra parte, fala-se de um cavaleiro que confessava sem rodeios: Se estivesse com um pé num castelo e o outro no paraíso e me anunciassem um combate, logo fugiria para o teatro de guerra.
A Igreja, sábia mesmo quando intervinha em relação as coisas deste mundo, procurou modificar o ânimo dos senhores e conseguiu-o em benefício dos vilãos e servos indefesos.
Mas fê-lo também em favor dos próprios senhores feudais, vítimas uns dos outros. E foi mesmo contra a guerra privada, exactamente a guerra entre senhores, que lançou a Trégua ou Paz de Deus.
Depois, os grandes senhores pensavam em nobilitar-se cada vez mais e os pequenos por emulação sonhavam também com o ascenso.
Houve toda uma penosa escada a subir e as mais influentes famílias reinantes da Europa radicam em humildes estirpes.
Caso, por exemplo, dos Hoenzolern, família imperial alemã provinda de guardadores de altas montanhas: ou dos Habbsburgos, fronteiros do império.
Distinguindo-se por suas qualidades, começavam por comes (palavra latina que significava companheiro e é o étimo do actual vocábulo conde. Marquês provém de marca, palavra que significava território avançado sobre o inimigo ou no mínino fronteiro a ele. O Marquês era ali a autoridade suprema. Com uma função essencial militar, corresponderia ao Marechal, étimo germânico; ou Condestável, aglutinação, aliás de comes (conde, como vimos), e stabuli (lugar de guarda de cavalos).
Os grandes mosteiros resultaram muitas vezes também da influência de poderosos senhores feudais ou de descendentes directores seus.
Sao Bernardo de Claraval, outro dos grandes construtores da Europa, bem poderá dar testemunho.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Quando hoje se fala da Europa das regiões não pode esquecer-se o papel dessas pequenas unidades territoriais que foram as dioceses.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaOs bispos fizeram a França, escreveu José Maistrel (e nós poderemos generalizar a afirmação a toda a Europa Cristã) como as abelhas constóiem as colmeias.
Efectivamente, tudo o que fica para aquém da planície polaca foi administrtivamento moldado pelas dioceses, de criação logo imediata à romanização.
Vejamos:
Na Itália encontramos esta forma de organização político-religiosa em Roma (o Papa era e continua a ser também bispo da cidade eterna), Milão, Ravena, Aquileia, Capua, Benevento, Salerno, Nápoles e Amalfi. O reino da Borgonha (de onde há-de provir a nossa primeira casa reinante) seccionava-se em 35 dioceses, especialmente representadas pelas de Lião, Viena, Arnes e Besonção. Noutras partes da actual França, vamos encontrar as de Sena, Reims, Ruão e Tours, ao Norte; e as de Bordéus, Narbona e Auch, ao sul.
A Lotaríngia e a Germânia dividiam-se ao tempo em quarenta dioceses.
A Hispânia (nome comum na terminologia da época a toda a Península Ibérica) foi das primeiras parcelas a ser cristianizada.
Efectivamente aparece já mencionada numa epístola de São Paulo aos romanos (datada de Fevereiro do ano cinquenta e oito da escrita de Corinto) onde se assinala:
Quando me dirigir à Hispânia, espero ver-vos de passagem e ser, de lá, encaminhado por vós, depois de gozar algum tempo na vossa companhia.
A cristianização, iniciada como se vê sob o impulso do Convertido de Damasco, foi avançando com os progressos da romanização, sendo natural que a organização eclesiástica seguisse territorialmente a divisão administrativa.
Ora, recuando a Dioc1eciano, este criou aqui cinco províncias: a Lusitânia, com a capital em Merida; a Bética, com a capital em Sevilha; a Cartaginense, com a capital em Cartagena; a Galécia, com a capital em Braga; e a Tarraconense, corn a capital em Tarragona.
Não se sabe a data exacta (assim informa o erudito Padre Miguel de Oliveira, in História Eclesiástica de Portugal) em que a cada uma delas veio a corresponder também uma província eclesiástica e se atribui a categoria de metropolita ao bispo da capital civil.
Nesta fase, os territórios de Entre Douro e Guadiana pertenciam todos à metrópole sediada em Mérida, os de Entre-Douro e Minho a Braga.
Sufragâneas de Mérida, ao tempo dos visigodos, eram as dioceses de Pax Júlia (a actual Beja), Ulissipona (Lisboa), Ossonoba (nome correspondente, agora, a uma modesta freguesia do Algarve, Estoi), e, além de outras, que não importa referir, as de Egitânia, Viseu, Salamanca e Coria…
Egitânia, povoação de grande importância nas monarquias bárbaras e capital no tempo de Vamba V, disputava com Dume, capital de outra monarquia bárbara, a dos suevos, primazias de metropolita…
Enfim, ainda sob o império, ou logo nos primeiros tempos do furacão bárbaro, a Hispania, ou sejam os actuais teritórios continentais de Portugal e Espanha cobriam-se já de uma completa rede de dioceses e de paróquias, organizações em que através dos arcedíagos ou arciprestados aquelas se dividiam.
As dioceses tinham a sua capital na cidade que lhes dava o nome. Sedes se lhes chamava então.
A palavra evoluiu e acabou por, depois de uma síncope e duma crase dar em sé, termo actual.
A capital da diocese, a sua sede ou sé acabariam por se materializar na catedral, símbolo se não do poder, pelo menos da magnificência episcopal.
Catedral, cabido, báculo, passam a ser vocábulos de uso comum.
O primeiro liga-se à ideia de cadeira ou cadeirão:
Ali se achava sentado
Em funda meditação
Aquele grande prelado
Frei Nuno da Conceição

Cabido é forma divergente de capítulo, quer dizer exactamente corpo de cónegos duma cúria diocesana.
Do latim capitulum, diminuitivo de caput começou par significar divisão duma obra literária, mas na Idade Média tomou também o sentido de curta leitura do ofício divino ou o do lugar onde os religiosos procediam àquela leitura ou até o próprio corpo de religiosos…
Por seu turno, báculo, inicial e propriamente bastão alto, bordão ou cajado, tornou-se o símbolo da autoridade episcopal, chamando-se mesmo à posse conferida, investidura por báculo e anel.
Mas foram as catedrais que ficaram a eternizar materialmente a acção dos bispos dos anos mil…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A primavera que anuncia a floração da Europa é, escreveu Daniel Rops, o tempo das altas naves góticas, do Pórtico Real dos Chartres, das fachadas de Reims, dos vitrais da Santa Capela e dos frescos de Gioto; é o tempo em que se erguem, paralelamente aos edifícios de pedra e desafiando com eles, os séculos, as catedrais de sapiência que são a Mística de São Bernardo, a Suma Teológica de S. Tomás de Aquino, as Canções de Gesta, a obra filosófica de Roger Bacon, os grandes poemas de Dante, o altíssimo poeta…

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaÉ ainda o tempo que, religiosas e laicas, nascem as instituições que servirão de base às gerações futuras, quer se trate do Conclave dos Cardeais, do nascimento do Direito Canónico, ou da instituição da nova Realeza…
Daniel Rops, acrescenta: Notável fecundidade; no longo transcurso da história, apenas os séculos de Péricles, na Grécia, ou de Augusto, em Roma, podem rivalizar, em poder de criação, com este lapso de tempo que vai de Luís VII de França à morte do seu bisneto, São Luís ou da eleição de Inocêncio II à de São Celestino…
O corpo e alma da Europa aparecem assim retratados e identificados corn as realizações no plano material e moral levadas a cabo naquele periodo histórico que se tem de considerar autenticamente o de fixação da ideia de Europa. O que esta significava, revela-no-lo o mesmo Daniel Rops, ao descrever os frescos do convento dominicano de Santa Maria Nova, em Florença.
Trascrevamos:
No primeiro pIano, encontra-se o Papa, de pé, revestido duma serena majestade, como visível representante dos poderes do Alto. Junto dele, o imperador, que poderiamos julgar seu igual, se a cabeça de morto que tem na mão não estivesse ali a lembrar que os domínios da Terra sao caducos, ao passo que os do Céu se revestem do cunho da eternidade. De cada um dos lados, estão alinhados, numa perfeita hierarquia, os cargos religiosos e as dignidades laicas: cardeais, bispos e doutores, à mão direita; reis, nobres e cavaleiros, à mão esquerda. Na parte inferior vê-se o inumerável rebanho de fiéis e súbditos – os ricos e os pobres, os piores e os melhores, todos aqueles que, sem se darem conta, construíam a Igreja, a Civitas Dei e a Civitas Hominum.
O direito divino dos Reis conferia-lhes obrigações. A primeira era desde logo a ¬do acatamento do poder, necessariamente situado acima do que aos soberanos meramente no foro terrestre fora conferido.
O Papa, mesmo quando se intitulava servus servorum Dei, ou seja o mais humilde dos cidadãos do Universo, não abdicava daquele princípio de superioridade.
Fomos colocados por Deus acima dos reis e dos povos e temos a obrigação…
Era o peso das chaves de Sao Pedro.
Unificada pelos ensinamentos da Igreja e a suprema autoridade papal, diferenciada nas suas diferentes parcelas pelo maior ou menor influxo da romanização sobre as populações aborígenas ou pela maior ou menor fixação dos bárbaros, oscilando entre o jus gentium e o direito germânico, a Europa ia lançando as bases duma civilização que, herdeira da tradição greco-latina, mesmo das concepções vindas da China e da India, da Persia e do Egipto, e nao enjeitando posteriormente os contributos vindos de todos os demais povos com que contactou, se demarca, apesar de tudo, pelo humanismo.
Nesta evolução tiveram lugar de relevo as dioceses.
Vejamos a sorte do próprio termo que no grego DIOOKESIS queria dizer administração, por derivado do tema verbal DIOIKEO, eu administro.
Nome dado às circunscrições ou províncias estabelecidas na Ásia Menor pelos romanos, passou a generalizar-se, com as reformas de Constantino, a todas as subdivisões do Império, à frente das quais se colocava um vigário.
Esta palavra sugere desde logo uma ideia de substituição, de pessoa abaixo de, mas que age em representação daquele que lhe está acima.
Mais tarde, a Igreja aproveitou a terminologia imperial para a sua organização de base territorial.
Até por isto se nota a transição do Império para a Igreja na construção e condução da Europa
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Se a Europa Cristã dos anos mil tinha o sentimento de constituir uma unidade, é porque uma ordem superior se impunha a todos que a constituíam. Unidade de facto, unidade de princípio tudo andava a par. A causa disso era única: influência profunda da crença cristã, acção determinante da Igreja… Assim se exprimia Daniel Rops in «A Igreja das Catedrais e das Cruzadas».

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaAo fim e ao cabo, seria a unidade no dualismo, diagnosticado por Santo Agostinho nas duas cidades – a de Deus e a dos homens.
Unificada perante os poderes ante os quais se movia, mas una se havia logicamente de mostrar ao mundo que lhe era não só exterior, mas adverso.
Ora, os locais por onde se desenrolara a vida terrena de Cristo assumiam aos olhos dos cristãos uma extraordinária força de atracção.
Mas encontravam-se em poder dos infiéis. Daí o grito de Urbano II, em dezoito de Novembro de mil e novecentos e cinco, exactamente ao décimo dia do concílio que o antigo monge cluniense, Eudes de Chatillon, lançou em Clermoot: na Auvergne:
«Homens de Deus, homens eleitos e abençoados entre todos, uni as vossas forças. Tomai o caminho do Santo Sepulcro (que guardou por três dias o corpo de Jesus, depois sublimado pela Ressurreição e Ascensão) certos da glória imperecível que vos espera no reino de Deus. Que cada um renuncie a si mesmo e tome a cruz…»
O apelo do Sumo Pontífice encontrou na multidão dos presentes à cerimónia o mais entusiástico acolhimento.
E aos gritos de DEUS 0 QUER, todos se organizavam para a grande gesta. Cruzes nos estandartes, tatuagens de cruzes no próprio corpo obtidas até por ferro em brasa, abriu-se para a cristandade uma nova mística.
Viram-se homens que puseram de parte tudo quanto até então amavam: os barões abandonaram os seus castelos, os artífices os seus ofícios e os camponeses os seus campos para se consagrarem à libertação daqueles dez pés quadrados de terra que haviam recolhido, durante algumas horas apenas, os despojos terrestres do seu Deus. Assim se exprimiu Michelet que acabamos de citar.
A cruzada popular com Pedro-o-Ermita e Picardo de Ambiano terminou com o massacre.
Godofredo de Bolhão, duque da Baixa Lorena; Hugo, irmão de Filipe I, rei de França; Raimundo, conde de Talosa; e Boemondo, dos exércitos transalpinos se encarregariam da vingança.
Veio o Reino Franco de Jerusalém de que, todavia, Godofredo, o escolhido, não quis ser rei, porque, disse, lhe repugnava ostentar uma coroa de ouro, onde o próprio Cristo apenas tivera uma de espinhos.
Não seria, pois, rei, mas apenas defensor do Santo Sepulcro…
Entretanto, surge a vingança turca pela mão de Saladino.
O Reino Cristão não passa de miragem ou sombra e daí uma nova cruzada, a dos três reis: Frederico Barba-Ruiva, Filipe Augusto e Henrique (depois seu filho Ricardo), soberanos, ao tempo, das maiores nações da Cristandade: Alemanha, França e Inglaterra.
Alem do empenhamento real, a cruzada beneficiou ainda dos aportes financeiros granjeados através do chamado dízimo de Saladino, imposto geral em terras da cristandade que afectou também os bens eclesiásticos.
Nem assim se realizaram todos os seus intentos, pelo que Inocêncio III, considerado como o pontífice que elevou o papado ao seu máximo poder, teve de organizar uma outra.
O espírito rapace dos venezianos (o doge exigiu, em paga dos barcos que se propunha fornecer, oitenta e cinco mil marcos de ouro, a metade das terras a conquistar e a destruição da cidade rival de Zara, na costa da Dalmácia), o fascínio de Constantinopla sobre os expedicionários e a queda desta cidade as mãos dos latinos, as quezí1ias depois suscitadas entre eles e, mais fortemente ainda, o perigo mongol, haviam de determinar a necessidade de novas cruzadas: a das crianças, sob o impulso de Estevão de Vandoma, a de São Luís.
Apesar de tantos esforços e do empenhamento de tantos homens, a Terra Santa iria ficar na posse dos infiéis.
Mas pelo seu contributo para a mescla de civilizações e para a construção da Europa, a aventura valeu a pena…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

JOAQUIM SAPINHO

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