You are currently browsing the tag archive for the ‘europa’ tag.

Como já anteriormente deixámos exarado, o Portugal atlântico, imperial, evengelizador, que toma nessa hora de quinhentos o lugar do povo-chefe, de povo guia, mesmo, do universalismo ocidental, nasce graças à vontade infléxivel do Infante Dom Henrique…

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaComo escreveu João Ameal, impulsionados por ele, não mais parámos no seguimento da sua obra. Lembremo-nos de que, se Dom Duarte quer em vão Tânger e Dom Afonso V acaba por subjugar aquela cidade depois de Alcácer-Céguer e Arzila, as conquistas marroquinas não fazem esquecer o empenho, central e primordial do avanço pelo litoral africano. Os marinheiros de Sagres prosseguem esse avanço sob o comando directo de Dom Henrique, até 1460, ano da sua morte. E não mais se detém. Com Dom João, o ritmo acelera-se e Bartolomeu Dias alcança a extremidade meridional do Continente. Pouco mais de uma década será necessária para que, sob Dom Manuel, Vasco da Gama aporte a Calecute e Pedro Álvares Cabral a Vera Cruz. No entretanto, e quando já tudo era previsível, obtivera o Principe Perfeito, ao fim das negociações porfiadas e habilidossíssimas de Tordesilhas, que o Papa sancionasse a partilha das terras conhe¬cidas e desconhecidas entre Portugal e a Espanha. E na nossa metade compreendem-se a África inteira, a Ásia e o Brasil.
Ludibriada pela enorme ciência dos nossos sábios, que conheciam bem mais as terras situadas na nossa metade, ao contrário dos seus marinheiros que julgavam ter chegado à India pelo Ocidente e da América só se haviam dado conta da parte mais reentrante, a Espanha acabaria por vingar-se depois de Alcácer-Quibir e com o colapso da Invencível Armada, lançaria no seu e nosso império, a cobiça de ingleses, holandeses e franceses.
De qualquer modo, a Espanha foi a segunda das grandes potências marítimas.
E, se Camões, podia, na dedicatória de «Os Lusíadas», saudar Dom Sebastião, dizendo:
Vós, poderoso rei, cujo alto império
O sol, logo em nascendo, vê primeiro,
Vê-o também no meio do hemisfério
E quando desce o deixa derradeiro…

Filipe II de Espanha poderia, depois de ser também o Filipe I de Portugal, considerar-se rei de um território, onde nunca o Sol se punha.
Ao descobrimento da América por Cristóvão Colombo em 1492 (agora estamos a transcrever de Francisco Ligório Morcela, in «Apontamentos de Geografia Política», seguiram-se no reinado de Carlos I, as conquistas de Fernando Cortez (México), Almagro (Bolívia e Perú), Mendoza (Argentina) e Pizarro (Chile, Colombia e Perú) que, destruindo os poderosos indígenas dos astecas e dos incas, constituiram um imenso império colonial que abrangia parte da Ámerica do Norte, praticamente toda a Central e mesmo a do SuI, exceptuando o Brasil.
Como recordação da viagem de Fernão de Magalhães (no feito, com verdade, português, mas não na lealdade), ocuparam ainda as Filipinas, na Insulíndia.
Detendo grande parte do norte de Àfrica, instalaram-se por igual num extenso rosário de ilhas atlânticas, das Canárias a Fernando Pó e Ano Bom, com ocupação efectiva, já na costa ocidental, do chamado território do Rio Muni, núcleo da Guiné Espanhola, integrante também daquelas duas ultímas ilhas.
Com pés de barro, como todos os Impérios terreais, foi-se destruíndo. A administração ruinosa da Metrópole e o exemplo da independência dos Estados Unidos vieram, com outros factores, desenvolver um poderoso movirnento de emancipação nas colónias espanholas da América, devido principalmente à acção de Bolívar e San Martin. As ambições políticas de expansão externa dos Estados Unidos (continua Ligóno Morcela, obra citada) levaram o seu govemo a declarar-se paladino da independência das nações americanas e a tentar impedir, por todos os meios, a hegemonia europeia naquele continente. E, quando, em 1823, as colónias espanholas se agitavam para sacudir o jogo da metrópole, Monroe, então presidente dos Estados Unidos, enviou uma célebre mensagem aos seus congressistas, na qual preconizava a doutrina de «a América para os americanos».
E, nos fins do século passado, os Estados Unidos intervieram para assegurar a emancipação de Cuba e conquistarem Porto Rico. Aliás a sua acção antiespanhola não se circunscreveu ao Continente Americano.
Acabaram também por anexar as Filipinas a que mais tarde dariam a independência.
Maldição ou simples sina histórica, Cuba, como mais tarde o Vietnam, de que correram os franceses, tornou-se para os norte-americanos uma tremenda preocupação e um caso que ainda não conseguiram liquidar.
Voltando ao exemplo espanhol, assistimos já na década de sessenta do século passado, à emancipação dos territórios do Rio Muni, Fernando Pó e Ano Bom, que deram a chamada República da Guiné Equatorial (12/10/1968) e a devolução do Ifni a Marrocos em princípios do ano subsequente (4/1/1969).
De modo que hoje praticamente lhe restam apenas as ilhas Canárias, as afortunadas, na nossa linguagem da primeira dinastia e por onde, em tempos de D. Afonso IV, se ensaiou a nossa vocação expansionista.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Anúncios

A Europa, têmo-lo repetido, vale como sinónirno de humanismo, cristandade, cavalaria (no mais nobre sentido do termo) e civilização.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNão admirará, em corolário, nem o ascendente que, desde os luminosos séculos da Hélada, vem mantendo sobre o resto do mundo, nem a missão de disseminador da cultura que se propôs.
O mais pesado fardo do homem branco, evocado nalguns cantos de epopeia, e que refere exactamente a obrigação que o europeu sempre sentiu de actuar como responsável pela promoção civilizacional dos aborígenes dos demais continentes, não representa efectivamente mero sentido de retórica e longe de constituir causa de recriminação ou motivo penitencial deve dar-nos inspiração para mais altos cometimentos em prol da humanização.
Para além das razões económicas com que muitas vezes se mascarou aquele propósito eminentemente digno, não deixando de condenar a exploração, os abusos e até os crimes de muitos colonizadores, a verdade é que, mesmo fora do campo estritamente religioso que normalmente foi o motor inicial (alargar a Santa Fé de Nosso Senhor Jesus Cristo e trazer a ela toda as almas que se queiram salvar, diria o lnfante Dom Henrique em carta ao Papa, então reinante), há sobejos motivos de consolaçãoo ou até de cristão desvanecimento pela obra de promoção que a Europa levou a cabo nas demais partes do mundo.
A nós, portugueses, coube o papel de iniciadores, como recorda o poeta:
Nascido dos combates pela Cruz
Portugal veio ao mundo já cristão
O melhor baptismo é o da luz
Que Deus deixou nas margens do Jordão

Somente os ungidos por Jesus,
São Pedro, São Tiago, São João…
Ao «ide e ensinai» fizeram jus
E nós que somos povos de missão
Deus é que fez o mundo e redimiu-o
O génio português redescobriu-o
Em nova criação a Deus o dando…

Todos os nossos poetas, de resto, se deixaram tocar pela sublimidade do tema.
Camões:
Assim fomos abrindo aqueles mares
Que geração alguma não abriu…

Vimos buscar do Indo o grão corrente
Por onde a lei divina se acrescente.

Guerra Junqueiro:
Astros do céu, povos da terra, ondas do mar
Viram passar como uma águia ovante
Meu pendão quimérico nos ares
Retumbaram maus feitos de gigante
Pelo universo em feitos seculares…

Fernando Pessoa:
Ao imenso e possível oceano
Ensinam estas quinas que aqui vês:
O mar com fim será grego ou romano
O mar sem fim é português.

Corrêa de Oliveira:
Mare nostrum dos antigos
Foi latim a breve modo
O português deu à vela
Nosso mar era o mar todo…

Afonso Lopes Vieira:
O que era dantes o mar?
Um quarto escuro
Onde os meninos tinham medo de ir.
Agora o mar é livre e é seguro
E foi um português que o foi abrir…

Com os poetas eruditos, ombreiam os cantadores ao desafio:
Portugal, senhor da terra
E senhor do mar também
Só não é senhor do céu
Que é de Deus e mais ninguém.

Áfricas, Índias, Brasil,
Tudo no mundo foi meu…
Proas de nau, nem eu sei
Como as não meti ao céu…

Enfim, todos repetiam com Camões:
… Entanto que cegos e sedentos
Andais do vosso sangue, ó gente insana
Não faltaram cristãos atrevimentos
Nesta pequena casa lusitana.
Tem da África os marítimos assentos
É na Ásia mais que todas soberana,
Na quarta parte nova os campos ara
E, se mais mundos houvera, lá chegara…

Sobreveio Alcácer-Quibir e o nosso esforço iria ser aproveitado por outros.
Logo pelos espanhóis, já émulos connosco. E daí a trova:
Áfricas, Índias, Brasil,
Tudo no mundo foi nosso
Portugal dizendo à Espanha
Toma lá que que eu já não posso…

Consumara-se aquilo a que os historiadores chamam o século português, de algum modo o do Infante Dom Henrique, a quem, na lapidar expressão de Oliveira Martins, nós, portugueses, devemos uma segunda pátria, mas que transcendeu em muito os limites de uma pátria, pois deu igualmente outra pátria a todos os europeus…
A personalidade e a acção do Príncipe de Sagres exige, por isso, que o coloquemos ao alto e ao centro da História da Civilização do Ocidente e mesmo do Mundo.
E que a exigencia não se revela descabida, acentuam-no vários autores:
Beazlei que o situa entre os que modificaram, vital e realmente, o curso da História Mundial e sem cuja obra toda a nossa sociedade moderna, e a civilização de que nos orgulhamos, seria profundamente diferente.
Elaine Sanceau, que disse: «0 Infante realizou a maior transformação que o mundo vira ou viu até hoje»…
Gilbert Renaud: «Dom Henrique voltou uma página decisiva da História do Homem»…
Até porque foi o precursor e primeiro realizador da Europa Imperial para além dos mares.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

O prestígio de Roma atingiu culminâncias tais, quer no plano espiritual, quer no tocante às coisas do mundo, que a Igreja escolheu a cidade para sua sede e todos os imperadores que têm reinado sobre o velho continente se pretendem sucessores dos que brilharam em Roma.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaAté pelo título, já que César, como os reis de França se intitulam desde Carlos Magno, Kaizer, como os de raça germânica desde Otão, ou Czar, nome ostentado pelos de raíz eslava, não são mais do que transcrição literal ou corruptela do cognome de Caio Júlio. Aliás, seria este ao escrever o Bellum Gallicum, por nós mais comummente conhecido por De Bello Gallico (o nome completo será Commentarii de Bello Gallico) quem lançaria as bases para os futuros impérios centro-europeus.
Recordemos o intróito da famosíssima obra:
Gallia est omnis divisa in partes tres, quraum unam incolunt belgae, aliam aquitani, tertiam qui, ipsorum lingua, celtae, nostra, galli apeelantur. Hi omnes, lingua, instituti, legibus, inter se differunt. Gallos ab aquitani Garumna flumen, a Belgis Matrona, et Sequana dividit.
Horum omnium fortissimi sunt belgae, propterea quod a cultu atque humanitate provin-ciae longissime absunt, atque ea animos effeminat, important. Proximique sunt germanis, qui trans Rhenum incolunt, quibuscum continenter belIum gerant.

A tentativa de unir esta série de povos, alguns dos quais em luta incessante, como recorda a expressão «Quisbuscum continenter bellum gerant», muitas vezes ensaiado, tem, repetidamente também, falhado.
Carlos Magno foi mesmo o único que teve algum êxito neste pormenor, já que, depois do Imperador da Barba Florida, a França sempre se revelou insusceptível de fusão com a parte oriental do império carolíngio, que, de resto, não sobreviveu ao seu fundador.
Depois, de Otão aos nossos dias, com a sede em Viena, em Berlim ou qualquer outra cidade, sob hegemonia austríaca ou prussiana, centralizando à maneira bismarquiana toda a administração ou permitindo a coexistência de quatrocentas casas reinantes, todas elas, aparte um ou outro reino ou principiado de maior dimensão, bem pequenos feudos, os antigos galos, celtas ou francos eximiram-se à unificação, não relevando as tentativas de Napoleão (que seriam de sinal contrário), ou as de Guilherme II ou Hitler.
Principiados, condados, ducados, arquiducados, marcas ou marquesados (não esque-cendo que marquês ou pargrave era mesmo o governador militar duma província fronteiriça, a marca), baronias, bispados, até hansas de raíz corporativa, eis os ingredientes sobre que se exercia a autoridade imperial.
De resto, também o sentido expansionista ou concentracionista deste Império sofreu acentuados desvios.
A sua ideia-força resistiu no pangermanismo, mitigado é certo, pois nunca tentou atingir os britânicos, também germânicos, ou os escandinavos, que igualmente o são.
E, mesmo em relação propriamente ao chamado mundo alemão, houve, por igual opções várias. Quando, por volta de 1860, Bismark deu por terminada a unificação da Alemanha, excluíu deliberadamente os alemães que eram, ao tempo, súbditos dos Habsburgos.
E o próprio Hitler, mau grado o furor extremo do seu pangermanismo, deixava de fora a população alemã do Norte de Itália, possivelmente como concessão a Mussolini, seu futuro aliado (futuro, porque esta ideia consta do Mein Kampf, escrito, como se sabe, antes da tomada do poder).
Outros pretendiam que o Império avançasse para Leste, o que significaria a retomada do antigo ódio aos eslavos, que esteve na base da fundação na Áustria, da Ostmark e conduziu os cavaleiros teutónicos até ao Báltico e para além dele.
Era esta a tese dos militaristas prussianos, como se extrai dum exeerto de Ludendorf:
Kovno (nome da capital da Lituânia) ostenta ainda um castelo construído pelos Cavaleiros Teutónicos, um símbolo da civilização alemã no Leste Europeu… Ao contemplá-lo, o meu espírito ficou inundado de poderosas recordações históricas e mentalmente decidi retomar nesses territórios a obra civilizadora que os nossos antepassados ali levaram a cabo, durante séculos. A população, estranha mistura de raças, bem precisará da nossa ajuda, sem a qual cairá sob qualquer dominação, sem dignidade ou elevação…
Para estimular os desejos de conquista, faz-se renascer o tema por um novo Tchinggis Knan – o que nós conhecemos sob o nome de Gengiscão e que no século XIII semeou a ruína desde o Vietname ao Adriático e ao Iemen…
Abastardava-se, assim, uma ideia cheia de significado e heroicidade na sua origem.
O Sacro-Império, como os que o precederam e se lhes seguiram detiveram efectivamente a missão de enfrentar o perigo asiático.
Mas não se limitavam à acção militar.
Civilizavam e cristianizavam, transformando o inimigo de ontem, depois de convertido, em indefectível aliado.
Foi o caso, entre outros, dos húngaros, povo cristão só a partir do século XI, mas que segundo o historiador Sayons, bem pode ser comparado a defensor intemerato da sua nova crença contra os seus irmãos de outrora. Povo ultra-altaico, estranho à origem ari-ana, conquistador imposto à Europa como novo flagêlo de Deus, voltou-se pelas conversões do Rei Geda e seus principais nobres, e, sobretudo pela acção de reis como Santo Estêvão e Ladislau I, contra as imensas aglornerações de tribos altaicas lançadas à conquista dos países eslavos, germânicos e até latinos.
Amálgama de feudos, o Império revelou-se também cadinho de raças…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A terceira guerra púnica, arrastando as legiões para o oriente, aonde se havia refugiado Aníba1 e a perseguição que teve de ser feita a este e aos seus aliados acabou por deslocar o eixo do Império, cada vez a tender mais para a orientalização.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaRoma, capital unida e incontestada, começou a ter de dividir com outras cidades a sua eminente dignidade de cabeça do mundo antigo.
A tetrarquia, com os dois césares e os dois augustos, cada um dos quatro instalados em diferente parcela do Império.
E, mesmo antes, quando Roma atinge o auge territorial, que coincide com a época de Trajano, a orientalização ensaiava-se já.
Como todas as coisas deste mundo, com vantagens e desvantagens. Daquelas, a mais importante consistiu certamente na sobrevivência da Império Romano do Oriente, por cerca de mil anos, à deposição de Augustulo.
A sua capital, a Bizâncio pré-romana, nome aliás mantido até Constantino que a crismou com o seu nome, a Istambul, segundo o recrisma dos turcos seljucidas, até pareceria criada para fazer a união entre dois mundos, que, todavia, até hoje ninguém conseguiu fundir ou manter aparentemente unidos a não ser por períodos curtos e com a hegemonia, em regra tirânica, de um deles.
O desatino começou logo com o cerco de Tróia querepresenta mais do que lendária antecâmara das más relações entre os povos de aquém e além do Bósforo, em todo o devir histórico.
Aos aedos que construiram ou carrearam o material para a Ilíada e a Odisseia, a Virgílio que na Eneida nos faz remontar ao mais fragoroso do cerco ilíaco, podemos já juntar trechos históricos ou quase históricos, como o «De rebus gestis Alexandri Magni», de Quinto Cúrcio Rufo; a «Retirada dos dez mil», de Xenofonte; os trabalhos de Tucidides…
As guerras médicas, sob outro nome, e tendo como contendores outros povos, ou mais precisamente os actuais representantes (melhor os que em cada época ostentam tal qualidade) vêm-se revelando uma constante.
A Europa, minúsculo apêndice superpovoado das imensidades asiáticas tem, salvo em períodos especiais, conseguido triunfar.
Muitas vezes, pelo engenho ou pela astúcia.
Desde, aliás, o Cavalo de Tróia, de cujo bojo saíram os incendiários para a noite terrível:
Quis cladem illius noctis, quis funera fando Esplicet aut possite lacrimis aequare laboris?…. Crudelis ubique.
Luctus, ubique pavor et plurima mortis imago.

Assim relata Eneias, tebano salvo por sua mãe Vénus (pois era apenas semi-deus, porque filho de homem, Anquises) o que foi a noite de Tróia, quando o enorme paláicio de Deifobos se transformara em ainda mais enorme braseal.
Simbólico, o cavalo prenuncia novos e bem mais vastos incêndios.
A tomada de ConstantinopIa, pelos janizaros de Maomet II, quando em 1453 acaba o Império Romano do Oriente.
A História tinha sinistras falhas,
Uma das quais se chama Kerkaporta…
Grasnam corvos, recrocitam gralhas
Bizâncio é já cidade morta…

União contra-natura de tantos e tão desencorados povos, em qualquer das suas versões, continha em si mesmo o fermento para todas as guerras e todos os ataques vindos do exterior.
Para cristãos e mouros, cada comunidade em socorro dos seus membros sujeitos a poder religiosamente oposto, dava incentivos de guerra santa.
Camões revelou-se arauto de uma intervenção:
Gregos, traces, arménios, georgianos,
Bradando-vos estão que o povo bruto
Lhe obriga os caros filhos aos profanos
Preceitos do Alcorão, duro tributo…

Com fronteiras que para o lado europeu chegavam a pôr em perigo a cidade de Viena (e daí o marquesado dos Habsburgos) e do lado asiático dominavam até aos plainos iranianos, ocupando ainda a maior parte da África rnediterrânea, só um governo tirani-zante lhe podia assegurar paz, de resto sempre efémera e a estilhaçar-se aos primeiros sinais de fraqueza.
O papel de Serajevo na Primeira Grande Guerra, os sangrentos conflitos jugoslavos no pré e post-titismo, os conflitos israelo-árabes e iracoiranianos, as questões dos curdos, dos arménios e até dos chechenos, bem podem fazer-se radicar na heterogeneidade de um império que contranatura se manteve por cerca de mil anos e de um outro, ainda mais anti-natural, o otomano, que durou quatro séculos…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Na Europa, o signo imperial nasceu sob a égide dos filhos da Loba. Recordemos a origem, mantendo a narração latina.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaProca, rex albanorum duos filios, Numitorem et Amulium, habuit. Numitori regnum legavit, sede Amulius pulso fratre, regnivit. Deinde, cum eumsobole privare cuperet. Rheam Silviam, eius filium, Vestae sacerdotem fecit Haec tamen Romulum er Remum uno partu edidit. Tune Amulius ipsa in vinculo, conjecit, parvulos alveo imposuit et abjecit in Tiberim que forte tunc exundaverat. Sed, relabente flumine, eos aqua in sicco reliquit. Vastae tunc in iis locis solitudines erant. Tradunt lupam ad vagitum infantiam acurrisset: EOS LINGUA LAMBISSE, MATRISQUE MINISTERIUM SUSCEPISSE.
É afinal, a velha história.
Amulei destronou o irmão e cativou-lhe a filha. Todavia, esta, mesmo virgem de Vesta, concebeu de Marte e assim nasceram Rómulo e Remo.
Deitados à àgua do Tibre, sobreviveram; e uma loba, atraída pelos vagidos, perfilhou-os, tomou o mester de mãe…
Crescidos, fundaram a cidade. Rómulo traçou-lhe os limites. Remo saltou-os, dizendo: assim entrarão os inimigos em Roma.
Rómulo, lembrado possivelmcnte do exemplo do tio-avô, já que não deveria conhecer a história de Caim e Abel, liquidou-o, dizendo: assim morrerão os inimigos da cidade.
Não há mulheres, mas o rapto das sabinas findará a quarentena.
Houve necessariamente luta e os sabinos estão quase a veneer. Rómulo eleva a sua arma aos céus e promete um templo a Jupiter, que permanece impassível.
Mas as sabinas lançam-se entre os combatentes e fazem as pazes.
Raptae mulieres, crinibus passis, ausae sunt se inter tela volantia inferre: et, hinc fratres, inde viros deprecate, pacem conciliarunt…
A população crescia, o território tornava-se exíguo.
A pequena cidade tinha de lutar pela sobrevivência, começando obviamente pelos vizinhos.
Nebulosamente, passam os reis lendários: além de Rómulo, Numa Pompílio, Túlio Hostílio, Anco Márcio, Sérvio Túlio: os dois Tarquínios, já históricos. Anno trecentesimo trigesimo quinto ab urbe condita, Veientes contra romanos rebellaverunt. Dictator contra ipsos missus est Furius Camilus…
Como este, muitos outros heróis celebra a história, ainda nimbada de lenda: Coriolano, Cincinato, os trigemini Horácios, Cevola, Menénio Agripa, o diplomata, inventor e narrador da fábula dos membros revolados contra o estômago:
Olim, humana membra, cum ventrem otiosim viderent, ab eo discordarunt et conjuratio-nem adversus eum fecerant…
Os séculos rodam e uma potência concorrente emerge do outro lado do Mediterraâneo. Seguem-se as guerras púnicas. Caio Duilio obtém a primeira vitória naval; mas Aníbal estava já para surgir com o seu eterno ódio aos romanos, jurado na infância com as mãos em cadáver esventrado. Conquistador de Sagunto, vencedor em Canas e no Transimeno, acabaria vencido em Zama pela pertinácia de Cipião Emiliano e do delenda est Cartago.
As Espanhas e o Norte de África caíam assim sob o jugo romano que a terceira guerra púnica estenderia para Oriente.
Mais tarde vêm César e Augusto e com eles o Império continua a crescer.
Anno Urbis conditae sescentesimo nonagesimo tertio, o primeiro que mais tarde será imperador, é eleito cônsul com Lúcio Bibulo. Destacado para a Gália e a Ilíria com dez legiões, vence os helvécios que ao tempo se chamavam sequanos, conquista as três Gálias, avança para além do canal… Domuit omenm Galliam, que inter Alpes, flumen Rhodanum. Rhenum et OceanDum est et circuit, patet ab his et tricies centena milia passuum. Britannis mox bellum intuit…
Com o seu sucessor Augusto, as conquistas continuam, anexando-se o Egipto, a Can-tábria, a Dalmácia, a que outros juntarão a Judeia, a Arménia e os planaltos do Irão.
A excessiva grandeza do império e sobretudo a helenização de Roma no pior sentido do termo, cultivavam já o gérmen da decadência. Gracia victa ferum victorem coepit…
A cultura grega, que se impôs em Roma pela sua superioridade, trouxe também a degradação moral.
Juvenal, nas suas sátiras, atribui a esta grecização da cidade e do Império a raiz de todos os males.
Antes do furacão dos bárbaros são estes ventos, ou antes estas brisas de supercivi-1ização, de aspecto negativo que prepararão o aviltamento.
Eram os erotomanos que impunham à sociedade romana a sua decadência. Daí a interrogação de Umbritius:
Que faz em Roma quem como eu não sabe mentir nem efeminar-se? Eu que não posso suportar uma Roma grecizada?
Não há nada, para eles, estes celerados gregos, que esteja ao abrigo da sua lubricidade, nem mães de família, nem filhas virgens, nem o filho imberbe, à falta de melhor, a sua lubricidade satisfazer-se-ia com a avó do seu melhar amigo, ou com o avô…
Após sucessivas arremetidas, os bárbaros que começaram como servidores, passaram a aliados, depois até a condutores, acabaram por submergir todo o Ocidente do Império.
Foi quando Odoacro, chefe dos hérulos, depôs Augustulo, até no diminutivo do nome apenas arremedo da imperial autoridade.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Não nos ocupámos, como poderia supor-se dos estados minúsculos, que também os há, na enorme panóplia deste Velho Continente, repartido até demais atenta a sua escassa superfície, comparada, por exemplo, com a do colosso asiático, seu vizinho.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNão é de Andorra (com apenas 465 quilómetros quadrados), do Mónaco (só com dois), de São Marinho (com sessenta e um), do Vaticano (com quatro), de Vaduz (cento e cinquenta) ou do Luxemburgo (o maior entre os mais pequenos, com dois mil e seiscentos) que, efectivamente, falámos, mas das numerosas nações europeias saídas em regra do retalhamento de impérios e que apareceram, salvo uma ou outra excepção, na cena política, só no século passado ou mesmo neste, inclusive nos dias de agora.
O desmembramento dos impérios austro-húngaro e otomano, os restos até dos impérios nórdicos, ou os ajustamentos de fronteiras, geraram novos estados que cabem quase todos no conceito de pequenos.
Na Europa, a regra tem sido a cissiparização.
O único caso em que se verificou, ao invés uma fusão, é representado pela Itália que praticamente absorveu toda a Península, uma vez que a Vaticano e São Marinho, como já referimos, não tem expressão territorial.
De resto, é de crer que aos países saídos da divisão da Checoslováquia e da fragmentação da Jugoslávia, ocorridos nos nossos dias, juntaram-se muitos outros, gerados pelo inevitável estilhaçar da URSS, autêntica manta de nacionaIidades, cerzida bem contra a mãe natureza.
Fazendo um pouco de rememoração histórica e de peregrinação geográfica, seguindo, neste particular, o sol, no seu movimento diurno aparente, encontraremos a Grécia, a Bulgária, a Roménia, e a Albânia, saídas, no século passado, da decomposição da Sublime Porta, fenómeno de causas intrínsecas e potenciado do exterior, como o atesta, por exemplo, a campanha de Lord Byron.
Aliás, tratava-se de nações com forte individualidade histórico-étnica. A Grécia, por uma cultura única no mundo. A Roménia, como até o nome recorda, pelo grau de latinização a que ascendera no mundo antigo. A Bulgária, por ter chegado a ser émula de Bizâncio. A Albânia, com largas tradições no embate contra o turco, como quando, em 1451, a dois anos da fatídica queda de Constantinopla, o seu chefe Seanzer-Berg vence o sultão Amurade.
Para o norte, Finlândia e Noruega, os balto-russos estónios, letões e lituanos, a Dinamarca e a Islândia, excepção feita à penúltima, que já teve ambicões imperiais, são de data recente e de intermitentes independências.
Para Ocidente, Bélgica e Holanda ora unidas, ora separadas, ora independentes, ora subjugadas por vizinho poderoso, vêm cumprindo a sua litânia.
Portugal com quase nove séculos de independência é caso raro, senão único, sendo nas suas fronteiras, o estado mais fixo e antigo de todo o Continente, ou mesmo de todo o mundo. Tal como a Suíça, por força dos Alpes.
Na Europa marítima, deparamos no Atlântico, com dois estados integráveis no grupo:
Islânlia e Irlanda. E, no Mediterrâneo, com outros dois: Malta e Chipre, também saídos, como outros já atrás referidos, do turbilhão otomano.
No centro, há a Áustria e a Hungria, os checos e os eslovacos, a Sérvia, a Croácia, a Eslovénia, a Bósnia-Herzegovina, o Montenegro.
Por que sumúla de razões estes povos geraram países que resistem e subsistem?
João Amaral, versando particulannente o caso húngaro, deixou exarado:
«Independentemente dos inegáveis dons que um observador honesto tem o dever de atribuir a certos grandes povos, é claro que o simples facto de serem grandes – o representarem importantes massas populacionais – lhes assegura, só de per si, meios consideráveis de expansão, de poder, até de predomínio. Aos povos mais pequenos, de massa populacional reduzida cumpre tomarem-se grandes pela energia íntima, pela consciência de missão, pela vontade de resistência a quaisquer golpes de fortuna, de riscar um caminho através das provações e dos obstáculos…»
Volto, portanto à imagem de que são povos de qualidade.
Por seu turno, Milan Kundera, ele próprio filho duma pequena nação, pois é checo, escreveu:
«As pequenas nações. Não se trata de um conceito quantitativo. Designa uma situação, um destino. As pequenas nações não conhecem a sensação feliz de existirem desde sempre e para sempre. Todas elas passaram, num momento ou outra da sua história, pela antecâmara da morte. Sempre confrontadas com a arrogância ignorante dos grandes, vêem a sua existência perpetuamente ameaçada ou posta em questão; porque a sua existência é questão.»
Na sua maioria, as pequenas nações europeias emanciparam-se e alcançaram a independência ao longo dos séculos dezanove e vinte.
O seu ritmo de expansão é portanto específico… formando uma outra Europa que pode ser definida em contraponto por referência às grandes… Uma pequena nação pode chamar-se uma grande famí1ia e gosta de se apresentar como tal… Na língua do mais pequeno dos povos europeus, em islandês, família quer dizer obrigação múltipla e os 1aços familiares fios de múltiplas obrigações.
A noção de solidariedade revela-se, em corolário, muito mais actuante e viva nos pequenos estados, mesmo até para as grandes cruzadas.
E daí que o avanço turco sobre a Europa, depois da queda de Constantinopola tenha sido travado por pequenos povos: os hungaros, e albaneses, na frente europeia; nós, portugueses pelas navegações.
Retornamos a João Amaral:
«Assim enquanto magiares e albaneses enfrentam com memorável heroicidade o choque terrestre das hordas islâmicas e barram o caminho à invasão bárbara, nós concebemos e executamos o vasto plano marítimo que permitirá ferir o adversário no seu centro vital e reduzi-lo, por fim à impotência.»
A onda que avassalara impérios desfez-se face ao muro erguido por pequenas comunidades nacionais…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A vizinhança dum estado poderoso constitui históricamente um factor de risco, agra-vado enormemente se ao poderio se juntam ambicões expansionislas.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaA hegemonia sofre-se sempre; e, mesmo quando se fazem solenes e bem intencionadas declaracões de não intervenção, há o domínio económico, a exploração da matéria-prima, a atracção sobre a mão-de-obra mais qualificada e a tendência para a colocação dos excedentes de menor qualidade.
Pode enjeitar-se ou repudiar-se o absorcionismo politico-administrativo mas não deixarão de sobrevir as formas larvadas ou até invisíveis de dominação.
O que normalmente salva os pequenos países, rodeados de grandes potências. ou confinando com elas, são os jogos de equilíbrio de poderes entre aquelas.
Nós, portugueses, tanto como ao nosso temperamento, na verdade indomável, devemos a sobrevivência como nação independente, já lá vão quase nove séculos, ao receio de a Inglaterra, potência marítima, se ver desprovida de bases de apoio no Continente, e de a França, inimiga desde a divisão do império de Carlos Magno da parte germânica daquele colosso, temer o peso da Ibéria, se unificada, na balança dos Áustrias.
Mas, quando em vez dum vizinho poderoso, a história encurrala qualquer povo entre várias potências, o mais natural é que passe obrigatóriamente a ser parte do momentaneamente mais forte ou entao seja esquarecjada a benefício de todos.
As sucessivas partilhas da Polónia, os colapsos da Boémia, da Morávia, da Eslováquia, da Sérvia, do Montenegro, da Croácia, da Bósnia, a incerta sorte da Catalunha, do Milanado, da Alsácia-Lorena, em dados períodos históricos, não apresentam outra génese.
A Finlândia, situada entre a Rússia e a Suécia, vem intercalando as fases de independência com as de parcelas daqueles impérios.
A partir da guerra dos trinta anos, ou mais concretamente da sua fase nórdica, passou a Rússia a ser praticamente a única responsável pelos infortúnios do país das renas.
Da Finlândia preparou Lenine a Revolução, o que não o impediu de utilizar o País como moeda de troea na paz de Brest-Litowsque.
Como se sabe, ao dealbar da insurreição, vivia ele no exílio suiço.
Kroupskaia, a sua companheira, relata assim o que aconteeeu nesse dia 3/16 de Março (a dupla datação põe em confronto o calendario russo com o gregoriano) de 1917:
«Depois do almoço, no momento em que Ilicht (Lenine chamava-se Vladilir Ilicht Oulianov) se preparava para ir para a biblioteca, enquanto que eu acabava de arrumar a louça, Bronksi apareceu sobressaltado:
– Vocês não sabem nada? A revolução está em marcha na Rússia.»
Atabalhoadamente deu-lhes conta dos telegramas que acabavam de chegar em edição especial. Quando Bronksi se calou, foram à Praça ver os textos afixados.
Impõe-se a partida. Mas só os alemães lhe podem permitir o regresso à Rússia. Pois bem, pactuará com o verdadeiro inimigo, na circunstância, da sua Pátria.
Através dos socialistas alemães, é posto em contacto com o quartel-general do Kaiser, onde tudo se prepara com vista ao imediato regresso de Lenine e o seu corpo de agita-dores para a decomposição do espírito de resistência.
Pela Alemanha, depois pela Suécia, os proscritos na Helvécia chegam à Finlândia.
Dali e depois duma breve incursão a São Petersburgo é que dirige o ataque final.
Para além do mais, vai atacar o problema dos alígenos – polacos, estónios, letões e lituanos – que querem ver-se independentes; dos ucranianos, que exigem reformas, e até dos arménios que, apesar de viverem ainda aterrorizados pelo medo dos turcos, de que pouco antes haviam saído, não esquecem que são uma nação.
Mas a Finlândia é que seria a verdadeira moeda de troca.
Ali ficaria até à I Revolução de Outubro, até à conquista do poder.
Ouçamos o testemunho de Estaline:
«Então fomos acusados de espiões a saldo da Alemanha Imperialista.
As autoridades requereram a presença de Lenine e Zinoviev para serem julgados. Alguns, entre os quais Kanenev. aconselharam a obediência. Mas eu que conhecia o estado de espírito da reacção e sabia, por isso, os perigos que corriam os dois responsaveis bolchevistas se se apresentassem, convenci-os do contrário.
Fui eu quem tratou do disfarce de Lenine, colando-lhe a barba e o bigode e fazendo-lhe um penteado que o tornava irreconhecivel. Depois, ajudado por Sergio Aliliev, em casa de quem a cena se passou, acompanhei Lenine, através de ruas pouco frequentadas, até à gare marítima. O nosso dirigente, dali a pouco estava na Finlândia, onde ficou até à Revolução de Outubro, donde nos enviava conselhos, instruções e textos teóricos que nos projectaram para a vitória.»
Depois, apesar da grande indignação da França e da Inglaterra, assina separadamente a paz com a Alemanha, sua protectora como já vimos e que lhe forneceu os meios financeiros para manter a agitação.
O tratado foi assinado em Brest-Litovsk, em cinco de Março de 1918 e as condções impostas pelos alemães ao governo dos sovietes, as mais humilhantes e draconianas da história russa: instalação de forças de polícia alemã nos Países Bálticos, submissão da Polónia russa aos alemães, cessão de territórios à Turquia então aliada da Alemanha, um enorme tributo de guerra, evacuação da Ucrânia e da Finlândia.
Enfim, mais uma vez a Finlândia era usada ao sabor dos interesses das potências vizinhas.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Periodicamente surge ali uma esperança de independência quase sempre afogada em tragédia. Recordemos uma das mais tristes.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNaquele ano de 1830, a Polónia parece forte: exércitos bem treinados, finanças robustas, agricultura próspera.
A opinião pública europeia aprova as ambições de independencia e a coragem dos polacos roçava já pela lenda.
Infelizmente, falta-lhes um lider. O general Klopicki e o seu colaborador Krukowiecsi, que mais tarde o substitui, são antigos oficiais de Napoleão, esgotados pelas arrasantes campanhas do grande corso.
E, em 1831, enquanto que a Bélgica, definitivamente libertada passa, com o apoio da Inglaterra e da França, a reino independente, a Polónia é esmagada pela Rússia, após uma resistencia épica.
Em sete de Setembro, os exércitos do Czar apoderam-se de Varsóvia.
C’est la curée, la nouvelle (et non derniére) curée sur l’infortuné pays qui ne sait ni trembler ni ceder.
Mantemos no original a narrativa dum especialista.
E mais uma vez, a Polónia será submetida a uma repressão terrivelmente bárbara e os soldados russos vont déchirer à belles dents le pays vaincu, comme un quartier de chevreuil, sous les yeus indiferents de l’Europe. Et tandis qu’ils brulent des maisons, qu’ils fusillent des otages, le maréchel francais Sebastiani, a ce mot tristement célebre que resume la cruauté des temps: L’ordre regne à Varsovie (Mais urna vez utilizámos em directo a linguagem de Michel de Saint Pierre).
Depois em 1867, Alexandre II, ao tempo Czar de todas as Rússias, visitava a corte francesa, convidado por Napoleão III.
A visita suscitaria reparos nas bancadas do parlamento gaulês, indignado (e diga-se que com razão) já pela quarta partiIha da Polónia, decretada pelo Congresso de Viena, já pela opressão que se lhe seguiu.
Em consequência, o deputado Mr. Charles Fauquet, futuro presidente da Câmara e, mais tarde, do Conselho de Ministros, saudou, com estas palavras de reprimento, o visitante:
– Majestade, viva a Polónia!
Periodicamente, esquartejada pelo vizinho, de Leste, Sul e Oeste, aquele país é, por certo, o que, não só na Europa, mas por todo o Mundo, tem suscitado maior número de frases históricas. Quem se não lembra, por exemplo, da frase dirigida por Frederico II, da Prussia, à grande Catarina, da Russia:
– Quando Augusto bebe (referia-se a Frederico Augusto), toda a Polónia se embebeda.
Ou do finis Poloniae, dedicado ao herói nacional, Thadée Kosciusko, dado como morto em batalha, em 10 de Outubro de 1704; de «a ordem reina em Varsóia», pronunciada no Palais-Bourbon, a 16 de Setembro de 1913, pelo Marechal Sebastiani, ministro dos Negócios Estrangeiros; ou o Polónia Restituta, nome dado pelo Marechal Pilsudski, na véspera da ressurreição do estado mártir, em 1919, segundo as cláusulas do tratado de Versalhes.
Já neste século a Polónia de Casimiro, de Segismtndo, de Sobieski, de Estarislau Leszczynski, de Pilsudski, de Paderewski, sofreu o jugo dos soviéticos, mais duro do que o de todos os czáres e antigos dominadores, russos, alemães, austríacos ou suecos.
Mas não é menos verdade que a histórica resistência dos polacos a todos os tiranos se mantém indefectível.
Nos últimas décadas, apesar de a Igreja não ser deste Mundo, a eleição de Joao PauIo II e a sua peregrinação à terra patrum fortificaram ainda mais aquela fé que derruba montanhas. Tal como a nomeação, para Cardeal-Arcebispo de Paris, de um polaco de ascendencia judaica, Monsenhor Lustiger, filho de um mártir de Auschwitz.
Nao foi a Igreja que suscitou o aparecimento do Solidariedade e de Lech Walesa. Mas sem a sua benção silenciosa e longínqua, Varsóvia teria então sofrido golpes tão rudes como os de Praga e Budapeste.
A prudência russa teve as suas razões. A heresia polaca, relativamente à filosofia económica e social do bloco comunista, só foi tolerada porque os senhores do Kremlin temeram uma reacção espiritual que podia alastrar de Berlim às fronteiras do Cambodja.
Não é necessário recordar o massacre de Katin, a exterminação do ghetto de Varsóvia, ou a inssurreição popular de 1944, para se saber que o povo polaco é indomável: que prefere a miséria ou a morte à escravidão e que nada inveja da ocidental sociedade de consumo.
Os polacos sabiam que o Ocidente de então se assemelhava aos persas vencidos pelos gregos, aos gregos vencidos por Roma, ao desaparecimento do Império Romano do Ocidente, e, mil anos depois, ao de Bizâncio; ao da França em 1789, ou da Rússia, em 1917.
Aqui como na Roma de Juvenal, a única preocupação de governantes e governados eram panem et circenses.
Na Po1ónia havia outro espírito.
Em consequência dele e só por ele, foi o primeiro dos países de leste a libertar-se da tutela russa e das imposições do marxismo.
A fé católica e a influência do maior papa dos últimos séculos assumiram-se como elemcntos determinados, cadinhando a coragem de um povo ciclicamente submetido às mais duras provas.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Região onde o embate Oriente/Ocidente mais cedo e duradouramente se revelou, por ali, embora com frequentes oscilações se estabeleceu a fronteira entre impérios: primeiro os dois romanos; depois o bizantino e o sacro; finalmente, o austro-hungaro e o otomano.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNa sua função de Kraina (que significa exactamente limes ou raia) se manteve até ao fim da primeira grande guerra, terminada, como se sabe, em 1918, pela derrota dos impérios centrais (Alemanha, Austria-Hungria e Turquia) e perda de territórios, ou mesmo desmembramento, como sucedeu aos dois últimos.
O fluxo e refluxo das armas provocou a convergência dum autêntico mosaico étnico que, desde logo, torna o vocábulo (Jugoslavia, ou à letra, terra dos eslavos do sul) bastante falacioso.
Com efeito, ao lado dos sérvios, que efectivamente se podem reclamar de eslavos (título que também servirá aos montenegrinos e eslovenos), há que ter em linha de conta os croatas (de raiz germânica), os bósnios (de ascendência turca), os macedónios (naturalrnente bizantinos de filiação grega).
Como se vê, não havia correspondência entre as realidades estado e nação, já que a um estado se contrapunham, no mínimo, seis nacionalidades, sem falar noutros grupos de menor expressão.
A manta de retalhos étnica complicava-se ainda pela diferença de línguas, a oposição de credos religiosos, até a diferenciação de alfabetos.
Nascido como monarquia, ainda forma de governo mais capaz de aglutinar diferentes ou mesmo contrários, passou, após a segunda grande guerra e pela traição dos britânicos que abandonaram o general Mialovitch, para o regime da democracia popular.
Tito que fora sargento nos exércitos imperiais, caíra prisioneiro e fora catequizado pelos russos, que o protegeram na guerrilha antigermânica e antes se celebrizara como recrutador das brigadas intenacionais para a guerra civil de Espanha, tendo abatido os monárquicos daquele general passou a governar como satrapa o reino, como vimos já de efémera duração.
Mas era um pragmático. Embora comunista, cedo rompeu com Moscovo, havendo assinado, sob as benções de Washington, um tratado anti-soviético que conglobava também a Turquia e a Grécia.
Permitiu e estimulou até um tipo de economia mista, que, aliada aos proventos vindos do turismo e as remessas dos emigrantes que fomentou, e aproveitando ainda os meios financeiros propiciados pela América, conseguiu naquela Babel para além de um aceitavel nível de vida, uma convivência que, por ferreamente vigiada e disciplinada, obstou a qualquer conflito.
Mas, apesar de tudo, não havia homogeneidade em termos humanos ou de riqueza, já que o norte, por mais germânico e estar mais em contacto com o mundo não comunista, sempre se revelou mais desenvolvido.
A heterogeneidade vinca-se tambem ao nivel demográfico, já que não é raro encontrar-se uma bolsa rácica em zona tradicionalmente de outra etnia.
Mas ia-se vivendo em paz. Com a morte de Tito, as sementes de violência que se encontravam espalhadas por toda a àrea (apesar do ditado, não foi Deus quem separou as raças e as religiões mas os homens) irromperam abrupta e fortemente.
Ern 1990, a unidade jugoslava termina e começam os processos de independência.
No ano seguinte é a guerra.
O exército regular compunha-se praticamente só de sérvios que assim poderiam, à primeira vista, dominar os outros povos.
Mas não pode esquecer-se que Tito, em obediência ao seu passado de guerrilheiro na própria terra e de organizador do caminho secreto para a Espanha vermelha defendia o princípio do povo em armas, pela qual em todas as regiões existiam milícias, relativamente bem treinadas e até municiadas.
Em corolario, as condições de êxito relativizavam-se.
Mas, acima de tudo foram as simpatias de base rácica que determinaram os apoios internacionais e o desfecho (se é que o houve ou haverá alguma vez) do conflito.
Os croatas colheram as benções dos alemães, enquanto que a Rússia nao esqueceu o seu papel de protectora oficial dos servios.
Só que os gravíssimos problemas internos com que Ieltsin se debateu e a perda de protagonismo de Moscovo, a nivel mundial e particularmente europeu, tornaram a atitude deste pouco mais do que platónica, transparecendo apenas na solenidade de algumas declarações, logo esquecidas.
O nome de Serajevo assume-se, de resto, como fatídico, e gerador de conflitos de grande dimensão.
Talvez por isso no livro Vite et mort de la Yougoslavie, de Paul Garde, professor de linguística eslava em Aix-Ia-Provence, se escreva: «Este conflito faz-nos possivelmente entrar para sempre na nova desordem mundial». Para sempre…
A atribuição de carácter eterno num mundo, onde tudo, até o nosso planeta desaparecerá como tenda de uma só noite, mostrar-se-á certamente excessiva.
E pelo muito que, pelos séculos, têm sofrido os povos na Kraina aglomerados e pela tragédia que no nosso tempo sobre eles desabou, bem mereceriam que a paz se instalasse perenemente, ou ao menos até uma virgem voltar a ser mãe, para nos servirmos da revelação do oráculo de Capri.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A Europa nasceu sob o signo imperial.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaCom pés de barro, como na visão do chamado festim de Baltasar, foram-se, mesmo assim, os impérios que neste velho Continente se começaram a erigir no tempo de César, mantendo, na generalidede até fim da Primeira Grande Guerra, tendo-lhe alguns até sobrevivido.
A queda de Roma, no último quartel do século V deixou logo o fermento para três novas sedes imperiais: o bizantino (que, de resto, desde a tetrarquia já rivalizava com aquela), o franco (que terá atingido o seu zénite europeu com Carlos Magno, o Imperador da Barba Florida, de resto também precursor do terceiro) e o germânico que remontará no mínimo a Otão, o Grande, pai de um amplexo que tentou a fusão de dois mundos culturais através da instituição do Sacro Imério Romano-Germânico.
Mais tarde, viriam ainda a afirmar-se com apetência imperial a Prússia e a Suécia, com pretensões apenas em relação ao Continente; a Rússia, mais voltada para a Ásia; e as potências marítimas – Portugal, a Holanda, a Espanha, a Inglaterra, a França, a Bélgica e até a Dinamarca.
Outros impérios, não de raiz europeia, mas asiática, exerceram grande influênda no nosso continente.
Para além de hunos, mongóis, e tártaros, que passaram como relâmpagos, há a referir os califados Bagdad e Damasco, ou, acima de todos, o turco, a Sublime Porta do Grão-Turco.
Bizâncio, que depois se chamou Constantinopla, e, mais tarde ainda, Istambul, nasceu mesmo fadada para urn destino imperial, tendo sido por mil anos nó fulcral duma civilização, e, por mais quinhentos, da que lhe sucedeu.
Na Europa, a irrupção de nacionalidades operou a secessão, dando origem aos actuais estados da Grécia, da Bulgária, da Roménia, da Albânia e das repúblicas por que se cissiparizou a Jugoslávia…
Os czares russos e seus sucessores, sempre apostados na dilatação das fronteiras ocuparam-lhe extensos territórios na regiãoo caucásica, enquanto que os austríacos os haviam repelido de todo o cisdanúbio.
A Inglaterra e a França, empenhadas na expansão para além dos mares, apoderaram-se, a primeira da i1has mediterraânicas de Malta e Chipre (embriões de futuros estados), Palestina, Egipto e vastas parcelas das Arábias; enquanto que a segunda estabelecia zonas de influência ou impunha mesmo a sua soberania em zonas imperiais sobrantes do Norte de África e Próximo Oriente.
E até a Itália, país de recentíssima implantação (só em 1861, o Rei do Piemonte se faz aclamar monarca de todo o actual território, aliás depois de, no ano anterior, Garibaldi, com um exército de apenas mil homens, ter arrebatado Nápoles e Sicília aos Bourbons), ainda apareceu a tempo de ficar com uma parte dos despojos; os arquipélagos de Rodes e Dodecaneso nos extremos do mare nostrum; a Tripolitânia e a Cirenaica, que, fundindo-se, geraram a actual Líbia.
Aliado da Áustria e da Alemanha na Primeira Grande Guerra, havia de pagar, quando sobreveio a derrota, a factura sempre exigida aos vencidos, que, na circuntância se cifrou essencialmente na perda de terras.
Dos impérios continentais, só a Rússia, tendo embora sofrido pequenas desanexações, se não viu excluída dos grandes dominios territoriais na Europa e seus limes.
No intervalo entre dois grandes conflitos de dimensao mundial, as potências europeias consolidaram as suas posições para além dos mares.
Mas também esta dominação se revelou éfemera…
Em Ialta e Potdsam.,Estaline e Roosevelt tratavam de revoltar contra a Europa os territórios dos demais continentes onde a colonização estava em marcha, impondo aos povos que as não desejavam, nem para elas estavam preparados, ilusórias e precoces independências, que haviam de levar todos os flagelos aos povos supostamente emancipados.
O homem europeu que, genericamente, acreditava em vantagens recíprocas da sua acção junto dos pretos, amarelos e índios, viu-se contra vontade, liberto de ónus de civilizador.
Esquecia-se, assim, um dos mandatos do Evangelho: Ite et docent omnes gentes.
Esquecia-se também que a génese imperial da Europa nascera com a autoridade papal que se situava acima dos reis e dos povos e esteve na base do nascimento e consolidação de muitos reinos.
O papa encontrava-se efectivamente chefiando uma federação de estados, uma sociedade das nações, a que ele imporia a obrigação de estabelecerem por toda a parte o reino de Cristo, combatendo também pelo aumento da Cristandade.
Monarcas, principes, grãosduques, bem como outros poderosos senhores, embora de menor grau em soberania, buscaram a protecção da Santa Sé.
Uns procuravam protecção contra aspirarações hegemónicas de estados vizinhos (casos de Aragão e da Hungria), dos monarcas normandos das Duas Sicílias ou de Quieve. Outros pretendiam ver-se reconhecidos eomo reis por um poder superior, como Portugal ou a Boémia, as realezas da Sérvia e da Dinarmarca, os reinos cristãos que as cruzadas fizeram nascer no Próximo Oriente.
Outros ainda, como João-Sem-Terra pretendiam também controlar os desmandos dos seus barões. Aquele pobre rei da Inglaterra, em luta contra a França declarou-se vassalo da Santa Sé a quem pagaria anualmente mil libras esterlinas de censo, possivelmente por ver ali uma última esperança de sobrevivência.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Somos todos uns ingénuos que gostam de acreditar na patranha de que a União Europeia foi construída deforma romântica, com todo o povo europeu pondo-se de acordo para construir um melhor futuro comum.

João Valente - Arroz com Todos - Capeia ArraianaA realidade é outra: A União Europeia surgiu das elites empresariais e financeiras que procuravam alcançar um mercado comum para o qual necessitavam de uma moeda, o euro, que substituísse as moedas nacionais.
É por isso não resultou!
Um exemplo: A Acta Única, que estabelecia as condições prévias de criação da União Europeia, foi da iniciativa de Wisse Dekker, dirigente da Phillips, que se encarregou de reunir quarenta representantes «das maiores empresas europeias» e de preparar entre eles um documento que foi assumido pelo comissário Cockfield para a elaboração das 300 directivas em que se baseia a Acta Única.
Outro exemplo: A banca alemã também impôs que o marco fosse substituído pelo euro, de forma ao Banco Europeu poder controlar a inflação, principal inimigo dos bancos, porque desvaloriza o dinheiro, impondo também que não pudesse comprar dívida pública dos estados, e impondo ainda uma austeridade em que cada estado não podia imprimir moeda nem ter assegurada a sua venda a um banco central, como até então faziam, para terem antes de recorrer à banca privada.
Como se sabe, o negócio dos bancos é gerar dívidas aos clientes; é desta forma que, transformando os depósitos bancários em créditos a clientes, criam artificialmente moeda bancária e geram lucro.
Foi assim que os estados necessitando de financiar o défice dos orçamentos, recorreram a empréstimos públicos, criando a espiral das dívidas soberanas, que está nas mãos da banca e especuladores privados, e a qual continuará a aumentar porque os estados, face às politicas de austeridade erradamente aplicadas e geradoras de recessão, têm menos receitas fiscais, tendo de recorrer a novos empréstimos.
Foram pois os interesses financeiros e monetários das grandes empresas e dos bancos europeus que levaram à actual Europa.
Outra condição foi o tratado de Maastrich, que obrigava os estados membros a ter um défice público inferior a 3 % do PIB e ma dívida pública inferior a 60 % do PIB, o que constituiu um grande entrave ao crescimento económico e à produção de emprego, tudo medidas que o capital financeiro queria para prevenir o crescimento da inflação, que defendiam. Devia manter-se a 2 %.
A consequência foi que os países em recessão (por sinal todos periféricos), que antigamente podiam combate-la estimulando a economia, não podendo lançar mão aos mecanismos de compensação (V.G desvalorização da moeda para incremento das exportações) e não podendo competir com as empresas e bancas alemãs, foram perdendo tecido produtivo e capacidade de gerar receitas, enquanto os grandes grupos financeiros e empresas alemães foram acumulando grande quantidade de euros, que por sua vez emprestaram aos bancos e estados desses países periféricos, facilitando o crescimento da divida privada e pública destes países.
E esta política não foi inocente: Desta forma a Alemanha evitava a quebra das suas exportações, financiando a procura dos outros, apesar da capacidade aquisitiva das populações dos países periféricos estar em queda.
O mais irónico é que tendo sido a Alemanha a responsável por tudo isto, vem agora impor como receita de austeridade para debelar a crise, assente nos famosos quatro pilares do Pacto do Euro:
Competitividade com baixos salários; emprego com flexibilidade laboral; finanças públicas com diminuição da despesa pública e sistema financeiro com privatização da banca.
Tudo medidas que geram diminuição de procura privada, precariedade de emprego, diminuição de investimento e especulação financeira, e como consequência de tudo isto, aumento de desemprego diminuição de receitas fiscais, recessão e aumento da dívida.
São as mesmas receitas das políticas neoliberais que de há trinta anos para cá conduziram ao problema que agora querem resolver com aos mesmos métodos já testados na Irlanda, e que originaram uma recessão de 30%, quando o FMI previa um crescimento de 1%.
A diminuição dos índices salariais, geram diminuição de rendimento, capacidade aquisitiva, receitas fiscais e de emprego, é do mais elementar bom senso económico.
O crescimento económico da Alemanha, com a politica de La Fontaine (governo social democrata de Shroeder), deveu-se precisamente ao aumento da procura privada gerada pelo aumento do salário dos trabalhadores; não ao contrário!
Foram pois os interesses particulares das grandes financeiras e empresas alemães na criação do euro que criaram as condições para a actual crise.
E a politica de austeridade e restrição salarial imposta pela Alemanha foi a gasolina que a fez aumentar ao: diminuir a procura dos países periféricos, e financia-la com empréstimos às exportações alemãs, aumentando as suas dívidas.
E fê-lo ainda lançando mais gasolina na fogueira: emprestando, através do BCE à banca privada dos países periféricos a juros baixos, a qual, já em dificuldades por ter financiado as dívidas públicas e investimentos especulativos, em vez de financiar o tecido empresarial, estimulando o crescimento económico, comprou nova dívida pública a juros altos, dos estados, que com cada vez menos receitas fiscais, tiveram de se voltar a endividar.
Como se resolve o problema?
Gerando crescimento económico… aumentando o PIB!
E como se faz crescer a economia, quando o panorama é o do controle do défice orçamental, redução de receitas fiscais que condicionam o investimento, falta de liquidez nas pequenas e médias empresas que impedem o relançamento da actividade económica?
Muito simples:
a) O Estado, através da mudança do paradigma fiscal que é maioritariamente sobre o consumo (em queda) e carga salarial, para impostos sobre o rendimento, tributando a riqueza, incluindo a especulação financeira, a verdadeira beneficiária da crise, aplicando esta nova receita fiscal em investimentos produtivos (formação empresarial, investigação, educação, etc).
b) Aumentando paulatinamente os salários reais, para, através do aumento do poder de compra, estimular a procura, a produção e a criação de emprego.
c) Injectar liquidez na economia, financiando as pequenas e médias empresas, as verdadeiras criadoras de emprego e motores da economia, através da banca pública, que pode prosseguir políticas sociais, ao contrário da banca privada, só interessada no lucro e na especulação financeira.
d) Controle dos preços das grandes empresas prestadoras de serviços (energia, água, comunicações, etc.) quase monopolistas, que devido à sua posição dominante no mercado e condição de fornecedoras de bens essenciais, não influenciáveis pela procura, são as únicas beneficiárias da redução salarial, que lhes permite diminuir os custos de produção e aumentar a margem de lucro e continuar a financiar-se.
e) O Banco Central Europeu deve comprar a dívida dos estados (Eurobonds), com um período de carência, de forma a permitir-lhes aplicar os empréstimos no relançamento das respectivas economias, ao contrário de financiar a banca privada, como até aqui, que aplica o dinheiro para resolver os seus problemas de tesouraria resultantes da especulação financeira e na compra de nova divida pública a juros mais elevados.
Mas tudo isto exige bom senso e coragem política… coisas que não abundam, nem por estas bandas, nem nos órgãos de decisão Europeus…
E a Alemanha, vendo que os países periféricos dificilmente recuperam o puder de compra que lhes permita continuarem a comprar as suas exportações, já desistiu de financiar a crise do Euro, voltando-se para novos mercados, como a China e os EUA.
É precisamente neste sentido que devem ser interpretadas as recentes palavras da chanceler alemã, quando diz não estar a Alemanha interessada a continuar a financiar a Crise do Euro.
As empresas e financeiras Alemãs sugaram-nos quanto puderam, e agora partem para outras paragens, tal como as empresas capitalistas que explorando a nossa mão-de-obra barata e incentivos fiscais enquanto podem, se deslocam depois, oportunamente para os novos países emergentes.
Portanto, a vontade da Alemanha não é nenhuma em resolver a actual crise… a menos que seja obrigada!
E quem na Europa tem força para vergar a vontade Alemã?
Ninguém…
Por isso a União Europeia já é um cadáver com a certidão de óbito assinada…
Resquiet in pace!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

Possivelmente, nenhuma outra região europeia suscitou até hoje tantos conflitos ou se manteve numa linha de indecisão de soberanias como a Alsácia.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaBárbara até Júlio César, entrou pelas vitórias deste sobre Ariovisto, chefe godo abatido no ano de 58 antes de Cristo, na órbita romana.
Limes imperial, converte-se numa constelaçao de fortalezas, correspondentes a cidades que logo ganharam notoriedade: Argentorate (actual Estrasburgo), Três Tabernas (agora Saverne), Argentovaria (a actual Hamburgo), Salécio (a nossa Setlz).
Quinhentos anos depois, sobreviria à queda do Império; e Átila, seu inimigo frontal, procuraria destruir todos os sinais de romanidade.
Sofrendo as vicissitudes por que passaram as monarquias góticas, apareceria cerca de setecentos da nossa era como uma unidade politíco-administrativa regida por um dux. De entre os vários, assinala-se como indiscutivelmente o mais famoso, o pai de Santa Odila, que a História regista sob o nome de Etichão ou Estilicão.
Integrada no Império Carolíngio, viveu com ele uma era de paz e prosperidade que, todavia, se havia de revelar de efémera duração.
As lutas pela sucessão de Luís, o Pio, filho do famoso imperador da barba florida, marcam o início dum tempo de extraordinária confusão.
Em 840, com o tratado de Estrasburgo, redigido simultaneamente em latim e alemão, imiscui-se na questão entre Carlos, o Calvo, e Luís da Baviera, por um lado, e Lotaário, pelo outro.
Quando os três partem o império pelo tratado de Verdun, o primeiro torna-se rei da França, o segundo da Baviera, e o terceiro da Lotaríngia, onde se inclui a Alsácia. Este reino, à semelhança de cerca de quatrocentos que pelos séculos se haviam de estabelecer na região, foi de meteórica existência. Não tardaria a sobrevir Otão, o Grande, fundador do Sacro Império Romano Germânico, base e embrião de varios outros que como aquele integrariam a Alsácia.
Daí que a região sofresse mudanças de esfera política, até excessivamente dramatizadas.
Na primeira centúria do milénio que findou, realça a questão das investiduras que opõem os bispos à alta aristocracia, guiada pelos Hobenstaufen. Triunfantes estes grandes senhores, verifica-se um grande surto de prosperidade que atinge o climax com Frederico II, fundador de numerosas cidades e impulsionador das corporações de artes e ofícios.
Aos Hobenstaufen seguem-se os Habsburgos. Mas nem tudo corria bem por então. O império mais uma vez ameaçava desagregar-se enquanto Luís IV da Baviera, substituindo-se ao imperador, enfrenta Filipe o Belo, rei de França, que desafia tanto a autoridade pontifícia como a dos sucessores de Rodolfo de Habsburgo, seus vassalos e aliados.
Inseguras, as cidades alsacianas formam uma liga defensiva, a Decapolis, integrada por Colmar, Mulhouse, Munster, Turcheim, Kayserberg, Selestat, Obermar, Rosheim, Wissembourg e Haguenau.
A liga dá origem a um florescente estádio de desenvolvimento: as cidades engrandecem-se; o comércio e a indústria progridem, a burguesia e as corporações ocupam um espaço dia a dia mais importante no govemo da república.
Já se aproximam, no entanto, as guerras religiosas. A cizânia espalha-se, com cada uma das mais importantes cidades a adoptar seu credo. Estrasburgo torna-se luterana, Mulbouse calvinista, outras ainda houssitas, enquanto que em muitos permanece a fé cató1ica e dominam os prelados.
Posteriormente, a confusão revela-se ainda maior. Como se pode ler, em «Toda Alsácia» cuja versão espanhola estamos a seguir, a região cissipariza-se em numerosos e pequenos senhorios que só muito paulatinamente, aliás, se irão agrupando, dando origem aos chamados Estados Gerais da Alsácia.
As guerras religiosas agravam-se. Os jesuítas, dominantes em Molsheim atacam Estrasburgo, que como ja referimos se tornara um balularte do protestantismo.
Na Guerra dos Trinta Anos, os suecos, primeiro, e os franceses depois acabam por dominar toda a região.
Daí para cá, tem sido entre a França e a Alemanha que tem oscilado a soberania.
Na Guerra Franco-Prussiana, de setenta, o triunfo das armas germânicas deu o território ao Império, de que a Alsácia-Lorena haveria de fazer parte até ao primeiro grande conf1ito mundial.
Não obstante a oposição de parte da população, decantada nalguns poemas que correram mundo (antigamente, dizia o velho professor, a escola era risonha e franca…) a Alsácia, foi anexada ao II Reich do Hoenzolern e só com o Tratado de Versalhes, voltaria à soberania francesa, aliás por um período curto, pois cerca de doze anos depois viria a cair sob o domínio de Hitler.
Com o fim da segunda grande guerra e a construção da Europa, para livrar a região de velhos fantasmas, elevou-se Estrasburgo à dignidade de capital europeia.
E a famosa Argentun Ratum de Júlio César é bem o símbolo das feridas, que têm dilacerado esta velha mater de civilizações que é a Europa.
Marco de fronteira a evitar o avanço das tribos bárbaras que ainda desafiavam Roma, arrasada por Átila e o seu eterno ódio aos Césares; renascida das cinzas sob o nome, pela primeira vez, de Stratiburgum, símbolo das cidades burguesa dos fins da Idade Média; grande empório comercial quando o Reno era a grande via angustiada pelo espiríto da reforma logo nos alvores do luteranismo, ora do sacro império, ora dos Hobenstaufen, ora dos Honenpolern, ora do Habsburgos, ora dos Bavieras ora dos reis franceses, quando não mesmo da coroa sueca cimentou-se ali um europeísmo, difícil de fazer convergir em qualquer outra parte.
E se há no mundo região que mereça na plenitude o título, é efectivamente a daquela que Estrasburgo servia de capital, antes de ser elevada à dignidade de capital de toda Europa.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

No mosaico de nações que compunham a antiga URSS, estado, aliás, muito mais asiático do que europeu, ressaltam parcelas cuja filiação em Bizâncio não pode sofrer contestação.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaAlgumas situam-se para além do limite europeu, caso da Geórgia, política e culturalmente já individualizada no século XIII.
Missionários nestorianos, à compita corn católico-romanos originaram uma diocese em Tsifilis, sua capital, de então e agora.
Daí para cá, tem sofrido a sorte da maior parte dos territórios sitos na região, passando de império para império um pouco ao sabor da sorte das armas ou da ocasional genialidade de qualquer chefe.
Eis um exemplo.
O rei da Transxoniana, isto é no País Samarkand e de Sucara, Timur, denominado Hong, «O Coxo», tinha constituído um vasto império que ia do Afeganistão à Cilicia e que ele procurava ainda engrandecer. Todos os pequenos emires abatidos por Orknan e Bajavet, chefes turcos, encontraram junto dele um acolhimento caloroso. Em 1398 tinha tomado a Mesopotâmia, a Geórgia, a Arménia, uma parte da India… Este terrível bárbaro que, no entanto, se assumira como salvador da Europa, era Tamerlão.
Oscilando entre o Império Romano e o Imperio Otomano, até à queda do primeiro; zona de domínio do segundo ou do império moscovita, depois, eis a sorte da Geórgia, a sofrer as influências cruzadas daqueles tipos de civilizações.
No Século XX viria a celebrar-se por ser a pátria de Estaline, que, como satrapa, havia de governar todo aquele vasto mundo por algumas décadas.
Os autores que falam da arrancada vers la prise du pouvoir pelos comunistas, referem: «Un georgien de trente huit ans aux cheveux noirs et o pulents à la moustache fournie, aux yeus faux. Il se nomme Joseph Djougachivill, dit Staline».
Outro dos grandes construtores do marxismo, ou mesmo o mais importante de todos eles, também não nasceu longe.
Lenine, com o.nome batismal de Vladimir Ilicht Oulianov, veio, efectivamente, ao mundo em Simbirsk.
Mas a Geórgia já enquadrada na região caucasiana, apresenta enormes conotações com a cultura ocidentaI.
Chersonesa Taurica, na geografia antiga; terra do Tosão de Ouro, na mitologia grega, lugar onde se teria de ir raptar o velocino, a sua imagem reveste-se, para nós, de todos os cambiantes.
Sucessivamente dominada por romanos do ocidente e oriente, persas, árabes, tártaros. mongois e turcos, vêmo-la, mesmo assim, essencialmente ligada aos luminosos dias da Hélada, até quando jazendo sob a pata do urso moscovita.
Aqui mostra-se rival da Crimeia, minúscula língua de terra, hoje parte integrante da Ucrânia, a separar, no entanto, os mares Negro c de Azof.
Riviera russa, onde se situa, por exemplo, a aprazível estâbcia de Ialta, tão religada aos tratados que assinalaram o fim da Segunda Grande Guerra, viveu uma aventura histórica semelhante à da Geórgia.
Colonizada por mercadores gregos, abandonada à sua sorte, ante os tártaros, membro de pleno direito da Horda Dourada, canato, absorvida pela Russia, mas república autónoma de 1921 a 1945, manteve, no entanto, sempre uma forte individualidade, quer pela geografia que a predestinou, quer pela história que lhe fundiu em harmonioso cadinho, os traços de numerosas civiIizações, com particular relevância para a bizantina.
Na transição da Europa para a Ásia, limes, como recorda o Poeta, quando diz que ali acaba um mundo mas não nasce logo outro, antes tudo se passando por sucessivas ondulações, os seus povos despertaram sempre a solidariedade dos espíritos verdadeiramente ocidentais. Não os esqueceu Camões no seu terrível libelo contra os europeus acomodados.
Gregos, traces, arménios, georgianos,
Brandando-vos então que o povo bruto
Lhes obriga aos caros filhos aos profanos
Preceitos do Alcorão, duro tributo…

Desprovidos da força de Estados, podem, exactamente por isso, recuperar na Europa das Regiões o que não puderam garantir na Europa das Nações… E a Geórgia está, hoje, de novo, na ordem do dia
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Probe Galicia, no debes
Chamarte nunca española
que Españia de ti se olvida
cando eres, ai tan hermosa.

Catelhanos de Castela
Que é que fazeis aos galegos
Quandovão, vão como as rosas
Quando tornam vêm negros….

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaQue a Galiza tem mais afinidades com o Minho do que com qualquer outra parcela ou região de Espanha, ou das Espanhas, está dito e redito.
O rio que entre ambas as regiões corre, se consitui obstáculo natural, individualiza e harmoniza as duas regiões, únicas aliás que em todo o mundo produzem vinho Alvarinho, ou mesmo genecamente vinho verde.
A Galiza, identifica-se, na verdade, perfeitamente com o Entre Douro-e-Minho, região génese da indepêndência portuguesa.
Os galeguistas reconhecem-no:
Um minhoto é um antigo galego. A estrutura psíquica e mesmo a realidade sociológica não é diferente aquém e além rio. Portugal e a Galiza têm interesses comuns: A Galiza pela cultura e a história cristã está ligada a Portugal tanto ou mais do que a Espanha.
É um retalho do noroeste que olha para Portugal e Espanha com interesse nos dois Estados, se quer levar a cabo um desenvolvimento, social e político correcto. Por razões económicas e culturais bem evidentes, não pode prescindir de Portugal, que, afinal, também nasceu do mesmo retalho…
O que Miguel de Umamuno escreveu da Galiza, aplica-se também à província portuguesa.
Repare-se nesta passagem do mestre, extraída de «Por Tierras de Portugal y España»:
A paisagem na Galiza é feminina. Tanto pela beleza e graciosidade, como, porque nela se não vêem mais do que mulheres. Efectivamente, os homens emigram para terra ou para o mar.
Do nosso lado, o Brasil foi em grande parte constituído por gentes do alto Minho. De tal modo que, no Rio ou em São Paulo, em Olinda ou São Salvador, não se gritava, Aqui de-El-Rei, mas Aqui-de Viana.
Os pescadores de Alto Mar recrutavam-se preferencialmente na mesma zona.
Por seu turno a América Espanhola, desde o México ao Chile, passando por Cuba, valiam como Eldorado para os habitantes de além-rio:

Galiza está pobre
E a Havana me vou
Adeus prendas mias.
Adeus corazon…

A pesca longínqua não encontra também melhores praticantes, entre todos os espanhóis.
Aqui não haveria, pois, razões espirituais para a separação. Falharia totalmente a justificação de Correia de Oliveira:

Separei-me em tenra idade
Dos meus irmãos das Espanhas
Almas diversas apartam
Mais do que o mar e as montanhas.

Mais, como escreveu um grande mestre, a literatura galega, espelho da alma do seu povo, es la hermana mayor de la portuguesa…
Mau grado o seu eminente sentido prático, ditado até pela escassez de recursos, mais penosa ainda lá do que cá, eles são como nós endogenamente poetas.

De ser galego me debo alabar
Porque aprendi liricamente a cantar…

Na Galiza, há, efectivamente, uma milenária tradição vática.
Martin Codax apresenta-se como patriarca:

Mandado hei camigo
Ca ven meu amigo:
E irei, madre, a Vigo…

Ondas do mar de Vigo
Si vistes meu amigo?
E ai Deus se verá cedo!

Ondas do mar levado
Si vistes meu amado
E ai Deus se verá cedo!

Parece que estamos a ouvir trovar Dom Sancho I ou D. Dinis, João de Guilhalde ao Pero Soares Taveiro…
Lá como entre nós el bard y el cisne contaban su morir.
Entre as palavras especificamente portuguesas conta-se o vocábulo «saudade» tão nosso que, diz-se, não tem mesmo tradução em qualquer outra língua.
No Galego há o equivalente morrinha.

E Rosália vai mais longe:
Campanas de Bastabales
Cando vos oya tocar
Morrome de soidades

Cando vo soya tocar,
Campaniñas, campaniñas.
Sin que torno a chorar
Cando de lonxe vos oyo
Penso que por mim chamades
E das entrañas me rojo…

Mas não é so no verso que as almas se aproximam. Na Casa da Rua de Tróia, confundem-se os autores galegos com Eça de Queirós…
Enfim, são tantas as afinidades que melhor fora não ter existido a questão Conde de Trava e os condados, ao tempo incertos, a Galiza e Portucale tivessem feitos juntos a sua jornada histórica.
De qualquer modo, há uma forte contraposição entre a secular alma da Galiza, filiada em bardo celta, filho do vento e da chuva – mas do vento mareiro e a de Castela, nascida da aridez e do vento suão.
E o que afasta um galego dum castelhano aproxima-o de um português.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

No livro «A oposição em Espanha», da portuguesa Loy Rolim, pode ler-se: «Não é segredo para ninguém que na Idade Média, depois da invasão árabe as nacionalidades espanholas se formaram de maneiras diversas. No começo, a Catalunha foi uma marca franca do Império Carolíngio, – a marca era uma divisão administrativa do tempo de Carlos Magno – por essa razão, manteve laços muito estreitos com o sul de França, com a Occitânia, até à batalha de Muret, em que os franceses do norte desmantelaram a civilização albigense, na cruzada contra os cátaros. Nessa altura, a Catalunha encontrou-se separada da Occitânia e, estendeu-se pelo sul, pelas terras de Valência e pelas Ilhas Baleares. A expansão catalã nunca foi, contudo, uma expansão de caráter imperialista. Teve sempre um espírito federalista. Quando foi até Valência, por exemplo, conservou o reino de Valência com a sua autonomia. E fez o mesmo em relação à Maiorca. Mais do que imperialismo, tratava-se de uma expansão comercial e industrial. Sob este aspecto a Catalunha aparenta-se às cidades comerciais da Itália.»

Catalunha

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNa verdade, o exemplo vale. E, como se sabe, nunca Genova ou Veneza. cidades marítimas, Florença, cidade de banqueiros, ou Milão grande empório fabril, tiveram ambições territoriais. Numa época em que pela superioridade técnico-táctica que possuiam, facilmente poderiam ter ascendido a impérios pela conquista nos Balcãs, na Asia Menor ou no Norte de África, nunca abandonararn a natureza de cidades-estado as três primeiras; e Milão, se foi cabeça de território, o facto deveu-se a imposição dos monarcas que a incorporaram e não a determninação dos milaneses.
«Barcelona», disse Victor Hurtado, membro na década de setenta do Reagrupement Democratic y Socialista da Catalunya, «contentou-se sempre em ser o motor dum aglomerado de países, ao passo que, em Castela, foi a concepção do estado militar e administrativo que prevaleceu. Isto criou evidentemente uma diferença entre as duas sociedades, diferença esta que se tornou importantíssima no século XIX, dado que Castela ainda se não tinha adaptado nessa altura à nova concepção do mundo que era o capitalismo burguês, ao passo que a Catalunha já estava muito perto dela».
Nascida, embora, de preocupaçõs militares (já atrás se assinalou a sua função de marca, conquistada e mantida por Carlos Magno, tanto para desviar das suas proprias fronteiras o perigo mouro como para incentivar as cruzadas do Ocidente), a Catalunha marcou sempre uma posição muito mais relevante no campo económico.
Valência, as Baleares. uma parte da Itália, até Portugal, têm sido beneficiados pelos seus capitães de indústria. E entre nós há numerosas empresas cujos titulares ostentam nomes autenticamente catalães. Muitas vezes tratou-se de simples operários altamente especializados que aqui deram expansão a projectos que na terra natal, já com unidades fortemente implantadas, não poderiam ter feito triunfar.
No plano militar ou das simples alianças, contrariamente, a regra tem sido o fracasso ou a inoperância.
Possivelmente, desde Roncesvales, onde segundo a lenda, Roldão, o belo e heróico sobrinho de Carlos Magno perdeu a vida por um erro de táctica: ou seja a escolha dum desfiladeiro para acantonamento e evacuaçãao de tropas.
Mas tem sido frequentemente origem de conflitos, a pontos de merecer a designação de Alsácia-Lorena da Península.
Para o êxito da nossa Restauração, em 1640 encontrava-se sublevada contra os Áustrias, dos quais mais tarde seria aliada face aos Bourbons, o que, com a vitória destes, lhe acarretaria novas restrições e maior dependência.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Mais uma vez nos socorremos de Camões, seguindo o roteiro europeu logo no pórtico do canto III:

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaEis aqui se descobre a nobre Espanha
Como cabeça ali da Europa toda
Em cujo senhorio e glória estranha
Muitas voltas tem dado a fatal roda;
Mas, nunca poderá com força ou manha
A fortuna inqueita pôr-lhe nada
Que lha não tire o esforço ou ousadia
Dos belicosos peitos que em si cria

Com Tingitânia entesta e ali parece
Que quer fechar o Mar Mediterraneo
Onde o sabido estreito se enobrece
Com extremo trabalho do Tebano
Com nações diferentes se engrandece
Cercadas com as ondas do Oceano
Todas de tal nobreza tal valor
Que cada qual cuida que é melhor.

Tem o Terragonê que se fez claro
Sujeitando Penélope inquieta
O Navarro, as Atú-irias que reparo
Já foram contra a gente Maometa
Tem o Galego cauto e o grande Ebraro
Castelhanoa quem fez o seu Planeta
Restituidor da Espanha e Senhoras e senhores:
Bétis, Granada com Castela

Esta desabada mesc1a de povos, coexistindo sob a mesma soberania, não passa desapercebida a nenhurn dos muitos estudiosos que se tem debruçado sobre o caso.
Fidelino de Figueiredo, por exemplo, fala-nos das duas Espanhas. A sua obra, todavia, mais do que o exame em cada momento histórico, reflecte ciclos alternativos. A um período em que o ideal é unidade e terá encontrado sob os Astúrias e Franco a sua mais perfeita concretização, contrapõe-se outra em que a regra será a tendência para a dissiparidade ou, no mínimo, para o reconhecimento das mais plenas autonomias regionais.
A parte final da Primeira Republica, com governos em Barcelona, Valencia. Bilbau… simbolizava, por oposição, o periodo de retorno ao pré Fernando e Isabel.
Joan Sauret que foi secretário-geral da Esquerda Republicana, recordou em entrevista à portuguesa Lay Rolim os perigos do separatismo e até de um mal entendido federalismo.
E, todavia, trata-se de personalidade marcadamente de esquerda e que pelas suas ideias sofreu a prisão e o exílio e quase por milagre escapou aos campos da morte em Dachau.
Tendo pertencido às Juventudes Nacionalistas Catalãs em 1930, e sendo alto dignatário da esquerda ao tempo da vitória franquista, teve de exilar-se para França e sofrer as contingências da invasão hitleriana, com a consequente ocupação da maior parte deste país e a subordinação aos alemães da restante. Mas, para ele, o separatismo só terá tido justificação moral nos últimos tempos da monarquia e depois no consulado de Franco.
É que, no contexto espanhol revela-se extraordinariamente dificil obter soluções de carácter autonómico. Só circunstâncias muito especiais de privação de liberdades farão com que os povos se vejam de certo modo forçados a aceder à autonomia.
Sera preferível e desejavel, isso sim, o federalismo. Mas até este só se mostrará aceitável desde que catalães, bascos e galegos não julguem ser os únicos povos em Espanha com direito a leis próprias.
É certo que são aqueles três os que histórica e sociologicamente mais justificariam a posição. Mas não pode esquecer-se que Granada só foi absorvida em finais do século quinze; ou que houve reis e princípes em várias outras regiões: Valência, Baleares, Sobrabre, Gipuscos…
Com enfraquecimento do poder central, logo nos primeiros anos da República é que começaram as últimas grandes reivindicações autonómicas.
A Catalunha viu o seu Estatuta votado e aprovado logo nas Cortes de 1932; durante a Guerra Civil obtiveram os bascos o seu, tal como, de resto, os galegos. Mas a coexistência entre todos esses elementos e os demais, referenciados, aliás, por Camões nas estrofes com que inicíamos esta crónica, nunca se mostrou fácil. Alguém tinha de mandar, depois da unificação.
O centralismo não se impôs a não ser na medida em que a periferia o consentiu.
Ortega Y Gassett in «Espanha Invertebrada» não se coibiu de escrever:
Se a Catalunha e as Cascongadas tivessem sido aquelas raças indómitas que agora imaginam ser teriam dado uma terrível resposta a Castela quando esta começou a ser parlicularista, isto é, quando deixou de contar devidamente com ela. E esse abalo talvez tivesse despertado as antigas virtudes do centro e não se teria caído certamente na duradoura modorra de idiotice e de egoísmo que caracteriza os últimos trezentos anos da História espanhola, os que afinal se seguiram ao despotismo dos Áustrias.
Para o grande pensador, a quem terá de dar-se o desconto de ser ele próprio castelhano, o centralismo, palissiana verdade, só triunfou porque as populacões das orlas marítimas, a norte, ocaso, sul e levante das fronteiras pirinaica ou lusa, não tiveram força e discernimento para se lhe oporem.
Aliás, os movimentos de pessoas, de grandes massas ou mesmo só de individuos desgarrados, reforçam a tendencia para o centralismo e a redução das autonomias.
Não deverá esquecer-se, por exemplo, que os dois maiores centralizadores do nosso século, foram Primo de Rivera, marquês de Estela e Francisco Franco, um galego de Ferrol.
Até a portuguesíssima terra de Olivença, por tudo quanto hoje nela conta é governada de Madrid, embora por oliventinos que nascidos embora na velha cidade, só a ela se deslocam em ocasiões de cerimónia.
Como se vê, a Espanha não constitui, nunca constituíu, aliás, uma só nação.
Voltando a citar Camões, lembraremos antes que:
Com nações diferentes se engrandece
Todas de tal nobreza e tal valor
Que qualquer delas cuida que é melhor…

«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Os reinos da Europa medieva surgiram duma fusão de povo e solo, catalizados por um chefe de excepcional envergadura, por vezes mesmo exógeno. Reveste-se, em corolário, de alguma verdade a afirmação de que deve buscar-se nas regiões a génese dos estados.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNo caso português, foram os fidalgos que entre Douro e Minho ja tinham castelo e terra murada quando os barões francos desceram de pendão e caldeira nas hostes do Burguinhão, quem com estes novos ingredientes (apoio militar e incontestado comando) lançou as raízes da nação.
Na vizinha Espanha, a irrupção nasceu nas montanhas nordestinas. Os ingredientes vieram da fé, da memória dos concílios toledanos, da fereza dos cantabros, do génio militar dos leoneses (recordados de que o nome da sua cidade radicava num antigo acampamento romano, uma légio geminata com o a que na Gália deu origem a Lião), da crueza dos castelhanos (mistura de homem, cão e lobo, na lapidar caracterizaçao de Mestre Aquilino em «O Homem que Matou o Diabo»).
Além Pirinéus, depois de Clóvis ter consolidado a monarquia franca, por Carlos Magno elevada à dignidade de império, será este mesmo Aureus Carolus quem, no ano de 806, prevendo a morte, dividiu as terras sob seu ceptro, aliás segundo o costume bárbaro, dando origem a três novos reinos.
Todos os estados que a História registou dos Pirinéus aos extremos da grande planície germano-polaca encontram a sua raiz naquele acto de partiIha, causa da instabilidade que nunca mais deixou de verificar-se na região, com reinos a nascerem e a morrerem e quatro marcas: a da Catalunha, a de Viena, a de Milão e a da Alsacia-Lorena, a perturbarem a estabilidade.
A França, a futura Alemanha, o Império, a Mongó1ia da Europa, a Bélgica, a Holanda, a Itália (por mil anos dilacerada em lutas fratricidas), a Dimanarca, a Polónia, a Boémia, a Morávia, a Eslováquia, enfim os Estados que perene ou momentaneamente se criaram até à fronteira russsa, estavam ali em potência ou acto.
E a imprecisão de lirnites, bem como a memória das marcas pelos séculos hão-de servir de causa belli.
Nomes como Aquitânia, Neustrénia, Austrásia, Suábis ou Lombardia, que hoje não dirão muito à generalidade das pessoas, tiveram ao tempo grande voga, significando estados que nasciam e sucumbiam ao ritmo das divisões hereditárias ou da sorte dos exércitos.
Como o de Lotaríngia, Ostefália, Vestefá1ia, Ângria ou Nordalíngia.
Os paises nórdicos, hoje tidos como supercivilizados e que habitam a Escandinávia ficavam para além dos limites do Império.
Tinham a fama e proveito de terríveis selvagens. Eram mesmo um dos terrores cujo combate se fiava também da Divina Providência. Daí a inclusão nos hinos litânicos da prece: A furore normandorum libera nos Domine. E o termo normando aplicava-se genericamente a suecos e noruegueses.
Há ainda outras três zonas que escapam à semente de trigo lançada por Carlos Magno e à cizânia dos seus descendentes.
As grandes ilhas britânicas (Inglaterra, Irlanda e Islândia) o Transdanúbio, ao tempo dominada pelo Imperio Romano do oriente e cujos territórios apenas viriam a ascender a estados independentes com o desmoronar do Imperio Turco – sucessor daquele, e as imensidades da Rússia.
Bizâncio que converte os eslavos, converte-se depois ao cesarpapismo. De facto, o seu patriarca, o único já que os de Antioquia, Alexandria e Jesuralém residiam in partibus infidelium e em corolário se viam desprovidos de influência, juntamente com o irnperador, garantia a unidade num território imenso.
Deixando de lado por estar fora do nosso âmbito de análise tudo quanto fica para além do Helesponto, constata-se que na transição de milénios, lhe pertenciam os actuais territórios da Grecia, Bulgaria, Romenia, Albania e ex-Jugoslavia, o sul da Itália e ainda os estados insulares de Chipre e Malta.
Mas, como atrás dissemos, todos estes países deviam esperar pelo desmoronar não apenas do império bizantino mas do turco que lhe sucedeu em tais domínios, para assumirem veleidades de independência. E os casos de ilhas, entrementes transitadas para o império marítimo da Inglaterra só nos nossos dias é que viraram estados, aliás de duvidosa sobrevivencia.
De qualquer modo, foi da combinação do princípio étnico-histórico das nacionalidades como o da implantação geográfica dos povos que surgiram os estados: a Roménia, de tradição latina; a Bulgária, eslavo-bizantina; a Albânia, mais islâmica, tal como partes da ex-Jugoslávia (nomeadamente a Bósnia), a Grécia, ainda marcada pelos tempos em que a Helada dominava espiritualmente.
Na Rússia, só há pouco comegou a afirmação da força das nacionalidades que naturalmente levará também a profundas consequências políticas.
Os dois grandes estados medievais, com capital ao tempo em Quieve e Novagardia, parecem reconstituídos, não se considerando que os canatos porventura até coevos detenham força para se imporem como nações, até porque só lhes davam unidade, chefes de efémeros mandatos.
Mas, para além da Ucrânia e da Bielorrússia, tambem a Geórgia, a Lituânia, a Moldávia, a Letónia, a Estónia, a Arménia e evidentemente a Rússia, que até agora serviu de elemento aglutinador são estados europeus, mais germânicos, uns, mais eslavos outros (aliás os mais importantes e influentes), bizantinos ou aturquestados outros.
Enfim, geografia e história, elementos em toda a parte definidores dos estados e seus limites e que, quando contrariados, se vingam através dos mais terríveis cataclismos.
Basta lembrar os casos históricos da Catalunha, da Alsácia-Lorena, do Milanado. Ou o recente drama da ex-JugosIavia. Para não falar já das Guerras dos Cem Anos, dos Trinta Anos, dos Sete Anos, da Franco-Prussiana, das duas últimas grandes guerras…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

As escolas capitulares, que, como já vimos, funcionavam junto das sés catedrais, e os colégios sustentados nos conventos, com a natural evolução e o também aperfeiçoamento que se tenta imprimir a todas as obras, podem considerar-se o embrião para essas resplandescentes lâmpadas da cultura que, no século XIII, começaram a surgir e pronto se disseminaram por toda a Cristandade – as universidades.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaOs historiadores chamam-lhes irmãs, segundo o espirito, das catedrais. E a designação vale perfeitamente, na medida em que umas e outras assinalaram, de acordo com a sua índole e feição, duas das mais luminosas criações do génio humano.
A instituição tem uma raiz corporativa, união de mestres e discípulos para formarem uma comunidade do espírito: universidas magistrorum et scholiarium…
Para além da abrangência de todos os interessados, há também uma globalização de matérias…. rio de ciência, de todas as ciências que rega e fecunda, o terreno da Igreja ou lâmpada que resplandece na casa de Deus.
Na fase inicial, essa universitas de disciplinas divide-se par secções: as faculdades que eram quatro, a saber; Teologia, Decretais, Medicina e Artes, cada uma dirigida por um decano, e no conjunto pelo reitor, inicialmente o chefe da Faculdade das Artes, que, ao tempo, congregava um grande número de especialidades, ao ponto de, sózinha, contar o dobro ou mesmo o triplo dos alunos das outras, todas juntas…
Arrancando nos fins do século XII, princípios do seculo XIII, embora uma ou outra surgissem ainda no primeiro quartel do XII (caso, por exemplo de Montepilher, que parece datar de 1125), as universidades cedo constituiram uma rede bastante densa.
Em França, para alem da de Paris, possivelmente modelo para as demais, encontram-se várias outras. Efectivarnenle, Orleaes, Tolosa, Lião, Narbone, faziam gala das suas escolas já famosas por volta de 1250 da nossa era.
Na Itália, sabe-se da existência duma espécie de universidade ambulante, a Studium Curiae, que acompanhava a corte pontifícia; encontramos as de Salemo e Bolanha (esta gloriosa desde 1111), a de Napoles e Palermo, a de Pavia e Pádua (sendo de frisar que nesta ensinou o nosso Santo António).
Na Inglaterra, existiam Oxford e Cambridge, daquela destacada. No Império Alemão, as de Praga e Carcóvia, de Viena e Heidelberg. Na Península temos duas: Coimbra, em Portugal, e Salamanca, em Leão e Castela.
Esta última celebrizou-se mesmo no rifoneiro, já que Quod Deus non dat, Salamantica non prestal, o que o nosso Malhadinhas traduzia por Salamanca, a uns cura, a outros manca…
Como assinala um historiador da especialidade, em todo o mundo cristão se tornaram célebres estas cidadelas da inteligência. Conheciam-se os nomes dos professores que ali ensinavam e o aparecimento dum professor de grande fama era suficiente para arrastar multidões de alunos.
Mas as universidades também se especializavam. Para ser bom médico, era preciso estudar em Salemo. Os juristas saíam de Bolonha. Mas ninguem se fartava de ser bom teóIogo, se não tivesse estudado em Paris.
Todavia, o que os mestres e alunos apreciavam era o saber pelo saber, estando longe da concepção da república dos professores, na construção de Thibaudet.
A universidade, pela sua cultura e pela sua frequência, pelo seu espírito e até pelos seus patronos, valia como universalizante.
Os alunos não se circunscreviam a cidadãos da área geográfica ou sequer do país de implantação. Os nossos monarcas, por exemplo, sempre patrocinaram, atraves da concessão de numerosas e vultosas bolsas de estudo, a saída de estudantes para Bolonha ou Paris, Viena ou mesmo Heidelberg.
E portugueses houve que enriqueceram com suas magistrais lições o currículo das mais famosas cátedras do seu tempo.
De resto, entre nós, o aparecimento da Universidade suscitou o maior entusiasmo.
Camões toma o facto por extraordinário e dedica-lhe uma das mais sonoras estrofes de «Os Lusíadas». Vem no Canto III, quando se fala de um rei poeta:
Eis, depois, vem Dinis bem parece
Do bravo Afonso estirpe nobre e dina
Com quem a fama grande se escurece
Da liberdade alexandrina,
Com este o reino próspero floresce
Alcançada já a paz áurea, divina,
Em constituicões, leis e costumes,
Na terra franquila claros lumes…

Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
O valoroso ofício de Minerva,
E de Helicona as musas fez passar-se
A pisar do Mondego a fértil erva
Quanto pode de Atenas desejar-se
Tudo o soberbo Apolo aqui reserva
Aqui as capelas tecidas de ouro
Do bácaro e do sempre verde louro…

Os nossos mestres tinham universal prestígio. Um chegou a Papa sob o título de João XXI. De outro se dizia que assegurara a imortalidade per omnes rei publicae cristianas regiones. Outro era novo Cícero…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Vários historiadores, possivelmente deslumbrados com os resplendores culturais da alta latinidade e depois impressionandos com o desmantelamento do império, apodam a Idade Média de noite milenária da cultura.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaAquele período durou efecitvamente à volta de mil anos. Mas só poderá classificá-lo de noite cultural quem não queira conhecer o papel naquele sector prosseguido peIa Igreja, já directamente pelas suas próprias instituições; já incitando e apoiando realizações dos monarcas e grandes senhores.
Nas igrejas paroquiais, juntamente com as verdades da fé, aprendiam-se rudimentos de leitura, escrita e aritmética.
Nas capitulares, assim chamadas por funcionarem junto dos capítulos (nós hoje chamamos-lhes cabidos, com o que significamos corpos de cónegos de uma diocese), ensinavá-se o trivium e o quadrium, embrião dos actuais cursos de letras e ciências, compreendendo o primeiro a retórica, a gramática e a dialéctica, espraiando-se o segundo pela matemática, geometria, astronomia e música.
Depois, não pode esquecer-se a obra dos mosteiros, tanto na salvaguarda e recuperação das riquezas culturais da antiguidade, como na elevação do nível intelectual das populações.
Muitos conventos ostentavam até atraentes dísticos, convidando à alfabetização: «se queres aprender a ler, entra, que tens aqui – e de graça – o que procuras».
Não falaremos da Universidade, também naquele período surgida e instituição que, só de per si, relevaria todas as eventuais faltas que à Idade Média se pudessem assacar.
Nos domínios da produção artística, o Te Deum, aparecido ainda no primeiro milénio, bastaria igualmente.
Raras vezes, o espírito humano tem voado tão alto como naquele admiravel texto, onde da forma mais elevada se exprimem as três dominantes da alma cristã: a alegria do triunfo, a angústia perante o futuro sempre incerto e a imorredoira confiança em Deus.
«Nós Te louvamos, Senhor; nós Te confessamos. A Terra inteira Te venera, e os Anjos e os Arcanjos, os Principados e as Potestades, os Tronos e as Dominações. O corpo glorioso dos Apóstolos, na sequência dos Profetas, e o branco exército dos Mártires cantam em conjunto a Tua glória. E, por toda a Terra, a Igreja é confessada…
Senhor, só em Ti está a nossa confiança. Nós Te glorificamos pelos seculos dos seculos. Que a nossa súplica seja ouvida e que o nosso clamor chegue até Ti. Senhor, está connosco. Fica com a nossa alma…»
Texto sem autor identificado, atribuído por uns a Santo Ambrósio, por outros a Santo Agostinho, por outros a um obscuro prelado dos confins balcânicos, ressaiba a epopeia jamais ultrapassada.
E, se o Te Deum, simboIizando e expressando, embora, todo um milénio, se pode considerar ainda urna obra isolada, produto apenas duma mente genial, naturalmente muito acima do seu século, há já movimentos culturais que interessam senão multidões, ao menos a importantes massas populacionais.
O mais conhecido é, por certo, o Renascimento Carolíngio.
Achen, nome germânico de Aix-La-Chapelle, à francesa, ou Aquisgrano, à latina, a cidade das águas correntes, funcionou como a capital não só política e militar, mas também científica, de todo aquele extenso período em que Carlos Magno, São Carlos Magna, se revelou o primeiro dos chefes da cristandade e também o primeiro cristão.
A Escola Palatina, sediada na antiga vila do tempo de Pepino, o Breve, viu passar pelas suas cátedras, todos os grandes espíritos da época.
Ali, à sua volta, Carlos Magno, como verdadeiro precursor da Europa do espírito, reuniu tudo o que contava nos domínios da cultura, dos sábios, dos letrados, dos teólogos. Da Gália do Sul, vieram Agobardo e Teodulfo, este último refugiado godo das Espanhas. Da Inglaterra, Alcuino, porventura o mais brilhante de todos os grandes paladinos e primeiro-ministro espiritual do próprio Imperador. Da Italia, Paulo Diacono, Pedro de Pisa e Paulino da Aquileia. Da Irlanda, Clemente e Dungal. Dos países nordicos, Engilberto e Eginhardo, este também notável.
Onde quer que os seus esculcas intelectuais lhes apontassem urn nome célebre, Carlos Magno mandava recrutá-lo.
A todos retribuindo principescamente, mesmo no sentido rigoroso do termo, pois ao já referido Engilberto casou-o com sua filha…
Com menos brilho, embora, outras escoIas funcionaram também, nomeadamente, em Tours.
E, mesmo que na sombra, lançavam-se as bases para o grande renascimento que adviria logo no princípio da idade moderna e que só foi possivel porque os centros culturais da época precedente (que se teima em cIassificar de obscura) se mantiveram vigilantes e operosos.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A guerra movida ao latim, que foi praticamente banido do curso geral dos liceus na década de quarenta do século passado (efectivamente a chamada Reforma Pires de Lima manteve-o apenas para certas alíneas dos então sexto e sétimo anos) fez com que a generalidade da população não relacione o vocábulo convento com o seu elemento essencial.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaOs que se iniciaram nas complicadas operações da enunciação e conjugação dos verbos naquela língua, esses certamente que recordarão o venio, venis, venire, veni, ventum, que a muitos terá provocado o àspero contacto com a féruIa e vara, meios didácticos cssenciais numa escola que, por orbilana, se baseava na regra – a letra com sangue entra.
O prefixo com e a raiz ventum dão ao termo a ideia da reunião a que ocorriam, no caso, todos os vizinhos; e daí o seu caracter de assembleia que, na alta idade média, se substituiria ao município que, como já referimos, apresentava origem romana.
Mas da transição para a mescla produzida da fusão daquelas instituições com as leis e costumes dos invasores do império resultaram efectivamente outras novas onde a vontade popular se exprimia por voto directo.
E uma das mais interessantes e que mais profundamente haveria de marcar o relacionamento entre os habitantes da mesma área geográfica e influenciar futuramente toda a organização administrativa a que hoje chamamos autárquica foram as assembleias de vizinhos no período visigótico.
Os visigodos eram um desses numerosos povos germanicos que tendo visto no império uma carreira nele penetraram como servidores e de que, com o colapso de Roma, se tornaram senhores.
Efectivamente, nas grandes movimentações que se seguiram a 476, ano símbolo, mas impreciso quanto a extremações temporais, enquanto que os burgundios se fixaram em torno de Viena e na actual Suiça; os francos ou galos entre os Pirinéus e o Reno (os belgas, os aquitanos e outros cabendo na designação de Germanos misturavam-se com eles); os ostrogodos mostraram preferência pela Península Itálica e uma enorme multidão de bárbaros se quedavam ainda por aquilo que hoje se chama a planície germano-polaca, os visigodos venceram as dificuldades dos altos desfiladeiros e derramaram-se pela Ibéria de onde acabaram por expulsar suevos e vândalos, se é que estes últimos, povo mais nómada do que sedentário, não preferiram, da sua expontânea vontade, demandar o Norte de África e os suevos não rumaram, também, às Ilhas Britânicas lato sensu.
De qualquer modo, os visigodos lançaram profundas raízes, fundiram-se com os ibéricos, romanizados ou não, e influenciaram poderosamente toda a vida peninsular, através nomeadamente da sua tendência para os grandes debates que ocupavam desde as simpIes comunidades vicinais até aos concílios nacionais de Toledo.
Esta tendência para absorver de cada civilização o que dela melhor pudesse coutribhuir para o aperfeiçoamento do sistema permaneceu.
O município, instituição de base romana beneficiou, assim dos aportes do direito visigótico, reformulado e enriquecido, que viria a influenciar mais tarde as comunidades rurais da Idade Média e receberia até influxos da Cabília magrebiana, copiando parte das regras dos seus ajuntamentos.
Assim se gerou a tradição duma recta e regular administração municipal e depois também provincial.
E o município, lembrou Alexandre Herculano, representa, de modo verdadeiro e eficaz, a variedade contra a unidade, a irradiação da vida política contra a centralização, revelando-se a única instituição capaz de assegurar a liberdade das classes laboriosas e populares.
Aliás todos os povos, se os deixarem, tendem para a gestão autárquica, o que levou Toqueville a afirmar que o município e as instituições que lhe são similares (conventus publicus, comunidades medievas, ajuntamentos da cabília) parecem ter saído mesmo das mãos de Deus.
Só por seu intermédio se pode realizar o duaIismo tão fecundo de uma boa governação: autoridade ao alto, liberdade nas estruturas inferiores; competência dos governantes; fiscalização dos governados…
Na grande Europa que existe como realidade institucional e a que se pretende dar um corpo de leis, impõe-se axiomaticamente o respeito por essas comunidades de base e fará, por isso, algum bem recordar a mera legalidade positiva, existindo, não por qualquer delegação, mas por direito próprio…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Hoje fala-se da Europa das Regiões. Ao tempo da sua construção e nos mil anos que se seguiram, era a Europa das Monarquias.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaO primeiro reino a estabiIizar-se na nova ordem e que ha-de durar milenio e meio (os historiadores falam dos quarenta reis que em tão dilatado período a erigiram) foi a França.
A grande gesta começa no baptismo de Clovis por outros chamado Clodoveus, trazido à fé de Cristã por São Remígio, arcebispo de Reims, cidade ainda hoje célebre pela sua catedral.
Carlos Magno, São Luís, Filipe o Belo, Luis XIV, Luis XVI, Napoleao, Luis XVII!, os cristãos e os hereges, os momentos de grandeza e de desânimo, tudo ali se filia.
Aliás, Clodoveus como Caros Magno, mais do que cabouqueiros da simples França foram-no de todoss os estados da Europa Central, nomeadamente da Alemanha, da Bélgica, da Holanda, do Luxemburgo… De resto, ao tempo, as fronteiras mantinham-se imprecisas e a Germânia simbolizava toda uma vasta região.
Clotilde, a santa mulher de Clovis, era uma princesa burgunda. Pois a Burgundia estava dividida em dois reinos, com capitais, respectivamente, em Viena e Genebra.
A vocação cristã da França, na bela imagem de Lacordaire ou o seu génio do Cristianismo, para se usar o título devido a Lamartine, como toda a Gesta Dei per Francos, radica efectivamente naquela cerimónia batismal.
Na Inglaterra e nos extremos ultimos da Germania, onde a cristianizacão foi obra de monges, só corn a instituição de monarquias cristãs, os povos ganharam dimensão nacional
Tal como a Península Escandinava se moldou politicamente através das suas monarquias.
O mesmo sucedeu para além dos limites do Imperio. Partindo de Hamburgo, os missionários aportaram à Escandinavia, cristianizada por reis que foram santos ou receberam nomes de profunda influência religiosa: Cristiano tornou-se comum entre os membros da casa real da Dinamarca, Suecia ou Noruega, persistindo ainda nos nossos dias, ao lado de Olavo, este a radicar mesrna em monarca elevado à dignidade dos altares. A Boémia, que por longos anos foi monarquia independente, deve-se a dois grandes missionários, tambem eles canonizados, São Cirilo e São Metódio… O mesmo sucedeu à Morávia e à Po1ónia, ao Montenegro e à Servia, à Bulgária e à Ucrânia… De resto, os nomes mais em voga naquelas regiões rememoram os monarcas que delas fizeram reinos: Boris, Vladimiro, Estêvão, Venceslau, Simeão, de parceria corn as variantes lacais de João e José – nomes bíblicos – e Carlos ou Alexandre – nomes heróicos…
O mosaico de estados tem variado profundamente, excepções feitas a Portugal e a França, secularmente estabilizados.
A Rússia, a Alemanha e a Jugoslavia testificam-no. Na primeira, cabem mais de cem nacionalidades e mesmo só na sua dimensao europeia, canatos e reinos abundaram. Na Alemanha, há quatrocentas familias que descendem de reis de outros tantas paises. O drama jugoslavo é por demais conhecido.
A nós, interessa-nos, sobretudo, o que se passou aquém Pirinéus, onde passaram os vândalos, deixaram sólidos vestígios os suevos e se fixaram os visigodos.
Aqui, depois de uma autêntica guerra religiosa que atirava uns contra os outros os próprios membros da familia real, dá-se a conversão de Recaredo.
E, como acontecera em toda a parte, a conversão do soberano e das mais altas figuras do Reino ao catoIicismo, terá também na Espanha consequêcias decisivas.
Começa a fusã das raças, a unificação do direito, a criacão dum verdadeiro espírito nacional, temperado embora pelo cristianismo de sua essência universal.
A fé com efeito tudo domina. E até os reis, para o serem, precisam de um novo sacramenta, a unção.
Toledo torna-se o simbolo da nova realidade e da nova realeza. Os seus concílios volvem-se permanentemente fonte de direito e de aperfeiçoamento da fé e dos costumes.
E ao monarca passou mesmo a chamar-se oitavo sacramento da nação.
De Recaredo a Rodrigo, morto nas margens do Crissus, ante a invasão berbera, há uma notável pleíade.
E, quando das furnas cantábricas emergir o levantamento contra o árabe que a traição de uns e a cupidez de outros permitiu se instalasse na Península, são ainda descendentes de Recaredo quem dá o grito de insurreição, comanda a guerrilha e obtém as primeiras vitórias que, todavia, só se consumarão quando Gonçalo de Córdova, às ordens de Fernando e Isabel, outros dois descendentes de Recaredo, expulsar de Granada, Boabdil, descendente de Mafoma.
Mas, aquém e além Pirinéus, os Monarcas reconhecem, mesmo que, contra a vontade, o primado espiritual e até institucional da Igreja.
Não é outro o significado da coroação, através do cerimonial da sagração.
O monarca, para o ser (e assim sucedia entre os francos e os visigodos, os celtas e os britânicos), tinha de receber a unção da parte dum legado pontifício, em regra o bispo do local.
Este submisso ajoelhar de quem tudo passa a mandar, com direito de vida e morte até sob os súbditos e como dono único das riquezas que podia dar e confiscar, ante um prelado tantas vezes obscuro, simbolizava bem que no seu mosaico de reinos a Europa se afirmava como unidade espiritual.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Quando hoje se fala da Europa das regiões não pode esquecer-se o papel dessas pequenas unidades territoriais que foram as dioceses.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaOs bispos fizeram a França, escreveu José Maistrel (e nós poderemos generalizar a afirmação a toda a Europa Cristã) como as abelhas constóiem as colmeias.
Efectivamente, tudo o que fica para aquém da planície polaca foi administrtivamento moldado pelas dioceses, de criação logo imediata à romanização.
Vejamos:
Na Itália encontramos esta forma de organização político-religiosa em Roma (o Papa era e continua a ser também bispo da cidade eterna), Milão, Ravena, Aquileia, Capua, Benevento, Salerno, Nápoles e Amalfi. O reino da Borgonha (de onde há-de provir a nossa primeira casa reinante) seccionava-se em 35 dioceses, especialmente representadas pelas de Lião, Viena, Arnes e Besonção. Noutras partes da actual França, vamos encontrar as de Sena, Reims, Ruão e Tours, ao Norte; e as de Bordéus, Narbona e Auch, ao sul.
A Lotaríngia e a Germânia dividiam-se ao tempo em quarenta dioceses.
A Hispânia (nome comum na terminologia da época a toda a Península Ibérica) foi das primeiras parcelas a ser cristianizada.
Efectivamente aparece já mencionada numa epístola de São Paulo aos romanos (datada de Fevereiro do ano cinquenta e oito da escrita de Corinto) onde se assinala:
Quando me dirigir à Hispânia, espero ver-vos de passagem e ser, de lá, encaminhado por vós, depois de gozar algum tempo na vossa companhia.
A cristianização, iniciada como se vê sob o impulso do Convertido de Damasco, foi avançando com os progressos da romanização, sendo natural que a organização eclesiástica seguisse territorialmente a divisão administrativa.
Ora, recuando a Dioc1eciano, este criou aqui cinco províncias: a Lusitânia, com a capital em Merida; a Bética, com a capital em Sevilha; a Cartaginense, com a capital em Cartagena; a Galécia, com a capital em Braga; e a Tarraconense, corn a capital em Tarragona.
Não se sabe a data exacta (assim informa o erudito Padre Miguel de Oliveira, in História Eclesiástica de Portugal) em que a cada uma delas veio a corresponder também uma província eclesiástica e se atribui a categoria de metropolita ao bispo da capital civil.
Nesta fase, os territórios de Entre Douro e Guadiana pertenciam todos à metrópole sediada em Mérida, os de Entre-Douro e Minho a Braga.
Sufragâneas de Mérida, ao tempo dos visigodos, eram as dioceses de Pax Júlia (a actual Beja), Ulissipona (Lisboa), Ossonoba (nome correspondente, agora, a uma modesta freguesia do Algarve, Estoi), e, além de outras, que não importa referir, as de Egitânia, Viseu, Salamanca e Coria…
Egitânia, povoação de grande importância nas monarquias bárbaras e capital no tempo de Vamba V, disputava com Dume, capital de outra monarquia bárbara, a dos suevos, primazias de metropolita…
Enfim, ainda sob o império, ou logo nos primeiros tempos do furacão bárbaro, a Hispania, ou sejam os actuais teritórios continentais de Portugal e Espanha cobriam-se já de uma completa rede de dioceses e de paróquias, organizações em que através dos arcedíagos ou arciprestados aquelas se dividiam.
As dioceses tinham a sua capital na cidade que lhes dava o nome. Sedes se lhes chamava então.
A palavra evoluiu e acabou por, depois de uma síncope e duma crase dar em sé, termo actual.
A capital da diocese, a sua sede ou sé acabariam por se materializar na catedral, símbolo se não do poder, pelo menos da magnificência episcopal.
Catedral, cabido, báculo, passam a ser vocábulos de uso comum.
O primeiro liga-se à ideia de cadeira ou cadeirão:
Ali se achava sentado
Em funda meditação
Aquele grande prelado
Frei Nuno da Conceição

Cabido é forma divergente de capítulo, quer dizer exactamente corpo de cónegos duma cúria diocesana.
Do latim capitulum, diminuitivo de caput começou par significar divisão duma obra literária, mas na Idade Média tomou também o sentido de curta leitura do ofício divino ou o do lugar onde os religiosos procediam àquela leitura ou até o próprio corpo de religiosos…
Por seu turno, báculo, inicial e propriamente bastão alto, bordão ou cajado, tornou-se o símbolo da autoridade episcopal, chamando-se mesmo à posse conferida, investidura por báculo e anel.
Mas foram as catedrais que ficaram a eternizar materialmente a acção dos bispos dos anos mil…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Desfeito o Império e não consolidadas ainda as monarquias bárbaras, vivendo-se a decomposição do mundo romano e aproveitando-se as suas ruínas para edificar uma nova ordem, assistia-se ao espectáculo característico de todos os períodos de transição.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaA Igreja que muitas vezes providencia mesmo para as coisas do mundo, desempenharia aqui papel decisivo.
Qual era a situação na Europa, pergunta-se in «A Igreja dos Tempos Bárbaros», no momento em que se ia finalizar o século V?
E responde-se na mesma obra (paginas 127 e seguintes).
Materialmente, é apenas um mosaico de estados bárbaros. Na Itália, reina Teodorico, chefe dos ostrogodos que, após quatro anos de lutas destronou Odoacro e ficou a ser senhor único, não só em toda a Península Itálica, mas também na Sicília, na Récia, na Noriça, na Dalmácia e numa grande parte da Panomia… Na África, na Sardenha e na Córsega compensam a sua inferioridade numérica com uma política de terror, os vândalos.
Na Gália e na Espanha, os visigodos de Eurico são senhores de todo o espaço que vai desde o Liger ao sul da Andaluzia. Depois de terem feito recuar os suevos para o ângulo noroeste da Espanha, a actual Galiza,•e os cantabros para as suas montanhas, pensam em restabelecer em seu proveito, a unidade da Gália. Mas os burgundios ocupam o sudoeste do País… e ao norte restabelece-se a unidade, em benefício dos francos, desejosos agora da sua independência, graças a um rei ousado, que governa desde 481 e ao qual a história dará o nome de Clodoveu…
O retalho afirmava-se ainda impressionante nas ilhas britânicas, naquilo que hoje chamamos os países nórdicos e sobretudo, para além do Reno.
Mas, se a autoridade política se mostrava assim dispersa, errante e instável, os povos beneficiaram, não obstante, duma certa tranquilidade e protecção, dispensadas pela Igreja e fundamentalmente pelos bispos.
Para além do prestígio propriamente espiritual, radicado na sua origem divina e na superioridade da sua missão, só ela possuía quadros susceptíveis de propiciarem aos novos soberanos apoio logístico e técnico para as grandes tarefas da administração pública.
Aliás o homem que dizia missa e sabia ler latim passou a ser o protótipo do alfabetizado. O nosso clérigo, o clerc em francês, o clerk em ingles, o klerk em flamengo e antigo alemão, o diaca em eslavo (e nós ainda hoje usamos o termo diácono) significavam na origem o que escreve ou que sabe escrever….
Para além do enorme ascendente advindo desta enorme superioridade cultural, a autoridade eclesiástica chegava a toda a parte, através da organização das dioceses e paróquias.
Curioso notar que este último termo originariamente queria dizer lugar de refúgio em país estrangeiro, o que pretende expressar quando se passa a usa-lo na nova acepção que ao fim e ao cabo este não é o nosso mundo.
De qualquer modo, diocese e paróquia passaram a denominar a circunscrição territorial governada a primeira por um bispo e as segundas por vigários ou representantes seus (que outro não é o sentido de vicariato).
O papel dos bispos revela-se primacial:
«Representante de Deus na sua circunscrição numa época em que a única autoridade moral é a religião, delegado do rei cuja chancelaria assinou o diploma que o acredita, chefe muitas vezes designado da comunidade popular (que nenhum bispo seja dado a uma comunidade sem a concordância dela, haviam decidido as decretais de Celestino I e o metropolita antes de nomear um novo bispo ou este antes de designar um novo vigário tinha de consultar os fiéis) o bispo dos tempos bárbaros reúne em si as três possíveis origens de autoridade: Deus, o monarca e o povo.
E o bispo não se cinge depois a uma função meramente religiosa.
Acima das demais autoridades civis ou militares da sua circunscrição compete-lhe vigiá-las, repreendê-las, modificar-lhe as decisões, servindo de autoridade de recurso.
Mais, até materiais como o abastecimento geral, a limpeza das ruas ou as grandes campanhas que nós hoje chamaríamos de higienização ficam a seu cargo.
Depois, há toda a obra social propriamente dita.
Ninguém, a não ser a cúria diocesana se encarrega dos hospitais, das prisões, das escolas…
É ela quem, por igual, trata da assistência a viúvas e órfãos, e não somente aos órfãos pobres, mas também aos ricos para os libertar da voracidade das tutorias civis.
Depois, é a única autoridade capaz de enfrentar os poderosos locais, sempre propensos a excessos e até de enfrentar a autoridade real.
A preponderância do bispo revela-se, em corolário, o grande facto social dos tempos bárbaros, pois foi o episcopado que naquela época prestou à sociedade os mais relevantes serviços.
A contribuição das dioceses e seus titulares na construção da Europa assume um relevo verdadeiramente exceptional.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Bandarra, o poeta de sibilino estro, ou, se o acento mudar o profeta de lírica inspiração, anteviu nas suas congeminações, a traição ao espírito europeu perpetrada no seio até da instituicão que mais forte e impressivamente modelara, ou seja a madre que nos Céus está em essência.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaMuito forte bate o vento
Nas paredes da Igreja
Alguém caída a desja
No levantar vai o tento.

Premonitoriamente, apenas, já que Trancoso, a Raia da Guarda e mesmo todo o Portugal, incluindo Lisboa, se situaavam muito para além das fronteiras onde Calvino, João Huss ou Erasmo haviam lançado as suas teorias, Gonçalo Enes dera-se conta de que o Ocidente Cristão entrara em cissiparidade.
A quadra que acima se transcreve repercute, em linguagem mais chã o grito de Camões:
Ó Míseros cristãos, pela ventura
Sois os dentes de Cdamo desparzidos
Que uns aos outros se dão a morte escura
Sendo todos de um só ventre produzidos.

A invectiva camoneana que tão veementemente abre o Canto VII de Os Lusiadas ficou depois a servir de tema para os poetas de todas as gerações subsequentes:
Terrível, bem terrível bate o vento,
Já tremem as paredes da Igreja
De a derrubar fizeram juramento
Contra Ela e contra a Europa se peleja…

É que o combate contra o espirito europeu, desencadeado adentro da propria Igreja e atiçado até por alguns dos seus hierarcas, altos dignitários, mesmo, não mais parou.
Os inimigos da Igreja e da Europa obviamente que se lhes aliam.
Todos os pretextos servem: a autoridade pontifícia, o celibato ecelesiástico, a falta de democracia nas cúrias diocesanas, a selecção dos prelados, a detenção de bens materiais por comissões fabriqueiras, sés episcopais ou o papado, ligações ao poder político.
Mas não a todo, que o inimigo se situa apenas nas trincheiras do Orbs.
Os poetas, sempre prescrutadores da realidade, frisaram-no:
A César; o de César, disse Cristo,
Agora, os fariseus, dolo previsto,
Repetem de má fé o episódio
Cesareos só serão, eles o entendem
Aqueles que a lei de Deus defendem,
Tamanhos desatinos gera o ódio…

João Paulo VII, exactamente porque veio do Leste, o que lhe permitiu um mais perfeito conhecimento do que têm sido para a Igreja e a Europa, certos católicos e os que se lhes juntaram em movimentos pretensamente ecuménicos ou 1hes servem apenas de compagnons de route, não se deixa impressionar.
A Igreja não é nem pode ser uma sociedade democrática, mas sim uma sociedade estruturada. Nas primeiras, regem as maiorias; nas segundas, há outros criterios de direcção.
As arremetidas dos que pretendem esfarrapada a inconcussa túnica do Cristo vêm de longe.
Das que ocorreram para além da Europa ou no seu limite não vale a pena falar, pois transcendem as naturais contingencias deste artigo. O mesmo se diga quanto à Reforrna Protestante.
Na Europa propriamente dita, que se manteve fiel ao Catolicismo Romano, a primeira questão grave surgiu em França, por volta de 1831, com o caso L’Avenir e que terrninou corn a condenação de Lamennais. Nos fins do século passado foi o problema Sillon e em 1914 o movimento modernista, um e outro terminados igualmente pela condenação papal.
Por volta de 1960, foram os casos do jornal Témoignage Chrétien e da Jeunesse Étudiante Chretienne.
Prendia-se então impor ao Episcopado Francês, que condenara o jornal e o movimento, a tese de que, mesmo no seio da Igreja, são as maiorias que comandam, pelo que a Acção Católica se deveria determinar, não pelas recomendações da hierarquia, ou as directivas papais, mas sim pelo voto da maioria dos militantes de base.
Sociedade estruturada, isso não significa contudo, que deve furtar-se ao diálogo.
De resto, até pelo Evangelho, que considera irmãos todos os homens, o cristão tem o dever de se encontrar aberto ao intercâmbio permanente de ideias.
Mais, a única intransigência que lhe é imposta versa sobre a matéria da Fé.
Aqui é que não pode admitir-se o império das maioriaa ou aquilo que os progressistas chamam de ventos da História.
Aliás, a divisa ÓDIO AO PECADO, MAS PERDÃO AO PECADOR, parece ser a melho fórmula para a resolução de diferenças.
Mas não se pode ceder ao erro. O Papa como guardião da Fé foi instituído pelo próprio Cristo e a sua decisão tem de prevalecer sobre a vontade de quaisquer grupos, ainda que fortemente maioritários, de cristãos.
E, se o alarido vem de sectores clara e abertamente hostis à Igreja que surgem desarvoradamente em defesa da democracia para ela, o que os cristãos têm de fazer é pôr-se de remissa a indagar das razões por que os inimigos da Fé se dizem preocupados com uma matéria que lhes não respeita.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A cultura helénica transmitiu-se a Roma que, vencedora no plano militar e mais adiantada na técnica da administração, se viu, no entanto, civilizacionalmente subjugada.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaEra o triunfo da máxima Graecia capta ferum victorem coepit.
Miscegenados, os padrões dos vencidos e vencedores corporizavam uma nova ideia que se expandiu por onde se estabeleceram as legiões.
Leão, na Ibéria, e Lião na Gália, serviram de núcleos propulsores a Ocidente; para o Norte, ocupou-se a Britânia, ao tempo ainda na caligem das grandes trevas; a Leste abateu-se Vercingegegorix, símbolo da primeira leva de bárbaros, impenetrável a toda a ideia de civilização; a Sul consumou-se ao delenda est Cartago e a derrota de Antioco a execução de Cleopatra e o oitavo saque de Jerusalém.
Começava, assim, a tomar corpo a ideia expressa no poema:
Venho já
Desde Maratona e Salamina
E nem a morte.
Nas Termópilas
Me cortou a rota trinfante
Os elefantes de Aníbal
Não me feriram mais
Do que o punhal
De Décio Junio Bruto.
Inimigos, conheci-os
Chamaram-se Alcibíades e Marco António…

Povos hoje de alto nivel civilizacional, apenas saíram da barbárie devido a Roma.
Transcreve-se do Bellum Gallicum, também chamado de Bello Gallico:
Horum omnium fortissimi sunt belges, propterea quod a cultuaque humanitade. Privinciae longissime absunt, minimeque ad eos mercatores, saepe commeant, atque ea, quae animos effeminant important…
Os supercivilizados belgas dos nossos dias provém de avós que, ao tempo de César, se revelavam como o mais hostil dos povos a qualquer ideia de cultura ou progresso.
Fortíssimos de corpo, viviam para a guerra contra os vizinhos: proximique sunt germanis, qui trans Rhenum incolunt, quibuscum continenter bellum gerant…
Vítimas dos seus instintos guerreiros, eram os germanos que tinham a infelicidade de lhes ficarem próximos…
Mais pacíficos não se revelavam ao tempo os suiços, a darmos créto ao mesmo César: Helvetti, reliquos gallos virtude praecedunt, quod fere quotidianis bellum.
Os britânicos, a quem é dedicado o Livro V não colhem rnelhores referências, como, de resto, sucedia também aos habitantes da Gália até agora não referidos: e com cuja enumeração se abre o livro.
Toda a Gália se divide em três partes: uma habitada pelos belgas de que já nos ocupamos; outra pelos aquitanos; a terceira por aqueles que na sua língua se designam por celtas e na nossa por galos.
Foi César quem lhe deu nome e a tirou da barbárie:
Gália ali se verá que nomeada
Com os cesáreos trinfos foi no mundo,
Que da Sequana e Ródano é regada
E do Garona frio e reno fundo.

Guerreiros, como os que se bateram ao lado de Caio Júlio César ou foram destacados para guarnecer as fronteiras do Império e partiam porque se julgavam portadores de uma doutrina e mensageiros de uma civi1ização foram os principais cabouqueiros desta segunda fase da Europa.
«Partimos em defesa dos direitos sagrados que nos são conferidos por tantos cidadãos instalados lá longe, tantos anos de presença do nosso auxílio e da nossa civilização», assim começava a carta de Marcus Flavinius, centurião da Segunda Corte da Legião Augusto a seu primo Tertullus que havia ficado em Roma…
A concessão do direito de cidadania a todos aqueles povos que se encontravam dentro dos 1imites, aliás vastissímos, do império; e a instituição do município, que ficou como a pedra angular da administração romana completaram, depois, a obra dos conquistadores.
A Europa conservou essa sábia criação do génio romano que ainda hoje constitui para a generalidade dos países que a integram a base ou mesrno a única forma aceitavél de regionalização.
Depois, veio o latim. Sofrendo, embora, o influxo das línguas locais, veio a revolucioná-las tão profundamente que algumas, sobretudo as do Ocidente, se tornaram irreconhecíveis e foram mesmo totalmente substituidas pelo latim, adaptado embora às circunstâncias da região.
Alias, mesmo o latim erudito, talqualmente o usavam Vergílio, Horácio e Vário, na poesia; César, Tito Livio, ou Cornélio Nepos, na narração histórica; ou Fedro, no fabulário, impôs-se de tal forma que ainda há pouco se podia considerar autenticamente a língua dos europeus.
Por todo o Continente, a língua latina era falada e entendida. Entre nós, André de Resende lastimava que Gil Vicenle não tivesse escrito, usando-a, os seus deliciosos autos. Como em Itália os altos espíritos se insurgiam contra o facto de Dante não ter preferido para a Divina Comedia o mesmo latim. E também o povo iletrado…
A tal ponto que não havia pessoa culta que encontrasse justificação para que o Altíssimo Poeta usasse o italiano.
Este culto tera chegado mesmo ao ridículo. Em Portugal, até os gatos miavam em latim:
Mas o gato que bem sabe
O gatesco e o latino
Lhe diz meus, mea, meum
Em vez de miau, miai, mio…

Ridicularizado, embora, ou mesmo censurado:
Da mula que faz him, him,
Da mulher que sabe latim,
E do cabra que faz mé mé,
Libera nos Domine…

Foi ele o meio de comunicação entre as camadas cultas da Europa e a língua usada nas universidades e nas sebentas…
Pela edificação de cidades, a construção de pontes, a abertura de estradas (omnes viae ad Romam tendunt), a instituição do município, as línguas novi-latinas, Roma assumia-se como a segunda grande construtora da Europa.
A primeira havia sido a Hélada; a terceira veremos que foi a Igreja…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Vivemos numa ditadura, a dos mercados financeiros, debaixo da qual está a ser posta em causa a Democracia, a Liberdade e o Estado Social, estendendo por toda a Europa desemprego e pobreza.

António EmidioEsta crise que atravessamos, ou grande parte dela, não foi causada por gastos excessivos dos Estados, mas sim por estes terem resgatado os bancos e os especuladores. Por exemplo, o resgate bancário da Irlanda custou a este País 30% do seu PIB, aumentando as dívidas para níveis elevadíssimos. O mesmo aconteceu a Portugal e a outros países da Europa, aliás, a dívida pública dos países da União Europeia era até bastante baixa, antes de todos estes resgates a bancos.
Ao injectarem dinheiro nos bancos, os Estados endividaram-se, mas banqueiros, especuladores e políticos depressa encontraram maneira de solucionar este problema do endividamento: austeridade, reduzir o gasto público, aumento de impostos, desemprego e privatizações, no entanto, estas medidas não trouxeram, nem podem trazer crescimento. Ao não trazer crescimento económico, reduzem a capacidade dos governos pagarem as suas crescentes dívidas. As agências de qualificação e especuladores põem em causa a capacidade de alguns países pagarem as suas dívidas, isso obriga a pagar juros elevadíssimos quando vão aos mercados financiarem-se, tornando as respectivas dívidas impagáveis.
Que consequências irá ter tudo isto? A UNICEF já advertiu que as crianças irão sofrer imenso, principalmente nos países mais débeis económica e politicamente, devido aos cortes salariais e à redução das prestações sociais, juntando a isto o desemprego dos pais. Há milhares e milhares de famílias nesta situação dentro da União Europeia. Aumenta o sacrifico daqueles que menos podem suportá-lo, em Portugal quem mais sofre e paga os efeitos desta crise são os mais pobres.
Enquanto a austeridade varre esta Europa, o número de ricos no continente aumentou em 2011 cerca de 8%, aproximando-se dos três milhões e meio de pessoas que juntas possuem 10 biliões de euros!
O que penso disto tudo? Com o tempo iremos assistir à desintegração da União Europeia, iremos voltar ás nossas antigas moedas e ao proteccionismo. Os governos já não aguentam mais estes desafios impostos pela Alemanha. Depois, a suspensão do pagamento das dívidas e as políticas de austeridade nos países do Sul, irão dar como resultado a quebra dos grandes bancos franceses e alemães. Se o projecto alemão de União Europeia lhe sair bem, que não é mais nem menos disciplinar e explorar a classe trabalhadora europeia, destruir o Estado Social, a Democracia, e criar uma grande zona de exportação, dentro de dez anos, ou menos, haverá muita mais desigualdade em países como Portugal, o estado de pobreza atingirá níveis idênticos aos anos 50 e 60 do século passado.

Sinceramente eu não compreendo esta irracionalidade de levantar economicamente um continente só através da iniciativa privada e com empregos precários, só pode levar ao fracasso total ou a revoluções. Claro! Este procedimento em si, é uma ideologia, o Neoliberalismo. É uma ideologia tão irracional que os USA e a Inglaterra, irão ser os que menos ganharão da reconstrução do Iraque, dos 186 biliões de dólares para infra-estruturas, os USA e a Inglaterra ficarão com uma percentagem de 5%, o resto irá para as empresas privadas. Os Estados e os exércitos endividam-se, os soldados morrem, depois as empresas privadas ficam com o «bolo» todo. Digo e repito as vezes que forem necessárias e enquanto não houver censura: o Neoliberalismo, a ideologia vigente nos Estados Unidos e na União Europeia, não tem outra meta que não seja só o lucro das empresas, por isso está condenado ao fracasso.
Sabe querido leitor(a) qual é a chave do sucesso presentemente? Ter negócios privados com dinheiros públicos.
Chamam-me radical, dizem que não compreendo o Mundo que está em mudança, a complexidade das novas sociedades, que tudo muda, os homens, as políticas e as economias, até a natureza! A esses e essas respondo-lhes com Galileo «Tudo é fácil de entender, o que há que saber é que mecanismos movem as coisas», os mecanismos sei eu quais são…
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

Ao iniciar, perante a corte de Melinde, a narração da Gesta Dei per Lusitanos, Vasco da Gama, em obediência ao princípio da interdependência entre as duas disciplinas ou de que a história se assume como a geografia em movimento e esta como as gerações estáticas, começa por declarar:

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana
Mas, porque que nisto a ordem leve e siga
Segundo o que desejas de saber;
Primeiro tratarei da larga terra,
Depois, direi da sanguinosa guerra…

E, porque Portugal aparece descrito exactamente como a mais nobre das parcelas desta velha mater de civilizações, neste passo:
Eis aqui quase cume da cabeça
Da Europa toda o Reino Lusitano.
Onde a terra se acaba e o mar começa
E onde Febo reposa no Oceano.

Atrás vimos os limites sul, ocidente e oriente.
Acrescentemos um especial ao nordeste, terra gélida:
Lá onde mais debaixo está do pólo
Os Montes Hiperbóreos aparecem
E aqueles onde sempre sopra Eolo
E com o nome dos sopros se enobrecem
Aqui tão pouca força têm de Apolo
Os raios que no mundo resplandecem
Que a neve está contino pelos montes,
Gelado o mar, geladas sempre as fontes.

A perífrase camoneana encontra-se ainda hoje consagrada em qualquer vulgar compêndio de geografia.
Concisamente, reza-se, ali:
Norte e Ocidente, Oceano Atlântico,
Sul, Mediterrâneo,
Orientes, Montes Urales…

Saber se a tradição geográfica corresponde à cultural ou se, bem pelo contrário lhe é frontalmente oposta, dá matéria para mais intricadas lucubrações.
O poeta anteviu a dificuldade. De tal forma que leva onze estâncias a enumerar e referirr, apenas sintéticamente, a mescla de povos, crenças e ideias que cabem no mais pequeno, territorialmente falando, dos continentes: citas, lapões, rutenos, moscos, livónios, sarmatas, marcomanos ou polónios, saxões, boémios, panónios, traces, macedónios, gregos (e este simples nome encerra já toda uma enorme diversidade de sub ramos), dálmatas, os mil e um povos da Península Itálica, galos, britânicos, espanhóis…
E quanta a estes, há também uma larga diversificação:
O arragonês que se fez claro
Sujeitando Penelope inquieta
O navarro, os astures, que reparo,
Já foram contra a gente maometa:
Tem o galego cauto e o grande e raro
Castelhano a quem fez o seu planeta
Restituidor da Espanha e senhor dela:
Bétis, Leão, Granada, com Castela…

A União Europeia enfrenta assim uma dupla dificuldade: até onde vão os Iimites geográficos do Continente e quais os povos que autenticarnente se podem reclamar de portadores de uma cultura e tradições verdadeiramente europeias…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Repetidamente se tem afirmado que a Europa é, acima de tudo, uma unidade civilizacional.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaGeograficamente, os limites têm alguma coisa de impreciso e oscilante, não se identificando a verdadeira Europa com a dos compêndios ou a dos literados.
Detenhamo-nos na de Camões:

Entre a zona que o Cancro senhoreia
Meta setentrional do sol luzente
E aquela que, por fria se arreceia
Tanto como a do meio por ardente
Jaz a soberba Europa a quem rodeia
Pela parte do Arturo e do Ocidente
Com suas salsas ondas o Oceano
E pelo sul o mar Mediterrano.

Pela parte donde o dia vem nascendo
Com a ÁSIA se avizinha, mas o rio
Que dos montes Rifeioa vem correndo
Na Alagoa Meotis curvo e frio
As divide e o mar que fero e horrendo,
Viu dos gregos o irado senhorio
Onde agora da Tróia Triunfante
Não vê mais que a memória o navegante.

Como na tradição geográfica, o limes fixa-se a norte no Oceano, a sul no Mare Nostrum, a ocidente outra vez no mar Atlântico e a levante no rio Ural e mares de Tróia.
Mas será esta a verdadeira Europa do espírito e da solidariedade social?
Mitologicamente a bela Europa nasceu fenícia: filha de Agenor e Telefasa; irmã de Fenix, Cilix e Cadmo, o dos dentes esparzidos.
E da Ásia Menor rodou mesmo para o Norte de Africa: Urbe antiqua fuit/Tyrii tenuere coloni/Cartago…
À dimensão mítica, seguiu-se a do Império Romano. Vieram depois as de Carlos Magno e de todos os Otões. Durante séculos, os cartógrafos omitiram as terras para além do Danúbio. E para alguns pensadores, os mapas estariam certos: «Essas paragens ou nunca tiveram cunho europeu, ou cedo vieram a perdê-lo; desapareceram do devir histórico por largas centúrias; ficaram desertas, abandonadas: bosques frios, noites de lobo…
A verdadeira Europa será, de qualquer modo, a que se confundiu com o Orbs Cristianus da Meia-Idade. Do milénio que transcorreu entre as quedas das duas cidades imperiais (Roma e Constantinopla), os séculos construtores vão de 1050 a 1350, tempo de consolidação da República Christiana, a única União Europeia verdadeira até hoje conseguida. A Cristandade, que não a Igreja, e é bom não confundir as duas realidades, tentação de muitos (até bem intencionados), visava uma preocupação essencial: unificar.
Como acentua Daniel Rops, in «A Igreja das Catedrais e das Cruzadas», impôs-se então aos baptizados o sentido de uma profunda unidade.
Virgil Gehorgiu, na obra «A Juventude de Lutero», exprimia-se assim: «A palavra de ordem era REDUCERE AD UNUM: Urn só chefe: o sucessor de Pedro; uma só língua: o latim; uma só lei: a da Igreja».
Ou numa outra passagem de outro autor: «L’ideal etait de faire dependre toutes les formes de vie, avec toutes leurs valeurs et toutes leurs, vertues non pas liés, mais vassalisées, de La Cretientée…»
Todos são um corpo em Jesus Cristo, enleando-se as duas criações de Santo Agostinho: a Civitas Dei e a Civitas Hominum, quando mesmo esta resvalava para a Civitas Diaboli
Maritain apelidou esta visão de utopia teocrática, até porque guiada por santos e místicos.
Mas do que não pode haver dúvidas é que foi esta a verdadeira génese da Europa.
É certo que as actuais concepções se revelam quase antiéticas. Tanto como as da mitologia às da Igreja…
Na sociedade medieva, as relações entre os homens não eram impostas por simples exigências humanas, mas, acima de tudo, por factores religiosos. 0 Homem, em si mesmo transitório, era, porque integrado na Cristandade, parte de um tempo eterno, como que divinizado pela sua absorção no Corpo Místico. Os caminhos de Deus, mesmo quando se trilhavam as veredas do Diabo, eram a meta. A consciência do carácter efémero da vida, a convicção de que tudo na terra desaparecerá como tenda de uma só noite, a ideia de que do nascimento à morte apenas se preparavam os quatro novíssimos, dominavam a vida do homem medievo, autenticamente europeu: pertencesse ele à ordem dos bellatores (guerreiros e políticos), laboratores (os de todas as demais profissões), ou oratores (que faziam o trânsito terreal, rezando, meditando e contemplando).
São estas, queira-se ou não, as raízes espirituais da Europa, bebidas no Orbs Cristianus.
Vieram, depois, outras ideias, que hoje são também património espiritual de nós todos e cuja conciliação se torna, por vezes, bem difícil.
Desfeita aquela unidade, que só utopicamente existiu, a Europa vive nostálgica dessa idade, para si de ouro.
Pela hegemonia política ou económica, por vezes mesmo pela conquista militar, nunca mais se perdeu a ânsia de a refazer.
Fenómeno espiritual é ao espírito que cabe a sua reconstituição. Não, obviamente, à maneira medieva, que o mundo não pode viver duas vezes o mesmo momento.
Mas o espírito sopra onde e quando quer. E parece ter chegado a hora, para repetirmos com Victor Hugo: «Saudemos a aurora abençoada dos Estados Unidos da Europa».
Mas não faz mal recordarmos as raízes, até para prevenir que, como na mitologia, gere monstros.
O Minotauro nasceu, efectivamente, do adultério entre a Europa e o Touro que disfarçava Zeus.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Poetas e prosadores, ensaístas e filólogos, não se têm dado sossego na análise e aprofundamento do conceito de mito.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaPara Fernando Pessoa o mito é o nada que é tudo, para Almeida Garrett, trata-se de palavra grega que em tudo se mete e com a qual se procura explicar o que não tem explicação; os dicionários consideram-no feito fabuloso atribuído a divindades ou personagens que são divindades desfiguradas, para ensaístas, trata-se de narração de factos ou tempos que a história não esclarece e contendo ora um facto real convertido em noção religiosa, ora a invenção de um facto com o auxílio de uma ideia.
Mais aprofundadamente, há quem o defina como preciência, ou seja como um estádio que acabará por desembocar no conhecimento racional, depois de visionado profética e simbolicamente.
Quanto à Europa, numerosos mitos constam da Epos: o do nascimento (filha de Agenor e Telefasa, reis para lá do Ponto Euxino); o das suas relações de parentesco (irmã, pelo menos, de Fénix e de Cadmo); o de objecto de rapto, atribuído a Júpiter disfarçado de touro; o do encontro das tábuas do destino; o da rememoração de êxtase genesíaco e o invento da vaca amoldável; o do nascimento do Minotauro; a cornucópia da amalteia…
Esta última, por símbolo de todas as abundâncias, parece ter ficado para sempre ligada à ideia de Europa.
Assim, pelo menos, a têm encarado os filhos dos demais continentes, em corolário a ela recorrentes nas épocas de crise.
Aliás, a imagem vem de longe e nem sequer Camões, mau grado a sua precária existência, lhe sofreou reflexos.
A de portadora, não das tábuas da lei, que talvez mais legitimamente se podia arrogar, mas de detentora das chaves do destino mundial é prerrogativa que se julga real, até quando os planos de domínio se gizam extramuros, como aconteceu depois da Segunda Guerra Mundial com os eixos do poder desfocados para a América ou a Rússia, mais asiática que europeia.
Aqui, regressa-se a outro mito: o das origens. Filha de Fenícios, irmã da própria Fénix, a Europa sempre guarda alguma coisa de asiático, mesmo que seja por simples reacção.
Cadmo também deixou marcas. Mais uma vez nos socorremos de Camões:

Ó míseros cristãos, pela ventura,
Sois os dentes de Cadmo desparzidos
Que uns aos outros vão dando a morte escura
Sendo todos de um só ventre produzidos.

As guerras entre europeus, os mestres as apelidavam de guerras civis. Por vezes, a identidade de objectivos assume a natureza de falácia.
Eu e o meu Primo Francisco I, dizia Carlos V, temos uma ideia que nos une: ambos queremos Milão… Só que esta união gerava o fratricídio.
Simultaneamente, fastos e nefastos se revelavam também os mitos ligados ao touro joviano e suas repercussões.
A Europa corre o mundo sobre o rapto de Júpiter; ou nostálgica de genesíaca sensação… suas redomas.
As atitudes diametralmente opostas nasceram da mesma ideia.
A vaca amoldável em que a Europa se refugiava para novamente atrair o touro divino assemalha-se às couraças materiais com que pretende acobertar-se; ou a desvirtuamento espiritual que algumas vezes torna a regra.
União monstruosa gerou para a lenda do Minotauro, para a História tem já sido a origem de inenarráveis tragédias.
Os conflitos internacionais (e bastará citar as chamadas guerras dos cem, trinta e dos sete anos, as campanhas napoleónicas, a primeira e segunda grandes guerras), as questões religiosas e ideológicas que repetidamente têm ensanguentado a túnica que se pretenderia branca e inconcussa desta velha Alma Mater de civilizações, não passam de monstruosas criações geradas por cópulas igualmente monstruosas.
Para as evitar, urge purificar os mitos e, passando-os da fase presciente à do pleno conhecimento substituí-los pelas grandes ideias que estão na base do europeísmo: a cultura greco-latina, as sublimidades do cristianismo, o primado do espírito.
Não para combater a técnica e a revolução material. Mas para as colocar no seu papel de servidores do homem.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Minúsculo e decrépito apêndice das imensidades territoriais da Ásia para os seus detractores, mãe, criadora e exportadora da única civilização verdadeiramente ao serviço do homem que o Mundo já conheceu, a Europa, se tem alguma coisa de contradição e velhice, tem, apesar de tudo, muito mais de afirmação e de promessa.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaÉ certo que, de acordo com o sonho de Nabuco todos os imperios tém pés de barro e irão desaparecendo como tenda de uma só noite.
E que, segundo a visão profética ensaiada nas primeiras páginas do Livro XX do AB URBE CONDITA, por Tito Lívio, o esplendor da civilização e as culminâncias do poder seguem o curso do Sol no seu aparente ciclo.
O que significará que esgotado o percurso Bósforo-Atlantico, será de novo a vez dos Imperios do Sol Nascente.
Sem que, todavia, o tempo europeu se tenha consumado e muito menos consumido.
De resto, o que de melhor se tem conseguido por todo o nosso vasto mundo, deve-se a projecções europeias – à erecção de novas Europas.
Outra coisa não são os Estados Unidos, por enquanto a única superpotência e, apesar de tudo, a que, embora todo-poderosa, tem sabido respeitar o código de valores que impuseram a nossa civilização.
Pedaços da Europa são o Canadá e a Austrália.
Projecções da Europa são igualmente os países asiáticos da abundância – Coreia do Sul e a Formosa. Como as províncias chinesas da economia do mercado – as recentemente incorporadas Hong-Kong e Macau, ou as sempre chinesas de Cantão e Xangai.
Como terão de ser o Brasil, a Africa do Sul, Angola e outros estados que, pelas suas riquezas, reúnem as demais condições para se afirmarem no contexto mundial.
Assim projectada no exterior, impõe-se no plano interno, uma reestruturação que elimine as quezílias em que historicamente nos deixamos enredar.
O anátema camoniano

Ó míseros cristãos pela ventura
Sois os dentes do Cadmo desprazidos
Que uns aos outros se dão a morte escura
Sendo de um só ventre produzidos.

As quezílias, em torno, primeiro da tentativa de uma constituição europeia e, agora do texto do Tratado de Lisboa, os arrufos, umas vezes dos que deveriam ser os motores da unidade, outras de pequenos países sem qualquer peso útil, mas mesmo assim, com poder suficiente para travar a evolução, dão claro testemunho da persistente reiteração do chauvinismo divisionista eloquentemente zurzido por Camões.
A mitologia dá-nos também argumentos em favor – como o da Fénix Renascida.
E prevenindo-nos contra as Hidras de Lerna.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

«Nada provoca mais danos num estado do que homens astutos a quererem passar por sábios.», Francis Bacon, in «Essays, of Cunning»

Ocorreu-me esta citação pelo facto de esta semana se encontrarem os chefes de estado e chefes de governo da Europa. E tive uma leve sensação de saudade da Europa!…
A ideia de uma Europa unida nasceu dos escombros da Segunda Guerra Mundial (1945) fruto, entre outras razões, dos nacionalismos extremos que fervilhavam por esse continente fora. Assim, em 1951, com assinatura do Tratado de Paris, seis países fundavam a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. Mesmo sendo uma comunidade fundamentalmente de controlo monopolista do carvão e do aço, afirmava-se como “a primeira etapa para a federação da Europa”. Depois veio o Tratado de Roma (1957) instituindo a Comunidade Económica Europeia – a célebre CEE! – Depois, foram assinados vários tratados até Maastricht e Lisboa (o último), fundando a União Europeia. Nesse entretanto, acabaram as fronteiras, primeiro para as mercadorias e depois para as pessoas. Elegeram-se parlamentos e comissões. Criaram-se leis gerais para toda a Europa… E, dos primeiros seis países, somos hoje vinte e sete!
Se recupero a história da fundação é porque, essa Europa que nascia em meados do século passado, anunciava o alvor de uma nova era! Apresentava um projecto de futuro em que todos os cidadãos estariam acima dos seus países para se sentirem, essencialmente, cidadãos de um continente, de um espaço comum. Reduzindo as possibilidades de se repetirem as atrocidades que as duas grandes guerras tinham mostrado.
Eram sábios esses fundadores. De passo em passo, foi possível criar a ideia de uma Europa solidária, igualitária, tolerante e fundada sobre princípios democráticos.
Contudo, essa Europa, foi-se diluindo e terminando nas fronteiras do paíszinho de cada um. Cada país olhou para a Europa conhecendo apenas a parte do Pai-Nosso do «venha a nós o vosso reino». Nada mais! Mas, também, a própria Europa foi olhando para os países meramente como extensões mercantis.
Os líderes europeus foram perdendo o horizonte do ideal da Europa, o ideal de uma vida melhor para todos os europeus e da diluição das assimetrias entre os países. Tornando-se hoje num dueto franco-alemão carregado de uma miopia que não lhes deixa ver nada mais que o seu umbigo.
A política deu lugar à economia. E as pessoas deram lugar ao cifrão. E desta forma foi-se destruindo a democracia. A democracia, que aparecia como o grande valor e conquista de uma Europa nova, porque unida, vem dando lugar a um grupo de economistas e financeiros sem rosto. Burocratas que confundem o mundo com o gabinete e orientados por líderes manifestamente incompetentes, mesquinhos e cobardes!
Decididamente, a Europa é governada por homens astutos a quererem passar por sábios. E o resultado está à vista!
A Europa desagrega-se a cada dia que passa, a sentido solidário só é pensado se houver interesse dos bancos, a igualdade afasta-se cada vez mais e a própria liberdade é um valor cada vez mais posto em causa. Os direitos e os deveres passaram a ser retórica, mas cada vez mais sem conteúdo. A Europa é cada vez mais a megalomania dos seus comissários e deputados e cada vez menos a Europa dos cidadãos.
Apetece-me dizer: e a Europa ali tão perto!
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

Este icebergue chamado União Europeia, nasceu com o objectivo de pôr termo às frequentes guerras entre países vizinhos, foi crescendo e alargando com a união e força das diferentes culturas, das diferentes riquezas.

Paulo AdãoTodos os países que entraram na união Europeia, contribuem na construção deste icebergue, fazendo face ao poderoso dólar americano, tentam com os EUA fazer face ao terrorismo mundial. Nasce o Euro e com ele as dificuldades que tantos lhe atribuem, ou as ajudas que também lhe são reconhecidas. Individualmente cada país progrediu um pouco. Uns porque souberam gerir melhor as ajudas ou souberam analisar e definir melhor os projetos prioritários para essas ajudas. Outros porque não souberam aproveitar estas ajudas.
Hoje as notícias da Europa, são a crise que afecta alguns dos seus membros, a Grécia em situação de bancarrota e os índices da economia mundial a indicarem que outros países, tais como Portugal, Espanha, Itália ou Irlanda estão em risco de «escorregar» juntamente com a Grécia.
Como se pode chegar a tal situação? Como em qualquer família, existem responsabilidades, é preciso saber gerir os recursos familiares e não gastar mais do que aquilo que se tem. Quando uma família chega a um estado de bancarrota, alguem é responsavel. Como explicar que um país chegue a tal situação e não se encontrem responsaveis? Será justo culpar apenas os governos actuais da má gestão das suas riquezas e dos seus dinheiros?
Face a esta situação, sera a união europeia capaz de se ajudar a si mesma? E qua ajuda dar a estes países? Será que os empréstimos europeus ou mundiais serão a solução? E não serão a Grécia e estes países indicados a dedo a face visível de uma situação geral da Europa? O que esconde a parte oculta deste icebergue? Será que aqueles que são hoje chamados os grandes da Europa – França e Alemanha – estão em melhores condições?
Tantas perguntas e tão poucas respostas, ou tantas perguntas sem resposta.
«Um lagarteiro em Paris», crónica de Paulo Adão

paulo.adao@free.fr

A selecção de Portugal venceu na final a Hungria por 4-1 e sagrou-se campeã da Europa de Futsal INAS-FID.

Campeonato Europa Futsal INAS-FID - GuardaFoi em clima de euforia e festa que terminou o 2.º Campeonato da Europa de Futsal INAS-FID, que se realizou durante esta semana na bela cidade da Guarda, com a consagração da Equipa Nacional como Campeã da Europa e medalha de ouro do evento.
Na final, Portugal bateu a Hungria por 4-1 num jogo claramente dominado e controlado pela supremacia técnica da equipa portuguesa. No jogo de apuramento dos 3.º e 4.º lugares, o bronze foi para a França que ganhou à Turquia com um resultado de 9-4.
A João Rodrigues (Portugal) foi entregue o troféu de melhor marcador com 9 golos, Ferenc Deanz (Hungria) recebeu o troféu de melhor guarda-redes e à equipa da Hungria o prémio de «Fair Play».
Claramente satisfeito, José Costa Pereira, coordenador geral da prova, fez o balanço final do evento salientando a sua elevada qualidade, agradecendo todos os apoios associados à sua preparação e realização. A nível desportivo, afirmou, que foi o alcance do título que faltava a Portugal, chegando deste modo ao topo da excelência desportiva na cidade mais alta do país.

Informações e fotos sobre o Campeonato. Aqui.
aps (com FPDPD)

O PSD venceu este domingo, 7 de Junho, as eleições para o Parlamento Europeu com 1.127.128 votos (31,69%) correspondentes a oito eurodeputados. Apurados os votos nacionais falta contabilizar os votos da emigração.

Paulo Rangel e Manuela Ferreira LeitePaulo Rangel, cabeça-de-lista do PSD ao Parlamento Europeu, considerou este domingo à noite que «os resultados das eleições representam uma derrota do PS e do engenheiro José Sócrates e uma vitória da presidente do PSD». «A nossa presidente é a grande vencedora desta noite pela sua determinação, pela forma como levou o partido ao caminho de uma política de verdade que naturalmente os portugueses entenderam hoje, de forma expressiva, nas urnas, pelo seu voto», declarou ainda Paulo Rangel, no seu discurso de vitória, na sede nacional do PSD. Rangel adiantou que os resultados representam uma «nova esperança a Portugal de que pode ser criada uma nova alternativa às políticas do Governo e do primeiro-ministro».
O secretário-geral do PS, José Sócrates, considerou «decepcionantes» os resultados das eleições europeias, mas lembrou que «as legislativas serão diferentes e que o Governo vai manter a sua linha de rumo». José Sócrates discursou no Hotel Altis, em Lisboa, após uma curta declaração do seu cabeça-de-lista às eleições europeias, Vital Moreira, que assumiu «pessoalmente a derrota».
As listas de recenseamento eleitoral portuguesas têm um total de 9.604.744 eleitores inscritos mas só 3.557.264 votaram correspondendo a 37.04 por cento do total.
A lista social democrata com 31.69 por cento dos votos elegeu oito eurodeputados. O PS com 26,58% alcançou sete eurodeputados. O Bloco de Esquerda deverá eleger o terceiro eurodeputado tendo 10.73% com 381.791 dos votos, tornando-se a terceira força política. A CDU (PCP mais Verdes) passou para quarto lugar com uma percentagem de 10,66% elegeu com dois eurodeputados. O CDS também manteve os dois lugares na Europa com 8.37% do total de votantes.
Laurinda Alves, do MEP, conquistou o sexto lugar (1,49%) mas não conseguiu ser eleita. Votaram em branco 4.63% dos eleitores e dois por cento dos votos foram considerados nulos.
Portugal voltou a registar nas eleições europeias de hoje uma taxa de participação (cerca de 36,5 por cento) inferior à média comunitária (43,4 por cento), mesmo perante um novo recorde de abstenção na União Europeia, segundo dados provisórios.
No Parlamento Europeu o maior grupo continua a ser o Partido Popular Europeu e as maiores mudandas são os Verdes, que ganham 14 deputados, e os socialistas, que perdem 15.
jcl (com agência Lusa)

O Capeia Arraiana está em directo no Café Nicola na Blogotúlia com Paulo Rangel, candidato do PSD ao Parlamento Europeu. O evento reúne na sala do mítico café lisboeta blogues como «31 da Armada», «ionline», «Portugal Profundo», «o cachimbo de magritte», «Blasfémias», «Blogue de Direita» e «Papa Maizena» entre outros.

Café NicolaO tema da conferência no Café Nicola, em Lisboa, é «Blogotúlia sobre a Europa e o Interesse Nacional». Na carta que enviou a diversos autores da blogosfera nacional o cabeça de lista às europeias do PSD, Paulo Rangel, assume-se «como blogger com funções suspensas e como interveniente atento da blogosfera», acrescentando que «grande parte do debate político de fundo sobre a Europa e o país passa por esta plataforma».

Clique aqui para aceder à emissão em directo a partir do Café Nicola.
jcl

JOAQUIM SAPINHO

DESTE LADO DA RESSURREIÇÃO
Em exibição nos cinemas UCI

Deste Lado da Ressurreição - Joaquim Sapinho - 2012 Clique para ampliar

Indique o seu endereço de email para subscrever este blog e receber notificações de novos posts por email.

Junte-se a 836 outros seguidores

PUBLICIDADE

CARACOL REAL
Produtos Alimentares


Caracol Real - Produtos Alimentares - Cerdeira - Sabugal - Portugal Clique para visitar a Caracol Real


PUBLICIDADE

DOISPONTOCINCO
Vinhos de Belmonte


doispontocinco - vinhos de belmonte Clique para visitar Vinhos de Belmonte


CAPEIA ARRAIANA

PRÉMIO LITERÁRIO 2011
Blogue Capeia Arraiana
Agrupamento Escolas Sabugal

Prémio Literário Capeia Arraiana / Agrupamento Escolas Sabugal - 2011 Clique para ampliar

BIG MAT SABUGAL

BigMat - Sabugal

ELECTROCÔA

Electrocôa - Sabugal

TALHO MINIPREÇO

Talho Minipreço - Sabugal



FACEBOOK – CAPEIA ARRAIANA

Blogue Capeia Arraiana no Facebook Clique para ver a página

Já estamos no Facebook


31 Maio 2011: 5000 Amigos.


ASSOCIAÇÃO FUTEBOL GUARDA

ASSOCIAÇÃO FUTEBOL GUARDA

ESCOLHAS CAPEIA ARRAIANA

Livros em Destaque - Escolha Capeia Arraiana
Memórias do Rock Português - 2.º Volume - João Aristides Duarte

Autor: João Aristides Duarte
Edição: Autor
Venda: Casa do Castelo (Sabugal)
e: akapunkrural@gmail.com
Apoio: Capeia Arraiana



Guia Turístico Aldeias Históricas de Portugal

Autor: Susana Falhas
Edição: Olho de Turista
Venda: Casa do Castelo (Sabugal)



Música em Destaque - Escolha Capeia Arraiana
Cicatrizando

Autor: Américo Rodrigues
Capa: Cicatrizando
Tema: Acção Poética e Sonora
Venda: Casa do Castelo (Sabugal)



SABUGAL – BARES

BRAVO'S BAR
Tó de Ruivós

Bravo's Bar - Sabugal - Tó de Ruivós

LA CABAÑA
Bino de Alfaiates

La Cabaña - Alfaiates - Sabugal


AGÊNCIA VIAGENS ON-LINE

CERCAL – MILFONTES



FPCG – ACTIVIDADES

FEDERAÇÃO PORTUGUESA
CONFRARIAS GASTRONÓMICAS


FPCG-Federação Portuguesa Confrarias Gastronómicas - Destaques
FPCG-Federação Portuguesa Confrarias Gastronómicas Clique para visitar

SABUGAL

CONFRARIA DO BUCHO RAIANO
II Capítulo
e Cerimónia de Entronização
5 de Março de 2011


Confraria do Bucho Raiano  Sabugal Clique aqui
para ler os artigos relacionados

Contacto
confrariabuchoraiano@gmail.com


VILA NOVA DE POIARES

CONFRARIA DA CHANFANA

Confraria da Chanfana - Vila Nova de Poiares Clique para visitar



OLIVEIRA DO HOSPITAL

CONFRARIA DO QUEIJO
SERRA DA ESTRELA


Confraria do Queijo Serra da Estrela - Oliveira do Hospital - Coimbra Clique para visitar



CÃO RAÇA SERRA DA ESTRELA

APCSE
Associação Cão Serra da Estrela

Clique para visitar a página oficial


SORTELHA
Confraria Cão Serra da Estrela

Confraria do Cão da Serra da Estrela - Sortelha - Guarda Clique para ampliar



SABUGAL

CASA DO CASTELO
Largo do Castelo do Sabugal


Casa do Castelo


CALENDÁRIO

Setembro 2019
S T Q Q S S D
« Fev    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30  

Arquivos

CATEGORIAS

VISITANTES ON-LINE

Hits - Estatísticas

  • 3.146.556 páginas lidas

PAGERANK – CAPEIA ARRAIANA

BLOGOSFERA

CALENDÁRIO CAPEIAS 2012

BLOGUES – BANDAS MÚSICA

SOC. FILARM. BENDADENSE
Bendada - Sabugal

BANDA FILARM. CASEGUENSE
Casegas - Covilhã


BLOGUES – DESPORTO

SPORTING CLUBE SABUGAL
Presidente: Carlos Janela

CICLISMO SERRA ESTRELA
Sérgio Gomes

KARATE GUARDA
Rui Jerónimo

BLOGUES RECOMENDADOS

A DONA DE CASA PERFEITA
Mónica Duarte

31 DA ARMADA
Rodrigo Moita de Deus

A PÁGINA DO ZÉ DA GUARDA
Crespo de Carvalho

ALVEITE GRANDE
Luís Ferreira

ARRASTÃO
Daniel Oliveira

CAFÉ PORTUGAL
Rui Dias José

CICLISMO SERRA ESTRELA
Sérgio Paulo Gomes

FANFARRA SACABUXA
Castanheira (Guarda)

GENTES DE BELMONTE
Investigador J.P.

CAFÉ MONDEGO
Américo Rodrigues

CCSR BAIRRO DA LUZ
Alexandre Pires

CORREIO DA GUARDA
Hélder Sequeira

CRÓNICAS DO ROCHEDO
Carlos Barbosa de Oliveira

GUARDA NOCTURNA
António Godinho Gil

JOGO DE SOMBRAS
Rui Isidro

MARMELEIRO
Francisco Barbeira

NA ROTA DAS PEDRAS
Célio Rolinho

O EGITANIENSE
Manuel Ramos (vários)

PADRE CÉSAR CRUZ
Religião Raiana

PEDRO AFONSO
Fotografia

PENAMACOR... SEMPRE!
Júlio Romão Machado

POR TERRAS DE RIBACÔA
Paulo Damasceno

PORTUGAL E OS JUDEUS
Jorge Martins

PORTUGAL NOTÁVEL
Carlos Castela

REGIONALIZAÇÃO
António Felizes/Afonso Miguel

ROCK EM PORTUGAL
Aristides Duarte

SOBRE O RISCO
Manuel Poppe

TMG
Teatro Municipal da Guarda

TUTATUX
Joaquim Tomé (fotografia)

ROTA DO CONTRABANDO
Vale da Mula


ENCONTRO DE BLOGUES NA BEIRA

ALDEIA DA MINHA VIDA
Susana Falhas

ALDEIA DE CABEÇA - SEIA
José Pinto

CARVALHAL DO SAPO
Acácio Moreira

CORTECEGA
Eugénia Santa Cruz

DOUROFOTOS
Fernando Peneiras

O ESPAÇO DO PINHAS
Nuno Pinheiro

OCEANO DE PALAVRAS
Luís Silva

PASSADO DE PEDRA
Graça Ferreira



FACEBOOK – BLOGUES

Anúncios