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BRAVURA E ARTE

«Tratando-se de um espectáculo onde a cor e a arte, numa palavra a beleza está sempre presente, achamos que a escrita não seria suficiente para traduzir toda a sua dimensão. Costuma dizer-se que uma boa imagem vale por mil palavras. E para a melhor tradição raiana só o seu melhor fotógrafo. A prova está à vista, não precisamos de elogiar. Mais do que um texto ilustrado com belas fotos, o resultado é um livro de fotos ilustrado com texto.»

FÓIOS – CAPITAL DA RAIA

«A Capeia dos Foios realiza-se na terceira terça-feira do mês de Agosto integrada nas festas em honra do Santíssimo Sacramento. O encerro inicia-se no planalto do Lameiro, para onde os touros vêm de madrugada, e dirige-se para a aldeia pelo caminho da serra, seguindo depois pela estrada que vem da Aldeia do Bispo em direcção à praça. Como sempre, o professor Zé Manel, presidente da Junta quase uma vida, num breve discurso gritado no megafone, dirige-se à assistência: agradece aos forasteiros a visita, pede aos fojeiros que recebam bem e recomenda valentia e prudência aos que enfrentam os toiros.»

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Textos de António Cabanas e Fotos de Joaquim Tomé (Tutatux) retirados do livro «Forcão – Capeia Arraiana»
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IDENTIDADE DE UM POVO (2)

«A afición das gentes de Riba Côa não fica atrás da de outras regiões onde ocorrem manifestações tauromáquicas. Pelo contrário, a sua adesão aos touros supera em muito a adesão das regiões onde se fazem touradas à portuguesa, que como se sabe têm sofrido nas últimas décadas um decréscimo de assistência. Qualquer capeia arraiana encherá todos os lugares disponíveis da praça, por maior que seja, a pontos de ser dizer na Raia que onde há cornos há gente.»

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Textos de António Cabanas e Fotos de Joaquim Tomé (Tutatux) retirados do livro «Forcão – Capeia Arraiana»
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IDENTIDADE DE UM POVO (1)

«À hora da capeia todos os lugares estão preenchidos. Cada pessoa posiciona-se onde encontre sítio disponível. A afluência ultrapassa em muito a lotação das bancadas, apinhadas de gente nas posições mais caricatas. Há quem veja o espectáculo debaixo dos reboques, deitado por terra, outros permanecem durante toda a lide encalampeirados em postes de electricidade, telhados e outras estruturas. Janelas e varandas mal podem com tanta gente. Com a tourada prestes a iniciar, há ainda tempo para ajudar senhoras e crianças a subir para os tabuados e beber uns copos com os amigos, correndo-se o risco de não conseguir o melhor sítio para assistir ao primeiro touro, situação que se pode corrigir logo que alguém se levante para ir ao bar. Já que não há lugares marcados, os que vão ao bar deixam os lugares para os que deles precisam.»

Ó FORCÃO RAPAZES

«O festival Ó Forcão Rapazes realiza-se por volta do dia 20 de Agosto, no segundo ou no terceiro sábado, conforme o maior ou menor avanço do calendário. Com a Praça de Touros a regurgitar de gente, completamente esgotada por uma assistência vibrante e colorida, a rapaziada da Raia demonstra a sua raça na espera dos bravos e corpulentos touros. A lide, com duração de 15 minutos para cada equipa, é controlada pela organização. Antes do início da capeia tem lugar o espectacular desfile das equipas, marcado pelo rufar dos tambores e pelos aplausos ruidosos dos apoiantes de cada uma das equipas. No final do desfile, os grupos alinham-se em conjunto no centro da Praça, lado a lado, e escutam as palavras de circunstância e de estímulo proferidas pela entidade oficial convidada, normalmente o presidente da Câmara, representante máximo do concelho. Terminado o discurso, as equipas voltam a desfilar, desta vezpara a trincheira, onde aguardarão a sua vezde medir forças com o touro que lhes calhou em sorteio.»

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Textos de António Cabanas e Fotos de Joaquim Tomé (Tutatux) retirados do livro «Forcão – Capeia Arraiana»
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FORCÃO (3)

«O forcão é empunhado por uma trintena de jovens, distribuídos pelos mais de 300 quilos de toda a estrutura. O rabiche, leme do artefacto, é operado à altura da cabeça dos rabejadores, enquanto a base se mantém pela cintura ou até mais abaixo, dependendo da forma como investem os touros. Estes, ao marrarem, por vezes levantam a cabeça (derrote), e com ela o próprio forcão, obrigando os rapazes da respectiva galha a dependurarem-se nele, fazendo peso para o baixar. Há, porém, outros que marram de cima para baixo, humilhando, podendo ainda ser bons trepadores, o que causa, por vezes, alguns embaraços aos jovens. Neste caso é preciso usar de toda a força para levantar o forcão.»

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Textos de António Cabanas e Fotos de Joaquim Tomé (Tutatux) retirados do livro «Forcão – Capeia Arraiana»
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FORCÃO (2)

«Falar da capeia arraiana é falar do artefacto que a torna tão peculiar. Não é difícil, ao analisarem-se outras tauromaquias, encontrar razões para as suas diferentes formas e meios utilizados: o cavalo, os ferros, a corda, os enganos, etc. Explicam-se pela origem da própria tauromaquia, pela caça, pelos treinos de guerra, ou simplesmente pela necessidade de domínio do homem sobre as espécies bravias, com vista ao aproveitamento dos recursos que propiciam. Com o forcão tudo é diferente, não são fáceis as explicações nem descortináveis as origens. Se não oferece dúvidas a ninguém a ancestralidade das garraiadas em Riba Côa, já quanto ao uso do forcão ninguém tem certezas sobre a época do seu aparecimento. Há quem o associe a guerras passadas.»

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FORCÃO (1)

«Diz Adérito Tavares que, etimologicamente, a origem do nome forcão se liga à palavra latina furca, de onde também deriva forquilha, fourchete do francês, que significa garfo. Aliás, o forcão, assemelha-se muito a uma gigantesca forquilha. Adolfo Coelho corrobora que palavras como forcado ou forcada e forquilha derivam de furca, termo latino que se referia a uma rudimentar e tosca ferramenta de madeira, com dois ou mais dentes, usada na recolha de feno e palha, também chamada forca. Joaquim Lino da Silva descreve forcada ou forcado como um grosseiro tridente feito de um ramo de carvalho ou vidoeiro a que se dá a melhor forma em verde.5 Embora este autor a mencionasse no Barroso, a ferramenta sempre existiu noutras regiões, designadamente na Beira.»

A PRAÇA

«Actualmente quase todas as freguesias da margem direita do Rio Côa, incluindo algumas anexas, possuem capeias. Aldeia da Ponte, Aldeia do Bispo, Aldeia Velha, Alfaiates, Fóios, Forcalhos, Lageosa da Raia, Ozendo e Soito participam no festival Ó Forcão, uma espécie de 1.ª divisão da capeia, como já alguém disse. A Rebolosa, que até tem praça, sente-se discriminada por não lhe ser permitido participar, uma vez que tem capeias com regularidade. A Nave, voltou à regularidade que, pelos vistos, tinha no início do século XX. Ruivós, Vale de Espinho, Vale das Éguas, Badamalos, Seixo do Côa (margem esquerda) e até o Sabugal organizam garraiadas, capeias noturnas ou capeias diurnas de forma intermitente.»

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Textos de António Cabanas e Fotos de Joaquim Tomé (Tutatux) retirados do livro «Forcão – Capeia Arraiana»
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ENCERRO

«Entre a poeira ao longe despontam as varas dos cavaleiros e, logo no meio do turbilhão, o sobe e desce dos vultos em corrida encrespada, enquanto um rio de poeira acompanha a turba ao longo do caminho. Depressa a cavalgada se aproxima em crescendo ruidoso e passa em grande velocidade sob a muita algazarra de participantes e assistentes. À frente vão os cavaleiros mais experientes, abrindo caminho como batedores, e logo a seguir os cabrestos com enormes chocalhos servindo de chamariz aos seis lustrosos touros pretos, que, misturados no turbilhão, mal se apercebem do que se passa em redor. Só contei quatro – diz um sujeito atrás de nós. Iam mais dois amarelos junto aos cavalos – contrapõe prontamente outro dos presentes. Atrás, vêem-se agora dezenas de cavaleiros e algumas amazonas e, de seguida, a enorme procissão de peões, carros e motos vai engrossando até desembocar na praça. No meio da confusão, os cães ladram de excitação.»

MORDOMOS

«Sem organizadores não haveria festas ou outros eventos sociais. É às comissões também designadas por mordomias, que competem os preparativos, e as tarefas inerentes aos festejos. A escolha dos futuros mordomos é da responsabilidade dos mordomos cessantes. A nomeação dos seus substitutos é a derradeira acção da comissão. Em princípio, cada elemento escolhe o seu sucessor sem precisar de o consultar; mas o normal é que o consulte previamente para indagar da sua vontade em aceitar. A escolha sigilosa significa quase sempre intenção de castigar alguém que criticou ostensivamente a comissão anterior. A nomeação é, por regra, feita publicamente na igreja ou numa pausa do baile. Normalmente nunca se repetem as pessoas, uma vez que se trata de uma festa que exige muito trabalho, responsabilidade e dinheiro.»

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Textos de António Cabanas e Fotos de Joaquim Tomé (Tutatux) retirados do livro «Forcão – Capeia Arraiana»
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CAVALOS… CAVALOS… CAVALOS

«Onde existem touros há geralmente cavalos, como acontece em Riba-Côa. Frequentemente aponta-se como origem das capeias arraianas a tradicional existência de gado na Genestosa espanhola; mas a verdade é que a presença de gado bovino e equino em Riba-Côa é ancestral, como prova o foral leonês de Alfaiates, que sobre o assunto tem variadíssimos preceitos legais. Aí se diz, por exemplo, que um guardador de gado recebia por cada quatro éguas guardadas um morabitino; os proprietários de mais de 25 vacas teriam de as registar, e para as vistorias do concelho teriam que disponibilizar um cavaleiro.»

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Textos de António Cabanas e Fotos de Joaquim Tomé (Tutatux) retirados do livro «Forcão – Capeia Arraiana»
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O CULTO RAIANO DO CAVALO

«Nos últimos anos tornaram-se habituais os encontros equestres na região, realizados sobre a forma de passeios. Em Aldeia do Bispo, no tradicional passeio que ocorre antes da capeia, vêem-se agora dezenas de cavaleiros, que dão mote ao próprio cartaz. Mas onde os raianos demonstram a sua grande afeição pelos cavalos é no encerro dos touros, onde chegam a juntar-se mais de uma centena. Dá gosto vê-los, bem arreados, pêlo lustroso, crinas e caudas aparadas e penteadas, aqui e ali tranças e laços, alguns efectuando acrobacias e passos artísticos à voz do cavaleiro. Nas aldeias raianas da capeia, os cavalos são às centenas, muito por causa dos encerros. Alguns são apenas montados no dia da capeia.»

A CULTURA DO TOURO

«A força, poder e coragem que emanam do touro valeram-lhe o respeito e admiração do homem, que em alguns casos o considera como representativo de um ser superior. O poder reprodutivo, a virilidade, a luta incessante, investindo até à morte contra o inimigo, originaram mitos sagrados que perpassam em alguns livros da Bíblia: símbolo de fertilidade, invencibilidade, chefia e poder de destruição1. Acreditava-se que era nos chifres que o touro concentrava a força da vida, razão para neles se amarrarem os arados que deviam semear as terras.»

A CULTURA DO TOURO

«A força, poder e coragem que emanam do touro valeram-lhe o respeito e admiração do homem, que em alguns casos o considera como representativo de um ser superior. O poder reprodutivo, a virilidade, a luta incessante, investindo até à morte contra o inimigo, originaram mitos sagrados que perpassam em alguns livros da Bíblia: símbolo de fertilidade, invencibilidade, chefia e poder de destruição1. Acreditava-se que era nos chifres que o touro concentrava a força da vida, razão para neles se amarrarem os arados que deviam semear as terras.»

A ESCOLHA DOS TOIROS

«Quando está no seu meio natural, rodeado pelos da sua espécie, o touro não demonstra o comportamento agressivo que apresenta na praça. É para recriar o ambiente de manada, em que o touro se sente mais tranquilo, que se usam cabrestos8 para o conduzir nos encerros e para o retirar da arena, depois da lide. Quando está isolado, é estimulado a investir, não só contra pessoas e animais, como contra qualquer objecto, ainda que movido pelo vento.»

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Textos de António Cabanas e Fotos de Joaquim Tomé (Tutatux) retirados do livro «Forcão – Capeia Arraiana»
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O Verão vai quase a meio, quente impiedoso, a pedir sombra e locais frescos com água por perto. Logo, logo, virá o mês de Agosto, o mês dos emigrantes e mês de todas as festas. Por aqui não há terra que a não tenha, com mais ou menos pompa, com mais ou menos desassossego.

Festas de Agosto - António Cabanas - Terras do Lince - Capeia Arraiana

António Cabanas - Terras do Lince - Capeia ArraianaLonge de ser apenas um desperdício ou um acontecimento sem significado, a festa comporta um forte elemento de subversão dos códigos estabelecidos, constituindo simultaneamente, um fenómeno social, cultural, económico e político.
Interrompendo a rotina do quotidiano, ela é uma espécie de válvula de descompressão que nos proporciona a explosão de uma série de sentimentos contidos durante os restantes dias do ano.
Acontecimento quase sempre associado ao sagrado e ao ritual, a festa é vivida nas nossas aldeias com grande intensidade, em ruptura com a vida banal de todos os dias, tornando-se ainda no principal espaço de reencontro de familiares e amigos.
As ruas e largos tornam-se cenário de uma realidade virtual, de imagens, de enfeites coloridos, de muita luz. Geralmente associada à festa religiosa, o mundo dos santos convive com as pessoas que os veneram, que os vestem, que os transportam em procissão. É uma aproximação entre o Céu e a Terra!
Põem-se as colchas nas janelas, alcatifa-se o chão de flores e verdura, o homem veste o fato novo, a mulher põe as arrecadas de ouro e faz uma «permanente», mata-se uma rês e partilha-se a comida e a bebida. É um momento de exaltação e de transcendência, sem lugar para a menoridade.
Aparentando tratar-se de um rol de comportamentos fúteis e superficiais, a festa têm, no entanto, uma abrangência que ultrapassa esta realidade, constituindo um investimento de carácter social, um meio de comunicação entre a comunidade, uma forma de afirmação e demonstração e faz parte de um complexo conjunto de estratégias de ajustamentos sociais.
Caracterizando-se pelo divertimento e pela mudança do ritmo normal da vida em comunidade, a festa é mobilizadora, de vontades, de novos projectos, de novos negócios e quantas vezes de novos amores!
Mas a festa tem também uma outra face. A sua coerência programática e o seu sucesso só se atingem mercê do muito trabalho das comissões de festas. Para que tudo funcione bem, nada pode ser deixado ao acaso, sendo necessárias muitas horas de trabalho. Para os mordomos é quase sempre um exame muito exigente em que não se pode falhar. O júri é o próprio povo da aldeia e a bitola mínima é a festa do ano anterior. Obrigam-se, a trabalhar arduamente, colocando na organização todo o seu empenho e dos seus familiares. Merecem, por isso, todo o nosso respeito e admiração, o nosso apreço e incentivo.
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

(Vice-Presidente da Câmara Municipal de Penamacor)
kabanasa@sapo.pt

Sempre fui um adepto convicto do utilizador pagador, não apenas nas portagens, mas na generalidade dos bens públicos. Fosse essa prática habitual talvez se pagasse menos por cada bem ou serviço, não estaria o património tão abandonado e os espaços de lazer tão mal cuidados. Naturalmente, haverá sempre que ressalvar as situações excepcionais em que o indivíduo não possa ou não deva pagar, como a invalidez, a deficiência, a velhice, a pobreza ou que quer que impute à restante comunidade o dever de pagar por si.

António Cabanas - Terras do Lince - Capeia Arraiana

António Cabanas - Terras do Lince - Capeia ArraianaNo que respeita a auto-estradas, os sucessivos governos criaram nos portugueses a ilusão que era possível manter tais equipamentos de forma gratuita e com isso nos confundiram anos a fio. A confusão iniciou-se com a famosa via cavaquista do Infante, a começar na fronteira e terminar perto de Boliqueime, terra do seu autor. Foi a primeira borla. A desculpa até era convincente: a CEE é que pagara a construção e não autorizava que aquela via fosse portajada. A seguir vieram os planos rodoviários nacionais que ainda hoje estão por cumprir, mas avançaram as Crils, as Crels e as Vcis, os ICs e os Ips, muitos à volta de Lisboa, outros em redor do Porto. Depois um primeiro-ministro que «não esquecia o Interior», após muitas outras auto-estradas no litoral, lá fez a primeira scut do Interior, a passar naturalmente na sua terra! Nada de novo a não ser a fabulosa invenção de fazer obras sem dinheiro. O país encheu-se de auto-estradas, mais nuns sítios que noutros, em alguns casos aos pares, e noutros em triunvirato, sem outro critério além do peso político do território onde se construíam.
Estas e outras ilusões que custaram muitos milhões ao erário público, despejados à pazada no litoral, impediram que algumas migalhas caíssem em territórios deprimidos. E não foram apenas os pequenos municípios que ficaram a ver navios, há também capitais de distrito que ficaram encravadas, como Bragança ou Portalegre, por exemplo.
Como não há almoços grátis, não se paga em portagens, paga-se em impostos!
Bem alertaram os pregadores do deserto para a factura que havia de vir, em duplicado, cara demais, talvez quando a não pudéssemos pagar. Infelizmente, tinham razão antes de tempo. É justamente numa altura em que a economia necessita de ajuda, quando os impostos sobem e os ordenados descem que o governo se vê obrigado a cobrar as scuts, dificultando ainda mais a vida aos cidadãos e às empresas, não apenas às empresas de transportes, pois fatalmente, a factura repercutir-se-á nas matérias-primas, nas mercadorias e na nossa vida em geral.
Além de virem na pior altura, as portagens não resolverão o problema do país que mais do que financeiro, é um problema económico, de falta de produtividade, onde a sanguessuga do estado, para quem não há dinheiro que baste, quase proíbe que se faça o que quer que seja.
Este é o resultado da leviandade e da irresponsabilidade dos governantes e da política imediatista que tem pautado os destinos do país nas últimas décadas. Leviandade ainda vigente, aliada agora à pressa de fazer dinheiro a todo o custo. Sabe-se que a pressa é má conselheira, mas a necessidade urgente de dinheiro está a desnortear um governo à beira de um ataque de nervos, dando uma no cravo, outra na ferradura. A proposta de isentar de portagens os residentes e as empresas dos concelhos que são atravessadas por scuts é a emenda pior que o soneto! Então e os que não têm auto-estrada, que vivem no interior do interior, além de não beneficiados, devem ser castigados? Terão os residentes de Idanha e de Penamacor que mudar para junto das scuts?! Deverão as empresas transportadoras do Sabugal sediar-se em Belmonte, na Guarda ou na Covilhã?!
É o que dá a governação de cabotagem, com a costa à vista, acaba sempre por tornar o percurso mais longo, tanto mais longo quanto mais sinuosa for a costa. E a costa da nossa política é muito sinuosa e corporativa.
Não houve em devido tempo discernimento para avaliar o impacto futuro de decisões irreflectidas, nem coragem para dizer não aos grupos de pressão. Mas a História teima em repetir-se e mais uma vez não haverá coragem para afrontar os que gritam mais alto.
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

(Vice-Presidente da Câmara Municipal de Penamacor)
kabanasa@sapo.pt

A convite do ICNB e do projecto Valia deslocámo-nos à Serra de Andújar na Andaluzia para ver in loco o que os espanhóis estão a fazer pela recuperação da população de linces. Autarcas, proprietários de zonas de caça, agricultores, biólogos, representantes de associações ambientalistas, pudemos apreciar o muito que é preciso fazer para melhorar os habitats de Lince.

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«Terras do Lince», opinião de António Cabanas
(Vice-Presidente da Câmara Municipal de Penamacor)
kabanasa@sapo.pt

A convite do ICNB e do projecto Valia deslocámo-nos à Serra de Andújar na Andaluzia para ver in loco o que os espanhóis estão a fazer pela recuperação da população de linces. Autarcas, proprietários de zonas de caça, agricultores, biólogos, representantes de associações ambientalistas, pudemos apreciar o muito que é preciso fazer para melhorar os habitats de Lince.

António Cabanas - Terras do Lince - Capeia ArraianaAqueles que como eu gostam do lobo cerval e anseiam vê-lo de novo no nosso país regressaram satisfeitos. Não é que o tivéssemos visto, mais depressa o lince nos veria a nós, tal era o tamanho da comitiva e todos sabem como é acutilante o seu olhar. Mas as fotos tiradas pelas máquinas automáticas, sim, tinham-no registado na noite anterior. Um excremento fresquinho, ainda a cheirar intensamente, coelhos quanto baste, veados, águias, vistos até do autocarro e paisagem de montado até perder de vista.
Bom foi ouvir Miguel Ángel Simón, responsável pelo projecto Lince, falar dos excelentes resultados do projecto.
Ainda que os censos mais antigos não fossem fiáveis estimava-se que houvesse em meados do século XX 5 a 6 mil linces, reduzidos no final dos anos 70 a 1200 e a 1100 no final de 80. Em 2002 Guzman apontava não mais de 200 animais para a população espanhola, sendo certo que em Portugal era praticamente nula a presença do felino.
No início do milénio, os técnicos de ambos os países davam como inevitável a sua extinção. O desânimo tinha-se instalado na comunidade científica e o seu desaparecimento de um local tão emblemático como a Malcata era revelador de uma situação irreversível. Além do mais as tentativas para os reproduzir em cativeiro não estavam a resultar e quando finalmente começavam a dar frutos, eis que uma leucemia mata 9 linces só em 2007! Era o fim do Lince Ibérico! Até os mais esperançosos acreditaram estar perante a morte anunciada da espécie.
Contra todas as expectativas porém, o felino tem vindo a recuperar nos últimos anos. A Serra de Adújar-Cardena conta hoje com cerca de 160 linces quando em 2002 havia apenas 60. Também a população de Doñana, apesar da consanguinidade tem vindo a aumentar, o mesmo acontecendo na Serra Morena. Tudo isso se deve aos esforços de melhoria dos habitats que têm sido feitos nestes refúgios.
Com a viagem, tinha o ICNB a intenção de demonstrar aos caçadores e proprietários do Alentejo que a introdução do lince não lhes trará prejuízos. É conhecida a enorme desconfiança de uns e outros face às habituais restrições que impendem sobre os territórios geridos pelo ICNB. Curiosamente, na hora de fazer o balanço da viagem, tinha-se virado o feitiço contra o feiticeiro: caçadores e terra tenentes vinham encantados com o que viram e se o ICNB queria os linces que seguisse os bons exemplos dos espanhóis, respeitasse as herdades e as actividades e que em vez de impor restrições as ajudasse a tornar mais rentáveis como acontecia em Andújar. Para eles foi isso que a visita lhes mostrou: dois proprietários de fincas contentes com as limpezas, as adubações e o maneio dos habitats, tudo pago pelo projecto.
Pela nossa parte, ou seja, relativamente à Malcata, ficámos conscientes do muito que há a fazer para aumentar a população de coelho, dos muitos hectares de pastagens a semear, dos marouços a construir, dos coelhos a introduzir, do acompanhamento necessário, do que não ficámos certos é se haverá dinheiro para todo esse esforço. Esperamos que sim.
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

(Vice-Presidente da Câmara Municipal de Penamacor)
kabanasa@sapo.pt

Fundada nos anos 80, a carpintaria do Alves produz móveis de cozinhas, caixilharia e outras utilidades em madeira. Foi sempre um exemplo de bem servir os clientes, de atender com simpatia e correcção a todas as solicitações e encomendas.

Inspecções

António Cabanas - Terras do Lince - Capeia Arraiana«Quando não é possível satisfazer, nem sequer se aceita a encomenda», diz o Alves, orgulhoso dos dois empregados que mantém há mais de 20 anos, sempre com os ordenados pagos a horas, a segurança social e os seguros em ordem, não vá o diabo tecê-las. É verdade que de há uns anos para cá as coisas estão cada vez mais difíceis, «vai-se vivendo, lá vai dando para a luz», mas não se permitem veleidades.
Até que há dois anos uma vizinha lisboeta, que só vem à terra de vez em quando, por birras antigas, «talvez por inveja, sabe-se lá», desatou a fazer queixa do barulho das máquinas, das inalações dos vernizes, do fumo do forno que queima a serradura e até do cão que ladra quando lhe apetece. Diz a vizinha que só descansará quando a carpintaria fechar portas!
A vida do Alves tornou-se um inferno. Ainda gastou uns trocos a construir uma estufa de pinturas para não incomodar a vizinha, deixou de trabalhar até mais tarde, mas de nada serviu. As denúncias continuaram. Em pouco tempo foi visitado pela inspecção do Ministério da Economia, pela inspecção do trabalho, pela GNR (duas vezes), pela fiscalização da Câmara, pela ASAE, pela inspecção do Ambiente (duas vezes, uma da delegação de Coimbra e outra de Lisboa). Nenhuma entidade encontrou deficiências ou infracções na carpintaria a não ser o Ministério do Ambiente. E não apenas uma, mas muitas. Desde logo a chaminé do forno que não cumpre os requisitos, era quadrada e devia ser redonda, além de que teria de dispor de medidor de emissões poluentes. Depois o registo da gestão de resíduos perigosos que não estava em ordem, porque o empresário ao usar embalagens de verniz (resíduos perigosos) deve obter um certificado da entidade a quem as entrega. A fossa séptica que recebe os efluentes da casa de banho não estava licenciada. De nada adiantou o Alves dizer e provar que a chaminé e o forno foram construídos há 20 anos, ao abrigo da licença da Direcção-Geral de Economia e de acordo com as exigências daquela altura; de apresentar uma declaração da Câmara Municipal referindo que esta levava as latas do verniz de 15 em 15 dias para Ecocentro; de alegar que o prazo para registo das fossas tinha sido prorrogado ou de alegar que o sistema informatizado de gestão de resíduos, pertença do Ministério do Ambiente, de alteração em alteração, não estava a funcionar.
Na sua honestidade de rural ainda foi dizendo que nem sequer queimava toda a serradura, porque alguma depositava-a num terreno de mato, sua propriedade, e os desperdícios de madeira iam para a lareira. Logo percebeu o erro da sua sinceridade, pela ameaça de mais uma contra-ordenação por rejeição de resíduos no solo, de imediato corrigiu: «Mas isso foi no princípio, agora não, queima-se tudo!»
Lá foram a Lisboa as testemunhas arroladas, ouvidas por um advogado que presta serviço para o Estado, certamente bem pago. Aguardou a decisão, uma eternidade, e recebeu há dias a notícia: «2 500 euros de multa! Aplicada apenas pelo mínimo, porque podia ter chegado aos 25 000 euros, era o que dizia a contra-ordenação! Estava preparado para fechar a porta.»
«Ainda me aconselharam a recorrer, garantiram-me que com um bom advogado, me limpariam tudo em Tribunal, mas deitei contas à vida, gastaria mais em custas e no advogado do que o valor da multa! Temos que sustentar esta cambada! Vá lá que ainda me facilitaram pagar em prestações!»
É assim que o País trata quem trabalha, obrigando-o a dar o litro, o Estado agarra-se-lhe que nem uma carraça, suga-o a até ao tutano, que o déficit a isso obriga. E não é apenas o Estado que parasita a economia, são também uma panóplia de outras entidades criadas ou estimuladas pelo Estado, consultoras, certificadoras, que emitem certidões de conformidade, que vendem serviços novos que o Estado inventa todos os dias, ou aplicações informáticas que apenas complicam a vida a quem produz.
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

(Vice-Presidente da Câmara Municipal de Penamacor)
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A Confraria do Toiro Bravo reuniu-se na tarde de Sábado (29 de Maio) para o seu IV capítulo anual em Coruche, onde foi fundada, no final de 2006. O evento decorreu, no Observatório do Sobreiro e da Cortiça, enquadrado na FICOR, certame destinado a promover a fileira da cortiça, onde só aparentemente se poderá estranhar a presença do touro bravo, já que o montado é o seu ecossistema favorito. A Confraria do Bucho Raiano marcou presença em terras ribatejanas.

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António Cabanas - «Terras do Lince»A Vila Ribatejana recebeu as várias dezenas de representantes de outras confrarias engalanada, com feira e tasquinhas, onde não podia faltar a tradicional tourada à portuguesa. Embora de forma modesta, a Confraria do Bucho Raiano esteve presente.
O Presidente da Câmara local, confrade, mas à civil, deu as boas vindas aos forâneos, enalteceu o trabalho desenvolvido pela confraria e justificou a existência do observatório como uma ode ao sobreiro. Ora aí está!
Na oração de sapiência, proferida pelo confrade Dr. Francisco Fernandes, ficou a saber-se que as touradas já vêm dos gregos e romanos e de outras mitologias antigas, mas também que o conhecimento culinário milenar com o qual poucos se preocupam se pode perder com a morte de quem o detém.
Momento de boa catadura ocorreu quando a meio das alocuções entrou o antigo matador de gado do extinto matadouro municipal. Do alto da sua proveta e tisnada idade, desceu a coxia do auditório, deu as boas tardes em voz alta, interrompeu a oratória do maioral e, sentando-se na primeira fila, fez-se notar ostensivamente. E não era para menos, afinal o Sr. Manuel seria entronizado daí a pouco como confrade honorário do Toiro Bravo, ele que no velho matadouro, ensinava o bêabá da arte de matar reses bravas aos futuros matadores.
Vamos ao que interessa, à comida, claro, ou não fosse ela razão maior de uma confraria gastronómica! O restaurante o Farnel esteve à altura da responsabilidade, logo a começar pelas entradas, iniciadas pelos famosos espargos bravos que também os toiros comem na herdade. A língua de fricassé, o beiço e os rins salteados, tudo de bravo, estavam uma delícia. As carnes mais afrodisíacas ficarão para o próximo capítulo! Para variar, o prato principal era constituído por nacos de vitela brava com favas. A sobremesa foi já um tanto apressada pela urgência da tourada, mas deu para notar a curiosa apresentação do folhado com creme de ovos, em forma de cabeça de toiro. O vinho não se ficou atrás, ribatejano, reserva multicastas de 2004 da Quinta Grande, um pouco graduado demais, mas agora é moda.
A maior surpresa estava reservada para a noite, com o desfile de todas as confrarias presentes, em plena praça de touros. Não estando as praças dotadas de portas para confrarias, entrámos pela porta do cavalo. Foi então que entendi a razão das favas ao jantar, só não relinchamos por respeito aos Ribeiro Teles e ao Pablo Hermoso que já alpendorados nas suas belas montadas, aguardavam que o desfile confrádico acabasse, para eles próprios darem início ao de cortesias.
A praça acabou por encher para ver a I Grande Corrida das Confrarias. Os toureiros da terra esforçaram-se para entusiasmar o público, enquanto o espanhol, com cavalos bem treinados apenas lhe faltou a elegância que este tipo de toureio exige.
Os forcados começaram mal, com o primeiro touro, em derrote violento, a desbaratar as ajudas tardias do grupo de Montemor e a deixar o forcado da cara muito maltratado e a necessitar de sair de maca. Já os da casa brindaram a pega às confrarias, e foi uma pega de se lhe tirar o chapéu, que levou a assistência ao delírio. Agarrado que nem uma lapa na cara do touro aguentou meia praça, ora arrastando na areia, ora quase voando pelos ares, até à reunião de todo o grupo.
Confrades e confreiras aplaudimos de pé!
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

(Vice-Presidente da Câmara Municipal de Penamacor)
kabanasa@sapo.pt

Estão de volta as grandes romarias da Região, sinal da chegada do bom tempo. Estranhamente, ou talvez não, continuam a arrastar milhares de pessoas aos seus santuários, geralmente pequenos demais para tantos automóveis e tendas de vendedores ambulantes. A Senhora da Póvoa afirma-se no panorama regional como uma das mais concorridas.

Senhora da Póvoa

António Cabanas - «Terras do Lince»Depois de uma quebra nos anos 60 e 70 em que de 3 dias acabou em 1, ei-la de novo em grande! Aos poucos foi crescendo e depressa os «tendeiros» sentiram necessidade de ir de véspera para guardar o lugar, levando a que na tarde de Domingo já houvesse muita gente, muitas tascas e arraial. Hoje vêm na véspera da véspera e já têm de novo dificuldade em obter o tão desejado espaço em sítio adequado, entenda-se onde passe muita gente.
Há os que apenas vão pela devoção religiosa, comungam dos actos religiosos, acendem uma vela, perfilam-se na procissão e rezam na igreja.
Há até quem se martirize de joelhos, em seu redor, pagando uma bênção divina, ou requerendo-a.
Cá fora, o Zé-povinho, numa espécie de orgia colectiva, percorre a feira em busca de uma qualquer pechincha, canta e dança, abraça os amigos, enche o bandulho com opíparos repastos, emborca copos de tinto e de cerveja.
Há muito nos interrogamos sobre a sua origem. Naturalmente, como tantos outros cultos a santos e santas que o nosso povo estima, terá provavelmente origens muito remotas, em antigos cultos pagãos. No cimo da Serra d’Opa há claros indícios de um santuário sacrificial. É um local de cume, também de actuais e antigas divisões administrativas, talvez mesmo muito antigas, pois era normal que elas passassem pelos acidentes geográficos, pelas alturas, ou pelos rios intransponíveis. Mas era também nesses locais que se efectuavam manifestações guerreiras ou, pelo contrário se juntavam as tribos para festejar a paz, eram assim locais de aproximação, de reencontro, provavelmente de festejos, onde quem sabe, se acertavam romances que miscigenavam o sangue.
Como nesse tempo longínquo continuam hoje a afluir gentes de diversas origens. No caso da Sra. da Póvoa vêm de Belmonte, do Fundão, do Sabugal, das Idanhas e de outras paragens mais distantes, além das aldeias do concelho de Penamacor. Ali, se juntaram sempre gentes do norte e do sul, o pandeiro redondo e o pandeiro quadrado. Gaiteiros e tocadores de harmónio, adufeiras e tamborileiros desafiavam os mais dançarinos. Qualquer realejo servia para fazer um baile! Enquanto os foliões se divertiam, os vendedores faziam negócio vendendo foices, tamoeiros, albardas, ancinhos, cabeçadas, e toda uma panóplia de objectos e alfaias de uso doméstico.
Os dias que antecediam a festa eram de muita ansiedade e de muito trabalho: o plantio e a rega da horta ou a apanha do feno. Eram por vezes dias de trovoada, ameaçando estragar os trabalhos agrícolas e a própria festa.
Pior ansiedade ainda provocavam as conversas dúbias lá de casa, que escondiam incógnitos jogos de interesses. O pai que perguntava:
– Não prometeste de ir à Senhora da Póvoa?
A mãe que respondia:
– Não, que está o feno para apanhar.
– Se não vamos, a santa castiga-nos com alguma trovoada!
– Não me apetece preparar a merenda!
– Mas a mãe já fez almôndegas de bacalhau! – Atalhava eu a pensar no realejo e na moto de três rodas, feita em lata pintada e que daria brincadeira para todo o ano.
– Cala-te fedelho, que não são contas do teu rosário!
Por fim, chegava o dia, não havia escola – e mesmo que houvesse! – A madrugada era um corrupio, regar a horta, tratar dos animais, preparar o burro, ou então esperar pela camioneta, na estrada. Muitos autocarros nem sequer paravam, vinham cheios, com gente de pé no corredor. Os vidros abertos deixavam escapar a animação das concertinas e adufes e contagiavam os que aguardavam na paragem:

Nossa Senhora da Póvoa
Onde ficais situada
Num desvão da Serra D’ Opa
Numa casa caleada

Nossa Senhora da Póvoa
A vossa Capela Cheira
Cheira a cravo cheira a rosa
Cheira a flor de laranjeira

Nossa Senhora da Póvoa
Já cá vamos à Meimoa
Que terá o vosso sino
Que o vosso sino não toa

«Terras do Lince», opinião de António Cabanas
(Vice-Presidente da Câmara Municipal de Penamacor)
kabanasa@sapo.pt

Alguém ainda se lembra da Gripe das Aves? Claro, foi substituída pela gripe dos porcos, airosamente rebaptizada de Gripe A. Quem ainda se lembra dos planos de contingência e do previsto uso de máscaras? Eu lembro, vinha aí uma pandemia, uma tragédia das grandes! Ainda bem que passou ao lado. Livramo-nos de boa!

Vous êtes riches! - António Cabanas

António Cabanas - «Terras do Lince»Ou terá sido o terramoto do Haiti que nos fez esquecer a Gripe, como os escândalos de corrupção fizeram esquecer o terramoto e o Benfica e o Papa juntos apagaram a novela das inquirições.
Aparentemente, terá havido na questão da gripe um erro de cálculo. Como na meteorologia, em que as massas de ar se desviam das rotas previstas pelos meteorologistas e as borrascas se abatem ou esbatem de forma imprevista, também aqui houve um erro de cálculo. Aliás já o tinha havido com a gripe das aves. Foi também o caso da doença das vacas loucas e de tantos outros medos que intermitentemente nos assustam. Mas talvez não tivesse sido apenas um erro de cálculo. É que, ao contrário da meteorologia, no caso das gripes houve também cálculos certeiros, que só falharam por defeito, como os milhões arrecadados pelos donos das grandes farmacêuticas que produzem vacinas; os mesmos milhões desembolsados pelos estados, que o mesmo é dizer pelos contribuintes, para as pagar; os milhões de litros de desinfectante vendidos para lavar as mãos da tinhosa estirpe da gripe suína ou ainda os milhões de aves inocentes que foram sacrificadas, e os milhões de euros de prejuízos que os avicultores tiveram de suportar.
Por detrás estão sempre os poderosos que manipulam a informação científica e a colocam na comunicação social sempre ávida de desgraças e pouco propensa a investigar a veracidade do que lhe fornecem. É a terrível arma da propaganda do medo, propalada por quem tem dinheiro para pagar publicidade camuflada em notícias cirurgicamente difundidas. Sempre haverá um Rumsfeld qualquer preparado para vender doses aos milhões. Pelo meio há os governos incautos, dispostos a gastar o que têm e o que não têm para agradar aos seus governados, não vá perder-se o poder devido a uma hipotética mortandade nacional. Há ainda os hipócritas que tentam vender as sobras que já ninguém quer e há os pobretanas estados africanos que quando a esmola é grande, desconfiam. Porque na política pode ser-se preso por ter cão e por não ter, o melhor mesmo foi oferecerem-se as vacinas aos países amigos, não viesse a opinião pública reclamar do desperdício!
Mas porque deixou então de falar-se da gripe? Porque era apenas uma treta! Assim mesmo lhe chamou, em devido tempo, a Ministra da Saúde finlandesa que acabou demitida pela frontalidade e honestidade demonstrada numa entrevista. Afinal estava coberta de razão, só que nem sempre é conveniente ter razão.
Numa das minhas últimas estadias em França, um Maire amigo andava numa roda-viva, envolvido na nobre missão de saúde pública de sensibilizar os seus munícipes para a vacinação em massa que ocorria no próprio Hotel de Ville (Paços do Concelho). Ele próprio fora o primeiro a dar o exemplo! Lembrei-me logo do escândalo que estalou na Alemanha quando constou que não haveria vacinas suficientes, e que só os vips seriam vacinados, versão imediatamente alterada para uma vacina de primeira e outra de segunda. Passou-me também pela retina o filme Titanic e os salva-vidas onde só cabiam os ricos. Perguntou-me então o Maire como estava a decorrer a vacinação em Portugal e se eu já estava vacinado! Que não, que os autarcas em Portugal eram tratados como persona non grata, e que seriam os últimos a ser vacinados se vacinas chegassem! Como eu já não me constipava há mais de sete ou oito anos e não seria um viruseco qualquer, ainda por cima vindo do porco, a deitar-me por terra, se não morria da doença, muito menos morreria da cura! Rimo-nos quando acrescentei que, como a vacina tinha efeitos indesejáveis, eu ficaria para contar a história. Uns meses após o regresso, não pude deixar de sorrir com a notícia de que o governo francês não sabia o que fazer a tantos milhões de vacinas! Veio-me então à memória uma frase que dissera ao meu amigo francês: Vous êtes riches!
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

(Vice-Presidente da Câmara Municipal de Penamacor)
kabanasa@sapo.pt

Desde há uns anos que a política portuguesa se traduz numa espécie de novela à brasileira, de desfecho tão imprevisível quanto interminável. A instabilidade é a sua imagem de marca, uma espécie de fatalidade, de destino que nos está reservado enquanto povo. Não há governo que se aguente mais que um mandato e isso reflecte-se nas políticas públicas, as quais, mesmo quando ostentam algum virtuosismo, se vêm condenadas ao fracasso logo que o governo mude. Contra a fraqueza de quem governa, os lobbies corporativos foram, por sua vez, ganhando cada vez mais força, com claro prejuízo dos interesses colectivos de âmbito mais alargado.

impeachment

António Cabanas - «Terras do Lince»Ninguém acredita que tal perturbação seja favorável ao progresso da nossa sociedade.
As fragilidades económicas e de desenvolvimento que nos afectam, têm as suas raízes mais profundas nesse estado de contínuo cozimento em lume brando.
A política portuguesa é uma espécie de zona sísmica, que vive em permanente sobressalto e onde não vale a pena erigir nada de substantivo, que logo cairá. O que conta é o imediato e o imediatismo. Somos avessos ao longo prazo!
O sucesso económico da nossa vizinha Espanha, que teve em 35 anos apenas 6 governantes (nós tivemos 4, nos últimos 10 anos!), também se poderá explicar pela sua maior estabilidade política.
Como se não bastasse a crise para gerar perplexidades e incertezas no futuro colectivo, a nossa classe política contribui decisivamente para acentuar a turbulência.
A telenovela diária em que se tornou a Comissão de Inquérito ao negócio PT/TVI, passada em directo pelas televisões, espectáculo deprimente e voyeurista que entretém um país afundado numa enorme crise de confiança, é disso o melhor exemplo.
Ninguém entende o que se quer apurar, quando todos, incluindo a opinião pública, já perceberam há muito o que se passou. Até adivinhamos as conclusões!
Se de um julgamento se trata, uma comissão parlamentar é o pior dos tribunais, onde o juiz é por natureza tendencioso. Nunca será um julgamento justo. Aprovados por votação, os resultados só poderão espelhar a própria composição da Comissão e do parlamento. É também certo e sabido que as partes sairão da comissão como entraram, sem alterar uma vírgula às conclusões previamente formuladas.
Ninguém duvida que o primeiro-ministro detestava o famigerado jornal de «estilo manuelino» da TVI. Nem sequer era o único. A mim também me causava asco. Aliás, Sócrates nem sequer foi cínico, apontou-o como travestido. Penso que o Primeiro-ministro fez mal em preocupar-se com ele, que de tão mau era inofensivo.
Um destacado ex-accionista da TVI assegura, que, de forma deliberada esta estação pretendia derrubar o Primeiro-ministro. Ficou-se também a saber que igual prática foi usada contra Santana Lopes. Só não sabemos o valor do contributo para a sua demissão. Ajudar a derrubar políticos e governos é uma prática comum em alguma comunicação social. Isso é feito de forma descarada.
Que o primeiro-ministro conhecia o tal negócio, parece óbvio, e que foi a barulheira da comunicação social que impediu a sua concretização, ainda é mais óbvio. Mas ainda ninguém percebeu que mal ele faria ao país. Que com tal negócio o governo controlaria a comunicação social, e que haveria um plano com esse objectivo, parece pura fantasia! O governo não controla coisa nenhuma no que respeita a grupos económicos e muito menos a comunicação social que é o mais poderoso! Seria até contraproducente, pois o governo que está hoje, não estará amanhã, virar-se-ia o feitiço contra o feiticeiro.
O cúmulo da futilidade é discutir-se um negócio que nem sequer existiu. Para que serve, então, todo este teatro? A resposta é clara, pretende-se destituir o primeiro-ministro e o governo: uma espécie de impeachment à portuguesa, porque ninguém tem coragem para uma moção de rejeição, pelo receio dos resultados eleitorais que poderiam vir a seguir.
Fica-se com a sensação de estarmos a caminhar para o abismo político, onde vingam os jogos de bastidores de curto prazo que apenas geram poder de curto prazo.
Que ganha o país com tudo isto? Nada. Pelo contrário, acentua-se a degradação da vida política, a desresponsabilização de quem governa, perdem-se reformas iniciadas anteriormente e agrava-se a crise económica e social. É tudo o que este país não precisava neste momento. Só um pacto de regime de amplo consenso, «a la longue», poderá tornar o país governável e permitirá a convergência com os parceiros da UE.
Exemplos não faltam na Europa.
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

(Vice-Presidente da Câmara Municipal de Penamacor)
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O Lince é decididamente um animal enigmático. Tão enigmático que são vários os seus nomes: lobo-cerval, liberne, gato-cerval, gato-cravo ou gato-real. Há até quem o apelide de gato-fantasma ou de nunca-te-vi! Também se lhe atribuem características estranhas como a capacidade de perfurar a rocha com o seu «olhar de lince».

Centro Reprodução Lince Ibérico - Silves

António Cabanas - «Terras do Lince»Trepador, territorialista, e dorminhoco como todos os gatos, não precisa de lições de eficiência energética, pois não gasta energias desnecessárias.
Dizem os especialistas que possui uma estratégia K, opção de vida, por sinal, mais difícil do que o comum das espécies. Significa que, ao contrário de outras que investem em termos reprodutivos em proles numerosas (estratégia r), o lince tem como desígnio ter poucas crias. Mesmo quando nascem mais que uma, raramente sobrevivem mais que duas. A sua reprodução em cativeiro tem reflectido essa tendência, registando níveis elevados de mortandade das crias. A comprová-lo ainda recentemente morreu uma das crias das duas que, pela primeira vez, nasceram em Portugal.
Optando geralmente pelo filho único super-protegido pela mãe, assume-se como animal solitário que não tolera amizades, nem vida de casado que não seja por fugazes momentos de satisfação sexual. Passado o cio, fêmea e macho brigam pelo couto de caça até ao ponto de se ferirem mortalmente. Mesmo o acasalamento tem, como nos gatos domésticos, uma aparente conflitualidade.
A sua estratégia comporta ainda outra característica que por razões conhecidas lhe tem dificultado a sobrevivência. Especialista em coelho, do qual se alimenta em mais de 60%, podendo mesmo chegar a 80 ou 90% se este roedor for abundante, caça de salto, na orla das clareiras. É por isso um sprinter, cujo coração lhe impede a maratona de perseguir as presas, como outros incansáveis predadores.
Foi a sua dependência das populações de coelho e a diminuição destas em virtude de doenças (mixomatose e hemorrágica viral) e de outras razões, o factor que mais contribuiu para a situação de ameaça que impende sobre a enigmática espécie. Foi também a alteração dos habitats, o abandono da agricultura e as florestações em áreas contínuas que lhe roubaram o espaço de que precisa para sobreviver: o mosaico de matorral, entremeado de clareiras com pastagem e, sobretudo com coelhos.
Com a redução das populações e sua fragmentação, veio outro problema ao gato-cerval, a consanguinidade e a consequente diminuição de resistência a doenças. Não se estranham por isso as notícias sobre um elevado número de linces a sofrer dos rins, coisa incompreensível para um velocista.
Conhecidas as principais ameaças, impõe-se combatê-las eficazmente, o que nem sempre é tarefa fácil. Melhorar as áreas potenciais para a sua reintrodução, em alimento, ou seja aumentando a população de coelho, parece ser a principal urgência, que em conjunto com a criação de efeitos de orla, redução de riscos de caça e de atropelamentos, pode contribuir para ajudar à sua sobrevivência. Em alguns casos pode ser vantajoso reduzir os competidores ou combater as suas eventuais doenças.
A ciência não conseguiu ainda encontrar uma vacina eficaz para a hemorrágica viral, como o fez para a mixomatose, mas surgiu recentemente uma luzinha de esperança: as populações de coelho de algumas regiões de Valladolid aparentam ser resistentes àquela doença. Podemos estar pois num ponto de viragem, de nova esperança. O programa de reprodução em cativeiro também esteve enguiçado durante mais de uma década e de repente, de forma enigmática a condizer com o bicho, surgiu a fórmula secreta para o reproduzir. Pelos vistos foi só trocar de macho!
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

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Conscientes da importância estratégica da água e da electricidade, os municípios com barragens nos seus territórios discutem actualmente uma série de reivindicações que pretendem fazer à Administração Central. A vontade de fazer valer os seus interesses é tão forte que já se organizaram em secção no seio da Associação de Municípios.

Barragem do Sabugal

António Cabanas - «Terras do Lince»O principal objectivo da discussão gira à volta da repartição das avultadas verbas que resultam da exploração das centrais hidroeléctricas. As autarquias querem que se adopte o mesmo procedimento que é aplicado aos parques eólicos em que uma parte da produção, legalmente 2,5%, reverte para os territórios em que estão localizados. É na verdade uma pequena migalha em face do elevado rendimento que estes investimentos geram e em face da fatia de leão que pagam ao estado, mas ainda assim um precioso auxílio aos magros recursos municipais. As autarquias tentam negociar uma percentagem idêntica a aplicar às barragens, mas o estado e a entidade reguladora contrapõem que isso se irá reflectir na factura a apresentar ao consumidor. Fazem-se as contas e pronto, o Zé povinho que pague! Logo os partidos do poder, nobres arautos da defesa do consumidor, entenda-se do votante, se opõem tenazmente a qualquer mexida que, supostamente, implique aumentos da luz, porque nenhum quer ser o mau da fita. Porém, a verdade dos factos é outra e o que está por trás é diferente do que se quer fazer crer. O Estado não só recebe os impostos da energia como as verbas astronómicas das concessões das barragens. Recentemente, deliberou antecipar o recebimento dessas contrapartidas, ou seja, fazendo-se pagar à cabeça, por concessões de 25 anos. Pelas barragens do Fridão e do Alvito, por exemplo, a EDP pagou, adiantados ao Estado mais de 200 milhões de euros! As barragens do concelho de Montalegre, onde a EDP produz, por ano, 100 milhões de euros, renderam ao erário público, só pela renovação da concessão, 275 milhões de euros! Isto porque o estado quer, pode e manda e a EDP é, como se sabe, uma empresa pública, ainda que camuflada de sociedade anónima.
Veja-se agora o outro lado, o da própria EDP. Nos últimos três anos económicos, 2007, 2008 e 2009, a «eléctrica» arrecadou em cada ano mais de mil milhões de euros! Claro que isso permitiu que se pagassem os tais ordenados escabrosos dos respectivos administradores e os tais prémios não menos escabrosos, objecto de tanta polémica.
Postas assim as coisas, os 2,5% a pagar pela EDP aos municípios pouca mossa farão nas contas da EDP e menos ainda nas do Estado. Não vemos sequer nenhuma razão para que isso implique qualquer aumento no custo da tarifa da luz. Até porque Portugal já é um dos países da União Europeia com a tarifa mais cara. Nem precisamos ir muito longe, comparando com a vizinha Espanha os portugueses pagam mais 41%.
O estado, e a EDP de que o estado é dono e senhor, bem podem abdicar dessa pequena migalha de 2,5% que os municípios reivindicam.
Nesta, como em outras matérias o estado trata mal os municípios, com a agravante de que neste caso se trata dos municípios deprimidos do interior, que geram riqueza para o todo nacional. Ou seja, a solidariedade tem apenas um único sentido: do interior para o litoral. Se o sol quando nasce é para todos, a electricidade é só para alguns!
Mas na factura da energia há ainda outras aberrações em que os municípios são vítimas da gulodice insaciável do estado: até a iluminação pública, que é como se sabe paga pelas autarquias foi recentemente onerada com as taxas da RTP. Como qualquer consumidor doméstico que possua televisão, as autarquias têm agora de pagar ao estado, via EDP, essa famigerada taxa, por cada um dos milhares de contadores da rede pública. Claro que quem acaba por pagar são, em última instância os munícipes.
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

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No dia em que escrevo este artigo comemoram-se cinco anos da morte de Karol Wojtyla, esse gigante da igreja que quis chamar-se João Paulo II. Figura marcante do século XX, o Papa que ousou desafiar o poder dos grandes impérios, foi ao mesmo tempo cativante e catalisador de massas, de humildes e oprimidos. Mesmo para os mais agnósticos era um homem fascinante e um semeador de esperança. Estimado pelo povo anónimo cristão, foi aos jovens que soube falar como nenhum outro papa o fizera antes. Estes recompensaram-no com autênticos banhos de multidão. Eram aos milhões nas famosas jornadas mundiais da juventude!

Papa João Paulo II com Fidel Castro

António Cabanas - «Terras do Lince»Não precisou de ganhar o prémio Nobel, que aliás seria merecido, para se considerar o maior mensageiro da paz e da concórdia mundial e, simultaneamente, um acérrimo defensor dos direitos humanos e das nações mais pobres.
Foi muitas vezes politicamente incorrecto, mas ética e moralmente coerente com os mais elementares princípios da Igreja. Ousou visitar Cuba e criticar o embargo económico americano para logo criticar também o regime de Fidel e as penas aplicadas aos seus dissidentes.
Poderíamos chamá-lo o Papa peregrino, pois viajou por todo o mundo, visitando centenas de países e milhares de locais, reunindo em todo o lado verdadeiras multidões. Foram as suas inúmeras viagens que contribuíram decisivamente para mudar mentalidades e derrubar muros e regimes obsoletos.
Foi a visita papal ao seu país de origem que levou a libertação e inspirou o movimento Solidariedade para chegar ao poder. Foi um «Não tenhais medo», que fez crescer a coragem e apressou a derrocada do muro de Berlim.
Os portugueses estão-lhe gratos pelas suas 5 visitas, grato também ele ficou à virgem de Fátima, de que era devoto, pelos milagres da sua recuperação.
Quebrou vários tabus do catolicismo: nunca um papa tinha visitado Jerusalém ou rezado no muro das lamentações e em quase mil anos, desde o cisma da igreja ortodoxa, nenhum tinha visitado a Grécia. Pregou em sinagogas e mesquitas, aproximou religiões num diálogo inter-religioso sem precedentes e fomentou o ecumenismo de forma incansável durante o seu pontificado.
Carismático e popular, sabia que liderar é comunicar, lidando admiravelmente com os meios de comunicação social que viajavam consigo para todo o lado e acompanhavam cada momento da sua vida.
Foi um verdadeiro exemplo para todos nós. Órfão de pequena idade, desportista, amante da literatura e do teatro. Deu-nos uma lição de perdão ao perdoar até aos que atentaram contra a sua vida e visitando-os inclusivamente na prisão. Mas também soube pedir perdão por erros que a Igreja cometera no passado.
Quando poderia ter resignado ou fazer-se representar, assumiu-se como exemplo de estoicismo e de luta contra o sofrimento e a doença que no final da sua vida o atormentavam.
Pouco frequentador dos ofícios religiosos, fui no entanto fã deste vulto da Igreja (quem o não foi?). Juntei-me aos milhares que o receberam em Fátima, gostava de ouvir a sua voz na Televisão, desejando-nos, em língua portuguesa, uma feliz Páscoa ou um Bom Ano Novo. Acompanhava à distância as suas viagens e ouvia ou lia os seus discursos. Comovi-me de tristeza com a notícia da sua morte e fiz fila para visitar o seu túmulo no Vaticano. Santo ou não era um homem de carne e osso, igual a nós, mas que mais do que a maioria de nós soube atingir esse desiderato de humanismo que só está reservado a uma pequeníssima minoria. É curioso que seja justamente numa Sexta-Feira Santa, que tal comemoração ocorre.
Rendo-lhe aqui a minha homenagem.
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

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Decididamente a Igreja não sabe lidar com as questões do sexo. Sempre que as mesmas se colocam na sociedade, as estruturas religiosas raramente acertam o passo, assumindo habitualmente posições contrárias ao resto da sociedade.

Papa Bento XVI

António Cabanas - «Terras do Lince»São sobejamente conhecidos os engulhos eclesiásticos acerca da inadmissível discriminação das mulheres, que constituindo a maioria dos fiéis, são estranhamente impedidas de aceder aos cargos sacerdotais. A culpa, neste caso, também é delas, pela passividade e falta de contestação, incompreensível quando comparada com a força demonstrada na luta pelos seus direitos, pela sua emancipação e pela igualdade noutras áreas da sociedade. Pelo contrário, em matéria de religião, continuam, a aceitar a subalternização, como se Deus as tivesse abandonado. Mas não será de excluir que um dia destes as mulheres façam greve à religião, deixando as igrejas vazias!
Outro tema recorrente é o casamento dos padres que, segundo alguns, resolveria o problema da falta de vocações. O Vaticano, porém, nem quer ouvir falar do assunto, demonstrando que ao nível mais elevado da hierarquia da Igreja há assuntos que são autênticos tabus. João Paulo II, apesar de mais aberto à mudança que o actual Papa, também não aceitou discuti-los. No entanto, os incumprimentos ao celibato sacerdotal continuam nos dias de hoje a fazer estragos sociais e deixar sem pároco algumas das nossas freguesias. Ainda recentemente, assistimos a uma mediática história amorosa, entre um jovem pároco português e uma sua paroquiana.
Neste capítulo, a Igreja deu alguns passos atrás, já que no passado, muitos dos clérigos eram casados e tinham filhos. Não soube, por isso, tirar partido da realidade de então, para em definitivo instituir o casamento dos padres e dessa forma universalizar o acesso ao sacerdócio. Teria matando 2 coelhos de uma só vez!
Na mais recente visita a Angola, o Papa voltou a escorregar no ataque ao preservativo, considerando-o como uma espécie de atentado à vida. Numa região em que a sida é o mais sério problema de saúde e de mortalidade, ninguém entendeu a mensagem do sumo pontífice. Neste capítulo, bem pode dizer-se que a instituição religiosa parece ter receio da inovação e do moderno. O controle de natalidade sempre existiu no passado, com formas arcaicas e bastante cruéis, como o abafamento de bebés e outros métodos, bem conhecidos e tolerados pela Igreja. Ao criticar as formas modernas, cómodas e sensatas de controlo de natalidade e que tornam as relações sexuais mais seguras, a Igreja demonstrou mais uma vez a sua dificuldade em lidar com o sexo.
Os piores fantasmas, no entanto, são as notícias que em catadupa, tem vindo a lume nos últimos meses sobre os abusos de pedofilia, supostamente perpetrados por padres em vários países do globo. Estes casos estão a abalar seriamente a ética da instituição religiosa, que não soube no passado recente lidar com o assunto, não soube tomar medidas atempadamente e assobiou para o lado, como se de assunto alheio se tratasse.
Neste particular, o problema poderá tomar dimensões mediáticas catastróficas e está a deixar o próprio Bento XVI em maus lençóis.
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

kabanasa@sapo.pt

São recorrentes as queixas sobre a burocracia, como recorrentes são as supostas iniciativas políticas para a aliviar. Contrariando a ideia de que a informática reduziria drasticamente a dependência dos papéis, promovendo a sua diminuição, a escrita em letra de forma ficou ao alcance de qualquer impressora, pelo que qualquer um de nós tem hoje uma pequena indústria gráfica em casa ou no escritório, multiplicando por mil a facilidade de produzir «papel».

Burocracia

António Cabanas - «Terras do Lince»Se por via da informática se não reduziram os papéis, também não se reduziram por via da simplificação dos serviços, vulgo, simplex, pois não me parece que o cidadão comum tenha notado, através dele, alguma melhoria. Se houve serviços e sectores da administração onde as coisas se simplificaram, continua a haver outros a emperrar o sistema e foram até criados novos e mais difíceis obstáculos.
Há dois anos um amigo meu francês ficou impressionadíssimo com a rapidez com que conseguiu fundar e registar uma empresa em Portugal: em poucos dias ficou tudo pronto e, apesar de o ter aconselhado a não deitar foguetes antes da festa, fiquei cheio de orgulho de ser português!
Encontrei-o recentemente, muito desanimado e perguntando-lhe se o negócio não estava a correr bem, coisa natural com a actual crise, respondeu que nem bem nem mal, pela simples razão que ainda nem sequer o iniciara por falta de licenciamento. Desabafou que, não fora o dinheiro já investido, desistiria do negócio, tal era a descrença na nossa administração pública. Relatou-me então a odisseia de papeladas e pareceres de diversas entidades que teve que solicitar, das demoras de uns e de outros, dos papéis que constantemente lhe pediam, além da enorme despesa que isso lhe acarretara. Bem o avisaram alguns que para a coisa andar, era necessário conhecer alguém nos serviços.
Contou então que, além das muitas autorizações, arrancadas a ferros da Administração, ainda esperava por uma alteração de cadastro e que estava farto de perguntar por ela onde a tinha requerido e não havia forma de vir deferida. O pedido, feito há mais de um ano na repartição de finanças local, seguira o seu curso normal, fora enviado para a repartição distrital que por sua vez o enviara ao Instituto Geográfico (IGP), que lhe enviara uma carta a pedir mais de 250 euros por um serviço de urgência, que depois de um telefonema ficou a saber que era pegar ou largar: ou pagava a urgência, ou esperava sentado, eternamente! Farto de esperar, não viu outro remédio, que não fosse pagar sem demora e passadas umas semanas lá apareceu o topógrafo dos serviços cadastrais que o informou do caminho de volta exactamente igual, mas em sentido oposto, que levariam os papéis, até chegarem à sua mão: do IGP para a distrital de finanças, desta para a repartição de bairro e finalmente para o requerente. Aconselhei-o a telefonar, para as repartições onde os papéis teriam de passar e rogar que de imediato os despachassem para a etapa seguinte, ou até oferecer-se para ser ele o portador dos mesmos. Riu-se, mas acabou por aceitar o conselho quando lhe expliquei que já tinha passado por essa experiência, duas ou três vezes e que nas últimas obtive as operações cadastrais, devidamente aprovadas, em menos de três meses.
Um país que necessita urgentemente de se desenvolver, de promover o investimento, de produzir e criar emprego, não pode dar-se ao luxo de continuar a manter este tipo de garrotes administrativos, retrógrados e que, ao fim e ao cabo, não cumprem nenhum objectivo de defesa do bem público, mas que têm às vezes associados interesses instalados. A mudança de paradigma, porém, não é um desafio apenas da administração pública. É, antes, de todos nós, que temos o direito e o dever de contestar as formas arcaicas de controlo prévio das actividades.
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

kabanasa@sapo.pt

O governo acaba de publicar o diploma regulamentar sobre as taxas a aplicar nas áreas protegidas (Aps). Depois de uma anterior tentativa frustrada para taxar a quase totalidade das actividades desenvolvidas nas Aps e da contestação generalizada dos afectados, o ICNB veio de novo à carga: suspensa durante três meses, a portaria volta agora com algumas alterações. Tal como na famigerada lei dos poços, o Ministério do Ambiente, mais uma vez, dera marcha-atrás, mas desta vez para avançar de novo, três meses depois. A pressa em ir ao bolso dos contribuintes nem sempre dá bons resultados!

Paisagens Protegidas

António Cabanas - «Terras do Lince»Concordo com o princípio do utilizador pagador, mas nunca vi com bons olhos as há muito anunciadas taxas das Aps. Algumas, foram agora abolidas, mas ainda assim há muita taxa e pouca conservação na nova portaria, com valores a roçar o exagero.
Os agricultores (se ainda os houvesse) ficarão agora isentos. Neste caso imperou o bom senso. Quem não está isento são as autarquias que para construção de uma nova via ou alargamento de uma existente, pagarão uma taxa que pode ascender aos 5000 euros! Curiosamente o estado tem uma lei que impede as autarquias de cobrar taxas aos serviços da Administração Central. Nunca entendi a má vontade do estado para com as autarquias nem esta dualidade de critérios!
Se uma qualquer entidade, ou um particular pretender a partir de agora construir um edifício com mais de 200 m2, dentro de uma Ap, poderá pagar uma taxa até aos 10 000 euros, dependendo do tamanho. Mas há taxas para todos os gostos!
É um claro desincentivo às actividades nestas zonas tão deprimidas, cuja preservação está hoje mais ameaçada, justamente pela falta de actividades humanas.
Pode dizer-se que é o próprio ICNB a promover o abandono das Aps. As actividades de turismo, recreativas ou de lazer, no fundo as que melhor se adequam às áreas protegidas, ficam agora mais caras e difíceis de desenvolver. Acrescente-se aqui a burocracia e o tempo geralmente gasto na obtenção dos pareceres e autorizações.
As populações e regiões que souberam ao longo de séculos preservar a sua natureza, vêm-se assim injustamente penalizadas pelo seu altruísmo. Paga o justo por pecador!
A razão desta nova política das Aps, não é senão a razão do deficit e dos parcos orçamentos do ICNB que assim tenta minimizar a falta de recursos. Tenho, porém, dúvidas que assim se resolva o problema do instituto. O mais certo é que por tanto se esticar a corda, ela parta, como tem partido em outros sectores da vida nacional.
O problema é, mais uma vez o mesmo: o hábito de passar do 8 ao 80! Quando há uns anos, neste país que nem é dos mais prendados em termos naturais, as Aps proliferaram como cogumelos, enxamearam de funcionários do quadro, estagiários, contratados, vigilantes, biólogos, ninguém se preocupou com os custos, nem com quem iria pagar a factura. Vivia-se à tripa forra! Agora que chega o aperto, é o que se vê! Em alguns casos não há sequer dinheiro para o gasóleo!
Mas ainda assim, não podemos aceitar mais este rude golpe contra as zonas deprimidas e já de si tão castigadas com restrições, até porque a conservação da natureza nada ganha com estas ideias peregrinas. Em vez de se afugentarem, as poucas iniciativas existentes nas Aps deviam ser acarinhadas, feitas naturalmente com estrita observância da salvaguarda dos ecossistemas e da natureza.
Não podem ser os residentes a pagar a factura da conservação da natureza e da preservação das espécies, até porque um dia destes alguém terá que pagar também a preservação da espécie humana (cada vez mais ameaçada de extinção) nas reservas e parques naturais. E isto não é mera figura de retórica, dado que a maioria das nossas Aps se localizam em zonas do Interior que caminham aceleradamente para o ermamento.
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

kabanasa@sapo.pt

Independentemente da cor política de cada um, a polémica transferência de mais 50 milhões de euros anuais para a Madeira conseguiu pôr-nos os cabelos em pé, sobretudo aos que residem no Interior.

Madeira e Beira Interior

António Cabanas - «Terras do Lince»Não porque não gostemos da Madeira, ou porque tenhamos alguma pedra no sapato com o Dr. Alberto João. Como não gostamos de nivelar por baixo, achamos que os madeirenses merecem tudo o que têm direito. Note-se que essa verba representa uma ínfima parte do que é transferido para aquela região autónoma pelo estado e pela UE e, vistas bem as coisas, é uma gota no oceano da nossa dívida pública. Mas em face das dificuldades que Portugal atravessa e da pobreza que alastra escondida por algumas regiões do continente, fiquei a pensar com os meus botões que este não é um país normal.
Apesar de ser pouco, distribuído pelos 25 concelhos da Beira Interior (distritos de Castelo Branco e Guarda), esse dinheiro daria, em cada ano, 2 milhões por município, o suficiente para cada um acudir às dificuldades com que se debate. Comparando áreas geográficas, estaríamos a beneficiar um território incomparavelmente maior – só o Sabugal tem mais área que a região madeirense. Já no que respeita à população, a Madeira é hoje muito povoada (o dinheiro atrai pessoas!), mas ainda assim tem menos gente que a Beira Interior, aproximadamente 245 000 habitantes, contra os 381 000 da nossa região. Se, da mesma forma, nos baixassem o IVA para 14%, poderíamos atrair investimento, e, em poucos anos, teríamos uma média de riqueza, pelo menos igual à média nacional. Mas não, enquanto uns vivem à grande, outros que apertem o cinto!
Se houvesse um referendo nesta altura sobre a independência da Madeira, sentir-me-ia tentado a votar a favor: dê-se-lhe a independência! Claro que é apenas o desabafo invejoso, de quem gostava de ter as mesmas armas, porque o que esteve mal até aqui não foi a Madeira receber mais que as outras regiões, o que esteve mal, foi o interior receber menos que a Madeira. Mas este não é um país de gente normal, nem de um parlamento normal, nem de um governo normal e muito menos de uma oposição normal. Neste capítulo, tenho que dar razão a Alberto João quando se refere ao contenente, como um país de doidos.
Como estamos em maré de números, vem a propósito a notícia desta semana de que os quatro grandes bancos privados portugueses BES, BCP, BPI e Santander Totta deram lucro em 2009. Finalmente uma boa notícia, diríamos, numa situação normal. Com a economia a afundar-se, com notícias quase diárias de fábricas a fechar, do desemprego a subir em flecha, das contas públicas em derrapagem, do governo a cair a pique, dita assim, esta parecia ser mesmo a melhor notícia da semana. Mas não é.
É que, para um cidadão normal, num país normal, com uma formação moral normal, os bancos arrecadarem quase 1,5 mil milhões, quando se pede aos portugueses que apertem o cinto, só pode considerar-se uma partida de carnaval! Mas como este não é um país normal, nem de gente que regule bem, – porque se regulasse já se teriam revoltado há muito – tudo é admissível. Então a uns, congela-se o salário, e a outros, permite-se o jackpot!?
Quanto poderia ser feito com um bilião e meio de euros!? Daria, por exemplo, para fazer metade do tal aeroporto de Lisboa! Dois anos de lucros bancários dariam para pagar toda a obra! Ou então, para fazer a nova travessia do Tejo e pagar as SCUTs durante um ano! Daria para o Aeroporto Regional da Beira Interior e sobraria muito dinheiro! Acham muito? Só estamos a falar do lucro de 2009, mas em 2006 foi semelhante e em 2005 a banca arrecadou só 3 mil milhões de euros! Coisa pouca!
Fico com saudades do Vasco Gonçalves e das nacionalizações!
Quando a banca, por culpa própria, e por ganância desmedida, quase se afundava e nos afundava a todos, o estado, ou seja o contribuinte, que pagasse as favas! E pagou! Quando dá lucros usurários e escabrosos porque nos esmifram até ao tutano, aqui del-rei que não se pode tocar nos prémios dos banqueiros sob pena dos expertos debandarem para outro país. Deixá-los ir! Até seria bom, com banqueiros menos expertos, mais ficará no bolso dos clientes.
Durante o auge da crise financeira, dizia-se que nada ficaria como dantes. E não ficou, ficou pior! Ninguém tem coragem de tocar nos agiotas! Eu diria que não tardará que tudo volte à santa paz da gestão experta: das offshores, dos investimentos nos paraísos fiscais, do capitalismo selvagem e da banca a pagar 15% de IRC enquanto o resto da economia paga 25%.
Somos ou não um país de doidos!?
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

kabanasa@sapo.pt

A notícia de um novo centro de reprodução de lince em cativeiro que está a ser construído no nordeste da Extremadura espanhola, leva-nos a retomar o tema da crónica do início do ano, «Que 2010 nos traga o Lince». Esta nova estrutura está quase pronta em Zarza de Granadilla, junto à barragem de Gabriel y Galan, prevendo-se a sua conclusão antes do Verão. Os linces irão de Doñana, tal como os que foram para Silves, mas só depois de adquirido equipamento e contratado pessoal para que o centro possa funcionar, o que se prevê para o final de 2011.

Lince Ibérico da Serra da Malcata

António Cabanas - «Terras do Lince»Se tudo correr bem, o centro disporá de Linces para libertar lá para 2014, 2015, e visto serem a Sierra de Gata e as Hurdes tradicionalmente território do felino, poderão ser escolhidas para a reintrodução, vindo a reforçar a população da Serra da Malcata.
Entretanto, quer em Portugal quer em Espanha, os técnicos estudam a espécie, os seus competidores e as suas presas. O ICNB prepara planos de acção onde se inclui o diagnóstico das doenças susceptíveis de transmissão ao lince. É que ao contrário do que se pode pensar, a suposta vida saudável dos animais, em absoluta liberdade, não os isenta de patologias e viroses.
Um dos linces que mais contribuiu para a criação em cativeiro morreu no passado dia 1 de Fevereiro na Sierra Morena, com dez anos de idade, acometido de insuficiência renal crónica. Entre 2005 e 2008 Garfio – assim se chamava o felino – foi pai de onze crias. Dizem os técnicos que dos 72 animais do programa de criação, 25 sofrem do mesmo mal, o que motivou os especialistas da nefrologia espanhola e internacional a procurar um tratamento eficaz para a insuficiência renal do gato mais ameaçado do mundo.
Duas biólogas espanholas, da Estación Biológica de Doñana, estiveram esta semana entre nós para recolherem amostras de lince com vista ao estudo genético das suas populações. Duas peles em Meimoa e Meimão, um lince embalsamado no Museu de Penamacor e outro no Porto oriundo também de Penamacor, foram para já os espécimes objecto da recolha.
Outros linces embalsamados e peles haverá certamente na nossa região e na região vizinha espanhola que possam contribuir com amostras de tecido (geralmente um pedaço de unha) para alargamento da base de recolha. Quanto mais indivíduos forem estudados maior fiabilidade terá o estudo. Aqui deixamos o apelo a quem possuir material biológico, ou saiba da sua existência para que informe o Capeia Arraiana que assim também contribui para a preservação do Gato Real. Recorda-se que foi a evolução dos estudos de biologia que permitiram o sucesso recente da criação em cativeiro, coisa quase impossível anos atrás.
Estas notícias contrastam com a falta delas na Malcata, onde o ICNB, não possui sequer um biólogo que prepare o terreno, para que na hora de libertar animais existam as melhores condições, que estude as populações de coelho e os competidores, que promova a reintrodução de presas.
Esta carência deixa-nos deveras preocupados. Sabemos das dificuldades financeiras do ICNB e que os próximos anos não prometem melhoras nessa matéria, mas também sabemos que o Lince é assunto prioritário da conservação da natureza em Portugal. Gostaríamos pois que o ICNB assumisse as suas responsabilidades na Malcata, dotando-a de técnicos capazes de levar por diante as tarefas que se impõem. Se isso acontecer estará cumprido o voto formulado, para este ano, no anterior artigo.
As duas autarquias envolvidas estão dispostas a ajudar. Não é altura de cruzar os braços.
A Malcata possui a maior área natural, sem população humana, a maior área do Estado, que somada à da Portucel e à de dois ou três latifúndios, dão a esta serra as melhores condições de gestão. Fizeram-se nela investimentos de monta, na instalação de marouços, pastagens e cercados, e em estudos da flora e dos habitats em geral. Ao contrário de outras zonas potenciais de reintrodução de Lince, a Malcata quase não tem zonas de caça, reduzindo ao mínimo o conflito e os factores de risco. Além disso, o último exemplar capturado em Portugal foi na Malcata em 1992.
O maior problema poderá ser a reduzida população de coelhos, mas já vão aparecendo outras presas como o corso, o esquilo e o muflão. De resto ainda vamos a tempo de reintroduzir coelhos, presa preferida do Lince.
Que 2010 nos traga o Lince!
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

kabanasa@sapo.pt

Na sequência do artigo sobre D. Filipe I, do nosso ilustre colaborador Adérito Tavares, talvez valha a pena desenvolver um pouco mais o tema das representações sociais que entre portugueses e espanhóis fazemos reciprocamente. Longe de esgotar o tema neste modesto artigo, acho interessante que o «Capeia», constituído por gente da raia, habituada ao convívio da fronteira, se expressasse sobre o olhar recíproco entre uns e outros.

Batalha de Aljubarrota

António Cabanas - «Terras do Lince»O que pensamos sobre os outros povos, e em concreto sobre os nossos vizinhos, são por vezes ideias preconcebidas, representações sociais estereotipadas, geralmente erróneas, que o convívio da história ajudou a construir e é de esperar que a forma como os outros nos vêm sofra de idênticos defeitos. É também natural que a opinião dos raianos seja um pouco diferente da opinião da restante população, afinal foram os raianos os que mais sofreram com a dureza das guerras e, em consequência, se viram na obrigação de esquecer ofensas passadas. De forma genérica, depois de séculos e séculos de litígios, é natural que os países vizinhos se vejam reciprocamente com alguma desconfiança. Desconfiança que o recente período de paz e de união europeia não apagou totalmente e que parece ser mais acentuada do nosso lado.
Defensor da independência nacional até ao tutano, gosto dos espanhóis (e das espanholas), da sua cultura, do seu património histórico, das suas belezas naturais, da sua moderada pontualidade e até mesmo da sua gastronomia.
Lidando há muito com projectos de cooperação transfronteiriça, surpreendeu-me há tempos um técnico da Diputación de Cáceres que, a meio de um almoço com outros cacerenhos, defendia que os seus compatriotas eram mais inteligentes que os portugueses. Ainda não tinha chegado a crise económica mundial, a Espanha vivia eufórica, na bolha de crescimento económico, enquanto em Portugal, derrapavam as contas públicas e o sentimento geral traduzia-se no famigerado discurso da tanga.
Aquilo da inteligência espanhola provocou-me azia, recordei ao meu interlocutor que o seu país vivera tempos de miséria em pleno século XX, e, pressentindo-lhe alguma ignorância já me preparava para puxar dos galões da nossa História mais antiga, onde me sentia à vontade. Dei-me então conta que teria de inverter a estratégia, e até ser magnânimo e defender o infeliz, já que os outros espanhóis presentes, caíram-lhe em cima como cães a bofe, desmontando a fanfarronice do patrício e enaltecendo Portugal como se ele fosse o melhor país do mundo. Estava resolvido o diferendo!
Isto de ter opinião sobre os outros povos nem é coisa só de vizinhos. Leia-se, a propósito o que escreveu o economista alemão Friedrich List, em 1841, sobre os povos ibéricos, por oposição aos ingleses: Enquanto os ingleses se esforçavam, durante séculos, por erguer o edifício do seu bem-estar nacional sobre bases sólidas, os espanhóis e os portugueses, através das suas descobertas, conseguiram uma sorte rápida, atingindo grande riqueza em pouco tempo. Mas era a riqueza de um esbanjador que ganhou a sorte grande. Na opinião do alemão, seríamos assim, hispanos e lusos, uma espécie de jogadores da lerpa, chapa ganha, chapa batida! Mas este discurso germânico, além do desdém que demonstra em relação aos povos ibéricos, também esconde uma certa inveja do sucesso inglês. Por contraponto, «nós» aceitamos de bom grado o que vem dos germânicos e quase sempre desconfiamos dos nossos vizinhos, sobretudo quando se trate de investimentos.
Gravado no nosso subconsciente, há ainda uma espécie de estigma dos filipes. Pela minha parte, nunca vi razão para qualquer sentimento de inferioridade a não ser no tamanho: Portugal, um ovo, França uma eira e Espanha uma joeira! Mas não nas proezas épicas e muito menos na guerra. Afinal Filipe I, de sangue lusitano, entrou em Portugal porque a nossa nobreza o aceitou sem luta – na batalha de Alcântara, as tropas de D. António eram constituídas por um punhado anárquico e desorganizado de prisioneiros! Já durante a restauração, a colossal Espanha levou tareia em toda a linha, David bateu Golias, quando se esperava que face ao tamanho, a joeira esmagasse o ovo. Poderíamos falar de outras batalhas, como Aljubarrota, ou comparar o nosso desempenho perante inimigos comuns. O saldo foi-nos francamente favorável, caso contrário, seríamos hoje espanhóis. Por isso, é no mínimo absurda a perspectiva que os militares espanhóis tem de «nós». Segundo os estudiosos dos temas militares aprende-se na historiografia militar espanhola que os portugueses são cobardes. O próprio Franco, Generalíssimo, ao ser confrontado com a possibilidade de haver, em 1975, uma guerra civil em Portugal, terá confessado, no seu leito de morte, que não acreditava nessa hipótese porque conhecia a suposta cobardia dos portugueses. Esta abordagem é restrita aos meios militares, não a comungam o resto dos espanhóis e foi sendo construída nos relatos de batalhas entre os dois povos, sempre demasiado pintados com a cor da sua bandeira nacional. Em matéria de cobardia pedimos meças, podemos contrapor a chacina dos povos ameríndios indefesos, praticada por espanhóis, com a resistência portuguesa a exércitos armados por russos e americanos, aliás, fomos mesmo mais resistente potência colonizadora europeia (para o bem e para o mal).
Há sempre alguns dos nossos que logo dizem que o Tratado de Tordesilhas deu aos espanhóis o ouro e a prata e a «nós» as mulatas e a caipirinha! Há ainda os engulhos mal resolvidos, como Olivença e as cócegas que nos causa o facto dos espanhóis não fazerem o mínimo esforço para falarem a nossa língua, enquanto «nós» nascemos a falar espanhol. Mas isso até dá jeito, pois permite, nas negociações, fazer apartes que «eles» não entendem, coisa que «eles» não podem fazer na nossa frente.
O romance «O Mar de Madrid», do açoriano João de Melo traz à liça a característica ruidosa dos espanhóis: não só falam alto como parece gostarem de se ouvir, deliciando-se com a sua própria língua. Vistos pela espanhola do romance, «nós», pelo contrário, surgimos, de olhar distante, silenciosos, quase ciciando quando conversamos. Uma espécie de acanhamento que se liberta depois de bebermos uns copos, acrescento eu!
A maioria de «nós» considera cinismo a referência que «eles» fazem aos lusos como «nuestros hermanos», que por vezes também usamos mas só na língua deles. Nossos irmãos, «nós» dizemos dos brasileiros, aplicado aos espanhóis, não nos soa bem! No entanto, creio que «eles» o fazem com sinceridade, que se acham mesmo «nuestros hermano», coisa impensável com os seus vizinhos franceses.
A pulverizada identidade espanhola, em que um indivíduo se sentirá primeiro basco ou galego e só depois espanhol, faz com que os espanhóis, que afinal são bascos, galegos ou andaluzes, nos olhem de forma diferente, como o basco olha para o galego ou o galego olha para o andaluz. Para «eles» somos portugueses, como «eles» são bascos, galegos ou andaluzes.
Pelo contrário «nós» temos uma espécie de hiper-identidade ou dupla identidade como diz o grande pensador Eduardo Lourenço, também ele de Riba Côa. Sentimos a necessidade constante de afirmar essa identidade e sobretudo perante os espanhóis, como o fez Manuela Ferreira Leite, lembrando a Sócrates que Portugal não é uma região de Espanha, não fosse ele ou Zapatero esquecerem-se. Por outro lado sentimo-nos pequenos perante a Europa e perante a Espanha (embora aqui só no tamanho), mas sentimo-nos grandes e imperialistas perante o mundo (dupla identidade).
Ainda a propósito de tamanho, não pude deixar de sorrir com a leitura de um artigo onde se garante que a Durex, empresa que comercializa preservativos, os vende em Portugal com 1 cm em média mais compridos que em Espanha o que deita por terra a elevada auto-estima do macho latino espanhol! Como o artigo foi escrito por uma portuguesa a viver em Madrid, não poderemos duvidar!
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

kabanasa@sapo.pt

Em Janeiro de 2007, através de uma alteração da Lei das Finanças Locais, o governo «mexeu» nas transferências de verbas para as autarquias e estipulou que dos valores que já eram transferidos, uma parte seria por conta do IRS cobrado em cada município. Traduzido por miúdos, o Estado arrecada 95% e a autarquia 5%. Basicamente, pouco ou nada foi alterado, as verbas são as mesmas, em alguns casos, designadamente, nos concelhos mais pequenos, os valores até baixaram, mas a novidade foi saber-se, agora, de onde vem o dinheiro.

Mapa do IRS

António Cabanas - «Terras do Lince»Até aqui nada a opor. Porém, o mesmo diploma estipulou também que as autarquias tivessem, em cada ano, a prerrogativa de abdicar de todo ou parte dos 5% de IRS, em favor dos seus munícipes. Outra vez traduzido por miúdos, o estado fez na altura um vistaço de popularidade, ao querer dar dinheiro aos portugueses, com a vantagem de, no caso em apreço, nem sequer perder receita e ser a classe média a mais beneficiada – mais popular ainda!
O problema é que as autarquias desconfiaram de tanta popularidade, fizeram contas e, não só, não foram no engodo, como se sentiram entaladas com a «Chicoespertisse»: o estado, não dando nada da sua fatia de leão (95%), ficava bem visto, enquanto as câmaras municipais que não dessem o que a lei permitia, ficariam mal na fotografia! Um verdadeiro murro no estômago dos trezentos e oito municípios, que arcando com as críticas fáceis das respectivas oposições, fizeram, «à moda alentejana», resistência passiva. Pouco mais de meia dúzia seguiram o conselho e, neste momento, apenas cerca de um quinto abdicam desse tipo de receita, mas nenhum dos grandes municípios o faz, sendo Leiria (1%) e Aveiro (0,5%) as únicas capitais de distrito a devolver dinheiro.
Qual advogado do diabo ou das causas difíceis, sou redondamente contra este tipo de populismo: considero a medida injusta, por não ser universal, quem mais ganha é quem mais recebe e, ainda por cima, constitui uma intromissão grosseira na autonomia do poder local. Se o governo quer de facto que os cidadãos paguem menos IRS, deve reduzir a taxa, podendo fazê-lo, preferencialmente, com discriminação positiva para os mais desfavorecidos e para as zonas pobres do Interior.
Curiosamente, o António Costa, presidente da câmara, não é da mesma opinião do António Costa, ministro e co-autor da ideia, mudou de opinião quando se mudou para a câmara! Uma coisa é estar no governo e fazer brilharetes com o dinheiro dos «outros», outra é ser autarca e ter que fazer contas à vida!
Há dias a televisão noticiava que Mirandela e Vila Flor iriam juntar-se à lista dos que abdicavam do IRS em favor dos seus munícipes para, com isso, atrair população. Confesso que me senti (a)traído pela parte que diz respeito a Vila Flor, já que sendo a minha esposa oriunda deste concelho, pensei mudar-me para lá! Convinha fazer contas!
E as contas são simples:
A maioria da população do Interior (e também de Vila Flor) são reformados, uma boa parte tem um emprego precário, de ordenado mínimo, nas obras, na agricultura, em algum serviço, em alguma IPSS, em alguma pequena agro-indústria e assim por diante. Em conclusão, quase ninguém paga IRS e é por isso que, pelo IRS, pouco se acrescenta à magra receita das autarquias do Interior. Como não pagam, não irão receber.
Mas claro que há quem pague: os que ganham mais, a começar pelos presidentes de Câmara e pelos vereadores, onde me incluo, pelos médicos, pelos professores e por alguns mais, e pelos que referi no artigo da semana passada, desde que declarem. É então a estes que as autarquias que abdicam do IRS, entregam o dinheiro, sempre na lógica de dar mais a quem mais ganha.
A minha esposa, que não troca a Princesa da Cova da Beira, onde moramos, pela sua Carvalho de Egas, ficou melindrada com a Câmara do seu concelho, porque segundo diz e dou-lhe razão, o dinheiro dos impostos que vai para os que ganham mais, por certo faltará para a satisfação das necessidades públicas da maioria que nada recebe.
Curiosamente, os contribuintes beneficiados, entrevistados pelo mesmo canal de televisão, nem sequer tinham dado pelos euros que lhe foram devolvidos.
Os municípios já têm o poder e o dever de ajudar quem precisa, nomeadamente os estratos mais desfavorecidos, os idosos, os estudantes, as crianças, os deficientes, mas para isso precisam de dinheiro. O que não precisam é destas cascas de banana.
É por isso que eu sou redondamente contra o populismo bacoco, venha ele de onde vier. É que mais cedo ou mais tarde alguém tem que pagar a factura.

P.S. Tenho acompanhado com interesse, as reflexões sobre o futuro do Sabugal. Por razões que todos compreendem, peço escusa ao Capeia desse debate, que aliás nem sequer necessita dos meus fracos dotes de pensador do desenvolvimento local. Parabéns aos intervenientes, e à cordialidade e frontalidade dos seus contributos. O Sabugal merece e agradece.
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

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