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Vede os alemães, soberbo gado.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaAo caracterizar os diversos povos que habitam esta velha manta de civilizações que é a Europa, Camões usou aquela expressão: Soberbo gado.
A causa próxima e decisiva ratio da fúria camoniana está na adesão às teses de Martinho Lutero, que acabava de lançar as bases para o positivismo religioso que é o Protestantismo.
A estrofe evoca-o de forma directa e expressa:
Do sucessor de Pedro rebelada
Novo pastor e nova seita inventa.

A irrupção do luteranismo rasgou a túnica inconcussa de Cristo, facto que não terá deixado de alarmar um católico tão integrista como era Camões e de chocar a mentalidade portuguesa tão sintonizada com a unidade e universalidsde da fé cuja expressão final era Dom Sebastião.
Este novo temor da maura lança, maravilha fatal da nossa idade fora, na lógica da epopeia dado ao Mundo por Deus, para que em tudo mande e do mundo dar a Deus a parte grande.
Esta certissima esperança do aumento da Cristandade na lógica da sequência da genealogia sebastiana não tolerava actos anticatólicos.
Dom Sebastião tinha de honrar a memória de Dom Joao III, o Piedoso, e Carlos Quinto, ainda mais Católico de que Isabel.
Camões concita-o mais uma vez:
Em vós se vêem na olímpica morada
Dos dois avós as almas cá famosas
Um na paz angelica dourada
Outro nas batalhas sanguinosas
Em vós esperam ver-se renovada
Sua memória e obras valerosas
E lá vos tem lugar no fim da idade
No templo da suprema eternidade

Ora, enquanto Portugal lutava por uma Igreja Católica, Apostólica e Romana, os alemães empenhavam-se em crudelíssimas guerras religiosas, não contra o inimigo comum a todos os cristãos, o superbíssimo otomano, mas para sair do jugo soberano.
Daí a acusação:
Mas enquanto cegos e sedentos
Andais do vosso sangue, ó gente insana

E:
Ó míseros cristãos pela ventura
Sois os dentes de Cadmo desparzidos
Que uns aos outros se dão a morte escura
Sendo todos de um só ventre produzidos

E prevenia:
Não vedes a divina sepultura
Possuída dos cães que sempre unidos
Vos vem tomar a vossa antiga terra
Tornando-se famosos pela guerra

A Cristandade vai viver a Guerra dos Trinta Anos devido à soberba dos alemães.
No Luteranismo se vai ainda filiar a soberba austeridade que a luterana estadista que agora rege a Europa está a impor aos católicos, romanos ou bizantinos, do Sul.
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

O Doutor Tavares de Melo – o Morgado de Santo Amaro – foi o maior de entre os proprietários do concelho do Sabugal.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaTive o grato prazer de lidar muito de perto com aquele grande terratenente e de ser seu seu comensal ao longo dos anos por que vivi na cidade de Castelo Branco.
O Morgado tinha sempre a mesa posta para os correligionários amigos – mesa fartíssima e muito portuguesa.
E eu – com o meu particularíssimo amigo Henrique de Atahyde, quando nos apetecia lá íamos de longada até Santo Amaro usar da hospitalidade do velho fidalgo e receber uma lição de portugalidade.
Tavares de Melo ultrapassara já a casa dos noventa, mas mantinha-se aprumado, alto e direito como um ferro pedral.
E com uma enorme lucidez, apenas traída por uma arreliadora falha de memória para nomes.
Estranhamente não se recordava do nome de Salazar, então nosso todo poderoso primeiro-ministro, que assinalava como o contabilista que manda de Lisboa.
Mas discreteava sobre o Integralismo Lusitano e a Nobiliarquia Portuguesa.
O meu companheiro Henrique de Atahyde era mais monárquico que o Senhor Dom Duarte e tinha um nome ainda mais extenso do que o dos pretendentes à Coroa de Portugal. Com efeito, assinava-se ele Henrique Manuel da Senna Bello Queirós Pinto de Atahide de Serpa e Mello e não sei quantos antropónimos mais, rematando em Tavares Geraldes.
Com o nosso anfitrião usava os eónimos Tavares e Mello. MELLO sem dom, prova de grande filhamento e TAVARES devia ser TAVAREZ como aquele Tavarez Rombo armado cavaleiro com Dom Afonso Henriques em Zamora.
E não se desdenhava sequer do ónimo GIRALDES que ressumava ao Sem Pavor, redimido de quadrilheiro pela integração de Évora no património régio…
Assim, em amena e folgosa cavaqueira, se passavam as copiosas banqueteações.
Algumas vezes, ali assistimos à passagem das ovelhas que em transumância desciam das cumeadas da Estrela para as campanhas do Almurtão.
O Morgado organizava uma espécie de serões para trabalhadores em homenagem aos zagais da mesta. Até com a contratação de robertos.
E uma das cubas grandes da ampla adega levava grande míngua.
Mas o Morgado rejubilava.
E título e quinta afamavam-se. Aliás, até economicamente a opção rendia. No tríduo da festarola, os rebanhos deixavam nas veigas uma forte adubadela, que bem seria paga pelos batatais, ajudando a uma maior produção e ainda à qualidade do produto.
Batatas boas são as das três «itas» – terra granita, água granita e caganita.
A Quinta produzia milhões que não apenas milhares de arrobas. Como também se alçapremava a todas as outras em cântaros de azeite.
De resto, o nome era-me familiar desde os verdes anos pela apanha da azeitona.
Um casal meu vizinho – Joaquim Carreto e Maria Antónia Neto, morando embora a fartas léguas de Santo Amaro, porque eram parentes de um dos feitores do Morgado, na sazão aparelhavam o burro e rumavam para a apanha.
Voltavam com o animal a ajoujar sob a carga de azeite e azeitona com que os mimoseavam, retribuindo bem o trabalho.
E gababam a hospitalidade do bom fidalgo, cuja fama voava por uma outra razão.
Fora um dos primeiros portugueses a possuir automóvel. Logo na primeira década de mil e novecentos.
Ao mesmo tempo que um Bragança, irmão de Dom Carlos, o Dom António, que ficou conhecido por o Arreda – por gritar ao povo, quando passava tripulando o bólide – arreda, arreda
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana«Poetando» é a coluna de Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, na qual aos domingos vai publicando poemas inéditos, cada um dedicado a uma aldeia do concelho do Sabugal. Este Município raiano, um dos maiores do País em termos de extensão territorial, tem 40 freguesias, algumas delas com anexas, sendo no total exactamente 100 (cem) o número das localidades do concelho do Sabugal. Nesta edição o escritor e poeta bismulense dedica um soneto a mais uma anexa da freguesia da Bendada: Trigais. No próximo domingo será editado o poema referente a outra freguesia do concelho: a Bismula.

TRIGAIS

Nas terras onde reina o rei centeio
O nome soará a falso toque
Esvaia-se, porém, todo o receio
No caso não há laivo de remoque

No tempo das carrejas, toque toque
As juntas sem repouso de permeio
Das searas às eiras em reboque
É palmo a palmo um caminho cheio

Um chão humoso em terras de fartura
Ali traçou o céu iluminura
Em plena Cova da Beira nos umbrais

O burgo é pequeno, mas que importa
Jamais alguém bateu em vão á porta
Sem que se abrisse a porta nos Trigais

«Poetando», Manuel Leal Freire

Cada vez que uma grande superfície comercial abre um novo centro, a comunicação social alardeia solenemente a criação duns tantos postos de trabalho.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaA notícia é recebida com um grande júbilo, até porque contrastante com o panorama geral de encerramentos de empresas e despedimentos dia a dia mais numerosos nas que ainda vão resistindo à crise.
E a notícia, embora exagerando por vezes nos números, é substancialmente verdadeira.
A abertura dum hipermercado redunda sempre, efectivamente, na contratação de um considerável número de trabalhadres, especializados uns, com alguma prática outros, totalmente indiferenciados uma boa parte que, por isso, irão receber adequada formação.
Mas neste nosso mundo das compensações e contradições os supermercados acabam por ser uns monstruosos factores de desemprego.
Basta evocar as centenas de lojas do comércio tradicional que o novo centro vai imolar.
Estabelecimentos de todos os ramos, com particular incidência para as mercearias de bairro, recebem assim inapelável sentença de encerramento.
E cada mercearia, assim sacrificada, arrasta uma boa dúzia de pequenas explorações.
Lá vão ao vento as pequenas hortas familiares que ao longo do ano forneciam na sazão as couves e os repollhos, os nabos e os espinafres, as alfaces e as beterrabas, os pimentos e os tomates, os pepinos e os rabanos, as cherovias e as abóboras…
Lá ficam ao abandono os pequenos pomares que, mesmo na sua quase insignificância, abasteciam de peras e bons malápios, de cerejas e de ginjas, de melocotones e rainhas claudias, de figos e beboras, de quivis e maracujás.
Definham à falta de clientela, os micro-cultivadores de melões e melancias.
E não ficam por aqui as explorações arrastadas na queda.
Um vizinho que fornecia frangos quase de campo, um familiar dedicado à cunicultura, uma senhora do bairro que fabricava enchidos, uma outra que fazia bola de carne e fritava bolos de bacalhau, outra ainda que se dizia mestra em confeitaria caseira, até bate-solas ou tricotadeiras que ali tinham uma clientela muito fiel, ficaram desarmados.
Enfim a abertura duma grande superfície implica sempre encerramentos em cadeia de dezenas ou centenas de micro-empresas.
A nível de postos de trabalho há, pois, malefício.
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

O Doutor Joaquim Mendes Guerra, do casteleiro, homem de grande cultura e qualificado relacionamento, foi um grande lavrador do concelho do Sabugal.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaUm notável trabalho publicado pelo Doutor Francisco Manso, sob o título Revolução dos Nabos, ultimamente referenciado na imprensa regional, trouxe-me à memória o que foi a actuação daquele grande terratenente em prol da lavoura do concelho e dos seus agentes, tradicionalmente desprezados, quando não mesmo vilipendiados por todos os poderes centrais, regionais e até locais.
Aquele levantamento popular foi já também objecto de uma outra publicação do grande estudioso Jesué Pinharanda Gomes, que, no entanto, dera outro nome à mesma série de ocorrências, apelidando-a de motim, das aguilhadas ou dos aguilhões…
Se um terceiro estudioso se lembrasse de lhe chamar insurreição contra a pragmática dos luxos poderia justificar o movimento pela irritação provocada nos ganadeiros pela equiparação, para efeitos de aplicação de taxas dos luxos da pomerania aos mastins castelhanos-serras da Estrela ou outros molossos afectados em primeira linha á guarda dos rebanhos, ao tempo ainda fortemente submetidos à dizimização pelas alcateias na região abundantes.
O povo entendia mal as razões de filosofia que, apregoavam os legisladores, estavam na base das novas sanções que iam atingir pequenos proprietários e jornaleiros, eles sim, fortemente carecidos de protecção.
Será curioso anotar que o levantamento apenas teve sucesso em parte do concelho, pode dizer-se que apenas nos que haviam pertencido aos extintos concelhos de Sortelha e Vila do Touro, tendo-lhe ficado totalmente inemnes as aldeias feudatárias dos antigos municípios de Alfaiates e de Vilar Maior e pouco havendo aquecidos os ânimos da restante terra fria sabugalense. Espontâneo, o movimento não teve figuras centrais, pelo que, quando chegou a horas de prestar contas à justiça, a acefalia reinou.
Foi então que o Doutor Mendes Guerra chamou a si a protecção dos que se viram acossados pelas justiças, muitas vezes injustas e normalmente muito poderosas para com os fracos.
Constituídos réus de delito público, foram submetidos a várias medidas de coacção, e, de entre elas, à prestaçao de cauções de montante elevado para o que não dispunham de dinheiro corrente, bens de raiz cabondes e, menos ainda, fidúcia bancária.
E toda essa cara e intrincada trama judicial foi resolvida pela Família Mendes Guerra. Como depois na fase processual subsequente, a do pagamento de preparos, custas de parte e de honorários a advogados.
De frisar é ainda o uso de influências em prol da causa dos ditos amotinados.
Joaquim Mendes Guerra era um homem de grande cultura e qualificado relacionamento. Fora leitor de Português em diversas universidades alemãs. Era um integralista da primeira geração e muito próximo ideologicamente de António Sardinha, Hipólito Raposo, o Conde de Monsaraz e Pedro Teotónio Pereira.
Pertencente a uma elite católica, gozava da amizade do Cardeal Cerejeira e dos vários irmãos e primos Dinis da Fonseca.
Jornalista de mérito, tinha assento permanente na redacção do diário monárquico Voz, nos cadernos do CADC e outros órgãos oficiosos da Igreja.
De resto, ele próprio criou e deteve um jornal posto ao serviço da Lavoura – A Gazeta do Sabugal.
Além disso, prestou à agricultura do concelho, um relevante serviço, criando e provendo de quadros o Grémio da Lavoura.
Ali, foi coadjuvado por um ilustre gerente que ele próprio contratou e preparou para o exercício do cargo – o senhor Pinto Monteiro, pai do Procurador Geral da República do mesmo nome.
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana«Poetando» é a coluna de Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, na qual aos domingos vai publicando poemas inéditos, cada um dedicado a uma aldeia do concelho do Sabugal. Este Município raiano, um dos maiores do País em termos de extensão territorial, tem 40 freguesias, algumas delas com anexas, sendo no total exactamente 100 (cem) o número das localidades do concelho do Sabugal. Nesta edição o escritor e poeta bismulense dedica um soneto a mais uma anexa da freguesia da Bendada: Rebelhos. No próximo domingo será editado o poema referente à aldeias anexas desta freguesia que ainda falta: Trigais.

REBELHOS

Prefixo que reforça é sempre um re
Nenhum terá impacto que o vença
A condição imposta pelo se
E quando bem cumprida recompensa

Assim determinante como um de
O termo nos explica sem detença
Rebelhos e rebelde quando e se
O povo com razões se não convença

No mais sempre fiel aos seus desígnios
Os itens de seus votos consigne-os
Que são do povo os mais fiéis espelhos

Não quebram no trabalho e na amizade
O dito igual na praça e à puridade
Jamais traíu a gente de Rebelhos

«Poetando», Manuel Leal Freire

Qualquer iniciado em História sabe que, ciclicamente, se apresentam duas potências rivais, tendentes a disputarem, entre si, o domínio do mundo.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaProcuremos fixar alguns desses grandes momentos.
Por vezes pode tratar-se de mera hegemonia espiritual, como no dissídio Babilónia-Sião, lucubrado na toada:
Sobolos os rios que vão
Por Babilónia me achei
Onde sentado chorei
As lembranças de Sião
E quanto nela passei
Então um rio corrente
Foi de meus olhos manado
E tudo bem comparado
Babilónia ao mal presente
Sião ao tempo passado.

Quase sempre, porém, é a luta pela hegemonia política e o domínio territorial.
Comecemos por Tróia.
Recordemos a poética causa belli:
Quando se viu ao espelho
A bela Helena chorou
Por causa dum rosto velho
É que Tróia se arrasou.

Agamemenao, o pastor de todos os povos do Ocidente conglobara e concitara exércitos para se vingar de Paris e Poicena.
Arma virunque cano Troia ab oris.
Tróia arde, mas Eneias, filho de Vénus e Anquises, desloca-se para Ocidente.
Entretanto, a querela renasce perto de onde Tróia tinha sido antes de arder.
São as guerras medicas ou persas, onde gregos e medos se disputam o domínio do Bósforo, símbolo do domínio mundial.
Atenas e Esparta tentam dividir um mundo à sua moda.
Como depois, a Macedónia de Alexandre, o Magno, e os seus quarenta generais, partindo o nó gordio, abriu caminho até ao Oriente quase último.
A questão renasce com as guerras púnicas, já que Anibal, o grande peno, filho de Amílcar e neto de Asdrubal, disputa o domínio dos povos mediterrânicos, a única parte do mundo que interessava, à Roma pré-imperial.
Séculos depois, quando os herulos, chefiados por Odiacro, apeiam Augustulo dum trono que já não existia, ninguém aspirou à hegemonia mundial, que a barbaria obstava a qualquer projecto de união, indispensável a intentos de domínio à escala mesmo dum pequeno mundo.
Breve renasceriam os sonhos imperiais e com elas as perspectivas de partilha.
Os sucessores de Carlos Magno e de Otao Grande dividem as respectivas heranças, dividindo a parte do Mundo que, ao tempo, interessava – o coração da Europa.
Mas o Império Romano renasce, tetrárquico ou diárquico.
E depois de as suas duas metades – Roma e Constantinopla – se haverem disputado primasias, eis que aparece um terrível émulo a exigir a divisão do Orbe – o Império Turco.
Que passa da intenção à acçao, tomando Constantinopola, que mais uma vez muda de nome e avançando até às costas dalmáticas.
Entretanto surgem as duas potências ibéricas – Portugal e Castela – que, depois de delimitarem os velhos continentes, dividem em Tordesilhas o Mundo ainda por achar.
A hegemonia tornou-se duradoira e ainda hoje as três Américas, da Florida à Patagónia dão sinal da validade da partilha.
Temporalmente muito próxima de nós, à distância efectivamente de pouco mais de um século, foi a partilha de África, onde vingou a bicefalia Inglaterra-França.
A primeira conseguiu a ligação Cairo-Cabo, bastante à custa dos nossos direitos que iam de Angola à contra-costa em Moçambique.
A segunda alijou para regiões inóspitas as ambições alemãs e italianas e coartou lesivamente a influência espanhola a Norte e Ocidente.
Com a Segunda Grande Guerra, foram duas novas potências que se impõem a todo o Mundo… Estados Unidos e União Soviética.
Foi o tempo da chamada guerra fria que só se aquietou com a queda do chamado Muro de Berlim e o desmoronar do Império Bolchevista e a irrupção de algumas dezenas de novos estados, grandes uns, como a Ucrânia e a Bielo-Russia, médios alguns, embora territorialmente vastos, minúsculos muitos deles, mas correspondendo a bem vincadas nacionalidaddes.
O sonho de hegemonia mundial dissipou-se.
Mas não há tempo para vacaturas.
E, no seu lugar, está para já de pedra e cal, o colosso chinês, apostado também no domínio económico-financeiro do nosso orbe já pequeno para tanta ambição…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A regra é milenária, de valor reconhecidamemte universal e impõe-se erga omnes.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaPor ela, todas as propostas de contrato e também todo e qualquer contrato assentam num caracter de previsibilidade ou, se quisermos, de previsivel normalidade.
É certo que os contraentes podem ajuntar aos seus contratos simultaneamente as condições ou cláusulas que bem lhes parecerem. E estas condições e cláusulas passam a ser elementos integrantes dos mesmos contratos e governam-se pelas mesmas regras, excepto nos casos em que a lei ordene o contrário.
Depois, o pactuante que satisfizer aquilo a que se obrigou pode exigir daquele que não cumpriu não só o que pela sua parte prestou ou a correspondente indemnização, mas também a pena convencional estipulada, e, na falta desta convenção, indemnização por perdas e danos.
E, se nenhuma das partes tiver cumprido o pactuado e só uma delas se prestar a cumpri-lo, esta pode exigir da outra ou só a execução especifica do contrato, ou só a pena convencionada – ou na falta desta a devida indemnização – mas nunca uma e outra coisa.
A simples mora na execução do contrato basta para que se possa exigir da parte em mora a pena convencional ou a indemnização por perdas e danos.
E quando o contrato depender de alguma condição de facto ou do transcurso de qualquer lapso de tempo, verificada a condição ou transcorrido o prazo, considera-se o contrato perfeito desde a sua celebração.
Mas quando houver a certeza de que a condição se não pode verificar, o contrato será declarado ab initio inexistente.
Mas se o contrato for feito com a condição de que, desde certo facto ou acontecimento se haverá por desfeito, verificado que seja aquele facto ou acontecimento, será cada um dos contraentes restituído aos direitos que tinha no momento da celebração, se outra coisa não tiver sido estipulada.
Deve lembrar-se ainda que os pactuantes cujos contratos dependem de alguma condição, podem, ainda antes de esta se verificar, exercer os actos lícitos necessários á conservação dos seus direitos.
É que a nulidade da condição, por impossibilidade física ou legal, produz a nulidade da obrigação.
Como se vê, é enorme a liberdade de convencionar e condicionar.
O que não obsta a que existam condições nulas, ilícitas e imorais.
E que sendo, embora a condição uma cláusula acessória tem ela de ser isenta de todos os defeitos que anulariam a convenção principal.
Assim, uma cláusula será nula por vício de consentimento e também quando o facto a que se refere ou de que a obrigação depende for física ou legalmente impossível.
Daí a existência de várias espécies de condições.
Logo quanto ao modo como são formuladas podem ser expressas ou tácitas, positivas ou negativas, alternativas ou conjuntas, casuais ou potestativas, puras ou mistas, suspensivas ou resolutivas.
Mas basicamente, há a teorias dos pressupostos.
Negoceia-se com base numa realidade.
Se esta se modifica sem culpa dos contraentes ou até contra a sua vontade, o contrato fica em crise.
Daqui se extrai uma série de conclusões que podem inquinar tanto o contrato de representação que liga eleitores e eleitos, como um contrato de mútuo entre uma instituição bancária e qualquer magnata ou pobre de Cristo, que a ela recorreu.
Os governantes que blasonam sobre a vitória eleitoral que os levou ao poder esquecem que o voto foi dado para a realização dum dado programa.
O banco que negociou um crédito para aquisição dum dado bem com determinado cliente fê-lo tendo em conta o estatuto económico do mutuário e o valor de mercado do bem em causa.
A ponderação da cláusula rebus sic stantibus exige a ponderação das modificações de fundo operadas naquele circunstancialismo.
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

Martim Codax foi um poeta das Rias Bajas de Vigo que também o poderia ter sido dos picos de Xalma.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaEscreveu Hugo Rocha, que foi no Porto ilustre crítico literário e não menos ilustrado membro da Academia Galega, que não se concebe facilmente nos dias de hoje o que teria sido um poeta do século XIII, como Martin Codax e os seus pares.
Pelo menos, não se concebe facilmente o que tenha sido um poeta votado a cantar e declamar urbi et orbe a sua poesia.
É certo que,muito antes dos trovadores, dos jograis, dos segreis da Idade Média, a Grécia da Idade Antiga teve os rapsodos que foram os divulgadores da poesia do seu tempo, os cantores e declamadores de então.
Mais perto de nós, os celtas tiveram os bardos e as valemachias gaulesas eram canções de amor levadas pelos bardos de terra em terra, como o haviam de fazer depois os jograis e menestreis da Idade Média.
A fantasia lírica dos escaldos fez das sagas escandinavas os cantos mais típicos do Norte. A Islândia do passado conheceu as edas. A poesia escandinava e inseparável das tradições runicas. As lendas caledónias poetizadas por Ossian tiveram os seus divulgadores populares.
Falar dos nibelungos, dos poemas do Rei Artur e da Távola Redonda é falar dos famosos minessingueres germânicos. O canto épico de Rolando, os poemas cíclicos de Carlos Magno, o romanceiro de Cid Campeador eram poesia declamada, cantada e estruturalmente acompanhada a música instrumental.
Sabe-se o que todos eles declamaram mas desconhece-se-lhes o canto.
Os registos musicais são muito mais difíceis de fixar, além de os acordes sofrerem o influxo transformador do meio – até do geográfico.
Efectivamente, dizem os entendidos, as czardas russas repercutem tanto as grandes estepes como o tango argentino se filia na sintonia do pampas.
Como entre nós, o cante alentejano se modela nos barros de Beja, o fandango estremenho nas pradarias do Tejo e Sado, o vira minhoto nas colinas ondeantes das arribas de Viana…
Não sabemos que toadas terá cantado Martim Codax.
Conhecemos-lhe já perfeitamente o trovar, a sua fusão idiossincrática com o mar de Vigo, as cantigas de amar e amigo:
Ondas do mar de Vigo
Si vistes meu amigo
E, ay Deus, se verra cedo

Ondas do mar levado
Se vistes meu amado
E, ay Deus,se verra cedo

Se vistes meu amigo
O por que eu suspiro
E, ay Deus, se verra cedo

Se vistes meu amado
Por que hei gran coidado
E, ay Deus, se verra cedo

Ay ondas que eu vin veere
Se me saberedes dicer
Por que tarda meu amigo
Sen min

Ay ondas que eu vin mirar
Se me saberedes contar
Por que tarda meu amigo
Sen min

Se tivesse vivido no Ribacoa, Martin Codax teria igualmente cantado o amor em cantigas de amigo.
Só que o estro sopraria da serra, que não do mar.
Mas a língua seria a mesma – um romanço com muito de charro.
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana«Poetando» é a coluna de Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, na qual aos domingos vai publicando poemas inéditos, cada um dedicado a uma aldeia do concelho do Sabugal. Este Município raiano, um dos maiores do País em termos de extensão territorial, tem 40 freguesias, algumas delas com anexas, sendo no total exactamente 100 (cem) o número das localidades do concelho do Sabugal. Nesta edição o escritor e poeta bismulense dedica um soneto a mais uma anexa da freguesia da Bendada: Quinta do Ribeiro. Nos próximos domingos serão editados os poemas referentes às restantes duas aldeias anexas desta freguesia: Rebelhos e Trigais.

QUINTA DO RIBEIRO

Ribeira era a margem não o curso
Da água sussurrando desde a fonte
A abrir por entre fragas o percurso
Traçado pela linha do horizonte

Ribeiro sempre foi, haja quem conte
Com mais ciência ou menos recurso
O veio de água que, descendo o monte
Venceu os irmãos em leal concurso

Sem ambições jamais será um rio
Mas cumpre o seu dever com todo o brio
Mesmo em Outubro de ano sequeiro

Que melhor trova ou sonorosa loa
Do que esta que por aqui se entoa
Não há Quinta igual á do Ribeiro

«Poetando», Manuel Leal Freire

Uma conta de gerência actua sobre realidades. Um orçamento sobre previsões que, mesmo quando fundadamente fundadas, não passam de expectativas que o futuro dirá se são ou não concretizadas.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaObviamente que tratando-se de um instrumento tão importante como é a previsão das receitas que hão-de suportar as despesas de todo um ano de governação, todos os cuidados com vista a aproximar o desejado do real sempre serão poucos.
E a menor das dificuldades não será certamente a de se tratar de previsões sobre previsões, sob um múltiplo risco de falibilidade.
No domínio das receitas, numa sociedade em acentuado estado de crise tentar saber como se comportarão a generalidade dos impostos indirectos é quase esperar uma resposta do oráculo de Delfos.
Ou até mesmo no imposto sobre as pessoas singulares, dadas as perspectivas dum galopante aumento de desemprego.
Para não falar do imposto sobre as sociedades de lucros em muitos casos de todo em todo aleatórios, quando não mesmo condenadas à falência.
E se é assim pelo lado da receita, as incertezas caracterizam também o aspecto despesas, bastando pensar na evolução, por exemplo, dos custos sociais do desemprego ou da acentuação a um ritmo quase inimaginável do empobrecimento geral.
A austeridade gera austeridade, a pobreza avoluma o número de pobres, praticamente em progressão geométrica.
Orçamentar ao ritmo de uma crise significa sempre potenciar a crise.
E o orçamento que a Troika aplaude e apoia não será nunca senão o orçamento que agrade aos nossos credores.
Os sacrifícios que a Nação suporte pela austeridade orçamental são-lhe absolutamente indiferentes.
A Troika não existe para a felicidade do povo português, nem para a resolução dos nossos problemas internos.
A sua função, levada quase ao estatuto de missão, é garantir que os nossos credores externos recebam sacramentalmente os seus créditos, acrescidos dos juros que nos impuseram.
E são esses os parâmetros que fixam para a elaboração do orçamento, bem como para todas as demais regras da governação que, para eles, só será boa se assegurar o pontual pagamento de créditos e juros.
Obviamente que um devedor – pessoa individual ou um estado, a pessoa colectiva mais complexa – deve honrar os seus compromissos. Mas há regras e pressupostos básicos.
O contrato de mútuo não pode ser leonino. O credor não pode abusar do estado de necessidade do devedor.
E que Portugal assinou o tal memorando de entendimento em estado de necessidade alardeiam-no todos os partidos do arco da governabilidade quando pregam que, sem ele, seria o caos.
E que se falharmos, minimamente que seja, o caos, apenas suspenso, aí estará em toda a plenitude.
Há ainda um outro considerando que se impõe.
O credor não pode levianamente conceder empréstimos sem previamente se certificar da capacidade de cumprimento do mutuário. Se o fizer, corre os riscos que inerem à sua própria displicência.
Como não deve também incentivar a gastos superfluos, a cobrir por empréstimos, desenfreando o consumo.
Todos estes argumentos poderão e deverão ser utilizados na nossa negociação com a troika.
E todos por igual poderão e deverão estar presentes na elaboração do orçamento do Estado.
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

«Os Falares Fronteiriços do Concelho do Sabugal e da Vizinha Região de Xalma e Alamedilha»

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaTanto se tem falado do charro, das terras do charro e da unidade hipotalássica que a região constitui que nos sentimos obrigados a falar, aqui e agora, dum livro editado pela Universidade de Coimbra já no ano de mil novecentos e setenta e sete, e da autoria da filóloga Clarinda de Azevedo Maia e que tem o título com que encimamos a presente charla.
No prefácio, assinala a autora depois de frisar o carácter de trabalho escolar do livro – tese de licenciatura com que a obra nasceu, o destaque que pretendeu dar à avaliação do grau de penetração do castelhano e do português nestas duas faixas extremas – a raia sabugalense e as terras de Xalma, situadas na periferia dos dois países e até aos nossos dias em desfavoravéis condições de comunicação e por isso mesmo bastante conservadoras.
E daí também a complexidade deste trabalho sobre matéria dialectal nalguns aspectos com muito de pioneirismo.
Trabalho de grande folego científico, forma o seu corpo principal, explica a Autora, além duma extensa introdução, onde são postos em relevo os factos de carácter histórico e ainda a amplitude e a frequência dos contactos estabelecidos ao longo da fronteira cujo conhecimento é indispensavel para uma rigorosa interpretação dos factos linguísticos, toda a parte consagrada ao estudo e análise das características dos falares das duas regiões que em introdução caracteriza.
Transcrevamos:
Muito motanhosa e de acesso difícil, em precárias condições de acesso e comunicação com os seus vizinhos de Espanha e Portugal, a região de Xalma é uma das mais isoladas e menos exploradas de toda a Ibéria, seca ou húmida.
Aliás inóspita e de acesso difícil é toda a Serra da Gata, nomeadamente daquela parte de onde emergem o Coa, o Erges e o Águeda.
E os cerca de vinte quilómetros que vão da carcerenha San Martin de Trevejo á portuguesa Aldeia do Bispo, passando pelo Pico de Xalma ou Jalama, a mais de mil e quinhentos metros de altitude, são ásperos e difíceis com caminhos nem sequer de ferradura.
E nessa longa caminhada, que leva meio-dia passa-se junto de Payo e Navasfrias, pequenas povoações serranas, em muito acentuadas condições de isolamento…
Depois, frisava a Autora:
Em grande isolamento, se encontravam também as aldeias raianas portuguesas do Sabugal.
Intervém ainda negativamente a pobreza do solo e a rudeza do clima, de nítida influência continental áspera – invernos muitíssimo rigorosos e verões excessivamente quentes.
As dificuldades uniam.
E assim se impôs um caldo de cultura que marca e individualiza.
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana«Poetando» é a coluna de Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, na qual aos domingos vai publicando poemas inéditos, cada um dedicado a uma aldeia do concelho do Sabugal. Este Município raiano, um dos maiores do País em termos de extensão territorial, tem 40 freguesias, algumas delas com anexas, sendo no total exactamente 100 (cem) o número das localidades do concelho do Sabugal. Nesta edição o escritor e poeta bismulense dedica um soneto a mais uma anexa da freguesia da Bendada: Quinta da Ribeira. Nos próximos domingos serão editados os poemas referentes às restantes três aldeias anexas desta freguesia: Quinta do Ribeiro, Rebelhos e Trigais.

QUINTA DA RIBEIRA

O mundo correm trovas cuja fama
Nos vem já não de anos mas milénios
Bem dormirá quem acha boa a cama
Quem tem sopros de fúria, enfim refrene-os

Há outros com doçuras de auriflama
Suaves como vinhos de Silénios
Bonança que em bonanças se recama
Desejos que não são alucigéneos

Viver á beira de água é um regalo
Quem se atreverá a denegá-lo
Não sei se haverá quem o não queira

Eleitos, pois, de Deus decerto são
Os que fora de um munto em confusão
Em paz vivem na Quinta da Ribeira

«Poetando», Manuel Leal Freire

Em Portugal, ensina Marcelo Caetano no «Manual de Direito Administrativo» (segunda edição, páginas 177), pode dizer-se que os termos concelho e município são considerados sinónimos, sendo concelho a autarquia local que tem por base territorial a circunscrição municipal.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaSão várias as teses que historicamente fundam esta realidade institucional, sendo comumente aceite como dominante a que o filia no direito romano.
Não deixando, todavia, de relevar o contributo do Código de Alarico, o Conventus Publicus Vicinorum, os Ajuntamentos da Cabilia.
O Município expressa-se através de órgãos de administração activa comuns que são a Assembleia Municipal, a Câmara Municipal e o Presidente da Câmara Municipal, pondo-se o acento tónico no segundo, o que em linguagem comum torna sinónimos as palavras município e concelho e ainda a expressão câmara municipal.
As pessoas colectivas de direito público – passamos agora a palavra a Diogo Freitas do Amaral, Manual de Direito Administrativo (Tomo II, páginas 617) – exprimem a sua vontade através de órgãos, com os quais as identificamos.
Os dicionaristas, por todos Frei Domingos Vieira, in Thesouro da Lingua Portugueza, põem o acento tónico no carácter histórico, atribuindo-lhes o significado de cidades do Lácio e da Itália e, mais tarde, de todo o Império, que viviam segundo suas próprias leis e costumes, ao contrário das colónias que se regiam por leis vindas de fora, normalmente da cabeça do Império. O que pressupunha a existência duma câmara municipal, que legislasse para dentro.
Isolado o termo câmara identifica-se para os dicionaristas como salão, divisão mais ou menos monumental de casa também de marcada monumentalidade.
É a domus, de que falam cronistas e poetas:
De capa e volta, de calção e vara
Eu hei-de ir á casa do concelho
Falar ao senhor Alcaide, de voz clara
Dizer-lhe uma oratória que aparelho…

Assim, o salão dos dicionaristas, o vocábulo câmara, aditado de municipal, simboliza o próprio município de que é o orgão por excelência e generalizado entendimento.
Conclui-se, portanto, que não obstante as maiores ou menores dicotomias a que se pode chegar numa linguagem marcadamente cientifica, concelho, município e câmara se podem considerar palavras sinónimas no campo do direito administrativo – lato sensu…
Município, camara municipal, concelho… assumem-se, pois, como instituições jurídicas que têm de comum o poder municipal… que simbolizam ou exercitam.
Instituições jurídicas no sentido em que Savigni, in La Ciencia del Derecho (Editorial Losada), lhes atribui, a vida depois plasma-as, não havendo surgido nenhum conflito quanto a direitos de personalidade, pois a pessoa colectiva, como unidade da vida social e jurídica, viu assim afirmada a sua própria individualidade.
O nome e órgão são um só.
E, para quem queira pôr em causa, com relevância no mundo do processual, aquela identidade, terá de objetar-se que, sendo o concelho ou município o agregado de pessoas residentes na circunscrição municipal com interesses comuns, prosseguidos por órgãos próprios, são estes órgãos que dão vida ao ser de sem eles inerte, que seria o concelho…
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

O milénio pasado foi o tempo das nações-estado que, de resto, já se haviam começado a desenhar na segunda metade do antecedente por reflexo da grande crise provocada pela queda de Roma e consequente desagregação do seu império.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaO reino dos francos, antecâmara da actual França, foi o primeiro.
Naquilo que nós, hoje, chamamos de Europa Central e Europa de Leste, fervilharam então os gérmenes que cissiparizando-se, deram as centenas de principados, ducados e guelfas que, pelo fenómeno oposto viriam a dar os grandes impérios… O de Otão, antecessor do Sacro e do bismárquico, dos margraves de Viena de Austria, consubstanciado nos Habbsburgos, do de Pedro, o Grande, fundador de São Petersburgo, centralizador dos canatos que o seu ceptro unificou, o dos turcos-otomanos que as quezílias de Bizâncio deixaram passar aquém Danúbio.
Aqui, na Península Ibérica iam sucedendo os godos, visigodos, ostrogodos, suevos, alanos e vandaluzes, precursores das monarquias neogóticas que, por seu turno, vieram a gerar a Espanha dos condados, mãe de reinos.
E assim surgiu o reino de Portugal o país mais antigo e estável em fronteiras de todo o velho Continente.
O resto da península foi até mil e quinhentos um mosaico de reinos, dificilmente unificado por Fernando e Isabel, soberanos cada um seu trono, contendor um do outro até á cruzada contra Boadbil que expulsaram de Granada.
A França é de registo mais antigo. Mas não tem conseguido manter a integridade territorial, baldeada segundo os sucessos e insucessos das guerras com a Alemanha.
E ainda de mil novecentos e quarenta a mil novecentos e quarenta e cinco esteve partida em duas, só a de Vichi, gozando de independência aliás relativa.
Terrivelmente oscilantes em todas as direcções tem sido as fronteiras da Alemanha, dividida até ao tutano em duas durante metade do século passado.
A Itália foi durante milénio e meio uma autêntica manta de retalhos… com os reinos do Piemonte, de Nápoles e as Duas Sicilias, os ducados de Parma e de Veneza, as repúblicas de Piza e de Florença…
E das partilhas, levantamentos, cissiparizaçoes e fenónemos inversos é testemumho o que foram as partes europeias, primeiro, do Império Bizantino, depois, do otomano.
O segundo milénio foi o da dança das nacionalidades, agredindo-se reciprocamente.
O Milanado oscilava servindo alternadamente duas cortes em guerra endémica, a Casa de Áustria e a Monarquia Francesa. De tal modo que os seus militares tinham uma farda de dupla cor. Bastava virar a casaca
O Imperio Russo, czariano primeiro, comunista depois, entra em maré cheia ou vazia, ao sabor de preiamares e baixamares.
Unificado sob mão ferrea, cissipariza-se quando o centralismo abranda e no momento presente são às dezenas as repúblicas minúsculas que apareceram no xadrez.
Até a Geórgia, pátria de Estaline, entra na contradança em que também figuram os pequenos estados bálticos – Estónia, Letónia e Lituânia.
Ainda no Báltico, a Suécia, ora assume dignidade imperial, ora se reduz a uma pequena coroa.
De modo que a Europa das Pátrias e Nações e das regiões mais ou menos autónomas, no nosso milénio tem de ser a Europa das Pequenas Comunidades.
E nesta cabem as Terras do Charro…
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana«Poetando» é a coluna de Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, na qual aos domingos vai publicando poemas inéditos, cada um dedicado a uma aldeia do concelho do Sabugal. Este Município raiano, um dos maiores do País em termos de extensão territorial, tem 40 freguesias, algumas delas com anexas, sendo no total exactamente 100 (cem) o número das localidades do concelho do Sabugal. Nesta edição o escritor e poeta bismulense dedica um soneto a uma anexa da freguesia da Bendada: Quinta do Monteiro. Nos próximos domingos serão editados os poemas referentes às demais quatro anexas desta freguesia: Quinta da Ribeira, Quinta do Ribeiro, Rebelhos e Trigais.

QUINTA DO MONTEIRO

Monteiro é nome de altas honrarias
Assim o rezam velhos cronicões
Cantando fragorosas montarias
Romances velhos, trovas de truões

Com tanta fama só as romarias
Vivência funda a fé das multidões
Além o corpo mostra bizarrias
Aqui a alma pias intenções

Conforme se ilustra ou não a crónica
Pois cada um lhe apõe a sua tónica
História e lenda, fluído verdadeiro

Quem vem certificar-nos a verdade
Registo batismal e identidade
Da razão deste nome de Monteiro

«Poetando», Manuel Leal Freire

A longa viagem de mais de dois meses que o então chefe do governo chinês Chou En Lai levou a cabo em África na parte final de mil novecentos e sessenta e três marca uma data importante, pois foi por ela que aquela potência que começava a ter intenções de hegemonia mundial saiu do seu próprio continente, para potenciar o movimento revolucionário no chamado Terceiro Mundo.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaJá antes, em em mil novecentos e quarenta e nove, Liu Shao Chi, que havia de ser presidente da república, defendera a tese de que a via chinesa é a via que devem tomar todos os países coloniais e semicoloniais no seu combate para a independência nacional. Era a formação de frentes nacionais.
Os elementos de vanguarda da luta revolucionária, preconizava, devem atrair a si os elementos patriotas da burguesia nacional e formar com eles uma frente tão larga quanto possivel. Mas a direcção dessa Frente deve pertencer à classe operária, leia-se ao partido comunista.
Porque a partilha do poder com a burguesia nacional não conduziria ao triunfo da Revolução, mas à prevalência de interesses burgueses.
Ponto essencial era também o da necessidade da luta armada, relembrando os ensinamentos de Mao Tse Toung, segundo o qual o poder está sempre nos canos das espingardas.
Mas esta luta só de per si é insuficiente e não pode ser levada a cabo só pelos povos colonizados. É fundamental o auxílio dos países socialistas
Enfim, os povos da Ásia, da África, da América Latina devem aplicar na sua luta contra os colonizadores a técnica revolucionária que o povo chinês praticou e se encontra sintetizada nas lições de Mao.
Tem de ser assim, dizia o compêndio.
Para o Egito, a Argélia, Marrocos, o Quénia, as três Guinés, o Mali, a Somália, o Tanganica, Zanzibar, o Iemen, a Palestina, o Paquistão, o Ceilão, nas Antilhas, nas Caraíbas, no Peru, na Nova Caledonia…
Como se vê, não há limites geográficos para o expansionismo chinês.
Poderá perguntar-se das razões pelas quais Pequim decidiu intrometer-se tão larga e profundamente por todo o Terceiro Mundo.
Porque os países ocidentais ou abdicaram ou se mostram apenas preocupados com a colonização económica, única que também em seu entendimento interessava aos soviéticos.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A família é a primeira e a mais perfeita e natural das comunidades de base. E é a familia de origem que assegura, até que o cidadão constitua a sua própria casa a exercitação do direito à habitação.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaAlçapremando-se pelo casamento à plenitude da cidadania é sobre os cônjuges que passa a pender aquela obrigação.
Todos os nossos romancistas – e o romance, incluído o menos realista, é sempre um espelho da vida – nos dão conta do esforço, com todos os foros de ingência, de um casal de rústicos para levantarem a casa, dota-la de um poço e horta e, ao lado, fazerem vingar uma figueira.
Assim se exaure o melhor de duas vidas, lamenta Vergílio Godinho, in O Calcanhar do Mundo, não diferindo muito a xácara de Mestre Aquilino, em Terras do Demo.
No Portugal urbano dos últimos lustros, o esforço tem sido financeiro. As instituições bancárias, com o pleno apoio do Estado, propiciaram a aquisição de casa própria praticamente a todos os casais com um mínimo de solvabilidade.
Negociaram-se empréstimos a longo prazo e juros acessíveis. Ficou, é certo, a pender sobre os imóveis uma hipoteca. Mas, embora com aquele ónus, a casa pertencia-lhes.
Genericamente, as coisas têm corrido bem e os mutuários estão a pagar. Exceptuam-se, e são infelizmente já muitos, os casos de inopinado desemprego, que leva os atingidos por aquela fatalidade à impossibilidade prática de cumprir.
E aqui falhou o legislador e falhou o sistema bancário.
Sempre com o torvo olhar posto unicamente sobre o lucro, os bancos não encararam qualquer solução humanamente realista. Avançaram para a execução pura e dura dos créditos, leoninamente engrossados com juros e alcavalas, que tornaram o pacto autenticamente desumano.
A dívida facilmente galgou todas as raias da moralidade. De ascenso em ascenso, ultrapassou o valor venal do imóvel e as coisas só valem o que dão por elas.
Em corolário, o desgraçado fica sem a casa e com dívidas que até ao fim da vida, por mais longa que seja, não conseguirá solver.
Se os administradores bancários tivessem peso de consciência, mediriam o criminoso da situação. Uma dívida, por causa dum imóvel, não pode, não deve legitimamente exceder o valor do imóvel.
Os banqueiros não têm alma.
Mas, se não estivessem cegos pela codicía do lucro, veriam que à distância, até materialmente perdem. E semeiam o ódio e a fúria entre os fracos, sementeira que leva fatalmente a progtromes e destruições.
As perseguições a judeus e banqueiros – e o povo tende a identificar a raça e a usura – tem aqui uma herança genética.
Quem explora o povo, morre às mãos do povo.
Ora, se a banca, ofuscadamente cega pelas ânsias de lucro, não vê o perigo que corre, os governos deviam impor-lhe normas de conduta. Obrigá-la a negociar soluções de solvabilidade e, no limite dos limites, impor que a entrega do imóvel pague todas as dívidas directa ou indirectamente emergentes.
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana«Poetando» é a coluna de Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, na qual aos domingos vai publicando poemas inéditos, cada um dedicado a uma aldeia do concelho do Sabugal. Este Município raiano, um dos maiores do País em termos de extensão territorial, tem 40 freguesias, algumas delas com anexas, sendo no total exactamente 100 (cem) o número das localidades do concelho do Sabugal. Nesta edição o escritor e poeta bismulense dedica um soneto à freguesia sulista do concelho: a Bendada. Nos próximos domingos serão editados os poemas relativos às cinco anexas da freguesia: Quinta do Monteiro, Quinta da Ribeira, Quinta do Ribeiro, Rebelhos e Trigais.

BENDADA

O nome com sonâncias de benesse
Reflete desde logo pia obra
Aquele que bem dá certo merece
Ainda que só dê o que lhe sobra

Os donativos valem como prece
Ou mais até quando a fé redobra
Ou quem dando oferta o que carece
Os ceitis da viúva Deus desdobra

Registos são prenúncios de um futuro
Premarca o nascimento o nascituro
Traçando o roteiro que lhe agrada

A pia batismal aqui no caso
Marcou um horizonte sem ocaso
Lançando suas bençãos á Bendada

«Poetando», Manuel Leal Freire

Repetidamente vimos sustentando que a política é um serviço, não podendo e muito menos devendo profissionalizar-se.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaO político tem de viver para a política – mas não pode viver dela.
O funcionário vive profissionalmente para a sua função e pode e deve viver a um nível razoável – a expensas dela.
Ora, no Portugal post-abrilino, verifica-se que os políticos, não vivendo para a Política, vivem dela… e muito acima do nível comum dos cidadãos.
Com vencimentos nalguns casos escandalosamente altos.
Com pensões de reforma, obtidas em tempo mínimo e volume máximo.
Com benesses dificilmente aceitáveis mesmo na Austrália das minas de ouro.
Pra não falar já dos invisíveis de que tanto tanta gente fala e tanta coisa salta para a ribalta, mas que tão pouco se certifica, pairando no ar uma tremenda nuvem que ofusca a de todos os Junos.
Seria, pois, de toda a conveniência para a classe política que os seus membros dessem provas de não apego aos lugares, deles abrindo mão logo que circulem com alguma consistência determinados rumores.
Como seria salutar – para mais num regime que tanto se ufana do seu republicanismo – que se não estivessem a erigir autênticas dinastias políticas, com direito de sucessão alargado a descendentes por parentesco e afinidade, para não falar já do paraninfado de influências.
A lei que circunscreve a três mandatos consecutivos a possibilidade de candidatura a uma determinada autarquia assume, inquestionavelmente uma posição morigeradora.
E interpretada dando prevalência ao elemento histórico e à base lógica deveria impedir uma quarta candidatura do mesmo cidadão, independentemente de ser outra ou não, a autarquia almejada.
Impedir-se-ia assim o anichamento de uns, ao mesmo tempo que se abriam hipóteses a outros.
Com uma dupla vantagem, pois…
Os políticos de profissão já anunciaram a ruptura com aquela restritiva interpretação. Luis Filipe Meneses, impedido, em qualquer interpretação, de se candidatar à Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, anunciou já – e com sete tubsas – ser candidato à do Porto. Fará, ou melhor, repetirá o cursum histórico – do Portus Calém Antiquus para o Portus Calém Novus.
Certamente que Sua Excelência é um prestante cidadão e poderá vir a ser um zeloso e zelador autarca.
Por mim preferia vê-lo a exercer clínica.
Mas Sua Excelência prefere fossilizar-se na carreira política. E à falta de concorrente de peso equivalente, a vitória parece-lhe assegurada, com o risco de o Porto virar um enorme estaleiro.
O poeta popular já faz vibrar a lira:
Dizem para aí que o Meneses
Que tem a sua graça às vezes
Daria um bom presidente

Mas
Fazendo o que a Gaia fez
O Porto de lés a lés
É terramoto iminente

Objectar-me-ão que pior do que o tremor de terra ou o maremoto é a inércia.
Mas o Porto já sofreu o iconoclasta martelo do Rio e a fúria das suas enxurradas.
De qualquer modo, Meneses avança para um reinado. E para construir uma dinastia, tendo já conseguido no Parlamento assento para o filho…
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

Pode dizer-se que o toureiro vai à praça para ganhar dinheiro, posição social, glória, aplausos, mas não é verdade.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaO toureiro vai á praça para se encontrar com o touro, ao qual tem muito que dizer e a que, a um mesmo tempo, teme e adora.
É certo que os aplausos do público o incitam, lisonjeiam e animam. Mas ele está embevecido no seu rito e vê e ouve o público como se estivesse noutro mundo.
E, efectivamente, está. Está num mundo de criação e de abstracção.
Como os expectadores, cada um dos quais imaginariamente toureia o touro, com um capote imaginário e de modo diferente do que está vendo.
Assim o toureiro transforma-se num mito diferente para cada um dos expectadores e o touro passa a ser a única realidade e o primeiro actor.
É que todos sentem intimamente o desejo de tourear, sem pensar que o toureio é uma arte dificílima, que reclama génio individual, impõe escolas e tem modas.
Mas esta vontade lateja imanente em todos os espanhóis. Por isso, todos se sentem actores, actuando na praça com o toureiro.
Achando natural e não incrivel uma verónica de Belmonte ou um farol do inimitável Rafael, El Gallo.
E este desejo profundo de enfrentar o touro baila profundamente no ânimo de qualquer jovem espanhol.
São, aliás em número incontável os que se arrojam à praça, saltando dos tendidos,
con un trapito rojo y una caña en vez de espada, como verdaderos ecce homos de la fiesta… o se desnudan para pasar el rio y torear desnudos á la luz de la luna.
La Fortis Salamantina, torre que se reflecte no espelho do Tormes e a Giralda de Sevilha, alcandorada sobre o Guadalquivir são os dois minaretes simbólicos sob os quais se vive a aficion.
Claro que tudo vem do Sul.
O passodoble ressuma a sangue andaluz e toda a escola e ciência do toureio brotam da Serra Nevada para baixo. Mas, hoje, o Campo Charro tem bravas ganaderias que brilham nos redondéis de todo o mundo.
E assim o mérito divide-se entre os sinos da torre salamantina, carregada da universitária cultura renascentista e as badaladas da Giralda ressonantes ao mais belo arabismo em que há todo um rosário de ressonâncias e um gigantesco touro negro decantado já pelos poetas e que excita todos os ânimos.
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana«Poetando» é a coluna de Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, na qual a cada domingo vai publicando poemas inéditos, cada um dedicado a uma aldeia do concelho do Sabugal. Este Município raiano, um dos maiores do País em termos de extensão territorial, tem 40 freguesias, algumas delas com anexas, sendo no total exactamente 100 (cem) o número das localidades do concelho do Sabugal. Nesta edição o escritor e poeta bismulense dedica um soneto a Covadas, lugar anexo à freguesia do Baraçal. No próximo domingo será editado o poema relativo a outra freguesia: Bendada.

COVADAS

O côvado foi vara de medir
Tal como o era o braço da braçada
São usos que se não devem impedir
Que o corpo nunca dá a taxa errada

É certo que a estatura variada
Pode em certos casos desmedir
A régua sabiamente mensurada
Os exageros há-de comedir

Qual seja deste nome a vera origem
É coisa que se perde na caligem
De lendas entre si desencontradas

Ou vara de medir ou cova funda
Incertas a primeira e a segunda
Que certo só o nome de Covadas

«Poetando», Manuel Leal Freire

Nos grandes debates sobre descolonização apresentaram-se como campeões da ideia a Rússia, a China, os Estados Unidos, o Japão, a União Indiana.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaE, no entanto, todos aqueles países eram ao tempo, tinham sido antes e dificilmente se poderão despir de aspirações de hegemonia e expansionismo, colonizadores no pior sentido do termo e sempre ávidos por mais e mais extensão.
Aliás, para além de eventuais diferenças de base ideológica ou de praxes políticas, que vêm opondo os governos de Moscovo e Pequim, assenta na chamada questão dos limites.
Com efeito, mau grado a enorme Área territorial daque1es dois colossos (mais de vinte milhões de quilómetros quadrados a Rússia, cerca de dez milhões a China), ambas se reivindicam rnutuamente parcelas fronteiriças.
E nenhuma delas se coibiu de continuar na senda das anexações. Que o digam, na Europa, a Polónia, a Finlândia ou a Roménia, amputadas largamente no fim da Segunda Guerra por um imperialismo não contente ainda com a incorporação da Sibéria, do Turquestão, do Cáucaso, da Transcaucásia…
Antes, alargara-se para o Báltico e Proximo Oriente, mesmo à custa da Suécia (não se esqueça que Sao Petersburgo, que assim nasceu, mas já foi Petrogado e Leninegrado, está construido em territórios extorquidos por Pedro o Grande à Suécia) e aquém da Sublime Porta, ex-dona da Crimeia e limítrofes.
Quanto à China, bastará recordar a anexação do Tibete, da Mongólia, da Manchúria, duma parte do Turquestão, e de todo um extenso rosário de arquipélagos espalhados por todos os mares da região.
De resto, as aspirações de hegemonia de uns e outros não se circunscrevem a questões de fronteira.
Reflexamente, influenciam também o dissídio Índia/Paquistao, relativamente às tendências expansionistas da primeira, que se julga predestinada ao domínio de toda a península, não obstante o autêntico mosaico de raças e culturas determinantes de cerca de uma vintena de estados, que são tantos quantos compõem a Índia, importa como fre-quentes e sangrentas irrupções bem demonstram.
Antes do colapso militar que lhe foi imposto pelos bombardeamentos de Hiroshima, também o Japão praticou uma política agressivamente expansionista, iniciada em fins do século passado. Vencendo sucessivamente russos e chineses, conquistou a Manchúria e ocupou as únicas áreas industrializadas da China, formando assim o Grande Império do Sol Nascente.
Além disso, incorporara também as ilhas que no Pacífico haviam constituído, até Versalhes, o império alemão.
Os Estados Unidos, para além da projecção da doutrina de Monroe (a América para os americanos), que naturalmente lhes conferia uma posição hegemónica, vem praticando desde fins do século passado uma política de expansão territorial, conseguida de diversos modos.
Em 1867, compraram o Alasca aos russos. Em 1889 anexaram as ilhas do Havai. A guerra hispano-americana, desencadeada pela posse de Cuba, terminou pela derrota da Espanha e a transferência para o domínio americano de Porto Rico, Guam e as Filipinas.
Mas não se quedou por aqui o alargamento do territorio. Por compra, adquiriam à Dinamarca as Ilhas Virgens. Na América Central, têm o domínio perpétuo da zona de protecção do Canal do Panamá.
A sorte dos dois últimos conflitos de que tem sempre ernergido vencedores, assegurou-lhes, por igual, outras zonas do domínio ou tutela: caso de antigas possessóes alemãs ou japonesas em diferentes áreas do Pacífico…
O anticolonialismo norte-americano (naturalmente hipócrita) explica-se por uma causa no mínimo dupla: por um lado, ao seu grande poderio económico-militar não interessava minimamente a influência das antigas metrópoles europeias; por outro, tratava-se de conquistar simpatias dos chefes que se julgavam independentizados. Todavia, por uma especie de justiça imanente, os territorios por que decidiram atacar as velhas soberanias têm-se revelado para Washington fonte das maiores preocupações e até de terríveis problemas, ainda não solucionados.
Bastará citar quatro exemplos. Contra o domínio espanhol, intervieram em Cuba que inicialmente satelitizaram, mas que com a ascenção de Fidel – aliás por eles mesmo promovida e potenciada – se lhes tornou o mais incómodo dos vizinhos.
Contra a hegemonia japonesa, intervieram na Coreia e as sequelas do conflito ainda não sararam.
Mas a pior de todas as provas emergiu na Indochina, onde se quiseram substituir aos franceses.
Falta saber como se saldará a substituição da influência britânica nas regioes onde foram Ur, Babilónia e Ninive.
A descolonização fez-se assim por influência de simples interesses comerciais ou devaneios ideo1ógicos.
A conversão em estados dos antigos territórios sob administração europeia fez-se não tendo minimanente em conta os interesses das populacões autótones, nem os irnperativos geográficos.
Bem pelo contrário, escreveu urn especialista (Ligório Marcela, in «Apontamentos de Geografia Política») firmou a divisão mais artificial do mundo… Com efeito, muitos dos novos estados além de não terem sido precedidos pela formação das nacionalidades têm fronteiras que não correspondem a divisórias naturais e que separam frequentemente povos da mesma etnia… E daí os genocídios que sinistramente irrompem para subjugar populações que são forçadas a permanecerr em esta¬dos arbitrariamente organizados e protegidos.
E a tragédia repete-se todos os dias.
A colonização movera-se de início por motivos de ordem espiritual. À descolonização, todavia, presidiram meros intentos economicistas, mesmo que disfarçados sob a capa da emancipação dos povos.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Do oito ao oitenta – ou inversamente do oitenta para o oito.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaOs alvarás de Farmácia, desde as das aldeias mais reconditas, que se podiam gabar de possuir tais tipos de estabelecimentos, às dos bairros mais movimentados ou ricos das nossas maiores cidades, ainda há pouco tempo,valiam fortunas.
Mercê duma política de restrições que apenas servia interessses instalados ou defendia certos títulos académicos, umas vezes às claras, outras debaixo de disfarces que só iludiam quem queria ser iludido, punham-se em jogo quantias fabulosas. Frequentemente se ouvia falar em propostas superiores a quinhentos mil contos, que não apenas quinhentos mil euros.
Por vezes, intervinham simples testas de ferrro, só chamados para dar foros de legalidade à operação, cujos titulares tinham de possuir determinadas qualificações. Mas do negócio, ou dos negócios, falava-se até á boca escancarada.
Que às escancaras se admiravam os povos, que falavam também de manobras para evitar a caducidade de alvarás ou da constituição de sociedades fictícias para dar foros de legalidade à transacção ou transacções.
Os poderes oficiais defendiam o estatuto de privilégio invocando os superiores interesses da saúde pública, arvorada em lex summa, embora os povos, certamente que por ignávia, não entendessem como é que a restrição do número de locais de venda ou a habilitação académica dos donos de tais locais – dos donos, que não dos que aviavam o receituário – favoreciam tais desideratos.
De todo o modo, o negócio ia prosperando, o que se tornava evidente, mesmo a olho nu.
Quando, por qualquer razão, se punha á venda um alvará, eram não cem cães a um osso, mas uma corrida de manatas por um bom naco do melhor lombilho.
E, para assegurar futuras benesses, iam-se abrindo postos em povoações limítrofes, postos futuramente – e num futuro próximo – convertíveis em unidades autónomas, não faltando até que recorresse à figura das parafarmácias, apostando também numa breve conversão.
Era esta, ainda ontem ou anteontem a realidade.
Mas bastou apenas que – passe o pleonasmo – se generalizassem os genéricos, naturalmente muito mais baratos, mas mesmo assim escandalosamente caros, face ao custo real dos componentes, e timidamente se legislasse sobre as margens de lucro, para que uma nuvem obscurecesse todo o panorama e que caricatamente tenhamos sido chamados ao caricato fúnebre do funéreo enterramento daqueles típicos estabelecimentos que vendiam saúde e civilização, na medida em que, para além do aviamento de receituários eram o centro cívico do burgo ou, pelo menos, do bairro.
Na justa repartição dos sacrifícios impostos pela crise é de perguntar onde estão os milhões embolsados até ás ultimas reformas…
Ou para rogar que se deixem actuar livremente as regras do mercado livre…
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

Nesta Europa das «Pátrias Chicas», «Santas Terrinhas» ou «Terrae Patrum», que é a deste primeiro século do terceiro milénio, não há dúvidas de que as freguesias onde se pratica a capeia raiana constituem, agregando-se-lhes as espanholas onde se usam os falares fronteiriços de Alamedilha e Xalma, um bloco monolítico.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaLevantadas em derredor das encostas portuguesas e castelhanas da mesma cadeia orográfica, cercadas até há pouco por uma dupla cintura de caminhos de ferradura, servindo de nascentes a rios – Coa, Águeda e Erges – que, por caminhos diversos e dispares, se irão juntar nas imensidades do Mare Nostrum, as respectivas populações, embora binacionais, têm secularmente vivido existência que bem se pode dizer comunitária.
O trigo e o azeite da parte salamantina, as mantas de toucinho e as tarraças de untura, as azeitonas e os escabechados de peixe grosso, as laranjas e os melocotones das encostas de lá tornaram-se triviais na mesa dos ribacudanos fronteiriços.
Como os povos de Alamedilha a Valverde del Fresno ou San Martin de Trevejo se habituaram ao leite, enchidos ou carnes frescas do lado de cá e até às nossas batatas e aos nossos feijões.
É o lado mais fortemente materializado – o da sustentação do corpo – a agir harmoniosamente com os laços linguísticos e a tradição em geral.
Dialectos carregados de leonismos, levam a que cá e lá aonde são muitos os que falam não grave, mas charro.
Historicamente, à guerrilha miguelista levantada na Raia Sabugalense pelo Padre João Barroca, correspondem os vários curas carlistas que deram corpo à Primeira Guerra Civil de Espanha, um século anterior à Cruzada do Caudilho Franco.
Ainda hoje são muitas as irmandades de almas e confrarias sufragiantes que mandam celebrar os seus trintários de missas em conventos transfronteiriços.
E dando resposta ao despovoamento e descristianização imperantes na parte portuguesa são padres e sacristãos feudatários da Sé de Cidade Rodrigo, que a de Cória eclipsou-se, quem se encarrega das cerimónias fúnebres em terras da Capeia.
Material e espiritualmente, constituem, pois, os Charros uma unidade hipotalássica.
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana«Poetando» é a coluna de Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, na qual a cada domingo vai publicando poemas inéditos, cada um dedicado a uma aldeia do concelho do Sabugal. Este Município raiano, um dos maiores do País em termos de extensão territorial, tem 40 freguesias, algumas delas com anexas, sendo no total exactamente 100 (cem) o número das localidades do concelho do Sabugal. Nesta edição o escritor e poeta bismulense dedica um soneto a Roque Amador, aldeia anexa da freguesia do Baraçal. No próximo domingo será editado o poema relativo a outra anexa da freguesia: Covadas.

ROQUE AMADOR

São Roque Amador porque era Santo
Amou tal como Deus os que mais penam
Apunha as suas mãos e por encanto
As dores do corpo e alma se serenam

Há traves mestras que jamais empenam
Ainda que esconsas em qualquer recanto
Aos ventos maus os bons os refrenam
É grande a dor, mas é maior o manto

O Santo que foi Santo Hospitalário
Aqui deixou provido relicário
De mãos que, quando apostam, saram

De Deus ungidos, eu anoto dois
O pai Cândido e o Quim Zé depois
Que, porque amadores a dor pararam

«Poetando», Manuel Leal Freire

O Reino Unido conseguiu o maior império que a História regista.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaDo compêndio de Geografia já noutra crónica referido, consta uma extensa listagem de colónias britânicas que passamos sumariamente a enumerar, anotando a superfície que o livro lhes atribui e que são:
Na Europa:
Heligolândia (0,5 km2), Gibraltar (5) e Malta (370).
Na Ásia:
Chipre (960), Índia (2.400.000), Ceilão (640.000), Estabelecimentos do Estreito (3.800), Hong-Kong (83), Labuão (78), Nicobar (1.800), Andamão (6.500), Laquedivas (2.000), Kuria-Muria (55), Adem (20), Pérsia (2.000.000), Kamarao (165) e Keeling (22).
Na Oceânia:
Novas Gales do Sul (800.000), Norfolk (14), Vitória (230.000), Gucensland (2.000.000), Austrália Meridional (1.000.000), Territórios do Norte (1.400.000), Austrália Ocidental (2.500.000), Indígenas da Austrália (100.000), Tasmânia (70.000), Nova Zelândia (270.000), Chatam (1.600), Fidji (20.000), Rotuma (36), Aucland (500), Lord Hove (8), Carolina (5), Starbuck (3), Malden (90) e Funning (40).
Na África:
Colónia do Cabo (572.000), Basulolândia (22.000), Griquelândia Ocidental (45.000), Transkai (40.000), Natal (50.000), Transval (300.000), Indígenas do Transval (100.000), Walthis-Bay (20.000), Serra Leoa (2.600), Gâmbia (179), Costa do Ouro (40.000), Lagos (200), Santa Helena (123), Ascensão (83), Tristão da Cunha (116), Maurícia (2700) e Nova Amesterdão com São Paulo (100).
Finalmente, nas Américas:
Canadá (8.500.000), Terra Nova (110.000), Bermudas (60), Honduras (20.000), Bahamas (14.000), Ture (25), Caicos (550), Jamaica (10.000), Cayman (600), Leward-Island (1.800), Windward-Islands (2.000), Staten-Island (2.000), Trindade (5.000), Guiana Inglesa (220.000) e Falclândia (12.500).

A enumeração, conquanto fastidiosa, não consigna, mesmo assim, a totalidade dos territórios que chegaram a estar dependentes da coroa britânica; e, quanto à sua extensão territorial, para a maioria dos casos, peca por deficientíssima, sendo certo que os dados procederam de repartição administrativa que só considerava os quilómetros quadrados sitos onde a jurisdição efectivamente funcionaria.
Com efeito, para numerosas parce1as, as superfícies indicadas apresentam valores manifestamente ridículos quando confrontados com as dos estados que actualmente lhes correspondem.
Acresce que, ao tempo, os Estados Unidos, outrora a mais importante e rica colónia do império se havia já emancipado; que o Império Turco ainda se não havia desmembrado e parte importante daquele, nomeadamente a Palestina e o Egipto, haviam de passar para a administração britânica, tal como a península arábica; e que territórios que na partilha da África haviam sido consignados à Alemanha transitaram, por virtude dos tratados que puseram fim à Primeira Grande Guerra para a posse ou, minime, a zona de influência de Londres.
Resumindo, poderá dizer-se que um súbdito de Sua Majestade britânica podia ir do Cairo ao Cabo, ou da Serra Leoa ao Corno de África sem ter de prestar obediência a outro chefe, que imperava em toda a Oceânia, na América do Norte, no Próximo, Medio e Vero Oriente, ou em todo um longo rosário de ilhas esparsas par tados os oceanos, ou mesmo por todos os mares.
Na génese de tão vasto império intervieram razões como a do espaço vital e a das oportunidades comerciais.
A população inglesa subiu rapidamente de menos de vinte milhões para mais de cinquenta. Daí a emigração para a América do Norte e a África do Sul, territórios de grandes riquezas agrícolas e mineiras e grande aptidão para a pecuária, ainda com a vantagem de serem dotadas de c1imas perfeitamente adaptados à raça branca.
Mas também a pirataria e o crime assumiram aqui poderosa influência.
Os portos de onde se vigiavam as mais concorridas rotas: as ilhas que rnais recôndito esconderijo fossem capazes de propiciar aos corsários que actuaram nos sete mares; as costas mais difíceis para servirem igualmente de coito: ou as embocaduras dos mais caudalosos rios usados para os raides fluviais, enfim todos os lugares eleitos por uma pirataria muito activa, eficiente e gozando da tolerância ou mesmo da protecção da Coroa e da sua política de canhoneira – acabaram por vir a tornar-se parte integrante do Império.
Mais importante do que a acção destes viquingues da Idade Moderna se revelou a dos condenados que eram remetidas para lugares de degredo onde poderiam vir a fixar-se como colonos livres se ali dessem provas de regeneração e, numa primeira fase, se comprometessem a não regressar à metrópole.
Como exemplo deste tipo de colonização costuma citar-se a Austrália, onde se começou pela parte sul da costa oriental, antes explorada pelo capitão Cook e por ele designada Nova Gales. Foi um oficial de marinha que, com cerca de oitocentos condenados, fundou a cidade de Sydnei.
A carência de mulheres já que os criminosos condenados à morte ou penas de degredo eram guase só homens, resolveu-se com a deportação das que na Inglaterra se dedicassem à prostituição.
O País, mau grado a procedência da generalidade da população, cedo atingiu elevados níveis de prosperidade e civi1ização e pouco tempo após o papel de colónia penal passou para a Tasmânia.
Como se vê, foi muito heterogéneo o contributo dos que a1icerçaram a maior comunidade de povo. ligado por laços de soberania, cultura e idioma, jamais existente.
O inglês tornou-e assim uma língua praticamente universal, sendo falado e tido como oficial nos mais variados lugares do mundo.
As independências começaram há mais de duzentos anos e ainda não terminaram.
Mas a Comunidade, tendo como principal elo, a língua inglesa e acatando também genericamente como símbolo a casa real assume-se como realidade que sabe resistir a interesses e posições, não raro aparentemente irrecinciliáveis.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A desvalorização da moeda constitui um valioso instrumento de dinamização da economia e de acalmia social.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaO nosso Primeiro-Ministro sofre simultaneamente de uma exasperante falta de preparação académica e de uma obsediante inexperiência de vida.
Uma simples licenciatura, obtida aos solavancos de anos de matrícula e não matrícula, não o qualifica suficientemente ao nível universitário.
Tanto quanto uma actividade profissional em protegidos empregos de circunstância lhe não propiciou um verdadeiro conhecimento das duras amarguras da amarga vida real.
Ora, esta dupla faceta, duplamente negativa, reflecte-se-lhe negativamente em muitas circunstâncias, nomeadamente quando em entrevistas discreteia sobre o dia-a-dia, do comum dos cidadãos.
E leva a omissões e confusões que não escapam a uma observação, mesmo breve e perfunctória.
Na última charla ao País, Sua Excelência quis equiparar, para efeitos de influência sobre o consumo, cortes na retribuição e desvalorização da moeda.
É certo que quer a menor quantidade de moeda, quer o menor valor desta relativamente ao preço do produto que com ela se pretende adquirir, tem o mesmo efeito sobre as quantidades efectivamente adquiridas. Só que a questão não se resume a esta formula simplista.
Com a desvalorização da moeda, põe-se mais moeda a circular. E se esta majoração for proporcional à quebra efectiva do valor, o cidadão que passa a receber o dobro da moeda compra a mesma quantidade de artigos cujo preço subiu também para o dobro…
A diferença, o grande benefício da desvalorização é em favor dos endividados, cujo montante da dívida não se altera.
Obviamente que para que os devedores ganhem, os credores têm que perder. Mas aqueles é que são o elemento dinamizador do mercado. E a sua angústia é que perturba a paz social. Aumentando-se-lhes os proventos na proporção da quebra da moeda, assegura-se-lhes o mesmo poder de compra, não se lhes perturba minimamente o estatuto. Mas aliviam-se proporcionalmente do peso da dívida.
É certo que os credores saem prejudicados da operação. Mas estes são sempre proporcionalmente poucos. E para o florescimento da economia não contam.
Daí que os Estados que perdem a capacidade de desvalorizar a moeda percam um importantissimo elemento, decisivo mesmo sob o ponto de vista da dinamizaçao da economia e da preservação da paz social.
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

A capeia raiana deriva do culto de Mitra? Entendemos que não… pondo, antes, o acento tónico no aspecto lúdico.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaEntre os numerosíssimos estudiosos que se têm debruçado sobre a origem e a essência da capeia raiana e do seu símbolo maior – o forcão – não podemos deixar de considerar os que têm pretendido religá-la ao culto de Mitra.
As ligações de Aníbal, o Barca, filho de Amilcar e neto de Asdrubal, a Mitríades, rei do Ponto e sumo sacerdote daquele antiquísssimo rito, podem servir de base para o estudo.
Anibal, o grande chefe cartaginês que não soube aproveitar o choque vivido em Roma com as derrotas de Canas e do Lago Transimeno, deixando-se ficar em doce far niente com as moças da Apulia, tinha para com a Ibéria Interior profundos laços de vivência.
Aqui recrutara os tércios e tiufados que o acompanhariam nas travessias dos Pirinéus e dos Alpes.
Daqui teria levado as cabras que municiaram de leite e carne os seus famosos esquadrões – rezes que enfeitadas nos chifres com luzentes archotes disseminaram o terror por entre as legiões, de Cipião.
Aqui se abasteceu com municiosos carregamentos de queijo velho de ovelha que forneceu aos seus homens um suplemento alimentar que lhes permitiu enfrentar os gelos na travessia dos dois maiores colossos orográficos da Europa.
Como todos os colonizadores deixou também entre nós sinais materiais e espirituais.
E, dentre estes, os cultos, um dos quais foi certamente o de Mitra, o do Minotauro e o de Zeus – touro divino responsável pelo rapto da Europa.
Tanto mais quanto é certo que os cartagineses eram os herdeiros e depositários das civilizações fenícia e cretense.
Aliás foi essa característica marcadamente mercantilista e nauta a principal responsável pelo fracasso de Cartago ante Roma – que extremando os campos fez desta a cidade eterna enquanto daquela só restam umas vagas ruínas na foz do Rio Bragadas, algures na Costa Tunísina.
E quanto à capeia raiana, como, de resto, à tourada em geral, embora lhe reconheçamos um aspecto cultual, de religiosidade profunda, pensamos nada ter a ver com o púnico culto de Mitra.
Mas sendo essencialmente uma manifestação lúdica da valentia dos vergalhudos da Raia, comporta e transporta fé.
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana«Poetando» é a coluna de Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, na qual a cada domingo vai publicando poemas inéditos, cada um dedicado a uma aldeia do concelho do Sabugal. Este Município raiano, um dos maiores do País em termos de extensão territorial, tem 40 freguesias, algumas delas com anexas, sendo no total exactamente 100 (cem) o número das localidades do concelho do Sabugal. Nesta edição o escritor e poeta bismulense dedica um soneto à Quinta das Vinhas, aldeia anexa da freguesia do Baraçal. No próximo domingo será editado o poema relativo a outra anexa: Roque Amador.

QUINTA DAS VINHAS

Andou pelo mundo inteiro o deus do vinho
Em vestes e missão de professor
Plantando sempre a vide em chão maninho
Pois nele o seu licor será melhor

Deixando para o trigo e para o linho
Os solos de classe superior
Mostrou que até o agros montesinho
Se torna feraz, regado a suor

O ferro e o alvião, em dupla lide
Criaram o dessaibro, aonde a vide
Imponente se fez como as rainhas

Não veio Baco em vão a Portugal
Deixando da passagem um sinal
O nome que ficou – Quinta das Vinhas

«Poetando», Manuel Leal Freire

Sob o título em epígrafe, lê-se na «História Geral da Civilização», de Adriano Vasco Rodrigues:

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNo reinado de Francisco Primeiro, correndo os anos de 1533/1534, Verazzano, um florentino ao serviço da corte francesa, percorreu parte das costas da America do Norte. Mais tarde Cartier descobriu o estuário do São Loureço. Ainda em 1534, iniciou-se a colonização francesa do Canadá. Aproveitando-se da situação criada a Portugal pela ocupação filipina, os franceses tentaram estabelecer-se no Brasil e na India. Richelieu não se preocupou apenas com os limites naturais da França. No seu tempo, ensaiou-se a colonização do Canadá, das Anti1has, do Senegal e de Madagascar. No tempo de Carlos IX fundaram a Carolina, em homenagem aquele soberano, o mesmo fazendo com a Luisiana, no tempo de Luis XIV. Esta colónia foi o foco da Guerra dos Sete Anos, durante a qual a França perdeu grande parte do seu império colonial. Mesmo assim, na India possuíu até aos nossos dias Pondicheri, Carical, Mlahe, Tainao e Chandernagor…
E, diremos nós agora, manteve a Indochina até 1960, a Argélia, o Saara e a África Ocidental, a Africa Equatorial, Madagascar e parte das Antilhas, além de numerosos arquipélagos meio oceânicos, meio insulindícos, até a grande vaga de independências forçadas pela ONU e pelos partidos de esquerda em Paris…
Compêndio escolar adoptado nos nossos liceus em fins do século passado continha esta relaçao:
África: Argélia, Tunísia, Gabão, Senegâmbia, Reunião, Maiota, Nossibé e Santa Maria de Madagáscar;
Ásia: Índia Francesa e Conchinchina Francesa; e, ainda protectorados sobre o Reino do Cambodja, Tubuai, Vovitou, Rapa, Tuamutu e Gambier;
América: Guiana, Guadalupe, São Bartolomeu, Martinica, São Pedro e Miquelou;
Na Oceânia: Nova Caledónia, Taiti, Moerea, Tetuarea, Raiatea, além de numerosas ilhas (Loyalti, Marquesas, Cliperton, entre outras…).
Dos impérios ultramarinos foi este sem dúvida o segundo em importância, logo a seguir ao inglês.
Menos mercantilista e mais interessado em trazer os povos indígenas aos benefícios da civilização, só podia ser atacado em nome de princípios que não tinham em conta o humanismo.
Aliás, muito mais do que as populações autóctones, genericamente satisfeitas com a colonização e até orgulhosas com a sua ligação à França, quem lançou as sementes da revolta foram internamente os partidos e intelectuais de esquerda (uns por pretensões de vanguardismo, outros por obediência a Moscovo) e externamente a Rússia ou a China ou até os Estados Unidos, todos com aspirações e intenções imperialistas e os últimos para agradarem aos afro-asiáticos que tinham a maioria na ONU e lhes forneciam oportunidades comerciais inusitadas.
Os militares franceses, não obstante a situação de abandono a que a classe política os votou, escreveram páginas de glória na defesa do Império.
Os Centuriões, embora livro romanceado, dão-nos épico testemunho. No pórtico, escreveu o autor, Jean Larteguy:
Conheci muito bem os centuriões das guerras da Indochina e da Argélia. Durante algum tempo, fiz parte deles; depois jornalista, tornei-me sua testemunha, por vezes seu confidente. Sentir-me-ei para sempre ligado a esses homens, mesmo que um dia deixe de estar de acordo com eles quanto ao caminho que seguiram… E dedico este livro à memória de todos os centuriões que pereceram para que Roma sobreviva.
A Indochina ficaria na memória de todos:
Naquela noite, os oficiais tinham-se reunido em casa de Esclavier que, como se servia dos móveis dos legionários, possuía a cozinha mais confortável… Primeiro beberam por Merle e todos os companheiros que já estavam mortos; depois por eles próprios a quem talvez acontecesse rapidamente o mesmo; por Si Lachen, que foram obrigados a matar; pelo coronel Quarterolles, por Moine, por Vesselier que teriam gostado de fuzilar. Mas, à medida que se afundavam na sua bebedeira, esqueciam a ArgéIia (onde então se encontravam) e a França e, dentro em pouco, todos falavam ou sonhavam com a Indochina. Nessa mesma hora, todos os oficiais, todos os sargentos e todos os soldados do exército francês que tinham conhecido o Tonquim ou a Conchinchina, a Região Alta, o Cambodja ou o Laos, quer estivessem sentados em suas cozinhas, escondidos numa armadilha, ou dormindo sob a tenda, reavivavam da mesma forma a chaga da doença amarela, arrancando-lhe as finas crostas que a cobriam.
Esclavier nao pudera suportar por muito tempo as discussões e safra. Avançara entre as ruínas do acampamento romano… Sentou-se sobre o fuste de uma coluna quebrada e tacteou uma inscrição: Titus Caius Germanicus, centurio Tercia Legio Augusta.
Vinte séculos antes, um centurião romano sonhara junto daquelas colunas e espreitara no fundo do deserto a chegada dos númidas. Quedara-se ali para defender as pontas do Império, enquanto Roma apodrecia, os bárbaros acampavam junto às Três Vias e as mulheres e filhas dos senadores juntavam-se-lhe durante a noite para copular com eles…
Esclavier sentia o ódio, a repugnância a invadi-lo contra todos aqueles que em Paris se felicitavam antecipadamente com a derrota e a perda do império.
Titus Caius Germanicus devia sentir a mesma coisa a respeito dos progressistas de Roma…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A Banca rebelou-se sempre contra o poder espiritual personificado em Roma. Mais vincadamente em dois actos históricos. Primeiro nas guerras púnicas. Quase dois milénios depois na pregação de Lutero.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaCom as vitória de Anibal, o peno aspérrimo, que nunca teve um projecto imperial, em Canas e no Lago Transimeno, era o triunfo do capital anónimo, vagabundo e apátrida, em luta contra um poder territorialmente fixado, centrado numa cidade que havia de firmar-se como eterna e baseado em lares, manes e penates.
Com a afixação das teses do monge augustiniano,volvido herege, porque rasgava a túnica inconsútil de Cristo era de novo a matéria a rebelar-se contra o espírito e o enfoque no poder enigmático do capital.
De raiz primeiro semítica e depois protestante, a Banca nunca mais pode redimir-se desses dois pecados originais que, bem pelo contrário, toma até como divisa, afirmando-se como poder dos poderes, liberto de peias materiais ou convenção imposta pelo espírito.
E é assim que todos os demais poderes tem de lidar com ela.
É assim que todos se lhe rendem. Todos a considerando como o coração ou mesmo o aparelho circulatório das sociedades modernas.
Veja-se a acolitada solicitude com que os governos, particularmente o nosso, acorrem a injectar-lhe capitais, mesmo em somas monstruosamente volumosas.
Ora a mim, liberto de peias, afigura-se-me que seria socialmente mais justo e economicamente mais relevante, injectar tais somas na sociedade civil, verbi gratia, através de uma distribuição per capita.
A todos por igual… possidentes e endividados, dissipadores e fomes-negras, dos que ainda guardam as notas debaixo do colchão aos que engendram logo mil formas de as lançar nos mercados bolsistas ou obrigacionistas ou nas ínvias vias da agiotagem.
Dir-me-ão que o caminho é o mesmo, só tendo este da distribuição pela sociedade civil mais uma etapa, passada a qual, todo o dinheiro já estaria na Banca, que o atrai por uma forte bateria de imânes.
Os endividados e somos quase todos, acorreriamos logo a libertarmo-nos do cargo e encargo e lá estava a nossa quota no sítio.
Os endinheirados, poucos mas extremamente sensíveis ao apelo, não deteriam mais tempo o que lhes houvesse caído em sorte.
Nos dissipadores o intervalo seria pouco mais do que um relâmpago…
De modo ou de sorte, que afora o dos colchões, todo o produto do ensaio em semanas já teria chegado aos bancos.
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana«Poetando» é a coluna de Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, na qual a cada domingo vai publicando poemas inéditos, cada um dedicado a uma aldeia do concelho do Sabugal. Este Município raiano, um dos maiores do País em termos de extensão territorial, tem 40 freguesias, algumas delas com anexas, sendo no total exactamente 100 (cem) o número das localidades do concelho do Sabugal. Nesta edição o escritor e poeta bismulense dedica um soneto ao Baraçal, fregeusia da margem esquerda do Rio Côa. No próximos domingos serão editados os poemas relativo às anexas do Baraçal: Covadas, Quinta das Vinhas e Roque Amador.

BARAÇAL

O termo de per si, mostra o interesse
Que têm as riquezas naturais
Tudo o que deus nos dá certo merece
Ser visto como dádiva de pais

Um povo alçaprema-se aos demais
Quando não desdenha do que cresce
Bendito o baracejo dos canchais
E o verde que nas veigas refloresce

Mas ser do Baraçal não embaraça
Aquele que ali nasce traz a graça
De reunir os dotes que em síntese

Permitem uma vida de sucesso
Fundindo a tradição e o progresso
Baraçal e embaraço são antítese

«Poetando», Manuel Leal Freire

Este imperialismo radica em linha directa nas expedições normandas. Arianos daquilo que hoje chamaríamos a Escandinávia (Suécia, Noruega Dinamarca), começaram nos últimos séculos do nosso primeiro milénio, um ciclo expansionista que os levou da Amèrica do Norte ao Mar Cáspio e do Arca Polar à Sicília e Bizâncio.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaContra eles, assinala Daniel Rops, in A Igreja dos Tempos Bárbaros, lançou Carlos Magno as suas frotas; e, por terra, fez pesar uma ameaça sobre os seus estabelecimentos de origem, tentando aniquilar-lhes na Dinamarca e na Noruega as suas bases de partida. Mas não pode fazer mais. De modo que um seu cronista evoca uma viagem marítima do Imperador da Barba Florida que, vendo desfilar as velas dos viquingues (termo que também identifica os normandos) que se lhe afiguravam sinistras aves negras, começou repentino choro, com uma clara consciência dos perigos que representavam para o Ocidente Cristão.
E continua o mesmo autor:
Os normandos! A custo se poderá imaginar hoje quanto terror estas duas sílabas guturais da língua germânica espalharam por toda a Europa durante o século IX. Quando os postos de escuta e espia, nas embocaduras dos rios, assinalavam a chegada dos terríveis piratas do mar, logo o sino tocava a rebate; as cidades fechavam-se; as muralhas de defesa viam-se logo cheias de ansiosos defensores. E as herdades e mosteiros que não tinham possibilidades de combater viam desfilar longas vagas de infelizes que se destinavam mais provavelmente à chacina do que à salvação. Envolvidos pelo mistério com que os rodeava a opaca bruma donde surgiam; escoltados por uma merecida reputação de selvajaria, os homens do Norte apavoraram a Europa como símbolos vivos do castigo reclamado pelas suas faltas.
A tal ponto que as próprias litânias viriam a incluir um versículo para os exorcizar:
A furore normandorum, libera nos, Domine.
Numa primeira fase, os assaltos dos dinamarqueses voltaram-se para a Europa, não tendo havido cidade importante que não recebesse tão incómoda visita: nas embocaduras do Reno e do Escalda, Saintonge, de repente em Hamburgo e no dia seguinte na Gironda. São depois visitadas Lisboa e Sevilha, enquanto a Itália litúrgica esperava a sua vez. Em França, não se podem enumerar os seus pontos de ataque: Beauvais, Chartres (atacada em plena noite), Melum, Orleaes, Blois… A lista alonga-se todos os dias. Paris foi cercada quatro vezes, saqueada três, incendiada duas…
Aliás, estas incursões haveriarn de, à distância, determinar como que uma implantação legal dos viquingues em terras de França. No começo do século X, Carlos, o Simples, teve a ideia, aliás excelente, de se entender com eles, de os estabelecer em França, e foi assim que, em 911, o chefe viquingue, Rollon, se tornou duque, dando ao seu feudo o nome, que ainda persiste, de Normândia.
Na Europa, os raides terminaram com o advento do novo milénio. Os povos cristinanizaram-se nas suas terras de origem ou nas zonas para onde se haviam deslocado.
Aproveitando a sua enorme experiência como navegadores e as viagens feitas nos anos de aventura, os dinamarqueses mantiveram até quase aos nossos dias um império colonial localizado nas regiões semi-glaciares do Norte e cujos úlltimos elementos foram a Islândia e a Gronelândia, valiosas essencialmente como base piscatórias.
Há, assim, uma longa tradição na arte de marear. Nos túmuIos dos chefes encontraram-se barcos onde eles quiseram dormir o sono eterno: os seus dacares.
Nos museus da Dinamarca, podem-se ver esses longos barcos de vinte e cinco metros, sem ponte, cuja forma afilada, proporções perfeitas e ornamentações de popa e proa nos dão uma instinta impressão de obra-prima. Movidos a remo ou a vela, desenvolviam facilmente os seus dez nós e o calado permitia-lhes passar sobre todos os fundos. Quanto ao raio de acção, podemos avaliá-lo pelo raid reptição, montado experimentalmente em 1950 da Escandinávia a Nova Iorque, feitos comemorativamente em exemplar adrede construído.
E foi montado em número de cinquenta sobre cada um desses maravilhosos animais marinhos, sob o comando de chefes especiais, os Viquingues, cuja glória é celebrada nas estrofes das sagas que os dinamarqueses (e os demais homens do Norte, agora modelos de civilização) se lançaram na sua aventura.
Recordemos parte duma saga:
A tempestade ajuda os nossos remadores; O vento está ao nosso serviço e leva-nos onde queremos ir…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A recente publicação de um vasto acervo de normas legislativas sobre o regime do arrendamento obriga os profissionais do sector da Justiça – magistrados judiciais, advogados, solicitadores, funcionários forenses – e um pouco a generalidade dos cidadãos, pois quase todos somos ou senhorios ou inquilinos, quando não detemos até aquela dupla condição, a debruçarem-se um pouco sobre a matéria.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaPartindo do pressuposto de que o direito a uma habitação com um mínimo de dignidade é um direito natural – ou o mais natural dos direitos, porque imposto pela luta contra a Natureza – facilmente se constata que os poderes políticos, designadamente os portugueses têm, secular e persistentemente, lidado muito mal com vista à sua satisfação, que, no entanto, é, para qualquer ser humano necessidade e desejo.
No transepto de milénios que separam a caverna do arranha-céus e do tempo que ainda mediará até que se realize o sonho de habitar, ainda em vida, o espaço sideral,o modelo tem sido sempre a cúpula celeste – o telhado universal.
E, porque o Céu cobre a todos, daí pode emanar o universal direito à habitação, direito propter omnes et erga omnes.
Potencial, como todos os direitos, só se realiza passando-o a acto.
Aqui, intervém o próprio, ou na sua incapacidade, por qualquer capitis diminutio – jurídica, financeira ou técnica, a comunidade, ou antes as diversas comunidades em que se insere.
A começar pela mais básica, a Família.
A terminar na mais monstruosa, o Estado.
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

JOAQUIM SAPINHO

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