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Uma elevada percentagem de juristas, essencialmente de advogados de barra, se vem sucessivamente sentando, e assentando, nos cadeirões dos parlamentos portugueses – e damos ao termo a sua maior abrangência, conglobando nele as cortes e as mais simples assembleias comunais – no quase milenário transcurso do nosso sistema representativo.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaDo Chanceler Julião aos nossos dias, passando por Fernao Lobeiras, porta-voz com outro Fernão, mas este mesteiral da plebe lisboeta na oposição ao casamento de Dom Fernando com a barregã Leonor de Teles.
Por João das Regras que vingou a morte ignominiosa daquela, concitando ao levantamento geral contra as pretensões da adúltera.
Por Febo Moniz, que tentou manter aceso o patriotismo português, mas foi vencido pelos burros carregados de prata, com que Filipe II, recordado do exemplo de um outro Filipe, o da Macedonia, adormeceu a consciência do nosso conselho de governadores.
Por Estevão Malagrido, irmão do frade que o progressista SEBASTIÃO JOSÉ mandou queimar, como já imolara pelo fogo os pescadores da Trafaria e de Monte Gordo.
Pelos grandes formuladores reformadores e reformuladores das Ordenações Afonsinas, Manuelinas e Filipinas
A João Camoesas, mais célebre pela bexiga que pela oratória.
Ás Águias de Aveiro e do Marão, esses sim imortais na arte de Demóstenes, não descurando, obviamente, os interesses dos povos que os mandatavam.
Aos legistas com lugar nas Cortes Gerais e nas demais grandes e pequenas assembleias, que nunca esqueceram os deveres de solidariedade para com os seus colegas de formação.
Dando, em todas as ocasiões, mesmo nas mais difíceis, testemunhos impressionantes dela.
Com o advento da chamada democracia representativa, ao contrário do que a terminologia sócio-política inculca, os representantes, se já só mui debilmente se sentem obrigados para com os povos que os elegeram, parecem cortar, pelo simples acto da investidura, todas as obrigações para com os seus companheiros de classe profissional.
Só assim se pode entender que entre os advogados eleitos deputados desde a CONSTITUINTE até agora, e já são largas dezenas, nenhum tenha tentado inverter, ou no mínimo travar, o declínio da condição de advogado.
Pessoalmente, não sentirão o drama.
O ESTATUTO DE DEPUTADO, extremando-os da penúria geral e garantindo-lhes uma respeitabilidade a toda a prova, põe-nos a coberto das dificuldades gerais.
Pela reforma antecipada e financeiramente de privilégio.
Por um volumoso subsídio de reintegração na vida activa, embora nada tenham perdido, em clientela, antes pelo contrário, com a chegada ao Parlamento.
Pelas conesias que acumulou com o cargo – e não carrego – de deputado, como são as de provedor disto e daquilo…
Suas Excelências não sentirão na pele ou na alma as agruras por que passam os ex-colegas de profissão que se não amesendaram nas benesses da Política.
Mas que têm o direito moral de exigir um pouco de solidariedade.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A classe profissional mais inclementemente castigada pelos sucessos e insucessos das últimas décadas da vida prrtuguesa foi incontestavelmente a dos advogados.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaA proliferação das faculdades de Direito. A necessidade por elas sentida de atrair candidatos, ainda que sem qualidade e preparação – as notas de acesso cingem-se a menos de metade do valor de outras anteriormente menos nobres. A incapacidade da Ordem para condicionar o acesso a indivíduos mínimamente preparados. A descomunal desproporção entre o número de advogados e as necessidades dos pleiteantes. A invasão do espaço de ocupação até agora privativo de advogados por profissionais com outros títulos ou até de sem título nenhum. A não obrigatoriedade de intervenção de advogado em actos e contratos de valor e grau de complexidade fixados em legislação apropriada.
A acumulação das funções de advogado de empresa com as de advogado em sede liberal, ou até as de barrista com as de consultor. Tudo foram factores que, isolada ou conjuntamente se repercutiram negativamente na situação do advogado. Na formação cultural de base, na preparação técnico-jurídica, na sustentabilidade financeira, na consideração social.
E a verdade é que uma classe profissional que gozava na generalidade de uma honesta independência económica, de uma acrisolada cultura e de um invejável estatuto social se foi a pouco deteriorando em todos aqueles níveis, vegetando em escritórios sem clientela ou auferindo retribuições de indiferenciado por conta de alguns nababos.
Resta, ainda um património de seriedade, acumulado por uma série sucessiva de gerações.
Mas é esse resto da antiga dignidade que agora está a ser posto em causa.
E por um membro da classe, apenas momentaneamente alcandorada à condição de titular da pasta da Justiça.
Quando se esperava que Sua Excelência, lembrada do seu estatuto de advogada, viesse reabilitar a classe, ei-la a lançar sobre os descamisados que prestam apoio jurídico aos pobres o labéu da tentativa de locupletamento à custa dos dinheiros públicos.
Parece que Sua Excelência como os seus parceiros de união pretendem criar novas fidelidades no Ministério da Justiça, criando a figura do defensor público.
Cremos que é uma péssima ideia. Mas é a de Sua Excelência e a dos seus pares.
Pode legitimamente defendê-la. Mas sem atingir a dignidade dos que praticam o apoio.
Seria bem mais próprio de quem pretende arrogar-se o papel de moralizadora que impedisse os pareceres multimilionários de escritórios fabulosamente enriquecidos à custa do erário público.
Mas isso seria exigir demais a uma baronesa do PSD. Aliás, esta tendência para tornar público um serviço prestado por privados, que são em toda a acepção do termo os advogados oficiosos, privados até de condigna retribuição não parece minimamente concorde com o programa do Governo.
De ideologias não vale a pena falar, uma vez que o PPD-PSD, ou PS, lhe é avesso.
Mas o que todos os advogados – e não só os que se disponibilizaram para o patrocínio oficioso – exigem é que a ex-advogada e transitoriamente titular da pasta da Justiça se retrate do labéu infamante que lançou sobre a classe.
Já não chegava que a política oficial, paraoficial e oficiosa dos governos que vêm desservindo o País tivesse miserabilizado financeiramente a classe, vindo agora uma alta hierarca do Estado, com as responsabilidades de advogada meramente em excursão pelo Governo, tripudiar sobre a honorabilidade dos advogados pobres.
Se Sua Excelência pretender funcionalizar a advocacia que o sustente sem tergiversações ou tenteios. Mas deixando de vilipendiar a classe.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

À guisa de abertura, direi que me confrange funebremente a desenvoltura com que alguns de Vossas Excelências se apresentam em programas televisivos a blasonar sobre o estado a que em Portugal chegou o sistema judicial e a discretear soluções que mirificamene lhe modificariam a face.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaÉ que quem não foi capaz de evitar ou de sequer travar minimmente a degradação técnica, económica e social duma classe que, pelos séculos, foi um referencial de capacidade profissional, de honesto bem estar e excelente reputação, não pode arrogar-se a posse de qualquer solução para um probema, ao qual enquanto no alto papel de bastonário não trouxe qualquer mitigação, sendo, bem pelo contrário, coartífice de apressada deterioração.
Depois, não podem V.ªs Ex.ªs esquecer olimpicamente a angustiada revolta dos advogados que podem ouvi-los.
Sou um obscuro advogado, de Vossas Excelências para usar expressão camoniana, não conhecido nem sonhado.
Mas certamente que um dos mais idosos que teima lutar.
E dói-me dolorosamente – passe o pleonasmo – comparar a situação da generalidade dos advogados de hoje com a daqaueles que há muitas décadas encontrei no exercício do munus.
Objectar-me-ão Vossas Excelências que nada poderiam ter feito nem contra o abandalhamento do ensino do Direito que sob a capa da democratização se permitiu a dúzias de pseudo-faculdades. Nem contra a multiplicação quase em progressão geométrica do número de advogados. Nem a favor da dignificação do advogado oficioso. Nem pela divisão equitativa por todos os escritórios, dos serviços jurídicos encomendados pelo Estado Português, Empresas Públicas e Parapúblicas a meia dezena de privilegiados. Nem para a obrigatoriedade da intervenção de técnicos de Direito em variadíssimos actos.
Mas não é assim.
Outras ordens, com menos tradição interventiva e algumas até há pouco quase desconhecidas, conseguiram não só manter as prerrogativas dos seus membros, mas também alargá-las.
A Ordem dos Medicos não permitiu a proliferação de faculdades e debatendo-se, embora o sistema de saúde com acentuada carência de especialistas, não pactuou com a banalização dos cursos e o rebaixamento da capacidade dos candidatos.
E é tão grande o contraste, que se pode entrar numa faculdade de direito com uma nota de oito ou nove valores, quando nem mesmo os dezoitos franqueiam as portas de qualquer curso médico ou paramédico.
A Ordem dos Tecnicos Oficiais de Contas arrancou legislação que exige a intervenção de representados seus até nas micro-empressas.
E o orgão representativo dos solicitadores – que nem sequer se apavona com a designação de Ordem – aproveitou a reforma da acção executiva para assegurar profícua actividade para a generalidade dos seus membros.
Entretanto, os sucessivos bastonários da Ordem dos Advogados entretiveram-se, uns a mirar olimpicamente os seus símbolos, outros a tratarem dos seus negócios de cujo êxito vieram jactar-se, aliás em linguagem que baralhando mãos atrás com mãos à frente nos fazia recordar narrativa de sucessos por parte de regateiras ou marafonas.
Ex quanto ao título, mas presenças ininterruptas nos grandes midia, cujas portas o bastonariato lhes franqueou continuam a dissertar como que ex-catedra sobre os problemas da justiça, em português nem sempre aprimorado e uma habitual indigência de profundidade doutrinal.
E, muitas vezes, com ideias chocantes e até atentatorias da competência e seriedade de magistrados, advogados e demais operadores judiciários quando não se coibem de afirmar que os ricos, assim como usufruem melhor serviços de saúde também se fazem jus a melhor justiça. Ou de que o Estado Português e os serviços públicos e parapúblicos só devem contratar com as grandes sociedades de advogados.
De sorte que o melhor serviço que Suas Excelências poderão prestar à classe que desserviram e ao ideal de Justiça que não ilustraram, seria remeterem-se ao silêncio, não forçando os advogados, desiludidos e indignados a mudarem de onda quando se anuncia a iminente intervenção de um dos nossos Ex.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Desfeito o Império e não consolidadas ainda as monarquias bárbaras, vivendo-se a decomposição do mundo romano e aproveitando-se as suas ruínas para edificar uma nova ordem, assistia-se ao espectáculo característico de todos os períodos de transição.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaA Igreja que muitas vezes providencia mesmo para as coisas do mundo, desempenharia aqui papel decisivo.
Qual era a situação na Europa, pergunta-se in «A Igreja dos Tempos Bárbaros», no momento em que se ia finalizar o século V?
E responde-se na mesma obra (paginas 127 e seguintes).
Materialmente, é apenas um mosaico de estados bárbaros. Na Itália, reina Teodorico, chefe dos ostrogodos que, após quatro anos de lutas destronou Odoacro e ficou a ser senhor único, não só em toda a Península Itálica, mas também na Sicília, na Récia, na Noriça, na Dalmácia e numa grande parte da Panomia… Na África, na Sardenha e na Córsega compensam a sua inferioridade numérica com uma política de terror, os vândalos.
Na Gália e na Espanha, os visigodos de Eurico são senhores de todo o espaço que vai desde o Liger ao sul da Andaluzia. Depois de terem feito recuar os suevos para o ângulo noroeste da Espanha, a actual Galiza,•e os cantabros para as suas montanhas, pensam em restabelecer em seu proveito, a unidade da Gália. Mas os burgundios ocupam o sudoeste do País… e ao norte restabelece-se a unidade, em benefício dos francos, desejosos agora da sua independência, graças a um rei ousado, que governa desde 481 e ao qual a história dará o nome de Clodoveu…
O retalho afirmava-se ainda impressionante nas ilhas britânicas, naquilo que hoje chamamos os países nórdicos e sobretudo, para além do Reno.
Mas, se a autoridade política se mostrava assim dispersa, errante e instável, os povos beneficiaram, não obstante, duma certa tranquilidade e protecção, dispensadas pela Igreja e fundamentalmente pelos bispos.
Para além do prestígio propriamente espiritual, radicado na sua origem divina e na superioridade da sua missão, só ela possuía quadros susceptíveis de propiciarem aos novos soberanos apoio logístico e técnico para as grandes tarefas da administração pública.
Aliás o homem que dizia missa e sabia ler latim passou a ser o protótipo do alfabetizado. O nosso clérigo, o clerc em francês, o clerk em ingles, o klerk em flamengo e antigo alemão, o diaca em eslavo (e nós ainda hoje usamos o termo diácono) significavam na origem o que escreve ou que sabe escrever….
Para além do enorme ascendente advindo desta enorme superioridade cultural, a autoridade eclesiástica chegava a toda a parte, através da organização das dioceses e paróquias.
Curioso notar que este último termo originariamente queria dizer lugar de refúgio em país estrangeiro, o que pretende expressar quando se passa a usa-lo na nova acepção que ao fim e ao cabo este não é o nosso mundo.
De qualquer modo, diocese e paróquia passaram a denominar a circunscrição territorial governada a primeira por um bispo e as segundas por vigários ou representantes seus (que outro não é o sentido de vicariato).
O papel dos bispos revela-se primacial:
«Representante de Deus na sua circunscrição numa época em que a única autoridade moral é a religião, delegado do rei cuja chancelaria assinou o diploma que o acredita, chefe muitas vezes designado da comunidade popular (que nenhum bispo seja dado a uma comunidade sem a concordância dela, haviam decidido as decretais de Celestino I e o metropolita antes de nomear um novo bispo ou este antes de designar um novo vigário tinha de consultar os fiéis) o bispo dos tempos bárbaros reúne em si as três possíveis origens de autoridade: Deus, o monarca e o povo.
E o bispo não se cinge depois a uma função meramente religiosa.
Acima das demais autoridades civis ou militares da sua circunscrição compete-lhe vigiá-las, repreendê-las, modificar-lhe as decisões, servindo de autoridade de recurso.
Mais, até materiais como o abastecimento geral, a limpeza das ruas ou as grandes campanhas que nós hoje chamaríamos de higienização ficam a seu cargo.
Depois, há toda a obra social propriamente dita.
Ninguém, a não ser a cúria diocesana se encarrega dos hospitais, das prisões, das escolas…
É ela quem, por igual, trata da assistência a viúvas e órfãos, e não somente aos órfãos pobres, mas também aos ricos para os libertar da voracidade das tutorias civis.
Depois, é a única autoridade capaz de enfrentar os poderosos locais, sempre propensos a excessos e até de enfrentar a autoridade real.
A preponderância do bispo revela-se, em corolário, o grande facto social dos tempos bárbaros, pois foi o episcopado que naquela época prestou à sociedade os mais relevantes serviços.
A contribuição das dioceses e seus titulares na construção da Europa assume um relevo verdadeiramente exceptional.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Bandarra, o poeta de sibilino estro, ou, se o acento mudar o profeta de lírica inspiração, anteviu nas suas congeminações, a traição ao espírito europeu perpetrada no seio até da instituicão que mais forte e impressivamente modelara, ou seja a madre que nos Céus está em essência.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaMuito forte bate o vento
Nas paredes da Igreja
Alguém caída a desja
No levantar vai o tento.

Premonitoriamente, apenas, já que Trancoso, a Raia da Guarda e mesmo todo o Portugal, incluindo Lisboa, se situaavam muito para além das fronteiras onde Calvino, João Huss ou Erasmo haviam lançado as suas teorias, Gonçalo Enes dera-se conta de que o Ocidente Cristão entrara em cissiparidade.
A quadra que acima se transcreve repercute, em linguagem mais chã o grito de Camões:
Ó Míseros cristãos, pela ventura
Sois os dentes de Cdamo desparzidos
Que uns aos outros se dão a morte escura
Sendo todos de um só ventre produzidos.

A invectiva camoneana que tão veementemente abre o Canto VII de Os Lusiadas ficou depois a servir de tema para os poetas de todas as gerações subsequentes:
Terrível, bem terrível bate o vento,
Já tremem as paredes da Igreja
De a derrubar fizeram juramento
Contra Ela e contra a Europa se peleja…

É que o combate contra o espirito europeu, desencadeado adentro da propria Igreja e atiçado até por alguns dos seus hierarcas, altos dignitários, mesmo, não mais parou.
Os inimigos da Igreja e da Europa obviamente que se lhes aliam.
Todos os pretextos servem: a autoridade pontifícia, o celibato ecelesiástico, a falta de democracia nas cúrias diocesanas, a selecção dos prelados, a detenção de bens materiais por comissões fabriqueiras, sés episcopais ou o papado, ligações ao poder político.
Mas não a todo, que o inimigo se situa apenas nas trincheiras do Orbs.
Os poetas, sempre prescrutadores da realidade, frisaram-no:
A César; o de César, disse Cristo,
Agora, os fariseus, dolo previsto,
Repetem de má fé o episódio
Cesareos só serão, eles o entendem
Aqueles que a lei de Deus defendem,
Tamanhos desatinos gera o ódio…

João Paulo VII, exactamente porque veio do Leste, o que lhe permitiu um mais perfeito conhecimento do que têm sido para a Igreja e a Europa, certos católicos e os que se lhes juntaram em movimentos pretensamente ecuménicos ou 1hes servem apenas de compagnons de route, não se deixa impressionar.
A Igreja não é nem pode ser uma sociedade democrática, mas sim uma sociedade estruturada. Nas primeiras, regem as maiorias; nas segundas, há outros criterios de direcção.
As arremetidas dos que pretendem esfarrapada a inconcussa túnica do Cristo vêm de longe.
Das que ocorreram para além da Europa ou no seu limite não vale a pena falar, pois transcendem as naturais contingencias deste artigo. O mesmo se diga quanto à Reforrna Protestante.
Na Europa propriamente dita, que se manteve fiel ao Catolicismo Romano, a primeira questão grave surgiu em França, por volta de 1831, com o caso L’Avenir e que terrninou corn a condenação de Lamennais. Nos fins do século passado foi o problema Sillon e em 1914 o movimento modernista, um e outro terminados igualmente pela condenação papal.
Por volta de 1960, foram os casos do jornal Témoignage Chrétien e da Jeunesse Étudiante Chretienne.
Prendia-se então impor ao Episcopado Francês, que condenara o jornal e o movimento, a tese de que, mesmo no seio da Igreja, são as maiorias que comandam, pelo que a Acção Católica se deveria determinar, não pelas recomendações da hierarquia, ou as directivas papais, mas sim pelo voto da maioria dos militantes de base.
Sociedade estruturada, isso não significa contudo, que deve furtar-se ao diálogo.
De resto, até pelo Evangelho, que considera irmãos todos os homens, o cristão tem o dever de se encontrar aberto ao intercâmbio permanente de ideias.
Mais, a única intransigência que lhe é imposta versa sobre a matéria da Fé.
Aqui é que não pode admitir-se o império das maioriaa ou aquilo que os progressistas chamam de ventos da História.
Aliás, a divisa ÓDIO AO PECADO, MAS PERDÃO AO PECADOR, parece ser a melho fórmula para a resolução de diferenças.
Mas não se pode ceder ao erro. O Papa como guardião da Fé foi instituído pelo próprio Cristo e a sua decisão tem de prevalecer sobre a vontade de quaisquer grupos, ainda que fortemente maioritários, de cristãos.
E, se o alarido vem de sectores clara e abertamente hostis à Igreja que surgem desarvoradamente em defesa da democracia para ela, o que os cristãos têm de fazer é pôr-se de remissa a indagar das razões por que os inimigos da Fé se dizem preocupados com uma matéria que lhes não respeita.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A cultura helénica transmitiu-se a Roma que, vencedora no plano militar e mais adiantada na técnica da administração, se viu, no entanto, civilizacionalmente subjugada.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaEra o triunfo da máxima Graecia capta ferum victorem coepit.
Miscegenados, os padrões dos vencidos e vencedores corporizavam uma nova ideia que se expandiu por onde se estabeleceram as legiões.
Leão, na Ibéria, e Lião na Gália, serviram de núcleos propulsores a Ocidente; para o Norte, ocupou-se a Britânia, ao tempo ainda na caligem das grandes trevas; a Leste abateu-se Vercingegegorix, símbolo da primeira leva de bárbaros, impenetrável a toda a ideia de civilização; a Sul consumou-se ao delenda est Cartago e a derrota de Antioco a execução de Cleopatra e o oitavo saque de Jerusalém.
Começava, assim, a tomar corpo a ideia expressa no poema:
Venho já
Desde Maratona e Salamina
E nem a morte.
Nas Termópilas
Me cortou a rota trinfante
Os elefantes de Aníbal
Não me feriram mais
Do que o punhal
De Décio Junio Bruto.
Inimigos, conheci-os
Chamaram-se Alcibíades e Marco António…

Povos hoje de alto nivel civilizacional, apenas saíram da barbárie devido a Roma.
Transcreve-se do Bellum Gallicum, também chamado de Bello Gallico:
Horum omnium fortissimi sunt belges, propterea quod a cultuaque humanitade. Privinciae longissime absunt, minimeque ad eos mercatores, saepe commeant, atque ea, quae animos effeminant important…
Os supercivilizados belgas dos nossos dias provém de avós que, ao tempo de César, se revelavam como o mais hostil dos povos a qualquer ideia de cultura ou progresso.
Fortíssimos de corpo, viviam para a guerra contra os vizinhos: proximique sunt germanis, qui trans Rhenum incolunt, quibuscum continenter bellum gerant…
Vítimas dos seus instintos guerreiros, eram os germanos que tinham a infelicidade de lhes ficarem próximos…
Mais pacíficos não se revelavam ao tempo os suiços, a darmos créto ao mesmo César: Helvetti, reliquos gallos virtude praecedunt, quod fere quotidianis bellum.
Os britânicos, a quem é dedicado o Livro V não colhem rnelhores referências, como, de resto, sucedia também aos habitantes da Gália até agora não referidos: e com cuja enumeração se abre o livro.
Toda a Gália se divide em três partes: uma habitada pelos belgas de que já nos ocupamos; outra pelos aquitanos; a terceira por aqueles que na sua língua se designam por celtas e na nossa por galos.
Foi César quem lhe deu nome e a tirou da barbárie:
Gália ali se verá que nomeada
Com os cesáreos trinfos foi no mundo,
Que da Sequana e Ródano é regada
E do Garona frio e reno fundo.

Guerreiros, como os que se bateram ao lado de Caio Júlio César ou foram destacados para guarnecer as fronteiras do Império e partiam porque se julgavam portadores de uma doutrina e mensageiros de uma civi1ização foram os principais cabouqueiros desta segunda fase da Europa.
«Partimos em defesa dos direitos sagrados que nos são conferidos por tantos cidadãos instalados lá longe, tantos anos de presença do nosso auxílio e da nossa civilização», assim começava a carta de Marcus Flavinius, centurião da Segunda Corte da Legião Augusto a seu primo Tertullus que havia ficado em Roma…
A concessão do direito de cidadania a todos aqueles povos que se encontravam dentro dos 1imites, aliás vastissímos, do império; e a instituição do município, que ficou como a pedra angular da administração romana completaram, depois, a obra dos conquistadores.
A Europa conservou essa sábia criação do génio romano que ainda hoje constitui para a generalidade dos países que a integram a base ou mesrno a única forma aceitavél de regionalização.
Depois, veio o latim. Sofrendo, embora, o influxo das línguas locais, veio a revolucioná-las tão profundamente que algumas, sobretudo as do Ocidente, se tornaram irreconhecíveis e foram mesmo totalmente substituidas pelo latim, adaptado embora às circunstâncias da região.
Alias, mesmo o latim erudito, talqualmente o usavam Vergílio, Horácio e Vário, na poesia; César, Tito Livio, ou Cornélio Nepos, na narração histórica; ou Fedro, no fabulário, impôs-se de tal forma que ainda há pouco se podia considerar autenticamente a língua dos europeus.
Por todo o Continente, a língua latina era falada e entendida. Entre nós, André de Resende lastimava que Gil Vicenle não tivesse escrito, usando-a, os seus deliciosos autos. Como em Itália os altos espíritos se insurgiam contra o facto de Dante não ter preferido para a Divina Comedia o mesmo latim. E também o povo iletrado…
A tal ponto que não havia pessoa culta que encontrasse justificação para que o Altíssimo Poeta usasse o italiano.
Este culto tera chegado mesmo ao ridículo. Em Portugal, até os gatos miavam em latim:
Mas o gato que bem sabe
O gatesco e o latino
Lhe diz meus, mea, meum
Em vez de miau, miai, mio…

Ridicularizado, embora, ou mesmo censurado:
Da mula que faz him, him,
Da mulher que sabe latim,
E do cabra que faz mé mé,
Libera nos Domine…

Foi ele o meio de comunicação entre as camadas cultas da Europa e a língua usada nas universidades e nas sebentas…
Pela edificação de cidades, a construção de pontes, a abertura de estradas (omnes viae ad Romam tendunt), a instituição do município, as línguas novi-latinas, Roma assumia-se como a segunda grande construtora da Europa.
A primeira havia sido a Hélada; a terceira veremos que foi a Igreja…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A humanidade pode entender-se como um simples indivíduo que vive sempre e continuamente aprende.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaComo, aliás, escreveu um grande mestre, ela compõe-se mais de mortos que de vivos e cada um de nós não passa de infinitésimo aro numa cadeia ao menos perene. Vivemos todos sobre uma vasta sepultura. Temos, pois, de escutar a voz dos mortos, que é conselho e lei para os vivos.
Les vivants sont gouvernés por les morts, proclama Augusto Compte.
Palavra admirável, que traduzida em mais rasteira e menos urdida linguagem quer dizer que uma indestrutível solidariedade une as gerações e que, na hora breve que passa, não somos mais do que usufrutúarios das energias que nos criaram.
É na sombra estendida pelas sepulturas ao derredor de nós que encontramos afinal a fraga donde mana a oculta fonte da nossa sensibilidade e da nossa inteligência. Nem sequer nos pertencem os pensamentos que julgamos próprios. Falam por nós os mortos. Ninguém sente ou pensa desgarradamente; pensamos todos com os mortos que nos deram vida, todos sentimos com a terra a que se arrancou a árvore para as tábuas do berço onde fomos embalados; e ao simples clarão deste fácil enunciado, enche-se de riquíssimo valor o versículo que a igreja canta no Ofício de Defunto: «E eu disse ao sepulcro: tu és afinal o meu pai».
Esta longa transcrição de Almeida Braga, in «Paixão e Graça da Terra», serve-nos de pró1ogo para nos tornar menos estranha a persistência de elementos da cultura helénica no nosso folclore:
Por saber a minha sorte
Fui a Delfos e a Corinto
Anunciaram-me a morte
Em jarras de vinho tinto.

Todos temos nesta vida
Como Aquiles calcanhar
O mal não está na ferida
Mas em não a couraçar…

Ouvir estas duas trovas da boca de urn camponês ou de um pastor dos Hermínios só causará espanto a quem efectivamente se não tenha dado conta desta persistência de herança.
A Guerra de Tróia, primeira cena dum conflito que ameaça eternizar-se entre a Ásia e este seu apêndice que é a Europa, persiste, igualmente, no imaginário popular:
Quando se viu ao espelho
A bela Helena chorou
Por causa dum rosto velho
É que Tróia se arrasou.

Mas nao foi só a esposa de Menelau, causa belli, que sofreu os efeitos destruidores do tempo.
Pior sucedeu a Penélope:
Por fiado tanto linho,
Tantas rocas estripado,
Tinha o cabelo branquinho
O nariz aos pés colado.

Ulisses não sofreu menos aquelas depredações:
Quando, passados vinte anos,
A sua casa volveu,
Muitos foram os enganos,
Só o cão o conheceu.

Este símbolo merece tambem a atenção da poesia popular:
Os dois animais de Ulisses
Foram um cavalo e um cão;
O segundo lealdade
O primeiro só traição.

Aliás, a vida do grande argonauta continuou a ser objecto de numerosas e poéticas referências no imaginário colectivo. Desde o mito das sereias, às intervenções de Sila e Caribdis…Como, de resto, toda a poesia homérica, ainda tem prcsente, usando até uma terminologia que se julgaria privativa de eruditos:
Por cantar, não ser cantor,
E muito menos sou aedo,
Também não sou pregador,
Embora recite o credo…

Enfim a Europa vem de longe e mantém-se fiel aos três valores enunciados no terceto de Dante: Jesus, Palas Atena e Marte.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Ao iniciar, perante a corte de Melinde, a narração da Gesta Dei per Lusitanos, Vasco da Gama, em obediência ao princípio da interdependência entre as duas disciplinas ou de que a história se assume como a geografia em movimento e esta como as gerações estáticas, começa por declarar:

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana
Mas, porque que nisto a ordem leve e siga
Segundo o que desejas de saber;
Primeiro tratarei da larga terra,
Depois, direi da sanguinosa guerra…

E, porque Portugal aparece descrito exactamente como a mais nobre das parcelas desta velha mater de civilizações, neste passo:
Eis aqui quase cume da cabeça
Da Europa toda o Reino Lusitano.
Onde a terra se acaba e o mar começa
E onde Febo reposa no Oceano.

Atrás vimos os limites sul, ocidente e oriente.
Acrescentemos um especial ao nordeste, terra gélida:
Lá onde mais debaixo está do pólo
Os Montes Hiperbóreos aparecem
E aqueles onde sempre sopra Eolo
E com o nome dos sopros se enobrecem
Aqui tão pouca força têm de Apolo
Os raios que no mundo resplandecem
Que a neve está contino pelos montes,
Gelado o mar, geladas sempre as fontes.

A perífrase camoneana encontra-se ainda hoje consagrada em qualquer vulgar compêndio de geografia.
Concisamente, reza-se, ali:
Norte e Ocidente, Oceano Atlântico,
Sul, Mediterrâneo,
Orientes, Montes Urales…

Saber se a tradição geográfica corresponde à cultural ou se, bem pelo contrário lhe é frontalmente oposta, dá matéria para mais intricadas lucubrações.
O poeta anteviu a dificuldade. De tal forma que leva onze estâncias a enumerar e referirr, apenas sintéticamente, a mescla de povos, crenças e ideias que cabem no mais pequeno, territorialmente falando, dos continentes: citas, lapões, rutenos, moscos, livónios, sarmatas, marcomanos ou polónios, saxões, boémios, panónios, traces, macedónios, gregos (e este simples nome encerra já toda uma enorme diversidade de sub ramos), dálmatas, os mil e um povos da Península Itálica, galos, britânicos, espanhóis…
E quanta a estes, há também uma larga diversificação:
O arragonês que se fez claro
Sujeitando Penelope inquieta
O navarro, os astures, que reparo,
Já foram contra a gente maometa:
Tem o galego cauto e o grande e raro
Castelhano a quem fez o seu planeta
Restituidor da Espanha e senhor dela:
Bétis, Leão, Granada, com Castela…

A União Europeia enfrenta assim uma dupla dificuldade: até onde vão os Iimites geográficos do Continente e quais os povos que autenticarnente se podem reclamar de portadores de uma cultura e tradições verdadeiramente europeias…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Repetidamente se tem afirmado que a Europa é, acima de tudo, uma unidade civilizacional.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaGeograficamente, os limites têm alguma coisa de impreciso e oscilante, não se identificando a verdadeira Europa com a dos compêndios ou a dos literados.
Detenhamo-nos na de Camões:

Entre a zona que o Cancro senhoreia
Meta setentrional do sol luzente
E aquela que, por fria se arreceia
Tanto como a do meio por ardente
Jaz a soberba Europa a quem rodeia
Pela parte do Arturo e do Ocidente
Com suas salsas ondas o Oceano
E pelo sul o mar Mediterrano.

Pela parte donde o dia vem nascendo
Com a ÁSIA se avizinha, mas o rio
Que dos montes Rifeioa vem correndo
Na Alagoa Meotis curvo e frio
As divide e o mar que fero e horrendo,
Viu dos gregos o irado senhorio
Onde agora da Tróia Triunfante
Não vê mais que a memória o navegante.

Como na tradição geográfica, o limes fixa-se a norte no Oceano, a sul no Mare Nostrum, a ocidente outra vez no mar Atlântico e a levante no rio Ural e mares de Tróia.
Mas será esta a verdadeira Europa do espírito e da solidariedade social?
Mitologicamente a bela Europa nasceu fenícia: filha de Agenor e Telefasa; irmã de Fenix, Cilix e Cadmo, o dos dentes esparzidos.
E da Ásia Menor rodou mesmo para o Norte de Africa: Urbe antiqua fuit/Tyrii tenuere coloni/Cartago…
À dimensão mítica, seguiu-se a do Império Romano. Vieram depois as de Carlos Magno e de todos os Otões. Durante séculos, os cartógrafos omitiram as terras para além do Danúbio. E para alguns pensadores, os mapas estariam certos: «Essas paragens ou nunca tiveram cunho europeu, ou cedo vieram a perdê-lo; desapareceram do devir histórico por largas centúrias; ficaram desertas, abandonadas: bosques frios, noites de lobo…
A verdadeira Europa será, de qualquer modo, a que se confundiu com o Orbs Cristianus da Meia-Idade. Do milénio que transcorreu entre as quedas das duas cidades imperiais (Roma e Constantinopla), os séculos construtores vão de 1050 a 1350, tempo de consolidação da República Christiana, a única União Europeia verdadeira até hoje conseguida. A Cristandade, que não a Igreja, e é bom não confundir as duas realidades, tentação de muitos (até bem intencionados), visava uma preocupação essencial: unificar.
Como acentua Daniel Rops, in «A Igreja das Catedrais e das Cruzadas», impôs-se então aos baptizados o sentido de uma profunda unidade.
Virgil Gehorgiu, na obra «A Juventude de Lutero», exprimia-se assim: «A palavra de ordem era REDUCERE AD UNUM: Urn só chefe: o sucessor de Pedro; uma só língua: o latim; uma só lei: a da Igreja».
Ou numa outra passagem de outro autor: «L’ideal etait de faire dependre toutes les formes de vie, avec toutes leurs valeurs et toutes leurs, vertues non pas liés, mais vassalisées, de La Cretientée…»
Todos são um corpo em Jesus Cristo, enleando-se as duas criações de Santo Agostinho: a Civitas Dei e a Civitas Hominum, quando mesmo esta resvalava para a Civitas Diaboli
Maritain apelidou esta visão de utopia teocrática, até porque guiada por santos e místicos.
Mas do que não pode haver dúvidas é que foi esta a verdadeira génese da Europa.
É certo que as actuais concepções se revelam quase antiéticas. Tanto como as da mitologia às da Igreja…
Na sociedade medieva, as relações entre os homens não eram impostas por simples exigências humanas, mas, acima de tudo, por factores religiosos. 0 Homem, em si mesmo transitório, era, porque integrado na Cristandade, parte de um tempo eterno, como que divinizado pela sua absorção no Corpo Místico. Os caminhos de Deus, mesmo quando se trilhavam as veredas do Diabo, eram a meta. A consciência do carácter efémero da vida, a convicção de que tudo na terra desaparecerá como tenda de uma só noite, a ideia de que do nascimento à morte apenas se preparavam os quatro novíssimos, dominavam a vida do homem medievo, autenticamente europeu: pertencesse ele à ordem dos bellatores (guerreiros e políticos), laboratores (os de todas as demais profissões), ou oratores (que faziam o trânsito terreal, rezando, meditando e contemplando).
São estas, queira-se ou não, as raízes espirituais da Europa, bebidas no Orbs Cristianus.
Vieram, depois, outras ideias, que hoje são também património espiritual de nós todos e cuja conciliação se torna, por vezes, bem difícil.
Desfeita aquela unidade, que só utopicamente existiu, a Europa vive nostálgica dessa idade, para si de ouro.
Pela hegemonia política ou económica, por vezes mesmo pela conquista militar, nunca mais se perdeu a ânsia de a refazer.
Fenómeno espiritual é ao espírito que cabe a sua reconstituição. Não, obviamente, à maneira medieva, que o mundo não pode viver duas vezes o mesmo momento.
Mas o espírito sopra onde e quando quer. E parece ter chegado a hora, para repetirmos com Victor Hugo: «Saudemos a aurora abençoada dos Estados Unidos da Europa».
Mas não faz mal recordarmos as raízes, até para prevenir que, como na mitologia, gere monstros.
O Minotauro nasceu, efectivamente, do adultério entre a Europa e o Touro que disfarçava Zeus.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Poetas e prosadores, ensaístas e filólogos, não se têm dado sossego na análise e aprofundamento do conceito de mito.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaPara Fernando Pessoa o mito é o nada que é tudo, para Almeida Garrett, trata-se de palavra grega que em tudo se mete e com a qual se procura explicar o que não tem explicação; os dicionários consideram-no feito fabuloso atribuído a divindades ou personagens que são divindades desfiguradas, para ensaístas, trata-se de narração de factos ou tempos que a história não esclarece e contendo ora um facto real convertido em noção religiosa, ora a invenção de um facto com o auxílio de uma ideia.
Mais aprofundadamente, há quem o defina como preciência, ou seja como um estádio que acabará por desembocar no conhecimento racional, depois de visionado profética e simbolicamente.
Quanto à Europa, numerosos mitos constam da Epos: o do nascimento (filha de Agenor e Telefasa, reis para lá do Ponto Euxino); o das suas relações de parentesco (irmã, pelo menos, de Fénix e de Cadmo); o de objecto de rapto, atribuído a Júpiter disfarçado de touro; o do encontro das tábuas do destino; o da rememoração de êxtase genesíaco e o invento da vaca amoldável; o do nascimento do Minotauro; a cornucópia da amalteia…
Esta última, por símbolo de todas as abundâncias, parece ter ficado para sempre ligada à ideia de Europa.
Assim, pelo menos, a têm encarado os filhos dos demais continentes, em corolário a ela recorrentes nas épocas de crise.
Aliás, a imagem vem de longe e nem sequer Camões, mau grado a sua precária existência, lhe sofreou reflexos.
A de portadora, não das tábuas da lei, que talvez mais legitimamente se podia arrogar, mas de detentora das chaves do destino mundial é prerrogativa que se julga real, até quando os planos de domínio se gizam extramuros, como aconteceu depois da Segunda Guerra Mundial com os eixos do poder desfocados para a América ou a Rússia, mais asiática que europeia.
Aqui, regressa-se a outro mito: o das origens. Filha de Fenícios, irmã da própria Fénix, a Europa sempre guarda alguma coisa de asiático, mesmo que seja por simples reacção.
Cadmo também deixou marcas. Mais uma vez nos socorremos de Camões:

Ó míseros cristãos, pela ventura,
Sois os dentes de Cadmo desparzidos
Que uns aos outros vão dando a morte escura
Sendo todos de um só ventre produzidos.

As guerras entre europeus, os mestres as apelidavam de guerras civis. Por vezes, a identidade de objectivos assume a natureza de falácia.
Eu e o meu Primo Francisco I, dizia Carlos V, temos uma ideia que nos une: ambos queremos Milão… Só que esta união gerava o fratricídio.
Simultaneamente, fastos e nefastos se revelavam também os mitos ligados ao touro joviano e suas repercussões.
A Europa corre o mundo sobre o rapto de Júpiter; ou nostálgica de genesíaca sensação… suas redomas.
As atitudes diametralmente opostas nasceram da mesma ideia.
A vaca amoldável em que a Europa se refugiava para novamente atrair o touro divino assemalha-se às couraças materiais com que pretende acobertar-se; ou a desvirtuamento espiritual que algumas vezes torna a regra.
União monstruosa gerou para a lenda do Minotauro, para a História tem já sido a origem de inenarráveis tragédias.
Os conflitos internacionais (e bastará citar as chamadas guerras dos cem, trinta e dos sete anos, as campanhas napoleónicas, a primeira e segunda grandes guerras), as questões religiosas e ideológicas que repetidamente têm ensanguentado a túnica que se pretenderia branca e inconcussa desta velha Alma Mater de civilizações, não passam de monstruosas criações geradas por cópulas igualmente monstruosas.
Para as evitar, urge purificar os mitos e, passando-os da fase presciente à do pleno conhecimento substituí-los pelas grandes ideias que estão na base do europeísmo: a cultura greco-latina, as sublimidades do cristianismo, o primado do espírito.
Não para combater a técnica e a revolução material. Mas para as colocar no seu papel de servidores do homem.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Minúsculo e decrépito apêndice das imensidades territoriais da Ásia para os seus detractores, mãe, criadora e exportadora da única civilização verdadeiramente ao serviço do homem que o Mundo já conheceu, a Europa, se tem alguma coisa de contradição e velhice, tem, apesar de tudo, muito mais de afirmação e de promessa.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaÉ certo que, de acordo com o sonho de Nabuco todos os imperios tém pés de barro e irão desaparecendo como tenda de uma só noite.
E que, segundo a visão profética ensaiada nas primeiras páginas do Livro XX do AB URBE CONDITA, por Tito Lívio, o esplendor da civilização e as culminâncias do poder seguem o curso do Sol no seu aparente ciclo.
O que significará que esgotado o percurso Bósforo-Atlantico, será de novo a vez dos Imperios do Sol Nascente.
Sem que, todavia, o tempo europeu se tenha consumado e muito menos consumido.
De resto, o que de melhor se tem conseguido por todo o nosso vasto mundo, deve-se a projecções europeias – à erecção de novas Europas.
Outra coisa não são os Estados Unidos, por enquanto a única superpotência e, apesar de tudo, a que, embora todo-poderosa, tem sabido respeitar o código de valores que impuseram a nossa civilização.
Pedaços da Europa são o Canadá e a Austrália.
Projecções da Europa são igualmente os países asiáticos da abundância – Coreia do Sul e a Formosa. Como as províncias chinesas da economia do mercado – as recentemente incorporadas Hong-Kong e Macau, ou as sempre chinesas de Cantão e Xangai.
Como terão de ser o Brasil, a Africa do Sul, Angola e outros estados que, pelas suas riquezas, reúnem as demais condições para se afirmarem no contexto mundial.
Assim projectada no exterior, impõe-se no plano interno, uma reestruturação que elimine as quezílias em que historicamente nos deixamos enredar.
O anátema camoniano

Ó míseros cristãos pela ventura
Sois os dentes do Cadmo desprazidos
Que uns aos outros se dão a morte escura
Sendo de um só ventre produzidos.

As quezílias, em torno, primeiro da tentativa de uma constituição europeia e, agora do texto do Tratado de Lisboa, os arrufos, umas vezes dos que deveriam ser os motores da unidade, outras de pequenos países sem qualquer peso útil, mas mesmo assim, com poder suficiente para travar a evolução, dão claro testemunho da persistente reiteração do chauvinismo divisionista eloquentemente zurzido por Camões.
A mitologia dá-nos também argumentos em favor – como o da Fénix Renascida.
E prevenindo-nos contra as Hidras de Lerna.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Nada, no nosso tempo, cresceu tanto e se dissemina com tanta velocidade como a informação.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaO que deu origem a um duplo fenómeno.
Por um lado, os donos dessa gigantesca máquina cada vez se esforçam mais em penetrar não só nas grandes massas populacionais ou nos seus condutores, mas até nas mais insignificantes comunidades e nos mais obscuros cidadãos.
Por outro, os objectivos pretensamente a atingir são ou eliminados pelas trincheiras de resistência que vão sendo individual e colectivamente erguidas ou pelas barreiras do fogo cruzado com que as várias fontes se combatem.
No dia a dia, todos nós somos literalmente assaltados por uma gigantesca quantidade de notícias de toda a ordem e provenientes das mais diversas partes do Mundo, que, mal acabadas de acontecer, se é que acontecem, pois não é raro tratar-se de mera invencionice, nos são apresentadas incisiva e até contraditoriamente.
E muitas vezes até os mais preparados para distinguir o falso do verdadeiro ou graduar o grau de credibilidade ficam atónitos e indecisos.
Há ainda duas outras nefastas consequências desta superabundancia de notícias.
Neste domínio, contrariamente á velha maxima latina do Quod abundat non nocet, o excesso desmotiva.
Depois, as notícias sucedem-se com tal ritmo e tal grau de intensidade que a bomba atómica de ontem amanhã já soa a simples riscar de um fósforo amorfo sobre a lixa da caixa.
Ora, hoje que os analistas se multiplicam como o bolor sobre cacos velhos em sórdido saguão, não faltam as dissecações sobre o fenómeno, numa quadrupla diferenciação:
Informador; Substância da informação; Meio e modo da informação; Informado.
O primeiro é quem dará corpo à imagem do acontecimento que se quer levar ao leitor, ao ouvinte, ao espectador…
Figura importante, porque, sem ele, o acontecimento não o era, sofre de limitações e influências várias, que a pluralidade dos órgãos de informação não elimina, embora atenue.
Assim, a substância da informação é o produto da interpretação, nunca totalmente isenta por limitações do próprio ou do meio, feita por um informador, ao serviço dum industrial ou se se preferir duma indústria de informação.
E, mesmo naqueles casos em que não há deformação voluntária do sucedido, pode não se dizer nada que o informador não tenha sentido, mas visto pelo ângulo e limitações deste.
O trânsito informador-informado reveste-se hoje duma enorme capilaridade com fugas intencionais ou não e com as deturpações, umas vezes decorrentes das dificuldades de transcrição, outras da nossa natural inclinação para a tudo darmos um cunho pessoal, outras e estas são as mais perniciosas, porque previamente encomendadas.
De modo que ao informado só chega aquilo que ao detentor dos meios de informação – e a grande está sempre ao serviço do capital vagabundo e anónimo – interessa.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Quem ouvir perorar um prócere da chamada democracia representativa, de que são Eminencias os nossos actuais políticos não pode deixar de ficar impressionado com o número de vezes que é invocada a pureza do ideal, número só igualado no labéu execrado sobre os rivais, cultores da demagogia, ou pelo neófito populismo, a caracterizar tudo o que eles não querem dar ao povo…

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaDe modo que pela sucessão de repetições, o primeiro conceito se esvazia, esvaziando também os outros dois.
Mais, a democracia assim pregada acaba por confundir-se com a demagogia.
E os projectos de realizações em que se empenham acabam por redundar em culto ao populismo.
Acentua-se, por essa via, o caracter céptico da democracia representativa, que tem já o pecado original de ter nascido num tempo céptico, que fazia gala da sua falta de fé e que tudo relativizava.
Tal democracia ignora a verdade cuja procura confia a uma lei do número, que nem o é.
Por, logo à partida se cercearem as possibilidades de escolha – vício de que padecem todas as versões de democracia, ultimamente propiciadas.
Que na democracia popular é cerceada por um dogmatismo, que se não pode questionar e se traduz na deificação do chefe e que nas democracias capitalistas se consubstancia no confisco do poder pelo Capitalismo vagabundo e anónimo, que não consente mais do que um simulacro de escolha.
E sem o rei com o seu conselho e o povo sem os seus estados, dificil será enfrentar esta nova feudalidade que tira todo o sentido à verdadeira democracia.
Com efeito, esta que agora se vive em Portugal resume-se à possibilidade de votar nuns tantos caixeiriotes do Capital ou nuns sobreviventes da teoria marxista.
Esta democracia é igual à que os governos afro-asiáticos, logo a seguir à troca forçada de colonizadores, concederam aos seus povos.
Que os líbios irão ter agora, cheios de saudades de Kadafi.
Que os iraquianos vêm sofrendo depois de libertados de Sadam.
Conceder direito de voto – condicionado às escolhas não se sabe de quem – é fácil.
Estabelecer uma DEMOCRACIA PLENA é muito mais complicado, e não está nos planos dos nossos próceres, por mais que tentem convencer-nos da pureza de suas intenções. É que invocam uma legitimade que perderam no momento em que renegaram os programas com base nos quais foram eleitos.
A eleição é um contrato sintagmático. Se uma das partes falha, o contrato cessou.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Os Estados Unidos representavam, a meio do século passado, o éden das liberdades. Inversamente, a União Soviética – ainda não se adivinhava sequer a PERESTROICA e o estalinismo ainda era a regra – simbolizava o inferno de todas as opressões.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaE, no entanto, o congressista WAYNE MOSER, famoso pela sua análise dos problemas da grande política, não se coibiu de proferir na sua Câmara, esta sensacional declaração:
«A imprensa americana não leva ao conhecimento do povo americano senão aquilo que lhe interessa que o povo leia – situação que não difere do que se passa na Rússia com os leitores do Pravda.
Na Rússia, o governo fá-lo através dum único instrumento. O seu órgão oficial e oficioso. Entre nós, por uma multiplicidade de meios, manejados por um poder oculto, mas todo poderoso.
A nossa opinião pública está muito mais condicionada do que a russa, pois estes sentem que estão a ser enganados e naturalmente criam anticorpos de defesa.
E nos confiantes na liberdade de opinião não desconfiamos sequer que vivemos numa demoplutocracia, onde todo o poder reside em grupos de pressão, onde o dinheiro é todo-poderoso, o detentor mesmo de todos os poderes.»
Ora,o diagnóstico está desde há muito já feito.
Hoje, escrevia já há mais de meio século SERVAN SCHREIBER, na Inglaterra, na França, na Alemanha, países que se afirmam como perfeitamente democráticos, o principal factor de intervenção é o poder do dinheiro, nas suas múltiplas e multiformes modalidades – os grandes «trustes» industriais, os bancos, as petrolíferas, todas as estruturas monopolistas.
Fabricantes da opinião pública, fabricam obviamente os detentores dos orgãos de soberania, que, obviamente também só mandam porque lhes obedecem.
O «Big Brother», de GEORGES ORWELL, prova caricaturalmente como os media podem criar do nada uma personalidade que depois podem fazer eleger para qualquer cargo, de domínio universal, até…
A propaganda torna-se, por esta capilar acção, o elemento determinante da formação e deformação do espírito e das vontades.
Lançam-se políticos como se lançam vedetas do cine ou até marcas de iogurtes.
Prefabricada, a opinião pública cria uma vontade também prefabricada.
E lutar contra tão asfixiante corrente pressuporia que se dispusesse de armas iguais – igual domínio na imprensa, na rádio, na televisão…
Como isso requereria igualdade de meios financeiros, a luta só pode ganhar-se a nível da consciência de cada um, mantendo-a indemne a manobras de perversão.
A velha parábola evangélica de que a árvore se conhece pelos seus frutos é uma felicissima expressão da sabedoria das nações.
O empirismo organizador não é, queira-se ou não, mais do que o nome dado à experiencia, que, no caso, nos tem de levar a uma atitude fortemente crítica, do que se pretende fazer passar por opinião pública.
O vocábulo candidato radica em cândido.
A cor da túnica com que o pretendente a cargos públicos se pavoneava entre as multidões, fazendo-se passar por imaculado, ainda que tivesse alma de Catilina, era já prenúncio destas arremetidas de hoje.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Colonizado inicialmente pelas lojas de Londres, o GRANDE ORIENTE passou depois a colonizador.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaE até à Revoluçao Russa de 1917, controlou totalmente as forças revolucionárias de todo o Mundo e em todo o Mundo.
As revoluções da América do Sul, da Espanha, de Portugal e de vários países da Europa Central, são exclusiva e unicamente de inspiração macónica.
A revolução que em 1917 derrubou o Czar foi, por igual, obra da Maçonaria.
Kerenski era mação.
Certamente que sem querer, pois acabaria por ser esmagado por eles, abriu as portas do poder aos comunistas.
O que também veio a suceder na Hungria, onde o mação Karoly foi engolido pela revolução comunista de Bela Kan.
Lenine, porém, viria a declarar a incompatibilidade entre ser comunista e pertencer a uma loja maçónica, instituição muito burguesa.
Mas criaria uma instituição ainda mais hermética e misteriosa — a célula comunista, clandestinamente espalhada por todo o orbe terráqueo, se é que não também pela lua.
Os inimigos já não são apenas o TRONO e a IGREJA DE ROMA.
Mas todo e qualquer governo não leninista e toda e qualquer crença religiosa, pois todas são, segundo ele, incompatíveis com as teses do marxismo.
No momento presente, as diferenças essenciais ter-se-ão esbatido.
Mas não cessou ainda o confronto entre as lojas de inspiração britânica e o GRANDE ORIENTE, francês, antitradição e anticatólico.
No consulado de Salazar, as diferenças foram essenciais.
As lojas inglesas não sofreram restrições. E membros seus tiveram assento em vários cadeirões ministeriais, nos governos de Angola e Moçambique, na intimidade com Salazar, cujos médicos assistentes eram comprovada e até declaradamente mações à inglesa.
Numa encíclica que se tornou famosa — a ECCLESIAM SUAM — Paulo VI, na esteira aliás do APÓSTOLO DAS GENTES, realçava a impossibilidade de aliança entre a Luz e as trevas.
E o secretismo das lojas é a quintessência das trevas.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

As lojas maçónicas do Continente Europeu, todas elas de raiz francesa, sempre se caracterizaram como revolucionárias, antimonárquicas e ferozmente inimigas da Igreja Católica, particularmente das suas Hierarquias.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaTudo isto tem uma explicação.
Da Inglaterra, as lojas maçónicas passaram aos outros países, com uma dupla missão — alargar o seu campo de influência e potenciar o expansionismo britânico.
Ora, a grande rival do Reino Unido, continuava a ser a França, ao tempo a competir com ela nos Cinco Continentes.
As teorias dos enciclopedistas facilitavam o caminho.
Assim, Montesquieu e o Marquês de Sade foram iniciados na mesma tarde — dia dezasseis de Maio de 1730 – e na mesma loja — TAVERNE DE HORN, em Westminster.
O movimento tocava profundamente até o alto clero e a mais histórica aristocracia, que, inconscientemente e por uma questão de modas, estavam a potenciar uma queda que já se divisava.
O monarca, que, ao tempo, era Luís XV, desconfiava desta nova forma de associação de raiz britânica. Achava bizarro que os sócios das lojas cultivassem o secretismo, ou mesmo o mistério. E tenta combatê-la, luta difícil dado o secretismo da instituição, que só os irmãos tidos como absolutamente seguros, dominavam.
E de sucesso em sucesso, o movimento cria o GRANDE ORIENTE, dominado por Voltaire. A ideia continua em expansão e chega às familias reais aderentes ao protestantismo que viam nela um poderoso instrumento de luta contra a Igreja Católica, cujos bens queriam confiscar.
Foi o caso do imperador sueco Gustavo Adolfo e de vários dos cerca de quinhentos príncipes alemães, que pretendiam reforçar os seus erários, naturalmente magros pela pequena dimensão dos seus estados com os patrimónios objecto de confisco.
Reexaminando o caso francês, veremos que a Revolução de 1789, a histórica Revolução Francesa, foi basicamente uma vitória do GRANDE ORIENTE e, em particular, da LOJA DOS SETE IRMÃOS.
O primeiro círculo republicano na França foi a loja LA BOUCHE DE FER.
Era contra o Rei e a Igreja que os maçons lutavam, esperando apenas o momento favorával para derrubar o trono e o altar.
E a sua implantação avançara tanto que nos ESTADOS GERAIS de 1789, dos seiscentos e cinco representantes do TERCEIRO ESTADO, dito POVO, quatrocentos e setenta e sete eram franco-maçons.
A Inglaterra parecia ter razões para estar contente.
Caída a Monarquia, a França iria cair em sucessivas convulsões e deixaria de poder apresentar-se como competidora no domínio do Mundo.
Mas com a irrupção do Bonapartismo irfa pagar caro a exportação do credo maçónico.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Constituída, a loja maçónica elegeu um grão-mestre, tendo a escolha recaído num tal ANTHONY SAYER, que os historiógrafos classificam de pequeno burguês de mediocre inteligência e baixo índice cultural.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaSobressaíu, por isso, um simples irmão, pastor protestante francês, exilado em Londres, que deu à instituição o carácter de sociedade de PENSAMENTO LIVRE.
Este, de nome DESAGUILIERS, estabeleceu um código — AS REGRAS E PRECEITOS — que, exactamente pela nova estrutura da sociedade, basicamente de especulação sócio-filosófica, rompia com os antigos manuais da MAÇONARIA ESPECULATIVA, de base católica, consequentemente, à velha fórmula, «irmãos e respeitados e amados amigos, eu vos conjuro para honrar deus, a santíssima trindade e todos os santos, anjos, arcanjos, principados e potestades, na sua Santa Igreja sem jamais nos deixarmos aliar a qualquer heresia, cisma ou erro», contrapunha-se agora o princípio de não vincular os filiados a seguir qualquer religião, revelada ou não, pois visava-se criar uma verdadeira fraternidade de caracter universal.
Eivada das teorias do ainda recém aparecido PROTESTANTISMO, esta proclamada liberdade de pensamento dissimulava um ataque à IGREJA DE ROMA, CATÓLICA E APOSTOLICA,
No Reino Unido, o ambiente era-lhe cada vez mais propício até pela adesão da Casa Reinante ao LUTERANISMO.
A política dos HANOVERS coincidia, ponto por ponto, com o espírito que animava a GRANDE LOJA, na sua luta contra os BOURBONS, aliados do CATOLICISMO.
É assim fácil compreender que o trono e a maçonaria se prestam reciprocamente serviços.
Que a alta fidalguia se torna maçónica e que os GRÃO-MESTRES passam a ser Membros da FAMÍLIA REAL ou mesmo os próprios soberanos.
Relacionada com o poder, vem a ser também a Maçonaria Estadunidense, fundada pelos futuros presidentes Washington e Franklin, e cujas lojas se manifestaram sempre contra a Igreja Católica, tentando mesmo impedir o estabelecimento de relações diplomáticas com o Vaticano.
Enfim, na Comunidade Britânica, é perene a aliança TRONO-LOJAS, cantando-se nesta o DEUS SALVE O REI ou A RAINHA, consoante quem se senta no régio sólio.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

As origens da franco-maçonaria, instituição para uns venerada e veneranda, para outros figadalmente abominável e para a maior parte ou desconhecida ou enigmática, são marcadamente obscuras, e não só para os profanos, o que será compreensivo, mas até para os mais fiéis dos seus membros, o que, isso sim, será de estranhar.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNesta indagação às origens, há quem vá até ao Egipto de Ramsés, quem pare em Roma pela casa de Plínio, quem se quede nos Templários ou mais perto do nosso tempo nas Rosas-Cruz…
Mas a verdade é que a FRANCO-MAÇONARIA propriamente dita, como nós hoje a conhecemos, nasceu em LONDRES, asseguram os seus cronistas, na data, relativamente próxima, de vinte e quatro de Junho de mil setecentos e dezassete.
Ao tempo, ou mais concretamente já desde os fins do século anterior que uma grande agitação político-filosófica varria o Reino Unido.
Questões relacionadas com o Luteranismo, o Calvinismo, enfim, a Reforma e Contra-Reforma levaram à irrupção de um incontável leque de clubes filosóficos, onde os auto-intitulados pensadores livres se empenhavam em procurar a verdade.
Politicamente, vivia-se o mesmo fervilhar, com o climax da luta entre os STUARTS e os HANOVERS.
BERNARD FAY, no livro La Franco-Maçonnerie et la Revolution Intellectuelle du Seisiéme Siecle, escreveu: «La capitale anglaise fourmille de clubes de toutes sortes, dans l’arriére boutique de chaque taverne des conciliabules se tenaient chaque semaine. Parmi ces sociétés, celles des maçons».
Antes, a organização corporativa do trabalho tinha dado origem a uma hierarquia onde aprendizes, oficiais e mestres se transmitiam reciprocamente os segredos da respectiva profissão com muita solenidade e muito mais ainda de mistério.
Passara a época da construção das grandes catedrais, o que não trouxe o fim das associações de pedreiros, todavia decaídas em número e projecção.
Na já populosa Londres dos começos do século dezoito, só restavam quatro.
Foram os representantes dessas quatro superstites que na já referida data de 24 de Julho de 1717 reuniram para dar nova vida à ideia.
Tratava-se de, utilizando a simbologia das históricas associações de pedreiros, organizar uma entidade que visaria um mundo novo, porque assente em novos princípios.
A terminologia profissional adaptava-se perfeitamente aos intentos. Construir é a missão de arquitectos e pedreiros, concomitantemente, todos os instrumentos da arte… esquadro, compasso, martelo, bolha de nível e até a indumentária podiam exercer uma enorme força simbólica….
E aquilo que hoje se nos afigura bizarro, ou até um pouco ridículo, coadunava-se perfeitamente com os gostos, o espírito da época e até os fins dos fundadores daquele movimento de ideias, que se iria chamar MAÇONARIA ESPECULATIVA, por oposição à MAÇONARIA OPERATIVA, que fora a dos construtores de catedrais.
É esta a certidão de baptismo da GRANDE LOJA DE INGLATERRA, segundo o politólogo JACQUES PLANCARD D’ASSAC, cuja licão extraída do livro Critique Nacionaliste, vimos seguindo de perto.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Como as pessoas também as palavras têm o seu destino, engrandecendo-se umas, vilipendiando-se outras, mantendo a pureza e simplicidade iniciais a maioria.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaDe entre as caídas no turbilhão do descrédito, nenhuma terá sofrido mais tratos de polé que o lateronem, o grande escriba que assessorava os monarcas e deu o étimo para ladrão.
Inverso foi o caminho de minister, que à nascença referenciado a moço de recados, serviu de basse à alta dignidade que hoje são os ministros.
Hoje pretendemos ocupar-nos de terminologia política.
Quando o exseminarista georgiano, de nome DJOUGLAVITCH, ao tempo simples filiado num insipiente partido de base operária, onde era conhecido por camarada cartucheiro, alcunha devida à sua função de controlador de ficha, resolveu adoptar o epíteto de ESTALINE, ninguém imaginaria a enorme difusão do termo em todas as línguas do mundo, civilizado, incivil ou em vias de acesso à civilização.
Embora sua mãe, quando confrontada com o assombroso poder que ele detinha repetisse que seria bem melhor que ele tivesse sido padre, a verdade é que nenhum homem até agora dominou tão larga parte do Planeta Terra e teve tanta influência nos países fora da Cortina com que fechara a sua satrapia.
A palavra bolchevique teve, por igual, um nascimento discreto e até nunciador de pequenez, de grupo minoritário.
Tratava-se de uma discussão entre aparachiques, com duas propostas de cuja votação sairam vencedores, porque maioritários os mencheviques, e vencidos, porque minoritários, os bolcheviques.
Mas os vencedores foram varridos da Historia e os seus chefes imolados nas sucessivas purgas do Cartucheiro, e a palavra BOLCHEVISMO passou a designar o comunismo oficial.
Aliás a revolução russa e as suas sequelas levaram à introdução no vocabulário comum de um elevado número de termos, inicialmente de muito reduzido significado.
De KERENSKI, governante moscovita que tomou o poder logo na sequência da queda dos czares, adveio o querenquismo, designativo de sistemas políticos de transição e transigência, que podem abrir — e muitas vezes abrem — a porta para inenarráveis tragédias.
E, já que falámos de czares, aproveitamos o ensejo para realçar a extraordinária difusão do terceiro nome de CAIO JÚLIO CÉSAR, que foi imperador de Roma, depois de uma extraordinária carreira militar e literária. O nome, que até teve reflexos nos partos de barriga aberta, tecnicamente chamados CESARIANAS, por César ter nascido assim, passou a designar, adaptado às diversas prosódias, os diversos titulos imperiais — o já referido czar ou ntzar para as Russias, Kaiser para as Alemanhas, cesário para as línguas latinas.
Ou cesarismo para o poder político em oposição ao religioso, ou fundindo-se com ele — cesarismo ou cesaro-papismo.
Voltando à Revoluçao Russa, diremos que raros acontecimentos, por si e as suas sequelas, terão tido tão grande impacto no léxico político.
A Revolução Francesa teve muito menor impacto. E a sua maior influência, nos domínios da linguística, foi certamente o significado atribuído aos termos esquerda e direita, que resultou do facto de, em Julho de 1789, os membros da Contituinte, defensores da autoridade real tomarem assento no lado direito da Assembleia, para o outro lado os seus adversários.
Mais tarde um outro termo nasce e se impõe, o BONAPARTISMO, radicado na autoridade de Napoleão, que tendo partido da revolução de botas e capacetes veio a significar autoridade baseada no poder militar.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

No remanso das férias, reli um livro muito do meu agrado – LES CRUZADES, de ZOÉ OLDENBOURG. E retive-me num capiítulo que reputo sempre actual, até porque objecto de permanente controvérsia e se relaciona com o uso do latim nas cerimónias religiosas.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaA língua da Igreja, ao tempo das cruzadas era o latim, qualquer que fosse o Pais, latino ou não latino.
Na língua do Lacio se celebravam todos os ofícios, estavam escritos o Novo e o Velho Testamento, os ensinamentos dos Doutores, o formulário das devoções.
Ora a verdade é que, mesmo em Portugal, na Espanha, em França, na Itália ou na Roménia, os estados de idiomas neo latinos, novente e nove por cento da populaçao não fora sequer iniciada na sua aprendizagem.
De resto, nem mesmo o clero, genericamente analfabeto, mau grado o papel das escolas monásticas,dominava aquela língua.
E, no entanto, embora lhe fosse áacil traduzir para os idiomas nacionais textos, comentários e orações, defendeu energicamente a exclusividade.
A autora sustenta que, sendo uma instituição supranacional – e não é outro o significado do qualificativo CATÓLICA, o latim lhe conferia em alto grau uma unidade interior.
A esta luz, a persistência pelos séculos dos formulários latinos não deve ser entendida como uma sobrevivência dum certo constantinianismo, mas como a preservação daquela sua característica essencial.
A universalização da língua, falhado o esperanto, faz-se hoje pelo inglês.
O que seria impossível quando Balduino de Borgonha – de BORGONHA, como a nossa primeira casa reinante e a segunda leonesa – simples Conde de Edessa, chegou a Jerusalém para ali se sagrar REI LATINO, sentando-se num trono que fora o de David e Salomão.
Naquele tempo, a religião era inseparável da política.
Um homem de estado, fosse qual fosse a nação, não podia empreender qualquer acção importante, sem previamente a justificar do ponto de vista religioso.
Não se tratava de demagogia, mas de um imperativo moral, universalmente reconhecido – DEUS O QUER – gritavam os cruzados.
A nossa intenção, proclamava o Infante Dom Henrique, é ALARGAR A SANTA FÉ DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO E TRAZER A ELA TODAS AS ALMAS QUE SE QUEIRAM SALVAR.
Os interesses materiais de qualquer estado, embora marcados pelo carácter do transitório não se imagimavam para além dos mobeis religiosos que não podiam beliscar.
Os homens deviam ser encaminhados e não arrastados para o templo…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

O negócio é o contrário do ócio, ou seja a negação de intervalos para repouso. O verdadeiro homem de negócios, até trafica quando dorme.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaRepare-se que a palavra traficar começou por ter um sentido honrado e honroso, pois literalmente queria dizer – mudar uma coisa de que se tem abundância e não se necessita ou quer para uma comunidade ou uma simples pessoa que dela carece.
O negociante não tem intervalos em que suspenda a sua actividade e a mesa, da mais desprovida tasca de mercado rural ao mais requintado hotel da mais cosmopolita metropole é o seu terreno ideal.
E não se desperdiçam oportunidades, pelo que não causa admiração que a instalação de Balduino no trono de Jerusalém tenha dado lugar à primeira plutocracia de âmbito intercontinental e supra-racial.
Em matéria de negócios não se distinguiam raças ou civilizações.
Nao importava que a contraparte fosse um turco, um grego, um pagão.
E um mercador de Veneza entendia-se melhor vg com um egiípcio de que com um genovês ou pisano.
Chegou a acontecer que os comerciantes italianos de Antioquia continuassem a abastecer Tiro e Sidoniam, rompendo o cerco feito a estas duas cidades por tropas cruzadas que também integravam pisanos, genoveses, venezianos.
O que os trouxera á Palestina, foram meramente as perspectivas de lucro, não lhes passando pela ideia considerar sua nova pátria o Reino Latino ou arriscar bens em defesa do Santo Sepulcro.
Isso era para os que se haviam deslocado por motivos religiosos, para os barões e populares que haviam sentido o apelo das cruzadas, pessoas para eles mais estrangeiras e incompreensíveis que os comerciantes muçulmanos.
No que, aliás, não se diferenciavam dos plutocratas de hoje, os oligopolistas apátridas que com eles também hipotecam o futuro ao dia de hoje.
Então como agora as dissensões entre cristãos foram nefastos para todos.
O conflito de influências entre o OCIDENTE LATINO e BIZANCIO que culminou no desaparecimendo do IMPERIO ROMANO DO ORIENTE, com reflexos terrivelmente dramáticos para a civilização ocidental.
Mas os príncipes cristãos haviam preferido sacrilegamente UM MONARCA DE TURBANTE Á MITRA CONSTANTINIANA.
O Ocidente Latino ,em nome de um incompreensivel realismo político, deixava ao Islão o domínio do Mediterrâneo Oriental, depois de ter ajudado a destruir a única potência cristã realmente interessada em deter o avanço turco.
Depois, a História repetir-se-ia.
No fim da Primeira Guerra Mundial, os vencedores expulsam a Alemanha de África, o que se repete com a Itália em 1945…
Finalmente, serão todos os paises europeus – França, Espanha, Reino Unido, Bélgica, Dinamarca, Portugal, que, minados no seu próprio interior, abandonam os impérios que pelos séculos haviam construído.
E tudo, como quinhentos anos antes, pelas querelas de uns e a insaciável sede de lucros de outros.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A concepção teocrática do poder é naturalmente a mais antiga e também a mais lógica.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaPara a Igreja Católica, o monarca, simples criatura de Deus, como qualquer outro homem, exerce legitimamente o poder enquanto servidor da mesma Igreja.
A soberania seria delegada por Deus na Igreja que, por seu turno, a delegava, numa casa reinante.
Assim se entendeu por toda a Europa Medieval, sendo indiscutivel que o Papa fora colocado por Deus acima dos reis e dos povos.
O conflito estalou quando Filipe-o-Belo, rei de França, declara que recebera o reino e o trono directamente de Deus, pelo que não reconhecia qualquer dependência face a Roma.
Bento VIII, que ao tempo se sentava no solio pontifício, lembrou-lhe que os reis só através da Igreja legitimam o poder, que só delegadamente exercem.
Esta divergência de concepções que se agitou nos anos de transição entre os séculos doze e treze da nossa era, passou a marcar, perturbando-o, o clima de relações entre as duas autoridades.
E sem vantagens para qualquer delas.
Mas, concitando a atenção de santos e sábios, São Tomás de Aquino ensina que se deve distinguir entre a essência do poder e o uso que dele se faça.
A essência é divina, o uso é do homem, que o pode exercitar bem ou mal, sendo certo, acrescenta o santo doutor, que só obriga a obediência o poder exercido com vista ao bem comum – em prol do comum, passou a consignar-se nos textos.
E, porque o pecado original nos tornou naturalmente maus e tendentes à desobediência ou mesmo à anarquia, torna-se necessário erigir um poder que assegure a ordem e proteja o fraco contra o forte.
Daí a necessidade dum governo.
Que governo?
A MONARQUIA
Dirão uns, porque:
I – é o regime mais natural – o mundo começou por ser governado por monarcas;
II – é o mais duradouro – as repúblicas só muito tarde se conseguiram afirmar e habitualmente por períodos curtos;
III – é o mais estável – durando toda a vida do soberano;
IV – é o mais barato, dispensando eleições e o pagamento de reformas, que têm de ser dignas da condição de ex-chefe de estado e portanto vultosas;
V – o que melhor e coaduna com o poder espiritual da Igreja Católica, praticamente a única com implantação em Portugal;
VI – os monarcas, educados catolicamente, têm uma mais perfeita noção do bem comum.
Poderá fazer-se a abordagem do problema por outras vias.
Um governo de sábios, preconizado pela Maçonaria, que abriu a porta, numa primeira fase á democracia igualitária de Rousseau, depois ao sectarismo jacobino, depois às varias utopias, a mais terrível de todas foi o marxismo-leninismo.
O problema de base é sempre o mesmo – a melhor concatenação do poder com a natureza humana – não o homem inocente, de Voltaire, nem o homem lobo de Hobbes.
Ora, a História mostra-nos que, no tocante a formas e métodos de governo se oscila indefinidamente entre a necessidade de reforçar o Estado para submeter o indivíduo ao interesse geral, e uma necessidade, igualmente imperiosa, de proteger o indivíduo dos abusos de autoridade, cometidos por outros indivíduos, alçapremados ao poder.
O perigo, o grande perigo, é a prevalência duma força, não controlada por razões morais, vício de que não podem sofrer as monarquias católicas.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Platão critica violentamente o regime democrático, porque incompatível com governantes que governem e governados que se deixem governar.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaOs primeiros, tolhidos pelo temor de estarem permanentemente a ser postos em causa pelos segundos entram facilmente pelos caminhos da liberalidade, que conduz à asfixia económico-financeira, e da desresponsabilização que leva à anarquia.
O tempo de vacas magras que inevitavelmente se sucede ao do abate das vacas gordas leva a que os governados reclamem por um protector em vestes de senhor absoluto.
A democracia, para Platao, é autofágica, tendo por limite temporal uma digestão colectiva.
Por sua vez, Aristóteles tem uma atitude mais empírica para com as formas de governo, boas ou más, não em si próprias, mas segundo as circunstâncias.
Assim, a monarquia só se imporá se o soberano se distinguir pelas qualidades pessoais que o exornem, necessariamente postas ao serviço não dele próprio, nem de determinadas categorias dos seus subditos, mas do bem comum.
A aristocracia, excelente como governo dos melhores, pode degenerar se aprisonada pelos oligarcas, que, à virtude sobrepoem o lucro. E de degenerescência em degenerescência, acaba por cair na plutocracia, quintessência das tiranias, mas apresentada pelos media, que domina, como ao serviço do povo.
E o povo ingenuamente acredita
Montesquieu introduz no sistema um elemento novo – o clima – vocábulo que exprimirá o conjunto das condições, não apenas geográficas, mas históricas, económicas, financeiras, sociais, educacionais do povo a governar.
Princípios que os descolonizadores e as potências ditas anticolonialistas, mas que, todavia, não passam de aves de rapina sobre os descolonizados, nunca tiveram, nem têm em linha de conta.
A esta luz, um mau sistema político é o que favorece os vícios do clima, pactuando com eles.
Inversamente, será bom o que se opõe a tais vícios, atenuando-os ou, se possivel, eliminando-os.
Tarefas estas impossiveis num sistema democrático em que o povo é simultaneamente governante e governado.
Marx resolve o problema destacando do povo uns tantos iluminados que governarão.
Não difere a solução de Servan-Schreiber, a não ser no critério de escolha.
Marx confia o poder aos inimigos do lucro.
Servan aos idolatras do lucro, nem que este provenha do logro, sua depravação.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Segundo os tratadistas – por todos o politólogo francês Jacques Ploncard D’Assac – cuja lição consignada na obra «Critique Nacionalite» estamos seguindo de perto, a ciência política resume-se no essencial às relações entre aqueles dois sujeitos – indivíduo e estado.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaO indivíduo é cada um de nós, com necessidades e desejos, certezas e sonhos.
O estado, criação humana, desejamo-lo suficientemente forte, para nos proteger a nós e aos nossos interesses, mas – e um pouco contraditoriamente – tão tolerante que não interfira sequer com os nossos caprichos.
Por isso, a grande pedra de toque de qualquer sistema é o encontrar o ponto de equilíbrio entre o bem comum e os interesses a que cada um de nós se sente legitimamente com direito.
Numa primeira concepção, esse estado é concebido como um intermediário entre a divindade e o povo.
A esta luz, o chefe deve estar de bem com os deuses.
Se o povo sofre derrotas ou calamidades se abatem sobre ele, é porque o chefe está de mal com os deuses, pelo que a solução consiste na escolha de outro chefe.
Mas os condutores não se resignam e transferem para uma parte da comunidade que regem a culpa da divina cólera.
Desde a infância da vida em sociedade que se estabeleceu uma como que antítese:
Os governados a exigir dos governantes a plena satisfação de necessidades reais ou fictícias;
Os governantes a filiarem no pecado ou minime na desobediência dos governados todo o insucesso da acção governativa.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Iniciamos uma nova rúbrica no Capeia Arraiana, da autoria do escritor e pensador Manuel Leal Freire, natural da Bismula, concelho do Sabugal, que nos trará regularmente algumas reflexões de conteúdo político.
plb

JOAQUIM SAPINHO

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