Em Fevereiro de 1948, o dirigente comunista Klement Gottwald subiu à varanda de um palácio barroco de Praga para falar às centenas de milhar de cidadãos aglomerados na praça principal da velha cidade. Foi uma grande viragem na história da Boémia. Um momento fatídico, como acontece uma ou duas vezes por milénio.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaGottwald fazia-se acompanhar pelos camaradas; e ao lado, muito perto, estava Clementis. Nevava, fazia muito frio, e Gottwald vinha de cabeça descoberta. Clementis, muito solícito, tirou o gorro em pele que usava na circunstância, e colocou-o na cabeça de Gottwald. A secção de propaganda fez centenas de milhares de fotografias da cena…
Nesta varanda, começou a história da Boémia comunista. Todas as crianças passaram a conhecer a fotografia, por ela passar a figurar nos cartazes, nos livros escolares, nos museus.
Quatro anos mais tarde, Clementis foi acusado de traição e enforcado. A secção de propaganda fez com que ele desaparecesse imediatamente da Hist6ria e, em corolário, de todas as fotografias…
Temos estado a transcrever as primeiras palavras de Le livre du rire et de l’oubli, do autor Milan Kundera, nascido em Brno, na Checolosvaquia, em 1929.
Livro escrito em 1979, quando o autor é tornado apátrida por decisão do governo do seu País que lhe retira a nacionalidade (a situação de Heimathossen não se revelaria duradoura, porque a França lhe concederá nova cidadania logo em 1981) circula em Portugal em edição, nomeadamente do CircuIo de Leitores.
Ali se retrata uma história sem tempo.
O drama da Checoslováquia sob o regime comunista, ou antes sob o império moscovita não diferia do então vivido pelos chamados países satélites.
Só que para os checos a situação repetia-se, não milénio a milénio, ou à razão de duas vezes por dez séculos, como na obra se refere, mas praticamente todos os dias.
Situada no centro da Europa, e em corolário, no limite dos impérios asiáticos que sempre sonharam com o domínio desta velha alma mater de civilizacões, ou daqueles que, para os enfrentar, se constituiram herdeiros de Roma, acabariam por sofrer o fluxo e refluxo das conquistas oscilando entre a barbaria eslava e o autoritarismo germânico.
O nome de Checoslováquia, usado até aos nossos dias, quando se opera a natural secessão entre duas comunidades que nada tinham a aproxima-las, senão a desgraça e a situação geográfica, revela bem a dicotornia, mais evidente ainda na antítese de culturas.
Desde a cristianização por São Cirilo e São Metodio, desde a accão de reis e rainhas, coma Santa Ludmila e São Venceslau, que se tentara a miscegenação.
Provavelmente, o eslavo e o germânico, por natural contraposição nunca permitiriam a sintese.
Prevaleceria, bem pelo contrário, a impossibilidade lógica que havia de levar a sucessivas intervenções dos poderes da Europa e Anti/Europa, muito mais interessados em manter dependente o território do que em outorgar-lhe, consentir-lhe ou assegurar-lhe uma verdadeira autonomia.
Mesmo quando, como Frederico Barba-Ruiva declaravam a Boémia um reino e lhe concediam um rei, a situação não mudava. O duque Ladislau, com a sua coroa, embora áurea, não passava, efectivamente, de súbito do grande inperador.
E, se o poder real não vinha de um senhor temporal, mas do papa, colocado por Deus acima dos imperadores e dos povas, nem assim o ceptro se considerava soberano e o reino se julgava estabilizado. Foi o caso de Otokar, apesar de ter recebido a coroa através do legado pontifício. Ou da acção da ordem dos Stelifer, humildes servos de Cristo e, todavia, imponentes, com a sua cruz vermelha e a estrela sexpoteada da mesma cor.
A cristianização deste povo de raiz celta, os boios, encurralados entre germanos, não lhes asseguraria um estatuto de independência e os boémios haviam de continuar a sofrer com a vulnerabilidade de fronteiras e o choque de civilizações.
O Sacro Império chegava ao curso inferior do Elba, ao curso médio do Oder, ao Reisengebirge e aos Sudetas.
Por isso, tradicionalmente a Boémia, apesar de povoada por checos, figurava com a sua parcela. E a seu monarca não passava normalrnente de um eleitor, embora grande, mas com o estatuto dos demais.
No plano cultural, já a região se eleva a grande plano. E é no seu coração, em Praga, aliás sua tradicianal cabeça, que nasce a primeira universidade do Império, já célebre quando surgem as de Viena (1366) e vinte anos após (l366) a de Heidelberg…
É este ascendente cultural que vai tornar a Boémia ponto fulcral na reforma protestante, com o cortejo de consequências, a maior parte nefastas para o povo checo.
A independência só lhes chegaria com os tratados que puseram fim à primeira grande guerra, criando-se, assirn, a Checoslováquia que, para além do núc1eo central, abrangeria rambém a Moldávia e a Eslováquia, sem tradições de autonomia, mesmo no plano cultural.
O pangermanismo de Hitler tornaria éfemera a vida da nova repíblica, que privada de parte do território em 1938, com a charnada anexação dos sudetas, viria a ser totalmente ocupada logo no ano seguinte.
A invasão russa apenas fez mudar o nome do opressor e só nos nossos dias houve retoma da independência, seguida aliás da divisão em dois estados: a República Checa e a Eslováquia…
Permita Deus que acabe assim o dilacerante drama que ali ciclicamente se vive.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Advertisements