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Acabou aquele ano escolar e prantei-me em casa no Vale da Senhora da Póvoa com metade do 5ºano de Letras feito e logo com média de 15 valores, conseguido no difícil Liceu da Guarda. Foi um feito do caraças!

José Jorge CameiraAs minhas tias e o meu Padrinho ficaram todos contentes, porque assim eu já tinha DIPLOMA suficiente (disseram todos) para me empregar na Câmara Municipal de Lisboa, com a cunha do Dr. Jaime Lopes Dias. De certeza também contentes porque o pestinha da casa ia para Lisboa empregar-se…
Não sei o que aconteceu, mas o meu Padrinho decidiu que continuaria a estudar, pelo menos tentar tirar o resto do 5º ano….
E não só! O meu Padrinho presenteou-me com CEM PAUS! Até me lembro que o meu coração pulava de contente por ter tanta massa…
No outro dia de manhã fui apanhar às 8h30 a camioneta da carreira que me levaria ao Sabugal, onde tinha alguns amigos.
Fui à Vila porque queria comprar um presente a mim mesmo, por ter feito TAMANHA façanha escolar. Aliás ainda hoje costumo oferecer um presente a mim mesmo quando faço qualquer coisa especial e de valor… incentivo-me, entenda-se!
Comprei no Sabugal um belo facalhão, do tipo que o David Crocket usava para explorar a floresta canadiana no Séc. XVIII. O punho tinha tiras de cabedal enrolado, parecia encerado e desenroscava-se um botão de onde saíam anzóis, fios, botões, eu sei lá o que mais! E a lâmina? Brilhante, aço puro, com uma serrilha que até metia medo…
Era com esse punhal que eu me pavoneava pela aldeia, todos queriam tocar, mexer, invejava. Um dos quais mais gostava desse brinquedo era o moleiro, recém-chegado à Aldeia e que moía as sementes na Moagem a seguir ao Lagar do Dr Jaime…
O moleiro às vezes pedia-me emprestado o garboso objecto e em troca emprestava-me a sua bicicleta, do tipo chocolateira das mais recentes… até já tinha farolim! Eu passeava-me pela Aldeia, ia até ao recinto da Senhora da Póvoa, à Serrinha, subia à Fonte Santa… ah se eu adorava pedalar naquilo! Com esses passeios até fui descobrindo onde havia meloais, árvores carregadas de frutos… bem, essa é outra estória!
Num desses dias o Ângelo, que é Cameira como eu, chamou-me e fez-me uma proposta.
Mas antes de escrever qual foi, devo dizer que o Ângelo era e é figura muito estimada no Vale da Senhora da Póvoa, era o acordeonista que – a troco de trezentos paus – alegrava a juventude nos bailes organizados nos domingos entre as 15 e as 19, hora que tocava o sino da Igreja para chamar as pessoas para o terço e as mães levantavam-se dos mochos num ápice e gritavam às filhas:
– Mariaaaaa, vamô bóra pó terço…
Elas bastante contrariadas lá iam, embora puxadas pelas mãos suadas da rapaziada que não as queria deixar ir…
Uma vez o bailarico acabou bem mais cedo que as 7 horas. Nesse domingo o baile fez-se na eira detrás da Escola Primária das raparigas, frente à casa do Zé Nabais e do Ângelo. Embora já tenham passado mais de 50 anos ainda me lembro: de um lado a formação alinhada de toda a rapaziada já salivando e em frente separado pelo cimentado da eira, o grupo das raparigas de pé, com os seus vestidinhos e lenços na cabeça, ao lado das mães já sentadas nos mochos, aqueles bancos feitos de folhas de cortiça.
Enquanto o acordeonista, o Ângelo, não se aprontava para iniciar o bailarico, alguém da rapaziada mostrava a todos uma erva com minúsculos frutos em forma de coração que continham dentro umas quase microscópicas sementes. Era a erva-caralheira.
– Cuidado, elas para obrigarem um gajo a casar, oferecem uma maçã onde fizeram uns buraquinhos e metem estes grãozinhos que nos «hipotenizam»…
Naquele tempo, lembro-me, também se falava muito nas «sopas amarelas» que tinham os meus objectivos: obrigar um rapaz a casar…
A rapaziada nesses anos de 1965 e tais andava toda pelos 16, 17 ou mesmo 18 anos. No grupinho das raparigas havia uma especial: era a Sílvia (nome fictício), com 25 anos, vinha de Lisboa para férias no Vale, corpo roliço e bem feito, mesmo de longe exalava aquele perfume natural de fêmea pronta. Todos deitavam o olhinho naquela mulher inatingível! E a dançar era um regalo vê-la e quando soprava um ventinho amigo, as formas do seu corpo desenhavam-se à frente e atrás!
Ninguém se atrevia a convidá-la para dançar. Entre todos desafiávamo-nos a ver quem se atrevia a tal. O Tó, talvez com um copinho a mais, disse-nos:
– Aqui não há mas nem meio mas, vou eu mesmo, a gaja não me há-de dar porrada… e se der logo se vê!
Perante a nossa aflição, foi direito a ela, com ar gingão, atravessou a eira de mãos nos bolsos, sabe-se lá segurando o quê. Foi assim o curto diálogo, que se ouviu bem porque fez-se silêncio total.
– Ó Silvia, vamos a batê-las?
– Contigo? Eu cá não danço com garotos! Era o que faltava e respeitinho, ouvistes?
– Eu, garoto? Olha bem para isto tudo e vê lá se eu sou um garoto?
De repente baixou as calças até aos joelhos, mostrando a fruta ornamentada com grandes e fartos pêlos negros! Sem ceroulas, porque ninguém ia aos bailes com entraves desses… liberdade total de gestos, cum catano! Tinham de sentir nos tangos tocados pelo Ângelo que éramos machos ….
Foi o CAOS completo! As mães começaram a gritar, fingindo tapar os olhos com o xaile, benzendo-se e beijando a cruzinha do Jesus, chamando pelas filhas, pegando nos mochos, arrastando as saias, levantando o pó da eira, clamando «aqui d’el rei»:
– Vamos embora, filhá, tá aqui o demónio, cruz canhoto, ta renego…
Acabou o baile com esse alvoroço e nós rindo com um misto de gozo malandro e chateados porque a esfrega da semana nem sequer começara!
Lembro-me de termos comentado todos com o Tó:
– Sabes o que fizeste? Esta noite as mulheres da aldeia não vão dormir por tua causa… não é todos os dias que elas vêm disso…
Quando o baile era junto ao Chafariz, é claro que o Ângelo lá em cima naquela varandinha onde tocava ia topando os esquemas todos, quem se encostava mais, quais as moças que deixavam ou não deixavam «achegar-se»…
Uma vez chamou-me após terminar uma moda:
– Ó Zé Jorge, essa tua sorte, olha que eu vi a Francisca (nome fictício) agarrar a tua mão e pô-la no sobre a blusa dela…
Doutra vez fizemos um baile ao domingo fora dos lugares habituais – o Ângelo sentou-se numa cadeira com o seu acordeon no meio daquela rua a subir para a Igreja. Depois da minha casa, quem desce, a primeira rua à direita. No gaveto existe uma casa com colunas, uma varanda e por baixo da entrada, ao nível da rua, um vão que dá acesso ao palheiro da casa, tudo em granito. Ainda hoje gosto imenso dessa casa.
Portanto o espaço para dançar era algo esquisito. Como a letra T. No meio da rua dançávamos e o Ângelo no meio da ladeira a tocar…
Muito naturalmente as raparigas foram para aquela varanda e por ser lugar alto, tinham uma visão abrangente do bailarico, comentando algo que viam com aqueles conhecidos risinhos de meninas…
A intenção da malta fazer ali o baile desse domingo era outra!
Enquanto as raparigas estavam lá em cima olhando os pares do baile, nós íamos à vez àquele vão de acesso ao palheiro da casa e através dos interstícios das lajes de granito, espreitávamos para as pernas e as cuecas das meninas que descontraidamente se inclinavam na dita varanda…
Bem, ainda hoje lá estaríamos, não fora o irmão de uma dessas meninas que deu um berro cá de baixo para a irmã:
– Maria, sai daí que te estão a ver as pernas!
Foi um alarido e uma gritaria geral das meninas a fugirem da varanda e pela ladeira acima em direcção à Igreja…
Acabou o baile, é claro, mas ficámos todos inchados, gordos de prazer… tínhamos todos visto as pernas e as cuecas de quase todas as raparigas do Vale da Senhora da Póvoa…
O Ângelo e eu tão amigalhaços éramos que mais tarde, uns anos depois em Castelo Branco ele aprendeu comigo rudimentos de inglês que precisava para emigrar para a Austrália, onde ainda vive, e no meio desses ensinamentos comíamos batatas fritas com alheiras assadas e ovo a cavalo naquele restaurante por baixo do Cinema, recordando sempre peripécias da nossa parvónia…
A tal proposta era no sábado seguinte irmos às INGUIAS, também terra de muitos Cameiras, porque havia feira e baile…
– Ó Zé Jorge, vamos às Inguias no sábado, vai haver baile e há muitas garotas jeitosas, gajas boas. Tu pedes emprestada a bicicleta ao moleiro e eu levo a minha mota, nas subidas eu ato uma corda da mota à bicicleta e puxo-te quando for preciso…
Ora o que era preciso era aventura para quebrar aquela monotonia do Vale… e tudo parecia lógico, fazia sentido.
Saímos da aldeia pelas 10 da noite e até ao Terreiro das Bruxas eram apenas 2 kms a subir, o que era fácil de fazer a pedalar…
Mais fácil foi aquela descida vertiginosa até ao Casteleiro e depois virar à direita para as Inguias, cerca de 15 kms a sentir o fresco agradável da noite na cara, praticamente sem pedalar….
Chegámos às Inguias e o que vi foi o Ângelo ser recebido como um rei e senhor por todo o mulherame presente… ele bem mas apresentava, mas atão… elas queriam era o Ângelo!
Lá nos surrafámos o mais possível contra aquelas lindas mulheres, bebemos uns copos e já eram umas 3 da madrugada quando decidimos regressar, sujos e cheios de pó, que o baile foi em terra batida…
Bem, regressar seria o inverso: subir e pedalar os tais 15 kms, bastando ao Ângelo acelerar com o punho da mota…
Pusemos a tal corda unindo os dois «burros metálicos» e lá fomos…
Fomos, mas não muito longe, porque havia curvas e contracurvas, estava escuro e a velocidade era diferente…
Para mim, vá de trambolhões… vários… um deles até caí por uma ravina e o Ângelo teve que me pescar com um ramo de esteva…
Já tinha as calças rasgadas, camisa esfrangalhada, joelhos a sangrar… todo rôto por fora e por dentro… estava feito!
O pior foi a bicicleta… o farolim partiu-se, os pára-lamas caíram e por lá ficaram… várias vezes o guiador torcido, sempre a ser endireitado entre os joelhos!
Para cúmulo até a corda de rebocar se partiu… e nem os nossos dois cintos atados ajudaram muito!
Um TORMENTO para mim, principalmente… e durante 15 kms!
Chegámos ao Povo já eram quase 5 horas da matina, fui pôr a bicicleta encostada à porta da moagem, de certeza que o moleiro ia ter um xelique perante tanto estrago…
Fui pintalgar-me de mercúrio-cromo nas feridas e dormir.
De manhã tinha que resolver o assunto da bicicleta e o que decidi, doeu um bocado, mas teve de ser mesmo…
Fui falar com ele e para pagar os prejuízos… dei-lhe o FACALHÃO !!!!
Acho que ele não esperava tanto, notei nos olhos!
Não sei se ficou satisfeito, o que é certo é que sempre me falou e bem!…
– Ó Ângelo, ganda maka aquela!!! Nem mais enguias, nem mais irozes, po…rra!

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

Conto hoje uma estória curiosa do Alentejo – Aconteceu mesmo! (Não digo o nome da aldeia, senão quando for lá, «mamo-as»!).

José Jorge CameiraHá uns 80 ou mesmo 90 anos a Aldeia dos Alguidares (nome fictício) tinha muita fama de ser comunista. É que refilavam muito com os donos dos latifúndios de centenas ou mesmo milhares de hectares de terras existentes à volta da Povoação. No tempo da Outra Senhora era coisa grave. Por isso a Diocese não mandava para lá nenhum Padre. Ou não fosse ele ficar também comunista ou era por castigo desse povo ser herege. Mas um dia um sacerdote mais afoito ofereceu-se ao Bispo para «cristianizar» essas gentes desencaminhadas do Divino Redil. E lá foi ele para o sertão…
Encontrou uma Igreja limpa e a brilhar. Por aqui as Gentes do Sul costumam caiar as casas uma vez por ano. Isso então não falha!
Mas faltava-lhe o sino. A Diocese não forneceu nenhum, porque não havia Padre para chamar os fiéis e também porque era parte do castigo para aquelas Almas desavindas. Não era preciso, nem mereciam!
Este Senhor Prior lá se foi aguentando e o horário da Missa, Terço era por passa-palavra. Casamentos havia poucos ou nenhuns, porque aqui o costume era ajuntarem-se, assim não se gastava dinheiro em bodas e festanças de um dia!
As mulheres gostavam de se ir confessar. Desabafavam as suas diabruras de fêmeas, havia confiança absoluta porque o que diziam na Confissão não podia ser divulgado e… tem de se dizer, o Senhor Prior era para elas um belo pedaço de homem, sendo bem olhado pelos buraquinhos do confessionário! Sempre lavadinho e penteado, unhas limpas. Nada parecido com os respectivos companheiros, sempre tresandando a suadouro do trabalho dos campos, quando não era também os cheiros mijalosos das vacas, ovelhas, cabritos e suínos!
Desse modo o Reverendo foi sabendo os pecados da Freguesia e à força do tempo, foi conhecendo o ambiente da aldeia.
Um dia uma Comissão de Moradores foi falar com o Padre, manifestando-lhe o desejo de terem um sino no alto do campanário, tal como todas as aldeias em redor. Desconfio eu, à distância do tempo, que a intenção não era lá muito pela fé, mas sim para os trabalhadores do campo ouvirem de longe o toque de recolher a casa…
– O Senhor Bispo diz que não tem dinheiro para dar um sino. Assim sendo, a única solução é o Povo fazer uma subscrição e eu mesmo me encarrego de ir a Lisboa comprar um sino de bronze, um bem bonito, com uma cruz e nome da nossa Aldeia.
Assim foi. Passados uns meses, essa tal Comissão de Moradores foi entregar ao Senhor Padre uma boa mão cheia de notas a fim de ele comprar o tal sino.
E lá foi o Ministro de Deus até Lisboa com o bolso da batina atafulhado das notas…
Passou-se um mês, dois meses…e nada de sino nem de padre.
Já o Povo desconfiava de marosca, quando numa bela manhã de domingo, ali junto ao Largo da Aldeia pára uma camioneta e o chauffeur pergunta ao primeiro aldeão:
– Aqui é que á a Aldeia dos Alguidares? Trago aqui um caixote pesado com ordens para deixar aqui na Aldeia…
Depressa se espalhou a notícia pela Aldeia e gritaram uns para os outros:
– Chegou o nosso sino!
Aquilo foi uma correria de todo o Povo para verem o seu sino. Ninguém quis ficar em casa. Todos queriam assistir ao abrir do pesado caixote.
Não havia maneira de abrir o caixote, tão bem pregado ele estava. Mas diziam: «isto abana muito…»
Com uma alavanca conseguiram tirar as tábuas cimeiras e após removerem o papelão protector, eis que fica destapada a mercadoria:
Então não é que o caixote estava completamente cheio de cornos! Isso mesmo: cornos de carneiros, de bodes, de bois…às dezenas, qual deles o mais torcido!
Bem. Nunca nenhuma pessoa do Mundo foi tão injuriada e difamada como esse Padre. Era filho disto, filho daquilo, cabrão, filho de uma folha de alface, paneleiro…
Até o ameaçaram com juras que se voltasse à Aldeia seria capado das partes inúteis!
O caixote cheio de cornos ali ficou especado ao sol uma porção de dias, à vista de todos. E o pior era que os carros e camionetas que passavam pela Aldeia eram obrigadas a olhar o caixote, estava rente à estrada…
Depressa o Povo converteu o acontecimento em brincadeira.
As mulheres, durante a semana, passavam pelo caixote e diziam umas às outras:
– Olha… aqueles ali parecem os do teu homem!
– Pelo menos é o mais bonito par de cornos, os do teu nem cabem no caixote…
Ainda hoje, volvidos quase cem anos, se alguém passa pela aldeia e pergunta pelo sino a algum habitante, de certeza que é corrido à pedrada!

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

Ir a Casablanca e não visitar um local de Culto, é como ir a Roma e não ver o Papa, diz-se. Não é bem assim, eu já fui a Roma e nem me lembrei desse «assunto»…

José Jorge CameiraFomos então cerca de 50 turistas do Cruzeiro visitar a Medina.
De facto, é algo imponente. O Minarete apontado para o Céu onde está o Alá, com rendilhados arquitectónicos notáveis, pintado de amarelo-ocre. À volta, uma série de edifícios que me pareceram residenciais ou equivalentes árabes. No redondel de vez em quando um grupo de pessoas ajoelhavam-se na direcção dessa «Igreja» e faziam vénias de braços estendidos, quase deitados.
Nessas tais residenciais havia em semicírculo uns alpendres, uma espécie de galerias.
Fui aí colocar-me para ter um melhor ângulo de visão para as fotografias, sempre com essa mania das fotos…
Numa dessas galerias reparei que o chão estava cheio de fezes, caca humana. Era tanta a quantidade que tinha de saltar para evitar pisar essa javardice…
Onde é que já se viu haver gente crente, fanática até, cagando na frente do seu Alá?
Foi então que tive vontade de fazer ali mesmo uma mijice. No meio da imundície, um pouco de rega nem se notaria…
Ainda não tinha escondido a mangueirazita de carne dentro do esconderijo, eis que oiço uma apitadela estridente atrás de mim!
Era um polícia marroquino! Com uma pistola apontada para mim…
– Já estou tramado!
– Você não pode fazer as necessidades neste local sagrado, está preso!
– Estou preso, o tanas, olhe a merda toda que vocês fizeram aqui – disse eu apontando para o chão encardido daquilo.
– Isto é merda de pássaros, de gaivotas! Não é de pessoas. Aquilo ali sujo é que é seu…
O polícia continuou soprando o apito com força, feito que nem uma puta histérica, até que apareceu outro colega.
Este outro polícia tinha uma máquina fotográfica.
O primeiro gritou para mim, sempre em francês:
– Tira a tua pille para fora!
– Repetez o gesto de urinar na parede para moi faire une photo!
O gajo insistia comigo, abanando o cano da pistola na minha direcção.
Eu já me estava a passar com aquela cena toda. Então o merdas do polícia queria que repetisse a cena mictória para ter uma prova do delito ou para ver o meu coiso?
O pior daquilo eram os gritos daquela «besta», estavam a atrair vários árabes, desses vestidos com lençóis brancos e um gorro colorido na cabeça.
Eu já a ver-me dentro dum calaboiço árabe a comer arroz branco deslavado durante o dia e originando um incidente diplomático entre Portugal e Marrocos…
Sair nos jornais de Portugal o meu gesto de mijar junto a uma parede da Medina seria uma vergonhice….
Tive um certo medo porque nessa altura Portugal apoiava a autodeterminação do Povo Saarauí cujo território está ocupado militarmente por Marrocos e qualquer gesto destes seria um pretexto para a Diplomacia marroquina se «vingar».
Mas mais uma vez os Deuses do Olimpo (estes sim, os verdadeiros) estiveram do meu lado.
O guia do autocarro procurava aflito por mim. Eu não entrara com os outros, o barco já tinha avisado que queria zarpar para Lisboa e não podia fazê-lo sem mim!
O guia finalmente encontrou-me, levou as mãos à cabeça, gesticulou com os polícias num linguajar do mais esquisito, mais parecendo um cabrito a levar uma naifada mortal no pescoço! E disse-me em espanhol:
– Usted tienes 50 dólares? Paga-lhe!
Assim terminou a minha prisão de cinco minutos em Marrocos. Uma mijadela na parede de uma Mesquita árabe custou-me então 50 dólares!
Acabou-se a aflição, fui para o camarote e decidi ficar quietinho até chegar a Lisboa…
Mijar numa Igreja… nunca mais! Melhor será fazer outra necessidade, assim passará por guano de pássaros…

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

Durante o primeiro e segundo dia, de pura navegação, pensei: vou fazer uma corridinha à volta do navio. Decepção: em 10 minutos estava a volta feita!

José Jorge CameiraFoi então que tive o primeiro incidente, que poderia ter sido um acidente bera para mim. No deck superior está a piscina. Sempre com muitas pessoas dentro de água ou por ali perto.
Eu não sei nadar. Bem, nadar normalmente, não sei. Mas ainda ninguém me explicou porque cargas de água eu nado e bem durante muito tempo debaixo de água. À tona de água, é como um prego, vou logo ao fundo…
Vou à piscina com os tais calçanitos bermudas floreados e jogo-me para dentro do tanque. Isso foi o pensei, era um tanquezinho. Mas não… era fundo e bem fundo! Então não é que vi jeitos de ali mesmo morrer afogado?
Safei-me porque criei uma técnica para uma emergência destas: bati com os pés no fundo da Piscina e fazendo mola com as pernas, impulsionei-me para cima!
Mesmo assim, ainda engoli uns pirolitos de água, porque na ascensão ainda fui batendo com a cabeça nuns e noutros…
Portanto, piscina… estava confessado!
Finalmente e após dois dias de navegação só vendo mar (era já um fastio da prisão), chegámos à Ilha de Lanzarote, pertencendo às Canárias, arquipélago insular pertencente a Espanha.
Foi aqui que se refugiou até falecer o grande Escritor de Língua Portuguesa e Prémio Nobel da Literatura, José Saramago e a sua Pilar.
Um grupo onde eu estava inserido foi visitar a ilha: aquilo é tudo cinzento ou mesmo negro. De origem vulcano-basáltica.
Ninguém podia apanhar uma pedrinha para recordação – assim o Guia informou! Isso para Portugueses não é válido. Tenho a certeza que só por causa desse aviso todos encheram os bolsos de pedras negras, houve um esvaziamento na Ilha de muitos quilos de pedras negras…. porque a Malta Lusa quer sempre recuerdos, nem que seja para deitar fora no outro dia!
No meio da Ilha é curioso ver-se centenas de pequenos lotes quadrados cercados de pedras negras. São vinhas! Produz-se vinho no meio daquelas cinzas!
Após mais dois dias de navegação, eis-nos à vista do Continente Africano, que eu já não via há muitos anos. Marrocos ali à nossa frente.
Nesse momento lembrei-me de um acontecimento trágico da História de Portugal que se desenrolou a alguns quilómetros para dentro daquela orla marítima:
Em 1580 o Rei português D. Sebastião, praticamente adolescente e doente, comandando um grande exército com alguns Portugueses e destes muitos Nobres e Fidalgos, os restantes mercenários contratados por toda a Europa tenta conquistar Marrocos enfrentando em Alcácer-Quibir um Rei Árabe. Foi um desastre completo. O Rei desaparece criando o mito do Sebastianismo que perdura até hoje. O Rei de Castela apodera-se de Portugal e os inimigos dos espanhóis sentem-se assim no direito de atacar o Brasil e Angola, colónias portuguesas. Durou 60 anos este cataclismo para Portugal!
Mal chegamos a Marrocos, logo ali no Porto de Casablanca se organizaram excursões à cidade. À entrada dum feirão vi um pórtico e uma rampa por onde se subia para a dita feira.
Reparei que corria permanentemente um líquido por essa rampa em direcção ao mar. Estranhei, porque era Agosto, mês seco e não havia indícios de ter chovido. Diz-me o Luis:
– Ó Zé Jorge, não vês que é mijo? Toda aquela gente que está vendendo na feira tem de mijar nalgum lado…
Passados uns momentos, ficando eu sozinho com a Sofia porque o Luís foi comprar cigarros, chega-se junto a mim um árabe com ar de rico, bem vestido e diz-me em francês (a segunda língua deles):
– Monsieur, quer vender esta mulher (apontando a Sofia)?
– Vender? Nem sequer é minha mulher…
– Dou-lhe 50 camelos por ela!
Em Marrocos ter um camelo é sinónimo de riqueza e posição social. É um animal de enorme utilidade, carrega muito peso e é capaz de atravessar o Deserto sem beber água. Acumula água num saco no interior do seu corpo e a bossa é gordura que colmata as necessidades energéticas. Animais desses foram exportados para a cidade de Natal no Brasil, onde é possível vê-los hoje em Genipabu passeando gringos, isto é, turistas estrangeiros.
Não sendo a Sofia minha mulher e em brincadeira eu respondo ao árabe rico, sem ela perceber patavina do teor das «negociações»:
– Vendo-lha por MIL CAMELOS! – Esta quantidade de dromedários é incomportável para qualquer árabe, eu sabia isso de antemão…
Com ar contrariado, o muçulmano retira-se barafustando com ambas as mãos: ainda não seria desta que teria uma mulher branca, grande ambição de qualquer árabe, rico ou pobre.
(Continua)

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
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Quando o barco zarpou do Mar da Palha, fui vendo Lisboa ficar cada vez mais longe. Lembrei-me nesse momento daqueles Navegadores que nos séculos XV, XVI, XVII e XVIII partiram em caravelas do tipo casca de noz, visão igual a esta de Lisboa que a maior parte desses marujos não tornaram a ver!

José Jorge CameiraAos altifalantes chamavam os «fregueses» para o almoço. Que já tardava, a barriga dava horas há muito…
Era uma mesa redonda, com nove pessoas. Todos impiriquitados, excepto eu que vestia uma vulgar camisa e calças azuis jeans. Já nesse tempo tinha este vício destas roupas…
As madames ricas, mas pirosas, cheirando a esses sprays dos cabelos e a Channel 5 de feira, aproveitam esses momentos para mostrarem umas às outras os seus vestidos chiques, com colares e anéis brilhantes, sei lá se eram pichebeques…
À frente de cada um de nós havia seis pratos empilhados, quatro copos de cristal e um montão de talheres de todo o feitio, talvez uns 20. Lembro-me de ter pensado – isto deve ser já a contar com o jantar!!
Uma Madame do Puerto diz em voz alta, antes de servirem o enfardanço:
– Vou adivinhar a idade de todos!
A Balzaquiana comigo espalhou-se e bem. Enganou-se em nove anos. Disse-lhe: ao jantar trago o meu BI e poderá conferir.
A partir desse momento nunca mais me olhou com bons olhos. Pois… queria à força ser a mais nova do Grupo da Mesa!
Bem, o almoço foi aquilo a que eu posso chamar de PECADO. De facto foram necessários todos os pratos, todos os copos e todos os talheres!
Foi um empanturramento como eu nunca tinha visto. Comida de todo o género:
Carnes, peixes, grelhados, fritos, guisados… e servido a mais de 300 pessoas ao mesmo tempo, gulosos como eu!
Aquilo era digno de ser ver: empregados de luvas brancas, fardados, iam e vinham com grandes tabuleiros repletos de manjares enfeitados de flores, com acompanhamento musical de uma orquestra!
Ao jantar, a mesma farturaça. Comezaina em quantidade e qualidade. Na minha mesa, as Balzaquianas mudaram a roupagem e os pichebeques. E eu com os mesmos jeans. Devem ter cochichado entre elas:
– Coitado, é pobre, sempre com a mesma roupa, deve ter pago o cruzeiro em 100 prestações…
Até hoje ainda não sabem que tenho umas 10 calças jeans azuis e outras tantas camisas também azuis, algumas das feiras, confesso…
No primeiro dia devo ter engordado uns dois quilos pelo menos. Nesses 12 dias ia ser uma engorda forçada ou seja, como se diz no Alentejo: comer que nem umas bestas!
Depois dos jantares, então acontecia sempre uma Festa de arromba: dançar, anedotas sobre alentejanos e sobre os políticos… até as tantas da noite!
Foi na primeira noite de festança que encontrei o Luis e a Sofia, um casal da minha cidade!
– Que estão vocês aqui a fazer? perguntei eu.
– O mesmo te perguntamos!
Como é pequeno este Mundo!
Estávamos os três sentados a beber uns cocktails esquisitos, desses que têm coloridas sombrinhas chinesas, quando ouço o Animador anunciar bem alto:
-Vamos chamar aqui ao Palco todos os que viajam sozinhos!
Tive que ir, pois chamaram-me e ouvi uma salva de palmas, o que me cheirou a mariolice.
Tratava-se de juntar os viajantes masculinos e femininos solitários a fim de haver companhia total e ninguém se sentir isolado.
Seriam esses que iniciariam o primeiro baile!
Diz-me o Luís de longe, com ar de quem já sabia da coisa:
– Ó Jorge, pode ser que seja a tua independência!
Estava ele querendo dizer que podia acontecer calhar-me como par uma senhora cheia de grana, ricalhaça, ouro no baú e muitas propriedades e farmes.
Não foi nada disso: o «meu par» era uma senhora já com uns anitos largos, quadris de quem pariu cem vezes, com o cabelo loiro por cima e no meio cinzento, pelo menos com 70 anos, cheirando a Água de Colónia made in Spain
É bom de se ver que de repentemente deu-me uma dor no tendão de Aquiles e por isso tinha de me sentar!
(Continua)

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
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Naquele fim de manhã de Março de 1995 estava no Banco onde eu trabalhava e entra a Cristina, filha do meu colega Luciano e pespega-se à minha frente, dizendo: «Ó Zé Jorge, queres ir fazer um cruzeiro num grande paquete durante 12 dias? Tudo pago, comes e bebes, só tens que ir ao porto de Lisboa e entrar no barco…»

José Jorge CameiraFoi o mote para eu me rir. Fechado naquele banco sete horas por dia, contando o dinheiro dos outros e com pouco dele nas algibeiras, só aquela proposta me faria rir…
Também por que não estava a ver a Cristina convidar-me para fazer um Cruzeiro COM ELA, ou então se me enganava neste raciocínio herege, nem tão pouco fazer uma férias «à grande e à francesa» num desses barcos de luxo, tal como na famosa série televisiva «O Barco do Amor»… Loves in the air, bla-bla-bla…
– É assim – esclareceu ela – dás uma pequena entrada, pagas todos os meses um tanto, fazes o Cruzeiro nas férias de Agosto e depois continuas a pagar todos os meses um tanto até ficar tudo saldado…
Sentindo o corpo aquecer só com a visão das coisas boas que via na tal série televisiva, decidi logo:
– É lá… Assim o caso muda de figura! Põe aí já o meu nome e quanto dinheiro é que tenho de te dar agora…
Nesses dias subsequentes, a minha imaginação ficou mais fértil: rememorizando «O Barco do Amor», aquilo seria só dolce-farniente diário. Gajas boas, de todo o Mundo, lindas, esguias, benfeitonas de todas as cores e idades, sempre em biquinis caidiços ou trajes com rasgões provocantes nos vestidos de soirées, festas loucas, comida farta, estirado ao sol nas espreguiçadeiras contando as gaivotas no ar, os golfinhos em competição com o boat e principalmente olhando as fêmeas na piscina soltando gritinhos com aqueles decibéis que só elas usam nas traqueias…
Que mais podia ambicionar um pobre empregado bancário como eu, do que sentir-se MILIONÁRIO no meio da grã-finagem internacional durante apenas 12 dias do ano?
Lá fui até Lisboa cheio de nervo por tão grande aventura que ia viver. Meus netos e bisnetos irão dizer, olhando as fotos em kodakcolor: tivemos um antepassado ricaço que até fez um Cruzeiro num Transatlântico! Ora bem!
Outra sedução deste passeio seria o facto de porventura eu não conhecer ninguém e ninguém me conhecer naquela Ilha de Ferro Flutuante… Bolas, seria algo incrível eu encontrar alguém conhecido, quando todas as pessoas que conheço no Mundo deverão andar por outros milhões de locais igualmente atraentes e nem todos serão «MILIONÁRIOS» como eu…
Foi no porto de Lisboa que eu fiquei a saber qual era o Paquete Transatlântico no qual eu ia gozar o tal Cruzeiro: era o Paquete Funchal, um montão de ferro velho esticado construído em 1961, embelezado e modernizado para levar turistas papalvos como eu, fazendo de conta serem ricalhaços, a dar uma volta por essas águas mornas espreitando o Mediterrâneo junto às Colunas de Hércules e junto à Costa de África!
Estava eu preparado para subir o escaler do navio com as sacolas, então não é que vejo um casal amigo e cliente do banco descendo com as maletas? Mau… agora lá na cidade já vão saber que afinal um bancário ganha balúrdios de cacau e por isso fui fazer um Cruzeiro! Bem, o que me causou algum engulho foi eles, após saudarmo-nos, olharem para mim e rirem-se com discrição das bermudas que eu tinha vestido: tinham umas flores e umas palmeiras desenhadas!
Um tripulante fardado à polícia-sinaleiro de outros tempos conduziu-me ao meu quarto, um camarote-suite situado ABAIXO da linha de água do barco, por isso era mais barato. Disse-me ele com ar de gozo, apontando a vigia, uma janelinha redonda com vista para o fundo do mar:
– Enquanto viajamos, o senhor pode ver os peixinhos, já viu a sorte que teve?
Pois. Preferiria uma suite mais acima onde se vê o Sol e a vastidão do Oceano. Mas seria o dobro do encargo.
No quarto, sobre uma escrivaninha, estava um Manual de Instruções do Passeio Marítimo. Fui de imediato ver o Calendário das Refeições:
Pequeno-almoço – Lanche – Almoço – Lanche – Jantar – Ceia.
Senti-me feliz, porque comer é um dos meus desportos preferidos!
(Continua)

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

Eu cá falo sobre tudo e todos! Cá para o meu feitio não resulta emparelhar pelo que às vezes oiço por aí. Ou «emprenhar pelos ouvidos».

José Jorge CameiraDaí que dou em mim a analisar o porquê dessa tamanha hostilidade para com os Ciganos.
Lembrei-me que o facínora do Hitler mandou para a fogueira, juntamente com os judeus, milhares, ou talvez milhões, de ciganos.
Dos primeiros fala-se, falou-se e vai falar-se sempre… dos outros, nicles!
Há uns meses vi um Galo da França, agora apeado, mandar para a Roménia inúmeras famílias de ciganos. Deu uma mão cheia de euros a cada um.
É bem claro que foram de avião, mas de certeza que no outro dia já estavam preparados para voltarem de carro…
É fácil dizer que um cigano fez isto, fez aquilo. Será verdade, será exagero ou não será bem assim…
Mas o cerne da questão não é a Família Cigana. Alguns destes fazem desacatos, como fazem outros indivíduos de outras minorias étnicas e, já agora, os da Maioria Étnica também prevaricam. E de que maneira!
Perguntem a um Cigano o que é uma offshore? Não sabem…
Agora vão até Lisboa, ao Largo do Roedor, ao Freeport e perguntem o mesmo. Sabem de cor e salteado…
Eu vejo que desta Maioria Étnica poucos falam. Há indivíduos aqui deste segmento que transferem dinheiro para fora do País, são pedófilos, são sabotadores da economia, provocam desemprego, fazem falências… Em suma, são uma mafia que fazem corar de vergonha os mafiosos da Cosa Nostra italiana!
E a estes nada lhes acontece. O motivo?
É que a justiça não funciona, nem querem que funcione! E quando e se funciona é para lixar o elo mais fraco!
Aqui está o motivo que abrange ciganos, não ciganos, amarelos e azuis!
A justiça não funciona e, obviamente, nem interessa que funcione.
Olhem o Isaltino… Olhem a Face Oculta…
Se a justiça tivesse que funcionar para um branco, tinha de funcionar para todas as outras cores! E a coisa disciplinava-se, ou a bem ou a mal!
Ora isso os da Maioria Étnica não querem…
Por isso, vamos lá deixar de assobiar para o lado, como se o assunto não fosse nosso. Não sejamos mais hipócritas!
Façam a justiça funcionar e os problemas com ciganos, brancos, morenos, mais morenos, azuis, deixam de existir ou serão reduzidos!
Eu vou estar atento: o capanga Hitler para justificar o seu fracasso na Economia, disse que os culpados eram os judeus e os ciganos!
Aqui em Portugal, está se a caminho do mesmo.
Antes o Sócrates e agora o Passos já encontraram a Minoria que é «culpada» do descalabro da Economia: os trabalhadores!
Por isso estão a pagar pelas canalhices que os outros fizeram!

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

O Toino e o Baltar eram dois serventes na famosa Mina de Aljustrel, a tal do oiro amarelo casado com a pirite verde. Faziam tudo o que era preciso: levavam, traziam, punham, compunham, partiam, desfaziam, transportavam…eram pau para toda a colher!

José Jorge CameiraDeviam ser muita competentes, pois entraram na Empresa sem cunhas!
Quando foram contratados tiveram que dar o nome certo lá nos papéis de muitas linhas. Na verdade eram António e Baltazar mas como estavam no Alentejo, para ficar mais rápida a conversa comeram-se as letras e ficaram Toino e Baltar.
Como eram de outras paragens, bem longe de Aljustrel, logo se tornaram companheiros inseparáveis, quer no serviço ou fora dele, nos passeios e deambulâncias pelas ruas a subir e a descer da vila.
Depressa se organizaram para o dormir, os comes e os bebes.
À noite, depois da banhoca debaixo de uma mangueira presa com arames, acomodavam-se num contentor metálico que fora esquecido perto da entrada da Mina por uma Empresa Metalúrgica do Barreiro. Com uma gambiarra puxaram a luz com uma ligação manhosa da Mina, embrulhada em plásticos. Assim poupavam uns tostanitos de renda de casa e a luz era à borliú.
Nas bebidas, é claro que estavam quase sempre apoisados na Taberna do Filipe. Sentados numa das mesas, com um pouco de linguiça, azeitonas ou uma fatia de queijo de ovelha do verdadeiro e o casqueiro que traziam nos bolsos, iam emborcando copos de tinto, daquele pesado que só há aqui no Alentejo.
O resto da malta na tasca já não ligava ao paleio deles – daquela mesa só vinham impropérios e bocas das venenosas, a toda a hora:
– Cabrões! Filhos dum cabrão! Puta cos pariu! Paneleros!
Já sabiam que se referiam a algum chefe ou então ao Bochechas, que era quem mandava nessa altura no Rectângulo.
O Toino e o Baltar estavam preocupados com a mansão onde viviam. No inverno a coisa ainda se gramava, pois o frio afastava-se com mais ou menos peso das mantas. Mas vinha o Verão e aqui a caloraça não perdoa. Nos telejornais bem que falam em 35 graus para não assustar mas na verdade no pino do Verão a agulha bate sempre acima dos 40… upa, upa!
Ora o Tê Zero que tinham era de ferro e sabiam que seria impossível dormir lá dentro com calor a dobrar.
É então que o Toino tem uma ideia brilhante:
– Ó Baltar, atão e se fizéssemos uma casinhota de madeira… há por aqui caídas tantas tábuas e das boas… Fazíamos uma casa inda melhor que aquele trambeque de ferro!
– Pois, mas para isso precisamos de autorização do Chefe do Material, o Engenheiro Almeida, para nos servirmos das tábuas, pedir emprestado o sarrote, o martelo e pregos dos grandes.
Nesse momento começou uma zanga entre eles. Um dizia ao outro para ir pedir o material ao Engenheiro. Discutiam sobre quem ia quem.
– Toino, tu tens mais jeito que eu para lidar com essa gente finória! Eu cá ando sempre com a barba por fazer…
O Toino lá se decidiu que seria ele a falar com o Engenheiro, mas pôs condições:
– Eu cá vou falar com ele, mas tenho de treinar o que hei-de dizer ao gajo…
Assim foi. Todas as noites, junto ao contentor e competindo com a sinfonia da grilada do campo, o Toino inventava os gestos e as palavras que teria de usar, logo que batesse na porta do escritório do Engenheiro.
Ou por ser mesmo verdade, por travessura ou por sádica malvadez, o Baltar ia dizendo:
– Não tá bem, Toino… tens que ser mais forte, mais directo!
– Toino, porra, se falas assim, ele diz-te que estás com os copos!
– Olha, dessa maneira, o gajo pôe-te logo na rua!
Durante duas semanas foi assim o arrazoado: um falando, outro desfazendo…
Ao fim desse tempo, o Toino já andava danado, porque ainda não tinha encontrado o palavreado certo para conseguir o empréstimo do material.
Numa dessas tardes que por acaso já tinha passado pela Taberna do Filipe, encheu-se de nervo, vai direito que nem uma lança ao escritório do Engenheiro Almeida, entra de rompante, joga a boina num repente ao chão e diz… melhor, grita:
– Ó Chefe, só venho aqui pra dizer que faça o favor de meter no olho do c… o sarrote, o martelo e os pregos!… E aprovete, vá-se fo…. também!
Após este desaforo, sai num repente do escritório, pegando na boina caída no chão, deixando o Engenheiro de boca aberta, sem saber nem perceber patavina do que se passava! Que afinal nada se tinha passado…
O Toino chega a «casa» e conta ao Baltar o acontecido.
– Porra… e ele não te disse nada? Não te mandou prender?
– Nadaaaaa…
– Então é por que gostou! Temos de celebrar essa nossa grande vitória! Derrubámos o Chefe! Ficou manso, o bicho…
– Tás cá um revolucionário, no fim és comunista…
Foram à mercearia da Ti Mariana e compraram duas garrafas de tinto de Reguengos, dessas com duas medalhas nos dizeres do papel colado, com mais de 14 graus…
Cantando e bebendo, lá foram pela estrada afora, seguindo em frente, aquela que vai dar ao Carregueiro, são 9 quilómetros e onde havia uma Estação de Caminho de Ferro para recolha da semente de trigo e ser transportado para as torres da Epac de Beja.
Com aquela pomada de Reguengos, ao fim de 2 ou 3 quilómetros, já a alegria era grande, sempre se sentindo vitoriosos da façanha do Toino!
– Ó Toino, és cá um grande revolucionário…!
Quase sem darem por isso, estavam na tal Estação CP do Carregueiro, já era noite.
Como a «bobadera» era grande, mal viram um vagão aberto, subiram para ele e assim adormeceram, sem conseguirem esvaziar as garrafas.
No outro dia acordaram já eram 10 horas. Sentia-se calor e olhando por uma e outra porta do vagão, apenas viram aqueles extensos campos amarelos já ceifados, apenas restolho…
– Ó Baltar, queres ver que o cambóio levou-nos para longe? Estamos em Espanha…
De repentemente, passa quase em frente deles um moiral com um rebanho de ovelhas e o Baltar pergunta:
– Ó Senhor espanhol, isto é Espanha? Estamos pierto de Sevilha?
– Isto aqui é o Carregueiro, seus bêbados dum cabrão!
Ganharam esta resposta, que mais esperavam?

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

Escrevo agora a estória mais incrível da minha vida, acontecida desde que estou em Beja, cidade que abracei em 1970 e onde encontrei tudo a que julgava ter direito. Comidas boas, bebidas melhores, clima quente como eu gosto, ar puro, paisagens a perder de vista e mulheres lindas. Por que temos um pouco de marialvice, tinha que o escrever, aqui elas têm ADN’s diferentes das que vivem noutras províncias de Portugal.

José Jorge CameiraSempre senti um secreto prazer por automóveis e já os possuí das mais variadas marcas. Comprava-os a prestações, a pagar em 12 ou 18 meses, e no penúltimo mês do pagamento já andava meio louco, correndo os stands à procura de outro carro. Era de resto assim que toda a malta fazia…
Tinha então um Fiat 127, que andava um pouco mais que um boi enraivecido…
Passei pelo Stand do Senhor Domingos, da Auto Salúquia (infelizmente já partiu deste Mundo) e ele disse-me, mal me viu:
– Tenho ali um carro bom para si! O ideal para a sua categoria. Decida depressa porque anda muita gente à volta dele…
Fiquei boquiaberto! Mas que lindo carro!
Era um Citroen GS Pallas, amarelo, bonito, limpinho, com dois olhos grandes, que até pareciam suplicar-me para o levar…
Este carro tinha diversas particularidades que faziam aumentar a minha vaidade. Era bastante envidraçado, entrando muita luz no habitáculo, e as pessoas olhariam muito para quem ia a conduzir aquele carrão lindo e vistoso…
Além disso, quando se punha a trabalhar, o «gajo» subia lentamente! Isso fazia com que fosse extremamente confortável, como se se conduzisse sobre uma almofada de ar.
Mas o mais notável acontecia quando havia um furo. Ninguém gosta que lhe aconteça uma coisas destas, mas digo sinceramente que desejei que tal me acontecesse e de preferência no meio da cidade onde era forçoso passar muita gente. É que para mudar um pneu furado nesse carro não era preciso pôr o macaco e levantar o bólide: bastaria accionar o manípulo da suspensão de uma determinada maneira para que o pneu furado levantasse, ficando suspenso com as outras três rodas no chão!
Acertadas as contas, assinado o que era preciso para mais uns meses a pagar, o Senhor Domingos entregou-me o carro numa sexta-feira.
Pensei em fazer uma viagem para o experimentar, e decidi: «vou até à Praia de Montegordo, são só 120 quilómetros, vou sábado de manhã e volto à tarde».
Na viagem, logo depois de Mértola, vejo atrás de mim um Alfa Romeu ou Alfa Morreu (como eu lhes chamo) a pressionar-me em jeito de competição. Havia antigamente naquela estrada curvas e contracurvas, perigosas e junto a ravinas. Acelerei e, nas curvas, o gajo não teve hipótese. Mas veio uma recta e ultrapassou-me. A guerra repetiu-se e comecei a temer pelo Amarelinho, não fosse marrar numa árvore logo no primeiro dia!
Após uma curva em que me distanciei, escondi-me com o carro numa vereda com muitos arbustos. Passados uns segundos passou o Alfa em grande chiadeira à minha procura… bem, até hoje ainda não me apanhou!
Em Montegordo, depois de fazer praia e olhar as meninas de fato de banho completo (ainda não havia esses saborosos biquínis da Mary Quant) fui comer um belo peixe assado no Jaime, um restaurante mesmo dentro do areal.
Passei o dia e a tarde a comer camarão, gambas, cerveja, tremoços, vinho, finos ou imperiais (cerveja de copo à pressão), conversando com outros alentejanos que por ali andavam, mas sempre com o olhinho lá em frente onde estava o meu último amor – o Amarelinho, assim o baptizara!
Ao fim da tarde tinha que regressar a Beja mas estava meio cheio de cerveja e já com os copos (isto é, bêbado), pelo que decidi dormir dentro do carro. Se o assento se reclinava todo para trás e faz cama, não fazia sentido procurar uma pensão! Bem, o problema, na verdade, é que dava dó deixar o carro na rua…
Havia ali perto um pinhal onde entrei e estacionei. Deitei-me dentro carro, nu à Pai Adão – era Verão e fazia caloraça mesmo à noite. Mas tranquei as portas, não porque tivesse medo de bandidagem, não havia ainda dessa roupa naqueles tempos, mas o escuro-breu da floresta fazia impressão, a Lua tinha dificuldades em romper pela ramagem.
Às 4 horas da madrugada deu-me cá uma mijaneira, da cerveja, do vinho…
Saí do carro e comecei a regar a floresta, com a porta do carro meio-aberta. Mais eis senão quando soprou uma brisa leve… e a porta fechou lentamente. Eu no meio da mata todo nu, o carro fechado, a chave na ignição…
Perante tamanho contratempo, só havia uma solução: partir um vidro do carro!
Rebentar um vidro do meu amarelinho brilhante e logo na «noite de núpcias»?
Resignado e pragmático agarrei uma pedra… bati, mas o «sentimento» não me deixava bater com violência… eram, sim, «pancadinhas de amor»!!!
Decidi mudar de planos.
Peguei num papelão sujo que estava no meio dos pinheiros, sacudi-o, tapei as minhas farturas e fui até à estrada de asfalto, a 200 metros, pedir ajuda!
Coisa de doidos, tá bom de ver… pedir ajuda a quem, a uma hora daquelas?
Passou uma mota… agitei a mão e gritei: «Pare, espere aí…». Mas foi em vão.
Mas outra mota, com dois, parou e eles disseram:
– Vamos-te violar!!!
Agarrei dois bajolos do chão e ameacei:
– Se não ajudam vão-se embora, ou um fica estendido com o focinho e as cravelhas partidas!
Lá se foram, temerosos!!!
Um automobilista gritou com a janela meio-aberta, com medo que fosse emboscada:
– Vou chamar a polícia, vais preso… Já não há vergonha, nem respeito…. Agora já atacam em pelota!!!
Por fim apareceu uma carrinha com dez cachopas airosas, que vinham de um bar de alterne, seriam maganas da vida, sei lá…
O condutor parou – macho não pode mostrar fraqueza perante tanta mulher, né?
Disse-me, depois de eu explicar o sucedido:
– Ouve lá, se é armadilha partimos-te os cornos e ficas feito num rolo de carne picada! Vamos lá ver esse carro…
Pensei que ele me mandasse entrar na carrinha para indicar o caminho, mas não! Não queria mais nada?
Fui à frente, correndo, mas como ele levava as luzes apontadas para mim e ainda ligou os máximos, as meninas iam com a cabeça de fora, chingando-me:
– Ai, querido, que belo rabo tens!
– Mal empregado seres rabicha!
– Queres casar comigo? Ponho-te logo a render…
E outros piropos, qual deles o mais ordinário e humilhante.
Chegados junto ao meu querido carro – lá estava ele, orgulhoso, lindo, brilhando ao luar, inocente – o condutor riu-se e disse-me:
– Este carro é dos mais fáceis de abrir sem chave! Não dá luta! Ora porra…
Meninas, quem tem um corta-unhas?
Foi com essa peça de «alta serralharia», com um ténue clique, que o homem abriu o carro!
As meninas continuavam chingando, mas já com outra música:
– Aparece sempre, querido!
– Com esse carro deves ser rico, posso ficar contigo?
Humilhado, mas com sentimento de vitória, refastelei-me no carro, mas já não pude dormir – o Sol iluminava com pujança todo o Pinhal!
Se esse meu burro tivesse alma, por certo me agradeceria todo aquele meu empenho bastante sofrido!

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
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Conto esta estória que eu mesmo vivi no passado a propósito de um dia destes ter comido um pratinho de feijanito com dobrada na Tasca do Tomé.

José Jorge CameiraHá já um belo par de anos fui ao Aeroporto de Lisboa buscar dois holandeses – desses quase iguais, loiros e de olhos verdes. Vieram investir no Alentejo.
Como era hora do almoço, parei com eles em Setúbal num restaurante perto do Bonfim. Pediram que eu escolhesse por eles… Então, vá de feijão com dobrada para os três…
Os amarelos só diziam:
Very good! Good taste! Nice! – e outros elogios no linguajar deles…
Quase no fim, um deles pergunta-me, segurando no garfo um bocadinho de dobrada, pois queriam a receita:
What’s that, George… so wonderful taste???
Como eu não sabia dizer «intestinos» em inglês, comecei a fazer com uma lapiseira no papel da mesa o desenho dos intestinos, os nossos, aquela tripagem enrolada várias vezes…
Foi o bom e o bonito!
Os dois marmelos olharam um para o outro, de amarelos passaram a vermelhos… E, mudos, começaram a afastar com o garfo os restantes naquinhos de dobrada.
No outro dia em Beja, fomos petiscar ao Capitél.
Aí os Dutches tiveram um segundo choque!
Em todas as mesas comiam-se caracóis, com o palitinho…
Perguntaram-me qual o recheio dentro dos snails e eu, antevendo a carga de nojice que aí vinha, com um palito puxei lentamente o corpão que saía de uma caracoleta, com duas belas antenas bem à vista…
Foi um quase caos. Mexeram-se nas cadeiras, de um lado para o outro, parecia que tinham bichos-carpinteiros.
Por educação ficaram ali firmes, esmifrando batata-frita com ketchup…
Que gente!
Então no País deles (do tamanho do Alentejo) não comem peixes (arenques) crus?

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
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De regresso a Manaus, eu mesmo programei o dia seguinte. Fui visitar o famoso Mercado de Manaus: do peixe, da carne, da fruta, passarada, cobras secas, verduras esquisitas, de tudo…

José Jorge CameiraMas que coisa incrível esse Mercado! Vem gente de todo o interior vender os seus produtos.
Vi bancas cheias de peixões enormes, 50…100… 200 quilos!! Peixes do mais esquisito que já vi, cabeças tortas, torcidas, barbas aqui, barbichas ali… cortavam bifes desses peixes com mais de um quilo, que vendiam por 2 reais…
Naquele Mercado é tudo em grande! Carapauzinhos dos nossos? Nada disso! Nem para os gatos…
Cá fora, nas paredes – tudo se vende. Chás para todas doenças, tachos, panelas, malas…
À noite aquele Mercado transfigura-se: cá fora passa a ser poiso de Putas e Veados (gays). Às centenas, tudo alinhado à espera do freguês como naquelas filas à espera de táxi. Um cliente chega e não escolhe: é quem está a seguir, seja bonito ou feio, novo ou velho.
Em Manaus é vulgar o sol esconder-se de repente e cai uma formidável chuvada, todos se molham mas parece que ninguém se rala, pois a seguir o sol desponta, seca tudo e todos. Aquela cidade é a descair em direcção ao rio – então nesses momentos de chuvada as estradas de asfalto transformam-se em rios velozes correndo até o rio grande.
As ruas da Cidade, muitas delas exalam um perfume que me agradou muito – por volta do meio-dia inúmeros restaurantes começam a grelhar nacos grandes de carne de boi só com sal. Comi uma pratada dessa carne, tinha que ajeitar com a mão para não cair e apenas paguei 5 reais (2 euros).
No meu deambular pelas ruas da cidade, dois detalhes da vida amazónica me ocorreram.
No Séc. XVI na altura em que Portugal perdeu a Independência para Espanha, as possessões portuguesas tornaram-se por esse facto «colónias espanholas», ficando rasgado automaticamente o Tratado de Tordesilhas. Daí que inúmeros aventureiros, exploradores e militares daquele país (e de outros então inimigos de Espanha) tivessem penetrado nas entranhas da Amazónia, não para colonizar mas tão somente para procurar ouro. E faziam-no como procederam no México, Perú, etc: locupletavam-se com o vil metal à custa de chacinas dos indígenas. As populações indígenas locais estranharam esses comportamentos, diferentes dos usos lusitanos, que mesmo explorando as riquezas, também promoviam militantemente a miscigenação!
Militares e aventureiros espanhóis frequentemente subiam e desciam o Rio Amazonas. Eram atacados por indígenas, algumas vezes ao lado de portugueses.
Ficou conhecida uma célebre tribo índia, vivendo perto de Nhamundá – várias centenas de quilómetros a leste de Manaus – cujos soldados eram só mulheres. Estas guerreiras que causaram grande mortandade no meio da soldadesca espanhola, cortavam o seio direito para melhor manobrarem o arco e as flechas! Assim seriam mais eficazes nos ataques…
Frente a Nhamundá, do lado sul do Rio, está a cidade de Parintins. É famosíssima pelas suas grandes festas carnavalescas, embuídas de autêntico espírito decorrente da cultura amazónica…
Fui a um barbeiro, tinha de preencher os tempos mortos: cortar o cabelo e lavar, isso eu pedi. E sem pedir apararam-me os pêlos do nariz, dos ouvidos, arranjaram-me as unhas das mãos e dos pés com massagem, sentindo ser alvo de todos os olhares por ser «ave rara» – tudo por 15 reais (6 euros).
No último dia fui de táxi ver o mais famoso edifício de Manaus – o Teatro Amazonas, onde está a Ópera de Manaus, construído em 1896.
Manaus teve o seu auge de riqueza no tempo da procura da borracha. Foi dali que saíu pela primeira vez essa matéria-prima, com o trabalho quase escravo dos seringueiros (um pouco como a recolha da resina dos pinheiros em Portugal). Houve muito dinheiro, mas como sempre, mal dividido e mal gasto.
Daí que alguém rico se lembrou de construir na cidade o maior, o melhor e o mais bonito edifício onde se realizassem Concertos, Óperas e actividades afins, em ambiente rico e snob! Mesmo de avião se vê essa magnífica construção encimada por uma maravilhosa cúpula verde-dourada. Por dentro, não há palavras para descrever os tectos, os frescos, as pinturas, as colunas, adornado com o amarelo do ouro.
Todos os mais famosos tenores do Mundo ali actuaram, entre eles o Luciano Pavaroti…
Regressando a Natal (para mim a melhor cidade do Brasil para os Europeus) tive uma última surpresa: o avião sobrevoou a Amazónia para sul, até Brasília, onde após 5 horas regressei ao relativo sossego da cidade potiguar. Vi de novo um imenso e quase infindável mar verde da selva amazónica, o Pulmão do Planeta!
Já visitei essa maravilha da Natureza que é a Amazónia! – assim pensei no fim do périclo, como se fosse um dever cumprido! Dever de gozo, entenda-se!!!!
Veja aqui o mapa da região visitada.

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

Chegado à Pousada, tenho um recado: o organizador do passeio daquele dia convidava-me , a troco de 100 reais (40 euros) no dia seguinte à mesma hora, visitar a cidade Presidente Figueiredo, 120 kms a norte de Manaus, na Estrada Nacional (BR no Brasil) que vai em direcção a Caracas, Venezuela. Claro que aceitei, estava ali para a aventura…

José Jorge CameiraA viagem foi num ónibus luxuoso (autocarro) pelo interior da verdadeira floresta amazónica, a norte. Que força senti naquela violência de verde, naquele infindável mar de arvoredo bem alto, lutando entre si para obter a maior quantidade possível de raios solares!
Chegado a Presidente Figueiredo diversas surpresas me esperavam.
Foi anunciado o almoço num determinado restaurante onde havia como ementa (cardápio no Brasil) comida à discrição, havendo carne de boi assada na brasa e sardinhas assadas em óleo, portanto fritas. Assadas, dizem eles…
Sardinhas, aqui nesta lonjura? Vou já atacar!
Eram sardinhas sim, mas outras… de água doce, sabor bom mas totalmente diferente das sardinhas portuguesas. Que não, as verdadeiras são aquelas, disseram-me! O que é certo toda a gente preferiu comer sardinhas (com arroz de feijão preto) a comer carne de boi assado.
Vi toda a gente do passeio comendo à farta: sardinhas, picanha, carne de sol (carne dessalgada antes de cozinhar), picanha, saladas, frutas diversas…
O que vou contar é surpreendente, eu vi com os meus olhos: toda aquela gente que comeu «à la gardère» e durante mais de uma hora… de seguida foram todos mergulhar num pêgo das tais águas negras e que havia ali ao lado de um rio. Mergulharam várias vezes e ficaram horas a fio dentro de água!! Chamaram-me para entrar na água, recusei obviamente, invocando o receio de congestão. Riram-se todos:
– Isso é mania de europeu, não mata, não…
Fiquei quedo e mudo e o que é certo todos regressaram a Manaus vivos, sem congestões das tais que pelos visto só existem na Europa!
Enquanto o grupo se refastelava dentro de água com a barriga cheia , fui pesquisar o ambiente.
Outras surpresas! Na outra margem do rio, vi diversas mulheres baixar as cuecas (calcinha no Brasil) e com o rabo virado para cá faziam as suas necessidades para dentro do rio… como a água corre rápida, a respectiva limpeza era automática… havia crianças e muitas outras pessoas, ninguém ligava nem olhavam, só eu, o gringo portuga olhou…
Esse rio é de águas velozes. A água corre em plano inclinado acentuado. Vi com os meus olhos esbugalhados muitos rapazolas fazerem surf sobre a água, de pé ou sentados, sem prancha, apenas com o corpo estendido de costas!
Podem crer – no regresso, dentro do ónibus, ainda se riram de mim, porque não fui tomar banho depois do almoço… caprichos de europeu, dizia um, riam-se todos – troçando sem ofender o gringo-portuga!
(A aventura na Amazónia continua na próxima crónica)

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
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Estando em Manaus, na Amazónia, como contei na última crónica, fui com muita excitação ao passeio no rio, pensando: antes de morrer, poderei vangloriar-me de que já naveguei no Rio Amazonas!

José Jorge CameiraO barco é parecido com aqueles cacilheiros antigos que faziam Lisboa/Cacilhas, antes de haver a Ponte. Na parte de cima havia um lanchinho com muita fruta, queijo e fiambre (presunto, no Brasil). Música, sempre muita música, como em todo o Brasil…
Havia o guia, um cara «légáu», todo cheio de simpatias com este gringo portuga – coisa rara de ser vêr por ali, disse ele. E um outro cara com uma filmadora (máquina de filmar) para gravar todo o passeio e vender as cassetes respectivas a cada um de nós, por 80 reais…
De facto, estar por cima do exacto lugar onde se juntam as águas, ver aquele remoinho de plantas, é visão impossível de esquecer…
O barco acostou numa espécie de grande barcaça ancorada perto da margem (mas que margem, se só via água e plantas?). De um lado uma grande Sala de Venda de Artesanato; do outro a Sala de Refeição onde me fartei de provar os inúmeros petiscos locais, penso que até havia cobra frita.
Depois da refeição fomos ao IGAPÓ, ou seja, parte da floresta inundada pela subida das águas do Rio. O recuo das águas do rio, deixando o leito lamacento à vista, é o IGARAPÉ. Fomos por uma ponte, espécie de jangada comprida, olhar e fotografar as Vitoria-Regiae, mais conhecidas por Nenúfares. Eu, que tenho 1,80m de altura, à vontade me deitava sobre uma e sobrava espaço, portanto uns dois metros de diâmetro. Lindas, verdes, com nervuras castanhas bem nítidas. Por baixo, escondem-se peixinhos… que são procurados pelas piranhas, os famosos peixes dentuços comedores de tudo o que mexe…
Num determinado momento viu-se um grande vulto a 100 metros de distância: era um enorme peixe-boi (mesmo grande como um boi) a devorar um nenúfar…
No regresso para o barco, o guia dá um grito – Ei, meu povo, párem todos!
Uma cobra comprida, totalmente verde, fina, esguia e venenosa viajava de ramo em ramo, passando sem medo mesmo a uns metros do grupo. Côr verde, aviso de veneno…
Houve ainda um passeio de pirogas pelo meio do igapó e outra surpresa nos prepararam – vários meninos vieram ter connosco em barquinhos pequenos trazendo toda a espécie de bichos da selva. Por um real, colocaram-me à volta do meu pescoço uma enorme anaconda, que só eu preferi em vez de uma preguiça ou um saguim (macaco do tamanho da palma da mão).
Olhando as pouco perceptíveis margens do Grande Rio, tão longe estavam, lembrei-me da imensa tarefa «faraónica» que os indígenas de antanho tiveram para tornar produtivas as terras do lado norte do Rio. Não querendo sair das margens por causa da abundância de peixe, transportaram do interior durante séculos grandes quantidades de terra de boa qualidade a fim de terem as suas hortas, regadas pela água ali mesmo à mão. Ainda hoje se descobrem tesouros arqueológicos debaixo dessas terras, entre os quais os conhecidos Vasos Antropormóficos que continham as cinzas dos seus defuntos, vasos esses que são património de elevada protecção pelo Ibama.
Navegando em direcção à foz pode-se visitar cidades fundadas por Portugueses, todas com mais de um milhão de habitantes: Santarém, Arraiolos, Alter do Chão…
Já no barco, de regresso, vejo quase no meio do rio, algo distante, vários barquinhos a motor que se deslocavam para uma barcaça grande presa a uns troncos de algo que parecia ser uma ilhota no meio do rio. Explicou-me o guia que era uma Escola Primária para a criançada. Lá vivia permanentemente uma professora e os pais levavam os filhos de manhã e traziam-nos de volta a casa à tarde, fazendo as refeições nessa ilhota.
Mas que maravilha de organização, pensei eu! Que amor pelas crianças!

Visitar a Amazónia e concretamente a cidade de Manaus foi o concretizar de um sonho da minha juventude. Durante as férias de Agosto passadas na minha Aldeia, um dos passatempos que tinha era a leitura. Foi assim que «vi» a primeira vez o «Pulmão do Mundo» lendo A Selva, de Virgílio Ferreira, e principalmente Os Velhos Marinheiros, obra fantástica de Jorge Amado, escritor brasileiro que deveria ter ganho o Prémio Nobel da Literatura e que influenciou decisavamente a minha personalidade. Nesse livro é impossível esquecer aquela imagem do capitão à força de um barco cujo verdadeiro Capitão morreu na viagem. Na chegada ao Porto de Manaus esse capitão substituto mandou prender o navio com todas as cordas, sendo motivo de chacota na cidade ver-se um navio todo amarrado! Só que nessa noite houve uma tão tremenda tempestade que todos os barcos foram ao fundo menos aquele!
(A aventura na Amazónia continua na próxima crónica…).

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

Estava eu bem espojado no areal fino da praia de Ponta Negra, em Natal (cidade de povo potiguar), gozando das belas visões de coisas semelhantes a passagens de modelos, ali passando «provocatoriamente» à minha frente, e bebendo o doce líquido quase gelado do quinto coco verde (líquido que médicos garantem ser equivalente a soro fisiológico), quando olhei para trás e vi um reclame de uma agência de viagens onde se podia ler de longe a palavra «Amazónia».

José Jorge CameiraDe repente lembrei-me que estava no país onde existe a famosa Amazónia! Pensei: por que não vou até lá? Fui à tal agência e ao fim de meia-hora tinha na mão um bilhete de ida e volta até Manaus e que me custou o equivalente a 500 euros, só a viagem.
É o meu hábito, quando viajo para algum lado a primeira vez, não marco nada, não reservo nada. Quando chego ao aeroporto, sento-me na primeira cadeira e então organizo mentalmente tudo. Onde dormir é sempre a primeira meta a resolver. O resto é por arrastamento dinâmico.
A viagem teve a durabilidade anunciada de 6 horas. Viajei num pequeno mas moderno avião da TAM, com uns 150 lugares que aterrava em cada cidade importante, para sairem uns e entrarem outros passageiros. Saindo de Natal, aterrou em Fortaleza; daqui até S.Luis; S. Luis – Belém; Belém-Santarém e desta cidade finalmente Manaus.
Curioso: em S.Luis (cidade de origem francesa mas com cheiro da arquitetura pombalina) uma pessoa entrou com uma gaiola que continha uns pássaros esquisitos e fez-me uma grande vénia – será que eu lhe pareci algum fiscal do Ibama (o nosso IPAR), que controla também as aves raras de todo o Brasil?
O que me fez lembrar esta viagem? Os comboios em Portugal! Às tantas tive a sensação de viajar na Linha de Comboio da Beira Baixa: sai de Lisboa passa por todas as Estações junto ao Rio Tejo até morrer em Castelo Branco. Portanto no Brasil viajar de avião entre cidades parece uma viagem vulgar de comboio em Portugal. É a força das distâncias naquela Potência Emergente, como agora se diz.
Foi fascinante voar sobre a Amazónia na sua parte leste – ver lá de cima aquele imenso mar verde de árvores, aqui e ali o serpentear de rios ziguezagueando. Bem saliente e dominador, o grande e misterioso Rio Amazonas, bem castanho de suas águas.
Vêr a cidade de Manaus por cima foi para mim uma grande surpresa – estava a contar com uma cidadezinha do interior para ali esquecida, rodeada por florestas cheias de bichos, com 50 ou 60 mil pessoas, casas modestas, essas coisas bem simples dos interiores. Afinal o que vi foi uma cidade de grandes dimensões (nem sei quantas vezes maior que Lisboa), estendendo-se pelas margens do Grande Rio. Imensos arranha-céus, quase tocando no avião no momento da «aterrissagem». Muitos reclames luminosos piscantes de conhecidas multinacionais. Milhões de pessoas, 4, …5, …sei lá ao certo! Um verdadeiro espanto! Junto às margens do rio, imensas casas-palafitas, essas com pernas bem altas para aguentar a subida das águas, onde a toda a hora a criançada mergulha.
No Aeroporto de Manaus fui bem claro ao taxista – Por favor leve-me para uma Pousada boa, o mais perto possível do Rio.
Fiquei na «Sol e Mar» (descobri que tinha comissão combinada), onde por 60 reais diários (25euros) tive uma suite e café-da-manhã bem farto (o pequeno-almoço no Brasil). Instalei-me, tomei de imediato um banho, a humidade ali é alta pois comecei a suar logo após a chegada – qual sauna grátis!
Fui jantar a um restaurante ali perto – o Fiorentina. Tive ali a primeira surpresa. Servi-me duma travessa onde estava um grande peixe cozinhado, a empregada pôs no meu prato um naco bem grande, misturado com um arroz saboroso que ainda hoje não sei que tempero tinha.
Quando comecei a comer o peixe, deparo com uma enorme espinha lateral, uma costela… algumas maiores que o meu dedo indicador! E outras mais apareceram, que guardei e ainda as tenho comigo. Comecei a ver que naquela região era tudo em tamanho grande!
A empregada, com rosto de índia, que olhava atónita para mim, disse-me que foi a primeira vez que viu um Português em pessoa. Porventura um descendente de descobridores ou colonos, terá pensado. Joga-me esta pergunta:
– Posso tocar na mão do «Sior»? Eu nunca vi um Português na minha frente…
Atendeu-me especialmente e o preço também foi especial – uns 15 reais por um jantar farto (6 euros).
Antes de recolher ao quarto, ainda deu para ir descobrir o que seria aquele enorme e persistente barulho que se ouvia cá fora e irradiava uma grande luminosidade para o céu.
Era nem mais nem menos uma grande feira ou mercado ao ar livre e ocupava vários quarteirões, talvez o equivalente a duas ou três cidades de Beja. Ora, como feiras é comigo…fui logo até lá!
Percorri aquilo tudo e valeu-me a boa forma física que geralmente tenho. Tudo por lá se vendia: calçado, roupas, loiças, artesanato indígena, muitas ervas para chás, chás com efeitos iguais ao viagra, mas com garantia de eficácia, vidros, cobres… tudo! Também bicheza da Floresta, mas escondida!
Comprei artesanato e algo que só há naquela região. Existe no Rio Amazonas um peixe enorme e comprido, o pirarucu, que atinge os 200 quilos de peso. Por conseguinte tem escamas grandes. Os artesãos com essas escamas fazem máscaras, escudos de guerra, punhos de lanças. E em cada escama desenham casas, árvores, de pássaros… uma maravilha! Essa máscara que se vê em anexo é feita dessas escamas sobrepostas.
O quarto na Pousada tinha dois níveis. O inferior com a cama e, três degraus acima, estava a casa de banho (no Brasil diz-se banheiro), separados por um lancil de 5 centímetros de altura (coisa esquisita, pensei eu). Mais tarde notei a utilidade.
Antes de me deitar e para não ligar o ar condicionado, deixei a janela da casa de banho aberta, porque me garantiram que não havia mosquitos em Manaus (não acreditei, mas vi que é verdade, escreverei o motivo).
Bem… nessa noite caiu uma trovoada imensa com relâmpagos que iluminavam por completo o quarto! De meter medo ao mais corajoso. Impossível dormir com tanto barulho! Mais luminosidade que aquelas bombas ianques sobre Bagdade! Foi «uma guerra» quase toda a noite…
Não podendo dormir, levantei-me para ir verter águas à casa de banho…
Mal ponho o pé depois do tal lancil, senti água até precisamente 5 cms acima dos meus pés! Tinha entrado água no banheiro, as minhas sandálias boiavam, quais barquinhos….
De manhã, um sol quente, céu limpo e azul, como se nada tivesse acontecido!
Programei com o rapaz da recepção para a manhã seguinte às 9 horas um passeio pelo famoso Rio – a minha grande aventura: ver e navegar no maior rio do Mundo! Preço 70 reais (28 euros) incluindo lanchinho no barco e almoço durante o passeio, virem-me buscar e trazerem-me à Pousada numa Bésta (minibus).
É o chamado Passeio «Encontro das Águas» para os Turistas. Na verdade, em frente a Manaus correm dois rios: O Solimões, de águas barrentas e o Rio Negro, de águas negras. Águas negras, por quê? Porque transporta areias negras ácidas diluídas e o vapor emergente mata tudo o que é mosquito, ovos, larvas… daí não haver mosquitos em Manaus!
Os dois rios viajam paralelamente e 12 quilómetros após Manaus juntam-se, e acontece um momento ímpar na junção – as duas cores fundem-se numa só, num suave remoinho de folhagem… então verdadeiramente e só nesse momento se chama Rio Amazonas.
(A aventura na Amazónia continua na próxima crónica…).

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
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Um dia, apareceram no Vale da Senhora da Póvoa uns homens engravatados a dizer na tasca, em voz bem alta, que queriam comprar volfrâmio, e toda a quantidade que houvesse…

José Jorge CameiraO Ti Valdemar Carolo (nome fictício), de qual já aqui falei noutra crónica, terá dito que tinha muito dessa coisa. Isso gerou uma mudança total na vida dele: vendeu as cabras e começou a extrair sozinho o tal minério para aqueles clientes certos. Era só ir aos buracos, apanhar, carregar os alforges do macho e as cangalhas de dois ou três burros que entretanto comprou e guardar no palheiro, fazendo cagulo, repetindo o mesmo vezes sem conta…
E o dinheiro começou a entrar na vida dele em grande quantidade! Às carradas…
Mas que fazer com tanta nota de mil escudos, se não havia onde as gastar, ou seja, se não havia «coisas» para comprar?
A primeira viagem grande que fez foi a Penamacor ao dentista. Combinou com ele arrancar toda a dentadura, a de cima e a de baixo, cravelhas incluídas, e botar dentuça nova, mas em ouro do amarelo!
Tanta nota tinha, que até deu para forrar a parede interior de taipa da casa. Aquilo dava para tudo, até para limpar o rabo! Isso de se limpar com pedras e ervas já era coisa do antigamente! Algumas notas dessas de cem escudos, do Pedro Nunes, apareceram mesmo na Fonte Santa, no Lameiro e na Serrinha. O povo então dizia, quando por aqui e além encontrava emplastros cobertos de mosquedo:
– Olhem, o Ti Valdemar passou por aqui…esteve ali a baixar as calças!
Era até uma forma de alguns também lucrarem com a fortuna dele, por que o bom do nosso homem, à falta de melhor prás limpezas, servia-se das notas que lhe pingavam dos bolsos !
Estou a imaginar o Ti Valdemar a entrar nas duas tascas do Vale de Lobo e sorrir sem motivo, só para todos verem o «corta-palha» novo e amarelo, brilhando com a luz mortiça das candeias d’azeite!
Num outro dia, ouviu num rádio de válvulas, comprado na Feira de Santo Estêvão, um insistente reclame das canetas Parker 51, muito na moda naqueles anos…
Por que não comprar uma, se havia carcanhol para isso à barda?
Inabanão põe-se a caminho de Castelo Branco, entra numa loja e pede uma dessas tais canetas Parker 51. Que não havia, ainda não tinham chegado à cidade, ter-lhe-à dito o comerciante. Cheirando-lhe a pateguice, informou que tinha uma de outra marca, melhor e mais cara. Por 10 notas (ou seja mil escudos) vendia-lhe uma. Era uma caneta daquelas das feiras, rafeirosas, levantava-se uma mola com a unha que apertava dentro uma borrachinha cheia de tinta e borrava de imediato os dedos, as mãos, o bolso, a camisa… tudo !
Foi essa mesma que ele quis. Pagou e lá foi de volta para o seu Vale de Lobo, onde a mostrou a todos! Na rua prendia-a no bolso da camisa, mas com a dita do lado de fora! Mas para que queria uma caneta, se nem ler e escrever sabia! Mas que ganda metarroano !!

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
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A Meimoa é muito conhecida por causa da respectiva barragem, junto ao início da Serra da Malcata, onde deveria viver o lince, com belos olivais, grandes pinhais, vinhas e a famosa Ponte Filipina (que não o é) que liga a Aldeia à Benquerença e daqui aos Três Povos, Alpedrinha, Fundão, Covilhã, Serra da Estrela…

José Jorge CameiraSabia que para lá da minha aldeia existia uma outra aldeia com o nome MEIMÃO, perto do Sabugal mas ainda concelho de Penamacor, e depressa pensei que o nome MEIMOA tivesse algo a ver com o outro. Mas não consigo descortinar parecenças…
Foi na Meimoa que me estreei na equipa de futebol dos Grandes do Vale da Senhora da Póvoa, aldeia a quatro quilómetros. Ou porque era bom a jogar ou talvez porque faltasse alguém, o seleccionador Norberto convocou-me. Lembro-me que a dado momento, durante o jogo, a bola sobrou para mim e chutei ao calhas para a frente… Só dei conta de dez latagões saltarem para cima de mim (um franganote moreno escanzelado e pau de virar tripas) abraçando-me e quase me esmagando. É que tinha marcado um golo, sem querer é claro, mas o único do desafio.
Os rapazes da Meimoa, capitaneados pelo Nuno Moiteiro, presentearam-nos com uma grade de gasosas do Soito, que serviu para recuperar forças, ainda tínhamos que fazer os tais quatro quilómetros a pé de volta à nossa aldeia…
Houve nesta aldeia um acontecimento célebre que é uma delícia recordar! Em todas as aldeias aos domingos os sinos das Igrejas badalavam às 19 horas, marcando o fim dos bailes e a obrigatoriedade dos jovens irem rezar o terço. Até no nosso Vale isso acontecia, os padres estavam combinados, era marosca, via-se… É claro que só as meninas donzelas iam, mas arrastadas pelas mães, que lhes diziam que só assim garantiam um bom casório!
Essa estória chegou-me aos ouvidos pelo meu Tio Manuel Cameira «Caixeiro», do Vale da Senhora da Póvoa e irmão do meu Avô, contada naqueles serões de Inverno junto à lareira e com os varões com enchido verde a pingar sobre todos. O Ti Manuel Caixeiro casou na Meimôa por volta de 1940 com uma senhora de nome Teresa Manteigas. Foi por essas idas e vindas à Meimoa que ele ouviu esta versão do acontecido e assim ma contou.
Numa tarde de um qualquer domingo, às 7 da tarde, o sino tocou e o baile acabou como era hábito.
O Padre Fernando à hora do terço deu pela falta nos bancos compridos de uma rapariga, a Maria Martins, já em namoro adiantado com o Tóino Berto (tudo nomes fictícios).
Não foi à Igreja, sabe-se lá onde terá estado a aproveitar melhor o tempo…
No domingo seguinte, em plena homília no cimo do púlpito, então não é que o Padre Fernando verbera em público, alto e bom som, que a Maria Martins (citou mesmo o nome dela) tinha faltado ao terço do outro domingo!!! Que era pecado, mau comportamento, imoral, uma vergonha…
A rapariga a chorar foi fazer as queixas ao namorado, e fez muito bem.
A coisa parecia ficar por aí, mas, de repentemente, o caso deu para o torto!
O Padre Fernando era encorpado, barrigona, parecendo prenhice à frente, e atrás um grande, largo e gordo traseiro!
Nessa noite, depois de rezado o terço, houve alguém que surgindo do escuro da rua, ferra uma valente e ruidosa chumbada de flobber no gordo e avantajado rabo do arrogante sacerdote…
– Aqui del-rei que querem matar o nosso santo Padre Fernando!! – gritaram as mulheres, ganindo a caozoada ao mesmo tempo!
– De certeza foi o Toino Berto! – gritaram as beatas da sacristia.
– Que nada, disse o Toino, estava a ouvir o relato do Artur Agostinho do Sporting contra o Salgueiros na Emissora Nacional!
Das desconfianças do autor do crime contra as gorduras traseiras do Padre, passou-se às certezas… foi o Toino Berto, pronto, já está!
Foi feita queixa-crime contra o rapaz na GNR de Penamacor… que ele queria mesmo era matar, tinha que ir para a cadeia, não se faz uma coisa dessas e logo ao nosso querido padre, ministro de Deus!
Foi marcado o dia do Julgamento no Tribunal da Comarca em Penamacor.
Entretanto, no «hospital» da Dona Bárbara de Penamacor, foi retirada uma boa mão cheia de chumbinhos do bundão do Padre – estou a imaginar o enfermeiro com uma pinça procurando dentro das entremeadas as bolinhas metálicas reluzentes de toucinho!
O Padre foi instruído para arranjar testemunhas.
– Até tenho muitas ! – disse ele, com ar de vingança demoníaca, esquecendo o perdoar das ofensas no Pai-Nosso.
Nos oito dias antes do julgamento, houve reunião diária, mas nocturna, marcada pelo Padre Fernando na sacristia da igreja com meia dúzia de beatas que assim orquestraram o testemunho contra o rapaz… Que sim, que viram o rapaz com a arma na mão, que disparou contra o Padre…
No dia do julgamento, o juiz interrogou uma a uma essas testemunhas… e todas diziam exactamente a mesma lenga-lenga, originando desconfianças. Terá interrogado de novo cada uma das mulheres de per si para saber quem lhes tinha ensinado aquelas respostas todas iguais.
Ingenuamente, lá foram dizendo que foi o Senhor Padre Fernando que as ensinou a responder daquela maneira na Sacristia, todas as noites, parecendo uma cantoria em coro…
Resultado: essas testemunhas beateiras foram todas um dia-de-cana para o xelindró a ver a Lua aos quadradinhos… e o Toino Berto foi ABSOLVIDO!
Nessa noite na Meimoa parecia a noite de Natal! Houve foguetes nos céus, mandaram até vir o acordeonista do Vale e comeu-se à la gardère um vitelo de churrasco no centro da aldeia bem regado com vinhaça da boa com que todo o Povo se alambazou, celebrando a vitória contra a Inquisição e o Inquisidor local!!
Muitos chumbinhos ficaram sossegados para sempre no rabo clerical, mais valeu isso que arriscar uma paralisia…

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
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A minha chegada ao Sabugal teve também um certo impacto nas Colegas, nas meninas. Esquisito, mas elas olhavam para mim com ar de quem via uma ave rara…Se calhar era porque viam sempre os mesmos rapazes da Vila, ano após ano. Eu era sangue novo naquela acalmia social!

José Jorge CameiraOlhares matreiros, sorrizinhos, joguinhos de olhos, bilhetinhos com mimos atirados para mim durante as aulas… a minha auto-estima subiu para valores inimagináveis !
Até cheguei a pensar que afinal eu era um rapaz bonito, catancho!
Houve uma menina que me chamou uma atenção especial. Era aloirada, olhos azuis, rosto redondo, de coranço rápido, vestidinhos amarelos, verdes, limpíssima, exalava meiguice, inacessível … E não era menina fácil, nem me dirigia especiais olhares…
Um dia, numa festa no Externato, até declamei um poema dedicado a ela! Eu que sempre detestei poesias, tive que procurar um poema adequado num livro antigo, não fossem descobrir que o dito poema não fora da minha lavra…
Mas eu já sabia, apesar dos meus verdes 18 anos, que um rapaz com tempo e paciência, consegue namorar com qualquer rapariga que deseje ou escolha! Bastava marcar a «presa»! Mais tarde ou mais cedo, seria minha namorada, eram favas contadas!
Tinha o meu objectivo supremo quase alcançado – namorar com a difícil Colega – quando um dia, no fim dum período, fomos esperar as camionetas que traziam os estudantes da região da Guarda.
Estava eu com a minha mão tocando de raspão na mão dela (de bmão dada era impossível), quando da camioneta saiu uma estudante que eu não conhecia, que se me dirigiu e disse:
– Tu és o Zé Jorge?
– Sou…
– A tua namorada não pôde vir e manda-te cumprimentos…
O chão desabou sob mim, senti as pernas perderem força, quase que desmaiei! A menina dos meus olhos, ali ao meu lado, corou e abandonou-me logo ali para sempre, de nada valendo os meus bilhetinhos e inúmeros argumentos sobre a falsidade do acontecido.
Dessa vez senti-me injustiçado. Tanto trabalho, tanto ardor… para nada, era ali o fim do meu sacrifício! Era mentira e nem sei até hoje como e quem forjou aquela armadilha! Talvez tivesse sido a mando do gajo com quem ela casou…

Sendo eu do Vale e estudando no Sabugal, onde se faziam grandes jogatanas no campo pelado do Sporting Clube do Sabugal, foi natural eu organizar um jogo de futebol entre a malta do Vale e colegas do Externato.
Num domingo combinado, eis que a minha aldeia é atravessada por um vistosa camioneta com a bandeira do Sporting do Sabugal. O Alexandrino, o capitão dos sabugalenses e colega do 4ºano, diz-me então:
– Zé Jorge, cá estamos nós, não te aflijas porque veio a equipa de juniores do Sporting. A malta do Externato afinal não apareceu e então viemos nós, fazemos um treinozinho nas calmas…
– Alexandrino, não foi isso que combinámos e assim vamos levar uma abada!
Lá fomos para o nosso estádio – aquela nesga de terreno em frente à porta da Ermida da Senhora da Póvoa.
A nossa equipa reuniu e dissemos todos: a nossa única esperança são as árvores. Os gajos do Sabugal são melhores que nós, mas não sabem das árvores e vão marrar nelas de certeza, até pode ser que a gente ganhe com a ajuda da Senhora da Póvoa!
– E tu, Zé Jorge, como és alto, ficas à baliza!
Bem… aconteceu mesmo a tal abada! Os gajos do Sporting pareciam endiabrados e nem as árvores os paravam. Chocavam com elas a toda a hora, sim, mas levantavam-se logo!
Perdemos e por 7 secos!
No fim do jogo, uma mulher que estava sentada no paredão ali mesmo perto do coreto, vem a correr na minha direcção, arreia-me várias vezes com a sombrinha e grita bem alto e repetidamente:
– Traidor ! Vendido ! Zé Preto dum raio!
(Na aldeia era esse o meu nome e não Zé Jorge. Por que a minha pele era morena, mesmo escurinha…)
Durante o meu 5ºano de Ciências, quando me apercebi que conseguia manter a média de 12 valores, decidi organizar um grande convívio (baile e jogo de futebol) entre a malta do Externato e alunos do Colégio de S. José da Guarda, conhecia muita malta de lá e entre eles o António Marques. Correu tudo bem: o jogo ganhámos por 2-0 (eu com uma bela exibição que quase fui chamado para internacional junior) e o baile abrilhantado pelo gira-discos do Nélito Alexandrino correu do melhor, as meninas foram aos «milhares» dançar preferentemente com os rapazes da Guarda, mesmo com o cheiro a suor da jogatana, banho só lá em casa na Guarda…
Conheci o António Marques quando eu era estudante no Outeiro de S. Miguel, teria uns 16 anos. Um dia disse-me:
– Ó Jorge, vamos a Pinhel. Vamos ver as meninas que dizem ser lindas e jeitosas…
Levou-me a casa dele (o pai era um conhecido professor egitaniense) e perante o meu espanto pegou da garagem o Carocha preto do pai e lá fomos até Pinhel, mesmo sem carta de condução.
O António vivia numa cidade, a Guarda, que nos meses de Verão enchia-se de milhares de turistas. Para compensar do frio dos Invernos…
Conheceu no Jardim Público e durante as Festas de Agosto uma jovem turista sueca que estava acampada com os pais no Parque de Campismo. Era lindíssima, cabelos loiros compridos, olhos azuis e um corpo atlético que todos olhavam…
O meu amigo entrou em intimidade total com ela. Diariamente bebia e abusava daquele mel e o feitiço tomou conta dos seus sentidos, a ponto de querer convencê-la a ficar na Guarda! Mas que ilusão mais maluca!
Os pais dela, após 15 dias na cidade, pegaram na caravana e foram para outras paragens, foi para isso que vieram da Suécia, para férias…
Foi depois daquele jogo de futebol do Sabugal, em que eu e o António Marques jogámos como adversários, que eu soube da notícia que me derrotou a alma durante muito tempo:
O António, roído de saudades da sua linda sueca, foi à casa de banho do Jardim da Guarda e ali mesmo pôs termo à vida!
Mas que desperdício!
Ali bem perto do campo de futebol do Sporting, onde se realizou o tal jogo contra o Colégio de S. José, vivia numa moradia uma linda e prendada menina que namorava um rapaz da Vila que não era lá muito masculino. Houve até um colega que afirmou peremptoriamente que espreitou atrevidamente pela janela da casa e viu-o a fazer bordados…
Passados uns anos fiquei a saber que essa menina afinal não casou com o rapaz dos «bordados» e é hoje a companheira dum meu amigo de sempre dos Fóios…
Neste Externato consegui um relativo sucesso escolar: após fazer o 4ºano, no ano seguinte decidi como aluno-maior preparar-me para a Secção de Ciências do antigo 5ºano.
Fiz todas as provas escritas e orais no Liceu da Guarda e consegui a média que eu estabeleci: 12 valores… ena cum catano!!
Porque mais do que esta nota, seria privar-me de muita coisa!!!

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
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O Dr. Salgueiro era o professor de Matemática. Era do tipo seminarista, daqueles que desistem no último ano, sempre com casaco e calças terylene, camisa tv com esticadores e gravata com pregador. Logo de princípio começou com um implicanço contra mim, mas com um tom positivo.

José Jorge CameiraBonzinho, não chateava muito. Não era um professor-inimigo! E porquê?
Como já escrevi, eu estava hospedado na casa da Dona Alexandrina, cuja distância da parede do Colégio era precisamente a largura da rua, uns cinco metros.
A aula de Matemática era sempre a primeira da manhã, às oito e meia. Como eu andava quase sempre na borga até às tantas, ou no petisco ou a jogar à lerpa, para mim era difícil levantar-me cedo e chegar a horas à aula. Então no Inverno, era um suplício, sabendo que o Sabugal recebe os ventos gélidos de Espanha e da Guarda.
Então chegava sempre atrasado às aulas do Dr Salgueiro.
– Então Sr. Jorge, atrasado? Que se passou?
– Ó Sôtore, moro longe, tenho de vir a pé, desculpe lá… Respondia eu, gemendo de fingimento.
Esta conversa provocava sempre uma caterva de risos, principalmente da Lena Ermidinha, que ria como se fosse uma gata a ser esganada. Que provocava risos histéricos!
Era o aluno que morava mais perto do Colégio! E o último a entrar na aula!
E o pobre (salvo seja) do Dr. Salgueiro ali sobre o estrado, com o ponteiro na mão abanando, compreensivo com os atrasos, nunca percebendo até ao fim do ano por que razão todos se riam daquele meu paleio frouxo…
Uma vez foi demais a risada: caiu um grande nevão e eu, mal saí de casa, fiquei logo com neve até aos joelhos! Cheguei atrasado, como era hábito…
Mal abri a porta da aula, o Dr Salgueiro disse:
– Ó Sr Jorge, não precisa se desculpar pelo atraso, entre lá, já sei, compreendo ter demorado tanto tempo a chegar, com este nevão…
A risada foi total e mais forte nesse dia…
Mas houve uma partida que fiz com outro colega que o Dr. Salgueiro nunca descobriu.
No ano seguinte, estava eu no 5.º ano, apresentou-se no Externato um aluno vindo de Beja! Filho de uma família abastada do Alentejo, o pai mandara-o estudar para o Sabugal acompanhado pela tia, para fugir às traquinices de uma grande(!) cidade como Beja. A fama de disciplinador do Dr. Diamantino chegava bem longe!
Só que esse aluno não era um qualquer. Tinha um Morris Cooper S à porta do apartamento onde vivia! Às vezes acelerava e o ruído do motor com dois colectores de escape roncava por toda a vila!
Um dia esse colega bejense diz-me, antes de entrar para a aula de Matemática do Dr. Salgueiro:
– Ó Zé Jorge vamos faltar à aula, tenho uma coisa melhor para fazermos.
Levou-me para junto do carro do Dr. Salgueiro, um Ford Cortina 1600 GT, quase novo, estacionado frente ao Colégio. É que o colega alentejano tinha reparado que ninguém tirava as chaves dos carros, incluindo o nosso professor – naquela pasmaceira de vila, quem é que roubava carros? Então disse:
– Vamos levar emprestado o carro do Salgueiro, vamos até Vila Boa, eu olho o relógio, cinco minutos antes de acabar a aula, pomos o carro no mesmo sítio onde ele o deixou.
Assim aconteceu… grande passeata fizemos e eu, claro, aqui com um grande aperto!
Só nós dois entendemos por que vimos da parte da tarde o Dr. Salgueiro a pedir ajuda a alunos para empurrar o carro até à bomba de gasolina! E olhando de vez em quando debaixo do carro… pensando:
– Será que tenho aqui algum furinho por onde a gasosa se foi?
:: ::
Havia também o professor de Religião e Moral, um padre todo prá-frentex, que era a pessoa mais esquisita que havia no Colégio. Por que seria que pagava cinco Tostões por cada matrícula de carro que lhe trouxessem? Fartei-me de ganhar dinheiro com ele!… até pensei: se a religião católica, a dele, é assim, então vou já rebaptizar-me!
:: ::
Qualquer estudante que se preze, o copianço nos pontos ou testes é uma obrigação.
Eu via os meus colegas, eles e elas, fazendo cabulazinhas bem enroladas, escondidas junto aos pulsos ou dentro das meias.
Achava isso assim meio-esquisito, porque o acto de fazer uma cábula já era estudar!
O que desvirtuava o «copiar», uma arte engenhosa do estudante que se preze e queira ter sucesso, passe a contradição!
Recordo-me duma cena passada num ponto com o Dr. Moreira, alentejano de Campo Maior, fanático pelas coisas do futebol. Foi numa sala de um apartamento que o Dr. Diamantino anexara ao edifício principal do Externato.
No dia do teste, coloquei sobre a secretária do Professor, o jornal Record que trouxe do Altobar, mas de uma semana atrás. Logo que ele distribuiu a folha das perguntas, sentou-se e tal como previsto, começou a folhear o jornal.
O teste parece-me que era de Botânica. Olhei à volta e vi todos tirarem as cábulas, eles e elas de esconderijos corporais diferentes.
Eu que era avesso a cábulas… peguei no livro de Botânica, o próprio, abri e folheei onde era preciso e assim respondia às perguntas. Era só copiar dali para aqui… e esperar por um 15 ou 16!
Mas eis que algo inesperado aconteceu.
A colega ao meu lado sentiu-se aflita vendo o meu livro de Botânica ali escaqueirado à minha frente e começou a sentir-se mal: Tinha-lhe aparecido o «incómodo»… como nós os rapazes nos referíamos ao problema mensal das senhoras.
Perguntaram-lhe o que tinha causado aquela aflição àquela hora e assim teve de contar o que vira!
E assim nasceu no Externato a minha fama de terrível «copiador»!
:: ::
Tínhamos a Professora de Inglês, uma lady sempre de mini-saia, doutora de Coimbra com 20 e poucos anos, que desconfiando dos meus 17 e 18 nos pontos de Inglês e sabendo que eu não era amigo de estudar aquela disciplina, colocava-me bem à frente da sua secretária no dia dos testes. Mas era assim mesmo: não era preciso estudar para eu ter notas boas a Línguas.
Era inadmissível que eu tivesse mais sucesso que o Tomás, colega que era um marrão, de fatiota, sempre limpando as unhas, sem noitadas e cujas nota máxima era o 10 ou 11 nessa disciplina. Contrastando com os seus 16 ou 17 a Matemática!
A malta sabia que a professorinha estava hospedada na Pensão perto dos Correios e então nós à noite subíamos às árvores para vermos o «streap» dela no quarto. Credo, era toda boazona em cada centímetro do corpo! Alguns de nós vimos pela primeira vez o corpo nú de uma mulher…
Ganda vida, esta de estudante!!!

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

Tinha acabado o ano escolar no Outeiro de São Miguel, colégio situado num ermo a poucos quilómetros da Guarda, e fui para férias do Verão para a minha aldeia, o Vale da Senhora da Póvoa. É então que o meu Avô me comunica que no próximo ano me ia matricular no Externato Secundário do Sabugal para frequentar o 4.º Ano do Liceu.

José Jorge CameiraOu por estar perto da aldeia, ou porque tinha lá amigos que lhe recomendaram esse colégio dirigido pelo Dr. Diamantino, que tinha já fama de competente, disciplinador e com um bom grupo de Professores.
De princípio o assunto não me agradou muito, porque estava perto da minha Aldeia e o meu Avô poderia controlar melhor os meus passos e o pior de tudo seria a possibilidade de ele aparecer de repente por lá. Ora eu naquela idade queria, desejava, precisava de rédea solta…
Pensando melhor depois, aceitei a ideia, porque seria uma espécie de dois em um: era uma rambóia no Sabugal e outra aos fins de semana no Vale… Mas que boa vida de aventura eu iria ter!
O Sabugal é hoje cidade, mas é povoado que ficou pertença do Reino de Portugal pelo Tratado de Alcanizes, ao tempo do Rei D. Dinis, em pleno Século XIII. Por ser perto de Espanha, teve imensas estórias de contrabando de e para Espanha: para lá ia o café, o bacalhau, tabaco das marcas Porto, Definitivos e Kentucky e de lá vinha aquele saboroso pão formato quadrilátero além de outras coisas… era o tempo que 1 Escudo valia 2,5 Pesetas.
Famosas aldeias são deste concelho – Quadrazais, Fóios (terra do meu amigalhaço Ismael Sanches Vaz), Soito (das laranjadas e das castanhas)…
O Castelo é o ex-libris –«Castelo de Cinco Quinas só há um em Portugal ; fica nas margens do Côa, na vila do Sabugal».
À volta da Vila corre preguiçoso o Rio Côa – o único Rio de Portugal que vai para Norte, desaguando no Rio Douro. Por coincidência, ou talvez não, tem muitas semelhanças com o Castelo de Beja. O de Beja tem apenas «4 quinas», mas os documentos históricos dizem que a sua primeira reconstrução conhecida foi no tempo de D. Dinis, rei este que tem muito a ver com o Sabugal.
Chegou Outubro, fui para o Sabugal. Estava a papinha feita: ficaria hospedado na casa da Dona Jesus Alexandrino, uma casarona com quintal mesmo ao lado do Externato, com cama e comida prontinha na mesa. Na casa havia mais dois colegas estudantes do mesmo colégio, o Joaquim Corte e a Leopoldina de Santo Estevâo que haveria de casar com o Manuel Félix do Vale, já falecido.
Foram feitas as apresentações no Externato, mas eis que começam cedo as «confusões» – boas, entenda-se…
No Colégio conheci vários colegas, entre outros que já esqueci o nome: Orlindo Metaio, o Zé Rente, o Ferreira, o Zé Carlos Mendes, um gajo grandalhão e já com ares de intelectual…
Raparigas, algumas ainda lembro o nome: Hortênsia Malaquias, a Milice, Alice, a Lena Ermidinha, Isaura, as duas Fernandinhas.
O Zé Rente, lidei com ele os dois anos que estive no Colégio e tive uma admiração especial por ele: teve um acidente quando era mais novo – fez uma imitação de pistola em madeira e ao experimentá-la, o fulminante atingiu um dos olhos e cegou. Mas isso nunca o impediu de ser um exímio jogador de bola. Pegava na bola numa baliza e ia fazer golo na outra, sempre com toques de bola, saltitando no sapato dele… A fintar, era arte e finura em pessoa.
Mas tivemos as nossas makas: queria ser líder, mas eu também queria!
Casou com uma colega do Externato, a Vitória Pinto de Santo Estevão.

O Faustino (nome fictício) era um colega vivaço, sempre bem disposto, voluntarioso, fortalhaço, sempre rindo e um ás a jogar às damas. Ninguém no Sabugal o derrotava no tabuleiro do AltoBar!
Foi neste café que aconteceu uma estória engraçada.
A rapaziada bebia cerveja Sagres, a tal que custava 7 escudos.
Um dia foi uma risada geral quando um emigrante que chegou de «vacanças» e todo vaidoso pediu uma «bièrre» e cobraram-lhe 10 escudos. É que a «bièrre» é mais cara! – disse o empregado.
O Faustino logo nos primeiros dias disse a todos da turma, perante a minha estupefacção:
– Ei, malta, temos um novo colega, o Zé Jorge, temos que celebrar a vinda dele para o Externato! Na próxima segunda-feira, todos para minha casa à noite.
A recepção à minha chegada ao Sabugal foi assim programada o que deu ensejo que nesse fim de semana eu tivesse «subtraído» dois garrafões de vinho nas barricas da minha casa no Vale da Senhora da Póvoa.
Na noite da segunda-feira lá fui eu, éramos 12 ao todo. Já os tinha visto no Externato e só isso.
Quando entrei na casa do Faustino estava uma grande lareira acesa, grandes brasas que iluminavam uma grande sala. Sobre aquele braseal, várias galinhas assavam e estavam preparadas também chouriças. Pão… e, mesmo a calhar, os meus garrafões de vinho tinto.
Foi uma noitada de comer e beber, como eu nunca tinha tido na vida. Uma farra completa!
Alguém disse para irmos dar uma volta pela vila para refrescar a cabeça do tintol, depois voltarmos para a segunda demão.
Assim foi: passear, cantar, fazer barulho, pedradas nos gatos, alguns até com ruidosos traques que provocavam grandes gargalhadas! Alguém dava um, alguém respondia com outro.
Ora fazer algazarra a essa hora e naqueles tempos, a coisa tinha que dar para o torto. Podia ser coisa subversiva ou coisa de comunistas!
De repente lá em cima na rua principal e junto à Igreja ouvimos os apitos da GNR (os policias odiados de então) e os avisos habituais da bófia:
– Parem em nome da Lei! Ou vão todos presos!!!
É o páras!! Páro, o tanas… ai, pernas para que vos quero…
Nós os 12 começámos a correr pelas ruas fugindo aos GNR’s, cada um para o seu lado, e para agravar a situação, estávamos atordoados pela pinga e de barriga cheia de petiscos.
Lembro-me que fugia deles e sentia um preguinho do salto do meu sapato esquerdo que entrava e saía dentro do meu calcanhar, mas não havia hipótese: tinha de correr e muito!
Estava eu correndo com outro e chegados aquele pequeno jardim atrás do edifício onde era na altura as Finanças, ouvimos um voz forte e autoritária:
– EI , QUEM VEM LÁ?
Por instinto, julgando ser um dos polícias, eu e o meu colega jogámo-nos por aquela ribanceira que vai dar lá muito em baixo ao Rio Côa. Caímos no meio das silvas, rebolámos, ficámos todos arranhados, rasgados…
Inabanão, ouvimos alguém rir: era o Faustino que estava escondido e ouvindo os nossos passos, gritou daquela maneira! Mesmo na altura do perigo, ele gozava com a situação…
As correrias continuaram e eram 5 da matina entrei no meu quarto na casa da Dona Jesus Alexandrino.
A coisa não terminou assim. De manhã a ramona da GNR foi prender 11 moços, debalde procuraram o décimo segundo, que era eu…
Não fui dentro porque era novo na vila, ninguém me conhecia e os 11 não piaram!!
Acreditem: pelas 11 da manhã pedalava eu na bicicleta do Joaquim Corte junto ao local onde estavam de cana os meus colegas. Passaram algumas horas no xelindró e quando saíram, começámos logo de imediato a arranjar OUTRO MOTIVO para uma festança igual. O vinho das pipas da minha casa na aldeia estava garantido!

Um mês depois da aventura em que interveio a autoridade, apareceu novo motivo para uma festança entre os que estudávamos no Sabugal: o Faustino avisou que fazia anos e que tinha de haver festa!
– E tu ó Zé Jorge, não te esqueças de trazer uns garrafões de vinho, mas roubados, assim até sabe melhor a pinga…
Assim foi. Na tal sala da casa dele comemos um belo guisado de coelho e disse que foram roubados em Vila Boa. O Faustino avisou logo que era tudo para nós comermos, ela não iria comer por estar com uma grande dor de barriga!
Era um guisado feito numa panela de ferro das antigas e o cheiro entrava pelos narizes. Apiguilhado pelo vinho do Sr Tenente (o meu Avô do Vale), então foi o máximo. Ganda comezaina, cum catano! Não meteu barulho nas ruas, senão haveria outra «séjour» detrás das grades…
Estava a panela bem raspada, até houve quem passasse pão por dentro para aproveitar o molho como gulodice, quando o Faustino pediu silêncio. Aí vem discurso, pensámos!
– Oiçam, vocês lembram-se daquela gata velha em casa da minha avó, lá no cimo das escadas, cega dum olho, deitava pus amarelado, era um nojo, a velhota pedia-me muitas vezes para a matar?
– FOI ESSA GATA QUE VOCÊS ACABARAM DE COMER!!!
E começou rindo desavergonhadamente, segurando até a barriga…
Bem. Imagine-se a malta a sair correndo para a rua e todos enfiando o dedo bem fundo na goela para vomitar! Eu também. E injuriando o gajo… que ainda se ria perdidamente!

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

Conto agora a verdadeira estória do comboio comprado por alguém de Vale de Lobo, o Vale da Senhora da Póvoa de hoje, no tempo da exploração do Volfrâmio.

José Jorge CameiraO Ti Valdemar tinha um problema com os estamportes, quando tencionava sair do Vale de Lobo para ir à cidade comprar qualquer coisa….
Ouviu falar que ali para os lados da Fatela, havia uma Estação de Caminho de Ferro que servia Penamacor e o concelho e na qual havia comboios e concerteza que haveria de haver um à venda. Com um cambóio, as suas viagens estariam facilitadas, era pouco digno para ele viajar sentado na albarda do burro!
Lá foi até à tal Estação, não sem antes atafulhar os bolsos com notas de Mil Escudos, aquilo era pesado, ouvira dizer, portanto devia ser caro…
Na Fatela estava um varredor, pacientemente limpando os trilhos paralelos de ferro com uma vassoura de estevas. O Ti Valdemar chega-se à fala com ele e podemos imaginar o diálogo, porque o que sucedeu… aconteceu mesmo!
– Ó Ti Homem, ouvi dizer que há aqui um cambóio para vender…
– Vem mesmo na hora certa, está aqui este, é de mercadorias, já não serve e vendem.
– Faça um preço justo que eu compro.
O homem vendo que estava ali um lorpa e paspalho, alambazou-se logo para cima:
– Vendo-lho por cem mil réis e olhe que está muito barato.
– Pegue lá já o dinheiro e quando é que posso vir buscá-lo?
– Quando vossemecê quizer…
O Ti Valdemar pensou numa maneira de levar o comboio para a terra:
-Trago um carro de bois, 2 ou 3 calabres (cordas) dos mais fortes e reboco o meu cambóio…
Um vizinho, o Ti Tó Nabais tinha o «Borisca» e a «Cereja», uma parelha valente de bois que bem picados puxariam facilmente aquela bisarma andante.
Passados 15 dias o Ti Valdemar voltou à Estação para levar o «seu» cambóio, mas na verdade já não estava lá, tinha seguido o caminho para que fora feito: levar e trazer mercadorias…
O varredor por certo mudou-se para uma vida mais confortável, porque com CEM MIL RÉIS poderia viver sem fazer nada durante alguns anos…
O Ti Valdemar Carolo quando morreu, estava desdentado – com o fim da guerra e a derrota dos maus, acabou-se a procura de volfrâmio.
Para comer e beber foi arrancando e vendendo os dentes um a um, por fim o cravelhame fora-se todo….

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

Irei contar neste espaço do Capeia Arraiana algumas estórias verdadeiras vividas no Vale da Senhora da Póvoa, as quais me chegaram por duas vias.

José Jorge CameiraA minha Tia Ana (irmã do meu Avô) nasceu em 1886 e faleceu com 99 anos. Era uma mulher perspicaz, alta e forte, de quem eu confesso que tinha medo, uma chapada dela matava-me de certeza e por isso tive de aprender a correr muito. Juntamente com outras irmãs, irmãos e sobrinhos, naquelas noites de Inverno gélido características da região, ficavam à roda do lume de chão, com as panelas de ferro onde se fazia o comer e normalmente dependuradas pelas trempes negras de fumo que surgiam dos interiores já bem encarvoados da lareira. Foi nessas noites que ela me contou algumas estórias que ainda recordo.
Outra fonte foi o Ti Manel Adriano era homem alto, corpulento, mas perneta. Vivia de fazer vassouras e vendê-las ao povo. Tinha uma perna de pau e apoiava-se num grande e ameaçador bordão. No Inverno usava um grande e pesado capote amarelado, que mais parecia um cobertor de pápa. Quando se ouvia o toc-toc da perna postiça nas pedras da Rua Direita já se sabia que ele ia para casa. Era então que a moçada ia atrás dele injuriando-o e atirando-lhe pedrinhas. Ele então virava-se para trás, fazia zunir no ar o bordão em círculo e lançava um grito pior que um rugido de leão:
– ARREDA QUE VAI DA PÓSTA!
E os passarinhos em forma de gente fugiam chilreando pela ladeira da Igreja acima…
Eu, ou por lhe ter medo ou por pensar que fosse contar ao meu Avô (o tenente Cameira, então Presidente da Junta de Freguesia) que eu também o «judiava», o que originaria as inerentes sevícias, nunca me meti com ele. O que me valeu ser pessoa, melhor dizendo menino, com elevado estatuto de confiança junto de si.
Daí que ele me contou muitas das estórias que guardava na memória. As narrações aconteciam numa escadaria de recanto que havia do lado esquerdo de quem desce a Rua Direita, antes do Chafariz. Mas algo insólito aconteceu um dia comigo e com ele. Ainda hoje não sei os porquês, uma tarde o Ti Manel Adriano pede lá em casa que me deixem ir jantar à casa dele…
Vestiram-me um calçanito branco ou beje e lá fui todo lampeiro, até levei uma garrafa de vinho, lá na nossa casa havia várias pipas cheias.
O Ti Manuel Adriana fez-me sentar num mocho (esses banquinhos baixos, feitos de folhas grossas de cortiça) enquanto o crepitar da lareira fazia o guisado de carne. Assim foi, comi daquilo à farta, sabe melhor na casa dos outros e ainda mais por insistência dele. Pelas 11 da noite, sonolento, voltei para casa e no outro dia havia risada da grande por parte das minhas primas!
É que na retaguarda dos meus calções estava desenhado a negro da fuligem o tal mocho onde me sentara na casa do Ti Manel Adriano!
Decorriam os anos de 1940 e havia imensas convulsões políticas, sociais e bélicas por essa Europa. Acabara uma guerra que fora um balão de ensaio para outra bem mais mortífera.
Em Portugal reinava esse Cônsul déspota de nome Salazar, que urdia planos camaleónicos – ora autorizava os ingleses e americanos a utilizarem os Açores e a Madeira, para apoio logístico de aviões e barcos carregados de bombas nos bojos, ora vendia ao III Reich de Hitler e Goering, alguns produtos alimentares em conserva e determinado minério, matéria prima necessária para os fabrico de blindados Panzers para o Africa Corps do nazi Himmler no Norte de África.
Esse minério – o volfrâmio – sempre o houve no Vale da Senhora da Póvoa, já os Romanos, Celtas e Mouros sabiam disso!
Houve um conterrâneo do Vale de Lobo (em 1955 mudou o nome para Vale da Senhora da Póvoa), o Ti Valdemar Carolo (nome fictício), que passava a vida apascentando as suas cabras um pouco mais acima da Ermida da Senhora da Póvoa, em Sortelha-a-Velha, nos contrafortes de cá da Serra da Opa, vigiando-as não fosse o demo empurrá-las para dentro de uns buracos que por ali havia tapados por silvas. O rebanho era controlado por estridentes assobiadelas e o zurzir sonante das varas de marmeleiro e por um possante cão rafeiro, que malhava dentadas nos animais mais ariscos.
Tornou-se dono desses tais buracos onde os antigos extraíam essa «coisa» pesadota, bem escura e de cheiro pestoso.
Há uma estória – será lenda? – em que um dia o Ti Valdemar terá visto uma alcateia de lobos descer a encosta da Serra da Opa, vindo dos lados do Anascer. Tendo enxotado as suas cabras em direcção à aldeia, atraiu para si esses predadores, empoleirando-se no alto de uma árvore e ali permanecendo dois dias e duas noites, até que os bichos abalaram, cansados de tanta espera…
Será que vem daí o nome «Vale de Lobo»?

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

Esta e outras «estórias» que se seguirão nesta coluna serão contadas semanalmente pelo José Jorge Cameira, um filho do Vale da Senhora da Póvoa (que noutro tempo se chamou Vale de Lobo) e da Moita, que está radicado na cidade de Beja, onde vive e trabalha há muitos anos.
jcl e plb

JOAQUIM SAPINHO

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