A terceira guerra púnica, arrastando as legiões para o oriente, aonde se havia refugiado Aníba1 e a perseguição que teve de ser feita a este e aos seus aliados acabou por deslocar o eixo do Império, cada vez a tender mais para a orientalização.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaRoma, capital unida e incontestada, começou a ter de dividir com outras cidades a sua eminente dignidade de cabeça do mundo antigo.
A tetrarquia, com os dois césares e os dois augustos, cada um dos quatro instalados em diferente parcela do Império.
E, mesmo antes, quando Roma atinge o auge territorial, que coincide com a época de Trajano, a orientalização ensaiava-se já.
Como todas as coisas deste mundo, com vantagens e desvantagens. Daquelas, a mais importante consistiu certamente na sobrevivência da Império Romano do Oriente, por cerca de mil anos, à deposição de Augustulo.
A sua capital, a Bizâncio pré-romana, nome aliás mantido até Constantino que a crismou com o seu nome, a Istambul, segundo o recrisma dos turcos seljucidas, até pareceria criada para fazer a união entre dois mundos, que, todavia, até hoje ninguém conseguiu fundir ou manter aparentemente unidos a não ser por períodos curtos e com a hegemonia, em regra tirânica, de um deles.
O desatino começou logo com o cerco de Tróia querepresenta mais do que lendária antecâmara das más relações entre os povos de aquém e além do Bósforo, em todo o devir histórico.
Aos aedos que construiram ou carrearam o material para a Ilíada e a Odisseia, a Virgílio que na Eneida nos faz remontar ao mais fragoroso do cerco ilíaco, podemos já juntar trechos históricos ou quase históricos, como o «De rebus gestis Alexandri Magni», de Quinto Cúrcio Rufo; a «Retirada dos dez mil», de Xenofonte; os trabalhos de Tucidides…
As guerras médicas, sob outro nome, e tendo como contendores outros povos, ou mais precisamente os actuais representantes (melhor os que em cada época ostentam tal qualidade) vêm-se revelando uma constante.
A Europa, minúsculo apêndice superpovoado das imensidades asiáticas tem, salvo em períodos especiais, conseguido triunfar.
Muitas vezes, pelo engenho ou pela astúcia.
Desde, aliás, o Cavalo de Tróia, de cujo bojo saíram os incendiários para a noite terrível:
Quis cladem illius noctis, quis funera fando Esplicet aut possite lacrimis aequare laboris?…. Crudelis ubique.
Luctus, ubique pavor et plurima mortis imago.

Assim relata Eneias, tebano salvo por sua mãe Vénus (pois era apenas semi-deus, porque filho de homem, Anquises) o que foi a noite de Tróia, quando o enorme paláicio de Deifobos se transformara em ainda mais enorme braseal.
Simbólico, o cavalo prenuncia novos e bem mais vastos incêndios.
A tomada de ConstantinopIa, pelos janizaros de Maomet II, quando em 1453 acaba o Império Romano do Oriente.
A História tinha sinistras falhas,
Uma das quais se chama Kerkaporta…
Grasnam corvos, recrocitam gralhas
Bizâncio é já cidade morta…

União contra-natura de tantos e tão desencorados povos, em qualquer das suas versões, continha em si mesmo o fermento para todas as guerras e todos os ataques vindos do exterior.
Para cristãos e mouros, cada comunidade em socorro dos seus membros sujeitos a poder religiosamente oposto, dava incentivos de guerra santa.
Camões revelou-se arauto de uma intervenção:
Gregos, traces, arménios, georgianos,
Bradando-vos estão que o povo bruto
Lhe obriga os caros filhos aos profanos
Preceitos do Alcorão, duro tributo…

Com fronteiras que para o lado europeu chegavam a pôr em perigo a cidade de Viena (e daí o marquesado dos Habsburgos) e do lado asiático dominavam até aos plainos iranianos, ocupando ainda a maior parte da África rnediterrânea, só um governo tirani-zante lhe podia assegurar paz, de resto sempre efémera e a estilhaçar-se aos primeiros sinais de fraqueza.
O papel de Serajevo na Primeira Grande Guerra, os sangrentos conflitos jugoslavos no pré e post-titismo, os conflitos israelo-árabes e iracoiranianos, as questões dos curdos, dos arménios e até dos chechenos, bem podem fazer-se radicar na heterogeneidade de um império que contranatura se manteve por cerca de mil anos e de um outro, ainda mais anti-natural, o otomano, que durou quatro séculos…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

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