Na Europa, o signo imperial nasceu sob a égide dos filhos da Loba. Recordemos a origem, mantendo a narração latina.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaProca, rex albanorum duos filios, Numitorem et Amulium, habuit. Numitori regnum legavit, sede Amulius pulso fratre, regnivit. Deinde, cum eumsobole privare cuperet. Rheam Silviam, eius filium, Vestae sacerdotem fecit Haec tamen Romulum er Remum uno partu edidit. Tune Amulius ipsa in vinculo, conjecit, parvulos alveo imposuit et abjecit in Tiberim que forte tunc exundaverat. Sed, relabente flumine, eos aqua in sicco reliquit. Vastae tunc in iis locis solitudines erant. Tradunt lupam ad vagitum infantiam acurrisset: EOS LINGUA LAMBISSE, MATRISQUE MINISTERIUM SUSCEPISSE.
É afinal, a velha história.
Amulei destronou o irmão e cativou-lhe a filha. Todavia, esta, mesmo virgem de Vesta, concebeu de Marte e assim nasceram Rómulo e Remo.
Deitados à àgua do Tibre, sobreviveram; e uma loba, atraída pelos vagidos, perfilhou-os, tomou o mester de mãe…
Crescidos, fundaram a cidade. Rómulo traçou-lhe os limites. Remo saltou-os, dizendo: assim entrarão os inimigos em Roma.
Rómulo, lembrado possivelmcnte do exemplo do tio-avô, já que não deveria conhecer a história de Caim e Abel, liquidou-o, dizendo: assim morrerão os inimigos da cidade.
Não há mulheres, mas o rapto das sabinas findará a quarentena.
Houve necessariamente luta e os sabinos estão quase a veneer. Rómulo eleva a sua arma aos céus e promete um templo a Jupiter, que permanece impassível.
Mas as sabinas lançam-se entre os combatentes e fazem as pazes.
Raptae mulieres, crinibus passis, ausae sunt se inter tela volantia inferre: et, hinc fratres, inde viros deprecate, pacem conciliarunt…
A população crescia, o território tornava-se exíguo.
A pequena cidade tinha de lutar pela sobrevivência, começando obviamente pelos vizinhos.
Nebulosamente, passam os reis lendários: além de Rómulo, Numa Pompílio, Túlio Hostílio, Anco Márcio, Sérvio Túlio: os dois Tarquínios, já históricos. Anno trecentesimo trigesimo quinto ab urbe condita, Veientes contra romanos rebellaverunt. Dictator contra ipsos missus est Furius Camilus…
Como este, muitos outros heróis celebra a história, ainda nimbada de lenda: Coriolano, Cincinato, os trigemini Horácios, Cevola, Menénio Agripa, o diplomata, inventor e narrador da fábula dos membros revolados contra o estômago:
Olim, humana membra, cum ventrem otiosim viderent, ab eo discordarunt et conjuratio-nem adversus eum fecerant…
Os séculos rodam e uma potência concorrente emerge do outro lado do Mediterraâneo. Seguem-se as guerras púnicas. Caio Duilio obtém a primeira vitória naval; mas Aníbal estava já para surgir com o seu eterno ódio aos romanos, jurado na infância com as mãos em cadáver esventrado. Conquistador de Sagunto, vencedor em Canas e no Transimeno, acabaria vencido em Zama pela pertinácia de Cipião Emiliano e do delenda est Cartago.
As Espanhas e o Norte de África caíam assim sob o jugo romano que a terceira guerra púnica estenderia para Oriente.
Mais tarde vêm César e Augusto e com eles o Império continua a crescer.
Anno Urbis conditae sescentesimo nonagesimo tertio, o primeiro que mais tarde será imperador, é eleito cônsul com Lúcio Bibulo. Destacado para a Gália e a Ilíria com dez legiões, vence os helvécios que ao tempo se chamavam sequanos, conquista as três Gálias, avança para além do canal… Domuit omenm Galliam, que inter Alpes, flumen Rhodanum. Rhenum et OceanDum est et circuit, patet ab his et tricies centena milia passuum. Britannis mox bellum intuit…
Com o seu sucessor Augusto, as conquistas continuam, anexando-se o Egipto, a Can-tábria, a Dalmácia, a que outros juntarão a Judeia, a Arménia e os planaltos do Irão.
A excessiva grandeza do império e sobretudo a helenização de Roma no pior sentido do termo, cultivavam já o gérmen da decadência. Gracia victa ferum victorem coepit…
A cultura grega, que se impôs em Roma pela sua superioridade, trouxe também a degradação moral.
Juvenal, nas suas sátiras, atribui a esta grecização da cidade e do Império a raiz de todos os males.
Antes do furacão dos bárbaros são estes ventos, ou antes estas brisas de supercivi-1ização, de aspecto negativo que prepararão o aviltamento.
Eram os erotomanos que impunham à sociedade romana a sua decadência. Daí a interrogação de Umbritius:
Que faz em Roma quem como eu não sabe mentir nem efeminar-se? Eu que não posso suportar uma Roma grecizada?
Não há nada, para eles, estes celerados gregos, que esteja ao abrigo da sua lubricidade, nem mães de família, nem filhas virgens, nem o filho imberbe, à falta de melhor, a sua lubricidade satisfazer-se-ia com a avó do seu melhar amigo, ou com o avô…
Após sucessivas arremetidas, os bárbaros que começaram como servidores, passaram a aliados, depois até a condutores, acabaram por submergir todo o Ocidente do Império.
Foi quando Odoacro, chefe dos hérulos, depôs Augustulo, até no diminutivo do nome apenas arremedo da imperial autoridade.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Advertisements