O contrabando era nas terras raianas um modo de vida legitimado pela comunidade e fonte de receitas para quase todos.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaAmigos meus, que, no Sabugal, exerceram funções de magistrados judiciais – juízes de direito e procuradores – me relataram repetidamente que, inquirindo, aos costumes, em sede processual, réus, queixosos e simples testemunhas, quanto à profissão exercida, muitas vezes ouviram a resposta: «sou contrabandista».
Pessoas, que viveram longos anos como cargueiros de jorna, não se haviam tais depoentes apercebido da ilegalidade da condição, pelo que se lhes afigurava tão legítimo ser contrabandista como pastor ou cavão, moço de servir ou carregador de número.
Aliás, para um raiano, de qualquer extracto social ou grau académico, a actividade sempre será de baixo delito e nunca será pecaminosa para aqueles que arriscam a vida como carregueiros e guias e, nem mesmo desqualifica socialmente os que se sujeitam à perda de património.
Outro tanto não se poderá já dizer de onzeneiros que se aproveitam das aflições ou debilidade financeira dos operacionais, para engrossar a conta, emprestando a juros altíssimos dinheiro próprio ou adrede sacado na banca, com exorbitâncias inimagináveis.
Comecemos a nossa análise pelos cargueiros de jorna, recrutados noite a noite para levarem a bom termo uma dada porção de mercancia – cinquenta quilos nas de valor semelhante ao da uva mijona, vinte a vinte e cinco nas de valor mediano e cargas levíssimas quando a coisa era valiosa. De café, artigo permanente numa transacção de séculos, as cargas rondavam os vinte quilos. Mas a incursão aventurava-se muito para além da linha de fronteira por dez léguas ou mais.
Durante a Segunda Grande Guerra, a Espanha, conotada com as potências do Eixo e devedora para com a Alemanha dos meios de combate propiciados a Franco, sofria internamente de terríveis carências e queria propiciar a Berlim materiais que lhe eram vedados, mas se poderiam obter em Portugal.
Minérios de estanho e volfrâmio, além de outros de grande raridade, passaram a Raia de Poço Velho aos Fóios, ocupando todas as noites centenas de cargueiros alombando cada um os seus vinte e cinco quilos.
A viagem era curta e de pouco risco, que, do lado espanhol, não havia apreensões e do lado de cá o trânsito só era condicionado quase rente ao limes.
Aos milhares de toneladas, mas em cargas individuais de quintal, passavam todas as noites para centros de armazenagem que iam dos Campanários de Azaba a Sant Esteban de Bejar deperdícios de borracha – da virgem à das ligas mais pobres – e de cornos de qualquer animal que os tivesse ostentado.
Foi meia década de pleno emprego.
O rapazola que acabara de tomar corpo cabonde podia ganhar a jorna todas as noites. E os homens feitos enquanto aguentassem dispunham de igual oportunidade.
A jorna ia dos vinte escudos na veniaga dos cornos aos cinquenta na dos minérios. Atendendo a que um cavador ganhava ao dia dez escudos a seco e cinco a de comer, trabalhando de sol a sol, e que neste jornadear, Espanha vai, Espanha vem, o percurso se faria, correndo tudo bem em quatro, cinco horas, a paga era tentadora.
E até estudantes em férias se atreviam a experimentar embora depois as pernas e sobretudo as costas dessem de si.
Com a rendiçao incondicional da Alemanha, acabou aquele ciclo.
E uma nova era de quase emprego só surgiu com o contrabando de vacas mas já no fim da era do escudo.
Cada passador trazia só uma rez e recebia, se a operação se finalizava com êxito, cinco contos de reis. Os rapazes da Confraria dos Solteiros não queriam outro modo de vida e muitos bons e honrados pais de família obtiveram um excelente reforço para os seus quase sempre muito baixos orçamentos de passigo.
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

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