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As conquistas do Sporting dos anos 40 e 50 – que o transformaram no mais poderoso clube de futebol em Portugal – valeram-lhe, portanto, grande capacidade de mobilização um pouco por todo o país, conquistando o clube uma dimensão claramente nacional e cada vez mais populista.

José GuilhermeEm todas as regiões de Portugal cresceram núcleos numerosos de simpatizantes e sócios do Sprting, surgindo inúmeras filiais. Espalhava-se a «identidade sportinguista», Zonas como o Alentejo e as Beiras tornaram-se «bastiões» particularmente fortes desta identidade. As vitórias da equipa de futebol catapultaram o clube definitivamente para uma dimensão popular, afastando-se assim o espectro elitista dos primeiros anos. Para este crescendo de popularidade muito ajudou a humildade e a qualidade humana e futebolística de muitos dos jogadores sportinguistas que formaram a fabulosa equipa dos anos 40 e 50. As origens sociais humildes de muitos destes jogadores permitiram o aproximar do clube ao povo amante do futebol. E não tivesse sido o imparável Benfica dos anos 60 e 70, o Sporting poderia hoje ser o maior clube português em termos de simpatlzantes.
Apesar da hegemonia «encarnada» dos anos 60 e 70, os «leões» conseguiram manter uma assinalável regularidade competitiva, alcançando mesmo uma extraordinária vitória no plano europeu, com a conquista da prestigiada Taça das Taças, em 1964. Foi um momento único na história do clube. Nessa gloriosa campanha europeia, o Sporting foi um conjunto eminentemente ofensivo, marcando 36 tentos em 12 partidas … Num só jogo, contra o Apoel Nicósia, os «leões» marcaram 16 golos. Na equipa brilhavam nomes como Carvalho, Fernando Mendes, João Morais, Mascarenhas (melhor goleador do Sporting na prova, com 11 golos) ou Hilário, entre muitos outros. Mas o que fez realmente a diferença foi o «todo» e não as individualidades, com a equipa a apresentar sempre uma forte coesão defensiva, eficácia no ataque e uma grande determinação. Para a história ficou a eliminatória dos quartos-de-final frente ao Manchester United, em que depois de uma pesada derrota por 1-4 em Inglaterra, os «leões» conseguiram uma reviravolta extraordinária em Lisboa, vencendo por 5-0. A «raça leonina» ficava assim comprovada, com os jogadores a assumirem em campo uma postura combativa, aliada a um grande talento, acreditando sempre na vitória. Essa mística era assegurada por jogadores como Fernando Mendes (o «capitão» de equipa) ou Hilário da Conceição.
No plano nacional, o Sporting sofreu então os efeitos da hegemonia benfiquista, tendo apenas conseguido amealhar cinco títulos nacionais nas décadas de 60 e 70. Mas soube sempre resistir e lutar contra o enorme poderio «encarnado». Registe-se que apenas em 1965 o Benfica ultrapassou definitivamente o Sporting em número de títulos nacionais conquistados. Até aí, a superioridade fora quase sempre do Sporting, que em 1954 liderava por 9-7 (sendo que estamos a contabilizar os três títulos benfiquistas na I Liga). A identidade do clube está também grandemente ligada à aposta na formação, «nascendo» nas escolas do Sporting grandes talentos do futebol português e internacional, como foram os casos dos históricos Jorge Vieira e Adolfo Mourão, ou, mais recentes, de Vítor Damas, Paulo Futre, Luís Figo e Beto. O clube tentou desta forma criar e manter sempre um espirito muito próprio, o que nem sempre foi alcançado nas duas últimas décadas do século, marcadas pela passagem, muitas vezes em catadupa, de treinadores pelo «banco» do Sporting. Esta instabilidade em nada contribuiu para a manutenção e reforço dessa mística «leonina», tantas vezes maltratada pelos erros de gestão directiva que conduziram a um largo periodo dominado pelo insucesso desportivo.

Atravessar o deserto com galhardia
Não foram nada agradáveis os tempos vividos então pelo Sporting. A partir de 1982 (ano em que se sagrou campeão e vencedor da Taça de Portugal), o clube entrou no periodo mais negro da sua história desportiva, somando 18 longos anos sem conseguir conquistar qualquer título de campeão nacional (repetindo o que tinha sucedido ao FC Porto entre 1959 e 1978), e apenas ganhando uma Taça de Portugal, em 1995.
Mas na derrota, como na vitória, os sportinguistas souberam, então, mostrar por que é que costumam afirmar que são um clube diferente dos outros: não deixaram de apoiar as diferentes equipas que tentaram inverter a situação, encheram muitas vezes o Estádio José de Alvalade quando tudo parecia correr mal, enfim, demonstraram que o Sporting não queria «ganhar a todo custo» (como os outros, afirmam). Talvez nesta postura viva ainda algum do elitismo característico do nascimento do clube. Uma espécie de herança «genética» dos seus fundadores e mentores.
Para o Sporting, a «travessia do deserto» resultou na custosa perda do segundo lugar no «campeonato dos campeonatos nacionais» para o FC Porto, mas acabou por ser também uma prova de resistência e de força moral, além de que o segundo lugar em número de adeptos continua a ser «verde-e-branco», apenas superado pelo incontável universo «encarnado».
Como não há bem que sempre dure, (os «cinco violinos») nem mal que, não acabe (a década de 90), também o fim do deserto de vitórias sportinguistas no futebol surgiu em 2000, para comemorar o final de um século em que o clube deixou marca indelèvel no desporto português.
E da mesma forma que raramente se pode acusar os «leões» de não saberem perder, ninguém pode dizer que o Sporting de 1999/2000 não soube ganhar … O mesmo se pode dizer da equipa 2001/02, que chegou à «dobradinha» 20 anos depois.
Extracto de «A Paixão do Povo – História do Futebol em Portugal», de João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro (2002).
«Futebol – A Paixão do Povo», opinião de José Guilherme

joseguilherme.r@gmail.com

O ano de 1906 foi o primeiro da existência de um dos mais significativos emblemas da história do futebol em Portugal, o Sporting Clube de Portugal. Representando a essência da própria origem do futebol no país, o Sporting Club de Portugal nasceu em «berço de ouro», no seio da aristocracia lisboeta do inicio do século.

José GuilhermeOs primeiros estatutos do clube não esquecem a referência a uma agremiação formada por pessoas da boa sociedade e dão a prioridade ao ténis como desporto a ser praticado no clube. Um dos traços identitários do Sporting ficava desde logo esboçado, embora muitas coisas viessem a mudar, principalmente a partir dos anos 40, graças a muitas e gloriosas vitórias e exibições dos célebres «Cinco Violinos», que tornaram o Sporting extremamente popular um pouco por todo o país e em todas as camadas sociais. Nos primórdios do clube, a situação social e financeira privilegiada dos seus mentores e sócios, principalmente de José Roquette e do seu tio, o Visconde de Alvalade, ajudou a reunir condições físicas e humanas para a prática do futebol, algo sem paralelo nos outros clubes da altura. A equipa do Sporting dispunha de um dos melhores recintos da época e contava com exímios jogadores vindos do Sport Lisboa (formação que esteve na origem do SL Benfica), que não tinha onde treinar. Esta solução encontrada pelos «leões» para juntarem uma boa formação, acabaria por dar origem aos primeiros passos de uma rivalidade quase centenária, entre o Sporting e o BenfIca, e que ocupa lugar destacado na história do desporto português.

O ciclo dourado dos «famosos cinco»
O Sporting começou a criar fama de equipa «grande» na disputa do Campeonato de Lisboa, prova em que exerceu um domínio quase avassalador, entre 1922 e 1947, vencendo 16 em 25 títulos possíveis, sendo que 6 deles, foram consecutivos (entre 1934 e 1939). Esta hegemonia futebolística dos «leões» em Lisboa alargou-se ao plano nacional durante toda a década de 40 e 50. Entre 1947 e 1954, o Sporting conquistou sete campeonatos nacionais em oito possíveis, alcançando ainda o primeiro «tetra» da história, entre 1951 e 1954. Eram os tempos dos inesquecíveis «Cinco Violinos», provavelmente a maior referência da identidade sportinguista até aos nossos dias. Pena foi que nesta altura ainda não existissem as competições europeias, pois se tal acontecesse com certeza que Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano (acompanhados por outros excelentes praticantes) teriam brilhado e deslumbrado por essa Europa fora. Curiosamente, o Sporting ficaria ligado ao nascimento dessas mesmas competições europeias. Quando em 1956, na primeira edição da Taça dos Campeões, Martins foi o marcador do primeiro golo da competição, no jogo inaugural da prova, que opôs Sporting e Partizan Belgrado, no Estádio Nacional. Nesta altura, o Sporting era a equipa portuguesa com mais prestígio a nível internacional, não sendo de estranhar por isso o convite para o clube «leonino» participar na primeira edição da Taça dos Campeões Europeus, quando quem tinha vencido o Campeonato Nacional (1954/55) fora o Benfica. Alguns anos antes, em 1949, o Sporting tinha ido à final da Taça latina, perdendo com o Barcelona por um escasso 2-1.

Uma identidade cada vez mais nacional
Como seria de esperar, o sucesso e a fama do Sporting dos «Cinco Violinos», que dominou o futebol em Portugal durante tantos anos, acabaria por redundar num processo de popularização do clube, tanto no sentido do aumento do número de adeptos em todo o país, como no sentido da expansão social do próprio clube, que progressivamente foi chegando a outras camadas sociais. Um bom indicador deste processo de difusão social foi o facto de apenas na década de 50 deixar de ser obrigatória a exposição pública da proposta de sócio durante uma semana, na sede do clube, para assim ser possivel contestar a idoneidade ou a irrepreensibilidade da conduta do candidate a sócio «leonino». Assim, ser sócio do Sporting era sinónimo de respeitabilidade e honorabilidade.
(Continua na próxima semana.)
Extracto de «A Paixão do Povo – História do Futebol em Portugal», de João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro (2002).

«Futebol – A Paixão do Povo», opinião de José Guilherme

joseguilherme.r@gmail.com

É habitual a referência, mesmo nos meios jornalisticos ligados ao futebol, o denominado estilo de jogo «à Porto».

José GuilhermeUma forma de jogar caracterizada pela disciplina, pela organização rigorosa, em que o espectáculo é subordinado ao resultado, e que corresponde a toda uma maneira de estar e ser em que os habitants do Porto se reconhecem, fazendo parte de uma representação social mais vasta, ligada à autovisão dos habitants da cidade como esforçados, trabalhadores, sérios e leais. É conhecido, aliás, o velho ditado que diz: «Em Lisboa as pessoas divertem-se, em Coimbra estudam, em Braga rezam e no Porto trabalham.»
A disciplina, a organização e o trabalho árduo, que caracterizam o estereótipo ideal do estilo de jogo da equipa, parecem estar ligados a este culto do trabalho e esforço, mas também ao modo como os adeptos do FC Porto vivem os resultados e o quotidiano da sua equipa, e à transcendência com que estes são encarados. Para os adeptos o importante é a vitória do clube, quase a qualquer preço, surgindo o desporto ou o espectáculo como algo perfeitamente secundário. Os adeptos do FC Porto são considerados geralmente como os mais «fanáticos» em Portugal. E provavelmente isto acontece porque atribuem uma dramática importância ao comportamento e resultados da equipa. Este apoio tão exigente e inquieto, mas sempre tão intenso, resultará provavelmente do dramatismo com que vivem os jogos da sua equipa, verdadeiras questões de «vida e morte».
Extremamente original e significativa é a forma de comemoração dos grandes feitos do clube. A romaria ou festa popular que abrange e envolve toda a cidade do Porto é bastante reveladora da identificação quase total entre cidade e clube. A congratulação com a vitória, a constante insistência na sua importância, extensão e significado, fazem parte de um processo de autovalorlzação dessa identidade local, de afirmação da sua superioridade.
O facto de na essência desta forma de celebração estar uma tradição da cidade, elemento importante da sua cultura particular, ou seja, a festa popular nas ruas da cidade (veja-se o caso da noite de S. João), enquadra-se no carácter local da identificação colectiva com o clube de futebol. A estas celebrações, que possuem também elementos ou traços ritualisados, não faltam o sarcasmo e ironia para com os rivais vencidos, nem as práticas destinadas a humilhar e estigmatizar os adversários, destacando-se a intervenção do elemento «carnavalesco», que assume no caso dos adeptos do FC Porto caracteristicas próprias, como é o caso do «enterro» do adversário, que toma muitas vezes a forma de uma «procissão» de onze burros vestidos com camisolas do Benfica ou do Sporting.

A «mística»: de «andrades» a «dragões»
Se entre os adeptos do FC Porto existe uma afeição especial pelos jogadores que se entregam corajosa e totalmente ao jogo, na defesa das cores do clube, principalmente aqueles que foram formados nas suas escolas, isto acontece provavelmente porque estes são vistos como os que melhor podem prolongar o estilo de jogo da equipa, por um lado, e assumir também para si os significados e sentidos atribuidos ao jogo e ao clube pelo adepto (os casos de, por exemplo, Hernâni, Fernando Gomes, João Pinto, Vítor Baía ou Jorge Costa). Isto está possivelmente ligado à muito divulgada «mística especial» do FC Porto, criada nos últimos anos, e que se reporta directamente à oposição, desportivamente conseguida, aos clubes de Lisboa. No entanto, é importante recordar que na história do FC Porto, desde os seus primórdios, sempre tiveram papel crucial futebolistas estrangeiros, começando pelo guarda-redes, e depois treinador. Siska (anos 2O e 30), passando mais tarde pelo técnico brasileiro «Yustrich» (anos 50) que devolve ao clube as vitórias, e terminando em Rabah Madjer, o herói de Viena, em 1987. Tal como acontece com qualquer clube, a história do FC Porto é marcada por períodos (ou ciclos) de sucesso, alternados com outros bem menos felizes. A conquista dos mais importantes títulos do futebol europeu e mundial, em 1987 e 1988, materializou a chegada de um sucesso inédito e surpreendente, até porque foi alcançado após anos consecutivos marcados por desaires e frustações, nomeadamente nas décadas de 60 e 70, que eram sentidos como injustos e provocados por uma situação de discriminação regional. Qualquer adepto, mesmo entre os mais novos, conhece esta transformação radical na vida do clube. No entanto, é importante lembrar que o FC Porto foi o primeiro clube português bem-sucedido na compita nacional, ao vencer as edições inaugurais de todas as «provas de regularidade»: 1922 – Campeonato de Portugal, 1934 – Liga, 1939 – I Divisão. Depois a década de 40 trouxe o reinado dos «Cinco Violinos» no Sporting e os portistas passaram a ter que aceitar a superioridade dos «grandes» da capital. Sendo o FC Porto encarado como grande representante da luta e resistência perante as supostas injustiças de que a Cidade Invicta, e por arrastamento o clube, são vítimas, não surpreende que esta inferioridade tenha sido especialmente penosa.
Pelo mesmo motivo, os principais protagonistas da resistência perante Lisboa e o seu poder no futebol (e não só…) fazem obviamente parte da hist6ria do clube como uma espécie de heróis. O treinador Pedroto e o presidente Pinto da Costa são exemplo disso. Estão entre os maiores símbolos humanos do clube porque conseguiram inverter a tendência geral da sua história, transformando-o em vitorioso e conhecido internacionalmente (a famosa e simbólica transformação de «andrades» em «dragões»), utilizando exactamente uma política de oposição aberta, de conflito até, em relação às identidades «inimigas», consideradas genericamente como o «poder de Lisboa» pelos adeptos do FC Porto.
Extracto de «A Paixão do Povo – História do Futebol em Portugal», de João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro (2002).
«Futebol – A Paixão do Povo», opinião de José Guilherme

joseguilherme.r@gmail.com

O FC Porto, originalmente fundado em 1893, mas cuja vida regular se inicia em 1906, sempre «catalisou» poderosamente uma identidade social iminentemente local: a cidade e a região a que pertence.

José GuilhermeSignificativo, ainda, é o facto de cronicamente se apresentar como principal presentante de uma identidade marcada por uma auto-imagem baseada em representações sociais que afirmam a injustiça e a discriminação de que a mesma se sente vítima, provocando uma situação de confronto regionalista de que o clube é o mais importante símbolo. A isto não será estranho, com certeza, a situação histórica do Porto como segunda cidade do país.
O caso do FC Porto, e dos seus adeptos, é particularmente feliz no que toca à relação entre a identidade local e a paixão pelo futebol, ao demonstrar como o jogo e a equipa de futebol surgem como ocasião é motivo privilegiado para afirmar os principais valores do colectivo e a sua identidade própria.
O futebol, como qualquer facto cultural, é apropriado de diferentes formas consoante os contextos sociais. É sentido e significa coisas diferentes em locais diversos. Por isso os clubes de futebol são diferentes uns dos outros; possuem culturas distintas. São os elementos-tipo dessa cultura do clube de futebol que aqui se pretende categorizar, com referência ao caso da identidade «portista».

Contra Lisboa
Algumas das principais auto-representações da comunidade em que se insere transformam o FC Porto numa identidade de resistência ao que é considerado como o poder centralista no país. O futebol parece constituir o mais poderoso instrumento desse descontentamento expresso. Entre os habitantes da cidade, o campo desportivo foi sempre encarado como terreno propício à expressão do sentimento (mais vasto) de discriminação e injustiça, relativamence à capital, de que sempre se sentiram vítimas, contribuindo para o agravamento desse sentimento o facto dos resultados obtidos, até aos anos 80, serem nitidamente inferiores aos dois principais «rivais» de Lisboa (apenas cinco titulos nacionais contra 23 do Benfica e 15 do Sporting).
Não admira, pois, que os resultados da equipa sempre tenham sido vividos e sentidos como muito significativos e fundamentais pelos adeptos do cIube. As vitórias servem para afirmar a identidade de resistência, em que a autovalorização se processa sempre em oposição aos «inimigos» de Lisboa, seguindo diversas formas de denúncia e regionalismo. Expressões como «O Porto é uma nação» ou «O Porto deu o nome a Portugal», surgem como resposta à velha maxima lusitana criada por Eça de Queiroz, «Portugal é Lisboa, e o resto é paisagem», e marcam bem este tipo de atitudes e discursos.
As vitórias portistas no futebol são, afinal, novos elementos a juntar ao vasto e continuo processo de afirmação e de autovalorização da comunidade, em contraposição às identidades a que esta se opõe. Assim foram recebidas as grandes vitórias do clube nos anos 20 e 30, como seriam depois festejados os triunfos obtidos em catadupa mais para o final do século, que incluíram a afirmação internacional de 1987 e o «penta» dos anos 90.
No que diz respeito aos significados atribuídos às derrotas (e é importante notar que durante largos períodos de tempo, de 1940 a 1956 e de 1959 a 1978, o FC Porto foi um clube «perdedor»), estas são caracteristicamente vistas como a comprovação da injustiça e discriminação regionalista, já que por norma são associadas a más decisões dos árbitros, à manipulação de resultados por parte dos adversários, ou ainda aos infortúnios do destino.
(Continua na próxima semana.)
Extracto de «A Paixão do Povo – História do Futebol em Portugal», de João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro (2002).

«Futebol – A Paixão do Povo», opinião de José Guilherme

joseguilherme.r@gmail.com

A própria selecção nacional, que brilhou em 1966, no Mundial de Inglaterra, era constituída com base nos jogadores benfiquistas. Por esta altura, o Benfica era Portugal e para tal «identificação» muito contribuiu a propaganda salazarista.

José GuilhermeMas disso não teve culpa o Benfica, que se transformava cada vez mais no clube da maioria dos portugueses. Se o período hegemonico do Sporting dos «Cinco Violinos» tivesse tido uma dimensão internacional, o que não sucedeu porque as provas europeias apenas se iniciaram num periodo posterior, talvez os «leões» pudessem concorrer hoje em popularidade com as «águias»…
Mas mesmo este raciocínio hipotético cai por terra se tivermos em conta as origens sociais dos dois clubes…
Referimos antes que o Benfica foi «beneficiado» pela propaganda do Estado Novo no sentido da identificação clube-nação, mas é igualmente verdade que, talvez devido ao seu carácter genuinamente popular, o grémio da «águia» deu grande lições de democracia ao longo destes conturbado anos das décadas de 60 e 70, assumindo-se como um dos únicos palcos de verdadeira democracia em Portugal, realizando eleições e assembleias-gerais livres e extremamente concorridas.
Além disso, a grandeza do clube era tal que nunca viveu demasido dependente de um só homem. Teve presidentes carismáticos e importantes – como Joaquim Bugalho, Maurício Vieira de Brito, Borges Coutinho, Fernando Martins – e mentores cruciais para o crescimento da agremiação, como Cosme Damião e Ribeiro dos Reis, mas no caso do Benfica a ideia de que se «os homens passam e o clube fica» foi, quase sempre, uma realidade.
Clube popular e nacional, o Benfica dos «seis milhões de adeptos» (nas palavras de João Vieira Pinto) é o mais bem sucedido dos clubes portugueses de futebol, quer no plano interno quer no externo. O seu palmarés no século xx é verdadeiramente impressionante: 30 títulos de campeão nacional (durante muito tempo, este número foi superior ao total de títulos conquistados por todos os rivais juntos) e 13 Taças de Portugal, só para referir os mais importantes. No plano internacional, o Benfica conquistou 2 Taças dos Campeões Europeus, além de ter marcado presença em mais 5 finais desta competição, a que se junta outra final perdida na Taça UEFA. Nos dias que correm, apesar de uma fase menos vitoriosa, os «encarnados» ainda mantém um admirável quarto lugar no ranking geral de todas as competições europeias.
Naturalmente, o sucesso chama adeptos, e o Benfica tem uma história plena de glórias, de tardes e noites mágicas – principalmente nas décadas de 60 e 70, nas quais ganhou tudo o que havia para ganhar, e muitas vezes. Hoje, continua a tirar os dividendos desses anos absolutamente brilhantes. No estrangeiro, o Benfica é conhecido como um dos mais importantes simbolos de Portugal, a par do seu mais emblematico jogador, Eusébio. Nas comunidades de emigrantes portugueses, o clube continua a ser uma das mais importantes formas de ligação às raizes.
Talvez por isso, apesar dos momentos desportivos menos felizes vividos pelo Benfica no final do século XX, correspondendo ao maior periodo de abstinência de vitórias na história do clube (nenhum título nacional entre 1994 e o final da década) e à hegemonia nacional do rival FC Porto. Ainda se afirma com orgulho entre os adeptos do clube que «quem não é benfiquista não é bom chefe de família». Não é difícil perceber o que significa tal frase: quem é verdadeiramente homem e português, é do Benfica. É tal o poder da grande nação «encarnada».

Os símbolos da identidade…
Eusébio, o Estádio da Luz e a «águia». Estes são, não obrigatoriamente por esta ordem, os grandes símbolos benfiquistas. O primeiro merece uma estátua no segundo, onde se encontra também uma reprodução gigante da terceira. Eusébio é reconhecidamente o melhor jogador português de todos os tempos, tendo estado presente, e sido perfeitamente decisivo, nos grandes sucessos benfiquistas dos anos 60 e 70. O Estádio da Luz é o «ninho da águia», construção monumental que já foi capaz de albergar cerca de 120 000 pessoas, que o tornaram num dos maiores estádios do mundo, a «casa» adequada para o estatuto do seu dono. Finalmente, a «águia» representa, desde o início do SLB, o voo alto e amplo, algo que sempre caracterizou a vida do mais histórico clube português.
Extracto de «A Paixão do Povo – História do Futebol em Portugal», de João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro (2002).
«Futebol – A Paixão do Povo», opinião de José Guilherme

joseguilherme.r@gmail.com

Em 1904 surgiu o primeiro dos clubes assentes numa base popular em Portugal: o Sport Lisboa. Num tempo em que o desporto era actividade selecta, este facto assume grande importância social. Curiosamente o carácter popular do Sport Lisboa (depois, SL Benfica) marcaria toda a sua longa existência, transformando-se na sua imagem de marca, na sua identidade própria.

José GuilhermeConvém perceber, e muitas vezes tal não acontece, que a vida de um clube de futebol possui significados e simbolismos sociais vastos e complexos (transpostos, ou transferidos se preferirem, para a esfera pessoal), que ultrapassam em muito os meros resultados das competições desportivas. O futebol, como qualquer facto cultural, é apropriado de diferentes formas consoante os contextos sociais. É sentido e significa coisas diferentes em locais diversos. Por isso os clubes de futebol são diferentes uns dos outros: possuem culturas, histórias e identidades distintas. Tracemos, então, alguns dos elementos principais da identidade «Benfica».
Na sua origem, o Sport Lisboa juntou pessoas oriundas de diferentes estratos sociais, principalmente do bairro de Belém, o que lhe conferiu um cunho muito popular, eclético e democratico.
Estas características, felizmente. nunca se perderam. Bem pelo contrário. expandiram-se ao longo dos anos, e estenderam-se, já não só a Belém (de onde o clube saiu em 1908, aquando da fusão com o Sport de Benfica), já não só a Lisboa, mas a todo país. A massa impressionante de adeptos do SLB explica-se por vários factores, sendo o primeiro deles o facto de ter sido o primeiro clube português a desalojar os ingleses do Carcavellos da liderança do futebol lisboeta, tornando-se a mais bem-sucedida formação dos anos 10, em Portugal.
Além disso, o próprio carácter popular do clube, traduzido nos recursos financeiros limitados, que impediam, por exemplo, o aluguer de um campo de jogos adequado, ou o papel preponderante na vida do clube de homens oriundos de camadas sociais menos favorecidas, como Manuel Goularde (o empregado da Farmácia Franco que, juntamente com Cosme Damião, foi a primeira «alma» da agremiação, lutando pela sobrevivência do clube nos piores momentos da «infância» deste) ou a ascensão de um operário, Manuel da Conceição Afonso, a presidente de uma Direcção nos anos 30, transformou-se num factor de atracção de adeptos oriundos das camadas menos favorecidas.
Por isso se pode afirmar que o Benfica dispôs sempre da maior riqueza: a popularidade.

O mais português…
Outra razão fundamental para a popularidade do Sport Lisboa e Benfica foi a tradição de apenas utilizar jogadores portugueses. Assim foi sempre até 1978, altura em que uma Assembleia Geral do Clube aprovou a possibilidade de utilização de jogadores estrangeiros. Os tempos haviam mudado, designadamente porque terminara o acesso facilitado a jogadores das colónias portuguesas, entretanto independentes (desde 1974). Curiosamente, o Benfica foi o clube em Portugal que mais recorreu a este «mercado», tendo construído muito do seu sucesso através desta inteligente politica de aquisições.
Nomes cruciais da história do Benfica, como Eusébio, Coluna, José Águas, Costa Pereira, entre tantos outros, eram oriundos das então possessões ultramarinas. Igualmente interessante é o facto de apesar de jogar apenas com portugueses durante quase 75 anos, o Benfica apenas ter tido um treinador português campeão nacional neste periodo, Mário Wilson (1976). Mesmo depois disso só Toni (1989 e 1994) conseguiu repetir o feito.
Todos estes factores contribuíram largamente para que durante muito tempo se dissesse que o Benfica era o «mais português» de todos os clubes portugueses, até como forma de marcar a diferença e a superioridade sobre os outros «grandes» do futebol luso que sempre promoveram a utilização de estrangeiros nas suas equipas. Daqui terá resultado, em grande parte, a génese desta identidade benfiquista de foro eminentemente nacional, ao contrário de outras identidades clubistas: local no caso do FC Porto, elitista no do Sporting ou bairrista no do Belenenses. Este estado de coisas «agravou-se» na década de 60 com o grande sucesso internacional do Benfica, aprofundando-se a ligação clube-nação, já que os êxitos das «águias» eram sentidos como êxitos portugueses, ainda para mais numa altura em que era grande a pressão política internacional sobre o país, devido à Guerra Colonial.
Extracto de «A Paixão do Povo – História do Futebol em Portugal», de João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro (2002).
(Continua na próxima semana.)

«Futebol – A Paixão do Povo», opinião de José Guilherme

joseguilherme.r@gmail.com

Iniciamos hoje, segunda-feira, 2 de Junho, uma nova coluna de opinião coincidindo com a chegada da Selecção Nacional de Futebol a Neuchatel para participar no Campeonato da Europa de Futebol Suíça-Áustria-2008. O futebol é a paixão do povo e a comprová-lo está a apoteótica recepção dos emigrantes portugueses aos craques escolhidos por Luiz Felipe Scolari.
O José Guilherme (que conheço desde os tempos de «A Bola») é especialista em estatísticas dos jogos e dos jogadores, correspondente da IFFHS-Federação Internacional de História e Estatística do Futebol, passou pela «A Bola» e actualmente colabora no diário desportivo «Record». É, igualmente, administrador de um blogue «recordesdabola.blogspot.com» que divulga a arqueologia do futebol português. Bem-vindo!
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