Periodicamente surge ali uma esperança de independência quase sempre afogada em tragédia. Recordemos uma das mais tristes.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNaquele ano de 1830, a Polónia parece forte: exércitos bem treinados, finanças robustas, agricultura próspera.
A opinião pública europeia aprova as ambições de independencia e a coragem dos polacos roçava já pela lenda.
Infelizmente, falta-lhes um lider. O general Klopicki e o seu colaborador Krukowiecsi, que mais tarde o substitui, são antigos oficiais de Napoleão, esgotados pelas arrasantes campanhas do grande corso.
E, em 1831, enquanto que a Bélgica, definitivamente libertada passa, com o apoio da Inglaterra e da França, a reino independente, a Polónia é esmagada pela Rússia, após uma resistencia épica.
Em sete de Setembro, os exércitos do Czar apoderam-se de Varsóvia.
C’est la curée, la nouvelle (et non derniére) curée sur l’infortuné pays qui ne sait ni trembler ni ceder.
Mantemos no original a narrativa dum especialista.
E mais uma vez, a Polónia será submetida a uma repressão terrivelmente bárbara e os soldados russos vont déchirer à belles dents le pays vaincu, comme un quartier de chevreuil, sous les yeus indiferents de l’Europe. Et tandis qu’ils brulent des maisons, qu’ils fusillent des otages, le maréchel francais Sebastiani, a ce mot tristement célebre que resume la cruauté des temps: L’ordre regne à Varsovie (Mais urna vez utilizámos em directo a linguagem de Michel de Saint Pierre).
Depois em 1867, Alexandre II, ao tempo Czar de todas as Rússias, visitava a corte francesa, convidado por Napoleão III.
A visita suscitaria reparos nas bancadas do parlamento gaulês, indignado (e diga-se que com razão) já pela quarta partiIha da Polónia, decretada pelo Congresso de Viena, já pela opressão que se lhe seguiu.
Em consequência, o deputado Mr. Charles Fauquet, futuro presidente da Câmara e, mais tarde, do Conselho de Ministros, saudou, com estas palavras de reprimento, o visitante:
– Majestade, viva a Polónia!
Periodicamente, esquartejada pelo vizinho, de Leste, Sul e Oeste, aquele país é, por certo, o que, não só na Europa, mas por todo o Mundo, tem suscitado maior número de frases históricas. Quem se não lembra, por exemplo, da frase dirigida por Frederico II, da Prussia, à grande Catarina, da Russia:
– Quando Augusto bebe (referia-se a Frederico Augusto), toda a Polónia se embebeda.
Ou do finis Poloniae, dedicado ao herói nacional, Thadée Kosciusko, dado como morto em batalha, em 10 de Outubro de 1704; de «a ordem reina em Varsóia», pronunciada no Palais-Bourbon, a 16 de Setembro de 1913, pelo Marechal Sebastiani, ministro dos Negócios Estrangeiros; ou o Polónia Restituta, nome dado pelo Marechal Pilsudski, na véspera da ressurreição do estado mártir, em 1919, segundo as cláusulas do tratado de Versalhes.
Já neste século a Polónia de Casimiro, de Segismtndo, de Sobieski, de Estarislau Leszczynski, de Pilsudski, de Paderewski, sofreu o jugo dos soviéticos, mais duro do que o de todos os czáres e antigos dominadores, russos, alemães, austríacos ou suecos.
Mas não é menos verdade que a histórica resistência dos polacos a todos os tiranos se mantém indefectível.
Nos últimas décadas, apesar de a Igreja não ser deste Mundo, a eleição de Joao PauIo II e a sua peregrinação à terra patrum fortificaram ainda mais aquela fé que derruba montanhas. Tal como a nomeação, para Cardeal-Arcebispo de Paris, de um polaco de ascendencia judaica, Monsenhor Lustiger, filho de um mártir de Auschwitz.
Nao foi a Igreja que suscitou o aparecimento do Solidariedade e de Lech Walesa. Mas sem a sua benção silenciosa e longínqua, Varsóvia teria então sofrido golpes tão rudes como os de Praga e Budapeste.
A prudência russa teve as suas razões. A heresia polaca, relativamente à filosofia económica e social do bloco comunista, só foi tolerada porque os senhores do Kremlin temeram uma reacção espiritual que podia alastrar de Berlim às fronteiras do Cambodja.
Não é necessário recordar o massacre de Katin, a exterminação do ghetto de Varsóvia, ou a inssurreição popular de 1944, para se saber que o povo polaco é indomável: que prefere a miséria ou a morte à escravidão e que nada inveja da ocidental sociedade de consumo.
Os polacos sabiam que o Ocidente de então se assemelhava aos persas vencidos pelos gregos, aos gregos vencidos por Roma, ao desaparecimento do Império Romano do Ocidente, e, mil anos depois, ao de Bizâncio; ao da França em 1789, ou da Rússia, em 1917.
Aqui como na Roma de Juvenal, a única preocupação de governantes e governados eram panem et circenses.
Na Po1ónia havia outro espírito.
Em consequência dele e só por ele, foi o primeiro dos países de leste a libertar-se da tutela russa e das imposições do marxismo.
A fé católica e a influência do maior papa dos últimos séculos assumiram-se como elemcntos determinados, cadinhando a coragem de um povo ciclicamente submetido às mais duras provas.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

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