A sociedade hodierna, saturada de preconceitos radicalmente igualitários, acolhidos pelas massas, consciente ou subsconscientemente, vive impregnada na ideia dos malefícios que terão decorrido dos direitos senhoriais.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaA submissão a concepções dominantes que se apoiam apenas em modas esquece contraditoriamente, por um lado, o relativismo histórico e, por outro, que os elementos sociais que hoje pretendem ocupar ou ocupam efectivamente o lugar deixado vago pelas antigas elites não melhoraram, bem pelo contrário, os padrões de serviço à comunidade, vividos por aqueles que tão asperamente censuram.
Felizmente que, ao lado dos que só se evidenciam pela força económiva e ambição de poderio, se verifica, mesmo em países sem passado monárquico ou nobiliárquico, a formação de elites, com tónus arisrocrático.
É que também nas democracias de recente data e que não têm atrás de si qualquer passado feudal, se foi formando pela própria essência das coisas, uma espécie de nova nobreza ou aristocracia. Tal é a comunidade de famílias que se habituaram a por ao serviço da comunidade nacional, ou seja do Estado, do governo e da administração, e sobretudo das populações, as suas energias e sinergias…
Neste sentido, e estamos a seguir a lição de Pio XII, tambem as novas élites se podem afirmar como propulsoras do verdadeiro progresso e guadiãs da tradição.
O nosso intento, hoje, cifra-se, todavia, unicamente no papel que o feudalismo assumiu na construção europeia.
Os direitos senhoriais não podem, é certo, deixar de chocar a nossa mentalidade, com o c1ima de violencia e extorsão, muitas vezes vivido nos limites do feudo, ou as constantes irrupções pelos territórios vizinhos, domínios de irmãos e parentes muito próximos, quando não até de pais ou sogros.
Mas não pode esquecer-se, que ao tempo, as ocupações correntes de grande número de indivíduos eram saquear, devastar e matar, em que cada um dos agredidos e espoliados fazia repercutir sobre o que em força e poder se lhe situava abaixo os agravos de cima recebidos.
O senhor, monopolizando a autoridade, violenta ou violentíssima até, adentro do seu limes, era a única entidade capaz de obstar àquela série intermináveI de conflitos, repetidos em cada um dos degraus duma escada de forças, com miríades de clivagens.
A autoridade real, tanto pelas dificuldades de intervenção, como pelas flutuações de fronteiras, como pelo reduzido leque de matérias em que a coroa se propunha intervir, era escassa e precisava efectivamente de ser complementada por quem actuasse sobre o terreno.
Cunhando moeda, administrando a justiça, assegurando o abastecimento das populações, desenvolvendo a economia, preparando os seus próprios exércitos, os senhores feudais cumpriram uma missão ao tempo essenciaI.
Através da cadeia de fidelidade ajudaram ainda a consolidar os tronos e as fronteiras das várias monarquias que se foram estabelecendo a Ocidente.
Defeitos naturalmente que tiveram muitos, mas onde há homens, há condição humana.
A guerra impunha-se-lhes como paixão. Gostam mais de combater do que de ouro fino ou de comer. É o que expressava a Canção de Antioco. E noutra parte, fala-se de um cavaleiro que confessava sem rodeios: Se estivesse com um pé num castelo e o outro no paraíso e me anunciassem um combate, logo fugiria para o teatro de guerra.
A Igreja, sábia mesmo quando intervinha em relação as coisas deste mundo, procurou modificar o ânimo dos senhores e conseguiu-o em benefício dos vilãos e servos indefesos.
Mas fê-lo também em favor dos próprios senhores feudais, vítimas uns dos outros. E foi mesmo contra a guerra privada, exactamente a guerra entre senhores, que lançou a Trégua ou Paz de Deus.
Depois, os grandes senhores pensavam em nobilitar-se cada vez mais e os pequenos por emulação sonhavam também com o ascenso.
Houve toda uma penosa escada a subir e as mais influentes famílias reinantes da Europa radicam em humildes estirpes.
Caso, por exemplo, dos Hoenzolern, família imperial alemã provinda de guardadores de altas montanhas: ou dos Habbsburgos, fronteiros do império.
Distinguindo-se por suas qualidades, começavam por comes (palavra latina que significava companheiro e é o étimo do actual vocábulo conde. Marquês provém de marca, palavra que significava território avançado sobre o inimigo ou no mínino fronteiro a ele. O Marquês era ali a autoridade suprema. Com uma função essencial militar, corresponderia ao Marechal, étimo germânico; ou Condestável, aglutinação, aliás de comes (conde, como vimos), e stabuli (lugar de guarda de cavalos).
Os grandes mosteiros resultaram muitas vezes também da influência de poderosos senhores feudais ou de descendentes directores seus.
Sao Bernardo de Claraval, outro dos grandes construtores da Europa, bem poderá dar testemunho.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

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