Poucas palavras contarão tão arrebatadoras ressonâncias como esta de Cavalaria.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaA simbologia e ritualismo com que os jovens, ao findar a adolescência recebiam a pranchada nobilitadora: as fórmulas sacramemais usadas para o juramento de iniciação; o comportamento, verdadeiramente exemplar de membros da ordem, com virtudes acima das fraquezas humanas; o imaginário popular em redor tecido; as novelas postas a circular por toda a Europa culta e oralmente transmitidas por trovadores e menestréis, enfim toda uma série concertada de circunstâncias e influências felizes deixaram-nos uma imagem que que possivelmente terá muito de mirífica, mas dominou até ao fim da lenda, satirizada mais tarde por numerosos escritores, com particular relevância para Cervantes, é ainda hoje, apesar de tudo, respeitável.
Prosaicamente definida como instituição militar, própria da nobreza feudal e consagrada pela religião, condensara, todavia em si, uma auréola de virtudes.
Os poetas exalçavam os seus membros.
Transcrevemos de Camões. Lusíadas, canto X, aconselhando Dom Sebastião:
Os cavaleiros tende em muita estima
Pois com o seu sangue intrépido e fervente
Entendem não sómente a lei de cima
Mas inda vosso império proeminente.

Aliás, em muitas outras passagens da epopeia se verifica igual culto peIa instituição e seus seguidores, alargando-a mesmo a outras civilizações e tornando-a semel de reis:
Estes, o Rei que têm não foi nascido
Príncipe, nem dos pais aos filhos fica,
Mas elegem aquele que é famoso
Por CAVALElRO, sábio e virtuoso…

Antero, num dos seus mais belos sonetos evoca tambem a figura:
Sonho que sou um cavaleiro andante,
Por desertos, por sóis, por noite escura
Paladino do amor, busco anemante
O palácio encantado da ventura.

Aliás, o cavaleiro andante, pelo seu desprendimento em relação às riquezas, bem se pode considerar o protótipo, pois, segundo os dicionários, era aquele que ia pelo mundo. apresentar-se nos torneios, justar contas com todos os opressores e em favor de todos os oprimidos, buscar aventuras unicameme para alcançar a fama.
Em acrescento ao EPÍGRAFE DAS CANTIGAS (Cancioneiro de Afonso, o Sábio), lembra-se que lhe faltou ser cavaleiro:
Dom Afonso de Castela
De Toledo e de Leão
Rei e bem desde Compostela
Até ao Reino de Aragão
De Cordova e de Janeiro
E de Sevilha, outrossim
E de muita doação
Lhe fez Deus como aprendi,
Do Algarve que ganhou
Aos mouros por nossa fé
Mais e muito mais faria
Na Ordem da Cavalaria…

E em todo o caso, aos títulos reais ainda podia acrescentar Dom Afonso, o Sábio, o de Poeta:
Sendo certo que
Trovar é coisa em que fez entendimento
Mas quem o faz tem de o haver e haver assaz…
Porque isso a Deus apraz
Poeta foi Salomé
Cavaleiro Galaaz.

Só que, e mais uma vez nos socorremos de Daniel-Raps, entre todos os tipos da Idade Média que se gravaram na nossa memória não há nenhum que mais nos impressiona a alma a comova o coração do que o cavaleiro… Aquele guerreiro justo e recto, nimbado de intacta pureza e cujo fim último é mais o sacrifício do que a vitória, mais o sangue oferecido do que o sangue derramado.
A ideia é cristianíssima.
E, todavia, não foi em terra cristã que nasceu o cavaleiro, mas nas tradições das tribos germanicas, onde um mancebo não usava armas que não tivesse recebido – fosse escudo, fosse capacete, fosse framea, das mãos de seu pai ou chefe. E com que lentidão e paciencia não trabalhou a Igreja para fazer da investidura militar essa espécie de sacramento em que viria a transformar-se o ingresso na Cavalaria!
A entrada era efectivamente acompanhada por uma cerimónoia, a um tempo minuciosa e grandiosa. Os velhos ritos germânicos, como o banho purificador e a entrega da espada, integram-se agora numa noite santa, vigília pascal ou de qualquer outra festa essencial. E uma noite de oração e meditação. E daí até ao acto final há toda uma longa liturgia.
Finalmente, adianta-se o padrinho que, com a espada desembainhada, a estende ao donzel para que a beije.
Segue-se a pranchada nobilitadora, como lembrança do antigo ritual germanico.
Finalmente, temos a fórmula de consagraçao, o cingir da espada e o juramento com a mão direita estendida, diante do altar.
Podia lembrar-se também a velha frase:
Tota licet veteres exornent undique cerea atria nobilitas sola est atque unica virtus.
Se bem que velhas figuras de cera exornem de todos os lados os palácios das grandes famí1ias, a única e exclusiva nobreza reside na virtude, ou antes na prática concertada de todas as virtudes.
Era esta a máxima da cavalaria, segundo a qual só é valente o que tem valor de corpo e bondade de alma.
Era esta a mentatidade imperante e a transluzir em a Canção de Rolando, o Poema de Cid, a Demanda do Santo Graal, obras que ajudaram a fixar a missão da Europa, como a mãe de ideais e civilizações.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

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