Vários historiadores, possivelmente deslumbrados com os resplendores culturais da alta latinidade e depois impressionandos com o desmantelamento do império, apodam a Idade Média de noite milenária da cultura.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaAquele período durou efecitvamente à volta de mil anos. Mas só poderá classificá-lo de noite cultural quem não queira conhecer o papel naquele sector prosseguido peIa Igreja, já directamente pelas suas próprias instituições; já incitando e apoiando realizações dos monarcas e grandes senhores.
Nas igrejas paroquiais, juntamente com as verdades da fé, aprendiam-se rudimentos de leitura, escrita e aritmética.
Nas capitulares, assim chamadas por funcionarem junto dos capítulos (nós hoje chamamos-lhes cabidos, com o que significamos corpos de cónegos de uma diocese), ensinavá-se o trivium e o quadrium, embrião dos actuais cursos de letras e ciências, compreendendo o primeiro a retórica, a gramática e a dialéctica, espraiando-se o segundo pela matemática, geometria, astronomia e música.
Depois, não pode esquecer-se a obra dos mosteiros, tanto na salvaguarda e recuperação das riquezas culturais da antiguidade, como na elevação do nível intelectual das populações.
Muitos conventos ostentavam até atraentes dísticos, convidando à alfabetização: «se queres aprender a ler, entra, que tens aqui – e de graça – o que procuras».
Não falaremos da Universidade, também naquele período surgida e instituição que, só de per si, relevaria todas as eventuais faltas que à Idade Média se pudessem assacar.
Nos domínios da produção artística, o Te Deum, aparecido ainda no primeiro milénio, bastaria igualmente.
Raras vezes, o espírito humano tem voado tão alto como naquele admiravel texto, onde da forma mais elevada se exprimem as três dominantes da alma cristã: a alegria do triunfo, a angústia perante o futuro sempre incerto e a imorredoira confiança em Deus.
«Nós Te louvamos, Senhor; nós Te confessamos. A Terra inteira Te venera, e os Anjos e os Arcanjos, os Principados e as Potestades, os Tronos e as Dominações. O corpo glorioso dos Apóstolos, na sequência dos Profetas, e o branco exército dos Mártires cantam em conjunto a Tua glória. E, por toda a Terra, a Igreja é confessada…
Senhor, só em Ti está a nossa confiança. Nós Te glorificamos pelos seculos dos seculos. Que a nossa súplica seja ouvida e que o nosso clamor chegue até Ti. Senhor, está connosco. Fica com a nossa alma…»
Texto sem autor identificado, atribuído por uns a Santo Ambrósio, por outros a Santo Agostinho, por outros a um obscuro prelado dos confins balcânicos, ressaiba a epopeia jamais ultrapassada.
E, se o Te Deum, simboIizando e expressando, embora, todo um milénio, se pode considerar ainda urna obra isolada, produto apenas duma mente genial, naturalmente muito acima do seu século, há já movimentos culturais que interessam senão multidões, ao menos a importantes massas populacionais.
O mais conhecido é, por certo, o Renascimento Carolíngio.
Achen, nome germânico de Aix-La-Chapelle, à francesa, ou Aquisgrano, à latina, a cidade das águas correntes, funcionou como a capital não só política e militar, mas também científica, de todo aquele extenso período em que Carlos Magno, São Carlos Magna, se revelou o primeiro dos chefes da cristandade e também o primeiro cristão.
A Escola Palatina, sediada na antiga vila do tempo de Pepino, o Breve, viu passar pelas suas cátedras, todos os grandes espíritos da época.
Ali, à sua volta, Carlos Magno, como verdadeiro precursor da Europa do espírito, reuniu tudo o que contava nos domínios da cultura, dos sábios, dos letrados, dos teólogos. Da Gália do Sul, vieram Agobardo e Teodulfo, este último refugiado godo das Espanhas. Da Inglaterra, Alcuino, porventura o mais brilhante de todos os grandes paladinos e primeiro-ministro espiritual do próprio Imperador. Da Italia, Paulo Diacono, Pedro de Pisa e Paulino da Aquileia. Da Irlanda, Clemente e Dungal. Dos países nordicos, Engilberto e Eginhardo, este também notável.
Onde quer que os seus esculcas intelectuais lhes apontassem urn nome célebre, Carlos Magno mandava recrutá-lo.
A todos retribuindo principescamente, mesmo no sentido rigoroso do termo, pois ao já referido Engilberto casou-o com sua filha…
Com menos brilho, embora, outras escoIas funcionaram também, nomeadamente, em Tours.
E, mesmo que na sombra, lançavam-se as bases para o grande renascimento que adviria logo no princípio da idade moderna e que só foi possivel porque os centros culturais da época precedente (que se teima em cIassificar de obscura) se mantiveram vigilantes e operosos.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

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