Sob o título em epígrafe, lê-se na «História Geral da Civilização», de Adriano Vasco Rodrigues:

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNo reinado de Francisco Primeiro, correndo os anos de 1533/1534, Verazzano, um florentino ao serviço da corte francesa, percorreu parte das costas da America do Norte. Mais tarde Cartier descobriu o estuário do São Loureço. Ainda em 1534, iniciou-se a colonização francesa do Canadá. Aproveitando-se da situação criada a Portugal pela ocupação filipina, os franceses tentaram estabelecer-se no Brasil e na India. Richelieu não se preocupou apenas com os limites naturais da França. No seu tempo, ensaiou-se a colonização do Canadá, das Anti1has, do Senegal e de Madagascar. No tempo de Carlos IX fundaram a Carolina, em homenagem aquele soberano, o mesmo fazendo com a Luisiana, no tempo de Luis XIV. Esta colónia foi o foco da Guerra dos Sete Anos, durante a qual a França perdeu grande parte do seu império colonial. Mesmo assim, na India possuíu até aos nossos dias Pondicheri, Carical, Mlahe, Tainao e Chandernagor…
E, diremos nós agora, manteve a Indochina até 1960, a Argélia, o Saara e a África Ocidental, a Africa Equatorial, Madagascar e parte das Antilhas, além de numerosos arquipélagos meio oceânicos, meio insulindícos, até a grande vaga de independências forçadas pela ONU e pelos partidos de esquerda em Paris…
Compêndio escolar adoptado nos nossos liceus em fins do século passado continha esta relaçao:
África: Argélia, Tunísia, Gabão, Senegâmbia, Reunião, Maiota, Nossibé e Santa Maria de Madagáscar;
Ásia: Índia Francesa e Conchinchina Francesa; e, ainda protectorados sobre o Reino do Cambodja, Tubuai, Vovitou, Rapa, Tuamutu e Gambier;
América: Guiana, Guadalupe, São Bartolomeu, Martinica, São Pedro e Miquelou;
Na Oceânia: Nova Caledónia, Taiti, Moerea, Tetuarea, Raiatea, além de numerosas ilhas (Loyalti, Marquesas, Cliperton, entre outras…).
Dos impérios ultramarinos foi este sem dúvida o segundo em importância, logo a seguir ao inglês.
Menos mercantilista e mais interessado em trazer os povos indígenas aos benefícios da civilização, só podia ser atacado em nome de princípios que não tinham em conta o humanismo.
Aliás, muito mais do que as populações autóctones, genericamente satisfeitas com a colonização e até orgulhosas com a sua ligação à França, quem lançou as sementes da revolta foram internamente os partidos e intelectuais de esquerda (uns por pretensões de vanguardismo, outros por obediência a Moscovo) e externamente a Rússia ou a China ou até os Estados Unidos, todos com aspirações e intenções imperialistas e os últimos para agradarem aos afro-asiáticos que tinham a maioria na ONU e lhes forneciam oportunidades comerciais inusitadas.
Os militares franceses, não obstante a situação de abandono a que a classe política os votou, escreveram páginas de glória na defesa do Império.
Os Centuriões, embora livro romanceado, dão-nos épico testemunho. No pórtico, escreveu o autor, Jean Larteguy:
Conheci muito bem os centuriões das guerras da Indochina e da Argélia. Durante algum tempo, fiz parte deles; depois jornalista, tornei-me sua testemunha, por vezes seu confidente. Sentir-me-ei para sempre ligado a esses homens, mesmo que um dia deixe de estar de acordo com eles quanto ao caminho que seguiram… E dedico este livro à memória de todos os centuriões que pereceram para que Roma sobreviva.
A Indochina ficaria na memória de todos:
Naquela noite, os oficiais tinham-se reunido em casa de Esclavier que, como se servia dos móveis dos legionários, possuía a cozinha mais confortável… Primeiro beberam por Merle e todos os companheiros que já estavam mortos; depois por eles próprios a quem talvez acontecesse rapidamente o mesmo; por Si Lachen, que foram obrigados a matar; pelo coronel Quarterolles, por Moine, por Vesselier que teriam gostado de fuzilar. Mas, à medida que se afundavam na sua bebedeira, esqueciam a ArgéIia (onde então se encontravam) e a França e, dentro em pouco, todos falavam ou sonhavam com a Indochina. Nessa mesma hora, todos os oficiais, todos os sargentos e todos os soldados do exército francês que tinham conhecido o Tonquim ou a Conchinchina, a Região Alta, o Cambodja ou o Laos, quer estivessem sentados em suas cozinhas, escondidos numa armadilha, ou dormindo sob a tenda, reavivavam da mesma forma a chaga da doença amarela, arrancando-lhe as finas crostas que a cobriam.
Esclavier nao pudera suportar por muito tempo as discussões e safra. Avançara entre as ruínas do acampamento romano… Sentou-se sobre o fuste de uma coluna quebrada e tacteou uma inscrição: Titus Caius Germanicus, centurio Tercia Legio Augusta.
Vinte séculos antes, um centurião romano sonhara junto daquelas colunas e espreitara no fundo do deserto a chegada dos númidas. Quedara-se ali para defender as pontas do Império, enquanto Roma apodrecia, os bárbaros acampavam junto às Três Vias e as mulheres e filhas dos senadores juntavam-se-lhe durante a noite para copular com eles…
Esclavier sentia o ódio, a repugnância a invadi-lo contra todos aqueles que em Paris se felicitavam antecipadamente com a derrota e a perda do império.
Titus Caius Germanicus devia sentir a mesma coisa a respeito dos progressistas de Roma…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

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