A primeira referência histórica ao povo basco data do ano IV antes de Cristo e vem inserida na «Vida de Jugurta», do escritor latino Salustio.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaAo contrário dos celtas e iberos, que não influenciaram as tribos pirináicas, os romanos modificaram-lhes fortemente os costumes, destruindo a tradição matriarcal e a língua que latinizaram.
Com a queda do Império Romano, os bascos foram forçados a organizar-se para se defenderem dos bárbaros (visigodos e francos).
No século IX, é fundado o reino de Navarra. O monarca Sancho, o Grande (999/1036), conseguiu governar todas as terras ocupadas pelos bascos, as quais se estendiam de Navarra a Castela, Aragão, Gasconha e condado de Tolouse.
Esta unidade foi efémera…
Estas pinceladas históricas extraímo-las duma entrevista concedida por um dirigente do PSAN (Partido Socialista de Libertação Nacional), e que vem integralmente publicada no livro «A Oposição em Espanha» que já noutra parte referenciámos, sendo certo que os bascos se consideram pouco espanhóis.
Esta independência caracteriza igualmente os seus irmãos de raça sediados já na zona francesa dos Pirinéus.
Socorremo-nos de Jean Lartéguy, in «Os Centuriões». O coronel Raspeguy, o super-herói da Indochina, passou um dos três meses de licença na sua aldeia natal dos Aldudes, na quinta da família, perto do desfiladeiro de Urquiaga. Era basco; filho de basco francês e de mãe basca espanhola. Mas, em sua casa, a mãe nunca falou qualquer daquelas línguas: apenas basco…
Aliás, os filhos de casamentos mistos sentiam-se diminuídos. O coronel Mestreville tinha uma voz que rolava como uma queda de água, a força dum carvalho e a teimosia duma mula; usava sempre grevas de cabedal por cima das velhas calças de montar, uma boina que nunca abandonava, e interpretava o papel de velho basco, guardião das tradições. Mas só era basco pelo lado da mãe e sofria por usar um apelido que tanto cheirava à Ilha de França ou à Norrnandia…
A independência, a guerra e o amor a seus foros eis a triplíce virtude dos bascos, para quem o patriotismo não é somente o amor da terra, mas também, e sobretudo, o culto do passado. Os séculos, escreveu Almeida Braga, como relha do arado revolvendo o chão, abrem na alma leivas fundas… A raça e a história são o fecundo humus criador. E para que a planta humana cresça fortemente e venha a ser capaz de lançar braços ainda mais robustos, é necessario deixá-la absorver ern vagaroso trabalho, quotidiano e obscuro, toda a seiva física e moral da terra, pois é uma longa sucessão de vontades que fixa no homem aquele grau de força que lhe permite desenvolver todas as suas faculdades criadoras. Conhecendo a própria terra e o esforço das gerações que a fizeram e amaram, é que cada homem se poderá conhecer a si rnesmo.
Por esta tenacidade no afinco à terra e à tradição se caracterizam os bascos e se distin-guem dos demais povos.
Basco, basconço, vasconço, bascongado ou vascongado, adquire assim um significado simultaneamente de apego ao passado e nao tergiversação na construção do futuro.
A questão não é de hoje, mas de séculos. E, de resto, não se circunscreve à Vascónia, mas tem sido levantada por todos os defensores dos tradicionais foros das várias regiões espanholas, os chamados communeros.
Recorde-se aqui o que Don Juan de Padilla, chefe daqueles, escrevia à sua cidade, horas antes de ser decapitado:
«A ti, cidade de Toledo, que és a coroa de Espanha e a luz do Mundo, que já no tempo dos godos eras livre, e que prodigalizaste o teu sangue para assegurar a tua liberdade e a das cidades tuas irmãs, Juan PadiIla, teu filho legítimo, te faz saber que, pelo sangue do seu corpo, mais uma vez vão ser renovadas as tuas antigas vitórias.»
Era o grito Ubi libertas, ibi Patria. E, em relação aos seus tradicionais foros, podia dizer qualquer basco: Le quiero más que a mi sangre…
De Gipuscoa ou de outra parte da Biscaia, como indómitos montanheses têm-se batido de conforrnidade.
A primeira verdadeira guerra civil espanhola, em reacção contra a Constituição de Cadis, foi por ali que se desenrolou. Dali irromperam os tércios de réquétés, onde muitas vezes figuravam três membros da mesma família, avô, pai e filho, representando, assim, três gerações em armas, Iutando pelo mesmo ideal.
O sentido de luta estende-se também às mulheres, nao sendo por acaso que o conhecido romance etnográfico «A donzela que vai à guerra» começa por declarar:
Pregonadas son las guerras de Francia con Aragon

Estaba un dia buen viejo
Sentado en un campo al sol.
Como las haré yo triste
Viejo, cano y pecador

É conhecida a nossa tradição:

Ai de mim que já sou velho
E as guerras me acabarão!
De sete filhos que tive
Nenhum me saíu varão
Responde a filha Elisarda,
Com muita determinação,
Venham armas e cavalo
Eu farei de capitão…

E a vasconia respondeu e no fim pode exclamar:

Sete anos andei na guerra
E fiz de filho varão
E ninguém me conheceu
Senão outro capitão;
Conheceu-me pelos olhos,
Porque por fraqueza não…

Pai, eu volto, que vencemos
Por sobre a França Aragão
E sobre a Espanha também…

É, afinal, o sentimento de superioridade e independência de que sem nada dizer se jactava a mãe de Raspeguy do romance «Os centuriões».
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

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