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Paulo Leitão Batista tem sido um atentíssimo «repórter» das capeias que neste Verão decorreram na Raia sabugalense. Nós, os leitores do blogue «Capeia Arraiana», estamos-lhe todos muito gratos por isso, sobretudo aqueles que, como eu, não puderam assistir ao vivo.

Salto ritual do touro. Pintura a fresco, Palácio de Cnossos, Creta, c. 1450-1500 a.C.
Salto numa corrida landesa. Sul de França, 2010 Salto mortal por um recortador. Navarra, Espanha, 2011 Salto-de-anjo numa corrida landesa. Sul de França, 2011

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Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaA propósito do texto de Paulo Leitão Batista intitulado «Os malabarismos das capeias» peço-lhe licença para acrescentar algumas «notas» antropológicas e históricas.
Na verdade, estes saltos acrobáticos remontam a uma tradição antiquíssima. Muito provavelmente, aqueles que, de forma tão ágil e corajosa os praticam nas nossas capeias, fazem-no tão espontaneamente que nem lhes passa pela cabeça que, na ilha de Creta, há cerca de 3500 anos, outros como eles faziam o salto mortal por cima de touros sagrados. Numa das fotografias aqui reproduzidas podemos ver um fresco do Palácio de Cnossos que nos mostra três momentos de um salto acrobático ritual. Os cretenses da época minóica veneravam o touro como símbolo da fertilidade e estas “acrobacias taurinas” efectuavam-se no âmbito de cerimónias religiosas. Muito provavelmente foram estas práticas que deram origem ao mito do minotauro.
Mas o curioso é que este ritual permaneceu na memória popular dos povos da orla mediterrânica e ainda hoje persiste: no sul de França efectuam-se as chamadas «corridas landesas» (courses landaises), nas quais jovens como o Frank ou o Balhé saltam por cima de vacas bravas ou dos pequenos touros da Camargue, conforme podemos ver nas fotografias. Também em várias regiões de Espanha encontramos uma prática semelhante, chamada «recorte»: rapazes destemidos e fisicamente bem preparados, chamados “recortadores”, saltam por cima de touros bravos, neste caso animais encorpados e poderosos.
As capeias arraianas sempre tiveram este segundo momento: depois do forcão «corria-se» o touro, com ou sem acrobacias. É sobretudo a pensar nesta segunda parte que Joaquim Manuel Correia chama «folguedo» à capeia. Ainda bem que estes rapazes, muitos deles «franceses-arraianos», alegram as capeias com a sua agilidade. Cabe-nos aplaudi-los.
Lembro-me bem de alguns dos mais «leves» rapazes de Aldeia do Bispo fazerem saltos espantosos, tanto por cima dos bois como para cima das calampeiras. Quando eu era garoto, dizia-se que o mais «leve» de todos era o António da Ti Claudina, também conhecido por António das Meninas: com as suas calças de pana metidas dentro das meias e as suas alpergatas espanholas, foi durante muitos anos um verdadeiro «líder» das capeias de Aldeia do Bispo. Morreu há pouco, com 93 anos. Merece descansar em paz e que a terra lhe seja leve.
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

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Aqui há um par de meses, a imprensa espanhola e europeia em geral «crucificou» o rei Juan Carlos I devido a um acidente que ele sofreu durante a participação numa caçada aos elefantes. Todavia, se as razões de ordem ecológica eram óbvias, existia por trás uma outra questão, esta de ordem ética: o rei encontrava-se acompanhado por uma alegada amante. Uma das muitas que a imprensa «cor-de-rosa» lhe costuma atribuir.

D. João V, rei de Portugal (1706-1750). Foram bem conhecidos dos seus contemporâneos os amores do Rei Magnânimo por uma freira de Odivelas, a Madre Paula, a quem instalou, com os três filhos bastardos que dela teve, no Palácio de Palhavã

Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaMuitos dos meus leitores lembrar-se-ão, por certo, de um caso semelhante, que envolveu o antigo presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton e uma jovem estagiária da Casa Branca, caso que chegou às mais altas instâncias do Poder americano. O bom-senso acabou por levar os senadores americanos a pôr um ponto final no folhetim. Na sociedade romana, os «senatores» eram os cidadãos nobres mais velhos e conceituados, supostamente os mais avisados, prudentes, sábios e sensatos. Infelizmente, antes como hoje, nem sempre isso acontecia. Muitos senadores romanos eram o protótipo antecipado do Frei Tomás: «Fazei o que ele diz, mas não o que ele faz.» E as denúncias sensacionalistas do jornalismo tablóide têm mostrado que alguns dos julgadores americanos também têm telhados de vidro. As pedras que, hipocritamente, atiravam sobre a Casa Branca, fizeram ricochete e estilhaçaram os seus próprios telhados.
Ninguém veja nas minhas palavras a desculpabilização do comportamento do Presidente Clinton e, do mesmo modo, do rei de Espanha. Na minha modestíssima opinião, eles agiram mal antes, durante e depois dos factos. Mas isso é uma questão, e o aproveitamento político e jornalístico do caso é outra.
Ao tempo da «lewinskyzação» da política americana, o histerismo sobre a vida privada dos políticos mostrava um sinal exterior de uma mentalidade puritana, que aparecia, aos olhos de qualquer europeu com milhares de anos de civilização às costas, como que um infantilismo histórico. Vejamos apenas alguns exemplos tirados dessa história europeia secular, cheia de casos tão ou mais explícitos que os de Clinton ou de Juan Carlos I.
Poderíamos falar de César e Cleópatra, ou de Calígula e as suas bacanais, ou da imperatriz Messalina, que parece ter hospedado no seu leito mais homens do que os que cabiam na arena do Coliseu; ou de Luís XV e a Pompadour. Ou de muitas rainhas e princesas que também não deixaram os seus créditos por mãos alheias: Catarina da Rússia, que preferia cossacos espadaúdos cheirando a vodka; ou Paulina Bonaparte, irmã de Napoleão, que, depois de se divorciar do general Leclerc, casou com o Príncipe Borghese, membro da mais alta aristocracia italiana, mas que vivia separada do marido porque este se envergonhava do seu comportamento libertino e licencioso. Poderíamos começar por tudo isso, mas comecemos antes pela nossa própria História.
São muito raros os reis de Portugal que não tiveram amantes. Abundam os bastardos e alguns deles até se tornaram reis, como acontece com D. João I, filho ilegítimo de D. Pedro I. Os casamentos régios eram geralmente uniões políticas, combinadas entre as casas reinantes da Europa, e só por sorte a um príncipe podia calhar uma princesa por quem viesse a sentir verdadeiro amor. Tanto lhe podia calhar em sorte uma mulher bela, sensível e bondosa (como parece ter acontecido com D. Dinis e D. Isabel, a futura Rainha Santa), como lhe podia sair uma mulher agreste e de pêlo na venta (como aconteceu com D. João VI e D. Carlota Joaquina). Portanto, nada de admirar que, cumprida a obrigação de assegurar descendência legítima, os monarcas procurassem outros leitos. É verdade que a religião condenava o adultério, mas havia sempre um confessor disponível para aliviar as consciências. E os reis sempre trataram bem os seus bastardinhos, nobilitando-os e doando-lhes vastas propriedades. O já citado D. João I, apesar de casado com a virtuosa e culta D. Filipa de Lencastre, não deixou de ter as suas aventuras extra-conjugais. De uma delas nasceu D. Afonso, que ele faria conde de Barcelos e duque de Bragança. Este D. Afonso, que casou com D. Brites Pereira, filha de D. Nuno Álvares Pereira, encontra-se ainda na raiz de outra das mais antigas famílias aristocráticas portuguesas, a Casa de Cadaval. E, para além disso, está também na origem da dinastia de Bragança. Duas das dinastias portuguesas tiveram, portanto, origem bastarda. E, se virmos bem, até a primeira: D. Afonso Henriques era filho de D. Teresa, ilegítima de Afonso VI de Leão e Castela. E isso que importância tem? Nenhuma.
O segundo rei de Portugal, D. Sancho I, teve 19 filhos, 11 legítimos, da rainha D. Dulce, e 8 bastardos, de várias mulheres. O próprio D. Dinis (casado com uma santa, como acima se diz!), também teve os seus amores mais ou menos clandestinos, dos quais nasceram 6 bastardos. Quanto a D. Pedro I, é bem conhecida a sua paixão extra-conjugal, avassaladora e trágica. Casado com D. Constança, viria a tomar-se de amores por uma das suas damas de companhia, a castelhana Inês de Castro, de quem teve três filhos. Já depois do assassinato de D. Inês (em 1355), D. Pedro teria ainda, de uma dama chamada Teresa Lourenço, mais dois bastardos – o já referido D. João, Mestre de Avis e futuro rei D. João I, e uma menina, D. Brites ou Beatriz. E consta até que este nosso rei D. Pedro, chamado o Cru ou o Cruel, demonstrou igualmente o seu apreço por alguns dos jovens pajens que o rodeavam.
Poderíamos multiplicar os exemplos. Ainda na história de Portugal, demos apenas mais um, o de D. João V. A rainha que lhe destinaram era uma austríaca frígida e friorenta, D. Maria Ana de Áustria, que, segundo conta José Saramago no Memorial do Convento, o fazia suar abundantemente debaixo de edredons de penas, enquanto se esforçava por garantir a sucessão ao trono. Logo que Nosso Senhor lhe deu descendência suficiente (e pela qual construiu, em troca, o próprio Convento), D. João V tratou de procurar amores mais ardentes. (Por alguma razão, no Palácio-Convento de Mafra, o quarto do rei e o quarto da rainha estão separados por um corredor com mais de 200 metros de comprimento!) Esses amores encontrou-os o Rei Magnânimo nos braços de uma freira de Odivelas, a célebre Madre Paula, de quem teve três bastardinhos. Instalou-os, juntamente com a mãe, no Palácio de Palhavã, em Lisboa, onde hoje fica a Embaixada de Espanha. Por isso, os infantes eram chamados os «meninos de Palhavã». Um deles viria a ser arcebispo de Braga e o outro Inquisidor-Mor do Reino. Como vê, leitor, em Portugal a bastardia régia nunca impediu ninguém de voar bem alto.
Na aristocrática e tradicionalista Grã-Bretanha não faltam também exemplos de amores ilícitos ao mais alto nível. Sem ser preciso recuar às tragédias históricas shakespeareanas, basta lembrarmos dois ou três casos relativamente recentes, a começar pela moralista rainha Vitória (1819-1901). Tendo subido ao trono muito jovem, com apenas 18 anos, casou em 1840 com um homem que muito amou, o Príncipe Alberto de Saxe Coburgo-Gotha. Teve um indiscutível e enorme desgosto quando enviuvou precocemente, em 1861. Durante alguns anos encerrou-se num luto puritano e obcecado, quase exigindo que o Reino inteiro partilhasse com ela esse luto. Era tão intransigente e rigorosa com os comportamentos e as aparências que ainda hoje aplicamos o adjectivo «vitoriano» a uma pessoa moralista e recatada. Pois bem: a moderna história da vida privada ainda não esclareceu suficientemente as relações que a rainha Vitória manteve com um inseparável mordomo escocês e, mais tarde, com um criado de origem indiana, com o qual viajava para onde quer que fosse. Mas tudo leva a crer que o comportamento da viúva rainha Vitória não seria lá muito «vitoriano».
Também o seu herdeiro, Eduardo, príncipe de Gales e futuro rei Eduardo VII, teve uma vida recheada de aventuras galantes, que já deram lugar a filmes e séries televisivas. Eduardo VII passou uma eternidade à espera do trono (como está a acontecer, aliás, com o actual príncipe de Gales). A rainha Vitória morreu com 82 anos e Eduardo VII já tinha 60 quando subiu ao trono, em 1901. Entretanto, enquanto esperava, foi aproveitando bem o tempo. Embora casado com a princesa Alexandra da Dinamarca, teve sempre amantes mais ou menos oficiais ou oficiosas, tendo uma especial predilecção por actrizes (o nosso rei D. Luís também tinha um fraquinho por bailarinas e cantoras espanholas). Um dos amigos íntimos de Eduardo VII foi o marquês de Soveral, diplomata português em Londres. Sabe-se que o marquês de Soveral era muito discreto e eficiente na forma diplomática como preparava os encontros amorosos do príncipe de Gales. Era, se quiséssemos usar uma linguagem vicentina, uma espécie de alcoviteiro-mor do herdeiro do trono britânico.
Não falemos, porque seria pouco «caridoso», dos amores e desamores do actual herdeiro do trono de Inglaterra. Lembremos apenas que, bem perto de nós, François Miterrand manteve, em todo o tempo em que foi Presidente da República francesa, duas mulheres e duas casas, uma a oficial e outra a secreta, situação que só assumiu publicamente quando se encontrava próximo da morte.
A vida privada dos políticos, particularmente a sua vida sexual, na Europa, raramente foi motivo para a sua exclusão do poder. E até mesmo o rei Eduardo VIII de Inglaterra, que foi forçado a abdicar do trono em 1936, quando se apaixonou pela americana divorciada Sra. Simpson, sabe-se hoje que foi mais devido às suas simpatias pró-nazis do que ao seu casamento. Ao contrário do que se passa na América, a velha sabedoria dos europeus tem-nos levado a relativizar as fraquezas humanas, sobretudo as fraquezas da carne, e a valorizar as capacidades políticas, intelectuais e humanas dos governantes. Foi talvez por isso que o antigo chanceler conservador alemão Helmut Kohl declarou aos jornalistas que a novela Clinton-Lewinsky apenas lhe «dava vómitos».
Concluamos esta crónica com uma citação de «O Príncipe», de Nicolau Maquiavel: «Não é necessário a um príncipe possuir todas as qualidades, mas sim parecer possuí-las.»
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

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Aqui há tempos, numa crónica intitulada «Não Matarás!», eu comentava no «Capeia Arraiana» o sempre polémico problema da pena de morte. E escrevia, logo no início desse artigo: «Vivemos tempos de insegurança e de violência urbana: a delinquência, os assaltos, as violações, a droga, os homicídios, os maus-tratos, tudo contribui para criar na boa-consciência burguesa uma predisposição quase involuntária para a aceitação da pena de morte, ainda que frequentemente as pessoas guardem dentro de si essa opinião mais radical.»

Diogo Inácio de Pina Manique, Intendente-Geral da Polícia entre 1780 e 1805, numa gravura de Domingos Sequeira

Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaPeriodicamente, a propósito de crimes de sangue muito violentos, a questão volta a ser aflorada na comunicação social. Os assassinos são por vezes condenados ao cúmulo jurídico de 80 ou 90 anos, sempre traduzido na pena máxima legal de 25 anos de prisão.
Muitos desses crimes selváticos e hediondos, sobretudo quando as vítimas são mulheres ou crianças, levam muita gente, no calor da indignação e sob o efeito da repulsa, a reclamar a pena de Talião: «olho por olho, dente por dente»; ou, na versão bíblica, «quem com ferros mata, com ferros morre».
Não vou aqui repetir as considerações que já explanei no artigo acima referido. As sociedades modernas, organizadas em Estados de direito, procuram ultrapassar os instintos primários e aplicar uma justiça de rosto humano. Racionalmente, civilizadamente, não podemos admitir que, num Estado moderno, se substitua a Justiça pela Vingança. E, muito menos, aceitar que sejam os cidadãos a fazer justiça pelas suas próprias mãos.
Ora é isso que, ultimamente, se tem vindo a verificar entre nós, com uma frequência inquietante. Os réus dos julgamentos mais mediáticos e chocantes, como aconteceu com o «caso de Joana», no Algarve, ou o do chamado «Rei Ghob», têm que ser constantemente protegidos da fúria irracional das populações. Caso contrário seriam linchados. O que, aliás, já aconteceu algumas vezes (lembremos o caso dos assaltantes de um armazém de electrodomésticos, em que um deles foi morto à pancada por populares, antes de a Polícia ter tempo de chegar).
E lembremos também as milícias populares que, um pouco por todo o País, se vão organizando espontaneamente, sempre que surge um problema local, real ou aparente: os que estamos atentos à comunicação social guardamos na memória nomes como Francelos, Oleiros, Cabanelas, etc., onde os telejornais nos têm mostrado magotes irados e gesticulantes, gente armada de varapaus e de barras de ferro, pronta a fazer justiça na praça pública. Umas vezes terão as suas razões para reclamar a atenção do Estado, outras vezes nem por isso. Seja como for, nada desculpa a intolerância, o racismo e a xenofobia, nada justifica a aplicação da lei da selva. Nos dias de hoje, melhor ou pior organizados, respondendo com maior ou menor eficiência, dispomos de vários corpos policiais cuja missão fundamental é exactamente aquela que as milícias populares pretendem usurpar: proteger os cidadãos e defender o Estado de direito.
Nos nossos dias, as sociedades modernas têm à sua disposição um vasto conjunto de polícias: urbana, rural, municipal, florestal, militar, marítima, fiscal, aduaneira, de viação, sanitária, judiciária, secreta, etc. Mas nem sempre foi assim. E, quando não havia quem as defendesse, as populações organizavam-se em milícias de vigilância e de defesa, então sim plenamente justificadas. Olhemos um pouco para trás, em busca da perspectiva histórica deste problema.
A palavra «polícia» tem a mesma origem que a palavra «política»: ambas derivam do conceito grego de «polis», a «Cidade-Estado». A política é a «arte de governar a polis»; a polícia é a «força pública encarregada de manter a ordem e defender os cidadãos».
A Polícia, tal como hoje a conhecemos, é relativamente recente. Mas sempre houve, nas sociedades antigas, senão corpos policiais organizados, pelo menos militares destacados para a manutenção da ordem pública e a defesa da estrutura social estabelecida. Em Roma, por exemplo, no tempo de Augusto, essa missão era desempenhada pelos stationarii, dirigidos por 12 curatores (um por bairro). Outros magistrados, os edis, velavam pela limpeza e abastecimento da cidade, tratando também dos divertimentos.
Durante a Idade Média europeia, a vigilância da ordem pública era efectuada pelas próprias comunidades, que se organizavam para o efeito. Todavia, à medida que se foram constituindo os Estados modernos (após o Renascimento), foram surgindo polícias governamentais, quase sempre com o objectivo primordial da manutenção da ordem social e política vigente. O conceito de polícia de segurança só irá surgir com o iluminismo setecentista.
Em Portugal, desde o século XIV que os monarcas criaram corpos de patrulhamento urbano (os quadrilheiros), mais ou menos numerosos consoante as épocas, mas sempre relativamente ineficientes. O grande sismo de 1755 revelou como os lisboetas estavam desprotegidos: centenas de ladrões e assassinos saíram das prisões desmoronadas e invadiram a cidade. Pombal, com a dureza e a rapidez de decisão que o haveriam de tornar famoso, reprimiu a ferro e fogo a criminalidade, mandando a tropa enforcar no local qualquer delinquente apanhado em flagrante. E, cinco anos depois, criou a Intendência-Geral da Polícia da Corte e Reino (lei de 25-6-1760). No entanto, a Intendência pombalina visava sobretudo objectivos políticos e menos a segurança pública. Esta vertente só seria acentuada mais tarde, depois de 1780, quando Diogo Inácio de Pina Manique foi nomeado intendente-geral.
A Lisboa desta época era uma cidade suja, sombria, infestada de ladrões, vagabundos, assassinos, prostitutas e… cães (nada menos que 80 mil!). Pina Manique tinha uma tarefa ciclópica à sua frente. Tratou, em primeiro lugar, de retirar muita daquela gente das ruas: os criminosos foram perseguidos e aprisionados, introduzindo o intendente nas cadeias portuguesas as modernas práticas de ocupação prisional; as crianças abandonadas, as prostitutas e os vagabundos foram recolhidos na Casa Pia, em sectores diferenciados. Em seguida, Pina Manique criou um sistema de recolha de lixo (inexistente em qualquer cidade portuguesa) e procedeu à instalação do primeiro sistema de iluminação nas principais ruas de Lisboa. Eram já passos importantes, indispensáveis para a prevenção do crime.
Mas o intendente dispunha de um reduzido corpo de funcionários policiais. Em 1793 eram apenas 100, numa cidade de 150 mil habitantes! E muitos deles, particularmente depois de 1789 (início da Revolução Francesa e das suas repercussões em Portugal), foram utilizados como agentes secretos (os «moscas»).
Perante a escassez de meios humanos com que garantir a segurança pública, Pina Manique, um político educado na «escola» pombalina, tomou uma decisão drástica: criou as Rondas Civis, autênticas milícias populares legais. Em 1785, surgiram rondas formadas pelos habitantes de cada rua, que eram escalados para o efeito. Cada casa tinha que disponibilizar, periodicamente, um elemento para a ronda, e nenhum homem ou rapaz se podia eximir a esta obrigação. Os ricos (nobres ou burgueses) podiam fazer-se substituir pelos respectivos criados. A ronda tinha uma matraca, um instrumento de percussão com o qual dava o alarme, alertando as outras rondas e a Guarda Civil a cavalo (duas patrulhas de cinco homens cada uma, que circulavam pela cidade).
Mas tudo isto era obviamente insuficiente. Os crimes violentos continuavam, e Diogo Inácio de Pina Manique não se cansava de exigir do Estado a constituição de um corpo policial numeroso e bem organizado. Demorou 20 anos a ser escutado. Só em 1801, por decisão do Príncipe Regente D. João, sob proposta do intendente ao secretário de Estado D. Rodrigo de Sousa Coutinho, foi formada a Guarda Real da Polícia de Lisboa. Um corpo militarizado constituído, inicialmente, por 628 homens e, a partir de 1805, 1241 guardas (a pé e a cavalo).
Nesse mesmo ano morria Pina Manique, o verdadeiro fundador da Polícia de Segurança, no nosso País(1).

(1) Para mais informações sobre este assunto, leia-se o excelente estudo de Albino Lapa, História da Polícia de Lisboa, publicado em 1964.
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

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Nem sempre a História foi feita por solenes senhores de respeitáveis barbas brancas, ou por ministros de puritanas suíças ruivas, ou por autoritários imperadores de bigode eriçado. Entre desgraças e maus-humores encontramos sempre quiméricos Quixotes e prosaicos Sanchos Panças, à mistura com subtis Erasmos e irónicos Eças. No entanto, nos testes escritos (os «pontos»), os nossos alunos conseguem o prodígio de nos revelar uma História insuspeitada, divertida, sacudida da poeira e das teias de aranha que, por vezes, a tornam tão maçadora.

A arte ao serviço da educação

Adérito Tavares - Na Raia da Memória«Pontos»! Fazê-los. Vê-los. Às centenas. Repeti dos. Monótonos. Cheios de erros ortográficos. É o nosso tormento, a nossa cruz, o nosso pesadelo! Claro, não é isso que manda a cartilha didáctico-pedagógica: o ensino planificado, as metas, os testes de diagnóstico e de posição, os testes formativos e sumativos, etc., etc. Os testes são indispensáveis, eu sei. Mas corrigi-los! E se o desgraçado professor tem 10 turmas de 30 alunos? Trezentos pontos!!!
Bom, mas não estou aqui para me encostar ao muro das lamentações. Pelo contrário: o título, lá em cima, promete coisa leve. No meio de toda a monotonia e aridez da correcção das provas escritas surge, aqui e além, um oásis repousante: são as «anedotas» involuntárias que os alunos nos oferecem. Qual o professor que as não encontrou? Quando nos juntamos, temos sempre uma na ponta da língua. Ainda recentemente uma revista escrevia sobre o assunto e, há anos, foi editado um livro sobre o tema. Quanto a mim, desde há muito que vou anotando graças involuntárias, quase sempre fruto da ignorância, da distracção ou da ingenuidade. O riso, ao contrário do que se diz, não é sinal de pouco siso. Só os animais inteligentes riem. E nós temos direito ao riso. Aqui ficam registadas algumas das muitas piadas recolhidas ao longo de vários anos de «pontos» de História.
Comecemos pela Pré-História. Um aluno distinguia assim os três grandes períodos do Paleolítico: «No Paleolítico Inferior, os homens usavam pedras, no Paleolítico Médio usavam espadas e no Paleolítico Superior usavam espingardas.» Outro, fez uma curiosa estatística demográfica: «Os pré-históricos faziam deusas da fertilidade porque em cada criança que nascia muitas morriam.»
A arte do povo do Nilo sempre intrigou aquele aluno que escrevia: «Os Egípcios eram um povo muito engraçado: andavam de lado.» Outro, à pergunta: «Na monarquia teocrática egípcia, qual era o papel do faraó?», respondeu com uma lógica irrefutável: «O papel do faraó era o papiro.» Ainda a propósito da história egípcia, escrevia um rapazinho: «No Egipto, a medicina não era propriamente para curar mas sim para tratamento dos mortos.» Finalmente, esta curiosa conclusão epis temológica: «Os Egípcios desenvolveram a astronomia hidráulica.»
A civilização hebraica inspirou mais estas: «Os Hebreus foram para a Palestina pastar»; «Abraão levou os Hebreus para Israel, que era a terra onde corria o leite e a manteiga»; «A Bíblia é o livro sagrado onde está escrita toda a vida de Jesus Cristo, antes e depois de Ele nascer».
A civilização romana também tem os seus apreciadores: «Roma foi fundada por dois recém -nascidos»; «A organização do Império Romano era uma organização muito bem organizada.» Por sua vez, «a Península Ibérica foi muito difícil de conquistar, porque estava rodeada de água por todos os lados menos por um». E Nero, dizia um dos meus alunos que «era imperador porque bebia muitas imperiais».
Avançando agora para a Idade Média, encontramos aquela menina que afirmava que «o Papa con cedeu ao rei o direito de investir». Ou ainda o outro que estabelecia conceitos inovadores: «A lei mental excluía os descendentes varões femininos.» E o leitor sabia que «D. Fernando fez a lei das Seis Marias»? Aliás, na História de Portugal não faltam exemplos graciosos, como aquele do aluno que, depois de baralhar os nomes, afirmava: «Pedro Álvares Pereira descobriu o Brasil depois de ganhar a batalha de Aljubarrota.» Quais são as características da arte manuelina? É fácil: «Os componentes da arte manuelina são a pedra, o cimento e a cal.»
E, acerca dos descobrimentos, esta prodigiosa descoberta: «Antes de descobrirem as terras, os Portugueses estudavam a sua situação nas cartas de marear.» Um autêntico ovo de Colombo, portanto. Quanto ao D. Sebastião, o Encoberto, dizia um rapazinho: «D. Sebastião morreu na batalha de Alcácer-Quibir, sendo aprisionado pelos Castelhanos. Ele morreu numa manhã de nevoeiro.» E, se o leitor não sabia, fica a saber que «a baixa pombalina chama-se assim porque tem muitos pombos».
O Renascimento italiano é um período que costuma fascinar os jovens. Só que, por vezes, os conceitos saem ligeiramente distorcidos pela ortografia, como no caso daquela menina gue escrevia, com ingénua ignorância: «Miguel Ângelo desenhou a cópula da Basília de S. Pedro.» Ou, ainda, no caso de um moço sem grande sensibilidade para as subtilezas da língua portuguesa, que afirmava: «Os mecenas eram senhores do Renascimento que costumavam acariciar os artistas.» Claro que o que eles costumavam era acarinhar os artistas. Honi soit qui mal y pense! Se não fosse deseducativo, eu podia ter escrito por baixo: «Às vezes também!»
Em Portugal, D. João III foi um rei-mecenas. Pergunta, a um aluno do 10.º ano: «Fale da política cultural de D. João III.» Resposta: «Pode-se dizer que D. João III era mais culto que D. João II e muito mais que D. João I.» Apeteceu-me anotar por baixo, com uma dupla ironia que ele, seguramente, não alcançaria: «Que grande cultura não teria D. João VI!»
A revolução industrial, o sindicalismo, as ideias socialistas, etc., também têm originado boas piadas (por favor, não me interpretem mal). Dizia um jovem e aplicado estudante, matando dois coelhos de uma cajadada: «A Inglaterra dispunha de muita mão-de-obra-prima.» Por sua vez, outro afirmava que «o Comboio revolucionou a revolução dos transportes». E um terceiro garantia que «o socialismo utópico é aquele que chega ao topo». Ainda dentro do mesmo tema: perante a miséria da classe operária, no século XIX, qual foi a resposta do movimento sindical? Conclusão óbvia de um aluno com nítida vocação burocrática: «O movimento sindical respondeu dizendo que ia estudar o caso…»
Finalmente, um exemplo daquilo a que nós chamamos «palha», isto é, escrita para encher, sem ideias nem conteúdo, numa hábil manobra de «deitar o barro à parede». Pode ser que pegue! Pedia-se para os alunos, num exame de História das Artes Visuais, falarem da arquitectura romântica. E surgiu esta preciosidade: «As características básicas deste edifício são inovadoras, pois a dinâmica elaboral flui sem precedentes do exotismo das linhas arquitectónicas. A linha básica é canalizada por detorpismo de formas e pelo exagero de cenas decadentes e improvisadas, representativas da cultura romantesca não incluída nos padrões projectuais vigorizantes.» Um espanto! Com neologismos e tudo.
É tempo de acabar. Aguardemos por mais. A originalidade e a criatividade dos nossos jovens alunos são uma promessa de humor constante e renovado. E Clio (a musa da História) não se zanga.

As cabecinhas formatadas da «geração computorizada»

«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares
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Já por mais que uma vez, nesta «raia da memória», pedi títulos emprestados. Volta a ser o caso de hoje: «Noite e nevoeiro» é o título de um admirável filme de Alain Resnais sobre o Holocausto, um verdadeiro libelo acusatório sobre a barbárie nazi e, simultaneamente, uma reflexão sobre os limites da crueldade humana.

Monumento em memória das crianças vítimas dos nazis em Lídice, na Checoslováquia
Gravura do século XVI alusiva ao Massacre de Lisboa de 1506 Memorial do Massacre de Lisboa, no Largo de São Domingos, inaugurado em 19 de Abril de 2006 Mulheres e crianças judias, em Auschwitz, pouco antes de serem conduzidas às câmaras de gás

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Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaJá foram escritos milhares de livros e realizados inúmeros filmes sobre esta temática; os factos ocorreram há setenta anos, numa Europa varrida pela maré negra dos extremismos (fascismo, nazismo e estalinismo); vivemos em democracia, não vislumbramos no horizonte europeu novos Mussolinis, Hitleres ou Estalines; então porquê insistirmos no mesmo tema?
Não tenho certezas sobre isto. Costumo dar a ler aos meus alunos de História Contemporânea um texto de Umberto Eco intitulado «O protofascismo», no qual o conhecido escritor italiano desenvolve a ideia de que o fascismo não é um fenómeno histórico localizado no tempo, que surgiu e se afirmou um pouco por toda a Europa nos anos 20 e 30 do século passado, e ao qual a vitória das democracias em 1945 pôs um ponto final. Para Umberto Eco, o fascismo é intemporal, encontrando-se de forma embrionária e latente no seio das sociedades humanas; bastará que as circunstâncias económicas, sociais e políticas se conjuguem para ele ressurgir. O «ovo da serpente» está pronto para ser chocado pelas dificuldades económicas, o hiper-desemprego, os nacionalismos exacerbados, os egoísmos nacionais, o militarismo, o proteccionismo, etc.
Já assistimos, nos anos 90 do século XX, ao afloramento de práticas nazi-fascistas nos Balcãs. Voltámos a ver prisioneiros esqueléticos em campos de concentração sérvios e descobrimos, horrorizados, o massacre de milhares de bósnios muçulmanos em Srebrenica, cujas valas comuns se assemelhavam às da floresta de Katyn.
Mas será que a civilizada União Europeia corre o risco de regredir à «noite e nevoeiro» da «era dos extremos»? Não estaremos já vacinados contra os extremismos e os anti-semitismos? Talvez não. O ressurgimento de forças políticas de ultradireita na Áustria, na Holanda, na Alemanha, na Itália e até nos civilizadíssimos países escandinavos não nos deixa descansados. Outro sinal preocupante é o alastramento do negacionismo relativamente ao Holocausto: «As câmaras de gás e os fornos crematórios onde foram assassinados milhões de seres humanos nunca existiram.» Afirma-o (sem grande credibilidade é certo) o presidente do Irão, mas também filósofos como Roger Garaudy, corifeu daqueles a quem Mário Vargas Llosa chama «los Purificadores». E o senhor Le Pen, sem coragem para ir mais longe, classifica o Holocausto como «um detalhe da História».
A 2.ª Guerra Mundial deixou atrás de si um rasto de morte e destruição (50 milhões de mortos, incontáveis feridos, deslocados e desaparecidos, cidades arrasadas). O sofrimento humano foi indescritível, mas existem episódios que, por si só, nos dão a dimensão da desumanidade alcançada nesta época; uma desumanidade tão extrema que levou a historiadora Hannah Arendt a falar, relativamente ao totalitarismo nazi, em «banalização do mal». Podíamos aqui referir os casos das cidades de Oradour-sur-Glane, em França, e de Lídice, na Checoslováquia, cujas populações foram completamente exterminadas pelos nazis – homens, mulheres e crianças. Mas limitemo-nos a transcrever um episódio ocorrido em 10 de Julho de 1941 na aldeia polaca de Jedwabne, descrito por Jan Tomasz Gross, no seu livro Vizinhos. Este massacre, segundo Gross, teria sido perpetrado com a colaboração activa de parte da população não-judia da aldeia:
«Depois de cercarem a vila por guardas para que ninguém pudesse escapar, os judeus foram obrigados a dirigirem-se até ao celeiro, numa via dolorosa pontuada por violentos espancamentos: ensanguentados e feridos, foram empurrados para o interior do celeiro. Depois, este foi regado com querosene e incendiado. A seguir, os selvagens andaram de casa em casa à procura dos doentes e crianças que tivessem ficado para trás. Transportaram para o celeiro os doentes que encontraram, enquanto as crianças eram atadas pelas pernas, umas às outras, em pequenos grupos e levadas às costas e depois colocadas em forquilhas para serem atiradas às chamas.»
Em contraponto, para reforçar a ideia de intemporalidade do racismo e dos extremismos religiosos, defendida por Umberto Eco, podemos citar um drama semelhante a este mas muito mais antigo, narrado por Damião de Góis na sua Crónica do Felicíssimo Rei D. Emanuel, a propósito do massacre de judeus em Lisboa no ano de 1506. Apesar da distância temporal, as semelhanças são evidentes:
«Juntos mais de quinhentos, começaram a matar os Cristãos-novos que encontravam pelas ruas, e os corpos, mortos ou meio-vivos, queimavam-nos em fogueiras que acendiam na Ribeira e no Rossio. […] E, nesse Domingo de Pascoela, mataram mais de quinhentas pessoas. A esta turba de maus homens e de frades que, sem temor de Deus, andavam pelas ruas concitando o povo a tamanha crueldade, juntaram-se mais de mil homens, os quais, na Segunda-feira, continuaram esta maldade com maior crueza. E, por já nas ruas não acharem Cristãos-novos, foram assaltar as casas onde viviam e arrastavam-nos para as ruas, com os filhos, mulheres e filhas, e lançavam-nos de mistura, vivos e mortos, nas fogueiras, sem piedade. E era tamanha a crueldade que até executavam os meninos e crianças de berço, fendendo-os em pedaços ou esborrachando-os de arremesso contra as paredes.»
Paremos um pouco para respirar fundo. Os tempos de crise e de desnorte que vivemos, em que todas as nossas certezas parecem desmoronar-se como castelos de cartas, obrigam-nos a repensar o presente à luz dos erros do passado. Na Espanha, o desemprego total anda pelos 24% e o desemprego jovem aproxima-se dos 50%! Os números em Portugal ainda não são tão dramáticos mas são igualmente assustadores. Sem querer fazer induções anacrónicas, lembro que, quando os nazis chegaram ao poder, em Janeiro de 1933, o desemprego total na Alemanha tinha atingido 43%! Estamos na hora de a Europa acordar e de se olhar ao espelho da sua História.

Por ordem do general De Gaulle, Oradour-sur-Glane nunca foi reconstruída. Permanece como um memorial da 2.ª Guerra Mundial

«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares
ad.tavares@netcabo.pt

Estamos em «Ano Olímpico»: não tarda, desta vez em Londres, iniciar-se-á mais uma Olimpíada Moderna. Talvez valha a pena, como temos feito nesta «Raia da Memória», tentarmos estabelecer mais algumas relações passado-presente.

Prova de corrida nos Jogos Olímpicos antigos. Pintura de um vaso de cerâmica ateniense (séc. V a. C.)
Discóbolo, do escultor grego Míron (séc. V a. C.) Carlos Lopes, medalha de ouro na Maratona, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles (1984) Rosa Mota, medalha de ouro na Maratona, nos Jogos Olímpicos de Seul (1988)

(Passe o cursor nas imagens para ver a legenda e clique para ampliar.)

Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaO historiador inglês Arnold Toynbee considerava que, na origem das civilizações, se encontrava sempre um processo de desafio-resposta. A humanidade avançava, progredia, criava civilização quando respondia positivamente aos desafios naturais – a caça, a pesca, a agricultura foram respostas ao desafio fome; a disputa das cavernas aos animais ferozes, a construção de cabanas, de casas, de arranha-céus, foi a resposta ao desafio frio. E assim por diante. Dito de outro modo: todo o processo histórico se teria resumido a uma constante fuga à dor e busca do prazer. Nas áreas onde os estímulos eram demasiado fortes (como as regiões polares) ou demasiado fracos (como os trópicos), as civilizações não se desenvolveram ou estagnaram.
E quem respondia aos estímulos? Seria uma resposta colectiva ou individual? Seria dada por toda a comunidade ou só por alguns dos seus elementos? Na opinião de Toynbee, apenas alguns indivíduos excepcionais, que ele designava por «minoria criadora», respondia aos estímulos e, portanto, geravam cultura e civilização. Esses teriam sido os génios, os insubmissos, os inconformistas, os inovadores − os Aristóteles, os Arquimedes, os Galenos, os Da Vincis, os Galileus, os Hertz, os Darwins, os Einsteins, os Picassos, etc. Teriam sido esses os homens que ultrapassaram os limites, que dilataram as fronteiras do conhecimento.
Trata-se de uma tese, de uma opinião, da qual podemos obviamente discordar. Pessoalmente, penso que esta análise do processo evolutivo das sociedades humanas é demasiado esquemática, demasiado linear. As coisas nem sempre são apenas isto ou aquilo. Há inúmeras variáveis que podem condicionar o processo histórico. Até o acaso, como vimos numa destas crónicas. E, se é verdade que o papel do indivíduo como agente da história não pode ser ignorado, não é menos verdade que cada vez mais tem que ser tomado em consideração o papel das massas, das classes sociais, dos grupos de pressão, das instituições, etc. A concepção de história baseada exclusivamente na decisiva actuação dos Césares e dos Napoleões está ultrapassada. Mais que a história das árvores, procura-se hoje fazer a história da floresta. Ainda que no meio dela existam árvores mais altas ou mais frondosas, que dão mais frutos ou mais sombra. Mas essas árvores, por si, não formam a floresta. Hoje, a história é a «ciência dos homens no tempo», como dizia Marc Bloch. Dos homens e das mulheres no seu todo, em sociedade.
E, no entanto, vivemos tempos de individualismo e de fortíssima competição. Mas só na aparência este facto é contraditório em relação a uma história cujo agente primordial é colectivo. Cada vez mais, nas sociedades contemporâneas, exaltamos os ganhadores, o triunfo, o sucesso. Teria Toynbee razão? As nossas sociedades progridem e avançam em função da resposta de uma «minoria criadora»? Não forçosamente. É verdade que incensamos os heróis da política, do espectáculo e do desporto. Mas que tem isso de mal? Absolutamente nada. A competição estimulante faz parte da natureza humana. É natural e saudável que as crianças e os jovens lutem pelas melhores classificações, pelo primeiro lugar nos jogos, pelo emprego melhor remunerado. Foi precisamente a convicção de que o estímulo concorrencial era maléfico, de que os homens deviam ser tratados todos igualitariamente, que conduziu à atrofia económica e cultural das sociedades ditas socialistas. Segundo parece, o homem gosta de lutar pelo triunfo, sobretudo se souber que, no final, pode obter uma recompensa. Ainda que essa recompensa seja uma simples coroa de oliveira brava, como acontecia nos Jogos Olímpicos antigos.
Em Olímpia, de quatro em quatro anos, entre 776 a.C. e 392 d.C., atletas vindos de todo o mundo grego reuniam-se em honra de Zeus para tentar ir mais alto, ir mais longe, ser mais forte. Ser o primeiro, para receber depois as honras do triunfo, as ovações da assistência, a glória efémera dos deuses do estádio. Regressar à sua cidade-estado, ser vitoriado pelas ruas e apontado às crianças como um modelo, eis a suprema ambição do jovem atleta helénico.
O espírito competitivo não impediu os Gregos de cultivarem o amor pelos altos valores do espírito e da moral. Não impediu o florescimento da filosofia, do teatro, da poesia, da arte. Não impediu a formação de personalidades profundamente humanas e humanistas como a de Sócrates. O próprio Aristóteles foi atleta olímpico. O espírito competitivo, em si mesmo, é positivo. Negativa é a competição sem regra nem lei.
Quando, em 1896, o barão Pierre de Coubertin promoveu a realização dos primeiros Jogos Olímpicos modernos, procurou restaurar o espírito da competição desinteressada. Hoje cada vez menos desinteressada, é certo, mas nem mesmo isso é forçosamente negativo. Até porque não é rigorosamente verdade que os atletas da Grécia antiga competissem apenas pela coroa de oliveira. No ano de 594 a. C., Sólon decretou que os campeões de Olímpia podiam receber um prémio de 500 dracmas, o que apenas oficializou o costume de o povo e as autoridades vencedoras recompensarem generosamente os seus heróis.
Tudo isto não significa a apologia da concorrência desenfreada e a todo o preço, da competição selvagem, do triunfo custe o que custar, do sucesso maquiavelicamente obtido sem olhar a meios para alcançar os fins, usando e abusando dos outros para «subir mais alto, ir mais longe e ser mais forte».
O doping, seja ele químico, social ou moral, deverá ser sempre penalizado.
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

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O mês de Junho é por excelência o mês do mais insigne e genial vate português, Camões e dos três mais populares santos, St.º António, S. João e S. Pedro, assim: 10 de Junho (Camões); 13 de Junho (St.º António); 24 de Junho (S. João); 29 de Junho (S. Pedro).

É sobre o 10 de Junho e Camões que iremos tecer algumas considerações, lembrando que até ao dia 24 de Abril de 1974, o 10 de Junho era «Dia de Camões, de Portugal e da Raça», passando depois a ser considerado o «Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas» espalhadas por todo o mundo.
De Camões, pena é que grande parte da sua biografia ande envolta em sombras e cuja verdade histórica esteja longe de se conhecer em definitivo. E se algo de muito e bom chegou até nós, inverosímil, porém, é que a sua data de nascimento, de naturalidade e de outros acontecimentos não sejam ao certo conhecidos, já que o imortal épico português tal não merecia. Assim, diz-se que, numa breve biografia que até nós chegou, “Camões, de nome Luís Vaz de Camões, filho de Simão Vaz de Camões e de Ana de Sá e Macedo, terá nascido em 1524 ou 1525 e Lisboa e Coimbra disputam entre si o berço do seu nascimento.
De 1531 a 1541 terá ido a estudar Humanidades para Coimbra, cuja licenciatura não concluiu por se ter envolvido em vários desacatos, o que provocou a sua ida para Lisboa. Em Lisboa, trocando os estudos pelo ambiente da Corte de D. João III, foi afastado da Corte, onde permaneceu de 1542 a 1545 e desterrado para o Ribatejo, por, diz-se, morrer de amores pela formosa Dona Catarina de Ataíde, a quem ele imortalizou sob o anagrama de Natércia. Continuando com uma vida leviana e os planos amorosos terem ido por água abaixo, ao ver-se desiludido com tudo isto, solicita ao Rei para ir para a guerra no Norte de África. Aceite o pedido, em 1547 vai para o Norte de África, onde na batalha não morre, mas tem a infelicidade de ficar sem o olho direito.
Finda a missão em África, três anos mais tarde, regressa a Lisboa, onde não tarda em voltar à vida de boémio e envolvendo-se novamente em desacatos, em 16 de Junho de 1552 fere, numa rixa, Gonçalo Borges, funcionário da Corte, o que lhe valeu um ano de prisão, onde diz-se ter composto o primeiro Canto de «Os Lusíadas».
Libertado, em 7 de Março de 1553, por carta régia de perdão, assinada por D. João III, no mesmo ano é enviado para a India com o resto da Armada. No caminho marítimo para a India conhece diversas civilizações e culturas, adquirindo assim muita experiência para escrever os poemas.
Em Goa participa em várias expedições, continua a escrever Os Lusíadas e parte depois para Macau, onde numa gruta, vivendo em condições horríveis, escreveu a maior parte de Os Lusíadas.
Em Macau ainda, foi Provedor dos Defuntos e Ausentes. Acusado de irregularidades, prenderam-no e sob prisão volta para Goa. Nesta viagem teve um trágico naufrágio de que saiu são e salvo, bem como Os Lusíadas.
Chegado a Goa, posto em liberdade, graças à influência do Conde de Redondo, teve logo de sair e voltar para Portugal, mas como não havia barcos para Portugal, parte de Goa para Moçambique, para depois seguir para Lisboa.
Em Moçambique, continuando a viver na miséria, encontrou lá um velho amigo de nome Diogo do Couto que o traz de volta a Lisboa (1569).
Já em Lisboa goza os seus últimos anos de vida com dificuldade e, já doente e a viver de esmolas, em 1572 consegue publicar Os Lusíadas, graças á influência de vários amigos, junto do rei D. Sebastião.
Como recompensa régia é-lhe concedida uma tença anual de 15.000 réis, uma mísera esmola que não o impediu de viver na miséria durante os restantes anos de vida e, na miséria, viria a morrer de doença cardíaca, no dia 10 de Junho de 1580, em Lisboa, cujo enterro foi pago por uma Instituição de Caridade, a Companhia dos Cortesãos.
Com Os Lusíadas publicados, personificando primorosamente a Raça Lusa e tão magistralmente neles narrados e cantados os grandes e heroicos feitos dos Portugueses, Camões, ilustre vate português, após privações e conturbada vida, incompreensivelmente, não tendo sido lembrado em vida, na morte, só em 10 de Junho de 1933 se comemorou pela primeira vez, a nível nacional, o 10 de Junho, como «Dia de camões», para depois passar a ser «Dia de Camões, de Portugal e da Raça».
E como, em todos os anos, esta celebração vem sendo habitual, Lisboa, designada pelo Sr. Presidente da República, foi a sede das comemorações do dia 10 de Junho de 2012, o então «Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas», ano em que decorridos são 432 anos sobre a sua morte, Camões, militar valoroso, poeta insigne, bem mereceu tão honrosa distinção, pecando por tardia, porque foi e é, sem dúvida, o Príncipe dos poetas, jamais igualado e frustradamente imitado, a não ser nos transes da ventura, como atesta a poesia dum outro grande poeta que foi Bocage, abaixo transcrita:

A Camões
Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado igual ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo
Arrostar c’o sacrílego gigante;

Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.

Ludíbrio, como tu, da sorte dura,
Meu fim demando o Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.

Modelo meu tu és… mas – oh, tristeza!…
Se te imito nos transes de ventura,
Não te imito nos dons da natureza!
Se bem que este soneto traduz a claro o valor e enaltecimento do autor de Os Lusíadas – Epopeia Nacional – que, numa antevisão maravilhosa, cantou e esculpiu com letras de ouro toda a glória da «Ocidental Praia Lusitana», não nos poderemos furtar a dizer que, se Os Lusíadas, com a tessitura do condigno poema épico que é, o imortalizaram e o tornaram sobejamente bem conhecido em todo o mundo, não é menos digno de imortalidade como lírico. Nesta qualidade foi também exímio no emprego da métrica tradicional de redondilha e aperfeiçoou genialmente as suas formas que Sá de Miranda importara.
Para corroborar esta nossa afirmação, eis, ao acaso, um dos muitos sonetos que nos legou:

Alma Minha…
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste!

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E, se vires que pode merecer-te
Algũa cousa a dor que me ficou
Da mágoa sem remédio de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te
Quão cedo de meus olhos te levou!

Daniel Machado

Na já longa série de «histórias» aqui contadas, houve algumas que resultaram de impressões de viagens. Aliás, tal como já anteriormente tive oportunidade de dizer, as viagens são um excelente tema para crónicas e reflexões. Mergulhemos, portanto e mais uma vez, na mesma fonte.

Um dos salões do harém do sultão turco. Palácio Topkapi, Istambul (século XIX)

Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaA Turquia é um país fascinante, verdadeira fronteira entre o Ocidente e o Oriente, entre o mundo europeu e o mundo asiático. Local de encontro de povos e de culturas, por ali encontramos alguns dos mais antigos vestígios da história da Humanidade: foi na Península da Anatólia (depois chamada Ásia Menor) que surgiram algumas das primeiras cidades (como Çatal-Hüyuk) e se estabeleceu uma das mais brilhantes civilizações antigas (a dos Hititas). Mais tarde, no início do 1º. milénio a. C., vagas de povos provenientes da Grécia, como os Jónios e os Eólios, fundaram várias cidades na costa asiática banhada pelo mar Egeu. Algumas destas cidades (Mileto, Éfeso, Pérgamo, Halicarnasso e outras) foram o berço de uma autêntica revolução no conhecimento: aqui surgiu a filosofia, aqui se desenvolveu a matemática, a geografia, a história, etc. O cientista Carl Sagan escreveu que o progresso científico da Jónia foi tão extraordinário que, se não tivesse sido interrompido, hoje estaríamos 600 anos adiantados. Por outras palavras: teria havido aviões no tempo do nosso rei D. Dinis e naves espaciais no tempo de D. João II. E, claro, hoje estaríamos a fazer aquilo que os nossos descendentes farão dentro de seis séculos.
No começo do século V a.C., as cidades gregas da Ásia Menor foram conquistadas pelos Persas e, mais tarde, reconquistadas por Alexandre Magno. E, no século II a.C., seria a vez de os Romanos integrarem toda a Anatólia no seu vasto Império. Uma das cidades fundadas pelos Gregos, na estreita passagem do Egeu para o mar Negro (Bizâncio), seria transformada numa espécie de segunda capital do Império no tempo de Constantino (Constantinopla). E, quando o Mundo Romano se dividiu em dois, Bizâncio-Constantinopla tornar-se-á a esplendorosa capital do Império Romano do Oriente.
No século XV, todavia, o velho Império Bizantino foi progressivamente ocupado pelos Turcos, um povo islamizado originário do Médio Oriente. No ano de 1453, Constantinopla foi conquistada pelos Turcos Otomanos, que lhe alteraram o nome para Istambul. A ambição turca, todavia, não se contentou com esta riquíssima cidade. Acabariam por ocupar toda a Península Balcânica, incluindo a Grécia e os territórios que depois seriam a Roménia, a Bulgária, a Hungria, a Jugoslávia, etc. (a existência de muçulmanos na Bósnia deve-se à ocupação turca, que se prolongou até ao século XIX). A fulgurante expansão turca originou um dos maiores impérios de todos os tempos, sobretudo no reinado do sultão Solimão o Magnífico (século XVI). No seu apogeu, este Império incluía, para além do actual território turco e dos Balcãs, o Norte de África (desde a Tunísia ao Egipto), a Palestina, a Síria, a Arábia e o Iraque. A partir do século XIX, todavia, iniciar-se-ia o declínio: a Grécia, a Sérvia, a Roménia e a Bulgária alcançam a independência. Outros territórios balcânicos são anexados pela Rússia ou pelo Império Austro-Húngaro. E, com a derrota do Império Turco Otomano na 1.ª Guerra Mundial, perdem-se todos os territórios do Norte de África e do Médio Oriente, a favor dos vencedores, sobretudo a França e a Inglaterra, que os transformam em protectorados.
Esta longa (e talvez maçadora) dissertação histórica pareceu-me necessária para compreendermos o esplendor e a riqueza monumental da Turquia dos nossos dias. Quem visita Istambul fica deslumbrado com o Hipódromo, a Basílica de Santa Sofia ou a Cisterna de Justiniano, dos tempos romano-bizantinos; ou com a maravilhosa Mesquita Azul e a não menos impressionante Mesquita de Solimão o Magnífico; ou com o Topkapi, a antiga residência dos sultões, verdadeiro palácio das mil e uma noites.
A famosa Adaga do Topkapi com três enormes esmeraldas no caboE é exactamente sobre o Topkapi que eu gostaria de dizer mais alguma coisa aos leitores. O palácio fica situado no local mais belo de Istambul, num ponto elevado, com uma vista deslumbrante sobre o Bósforo (o estreito que separa a Europa da Ásia) e sobre o Corno de Ouro (uma reentrância do Bósforo que, ao pôr-do-Sol, apresenta reflexos dourados). Os salões do Topkapi mostram-nos hoje o que foi a riqueza e o poderio do Império Turco: armas, porcelanas, tapeçarias, mobiliário, jóias lindíssimas, tudo nos deixa boquiabertos. O famoso diamante do Topkapi, com 86 carates; o trono Bayran, de ouro puro e pedraria; ou o trono turco-indiano, de um luxo verdadeiramente «asiático»; a lindíssima adaga Topkapi, de ouro e diamantes, com três enormes esmeraldas do tamanho de ovos de pomba no cabo; candelabros de ouro maciço, pesando 50 quilos cada um; dezenas de esmeraldas, rubis, turquesas e todo o género de preciosidades que possamos imaginar, verdadeiro tesouro de Ali-Babá, tudo nos deixa estarrecidos. Isso e a arquitectura do palácio, os jardins, as cozinhas, a biblioteca, etc. etc. E, «last but not least», o harém.
Como se sabe, o Alcorão, o livro sagrado do Islamismo (a religião praticada por 99% dos turcos), autoriza a poligamia. Actualmente, a prática da poligamia não é permitida na Turquia. A revolução nacional dos anos 20, encabeçada por Mustafá Kemal Ataturk, aboliu o sultanato e instaurou uma República laica, ocidentalizada. No entanto, antes disso, a poligamia era tão frequente na Turquia como nos restantes países muçulmanos. A tradição poligâmica remonta ao próprio Profeta Maomé, que tinha quatro esposas quando morreu. O crente islâmico podia, portanto, ter tantas esposas quantas pudesse sustentar. Trata-se, obviamente, de uma prática populacionista. Em tempos de grande mortalidade, convinha incentivar o populacionismo como forma de os países serem fartos em mão-de-obra, exércitos, etc.
Pouco a pouco, porém, o número de esposas tornou-se um sinal de prestígio e de poder. Se um mercador rico tinha 20, um ministro devia ter 50 e o rei muitas mais. Há o caso conhecido de um xá da Pérsia, no século XVI, que tinha um harém com 60 esposas legítimas e 3000 concubinas (três mil, leu bem). Aqueles leitores que estiverem a pensar que elas se destinavam a satisfazer os apetites carnais do xá, fiquem sabendo que não era para isso que as concubinas serviam (ao ritmo de uma por dia, ele demoraria cerca de 10 anos a dar a volta!). Aliás, o xá raramente entrava no harém. Chegavam-lhe as esposas legítimas (das quais teve 180 filhos). O harém, ferozmente guardado pelos eunucos, era uma instituição de afirmação do poderio real. As jovens concubinas, recrutadas por todo o País por funcionários especiais, permaneciam alguns anos no harém e regressavam depois às suas terras, com um bom dote, sem que alguém lhes tivesse tocado.
O harém do Topkapi não tinha tanta gente. Habitualmente, o número de mulheres do sultão turco (as odaliscas) andava pelas 300. Chegavam ao palácio muito jovens, com 5 ou 6 anos, recebendo depois uma esmerada educação, preparando-se para agradar ao rei. Vinham de todos os pontos do imenso Império: eram árabes, egípcias, núbias, etc. As mais apreciadas eram as caucasianas, pela sua beleza, a sua pele branca e, em alguns casos, os olhos azuis. Começavam por ser noviças, depois tornavam-se concubinas (aí pelos 15 anos) e, finalmente, esposas. Todas disputavam os favores do sultão porque, se caíssem nas suas graças, podiam obter enormes riquezas e privilégios, ser mães dos príncipes ou mesmo do herdeiro.
As dependências do harém real, no Topkapi, são de um luxo requintado, com as paredes revestidas de lindíssimos azulejos e reposteiros, e o chão coberto de riquíssimas tapeçarias. E, por todo o lado, cochins e almofadões, rendas e brocados. E, pairando no ar, parece-nos escutar ainda melodiosos sons de flauta e de alaúde, vozes chilreantes de jovens e belas mulheres, risos, suspiros. E o mais que deixo à imaginação dos leitores. Porque, como dizia Camões, nestas coisas, «melhor é experimentá-lo que julgá-lo, mas que o julgue quem não puder experimentá-lo».
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

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