Região onde o embate Oriente/Ocidente mais cedo e duradouramente se revelou, por ali, embora com frequentes oscilações se estabeleceu a fronteira entre impérios: primeiro os dois romanos; depois o bizantino e o sacro; finalmente, o austro-hungaro e o otomano.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNa sua função de Kraina (que significa exactamente limes ou raia) se manteve até ao fim da primeira grande guerra, terminada, como se sabe, em 1918, pela derrota dos impérios centrais (Alemanha, Austria-Hungria e Turquia) e perda de territórios, ou mesmo desmembramento, como sucedeu aos dois últimos.
O fluxo e refluxo das armas provocou a convergência dum autêntico mosaico étnico que, desde logo, torna o vocábulo (Jugoslavia, ou à letra, terra dos eslavos do sul) bastante falacioso.
Com efeito, ao lado dos sérvios, que efectivamente se podem reclamar de eslavos (título que também servirá aos montenegrinos e eslovenos), há que ter em linha de conta os croatas (de raiz germânica), os bósnios (de ascendência turca), os macedónios (naturalrnente bizantinos de filiação grega).
Como se vê, não havia correspondência entre as realidades estado e nação, já que a um estado se contrapunham, no mínimo, seis nacionalidades, sem falar noutros grupos de menor expressão.
A manta de retalhos étnica complicava-se ainda pela diferença de línguas, a oposição de credos religiosos, até a diferenciação de alfabetos.
Nascido como monarquia, ainda forma de governo mais capaz de aglutinar diferentes ou mesmo contrários, passou, após a segunda grande guerra e pela traição dos britânicos que abandonaram o general Mialovitch, para o regime da democracia popular.
Tito que fora sargento nos exércitos imperiais, caíra prisioneiro e fora catequizado pelos russos, que o protegeram na guerrilha antigermânica e antes se celebrizara como recrutador das brigadas intenacionais para a guerra civil de Espanha, tendo abatido os monárquicos daquele general passou a governar como satrapa o reino, como vimos já de efémera duração.
Mas era um pragmático. Embora comunista, cedo rompeu com Moscovo, havendo assinado, sob as benções de Washington, um tratado anti-soviético que conglobava também a Turquia e a Grécia.
Permitiu e estimulou até um tipo de economia mista, que, aliada aos proventos vindos do turismo e as remessas dos emigrantes que fomentou, e aproveitando ainda os meios financeiros propiciados pela América, conseguiu naquela Babel para além de um aceitavel nível de vida, uma convivência que, por ferreamente vigiada e disciplinada, obstou a qualquer conflito.
Mas, apesar de tudo, não havia homogeneidade em termos humanos ou de riqueza, já que o norte, por mais germânico e estar mais em contacto com o mundo não comunista, sempre se revelou mais desenvolvido.
A heterogeneidade vinca-se tambem ao nivel demográfico, já que não é raro encontrar-se uma bolsa rácica em zona tradicionalmente de outra etnia.
Mas ia-se vivendo em paz. Com a morte de Tito, as sementes de violência que se encontravam espalhadas por toda a àrea (apesar do ditado, não foi Deus quem separou as raças e as religiões mas os homens) irromperam abrupta e fortemente.
Ern 1990, a unidade jugoslava termina e começam os processos de independência.
No ano seguinte é a guerra.
O exército regular compunha-se praticamente só de sérvios que assim poderiam, à primeira vista, dominar os outros povos.
Mas não pode esquecer-se que Tito, em obediência ao seu passado de guerrilheiro na própria terra e de organizador do caminho secreto para a Espanha vermelha defendia o princípio do povo em armas, pela qual em todas as regiões existiam milícias, relativamente bem treinadas e até municiadas.
Em corolario, as condições de êxito relativizavam-se.
Mas, acima de tudo foram as simpatias de base rácica que determinaram os apoios internacionais e o desfecho (se é que o houve ou haverá alguma vez) do conflito.
Os croatas colheram as benções dos alemães, enquanto que a Rússia nao esqueceu o seu papel de protectora oficial dos servios.
Só que os gravíssimos problemas internos com que Ieltsin se debateu e a perda de protagonismo de Moscovo, a nivel mundial e particularmente europeu, tornaram a atitude deste pouco mais do que platónica, transparecendo apenas na solenidade de algumas declarações, logo esquecidas.
O nome de Serajevo assume-se, de resto, como fatídico, e gerador de conflitos de grande dimensão.
Talvez por isso no livro Vite et mort de la Yougoslavie, de Paul Garde, professor de linguística eslava em Aix-Ia-Provence, se escreva: «Este conflito faz-nos possivelmente entrar para sempre na nova desordem mundial». Para sempre…
A atribuição de carácter eterno num mundo, onde tudo, até o nosso planeta desaparecerá como tenda de uma só noite, mostrar-se-á certamente excessiva.
E pelo muito que, pelos séculos, têm sofrido os povos na Kraina aglomerados e pela tragédia que no nosso tempo sobre eles desabou, bem mereceriam que a paz se instalasse perenemente, ou ao menos até uma virgem voltar a ser mãe, para nos servirmos da revelação do oráculo de Capri.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Anúncios