No mosaico de nações que compunham a antiga URSS, estado, aliás, muito mais asiático do que europeu, ressaltam parcelas cuja filiação em Bizâncio não pode sofrer contestação.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaAlgumas situam-se para além do limite europeu, caso da Geórgia, política e culturalmente já individualizada no século XIII.
Missionários nestorianos, à compita corn católico-romanos originaram uma diocese em Tsifilis, sua capital, de então e agora.
Daí para cá, tem sofrido a sorte da maior parte dos territórios sitos na região, passando de império para império um pouco ao sabor da sorte das armas ou da ocasional genialidade de qualquer chefe.
Eis um exemplo.
O rei da Transxoniana, isto é no País Samarkand e de Sucara, Timur, denominado Hong, «O Coxo», tinha constituído um vasto império que ia do Afeganistão à Cilicia e que ele procurava ainda engrandecer. Todos os pequenos emires abatidos por Orknan e Bajavet, chefes turcos, encontraram junto dele um acolhimento caloroso. Em 1398 tinha tomado a Mesopotâmia, a Geórgia, a Arménia, uma parte da India… Este terrível bárbaro que, no entanto, se assumira como salvador da Europa, era Tamerlão.
Oscilando entre o Império Romano e o Imperio Otomano, até à queda do primeiro; zona de domínio do segundo ou do império moscovita, depois, eis a sorte da Geórgia, a sofrer as influências cruzadas daqueles tipos de civilizações.
No Século XX viria a celebrar-se por ser a pátria de Estaline, que, como satrapa, havia de governar todo aquele vasto mundo por algumas décadas.
Os autores que falam da arrancada vers la prise du pouvoir pelos comunistas, referem: «Un georgien de trente huit ans aux cheveux noirs et o pulents à la moustache fournie, aux yeus faux. Il se nomme Joseph Djougachivill, dit Staline».
Outro dos grandes construtores do marxismo, ou mesmo o mais importante de todos eles, também não nasceu longe.
Lenine, com o.nome batismal de Vladimir Ilicht Oulianov, veio, efectivamente, ao mundo em Simbirsk.
Mas a Geórgia já enquadrada na região caucasiana, apresenta enormes conotações com a cultura ocidentaI.
Chersonesa Taurica, na geografia antiga; terra do Tosão de Ouro, na mitologia grega, lugar onde se teria de ir raptar o velocino, a sua imagem reveste-se, para nós, de todos os cambiantes.
Sucessivamente dominada por romanos do ocidente e oriente, persas, árabes, tártaros. mongois e turcos, vêmo-la, mesmo assim, essencialmente ligada aos luminosos dias da Hélada, até quando jazendo sob a pata do urso moscovita.
Aqui mostra-se rival da Crimeia, minúscula língua de terra, hoje parte integrante da Ucrânia, a separar, no entanto, os mares Negro c de Azof.
Riviera russa, onde se situa, por exemplo, a aprazível estâbcia de Ialta, tão religada aos tratados que assinalaram o fim da Segunda Grande Guerra, viveu uma aventura histórica semelhante à da Geórgia.
Colonizada por mercadores gregos, abandonada à sua sorte, ante os tártaros, membro de pleno direito da Horda Dourada, canato, absorvida pela Russia, mas república autónoma de 1921 a 1945, manteve, no entanto, sempre uma forte individualidade, quer pela geografia que a predestinou, quer pela história que lhe fundiu em harmonioso cadinho, os traços de numerosas civiIizações, com particular relevância para a bizantina.
Na transição da Europa para a Ásia, limes, como recorda o Poeta, quando diz que ali acaba um mundo mas não nasce logo outro, antes tudo se passando por sucessivas ondulações, os seus povos despertaram sempre a solidariedade dos espíritos verdadeiramente ocidentais. Não os esqueceu Camões no seu terrível libelo contra os europeus acomodados.
Gregos, traces, arménios, georgianos,
Brandando-vos então que o povo bruto
Lhes obriga aos caros filhos aos profanos
Preceitos do Alcorão, duro tributo…

Desprovidos da força de Estados, podem, exactamente por isso, recuperar na Europa das Regiões o que não puderam garantir na Europa das Nações… E a Geórgia está, hoje, de novo, na ordem do dia
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

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