Probe Galicia, no debes
Chamarte nunca española
que Españia de ti se olvida
cando eres, ai tan hermosa.

Catelhanos de Castela
Que é que fazeis aos galegos
Quandovão, vão como as rosas
Quando tornam vêm negros….

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaQue a Galiza tem mais afinidades com o Minho do que com qualquer outra parcela ou região de Espanha, ou das Espanhas, está dito e redito.
O rio que entre ambas as regiões corre, se consitui obstáculo natural, individualiza e harmoniza as duas regiões, únicas aliás que em todo o mundo produzem vinho Alvarinho, ou mesmo genecamente vinho verde.
A Galiza, identifica-se, na verdade, perfeitamente com o Entre Douro-e-Minho, região génese da indepêndência portuguesa.
Os galeguistas reconhecem-no:
Um minhoto é um antigo galego. A estrutura psíquica e mesmo a realidade sociológica não é diferente aquém e além rio. Portugal e a Galiza têm interesses comuns: A Galiza pela cultura e a história cristã está ligada a Portugal tanto ou mais do que a Espanha.
É um retalho do noroeste que olha para Portugal e Espanha com interesse nos dois Estados, se quer levar a cabo um desenvolvimento, social e político correcto. Por razões económicas e culturais bem evidentes, não pode prescindir de Portugal, que, afinal, também nasceu do mesmo retalho…
O que Miguel de Umamuno escreveu da Galiza, aplica-se também à província portuguesa.
Repare-se nesta passagem do mestre, extraída de «Por Tierras de Portugal y España»:
A paisagem na Galiza é feminina. Tanto pela beleza e graciosidade, como, porque nela se não vêem mais do que mulheres. Efectivamente, os homens emigram para terra ou para o mar.
Do nosso lado, o Brasil foi em grande parte constituído por gentes do alto Minho. De tal modo que, no Rio ou em São Paulo, em Olinda ou São Salvador, não se gritava, Aqui de-El-Rei, mas Aqui-de Viana.
Os pescadores de Alto Mar recrutavam-se preferencialmente na mesma zona.
Por seu turno a América Espanhola, desde o México ao Chile, passando por Cuba, valiam como Eldorado para os habitantes de além-rio:

Galiza está pobre
E a Havana me vou
Adeus prendas mias.
Adeus corazon…

A pesca longínqua não encontra também melhores praticantes, entre todos os espanhóis.
Aqui não haveria, pois, razões espirituais para a separação. Falharia totalmente a justificação de Correia de Oliveira:

Separei-me em tenra idade
Dos meus irmãos das Espanhas
Almas diversas apartam
Mais do que o mar e as montanhas.

Mais, como escreveu um grande mestre, a literatura galega, espelho da alma do seu povo, es la hermana mayor de la portuguesa…
Mau grado o seu eminente sentido prático, ditado até pela escassez de recursos, mais penosa ainda lá do que cá, eles são como nós endogenamente poetas.

De ser galego me debo alabar
Porque aprendi liricamente a cantar…

Na Galiza, há, efectivamente, uma milenária tradição vática.
Martin Codax apresenta-se como patriarca:

Mandado hei camigo
Ca ven meu amigo:
E irei, madre, a Vigo…

Ondas do mar de Vigo
Si vistes meu amigo?
E ai Deus se verá cedo!

Ondas do mar levado
Si vistes meu amado
E ai Deus se verá cedo!

Parece que estamos a ouvir trovar Dom Sancho I ou D. Dinis, João de Guilhalde ao Pero Soares Taveiro…
Lá como entre nós el bard y el cisne contaban su morir.
Entre as palavras especificamente portuguesas conta-se o vocábulo «saudade» tão nosso que, diz-se, não tem mesmo tradução em qualquer outra língua.
No Galego há o equivalente morrinha.

E Rosália vai mais longe:
Campanas de Bastabales
Cando vos oya tocar
Morrome de soidades

Cando vo soya tocar,
Campaniñas, campaniñas.
Sin que torno a chorar
Cando de lonxe vos oyo
Penso que por mim chamades
E das entrañas me rojo…

Mas não é so no verso que as almas se aproximam. Na Casa da Rua de Tróia, confundem-se os autores galegos com Eça de Queirós…
Enfim, são tantas as afinidades que melhor fora não ter existido a questão Conde de Trava e os condados, ao tempo incertos, a Galiza e Portucale tivessem feitos juntos a sua jornada histórica.
De qualquer modo, há uma forte contraposição entre a secular alma da Galiza, filiada em bardo celta, filho do vento e da chuva – mas do vento mareiro e a de Castela, nascida da aridez e do vento suão.
E o que afasta um galego dum castelhano aproxima-o de um português.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

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