A vizinhança dum estado poderoso constitui históricamente um factor de risco, agra-vado enormemente se ao poderio se juntam ambicões expansionislas.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaA hegemonia sofre-se sempre; e, mesmo quando se fazem solenes e bem intencionadas declaracões de não intervenção, há o domínio económico, a exploração da matéria-prima, a atracção sobre a mão-de-obra mais qualificada e a tendência para a colocação dos excedentes de menor qualidade.
Pode enjeitar-se ou repudiar-se o absorcionismo politico-administrativo mas não deixarão de sobrevir as formas larvadas ou até invisíveis de dominação.
O que normalmente salva os pequenos países, rodeados de grandes potências. ou confinando com elas, são os jogos de equilíbrio de poderes entre aquelas.
Nós, portugueses, tanto como ao nosso temperamento, na verdade indomável, devemos a sobrevivência como nação independente, já lá vão quase nove séculos, ao receio de a Inglaterra, potência marítima, se ver desprovida de bases de apoio no Continente, e de a França, inimiga desde a divisão do império de Carlos Magno da parte germânica daquele colosso, temer o peso da Ibéria, se unificada, na balança dos Áustrias.
Mas, quando em vez dum vizinho poderoso, a história encurrala qualquer povo entre várias potências, o mais natural é que passe obrigatóriamente a ser parte do momentaneamente mais forte ou entao seja esquarecjada a benefício de todos.
As sucessivas partilhas da Polónia, os colapsos da Boémia, da Morávia, da Eslováquia, da Sérvia, do Montenegro, da Croácia, da Bósnia, a incerta sorte da Catalunha, do Milanado, da Alsácia-Lorena, em dados períodos históricos, não apresentam outra génese.
A Finlândia, situada entre a Rússia e a Suécia, vem intercalando as fases de independência com as de parcelas daqueles impérios.
A partir da guerra dos trinta anos, ou mais concretamente da sua fase nórdica, passou a Rússia a ser praticamente a única responsável pelos infortúnios do país das renas.
Da Finlândia preparou Lenine a Revolução, o que não o impediu de utilizar o País como moeda de troea na paz de Brest-Litowsque.
Como se sabe, ao dealbar da insurreição, vivia ele no exílio suiço.
Kroupskaia, a sua companheira, relata assim o que aconteeeu nesse dia 3/16 de Março (a dupla datação põe em confronto o calendario russo com o gregoriano) de 1917:
«Depois do almoço, no momento em que Ilicht (Lenine chamava-se Vladilir Ilicht Oulianov) se preparava para ir para a biblioteca, enquanto que eu acabava de arrumar a louça, Bronksi apareceu sobressaltado:
– Vocês não sabem nada? A revolução está em marcha na Rússia.»
Atabalhoadamente deu-lhes conta dos telegramas que acabavam de chegar em edição especial. Quando Bronksi se calou, foram à Praça ver os textos afixados.
Impõe-se a partida. Mas só os alemães lhe podem permitir o regresso à Rússia. Pois bem, pactuará com o verdadeiro inimigo, na circunstância, da sua Pátria.
Através dos socialistas alemães, é posto em contacto com o quartel-general do Kaiser, onde tudo se prepara com vista ao imediato regresso de Lenine e o seu corpo de agita-dores para a decomposição do espírito de resistência.
Pela Alemanha, depois pela Suécia, os proscritos na Helvécia chegam à Finlândia.
Dali e depois duma breve incursão a São Petersburgo é que dirige o ataque final.
Para além do mais, vai atacar o problema dos alígenos – polacos, estónios, letões e lituanos – que querem ver-se independentes; dos ucranianos, que exigem reformas, e até dos arménios que, apesar de viverem ainda aterrorizados pelo medo dos turcos, de que pouco antes haviam saído, não esquecem que são uma nação.
Mas a Finlândia é que seria a verdadeira moeda de troca.
Ali ficaria até à I Revolução de Outubro, até à conquista do poder.
Ouçamos o testemunho de Estaline:
«Então fomos acusados de espiões a saldo da Alemanha Imperialista.
As autoridades requereram a presença de Lenine e Zinoviev para serem julgados. Alguns, entre os quais Kanenev. aconselharam a obediência. Mas eu que conhecia o estado de espírito da reacção e sabia, por isso, os perigos que corriam os dois responsaveis bolchevistas se se apresentassem, convenci-os do contrário.
Fui eu quem tratou do disfarce de Lenine, colando-lhe a barba e o bigode e fazendo-lhe um penteado que o tornava irreconhecivel. Depois, ajudado por Sergio Aliliev, em casa de quem a cena se passou, acompanhei Lenine, através de ruas pouco frequentadas, até à gare marítima. O nosso dirigente, dali a pouco estava na Finlândia, onde ficou até à Revolução de Outubro, donde nos enviava conselhos, instruções e textos teóricos que nos projectaram para a vitória.»
Depois, apesar da grande indignação da França e da Inglaterra, assina separadamente a paz com a Alemanha, sua protectora como já vimos e que lhe forneceu os meios financeiros para manter a agitação.
O tratado foi assinado em Brest-Litovsk, em cinco de Março de 1918 e as condções impostas pelos alemães ao governo dos sovietes, as mais humilhantes e draconianas da história russa: instalação de forças de polícia alemã nos Países Bálticos, submissão da Polónia russa aos alemães, cessão de territórios à Turquia então aliada da Alemanha, um enorme tributo de guerra, evacuação da Ucrânia e da Finlândia.
Enfim, mais uma vez a Finlândia era usada ao sabor dos interesses das potências vizinhas.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

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