Conhecida por campo de batalha da Europa, a Bélgica, logo por este nome, aliás de bem trágicos ressaibos, mostra a sua face de estado martirizado.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaJúlio César no De Bello Gallico, considerava-a uma parte da França, quando escrevia:
Gallia est omnis divisa in partes tres quarum unam incollunt belgae, alteram aquitani, tertiam quae ipsorum lingua cetlae, nostra gali apelluntur. Hi omnes, lingua, institutis, legibus,inter se differunt. Gallos ad Aquitanis, Garumna flumen, a belgis, Matrona et Sequana dividt. Horum omnia fortissimi sunt belges, proptera quod a cultuadque humanitate Províncias longissime absunt, minimeque ad eos mercatores saepe comeant, atque ea quae animos effeminant, important. Poximique sunt germanis, qui trans Rhenunm incolunt, qui buscum continenter bellum gerunt.
Quem souber latim, verificará que César os tratou de hostis à civilização e terrivelmente corajosos.
Mas nem a heroicidade os libertou, ou talvez fosse até aquela virtude, que os perdeu.
Mal romanizada, passaria ao império carolíngio, cujas vicissitudes de sucessão partilhou, não escapando a nenhuma das mil e uma quesílias que os sucessores directos e indirectos, ou os simples herdeiros espirituais do Imperador da Barba Florida ao longo dos séculos se têm empenhado em cultivar.
E nem sequer o conflito Europa Insular/Europa Continental a deixou indemne.
Dependente da França pelo ducado da Borgonha, na Guerra dos Cem Anos que efectivamente durou 116 (de 1337 a 1453), tomou o partido da Inglaterra, país de que dependia para o abastecimento das suas indústrias de lanifícios, e isto marcou-a profundamente.
Quando o eixo do conflito se desvia para as duas maiores nações saídas do desmembramento do Império Carolíngio, França e Alemanha, a Bélgica torna-se então e autenticamente na arena da Europa.
Com Carlos V, nascido, de resto, no seu território, vemo-la passar para o ramo espanhol, sofrendo uma dominacão bem feroz levada a cabo pelos tércios de Dom João de Áustria, bastardo do imperador. Daqui transitou para o Reino dos Países Baixos, suportando uma sujeição que, embora mais humana, prima mesmo assim pela exploração, mais evidente no plano económico.
Depois, quer nas campanhas napoleónicas, quer na guerra franco-prussiana, quer nos grandes contlitos mundiais de 1914/1918 ou 1939/1945 o seu território retalhado e martirizado, torna-se palco das mais sangrentas e decisivas batalhas.
Bastará lembrar Waterloo, os lamaçais das trincheiras, as Ardenas…
E genericamente, mau grado uma ou outra intervenção libertadora, os belgas pouco mais tem ouvido do que declarações de pias ou bombásticas intenções, quase sempre tão quixotecas como a daquele nosso director de pequeno semanário de província que, impressionado pela notícia de que o Kaiser invadira o fraco e novel estado não se pôde conter que não exclamasse:
– O quê, o leão vai degolar o cordeiro? Deixem-me regressar à vila que o meu jornal se encarregará de destruir o Kaiser e a Alemanha.
De qualquer modo, a heroicidade e o espírito tenaz, laborioso e inventivo, do seu povo e da sua casa reinante tem triunfado sobre todas estas vicissitudes e sobre a dualidade racial, religiosa e linguística que opõe valões e flamengos.
Nascido na actual formulação apenas em 1830 e duma secessão com a Holanda, seu parceiro e dominador nas antigas Províncias Unidas, obteve uma casa reinante que, embora de raíz alemã, se soube identificar com os ideais de independência e do progresso.
Elemento de ligação, como já se referiu, entre as duas comunidades básicas do país (que comporta também cidadãos de língua alemã) os seus monarcas impuseram ainda a Belgica ao mundo.
A sua acção humanitária na Bacia do Congo, criando a antiga co1ónia, a hoje independente República do Congo, já chamada Zaire, e que, para além de ter elevado a Bélgica ao estatuto de país colonizador, prestou assinaláveis serviços à causa da humanidade, nomeadamente no combate à escravatura, que ali tinha um dos seus mais importantes centros de abastecimento, nunca será suficientemente realçada.
Pena foi que – com a independência, precoce, como a generalidade das que ocorreram na Africa ao Sul do Saará, levasse ao poder indivíduos ainda mal saídos da idade da pedra que tiveram como preocupações únicas o enriquecimento pela corrupçãao, a redução dos concidadãos à classe de servos e o apagamento dos sinais da colonização – se enjeitassem os nomes de Leopoldoville, Albertville ou Elisabteville, rematando em ingratidão.
Mas a lição histórica manter-se-á e demonstra como uma pequena nação sabiamente conduzida pode ter um enorme papel na história mundial.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

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