Os reinos da Europa medieva surgiram duma fusão de povo e solo, catalizados por um chefe de excepcional envergadura, por vezes mesmo exógeno. Reveste-se, em corolário, de alguma verdade a afirmação de que deve buscar-se nas regiões a génese dos estados.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNo caso português, foram os fidalgos que entre Douro e Minho ja tinham castelo e terra murada quando os barões francos desceram de pendão e caldeira nas hostes do Burguinhão, quem com estes novos ingredientes (apoio militar e incontestado comando) lançou as raízes da nação.
Na vizinha Espanha, a irrupção nasceu nas montanhas nordestinas. Os ingredientes vieram da fé, da memória dos concílios toledanos, da fereza dos cantabros, do génio militar dos leoneses (recordados de que o nome da sua cidade radicava num antigo acampamento romano, uma légio geminata com o a que na Gália deu origem a Lião), da crueza dos castelhanos (mistura de homem, cão e lobo, na lapidar caracterizaçao de Mestre Aquilino em «O Homem que Matou o Diabo»).
Além Pirinéus, depois de Clóvis ter consolidado a monarquia franca, por Carlos Magno elevada à dignidade de império, será este mesmo Aureus Carolus quem, no ano de 806, prevendo a morte, dividiu as terras sob seu ceptro, aliás segundo o costume bárbaro, dando origem a três novos reinos.
Todos os estados que a História registou dos Pirinéus aos extremos da grande planície germano-polaca encontram a sua raiz naquele acto de partiIha, causa da instabilidade que nunca mais deixou de verificar-se na região, com reinos a nascerem e a morrerem e quatro marcas: a da Catalunha, a de Viena, a de Milão e a da Alsacia-Lorena, a perturbarem a estabilidade.
A França, a futura Alemanha, o Império, a Mongó1ia da Europa, a Bélgica, a Holanda, a Itália (por mil anos dilacerada em lutas fratricidas), a Dimanarca, a Polónia, a Boémia, a Morávia, a Eslováquia, enfim os Estados que perene ou momentaneamente se criaram até à fronteira russsa, estavam ali em potência ou acto.
E a imprecisão de lirnites, bem como a memória das marcas pelos séculos hão-de servir de causa belli.
Nomes como Aquitânia, Neustrénia, Austrásia, Suábis ou Lombardia, que hoje não dirão muito à generalidade das pessoas, tiveram ao tempo grande voga, significando estados que nasciam e sucumbiam ao ritmo das divisões hereditárias ou da sorte dos exércitos.
Como o de Lotaríngia, Ostefália, Vestefá1ia, Ângria ou Nordalíngia.
Os paises nórdicos, hoje tidos como supercivilizados e que habitam a Escandinávia ficavam para além dos limites do Império.
Tinham a fama e proveito de terríveis selvagens. Eram mesmo um dos terrores cujo combate se fiava também da Divina Providência. Daí a inclusão nos hinos litânicos da prece: A furore normandorum libera nos Domine. E o termo normando aplicava-se genericamente a suecos e noruegueses.
Há ainda outras três zonas que escapam à semente de trigo lançada por Carlos Magno e à cizânia dos seus descendentes.
As grandes ilhas britânicas (Inglaterra, Irlanda e Islândia) o Transdanúbio, ao tempo dominada pelo Imperio Romano do oriente e cujos territórios apenas viriam a ascender a estados independentes com o desmoronar do Imperio Turco – sucessor daquele, e as imensidades da Rússia.
Bizâncio que converte os eslavos, converte-se depois ao cesarpapismo. De facto, o seu patriarca, o único já que os de Antioquia, Alexandria e Jesuralém residiam in partibus infidelium e em corolário se viam desprovidos de influência, juntamente com o irnperador, garantia a unidade num território imenso.
Deixando de lado por estar fora do nosso âmbito de análise tudo quanto fica para além do Helesponto, constata-se que na transição de milénios, lhe pertenciam os actuais territórios da Grecia, Bulgaria, Romenia, Albania e ex-Jugoslavia, o sul da Itália e ainda os estados insulares de Chipre e Malta.
Mas, como atrás dissemos, todos estes países deviam esperar pelo desmoronar não apenas do império bizantino mas do turco que lhe sucedeu em tais domínios, para assumirem veleidades de independência. E os casos de ilhas, entrementes transitadas para o império marítimo da Inglaterra só nos nossos dias é que viraram estados, aliás de duvidosa sobrevivencia.
De qualquer modo, foi da combinação do princípio étnico-histórico das nacionalidades como o da implantação geográfica dos povos que surgiram os estados: a Roménia, de tradição latina; a Bulgária, eslavo-bizantina; a Albânia, mais islâmica, tal como partes da ex-Jugoslávia (nomeadamente a Bósnia), a Grécia, ainda marcada pelos tempos em que a Helada dominava espiritualmente.
Na Rússia, só há pouco comegou a afirmação da força das nacionalidades que naturalmente levará também a profundas consequências políticas.
Os dois grandes estados medievais, com capital ao tempo em Quieve e Novagardia, parecem reconstituídos, não se considerando que os canatos porventura até coevos detenham força para se imporem como nações, até porque só lhes davam unidade, chefes de efémeros mandatos.
Mas, para além da Ucrânia e da Bielorrússia, tambem a Geórgia, a Lituânia, a Moldávia, a Letónia, a Estónia, a Arménia e evidentemente a Rússia, que até agora serviu de elemento aglutinador são estados europeus, mais germânicos, uns, mais eslavos outros (aliás os mais importantes e influentes), bizantinos ou aturquestados outros.
Enfim, geografia e história, elementos em toda a parte definidores dos estados e seus limites e que, quando contrariados, se vingam através dos mais terríveis cataclismos.
Basta lembrar os casos históricos da Catalunha, da Alsácia-Lorena, do Milanado. Ou o recente drama da ex-JugosIavia. Para não falar já das Guerras dos Cem Anos, dos Trinta Anos, dos Sete Anos, da Franco-Prussiana, das duas últimas grandes guerras…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

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