Quando hoje se fala da Europa das regiões não pode esquecer-se o papel dessas pequenas unidades territoriais que foram as dioceses.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaOs bispos fizeram a França, escreveu José Maistrel (e nós poderemos generalizar a afirmação a toda a Europa Cristã) como as abelhas constóiem as colmeias.
Efectivamente, tudo o que fica para aquém da planície polaca foi administrtivamento moldado pelas dioceses, de criação logo imediata à romanização.
Vejamos:
Na Itália encontramos esta forma de organização político-religiosa em Roma (o Papa era e continua a ser também bispo da cidade eterna), Milão, Ravena, Aquileia, Capua, Benevento, Salerno, Nápoles e Amalfi. O reino da Borgonha (de onde há-de provir a nossa primeira casa reinante) seccionava-se em 35 dioceses, especialmente representadas pelas de Lião, Viena, Arnes e Besonção. Noutras partes da actual França, vamos encontrar as de Sena, Reims, Ruão e Tours, ao Norte; e as de Bordéus, Narbona e Auch, ao sul.
A Lotaríngia e a Germânia dividiam-se ao tempo em quarenta dioceses.
A Hispânia (nome comum na terminologia da época a toda a Península Ibérica) foi das primeiras parcelas a ser cristianizada.
Efectivamente aparece já mencionada numa epístola de São Paulo aos romanos (datada de Fevereiro do ano cinquenta e oito da escrita de Corinto) onde se assinala:
Quando me dirigir à Hispânia, espero ver-vos de passagem e ser, de lá, encaminhado por vós, depois de gozar algum tempo na vossa companhia.
A cristianização, iniciada como se vê sob o impulso do Convertido de Damasco, foi avançando com os progressos da romanização, sendo natural que a organização eclesiástica seguisse territorialmente a divisão administrativa.
Ora, recuando a Dioc1eciano, este criou aqui cinco províncias: a Lusitânia, com a capital em Merida; a Bética, com a capital em Sevilha; a Cartaginense, com a capital em Cartagena; a Galécia, com a capital em Braga; e a Tarraconense, corn a capital em Tarragona.
Não se sabe a data exacta (assim informa o erudito Padre Miguel de Oliveira, in História Eclesiástica de Portugal) em que a cada uma delas veio a corresponder também uma província eclesiástica e se atribui a categoria de metropolita ao bispo da capital civil.
Nesta fase, os territórios de Entre Douro e Guadiana pertenciam todos à metrópole sediada em Mérida, os de Entre-Douro e Minho a Braga.
Sufragâneas de Mérida, ao tempo dos visigodos, eram as dioceses de Pax Júlia (a actual Beja), Ulissipona (Lisboa), Ossonoba (nome correspondente, agora, a uma modesta freguesia do Algarve, Estoi), e, além de outras, que não importa referir, as de Egitânia, Viseu, Salamanca e Coria…
Egitânia, povoação de grande importância nas monarquias bárbaras e capital no tempo de Vamba V, disputava com Dume, capital de outra monarquia bárbara, a dos suevos, primazias de metropolita…
Enfim, ainda sob o império, ou logo nos primeiros tempos do furacão bárbaro, a Hispania, ou sejam os actuais teritórios continentais de Portugal e Espanha cobriam-se já de uma completa rede de dioceses e de paróquias, organizações em que através dos arcedíagos ou arciprestados aquelas se dividiam.
As dioceses tinham a sua capital na cidade que lhes dava o nome. Sedes se lhes chamava então.
A palavra evoluiu e acabou por, depois de uma síncope e duma crase dar em sé, termo actual.
A capital da diocese, a sua sede ou sé acabariam por se materializar na catedral, símbolo se não do poder, pelo menos da magnificência episcopal.
Catedral, cabido, báculo, passam a ser vocábulos de uso comum.
O primeiro liga-se à ideia de cadeira ou cadeirão:
Ali se achava sentado
Em funda meditação
Aquele grande prelado
Frei Nuno da Conceição

Cabido é forma divergente de capítulo, quer dizer exactamente corpo de cónegos duma cúria diocesana.
Do latim capitulum, diminuitivo de caput começou par significar divisão duma obra literária, mas na Idade Média tomou também o sentido de curta leitura do ofício divino ou o do lugar onde os religiosos procediam àquela leitura ou até o próprio corpo de religiosos…
Por seu turno, báculo, inicial e propriamente bastão alto, bordão ou cajado, tornou-se o símbolo da autoridade episcopal, chamando-se mesmo à posse conferida, investidura por báculo e anel.
Mas foram as catedrais que ficaram a eternizar materialmente a acção dos bispos dos anos mil…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

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