Possivelmente, nenhuma outra região europeia suscitou até hoje tantos conflitos ou se manteve numa linha de indecisão de soberanias como a Alsácia.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaBárbara até Júlio César, entrou pelas vitórias deste sobre Ariovisto, chefe godo abatido no ano de 58 antes de Cristo, na órbita romana.
Limes imperial, converte-se numa constelaçao de fortalezas, correspondentes a cidades que logo ganharam notoriedade: Argentorate (actual Estrasburgo), Três Tabernas (agora Saverne), Argentovaria (a actual Hamburgo), Salécio (a nossa Setlz).
Quinhentos anos depois, sobreviria à queda do Império; e Átila, seu inimigo frontal, procuraria destruir todos os sinais de romanidade.
Sofrendo as vicissitudes por que passaram as monarquias góticas, apareceria cerca de setecentos da nossa era como uma unidade politíco-administrativa regida por um dux. De entre os vários, assinala-se como indiscutivelmente o mais famoso, o pai de Santa Odila, que a História regista sob o nome de Etichão ou Estilicão.
Integrada no Império Carolíngio, viveu com ele uma era de paz e prosperidade que, todavia, se havia de revelar de efémera duração.
As lutas pela sucessão de Luís, o Pio, filho do famoso imperador da barba florida, marcam o início dum tempo de extraordinária confusão.
Em 840, com o tratado de Estrasburgo, redigido simultaneamente em latim e alemão, imiscui-se na questão entre Carlos, o Calvo, e Luís da Baviera, por um lado, e Lotaário, pelo outro.
Quando os três partem o império pelo tratado de Verdun, o primeiro torna-se rei da França, o segundo da Baviera, e o terceiro da Lotaríngia, onde se inclui a Alsácia. Este reino, à semelhança de cerca de quatrocentos que pelos séculos se haviam de estabelecer na região, foi de meteórica existência. Não tardaria a sobrevir Otão, o Grande, fundador do Sacro Império Romano Germânico, base e embrião de varios outros que como aquele integrariam a Alsácia.
Daí que a região sofresse mudanças de esfera política, até excessivamente dramatizadas.
Na primeira centúria do milénio que findou, realça a questão das investiduras que opõem os bispos à alta aristocracia, guiada pelos Hobenstaufen. Triunfantes estes grandes senhores, verifica-se um grande surto de prosperidade que atinge o climax com Frederico II, fundador de numerosas cidades e impulsionador das corporações de artes e ofícios.
Aos Hobenstaufen seguem-se os Habsburgos. Mas nem tudo corria bem por então. O império mais uma vez ameaçava desagregar-se enquanto Luís IV da Baviera, substituindo-se ao imperador, enfrenta Filipe o Belo, rei de França, que desafia tanto a autoridade pontifícia como a dos sucessores de Rodolfo de Habsburgo, seus vassalos e aliados.
Inseguras, as cidades alsacianas formam uma liga defensiva, a Decapolis, integrada por Colmar, Mulhouse, Munster, Turcheim, Kayserberg, Selestat, Obermar, Rosheim, Wissembourg e Haguenau.
A liga dá origem a um florescente estádio de desenvolvimento: as cidades engrandecem-se; o comércio e a indústria progridem, a burguesia e as corporações ocupam um espaço dia a dia mais importante no govemo da república.
Já se aproximam, no entanto, as guerras religiosas. A cizânia espalha-se, com cada uma das mais importantes cidades a adoptar seu credo. Estrasburgo torna-se luterana, Mulbouse calvinista, outras ainda houssitas, enquanto que em muitos permanece a fé cató1ica e dominam os prelados.
Posteriormente, a confusão revela-se ainda maior. Como se pode ler, em «Toda Alsácia» cuja versão espanhola estamos a seguir, a região cissipariza-se em numerosos e pequenos senhorios que só muito paulatinamente, aliás, se irão agrupando, dando origem aos chamados Estados Gerais da Alsácia.
As guerras religiosas agravam-se. Os jesuítas, dominantes em Molsheim atacam Estrasburgo, que como ja referimos se tornara um balularte do protestantismo.
Na Guerra dos Trinta Anos, os suecos, primeiro, e os franceses depois acabam por dominar toda a região.
Daí para cá, tem sido entre a França e a Alemanha que tem oscilado a soberania.
Na Guerra Franco-Prussiana, de setenta, o triunfo das armas germânicas deu o território ao Império, de que a Alsácia-Lorena haveria de fazer parte até ao primeiro grande conf1ito mundial.
Não obstante a oposição de parte da população, decantada nalguns poemas que correram mundo (antigamente, dizia o velho professor, a escola era risonha e franca…) a Alsácia, foi anexada ao II Reich do Hoenzolern e só com o Tratado de Versalhes, voltaria à soberania francesa, aliás por um período curto, pois cerca de doze anos depois viria a cair sob o domínio de Hitler.
Com o fim da segunda grande guerra e a construção da Europa, para livrar a região de velhos fantasmas, elevou-se Estrasburgo à dignidade de capital europeia.
E a famosa Argentun Ratum de Júlio César é bem o símbolo das feridas, que têm dilacerado esta velha mater de civilizações que é a Europa.
Marco de fronteira a evitar o avanço das tribos bárbaras que ainda desafiavam Roma, arrasada por Átila e o seu eterno ódio aos Césares; renascida das cinzas sob o nome, pela primeira vez, de Stratiburgum, símbolo das cidades burguesa dos fins da Idade Média; grande empório comercial quando o Reno era a grande via angustiada pelo espiríto da reforma logo nos alvores do luteranismo, ora do sacro império, ora dos Hobenstaufen, ora dos Honenpolern, ora do Habsburgos, ora dos Bavieras ora dos reis franceses, quando não mesmo da coroa sueca cimentou-se ali um europeísmo, difícil de fazer convergir em qualquer outra parte.
E se há no mundo região que mereça na plenitude o título, é efectivamente a daquela que Estrasburgo servia de capital, antes de ser elevada à dignidade de capital de toda Europa.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Anúncios