Primeira. Se fosse no mundo do futebol, diria que o treinador seria demitido.

Fazendo aqui a comparação com as últimas declarações do primeiro-ministro e dos figurões da troika, acerca da necessidade de recorrer a uma nova ajuda a Portugal. Isto porque, no futebol, quando os presidentes dos clubes vêm dizer publicamente o seu apoio ao treinador, regra geral, no dia seguinte são despedidos! E, como parece que vai acontecer, seria importante explicar, para que se perceba, a dimensão da espiral de endividamento de Portugal. Ao mesmo tempo, perceber, se os sacrifícios que estão a ser pedidos são para todos e proporcionais ou vamos chegar a essa conferência de imprensa sem direito a perguntas (é a moda das conferências dos políticos cá no burgo), anunciando a necessidade desse novo pedido e esbarremos com um qualquer buraco provocado por uns boys ou compadres (leia-se estado) do costume. É que, só consigo enxergar cortes nos salários, nos serviços à população (transportes, saúde, educação…) mas nãos vejo o estado e aquela máquina infernal cortar em nada! Entretanto, o país vai sendo abandonado e empobrecendo. Temo que o tratamento leve à morte do paciente!

Segunda. Hesitei em trazer a esta crónica as declarações do sr. Silva, Presidente da República. Classificá-las de lamentáveis é demasiado redutor! Neste tempo em que o vencimento de milhares de portugueses é diminuto, o sr. Silva vem queixar-se de que os seus milhares de euros de reforma não dá para as despesas?! Nem com aqueles milhares que ganhou com as acções do BPN, ajudam? São declarações miseráveis, insensíveis e egoístas. Mas, porque há sempre um mas, o comunicado emitido para justificar foi… pronto, “pior a emenda que o soneto”! Como é possível dizer que as suas declarações procuravam realçar as dificuldades dos pensionistas, reformados e desfavorecidos? Revela falta de vergonha e que exerce o lugar pelo dinheiro. Porque, se tivesse vergonha, demitia-se. E é este o homem que fala dos profissionais da política, ele que leva trinta e cinco anos na política! Que bem prega frei Tomás…

Terceira. Esta semana ouvi o ministro da Segurança Social dizer que iria ser revista a lei ou as leis que regulam os lares da terceira idade, fazendo realce para um serviço mais domiciliário do que, propriamente, o encerramento no lar. As palavras, obviamente, que me levaram para as terras da raia, onde a maioria da população é idosa. O tema é interessante de se debater e é urgente encontrar respostas para um problema que se tende agravar. No concelho do Sabugal há aldeias em que a maior parte da sua população está no lar. E estes não conseguem dar resposta a todas as solicitações. Portanto, das duas uma, ou lhe damos assistência em casa ou os abandonamos.
Trago, também, este assunto aqui como algo de positivo. Existe no concelho uma empresa vocacionada precisamente para a prestação destes serviços idosos. Chama-se ESSENCIAL SÉNIOR, está sediada no centro de negócios transfronteiriços do Soito e é uma criação de dois jovens arraianos. Numa altura em que tanto se fala de empreendorismo, sabe bem constatar que há gente jovem a investir no concelho e em teimar em não o abandonar. Esta empresa presta apoio a idosos, a doentes, apoia nas actividades domésticas… entre outros serviços. Trago aqui o assunto (passe a publicidade), por me parecer inevitável ser uma questão premente e porque me parece importante realçar as coisas boas que acontecem, que se fazem e que se criam no concelho.
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

Jorge Barreto Xavier, ex Director-Geral das Artes, foi o convidado especial de um grupo de naturais e amigos do Sabugal que reuniu ontem, dia 26 de Janeiro, na Casa do Concelho do Sabugal em Lisboa para jantar e trocar ideias acerca do futuro da região.

«A cultura é o que nos liga», disse Barreto Xavier, que porém considerou que a economia passou a dominar as nossas vidas, em detrimento do tempo livre, do lazer e da cultura, que foram atirados para um canto da nossa existência. Esse facto leva-o a considerar que em Portugal se tem investido muito pouco na cultura enquanto aspecto estruturante do nosso quotidiano.
O ex Director-Geral das Artes, que passou uma boa parte da sua infância no Sabugal, onde estudou e deixou bom amigos, referiu-se ao problema da desertificação do Interior, como sendo fruto da atracção fatal que hoje as pessoas sentem pelas grandes cidades, que oferecem tudo o que necessitam e desejam. O poder central tem culpas no cartório, ao não criar condições para que as populações possam fixar-se no interior de Portugal.
A solução terá de passar por uma «visão integrada», construída a partir de uma reflexão que procure um consenso básico entre as várias forças políticas dominantes. «Tem de haver uma lógica de complementaridade», disse Barreto Xavier, dando como exemplo as termas do Cró, que considerou uma bela infra-estrutura para a qual falta uma aposta diversificada em áreas complementares à do simples termalismo. Só essa aposta poderá garantir o aproveitamento da oportunidade que o Cró proporciona ao concelho do Sabugal e à região.
Outra necessidade é a definição de um modelo de desenvolvimento para o concelho, criando graus de competitividade. «Mais do que um chefe ou um líder, é necessário um projecto elaborado a partir de um consenso para o longo prazo», concluiu.
Após a intervenção do convidado seguiu-se uma viva troca de argumentos acerca do rumo que o concelho deve tomar no futuro, onde sobressaiu a ideia de que o Sabugal precisa de se dinamizar a partir de uma mudança de mentalidades, pondo de lado rivalidades e conflitos estéreis e apostando na junção de esforços entre os que estão no concelho e os que partiram e mantém vivo o desejo de ajudar e de um dia regressar.
Jorge Barreto Xavier é professor do ISCTE, onde também prepara a tese de doutoramento em Políticas Públicas. Para além de Director-Geral das Artes, cargo que exerceu de 2008 a 2010, foi vereador da Câmara de Oeiras com o pelouro da Cultura, membro do conselho de administração do Instituto Português da Juventude, fundador do Clube Português de Artes e Ideias, entre outras actividades de relevo. É autor e co-autor de diversas publicações, com especial incidência nas áreas das artes e das políticas culturais.
plb

As árvores que ornamentavam a Praça da República, junto ao velho chafariz, foram derrubadas por ordem da Câmara Municipal do Sabugal, o que provocou a indignação de alguns sabugalenses.

Segundo o Capeia Arraiana apurou, alguém se queixou à Câmara Municipal de que as árvores antigas da Praça da República, junto à fonte, estavam caducas, em risco de queda iminente e que sujavam os automóveis quando se estacionavam naquele local. Vai daí, face à alegada queixa, decidiram cortar as árvores, ainda que fossem muito antigas.
Na manhã de hoje, 26 de Janeiro, alguns funcionários, munidos de motosserra, cumpriram as ordens superiores e cortaram rentes os troncos das árvores.
Naquele canto da emblemática Praça da República, o largo onde está sedeada a Câmara Municipal do Sabugal e que constitui o centro administrativo da cidade, está um antigo chafariz, que é o mesmo que o prémio Camões de 2011, o poeta sabugalense Manuel António Pina, diz estar entre as suas memórias de infância mais antigas. No local, à sombra das árvores, esteve durante anos instalada a praça municipal, onde todos os dias se vendiam frutas e legumes, antes de ser transferida para o largo fronteiro ao Tribunal.

Este tipo de árvores, que fazem parte dos núcleos históricos das nossas aldeias, vilas e cidades, deveriam ser rigorosamente protegidas e o seu eventual derrube teria de obedecer a critérios de rigor, que, preferencialmente, passassem por uma discussão pública acerca dessa necessidade e dessa oportunidade.
plb

Em comentário a uma das últimas crónicas minhas o meu amigo Quim Tomé escreve: «No Sabugal também há quem não esteja parado! No Sabugal também há quem muito faça às suas próprias custas pela terra!».

Ramiro Matos – «Sabugal Melhor»Não podia estar mais de acordo, e seria, da minha parte, uma grande injustiça não reconhecer todos aqueles que, contra ventos e marés, continuam a lutar por um Concelho do Sabugal melhor.
Quero antes de mais salientar os mais de 13.000 cidadãos que neste Concelho continuam a viver e a trabalhar, numa prova diária de que, embora difícil, existe um caminho a percorrer.
Mas de entre todos os que não deixam a esperança morrer, deixem-me salientar alguns exemplos, pedindo desde já desculpa aos que não vou referir, não por esquecimento, mas porque os que vou citar são apenas exemplos.
E começo, por alguns agentes económicos que, do espaço sabugalense souberam afirmar-se a nível nacional e, mesmo, internacional: a OLIPAL, a PALEGESSOS, a ENAT, a «Fausto Baltazar & Filhos», a LACTIBAR…
Também no setor da restauração e hotelaria, saliento os nomes dos restaurantes «Robalo», inserido em praticamente todos os roteiros gastronómicos nacionais e da «Casa da Esquila» que vem fazendo o seu caminho para o merecido reconhecimento como um dos melhores restaurantes beirões.
Natural destaque merece a «Casa do Castelo» pelo trabalho ímpar que vem desenvolvendo em prol da afirmação do Concelho e na defesa intransigente do património cultural do Concelho.
E não esqueço também o papel das IPSS que tornam o Concelho num exemplo a nível nacional.
Como não esqueço o trabalho de tantos e tantos sabugalenses que, melhor ou pior, continuam a defender nas suas associações culturais, desportivas e recreativas as suas aldeias e os seus conterrâneos.
Caro Quim Tomé: Percebo como poucos as razões que te assistem pela forma vergonhosa, para não dizer outra palavra mais forte, como alguns te trataram e ainda hoje te tratam.
Mas tenho a certeza que o pelotão dos sabugalenses que diariamente dão mais um contributo para o Concelho do Sabugal que todos queríamos fosse a nossa terra é grande e fortalece-se dia após dia!

PS 1: A morte de um sabugalense que tanto deu pela sua terra é um momento muito triste para todos, e em especial para mim, pois não tenho dúvidas que o Ti Fausto Baltazar me tinha como amigo.
Curiosamente a minha primeira lembrança do Ti Fausto vem sempre acompanhada de um saxofone, pois foi no «Jazz Transcudano», conjunto musical que houve no Sabugal na década de 50 do século passado, que me lembro de o ver tocar aquele instrumento, ao lado, entre outros, do meu pai que tocava trompete e cantava.
À família e aos meus grandes amigos Tó e Quim um abraço sentido de solidariedade nesta hora má.

PS 2: E lá fui a Évora em mais uma jornada gastronómica gloriosa, feita por um homem que em terras alentejanas ostenta de forma orgulhosa a sua qualidade de beirão e sabugalense.
Está de parabéns a Confraria do Bucho Rraiano e o meu amigo Zé Dias.
E muito folgámos em saber que a Confraria já é tão importante que até merece chamada de atenção em jornais diários (no caso o «i»), comparando-nos à Maçonaria! Como diria a Ivone Silva «está tudo grosso!…».

PS 3: Não posso deixar de me congratular com o facto de na última reunião de Câmara os vereadores do Partido Socialista terem apresentado a proposta para a elaboração do «Plano Estratégico do Concelho», proposta que foi aprovada por unanimidade.
Venho defendendo esta proposta há mais de 20 anos e é bom que, finalmente, a Câmara dê início à sua elaboração.

«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

rmlmatos@gmail.com

Foi criado na Internet um movimento cívico que defende a modernização e reabertura do troço da linha ferroviária da Beira Baixa entre a Guarda e a Covilhã.

O movimento foi criado e colocado on-line por um eleito da Assembleia Municipal da Guarda, Júlio Seabra, do PS, que informou defender que «a Linha da Beira Baixa é vital para as populações e para as economias a si adjacentes».
A reivindicação foi colocada no portal do Governo (www.portugal.gov.pt) aproveitando a possibilidade que é dada aos portugueses para ali defenderem as suas causas.
Face ao facto do troço da linha da Beira Baixa entre a Guarda e a Covilhã estar encerrado há quase três anos, Júlio Seabra considera que é importante revitalizar este troço, «modernizando-o e abrindo-o novamente, com as devidas condições para as populações que dele queiram usufruir», justificou.
Aquela via ferroviária é uma alternativa à auto-estrada A23 (Guarda/Torres Novas), numa altura em que foram introduzidas portagens nesta via. As empresas da região poderão passar a escoar os seus produtos «de forma mais prática, económica e rápida», considera o fundador do movimento.
No texto da proposta, Júlio Seabra sustenta que a modernização e reabertura do troço da Linha da Beira Baixa entre a Guarda e a Covilhã, possibilitará «a circulação de composições de passageiros e mercadorias, num circuito Guarda/Pampilhosa/Entroncamento/Guarda» e na ligação à Europa.
Júlio Seabra defende ainda que «a Linha da Beira Baixa tornar-se-á num eixo importantíssimo no mapa ferroviário português, permitindo a diminuição de trânsito na Linha do Norte, sendo também uma alternativa a esta em situações de graves acidentes».
Para apoiar o movimento pode ir aqui.
plb

«Mestre de Marca» é a segunda peça da Trilogia Castelos da Raia. O guião vai ser publicado em duas parte.

João Valente - Arroz com Todos - Capeia ArraianaMESTRE DA MARCA
(três actos)

Personagens: ROIZ (físico do rei), BARNABÉ (escudeiro), ROBERT (mestre pedreiro), JOSUÉ (aprendiz), JUAN (mestre pedreiro), GILBERT (mestre templário), ESCRIVÃO, ISABEL (bastarda do rei), ALCOVITEIRA, GUARDA. Largo e Castelo; estaleiro montado, andaimes e roldanas na torre. Josué, Isabel e povo, etc. A cena passa-se no Castelo de Vilar Maior, 1210.

ACTO I
Largo público. À direita uma casa com este letreiro: «Robert, mestre pedreiro de marca.» À esquerda outra casa com este letreiro: «Roiz, físico licenciado em Paris» Ao fundo, Torre de menagem e castelo.

CENA I
Josué
JOSUÉ (sobe o largo, passeia de um lado para o outro, em solilóquio.)
Coplas
I
Sou um aprendiz desgraçado,
Sem dinheiro para jantar;
hoje comi gato guisado,
para a fome enganar.
Apesar de bom pedreiro,
vivo com mestre Roberto
que me corta no dinheiro
E me deixa em grande aperto.
Como eu ninguém há
por cá.
Olá!
Como eu ninguém é!
Olé!
Como eu ninguém vi!
Oli!
Ninguém como eu sou!
Olô!
CORO – E ninguém, parvo como tu!II
Que me importa pedra partir
Do meio-dia à meia-noite;
Viver nesta canseira
e andar como Job a pedir
sem nada (e revira os bolsos) na algibeira?
CORO – Sem nada na algibeira!

CENA II
Josué e Isabel
ISABEL (subindo o largo e vendo José a resmungar) – Bonito! A difamar o patrão!
CORO – Bonito! A difamar o patrão…
JOSÉ (compõe os bolsos) – A benção, bela infanta?
ISABEL- Adeus. (senta-se.) Já viste mestre Roíz, Josué?
JOSÉ – Já sim, senhora.
ISABEL – E há muito?
JOSUÉ – Coisa de meia hora, senhora! Tenho um recado! (Mostra-lhe um pano com brasão e cantarola.) Trá lá rá lá lá…
ISABEL (ergue-se em bicos de pés)- Dá cá!
JOSUÉ (Arremeda-a.) – Trá lá rá lá lá… (Esquiva-se ao alcance das mãos da moça, negando-lhe o pano)
ISABEL – Deixa-te de fitas, dá cá! (apanha o pano)
JOSUÉ – Encontro debaixo da ponte; qual a resposta?
ISABEL (cheirando o pano e guardando-o) Nem sim; nem não… (entra na casa de mestre Roíz.)
JOSUÉ – (seguindo-a) Ai se mestre Roíz sabe que anda moiro na costa… (e entra na casa de mestre Robert)
CORO – Ai se mestre Roíz sonha!…

CENA IIII
SABEL E BARNABÉ (homem de meia idade, vestido de escudeiro, barrigudo e barbudo sobe o largo dirigindo-se a casa de mestre Roíz)
ISABEL (Vem a sair com cestinha na mão, ao ver Bernardo, volta atrás, querendo fugir.) – Ai Jesus!
BARNABÉ (embargando-lhe a passagem.) – Ninguém deve correr sem ver de quê.
ISABEL – Que quer o senhor aqui?
BARNABÉ – Vim em pessoa saber da resposta: quem quer vai; quem não quer manda; quem não arrisca, não petisca…ISABEL – Então o pano era vosso…
BARNABÉ – O pano e a estopa…
ISABEL (Interrompendo-o) – Olha a impertinência! Um reles escudeiro a pretendente de filha de rei… Não suba o sapateiro além da sola do sapato!
BARNABÉ – Não há recado sem resposta…
ISABEL (levantando a mão) – Para vilão, palma da mão!
BARNABÉ (Impassível.) – Quanto mais me bates, mais gosto de ti. Eh! Eh! Foi por lã, e saiu tosquiada…
ISABEL – Eu grito!
BARNABÉ – E eu corro!
ISABEL – O senhor é gordo e feio… Pode lá correr!…
BARNABÉ – O diabo não é tão feio como se pinta…
ISABEL- Feio que nem um bode!…
BARNABÉ – Quem o feio ama bonito lhe parece.
ISABEL- Convencido!
BARNABÉ – Água mole em pedra dura, tanto dá…
ISABEL – Vá esperando!…
BARNABÉ – Quem espera sempre alcança.
ISABEL – Desengane-se!
BARNABÉ – O futuro a Deus pertence!
ISABEL – Melhores pertences e pretendentes tenho eu…
BARNABÉ – Dentro da arca, bem os oiço…
ISABEL – Muito mais bonitos…(Suspirando)
BARNABÉ – Quem conta um conto, acrescenta um ponto…
ISABEL – Para que haveria de querer um velho gaiteiro?
BARNABÉ – Quem desdenha quer comprar…
ISABEL – Comprar! Um homem tão mal feito!…
BARNABÉ – Feio por fora, lindo por dentro.
ISABEL Presunção e água benta, cada um toma a que quer…
BARNABÉ (sentando-se)- Sois a luz dos meus olhos!…
ISABEL – Ah, ele agora senta-se? Temos cão de guarda!
BARNABÉ (impassível.) – Cão que ladra, não morde…
ISABEL – Temo-la travada.
BARNABÉ – Venha sentar-se a meu lado…
ISABEL – Pois sim! Não morde, mas tem pulgas!
BARNABÉ (Chegando-se) – Esfreguei-me com vinagre! Ora cheirai…
ISABEL (Afastando-o, faz-lhe uma cara) – Vai de retro!
BARNABÉ – Como?
ISABEL (entrando) – Irra, que é surdo!
BARNABÈ (descendo o largo, solilóquio) – Esperneia, mas há-de cair no anzol!

ACTO II
Em casa de Robert. Sala. Mobília velha: mesa, bancos, três colunas a meio. Sobre cada uma destas um castiçal aceso, e na mesa, outro castiçal e uma garrafa de vinho e dois copos. Uma pedra cúbica, que Robert trabalha, e instrumentos de pedreiro sobre ela (esquadro, ponteiro martelo e esquadro). Ao fundo porta que deita para a saída. Interior da habitação. É noite.

CENA I
Josué e Robert
(Josué entra. Ao sinal de Robert, senta-se à mesa com este, conversando.)
JOSUÉ- Então, há três anos entrei na irmandade; quando me aumentas o salário?
ROBERT – (atirando uma bolsa para a mesa) Toma lá esta paga pelos teus trabalhos em atraso, e desampara-me a loja!
JOSUÉ (despejando-a na mesa e contando o dinheiro) – Aqui só estão seis dinheiros… (guardando o dinheiro.)… Por mais se vendeu judas!
ROBERT – Hoje reúne o conselho; e podes pedir aumento de salário. (dá-lhe uma palmada nas costas) Anda, bebe um copo!
JOSUÉ – (esfregando as mãos) Venha de lá então esse copo…
ROBERT – Já sabes desbastar pedra e utilizas as ferramentas com mestria (enchendo-lhe o copo); podes muito bem receber o sinal…
JOSUÉ – Basta cheio. (estende o copo) Podeis parar … Ao meu sinal!
ROBERT – Ao sinal! (em surdina) O sinal… Entendes?
JOSUÉ – Qual sinal?
CORO – Qual sinal?
ROBERT – A palavra passe do grau, meu tolo!
JOSUÉ – Venha ela!… (esvazia o copo)
CORO – Venha ela!
ROBERT – Mais devagar… Primeiro a instrução!…

CENA II
Robert, Juan e Josué
JUAN (dá três pancadas na porta e vai entrando com sacola a tiracolo, sem reparar em Josué) – Tem aqui uma bela loja, compadre. É sua?
ROBERT – Trinta maravedis pago por ela.
JUAN – E tem câmaras? (senta-se à mesa)
ROBERT – A da ceia e a do meio…
JUAN – (em surdina) E para a função, compadre?
ROBERT – A da vizinha aqui ao lado, e é quanto basta.
JUAN – Função da irmandade; compadre…
ROBERT – Não diga que você também é confrade?!
JUAN – Reconhecido como tal… de alvará passado e oficina montada. (exibindo sacola que traz a tiracolo) Não largo o avental nem as ferramentas de ofício!
ROBERT – Mas de onde, não nos dirá?
JUAN – Pergunta bem a quem não lhe pode responder.
ROBERT – Mas a palavra passe, essa dará…
JUAN – Chegai-vos cá que vo-la botarei (segreda ao ouvido de Robert)
ROBERT (À parte.) – Nunca ouvi palavra tão certinha!
JUAN – Mas para quê todo este aparato?
ROBERT (À parte.) – Hoje temos função de grau! (mostrando Josué) E o felizardo está presente!

CENA III
Robert, Juan, Josué, Gilbert
Entram Gilbert, espada cingida, saco a tiracolo e senta-se à mesa.
GILBERT – Vamo-nos preparando para a cerimónia. ( tirando as ferramentas da sacola, no que é secundado por todos) o escrivão não tarda ai também, passei por ele no terreiro. (três pancadas na porta.) Quem é?
ESCRIVÃO, (dentro) — Sou eu.
GILBERT — Ah, és tu… Podes entrar.

CENA IV
ESCRIVÃO entra e senta-se à mesa.
GILBERT — Vamos começar. ( põe a espada sobre a mesa, bate o martelo) Os senhores que estão lá fora no terreiro podem entrar.(Entram vários operários; uns de jaqueta de chita, chapéu de palha, calças de ganga, de tamancos, aventais postos, que se vão sentando. Josué senta-se com eles) Estão abertos os trabalhos. Os requerimentos?

CENA XI
Um dos operários entrega um papel e um cesto. Josué tira da camisa um papel que entrega ao escrivão.
GILBERT — Sr. Escrivão, faça o favor de ler.
ESCRIVÃO, lendo — “Diz Josué, natural desta freguesia e casado com Josefa, sua mulher à face da Santa Madre Igreja e da lei dos homens, pai teúdo e manteúdo de uma pimpolha bem sadia e coradinha e de mais outro que vem a caminho pelo entrudo, morador em casa emprestada, à rua da galinha, aprendiz do ofício nesta loginha, vai para três anos e muitas luas com mestre Roberto, e magro salário que o deixa em aperto , pede a Vossa Senhoria mande votar neste conselho aumento do seu grau. Espera receber mercê.
GILBERT — Baixe à assembleia para votação. E que mais?
ESCRIVÃO, lendo — “O abaixo-assinado vem dar os parabéns a V.Sa. por ter entrado com saúde no novo ano financeiro. Diz ser mestre deste ofício, e senhor de um moínho de duas pedras alvaneiras, à borda do Cesarão, que em ano de boa àgua dá bom alqueire de farinha ao dia, mais os barbos e robalos que se catrapiscam no açude, e como vem de encaixe, pede a V. Sa. o favor de aceitar um cestinho de robalos que mandou apanhar hoje à tarde, para a ceia.
GILBERT — Tal não carece de requerimento! (aceitando a cesta e passando-a a Robert) Para a ceia… e já vêm amanhados! Vamos à restante ordem do dia.
ESCRIVÃO – (arrumando os papéis) – Nada mais há requerido…
GILBERT — Está bom, então sobeja-nos tempo para marcamos as pedras da torre. Sr. Escrivão, faça o favor de… ( grita para fora:) Ó da porta! Fecha; e corre o pano!
GUARDA, ao longe — Sim senhor.
CORO – E o povo não assiste?
GILBERT – É a coberto de profanos…
(Estrondo de porta a fechar. Corre o pano)

ACTO III
…(cont.)
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

Há muito que não visitava a Capital do Império. É uma cidade que me fascina, que me encanta. Ali trabalhei, ali nasceu o primeiro filho. Porém, desta vez fiquei surpreendido e preocupado.

Os preços a subirem em flecha, mais altos que as Torres da Basílica da Estrela. Os táxis a aguardar clientes que não aparecem. Fui a uma grande superfície comercial perto do Parque Eduardo VII. Entrei na catedral do consumo para comprar um cobertor. Entrei num labirinto e dizem-me que tenho de subir ao sétimo andar. Um cobertor com descontos custa mais de sessenta euros. Tudo em saldos, mas sem grande procura, com excepção nas marcas da moda. Á saída um slogan «por cada rico um pobre». Não concordo, há mais que um pobre, por cada rico. Há muitos pobres… Um grupo de jovens bem constituídos falam de assaltos, são sinais dos tempos que vivemos. Calcorreio as ruas e em frente à Penitenciária de Lisboa, visitas esperam ordem para entrar, com um aviso que devem chegar meia hora mais cedo. Passo por diversas lojas que compram ouro. Uma loja tem o descaramento de publicitar que compra ouro estragado, velho, usado e partido. Partido por quem e com quem? Entrei e a gentil menina disse-me que tem de usar esta linguagem comercial. «E esta hei?», como dizia o Fernando Pessa. Estão a surgir por todos os lados como já surgiram as lojas dos chineses. Se estes enveredam nestes negócios com o apoio do governo chinês, os nossos comerciantes dos metais preciosos dão uma queda maior que o paquete Costa Concórdia. Há uma procura desusada na procura dos metais, que o digam os ladrões e os receptores dos mesmos. Roubam-se os sinos, os cabos telefónicos, ouro, prata e tudo o que rende dinheiro. Este é um negócio que está a dar e sem fiscalização, sem ASAE, é um verdadeiro negócio da China. É comprar e fundir. Não custa nada e é só lucro. Enfim, parece-me que todos querem comprar ou roubar a ilusão do ouro para esquecer a idade do latão.
Nas paredes da Mãe de Água uma frase: «greve geral – 24 de Nov». Apreciei a caligrafia num vermelho vivo, numa escrita a lembrar os meus tempos de Escola Primária, quando usávamos as canetas de aparos molhados em tinteiros, inseridos nas carteiras de madeira.
Á entrada de um grande terminal de transportes, tropeço nesta frase: «o aumento dos transportes públicos é um roubo aos utentes». Desembolso fatalmente todos os meus trocos e entro no autocarro. À minha frente surge um cartaz «goze a viagem, vá de transportes públicos». Com o aumento dos preços somos mesmo gozados.
Também num mural uma frase: «corruptos, manquem-se». Cuidado, porque depois não há ortopedistas e serviços de saúde que cheguem para tratar tantos mancos.
Percorro uma avenida com endereços de escritórios de advogados e das suas sociedades. Encontro um velho amigo, que me despede em grande velocidade, porque tem de ir estudar e preparar o recurso de uma sentença judicial, porque este também é um negócio que dá chorudos lucros.
Vejo o pequeno comércio quase vazio, cafés, casas de produtos da alimentação, vestuário e outros.
Vejo na Avenida Miguel Torga, e nem queria acreditar: um amolador e afiador de facas e tesouras e afins, apoiado a uma velha bicicleta, despertado a sua atenção e presença com um sinal sonoro próprio. Ele bem olha para os prédios de diversos andares, mas nem um sinal de vida. Ninguém de avental aparece e de saias muito menos. Andam por outras bandas, talvez pelo Bairro Alto e outros locais limítrofes.
Numa companhia de saúde quase ninguém corresponde aos bons-dias. Será que estas e outras saudações já pagam imposto? Não é só aí. É em quase comportamento comum todos os lugares.
Um jovem parecido com um repórter de imagem entrega-me gratuitamente um jornal onde leio-o diversas notícias. Em letras muito minúsculas como convém a esta sociedade relativista, o Papa afirma que «os emigrantes não são números, mas sim os protagonistas do anúncio do Evangelho no mundo contemporâneo». Em 2010 um quarto dos condutores que faleceram de acidente tem álcool no sangue, 1,2 gramas e 7,1% tem substâncias psicotrópicas. As cadeias estão cheias e não estão lá muitos que andam por aí a passear. Um político diz-nos que «somos um país de novelas». Concordo, mas não só.
Termino com as palavras que li de Guerra Junqueiro, poeta transmontano, anticlerical, que fez a transição do século XIX para o XX e da Monarquia para a República, sobre o Povo Português há mais de cem anos: «um povo imbecilizado, resignado, humilde, macambúzio, fatalista e sonâmbulo…um povo enfim que eu adoro porque sofre e é bom e guarda ainda na noite a sua inconsciência como um lampejo misteriosos da alma nacional». Continua actualizada a opinião de um dos maiores poetas portugueses.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

Faleceu ontem, dia 24 de Janeiro, o empresário Fausto Baltazar, proprietário da empresa Móveis Baltazar e Filhos, uma das mais antigas do Sabugal.

José Manuel Carvalho PereiraFausto Baltazar tinha 90 anos de idade e dedicou a sua vida à actividade empresarial. Proprietário de uma serração, conseguiu, com a ajuda dos filhos, fazer crescer o negócio, transformando a empresa numa reconhecida e prestigiada fábrica de móveis que vende para todo o país e exporta para alguns países da Europa, sobretudo para França.
Fausto Baltazar foi também um homem dedicado à comunidade sabugalense, tendo ocupado o lugar de presidente da comissão que geriu a Câmara Municipal do Sabugal durante o período que se seguiu à Revolução de 25 de Abril de 1974, até à realização das primeiras eleições autárquicas na era democrática.
O funeral de Fausto Baltazar realiza-se hoje, às 16 horas, no Sabugal.
plb

No passado fim-de-semana o Comando Territorial da Guarda da GNR realizou uma operação especial de prevenção criminal nos concelhos do Sabugal, Pinhel e Guarda, de que resultou a detenção de quatro indivíduos.

Guarda Nacional RepublicanaA operação incidiu particularmente na fiscalização a estabelecimentos de diversão nocturna, incluindo o patrulhamento de pontos considerados sensíveis.
No Sabugal detiveram-se dois homens, 19 e 29 anos de idade, por exercerem ilegalmente a actividade de segurança privada num estabelecimento de diversão nocturna. Sendo presentes ao Tribunal Judicial do Sabugal, ficaram com a medida de coação de Termo de Identidade e Residência a aguardar o resultado do Inquérito.
Em Pínzio, concelho de Pinhel, foram detidos na mesma operação, em flagrante delito, outros dois homens, com 57 e 74 anos de idade, residentes na Guarda, quando furtavam metais não preciosos num armazém. Os suspeitos, um deles com antecedentes criminais e a cumprir pena suspensa, foram presentes ao Tribunal Judicial de Pinhel.
Através do Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (SEPNA), a GNR realizou também em todo o distrito da Guarda uma operação de fiscalização aos lagares de azeite, de onde resultaram oito autos de contra-ordenação. A operação decorreu entre os dias 5 e 18 de Janeiro, período em que foram fiscalizados 13 lagares.
Na noite de 20 de Janeiro, militares do Posto Territorial de Seia, detiveram três indivíduos de 21, 26 e 39 anos de idade, dois deles residentes na Amadora e outro em Arganil, por crime de tráfico de estupefacientes. Os detidos estavam na posse de 22,64 gramas de haxixe, quantidade suficiente para 115 doses individuais. Presentes ao Tribunal Judicial de Seia, foi-lhes aplicada a medida de coação de Termo de Identidade e Residência, ficando a aguardar o resultado do Inquérito.
Na noite de 21 de Janeiro, militares do Posto Territorial de Seia, detiveram em flagrante delito, um indivíduo de 39 anos de idade, residente em Seia, por crime de violência doméstica. A detenção ocorreu após ter sido dado o alerta para aquele Posto, a comunicarem a existência de agressões mútuas. Uma vez no local a patrulha entrou na residência, quando o agora detido, agredia fisicamente a vítima que se encontrava prostrada em cima da cama e imobilizada, no quarto do casal.
A Equipa de Investigação e Inquérito do Posto de Gouveia identificou, nos dias 19 e 20 de Janeiro, dois indivíduos de 16 e 19 anos de idade, residentes em São Paio, por suspeita da prática de vários crimes de furto a residências. Os mesmos já estavam a ser investigados há algum tempo no âmbito de Inquéritos criminais, tendo sido realizadas buscas domiciliárias às suas residências, onde lhes foram apreendidos diversos objectos furtados, designadamente, artigos de vestuário, de beleza e uma Play Station, tendo confessado serem os autores de pelo menos três furtos a residências. Os mesmos, que agiram em co-autoria, foram constituídos arguidos, tendo os factos sido participados ao Tribunal Judicial de Gouveia.
plb

Quem não tem medo de viver numa sociedade onde ditadores estrangeiros, numa ingerência inqualificável, determinem desde as suas cómodas e bem remuneradas poltronas, que o nosso País ponha acima de tudo e de todos os interesses da Propriedade Capitalista Oligárquica e despreze o Capital Humano? Quem não tem medo de viver num País, como o nosso, onde os seus governantes obedecem cegamente a esses ditadores estrangeiros, estando a contribuir assim para a morte lenta da nossa sociedade? O medo é o chicote dos amos…

António EmidioA história diz-nos que nenhuma época nem civilização estiveram isentas desse fenómeno psíquico que é o medo. É um grande desafio que muitas vezes se apodera do homem. Eu, embora não chegando aos extremos da Kafka que dizia: «o meu ser é medo», vivo com medo. Quem, sendo cidadão comum, cidadão que trabalha, não vive com medo? Atrevo-me a dizer que muito poucos. Também poucos saberão que esse medo é medo a uma ideologia, sim leitor(a), é o Neoliberalismo, uma corrente de pensamento partidária da máxima liberdade de comércio e competitividade, aliadas à destruição moral do homem, uma ideologia inumana.
Vivemos numa sociedade que podemos apelidá-la da sociedade do medo, medo a quê? À perca do posto de trabalho, medo a não conseguir nenhum, medo à diminuição dos salários e das pensões, medo à concorrência desleal e até criminosa, medo ao Estado Neoliberal, cuja tarefa principal presentemente é disciplinar os portugueses, por isso há cada vez mais leis e decretos, mais proibições e ameaças, com isto tudo, menos Liberdade. Medo ao fracasso, não nos pode surpreender este medo já que vivemos debaixo de uma ideologia que determina o valor das pessoas pelo seu êxito externo. Medo aos grandes problemas ecológicos, à mudança climática e até a uma guerra nuclear.
O conhecimento e o saber, procuram eliminar, ou reduzir ao mínimo o medo social, quanto a mim tem um efeito contrário, aumenta-o, porque conhecimento e saber levam-nos a compreender toda a movimentação política e económica que está a transformar a vida da maioria dos cidadãos numa ditadura diária.
Aceitar o medo como fazendo parte do nosso ser é um acto de lucidez.

Vou deixá-lo querido leitor(a) com esta pequena história sofista: «A peste ia a caminho de Bagdade, encontrou pelo caminho alguém que lhe perguntou onde ia. A peste respondeu que ia a Bagdade matar dez mil pessoas. Passado algum tempo a peste voltou a encontrar-se com essa pessoa, que deveras irritada lhe disse: mentiste-me! Disseste que ias a Bagdade matar dez mil pessoas e mataste cem mil! A peste retorquiu: eu não menti, matei dez mil, o resto…morreu de medo».
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

Cantar as janeiras, hoje, só por reposição cultural. E isso é o que felizmente vem acontecendo. Mas em tempos a coisa era feita à séria. Recordo aqui essa saga.

No mês de Janeiro, era sagrado: tinha de haver sempre um grupo que se lançava na encenação de, por brincadeira, mas a sério porque em nome da tradição arreigada, ir de porta em porta cantar uns versos aos moradores de cada casa.
Não estou a imaginar hoje um grupo de adultos juntar-se e percorrer a aldeia a cantar as janeiras. Se isso se fizer por iniciativa lúdico-cultural do Centro de Animação Cultural, do Lar ou da Junta de Freguesia, já é um ganho. Mas instalar novamente a tradição seria um milagre.
Como eram as janeiras – o cantar as janeiras?
As pessoas juntavam-se, á noite, e iam de casa em casa. Rapazes e raparigas, sobretudo. Melhor: sobretudo as raparigas. Em frente das portas, ao fundo das escadas, um começava e os outros iam atrás:

Levante-se lá, senhora,
Desse banquinho de prata.
Venha nos dar as janeiras,
Que está um frio que mata.

Refrão:
Naquela relvinha
Que o vento geou,
A Mãe de Jesus
Tão pura ficou.

Havia mais estrofes. Como esta, por exemplo, agora com a grafia regional:

Levante-se lá, senhora,
Desse banco de cortiça.
Venha nos dar as janêras:
Ò morcela ò chòriça.

E repetiam o refrão.
Cantavam durante quatro ou cinco minutos.
Acabada a cantoria, lá vinha um copo, umas castanhas, às vezes uma morcela, uma chouriça.
Isso, tudo junto ao fim-de-semana, dava para um convívio da «troupe» de cantadores de janeiras.
Mas claro que não é só na nossa zona que se canta(va)m as janeiras. Por exemplo, a foto que fui buscar é de um grupo do Arez, em Nisa – uma terra que repôs a tradição e por isso registo aqui o meu apreço. Mas também nestas nossas terras da «antiquérrima» Lancia Oppidana encontro o mesmo apreço pelas janeiras de antigamente, como aqui, num sítio dedicado a Malcata, por exemplo.
Quanto ao Casteleiro, se tiver interesse, pode aceder a outros pormenores aqui, no Viver Casteleiro (ver também mais estrofes nos comentários a um desses «posts»).
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Inspectores da Polícia Judiciária estiveram na sexta-feira, dia 19 de Janeiro, nas instalações da Câmara Municipal do Sabugal, onde cumpriram mandados de busca.

Munidos de mandados judiciais os inspectores entraram em vários gabinetes de trabalho dos edifícios da Câmara e da empresa municipal Sabugal+, fizeram buscas e analisaram os discos rígidos de alguns computadores, cujo conteúdo terão copiado.
Segundo uma notícia de sábado, dia 21 de janeiro, publicada no jornal Correio da Manhã, tratou-se de uma operação efectuada ao mesmo tempo em cinco Câmaras Municipais (Oeiras, Sabugal, Alcobaça, Trancoso e Gouveia), as quais estão sob a mira de uma investigação criminal que incluiu a realização de mais de 20 buscas.
Além das autarquias os inspectores da PJ visitaram várias empresas, dentre as quais a construtora MRG – Engenharia e Construção, que poderá estar no centro da investigação. Segundo o Correio da Manhã, estarão em causa parcerias público-privadas – obras que nunca foram realizadas ou casos onde foi detectada sobrefacturação ou mesmo facturas falsas.
A empresa MRG, de Manuel Rodrigues Gouveia, assinou em julho de 2009 uma parceria público-privada com a Câmara Municipal do Sabugal, através da criação da empresa CôaCamping SA, participada em 48 por cento pela Sabugal+, e no capital restante pela MRG e outras empresas suas participadas, tendo como objectivo a construção de um parque de campismo e caravanismo junto ao rio Côa, umas centenas de metros a juzante da barragem do Sabugal. Adquiriram-se os terrenos e chegou a elaborar-se um projecto, mas a MRG acabaria por notificar a Câmara do Sabugal de que desistia do processo, manifestando a vontade de vender todas as suas acções à empresa municipal Sabugal+.
Ainda segundo o Correio da Manhã, «as situações já verificadas são várias: há obras fantasmas na habitação social, casos graves que envolvem a construção ou remodelação de escolas, piscinas e parques de estacionamento. Há ainda situações que dizem respeito a centros geriátricos. Os valores das alegadas burlas ao Estado podem atingir vários milhões. Em Odivelas, também há contratos sob suspeita, mas a PJ não fez buscas à autarquia».
plb

Pelo segundo ano consecutivo, Emanuel Brito, judoca do Sporting Clube do Sabugal, sagrou-se campeão regional de Cadetes, este ano em -66kg.

O Sporting Clube do sabugal, congratula-se com o título conseguido, esperando poder continuar a dar aos seus atletas a possibilidade de representarem as suas cores com a dedicação que sempre têm demonstrado.
O primeiro campeonato Regional de Judo de 2012.Realizou-se no passado dia 21 de Janeiro no Pavilhão Municipal de Caminha,
Esta primeira competição que iria decidir os sete representantes da Zona Norte, que inclui os distritos de Guarda, Viseu, Aveiro, Porto Viana do Castelo e Braga, em cada categoria de peso, estava destinada ao escalão de cadetes (15 e 16 anos).
O jovem judoca perdeu apenas o primeiro combate do seu grupo de apuramento para as meias-finais, com o atleta que depois viria a defrontar na final, tendo desta vez o judoca do SCS ficado em vantagem. Este resultado irá permitir aos sete primeiros classificados de cada categoria de peso, representarem tanto a Região Norte como as suas Associações distritais e clubes no Campeonato Nacional que se irá realizar no próximo dia 11 de Fevereiro em Odivelas.
Ficando desde já os parabéns e um voto de sucesso para o Campeonato Nacional aos judocas apurados.
djmc

O mundo em que vivemos está ameaçado. Pelas guerras, pela globalização selvagem, pelo aquecimento planetário e pela degradação ambiental, pelo esgotamento dos recursos. Mas existem também muitas razões para termos esperança no futuro. Carl Sagan, um dos mais notáveis divulgadores da Ciência, dizia que «os tempos mais gloriosos da Humanidade ainda estão para vir». Oxalá tenha razão.

Cartoon sobre a clonagem de ovelhas

Adérito Tavares - Na Raia da Memória«No Admirável Mundo Novo da minha fantasia, o eugenismo e o seu contrário eram sistematicamente praticados. Numa série de frascos, óvulos biologicamente superiores, fertilizados por esperma biologicamente superior, recebiam o melhor tratamento pré-natal possível e eram finalmente decantados como Betas, Alfas e até Alfas+. Noutra série de frascos, muito mais numerosa, óvulos biologicamente inferiores, fertilizados por esperma biologicamente inferior, eram sujeitos ao Processo Bokanowsky (noventa e seis gémeos retirados de um só ovo) e tratados, prenatalmente, com álcool e outros venenos proteínicos. As criaturas finalmente decantadas eram quase sub-humanas; mas eram capazes de realizar trabalhos que não requeressem perícia e, quando convenientemente condicionados, relaxados por livres e frequentes relações com o sexo oposto, constantemente distraídos pelo divertimento gratuito, e incitados a cumprirem os padrões do seu bom comportamento por doses diárias de soma, podiam considerar-se como incapazes de causarem qualquer preocupação aos seus superiores.»
Aldous Huxley escreveu estas palavras em 1958, num livro intitulado Regresso ao Admirável Mundo Novo. Huxley tinha publicado, em 1931, um dos mais famosos livros de ficção científica de todos os tempos, justamente intitulado Admirável Mundo Novo (Brave New World) e, agora, neste estudo, escrito 27 anos mais tarde, procurava mostrar que algumas coisas que, no seu romance, eram ficção, se aproximavam da realidade. Aldous Huxley, infelizmente, morreu em 1963. Se fosse vivo, provavelmente escreveria um novo ensaio para se congratular com o rigor das suas «profecias». É que, cada vez mais, a ficção se vai tornando realidade. E muito mais depressa do que o próprio Huxley previa: a fábula huxleyniana situava-se aí pelo século VI d. F. (depois de Ford), ou seja, lá para dois mil quinhentos e tal. Ora a verdade é que, antes ainda do final do século I d. F., já se tornaram possíveis práticas como a fertilização in vitro, a manipulação genética e, recentemente, a clonagem de mamíferos. Não estamos muito longe da produção artificial de seres humanos em série, tal como acima a descreve o grande escritor inglês.
No Admirável Mundo Novo, o problema da superpopulação desaparece. Os seres humanos deixam de nascer de «mães». Todos são «produzidos» em grandes laboratórios do Estado, em placentas artificiais. Produziam-se tantos quantos eram necessários, homens ou mulheres. Alguns eram «fabricados» excepcionalmente inteligentes (poucos, os Alfas), outros bastante inteligentes (os Betas); os Gamas e os Deltas constituíam a camada medianamente inteligente, capaz de executar mas não de decidir; e, finalmente, todos os restantes (os futuros trabalhadores indiferenciados e submissos), eram programados para atingirem um quociente intelectual abaixo da média. Para isso, durante a «produção», na placenta artificial, aos futuros líderes e quadros superiores ministravam-se alimentos e medicamentos meticulosamente seleccionados e, ao comum dos mortais, substâncias que lhes atrofiassem o cérebro e os impedissem de alcançar um desenvolvimento normal. Depois do nascimento (ou melhor, da «decantação»), seguia-se um cuidadoso processo educativo, baseado no condicionamento psicológico e na hipnopedia. Deste modo, não só existiam exactamente os indivíduos necessários como apenas os suficientes. Chegados a adultos, iam ocupar o lugar que lhes cabia no aparelho produtivo e na sociedade, mantidos em sossego graças às distracções, às relações sexuais inteiramente livres e sem quaisquer riscos e à abundância de soma (uma droga distribuída gratuitamente pelo Estado Mundial, sem consequências para o organismo mas de efeitos eufóricos e relaxantes extraordinários, uma espécie de super-prozac). Todos aceitavam pacificamente o destino que lhes cabia. A Humanidade alcançava a grande utopia: fim da superpopulação, da pobreza, da instabilidade social, dos protestos, das greves, das guerras.
Noutra excepcional obra de ficção, 1984, escrita em 1948, outro escritor inglês igualmente céptico quanto ao futuro da Humanidade, George Orwell, descreve-nos uma sociedade ultra-totalitária, uma espécie de nazi-estalinismo, com um super-ditador que por todos velava e a todos vigiava: o Big Brother. Aqui, o controlo dos indivíduos é alcançado pelo terror. Na sociedade imaginada por Huxley, as pessoas deixam-se dominar pacifica e alegremente. E ainda agradecem. De qualquer desses dois terríficos «mundos novos» está ausente a liberdade individual de agir e de pensar. Trata-se de parábolas, é verdade, mas inspiradas na experiência pessoal dos seus autores e numa visão crítica da história recente. São visões pessimistas e obviamente desiludidas, mas que não deixam de conter premonições alarmantes. E as notícias sobre a clonagem de animais aí estão para o confirmar.
Há alguns anos, a revista Nature trazia um artigo relatando uma experiência bem sucedida de «produção artificial» de uma ovelha, a que chamaram Dolly, exclusivamente a partir de células extraídas da glândula mamária de outra ovelha, sem intervenção de espermatozóides. Deste modo, Dolly é geneticamente igualzinha à sua mãe, ou seja, é um duplicado dela. A este processo chama-se clonagem: teoricamente, a partir de quaisquer células de qualquer ser vivo (ou morto, se elas forem conservadas), podem fazer-se vários duplicados desse ser. Absolutamente idênticos, em termos genéticos, uma vez que não resultam de qualquer cruzamento. Assim, poderíamos ter 11 gémeos perfeitos do Cristiano Ronaldo, ou 20 Shakiras, ou mil Kim Jong – qualquer coisa.
Só teoricamente. Pelo menos para já. É que os novos seres não surgem adultos, são crianças idênticas, em termos físicos, ao indivíduo de que derivam, mas nunca o serão em termos psíquicos. Para obtermos um Kim Jong-il exactamente igual àquele que governou a Coreia do Norte até há pouco, seria necessário que o seu pequeno duplicado recebesse a mesmíssima educação, passasse por experiências iguais, tivesse as mesmas alegrias e as mesmas tristezas, etc.
Procurando exorcizar os temores que se começaram a instalar após a divulgação da notícia da clonagem da Dolly, escrevia José Vítor Malheiros, num excelente artigo do «Público»: «O património genético constitui apenas um dos factores da individualidade. A clonagem não é uma transplantação do cérebro. Um clone será necessariamente uma outra pessoa, porque a sua idade será diferente, a sua gestação, nascimento, educação, serão diferentes. A sua consciência será diferente porque a sua circunstância, a sua história, será diferente. Para mais, tudo o que hoje se sabe sobre o cérebro leva a pensar que é a experiência que molda a pessoa e cria os padrões a que chamamos pensamento, memória e escolha – e não os genes.»
Por outras palavras: a partir de algumas células de Hitler nunca conseguiríamos fazer uma réplica de Hitler. Concordo plenamente com o jornalista. A questão da hipotética clonagem de seres humanos deverá ser olhada com cuidado, analisada de forma calma e sensata do ponto de vista bioético e jurídico, mas sem sensacionalismos exacerbados nem temores excessivos. A experiência da ovelha Dolly constitui, de facto, um marco de inegável valor científico. No futuro, há-de ser lembrado como um dos grandes momentos da investigação científica do nosso tempo. Mas, tal como aconteceu com muitas outras assinaláveis conquistas da Ciência, da clonagem poderão resultar grandes benefícios ou grandes malefícios para a Humanidade. Depende do próprio Homem.
Quando, há alguns anos, nasceu o primeiro «bebé-proveta» na Inglaterra, levantou-se no mundo um coro de protestos semelhante ao que se levantou a propósito da Dolly. E os habituais profetas da desgraça previram consequências que não se concretizaram. Deixemos assentar a poeira. Como diz o povo, «Deus escreve direito por linhas tortas». Apetece-me contar aos leitores, a este propósito, a história do sacristão de Winchester, contada pelo escritor Somerset Maugham: um dia, o sacristão da catedral de Winchester foi despedido por ser analfabeto. Triste e amargurado, caminhava por uma longa avenida, à procura de um maço de cigarros. Não tendo encontrado nenhuma tabacaria, lembrou-se de abrir ele próprio uma. O negócio correu-lhe bem e em breve tinha várias tabacarias e até fábricas de tabaco. Tornou-se milionário, um verdadeiro «Rei do Tabaco». Numa ocasião em que estava a tratar do fornecimento de matéria-prima com um produtor americano, este passou-lhe o contrato para assinar, tendo o nosso homem respondido: «Não sei assinar. Sou analfabeto.» O americano exclamou, assombrado: «Se o senhor chegou a milionário sem saber ler nem escrever, onde estaria hoje se soubesse!» E o «Rei do Tabaco» respondeu, fleumaticamente: «Eu sei o que teria acontecido: seria sacristão na catedral de Winchester.»
Nem sempre os factos aparentemente negativos desencadeiam desgraças. Se é verdade que a dinamite inventada por Alfred Nobel pode decepar o braço do pedreiro, também é verdade que sem ela não se teriam construído os túneis dos caminhos-de-ferro de todo o mundo. E, com os lucros obtidos, Nobel ainda hoje continua a estimular o progresso científico, os estudos económicos, a literatura e a paz.
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

A Taberna Típica Quarta-Feira, restaurante do sabugalense José Dias, recebeu a Confraria do Bucho Raiano para mais um almoço na capital alentejana.

Trinta convivas, entre confrades, amigos e familiares, foram até Évora no dia 21 de Janeiro, sábado, onde encheram a sala do restaurante do amigo José Dias, que prima pelo bem receber e melhor servir.
A mesa apresentava-se farta, com cogumelos recheados, bucho fatiado, presunto, torresmos, queijo assado com orégãos e azeitonas. Degustadas as saborosíssimas entradas, veio à mesa uma esplêndida sopa de grão, a que se seguiram costelas de porco grelhadas e cachaço de vitela, acompanhados por um espectacular esparregado de couve-flor e batatas assadas no forno.
O vinho foi o do conhecidíssimo enólogo Paulo Laureano, da Vidigueira, um velho amigo da casa, que por dificuldades de agenda não pode estar presente. Porém o José Dias informou que fora o enólogo a oferecer o vinho que os convivas do bucho ali degustavam. E que vinho: um reserva Paulo Laureano especial.
Para finalizar a refeição vieram as sobremesas, dentre doces tradicionais alentejanos, cerejas, morangos e frutos secos.
A hora do café foi o momento das palavras que a ocasião impunha. O Chanceler da Confraria agradeceu ao José Dias a amabilidade de receber os sabugalenses com entusiasmo e extrema atenção, proporcionando a degustação de excelentes petiscos confeccionados na sua aprimorada cozinha.
Pela mão do Grão Mestre, Joaquim Leal, a Confraria concedeu ao restaurante Taberna Típica Quarta-Feira o Diploma de Honra, atendendo ao contributo para a divulgação da gastronomia raiana e pela digna representação do Sabugal no Alentejo.
Entre os presentes esteve o juiz conselheiro jubilado Manuel Cipriano Nabais, um quadrazenho que acompanha com regularidade as iniciativas da Confraria e que ali proferiu algumas palavras para afirmar a seu apego ao torrão natal, ainda que a vida o tenha feito andar por longe.
A finalizar o José Vaz, de Vale de Espinho, brindou os presentes com dois fados cantados à capela, para gáudio dos confrades e amigos do bucho.

Reportagem fotográfica do confrade Daniel Salgueira no Facebook. Aqui.
plb

A Taberna Típica Quarta-Feira, restaurante do sabugalense José Dias, recebeu a Confraria do Bucho Raiano para mais um almoço na capital alentejana.

GALERIA DE IMAGENS  – CONFRARIA BUCHO RAIANO  –  21-1-2012
Fotos Confraria Bucho Raiano  –   Clique nas imagens para ampliar

jcl

A Finota era a jumenta velha que tinha na corte para as lidas caseiras. Fora possante e ligeira no andar, sem rival no povo, capaz de alombar com cinco feixes de ferrém e ainda com o catraio mais novo escarrapachado no coruto da carga, mas o tempo passou-lhe no pêlo e a velhice tornou-a de fraco préstimo.

Para as andanças do contrabando e do negócio lá tinha o macho, que era um vergalhudo, mas nas fainas da lavoura era a burrinha que pontuava. Só que o trabucar constante nas precisões deixaram-lhe mossa, e um dia, firmando-me no animal, notei que andava arrastando as patas, de focinho descaído, olhando o chão. O pêlo tornara-se ruçote e tomei fé de que se lhe avarangavam as patas.
- Tão afinada que era a burranca e agora está pr’áqui uma zonza de meter dó – disse-me a Belmira.
- Oh, mulher, põe-se com dono e merca-se outra!
- Tenho-lhe estima, home!.. e custa-me largar de mão a jumenta. É o mimo da canalha.
Como não era homem de demasias, uma madrugada aparelhei a burra e meti-me a caminho do mercado de Alfaiates. Cem mérreis foi o que pedi pelo animal. Mas quem queria uma burra velha, sem genica e com ares de já nem poder com a albarda? E aquela feição tristonha, as patas trôpegas, o focinho belfo, as orelhas murchas, o andar topinho…
Um negociante rogou que a desaparelhasse, para melhor exame, e pus-lhe a nu o lombo esquelético.
- É quase tão velha com’ó castelo! Atire-a pra uma barroca, que ainda serve de sustento aos lobos – disse-me.
Esmorecido, desci a parada a ver se alguém pegava ao negócio, mas não houve interessados.
E já ia de abalada quando se acercaram dois gitanos, que cobiçaram a burranca. Preado para me livrar do animal, fechei negócio por uma nota de vinte.
Algo amonado, que isto do vivo cria-nos estima, volvi a casa pensando em como acarear dinheiro para apreçar outro jerico mais forte e sadio.
Dias depois despachei dois carros de batatas para a estação da Cerdeira e, com o ganho, decidi satisfazer os rogos da mulher e dos catraios indo ao mercado de Vila do Touro, de coisa feita em trazer outra montada.
Embrenhado na feira do gado mirei o que havia. A parada estava alta para as burras mais maduras e não me agradava a ideia de levar um burranco novo e bravio. Antes queria animal amansado e afeito às fainas, de preferência uma burra, que já apanhara escaldão com burros, que só capados refreiam os maus repentes.
Após muito fairar, volvi a dar de chofre com ciganos. Um deles puxou-me pela aba do sartum para me empontar uma jumenta de pêlo luzidio e bem aparelhada, mas muito irrequieta. Fiquei de pé atrás, que nas tramas do negócio há que ter cautelas com o paleio daqueles adregas.
- Oh, compadre, não é brava a bicha! Está é pouco avezada a esta blandina, que é burra de trabalho. Puxa à carroça e até lavra junguida com uma vaca. Olhe que a merquei a um lavrador da Nave, home de muita lida!
Ora vai, ora deixa, acabei por cerrar o trato em duas notas de cem mérreis e, feliz da vida, conduzi o animal a casa, carregado com duas sacas de centeio que apreçara.
Ufano, mostrei à minha gente a nova jumenta. Acharam-na lustrosa, bonita de cabeça e azadinha para o carrego. Só o dianho da mulher lhe notou achaque.
- Ou puxas-te muito por ela na caminhada ou é chancana de têmpera. Tem tremores e quase bota fora os bofes de tanto arfar.
- Que diacho! Então não vês que marchou duas léguas ajoujada com dez arrobas?
Enfiei-a na corte, junto do outro vivo, e enchi-lhe a manjedoura de feno.
No outro dia, logo pela alba, soltei as vacas e a burra para as conduzir ao lameiro. Para meu espanto a jumenta tomou a dianteira e seguiu calmamente, tomando o destino certo. Lá chegada passou o portal e foi-se espojar na sombra de um freixo. «O raio da burra já parece conhecer o caminho e o lameiro», matutei. Chegando-me ao animal, examinei-o.
Atazanei-me e até o rosto se me afogueou. Fora aldrabado! Esta burra não era mais do que a minha Finota! Conhecia-lhe bem as mataduras das patas traseiras… Os ciganos lavaram-na, deram-lhe lustro e bachicaram-lhe o traseiro com aguarrás para ficar activa.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

A cultura helénica transmitiu-se a Roma que, vencedora no plano militar e mais adiantada na técnica da administração, se viu, no entanto, civilizacionalmente subjugada.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaEra o triunfo da máxima Graecia capta ferum victorem coepit.
Miscegenados, os padrões dos vencidos e vencedores corporizavam uma nova ideia que se expandiu por onde se estabeleceram as legiões.
Leão, na Ibéria, e Lião na Gália, serviram de núcleos propulsores a Ocidente; para o Norte, ocupou-se a Britânia, ao tempo ainda na caligem das grandes trevas; a Leste abateu-se Vercingegegorix, símbolo da primeira leva de bárbaros, impenetrável a toda a ideia de civilização; a Sul consumou-se ao delenda est Cartago e a derrota de Antioco a execução de Cleopatra e o oitavo saque de Jerusalém.
Começava, assim, a tomar corpo a ideia expressa no poema:
Venho já
Desde Maratona e Salamina
E nem a morte.
Nas Termópilas
Me cortou a rota trinfante
Os elefantes de Aníbal
Não me feriram mais
Do que o punhal
De Décio Junio Bruto.
Inimigos, conheci-os
Chamaram-se Alcibíades e Marco António…

Povos hoje de alto nivel civilizacional, apenas saíram da barbárie devido a Roma.
Transcreve-se do Bellum Gallicum, também chamado de Bello Gallico:
Horum omnium fortissimi sunt belges, propterea quod a cultuaque humanitade. Privinciae longissime absunt, minimeque ad eos mercatores, saepe commeant, atque ea, quae animos effeminant important…
Os supercivilizados belgas dos nossos dias provém de avós que, ao tempo de César, se revelavam como o mais hostil dos povos a qualquer ideia de cultura ou progresso.
Fortíssimos de corpo, viviam para a guerra contra os vizinhos: proximique sunt germanis, qui trans Rhenum incolunt, quibuscum continenter bellum gerant…
Vítimas dos seus instintos guerreiros, eram os germanos que tinham a infelicidade de lhes ficarem próximos…
Mais pacíficos não se revelavam ao tempo os suiços, a darmos créto ao mesmo César: Helvetti, reliquos gallos virtude praecedunt, quod fere quotidianis bellum.
Os britânicos, a quem é dedicado o Livro V não colhem rnelhores referências, como, de resto, sucedia também aos habitantes da Gália até agora não referidos: e com cuja enumeração se abre o livro.
Toda a Gália se divide em três partes: uma habitada pelos belgas de que já nos ocupamos; outra pelos aquitanos; a terceira por aqueles que na sua língua se designam por celtas e na nossa por galos.
Foi César quem lhe deu nome e a tirou da barbárie:
Gália ali se verá que nomeada
Com os cesáreos trinfos foi no mundo,
Que da Sequana e Ródano é regada
E do Garona frio e reno fundo.

Guerreiros, como os que se bateram ao lado de Caio Júlio César ou foram destacados para guarnecer as fronteiras do Império e partiam porque se julgavam portadores de uma doutrina e mensageiros de uma civi1ização foram os principais cabouqueiros desta segunda fase da Europa.
«Partimos em defesa dos direitos sagrados que nos são conferidos por tantos cidadãos instalados lá longe, tantos anos de presença do nosso auxílio e da nossa civilização», assim começava a carta de Marcus Flavinius, centurião da Segunda Corte da Legião Augusto a seu primo Tertullus que havia ficado em Roma…
A concessão do direito de cidadania a todos aqueles povos que se encontravam dentro dos 1imites, aliás vastissímos, do império; e a instituição do município, que ficou como a pedra angular da administração romana completaram, depois, a obra dos conquistadores.
A Europa conservou essa sábia criação do génio romano que ainda hoje constitui para a generalidade dos países que a integram a base ou mesrno a única forma aceitavél de regionalização.
Depois, veio o latim. Sofrendo, embora, o influxo das línguas locais, veio a revolucioná-las tão profundamente que algumas, sobretudo as do Ocidente, se tornaram irreconhecíveis e foram mesmo totalmente substituidas pelo latim, adaptado embora às circunstâncias da região.
Alias, mesmo o latim erudito, talqualmente o usavam Vergílio, Horácio e Vário, na poesia; César, Tito Livio, ou Cornélio Nepos, na narração histórica; ou Fedro, no fabulário, impôs-se de tal forma que ainda há pouco se podia considerar autenticamente a língua dos europeus.
Por todo o Continente, a língua latina era falada e entendida. Entre nós, André de Resende lastimava que Gil Vicenle não tivesse escrito, usando-a, os seus deliciosos autos. Como em Itália os altos espíritos se insurgiam contra o facto de Dante não ter preferido para a Divina Comedia o mesmo latim. E também o povo iletrado…
A tal ponto que não havia pessoa culta que encontrasse justificação para que o Altíssimo Poeta usasse o italiano.
Este culto tera chegado mesmo ao ridículo. Em Portugal, até os gatos miavam em latim:
Mas o gato que bem sabe
O gatesco e o latino
Lhe diz meus, mea, meum
Em vez de miau, miai, mio…

Ridicularizado, embora, ou mesmo censurado:
Da mula que faz him, him,
Da mulher que sabe latim,
E do cabra que faz mé mé,
Libera nos Domine…

Foi ele o meio de comunicação entre as camadas cultas da Europa e a língua usada nas universidades e nas sebentas…
Pela edificação de cidades, a construção de pontes, a abertura de estradas (omnes viae ad Romam tendunt), a instituição do município, as línguas novi-latinas, Roma assumia-se como a segunda grande construtora da Europa.
A primeira havia sido a Hélada; a terceira veremos que foi a Igreja…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

As obras do balneário do Cró, da nova estrada para o Soito e sua variante foram financiadas através de empréstimos bancários e de fundos comunitários de valor superior ao seu custo total, facto que tem gerado discórdia nas reuniões do executivo camarário quanto ao uso a dar ao dinheiro excedentário.

A Câmara recebeu, por via de empréstimos bancários e dos fundos comunitários, mais 840 mil euros do que o necessário para o pagamento integral das obras. O presidente António Robalo pretende usar esse excedente para o financiamento das actividades correntes do Município, mas a oposição defende que esse remanescente deve servir apenas para amortizar a elevada dívida que a Câmara acumula.
Na reunião de Câmara do dia 18 de Janeiro, Sandra Fortuna, vereadora do Partido Socialista, formulou uma recomendação em que defende que «as verbas comunitárias recebidas como comparticipação em obras, entretanto, custeadas com recurso a endividamento externo, sejam afectas ao ressarcir da dívida contraída». A vereadora do Casteleiro estribou-se num parecer que a Câmara solicitou à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Centro o qual aponta para que o financiamento comunitário seja usado no ressarcimento do esforço financeiro usado.
A construção do balneário do Cró custou 5 milhões e 266 mil euros. Para financiar a obra a Câmara contraiu junto da banca um empréstimo de 3 milhões de euros e recebeu de comparticipação comunitária, através do programa «Mais Centro», uma verba de 2 milhões e 966 mil euros, o que significou ter obtido uma receita de 700 mil euros a mais do que o valor a pagar pela obra.
No caso da nova estrada do Soito e respectiva variante, a obra custou 4 milhões e 344 mil euros, para cujo financiamento a Câmara contraiu um empréstimo de 1 milhão e 732 mil, recebendo depois 2 milhões e 753 mil de comparticipação comunitária. Neste caso a dupla receita consignada foi de 141 mil euros, valor que veio a mais em relação ao necessário para o pagamento integral da obra.
No total dos dois casos o Município obteve 840 mil euros a mais do que aquilo que necessitava para pagar as obras em questão.
plb

«A escravatura humana atingiu o seu ponto culminante na nossa época sob a forma do trabalho assalariado»; Bernard Shaw (1856-1950).

O dia 18 de Janeiro de 2012, será recordado como o dia em que as «torres gémeas» da estrutura do trabalho em Portugal foi atingida pelos aviões conduzidos pelo governo, pelos patrões e por uns quantos figurões que, verdadeiramente, não se sabe quem representam. Permitam-me esta analogia. Pois, aquilo que o acordo de concertação social apresenta é um atentado terrorista ao trabalho. Sei que um acordo que seja do agrado de todas as partes é difícil, afinal, «não se pode agradar a gregos e a troianos». Mas, neste acordo, assinado sem a CGTP, mas por uma UGT engasgada, com alegria dos patrões e do governo, desculpem, só pode ser um mau acordo para os trabalhadores! E este acordo é uma novela muito interessante. Vejamos, começou com esse slogan da mais meia hora por dia, mas não paga! Os patrões vieram logo a terreiro que não concordavam. Os sindicatos fizeram o mesmo. O governo apresenta-a como irredutível. E entre mais episódio, menos episódio das reuniões da concertação social (acho um piadão a este nome!), chegou-se a esta maratona de dezassete horas dezassete de reunião da dita concertação social, para que dela saísse um documento venenoso. Menos dois dias de descanso, fim de quatro feriados, as empresas definem as pontes e podem determinar férias forçadas, as horas extraordinárias valem menos dinheiro, passa a ser mais fácil despedir e o valor das indemnizações é mais baixo. O argumento da UGT é de que se não assinassem, o governo e os patrões desmontavam todo o edifício das relações laborais e que tinham conseguido acabar coma tal meia hora… Mas será que esta gente não percebeu que esse era o engodo?! Bom, a mim parece-me que ele ajudou à explosão.
Não acredito que a política dos salários baixos, dos despedimentos fáceis e arbitrários, da perda de segurança no trabalho e de estabilidade no emprego, seja o caminho para a competitividade. O sr. Ministro da economia dizia naquele ar de quem não é de cá que, esta era a fórmula da criação de emprego! A visão ultraliberal levará, infalivelmente à pobreza e à miséria das populações. E isto não é um acaso! Quando pagar-mos para trabalhar, quando perder-mos toda a dignidade de cidadãos e mendigar-mos liberdade, então o projecto estará concluído. A ditadura não precisa de ser política ou militar. Esta é económica e financeira. E é global. Sem rostos e na obscuridade desses olimpos que ninguém sabe onde ficam. A ideia que tenho dessas figuras é a dos engravatados que aparecem na saga «Matrix»…
Para confirmar gesta ideia, foi apresentado um estudo ontem elaborado por uma universidade em que mostra que a maior parte da população portuguesa aceita um regime mais autoritário. E não é por não acreditarem na democracia, mas porque não acreditam nos políticos e nem nas instituições estatais! Dá que pensar…
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

No concelho do Sabugal há empreendimentos turísticos de elevada qualidade. Nesta crónica vou dar a conhecer o «Meia Choina» em Quadrazais que tem a particularidade de ter dado a uma das habitações o nome «Maria Mim» imortalizado pelo escritor raiano Nuno de Montemor no épico romance que retrata a vida «terrível» dos quadrazenhos do século passado.

(Clique nas imagens para ampliar.)

Quando vi neste blogue a notícia de que «a Câmara Municipal do Sabugal decidiu fomentar o alojamento local nas terras do concelho, em alternativa às unidades hoteleiras tradicionais, como forma de potenciar o Turismo Rural», fiquei contente e veio-me à memória um empreendimento turístico rural do nosso concelho. Estou a falar de um empreendimento – o «Meia Choina» em Quadrazais (terra de contrabandistas e uma das 40 freguesias do nosso extenso concelho) – que, aquando da minha recente visita me deixou impressionadíssima.
Em conversa com a sua promotora, Colette Borrega Correia, esta informou-me de que este empreendimento oferece quatro casa de turismo em espaço rural – casas de campo e uma casa de prova e venda de produtos regionais –, Casa do Manego, Casa da Maria Mim, Casa da Meia Choina, Casa da Forja Frágua e Casa do Cusco.
A casa já recuperada, concluída e classificada é a Casa do Manego, tendo tido como primeiro nome «Casa da Fábrica», por outrora ter sido uma pequena fábrica de sabão pertencente José Manuel Pires Correia, avô paterno da empresária. Tal nome não pode ser registado por já existirem três idênticos em Portugal.
A tradição do contrabando deixou marcas inegáveis que perduram ainda na localidade. O dialecto quadrazenho ou gíria utilizada pelos contrabandistas é uma fenómeno linguístico único na região, daí o ter utilizado vocábulos oriundos da gíria para batizar o espaço e as ditas casas.
A casa do Manego tem uma área coberta de 180 m2 e capacidade para 8 pessoas. Possui 4 quartos, dois deles com casa de banho privativa, dois duplo, duas casas de banho sociais, uma área de convívio e cozinha. O espaço exterior tem como cenário a Serra da Malcata, a privacidade e a grande área exterior permite ao visitante uns dias de repouso e total descontração, a região oferece também algum potencial nomeadamente o Rio Côa, para a pesca desportiva e e algumas praias fluviais.
Isilda Silva

Começou no sábado na Casa do Concelho do Sabugal o que se deveria chamar «Mês do Bucho Raiano».

Ramiro Matos – «Sabugal Melhor»E começou, para mim, em Lisboa, na nossa Casa do Concelho.
Foi bom ver dezenas e dezenas de sabugalenses e de amigos do Concelho deliciando-se com uns ótimos «buchos de ossos», ao que me disseram vindos do Talho do Júlio no Sabugal.
Boa jornada de afirmação deste tão nosso enchido!
E uma mesa, digamos, da presidência, onde pontificavam, entre outros, o Presidente da Casa, José Lucas, O Procurador Geral da República, Pinto Monteriro, a Confraria do Bucho Raiano, representada ao mais alto nível pelo Paulo Leitão, e eu próprio, Presidente da Assembleia Municipal.
Saímos dali reconfortados e confiantes de que o futuro do bucho raiano está garantido.
Gostei de saber do entusiasmo da Direção da Casa em arrancar ainda este ano com as obras, mais que necessárias de reabilitação da sede, estando certo que quer a Câmara, quer o setor empresarial concelhio, quer os sócios em geral saberão estar ao lado da Direção para que as obras tornem a Casa do Concelho ainda melhor.
Gostei também de saber que já está marcada a capeia no Campo Pequeno para o dia 2 de junho!
E o mês do bucho continua sábado em Évora na «Taberna Típica Quarta-Feira» do sabugalense e meu grande amigo Zé Farias.
Lá estarei, mais 29, pois a Taberna não dá para mais.
Conhecendo como conheço a qualidade de cozinheiro do Zé e da sua comadre alentejana, não tenho dúvidas que vai ser mais uma jornada gloriosa para os 30 felizardos!
E o mês do Bucho, se puder, terminará, como não podia deixar de ser, no Carnaval no Sabugal onde se realizará (18 de fevereiro) o Capítulo da Confraria, rumando depois para o Casteleiro onde a Casa da Esquila prepara já uma «bucharia» que, acredito, vai ficar na memória de todos!

PS: Stéphane Hessel será um nome quase desconhecido para muitos. Francês, nascido em 1917, homem da resistência francesa, continua hoje resistindo e lutando por um mundo melhor.
Já havia feito referência a um seu pequeno livro já em português chamado apropriadamente «Indignai-vos!».
Volto a falar nele, pois tenho nas minhas mãos um novo livro do mesmo autor chamado agora «Empenhai-vos!», de leitura obrigatória para todos os que continuam a luta por um mundo melhor.

«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

A Câmara Municipal do Sabugal e a empresa municipal Sabugal+ assinaram um contrato de gestão, pelo qual a empresa se compromete a executar alguns serviços de interesse geral, recebendo em contrapartida uma verba de 685 mil euros para apoio à exploração.

O protocolo é a forma de legitimar uma transferência financeira que suprirá os prejuízos operacionais previstos no decurso do exercício de 2012, dada a actividade deficitária da empresa.
Das actividades a desenvolver ao longo do ano de 2012 apenas a exploração das termas do Cró surge como rentável, prevendo-se um ganho de 45 mil euros. A exploração do pavilhão e das piscinas gera um prejuízo próximo dos 340 mil euros, valor bastante superior ao prejuízo previsto para a actividade a desenvolver no museu, auditório e castelo do Sabugal, que ronda os 150 mil euros. Já a praça de toiros do Soito, a colónia agrícola e outras actividades vão criar um prejuízo superior a 240 mil euros. Para fazer face a tudo isso a edilidade terá de transferir o dinheiro protocolado (685 mil euros), a que se juntarão outros 238 mil de subsídio para investimento. No total a Câmara transmitirá à empresa 923 mil euros durante este ano, o que representa 53 por cento do orçamento da Sabugal+.
A actividade deficitária da sabugal+ seria ainda mais gravosa se a empresa tivesse que suportar as despesas com o fornecimento de água e electricidade a todos os edifícios que gere, porquanto é a Câmara que assume directamente esse encargo, situação que já mereceu críticas por parte do revisor oficial de contas que acompanha e analisa os registos contabilísticos da empresa como seu Fiscal Único.
O acordo prevê a transferência de uma primeira tranche de 285 mil euros, até 28 de Fevereiro. A segunda fatia, de 200 mil, serão transferidos até 30 de Maio e a última, também de 200 mil, ocorrerá até 30 de Setembro.
De qualquer forma, o protocolo será remetido ao Tribunal de Contas (o montante envolvido a isso obriga), o que fará com que as transferências apenas possam ocorrer após o visto do tribunal. Esse processo poderá demorar alguns meses, à semelhança do que aconteceu eme 2011, em que o tribunal pediu esclarecimentos, tendo o contrato sido visado apenas em meados no ano.
O texto do protocolo, apresentado na reunião do executivo camarário realizada em 4 de Janeiro, foi aprovado com um voto favorável, o do presidente Robalo, e quatro abstenções, dos vereadores da oposição. De referir que nestes assuntos tocantes à empresa, o presidente fica sozinho perante os vereadores da oposição, já que os restantes elementos do executivo têm de abandonar a reunião pelo facto de integrarem o conselho de administração da empresa.
O protocolo foi formalmente celebrado entre o presidente e a vice-presidente da Câmara, que assinou enquanto presidente do conselho de administração da Sabugal+.
plb

A Câmara Municipal do Sabugal poderá não assinar o protocolo que pretendia celebrar com a Câmara da Guarda para utilização do canil, mediante contrapartidas.

Os vereadores da oposição propuseram uma reapreciação dos termos do projecto de protocolo, no sentido de apurar se existem de facto vantagens para o Município sabugalense nessa opção.
O vereador do Partido Socialista, Francisco Vaz, explicou ao Capeia Arraiana os motivos das «cautelas» face à proposta de celebração do acordo com a Câmara da Guarda. «O montante que em meia dúzia de anos se pagará à Câmara da Guarda pela utilização do canil, nos termos previstos no projecto de protocolo, daria para que o Sabugal construa um canil de raiz», considerou o vereador.
O Sabugal possui dois veterinários no seu quadro de pessoal, o que, no entender do autarca, constitui uma mais-valia, pois poucos municípios da região os possuem, e isso poderá garantir condições para que o Sabugal aposte em ter o seu próprio espaço para a recolha e tratamento de cães e gatos. «Em vez de ser o Sabugal a ir usar o canil de outro Município vizinho, pagando, poderá antes ser o Sabugal a protocolar o uso do seu canil com os outros municípios, passando a receber», disse.
Nos termos do priojecto de protocolo, o Município sabugalense terá de pagar 250 euros mensais à Câmara da Guarda pela disponibilidade do serviço, independentemente de se verificarem entregas de animais. A essa verba acrescerão 70 euros, a cobrar por cada cão ou gato enviado ao canil.
Neste momento o projecto de protocolo está em fase de reavaliação técnica, no sentido de regressar em breve à reunião de Câmara para ser analisado e votado.
Veja a notícia já publicada sobre este assunto aqui.
plb

No dia 18 de Fevereiro (sábado de Carnaval) realiza-se no Sabugal o III Capítulo e Entronização da Confraria do Bucho Raiano, com a cerimónia protocolar prevista para o auditório municipal e o imprescindível almoço de bucho no restaurante A Casa da Esquila, no Casteleiro.

III Capítulo Entronização Confraria Bucho Raiano - Sabugal
(clique no cartaz para ampliar.)

A grande novidade do capítulo deste ano da confraria do Bucho é a presença do cientista e professor Carvalho Rodrigues, conhecido por «Pai do Primeiro Satélite Português», natural de Creado, freguesia de Casal de Cinza e concelho da Guarda. O director de programas de ciência da NATO em Bruxelas vem ao Sabugal para proferir a «oração de sapiência» na cerimónia de entronização, falando no valor da gastronomia raiana.
Cumprindo-se a tradição do Entrudo, em que o bucho é rei à mesa, a Confraria do Bucho Raiano vai realizar o seu Capítulo, dando expressão à gastronomia sabugalense, com ênfase nos enchidos e demais pratos típicos do Inverno. O certame está inserido na iniciativa «Circuitos Gastronómicos» promovida pelo Município do Sabugal.
A concentração dos confrades do bucho e das demais confrarias convidadas e de outros participantes que desejem acompanhar o certame, acontecerá às 9h30 no Mercado Municipal, onde haverá uma mostra e prova de enchidos e outros produtos regionais, organizada pela Câmara Municipal do Sabugal.
Pelas 10h45 a comitiva dirige-se para o Auditório Municipal, onde se realizará a cerimónia protocolar de entronização de novos confrades, com o início previsto para as 11 horas.
A abrir a cerimónia haverá um momento musical proporcionado pelo jovem sabugalense Pedro Cunha, a que se seguirá uma mensagem de boas-vindas proferida pelo presidente da Câmara Municipal. O pároco do Sabugal, padre Manuel Dinis, benzerá depois as insígnias da confraria.
Pelas 11h40 intervirá o professor Carvalho Rodrigues, proferindo a esperada «oração de sapiência». Haverá depois a cerimónia de juramento e recebimento de insígnias por parte dos novos confrades do bucho, a que se seguirá a distinção de honra a algumas personalidades que se relevaram na afirmação do valor da gastronomia raiana.
A encerrar a cerimónia protocolar intervirão o grão-mestre da confraria e o representante da Federação das Confrarias Gastronómicas Portuguesas.
Pelas 12h45 acontecerá o desfile pelas ruas do Sabugal, abrilhantado pelos «Bombos de Badamalos», após o que a comitiva partirá para o Casteleiro. Nessa aldeia do sul do concelho do Sabugal os confrades serão recebidos na Junta de Freguesia, dirigindo-se seguidamente para o Restaurante A Casa da esquila para o esperado almoço do bucho.
plb

Não temos, no Interior Raiano, a grande cidade nem a cómoda diversidade das suas ofertas. Temos, sim, o primor da natureza.

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»As encostas vestem-se de arvoredos ou ampolam-se de granitos cinzentos que a água chovediça lava, o vento seca e o sol escalda.
De uma qualquer rocha ou da mais vulgar húmida junqueira pode nascer e crescer um regato que escorregará em declives até descansar numa qualquer baixa. Regará hortas e pastos e ajudá-los-á a enverdecer. Alguns desses ribeiros engrossarão e transformar-se-ão em riachos seguindo em linhas de água azul, entre fragas. Alguns crescerão mais ainda e serão rios que, em percursos mais alongados, se lançarão sem medos nem sobressaltos, ultrapassando abismos e dormindo, apenas, em curtas partes do leito.
Por toda a parte há giestas e tojos que se ondulam ao vento, abrindo passagens ao pouco gado, sobrante dos antigos e compactos rebanhos.
As nuvens repassam-se de sol e luz, rendilhando os céus em cardumes brancos de pedaços de algodão que, quando escurecem, se desfazem em água.
O nosso horizonte é cercado por agudas escarpas que, no limite da vista, se afundam nos céus.
Temos ravinas profundas de onde se não enxerga nem mar nem terra, apenas se avistam pequenas partes do firmamento. Temos alturas vertiginosas que fazem crescer horizontes.
As Primaveras são floridas de mil flores com o calendário dos perfumes sublinhado nas maias do mês de Maio. A sobreposição amarelada das maias antecipa o cheiro azul e inebriante do rosmaninho São Joanino em cada mês de Junho.
Os Verões são quentes, carentes de humidades com dias torrados de sol e noites clareadas de lua.
Os Invernos são axadrezados de neve e gelo, com dias escuros e noites pretas.
Os Outonos são maioritariamente castanhos mas vestem-se, também, de outras cores igualmente belas, igualmente sóbrias.
Temos paisagens em tons plurais que nos explicam, em permanência, o verdadeiro significado do dito de Torga: «Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo».
Não temos, portanto, a grande cidade mas temos este aconchego em que os olhos se demoram, e os sentidos se reflectem. Temos a natureza que nos infringe amor pela terra que nos deu vida, terra que transportamos no âmago, que nos inspira contos e lendas e que nos garante enormes paixões. Fica-nos o coração pequenino diante de cenários de flores e ervas, de árvores e arbustos, de rochas e campos, de altos e baixos, de calores e frios e, secretamente, desejamos que tudo assim seja, que tudo assim se mantenha.
Aperta-se-nos o coração nas despedidas porque, muitos de nós, somos de viagens longas e de ausências demoradas apesar de nunca menosprezarmos o regresso.
Se partimos é como se deixássemos o campo em pousio, para virmos mais tarde, transbordando de saudade, amanhá-lo, como quem não queira perder o jeito à enxada.
E não conto, claro, nada de novo, nada que o estimado leitor não saiba ou conheça. Tenho apenas o prazer de contar.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

O blogue Aventar organiza pela primeira vez um concurso de blogues com o objectivo de promover e divulgar o que de mais interessante se faz na blogosfera portuguesa e de língua portuguesa. É um concurso aberto a todos os que queiram participar. Na categoria «Blogues Regionais» a organização incluiu o Capeia Arraiana na primeira volta do concurso que decorre até ao dia 21 de Janeiro. Vamos todos votar no melhor blogue regional!

Aventar

Os administradores do blogue «Aventar» entenderam organizar a eleição dos melhores blogues de 2011. Aqui ficam as explicações e esclarecimentos dos organizadores da eleição:
– Como é que foram nomeados os blogues que estão em concurso?
– Nenhum blogue foi nomeado. Elaborámos uma lista com base no blogometro apenas porque se tinha de começar por algum lado, lista essa um bocado aleatória (nem considerámos alguns géneros inicialmente), e que foi apenas um ponto de partida. Depois, e até 13 de Janeiro, essa lista esteve aberta a qualquer proposta de acrescentar mais blogues. Apenas foram recusadas alguns, muito poucos, sites que de forma alguma são blogues. Isso permitiu igualmente corrigir alguns erros da própria lista. Fomos aceitando sugestões de categorias que nunca nos tinham passado pela cabeça mas que afinal tinham muitos interessados.
– Porque é que esse prazo de inscrição foi tão curto?
– Porque não imaginávamos um sucesso tão grande, e também porque não calculámos bem o tempo que a «notícia» demoraria para se espalhar na rede. Surgiram propostas de categorias em áreas muito diferentes das do Aventar, e no mundo dos blogues há universos paralelos e pouco ligados, o que subestimámos claramente.
– Porque não aceitam mais inscrições?
Por um lado porque não se mudam as regras a meio do jogo. Por outro uma votação que já abrange mais de 500 blogues teria de ser tecnicamente organizada de outra forma, nunca numa única página como nos pareceu no início mais fácil para os concorrentes.
– Pode haver fraudes na votação?
– Sim, mas é complicado porque a votação pela Internet é um problema difícil de resolver devido à própria forma como a Internet está construída. Esta abertura traz-nos inúmeras vantagens, mas também algumas desvantagens. Para garantir que um votante anónimo não faz votações repetidas empregam-se várias técnicas. Podemos limitar a votação por cookies ou por endereço IP, ou então usando ambas as técnicas ao mesmo tempo. Um cookie não é mais do que uma pequena quantidade de informação que é guardada no computador do utilizador e que é lida pelo próprio servidor que a criou. Utilizam-se os cookies para muitos fins. Podem ser usados para identificar um utilizador por forma a que este não tenha de se autenticar de cada vez que acede a um site, servem para recolher informações sobre os hábitos de navegação (que sites visita, em que ordem, etc.), servem também para indicar se o utilizador já votou ou não numa determinada categoria de um concurso sobre os melhores blogues de 2011.
Infelizmente, como o cookie é qualquer coisa que mora no computador do próprio utilizador, pode ser facilmente apagado por este. Assim, se numa dada sondagem apenas marcamos os utilizadores que já votaram usando um cookie, um utilizador malicioso apenas tem de apagar os cookies referentes ao Aventar e pode imediatamente fazer uma nova votação. Se for um utilizador ligeiramente mais sofisticado pode simplesmente usar um modo de navegação incógnito para cada voto que quiser fazer.
É claro que há sempre pessoas que não sabem o que é fair play, não conseguindo ganhar com lisura tentam dar a volta ao sistema. Detectámos votos repetidos logo no inicio da votação, no Domingo de manhã. Para dificultar o trabalho a essas pessoas fazemos também uma verificação por endereço IP, isto é, cada vez que uma pessoa vota tomamos nota do endereço de onde está a fazer o voto. Se nos aparecer outro voto, com o mesmo endereço IP durante as seis horas seguintes, simplesmente ignoramos o voto.
Este comportamento, que à primeira vista parece perfeito para evitar a fraude, coloca um sério problema. Há muitas situações em que podemos ter votos perfeitamente legítimos provenientes do mesmo endereço IP que vão ser rejeitados. Isto acontece porque o número de endereços IP não só é limitado como está quase completamente exaurido. Assim para protelar o fim da disponibilidade de endereços IP utiliza-se uma técnica conhecida por NAT, que permite que vários utilizadores partilhem o mesmo endereço IP para aceder à Internet. Toda a gente que tem um router em casa que permita que dois ou mais computadores acedam à Internet (ou telefones espertos, ou tablets, ou qualquer aparelho que se ligue à rede), usa alguma forma de NAT, a maior parte dos escritórios usam esta técnica, etc.
Assim, se estiver num escritório, por exemplo, apenas a primeira pessoa que votar terá possibilidade de registar o respectivo voto. Infelizmente é absolutamente necessário usar esta medida, caso contrário a votação é completamente subvertida.
Há possibilidade de dar uma chapelada neste tipo de votação? Claro que há, a solução encontrada é um compromisso entre a facilidade de votar e a segurança da votação.
Que ganhe o melhor, sem batota!

Como aparece o Capeia Arraiana nesta eleição?

BlogometroNa categoria «Blogues Regionais» foi incluído o nosso Capeia Arraiana.
Agora só falta o voto de todos os amigos do Capeia Arraiana que acreditam neste projecto que vive há mais de cinco anos sem qualquer subsídio e é o resultado da colaboração e do exercício de cidadania de muitos sabugalenses, de muitos raianos, de muitos beirões, enfim… de muitos cidadãos do mundo.

Para quem não sabe a escolha do Capeia Arraiana para esta eleição resulta de nos mantermos, diariamente, há mais de cinco anos no Top100 dos blogues de língua portuguesa. No dia 17 de Janeiro de 2011 o Capeia Arraiana posicionou-se em 84.º lugar entre os blogues de línguas portuguesa mais visitados nesse dia. O acesso para o Blogometro está disponível para consulta nos nossos links do frame esquerdo. Aqui.

VOTE! VOTE NO MELHOR BLOGUE REGIONAL! AQUI.

jcl

A empresa municipal Sabugal+ definiu um programas de actividades a desenvolver no Centro de Negócios Transfronteirço (CNT) do Soito, pretendendo dar dinâmica e funcionalidade a um espaço cujas obras ainda não estão concluídas e cuja ocupação está aquém do que foi inicialmente esperado.

A principal actividade prevista para este ano é a Feira de Outono, que terá por temática o cavalo e o toiro, promovendo produtos com ela relacionados, para além de produtos da época de origem local, como a castanha, avelã, mel, compotas e licores. As associações do concelho terão espaço para instalarem tasquinhas para venda de petiscos e outros produtos.
Para além da Feira de Outono, em 2012 o CNT vai voltar a acolher a Feira Outlet, no mês de Agosto. No decurso do ano decorrerão ainda exposições de pintura e de artesanato, jogos tradicionais e outras iniciativas dinamizadoras do espaço.
O objectivo da construção do CNT foi o de dotar o concelho do Sabugal de uma infra-estrutura capaz de acolher empresas que criassem empregos e contribuíssem para o crescimento e desenvolvimento local.
A gestão do equipamento municipal, cujo custo de construção a Câmara Municipal continua a pagar, e com alguns acabamentos à espera de execução, ficou a cargo da empresa municipal Sabugal+, que decidiu definir um conjunto de iniciativas a desenvolver nesse espaço.
O espaço do CNT é composto por 24 fracções autónomas, numa área coberta superior a 4.000 metros quadrados, a que acrescem mais de 1.000 metros quadrados de logradouro. Pela ocupação de cada fracção o Município cobra um montante, nos termos do Regulamento, sendo que o valor é mais baixo no primeiro ano de ocupação, subindo depois à medida do tempo. Como forma de estimular a criação de emprego, a Câmara Municipal isenta seis meses de pagamento por cada novo posto de trabalho criado por parte das empresas instaladas.
A última firma a mostrar interesse em instalar-se no CNT foi uma empresa de material médico e hospitalar, com sede social em Coimbra, que se propõe criar um ou dois postos de trabalho.
plb

Vivemos numa ditadura, a dos mercados financeiros, debaixo da qual está a ser posta em causa a Democracia, a Liberdade e o Estado Social, estendendo por toda a Europa desemprego e pobreza.

António EmidioEsta crise que atravessamos, ou grande parte dela, não foi causada por gastos excessivos dos Estados, mas sim por estes terem resgatado os bancos e os especuladores. Por exemplo, o resgate bancário da Irlanda custou a este País 30% do seu PIB, aumentando as dívidas para níveis elevadíssimos. O mesmo aconteceu a Portugal e a outros países da Europa, aliás, a dívida pública dos países da União Europeia era até bastante baixa, antes de todos estes resgates a bancos.
Ao injectarem dinheiro nos bancos, os Estados endividaram-se, mas banqueiros, especuladores e políticos depressa encontraram maneira de solucionar este problema do endividamento: austeridade, reduzir o gasto público, aumento de impostos, desemprego e privatizações, no entanto, estas medidas não trouxeram, nem podem trazer crescimento. Ao não trazer crescimento económico, reduzem a capacidade dos governos pagarem as suas crescentes dívidas. As agências de qualificação e especuladores põem em causa a capacidade de alguns países pagarem as suas dívidas, isso obriga a pagar juros elevadíssimos quando vão aos mercados financiarem-se, tornando as respectivas dívidas impagáveis.
Que consequências irá ter tudo isto? A UNICEF já advertiu que as crianças irão sofrer imenso, principalmente nos países mais débeis económica e politicamente, devido aos cortes salariais e à redução das prestações sociais, juntando a isto o desemprego dos pais. Há milhares e milhares de famílias nesta situação dentro da União Europeia. Aumenta o sacrifico daqueles que menos podem suportá-lo, em Portugal quem mais sofre e paga os efeitos desta crise são os mais pobres.
Enquanto a austeridade varre esta Europa, o número de ricos no continente aumentou em 2011 cerca de 8%, aproximando-se dos três milhões e meio de pessoas que juntas possuem 10 biliões de euros!
O que penso disto tudo? Com o tempo iremos assistir à desintegração da União Europeia, iremos voltar ás nossas antigas moedas e ao proteccionismo. Os governos já não aguentam mais estes desafios impostos pela Alemanha. Depois, a suspensão do pagamento das dívidas e as políticas de austeridade nos países do Sul, irão dar como resultado a quebra dos grandes bancos franceses e alemães. Se o projecto alemão de União Europeia lhe sair bem, que não é mais nem menos disciplinar e explorar a classe trabalhadora europeia, destruir o Estado Social, a Democracia, e criar uma grande zona de exportação, dentro de dez anos, ou menos, haverá muita mais desigualdade em países como Portugal, o estado de pobreza atingirá níveis idênticos aos anos 50 e 60 do século passado.

Sinceramente eu não compreendo esta irracionalidade de levantar economicamente um continente só através da iniciativa privada e com empregos precários, só pode levar ao fracasso total ou a revoluções. Claro! Este procedimento em si, é uma ideologia, o Neoliberalismo. É uma ideologia tão irracional que os USA e a Inglaterra, irão ser os que menos ganharão da reconstrução do Iraque, dos 186 biliões de dólares para infra-estruturas, os USA e a Inglaterra ficarão com uma percentagem de 5%, o resto irá para as empresas privadas. Os Estados e os exércitos endividam-se, os soldados morrem, depois as empresas privadas ficam com o «bolo» todo. Digo e repito as vezes que forem necessárias e enquanto não houver censura: o Neoliberalismo, a ideologia vigente nos Estados Unidos e na União Europeia, não tem outra meta que não seja só o lucro das empresas, por isso está condenado ao fracasso.
Sabe querido leitor(a) qual é a chave do sucesso presentemente? Ter negócios privados com dinheiros públicos.
Chamam-me radical, dizem que não compreendo o Mundo que está em mudança, a complexidade das novas sociedades, que tudo muda, os homens, as políticas e as economias, até a natureza! A esses e essas respondo-lhes com Galileo «Tudo é fácil de entender, o que há que saber é que mecanismos movem as coisas», os mecanismos sei eu quais são…
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

O Open de sub-23 e Open de cadetes da Associação de Judo de Coimbra rendeu o pódio aos judocas do Sporting Clube do Sabugal.

Em mais um fim-de-semana de competição, os atletas do Sporting Clube do sabugal (SCS), deslocaram-se até Góis neste Domingo, 15 de Janeiro, para disputarem duas provas de escalões etários diferentes.
A primeira competição a ser realizada, foi a de sub 23, onde o SCS apresentou uma atleta em -48kg, Ana Rita Figueiredo, que não conseguiria ultrapassar as suas adversárias e Ana Sofia Figueiredo em -57kg, que viria a obter a terceira posição, levando assim o bronze e alcançando o objetivo principal desta participação que era de pontuar para o ranking Nacional deste escalão, sendo esta uma atleta de 17 anos.
No Open de Cadetes, participou Emanuel Brito, em -60kg, atleta da Guarda a treinar este ano no clube Raiano, que venceu todos os seus combates até á final, perdendo esta pela diferença mínima, levando assim a prata. Este jovem judoca de 16 anos, que vem de uma paragem competitiva de cerca de seis meses, mostrou grande maturidade e atitude nos confrontos, sabendo das dificuldades de uma categoria de peso muito participada. Este Open serviu de referência para os atletas cadetes de todo o país, que estavam presentes, prepararem os respetivos campeonatos regionais das suas zonas, sendo a da zona norte onde se inclui o distrito da Guarda no próximo Sábado em Caminha.
djmc

A dívida da Câmara Municipal do Sabugal à empresa Águas do Zêzere e Côa (AdZC), ascendia no final do ano de 2011 a um valor superior a 1,8 milhões de euros, devidos pelo serviço de abastecimento de água e de saneamento prestado pela empresa ao Município, a que acrescem juros de mora.

Segundo os dados disponibilizados pela AdZC, dois terços da dívida da Câmara Municipal do Sabugal é relativa a facturas emitidas há mais de seis meses, cujos pagamentos o Município mantém em atraso.
Em média a AdZC factura mensalmente à Câmara Municipal do Sabugal 166 mil euros, dos quais 82 mil euros se reportam ao serviço de abastecimento de água e 84 mil ao tratamento das águas residuais. Tendo em conta os valores em dívida e os fornecimentos mensais que serão efectuados, o Município terá de despender durante o ano corrente uma verba próxima superior a 3,8 milhões de euros para que tudo fique regularizado.
Os municípios que integram a AdZC vêm contestando as tarifas praticadas pela empresa, o que levou a um acumular de valores em atraso. Os municípios intentaram uma acção contra a AdZC onde solicitam a declaração de nulidade do contrato de concessão entre o Estado e a empresa.
O Fundão lidera a lista dos municípios devedores, contestando uma dívida acumulada de 7,5 milhões e reclamando 40 milhões da empresa. Esse facto tornou polémica a notícia de que o presidente da Câmara do Fundão, Manuel Frexes, vai integrar a administração da Águas de Portugal (AdP), empresa maioritariamente detida pela AdZC.
O total da dívida dos 15 municípios que integram o sistema multimunicipal da AdZC ascende a cerca de 35 milhões de euros e já levou a, pelo menos, 130 injunções (meio de certificar as dívidas das autarquias) no valor de 26 milhões, esclarece a empresa na Internet.
Fazem parte do sistema os municípios: Almeida, Belmonte, Figueira de Castelo Rodrigo, Fundão, Guarda, Manteigas, Mêda, Penamacor, Pinhel, Sabugal, Fornos de Algodres, Gouveia, Oliveira do Hospital, Seia e Aguiar da Beira. O município de Celorico da Beira é utilizador do sistema.
plb

Quando comecei esta peça, cheguei a escrever «terra de migração», porque pensei que, antes da França, já Lisboa (sobretudo Lisboa) atraía muitos dos meus conterrâneos. Desde que me conheço que conheço famílias inteiras que um dia partiram para a capital e ali criaram raízes até hoje, já na quarta geração.
Mas sem dúvida foi a França que mais marcou os anos 60 e 70 do Casteleiro – a par da guerra colonial, claro, guerra que também determinou algumas partidas dramáticas de jovens em fuga da tropa.

Começo por situar o meu raciocínio e o meu entendimento do fenómeno da emigração e suas causas: o baixíssimo nível de vida, a vida impossível de muita gente. Não foi turismo. Não foi divertido. Não foi uma aventura ligeira. Não: foi muito pesado. Foi duro, foi dramático, foi fruto do desespero.
É certo que foi uma janela aberta – mas no alto de uma serra muito difícil de subir… Antes de mais, porque o regime não permitia a saída do País. Era preciso ir «a salto» – uma travessia dramática de serranias através de toda a Espanha e depois até Paris, Lyon, Pau, Dijon, Clermont Ferrand… «quoi que ce soit» (seja o que for, fosse o que fosse).
Vamos primeiro às causas, para evitar as visões românticas e nos atermos ao realismo duro da vida real e bem dura.

Causas e consequências
Naquela altura, poucas eram as famílias que tinham sequer uns escudos de rendimento. Podiam ter batatas, couves e feijões para comer – e algumas famílias nem isso, porque nem sequer tinham um pequeno terreno para isso. Mas os produtos da terra nem bastavam para a alimentação. Havia que comprar os condimentos e as bebidas. Nem todos, mas em geral eram os mesmos que não tinham nem terra nem vinha nem cabras ou ovelhas… se é que me faço entender. São esses, os desprotegidos de toda a «sorte» (chamavam-lhe sorte) que têm de um dia tomar a mais dramática de todas as decisões das suas vidas: partir, arriscar tudo, abandonar os seus. Ir de noite até para lá da fronteira, numa qualquer serra próxima, boa parte do caminho a pé, quilómetros e quilómetros, a ser mal tratados pelos homens de mão dos engajadores, a quem pagavam e por quem eram humilhados. Primeira humilhação. Uma brincadeira comparada com o que lhes vai acontecer quando chegarem aos «bâtiments» (batimãs) de Paris: ver foto, roubada ao «Restos de Colecção».
Atenção. Primeira travagem: nem tudo é negativo.
Da emigração resultaram em contradição duas consequências paralelas principais: por um lado, um grande sacrifício pessoal dos envolvidos (os que iam e os que ficavam); por outro lado, a melhoria da qualidade de vida, gradualmente, paulatinamente, mas melhoria. Indiscutível. Mesmo que à custa de coisas essenciais, como a saúde (muitos «rebentaram» por lá) e a dignidade: os franceses e não só atreviam-se a humilhá-los e a espezinhá-los – fosse discretamente, fosse às escâncaras…

Os primeiros anos
Vários membros da minha família se lançaram na aventura da emigração. Os primeiros anos foram de uma dureza incrível. Não que eles se queixassem. Não. Parece-me hoje e já o descobri tarde, quando eles começaram a contar umas coisas soltas e o meu cérebro ia ligando as coisas, parece-me hoje, dizia, que eles nem se davam conta da dureza e da humilhação.
Aprendi isso com a malta mais nova, fugida da tropa, seja do Casteleiro, seja de outras terras: soube quanto os franceses desprezavam os seus escravos idos da terra pobre de Portugal. Pensavam eles assim, os incultos, totalmente contra a corrente histórica da terra da Revolução Francesa, feita contra a humilhação e pela Igualdade etc..
A vida profissional dos nossos lá foi sempre complicada para quase todos: primeiro era preciso ser muito dócil, muito submisso, a fim de ficar legalizado. Os trabalhos em que estavam eram dos piores: construção civil, caminhos-de-ferro – coisas assim.
Mas há pior: o medo permanente de ser posto na fronteira dava cabo do sistema nervoso de todos eles.
Para quase todos, a França significou também as artroses, as pernas partidas e «soldadas», as costas derreadas, os joelhos duros, os pulmões arruinados, muito álcool, muita complicação. E vários anos sem ver a família.
Mas a maioria sobreviveu a isso, em nome do objectivo: dar vida melhor aos filhos e aos netos.
Praticamente todos o conseguiram. E isso é uma vitória sobre o que tinham passado em Portugal e sobre a má formação de muitos franceses.

Hoje
Por via da emigração, no Casteleiro, criou-se em certa altura um ambiente especial, pelo menos no mês de Agosto.
Falava-se aquele dialecto engraçado que era uma mistura do português, quer dizer, do português falado nos anos 50 numa aldeia beirã, com umas arranhadelas de algo parecido com o francês da rua e da obra em Paris – nos «bidonvilles» / bairros de barracas/ de Champigny ou em Clermont Ferrand…
Hoje, as famílias emigrantes, a maioria da aldeia, ou estão completamente adaptadas na França onde permanecem (pelo menos as terceira e quarta gerações) ou voltaram e vivem uma pacata vida rural, de padrão tradicional.
Encontro de tudo.
Os adaptados à vida francesa têm hoje netos que ou não sabem ou não dizem uma palavra de português.
E, nos poucos dias que passam na terra, têm na aldeia em geral boas casas, boa vida.
Os que voltaram cedo, muitos por razões de saúde, voltaram ao que eram antes, mas agora com dinheiro de bolso: reformas, poupanças etc..
Seja como for, a aldeia depois da emigração nunca mais foi a mesma: ficou mais diversificada, mais completa.
Muito mais e mais se devia dizer. Mas um tal fenómeno não cabe em letras. Nem em espaços razoáveis de um artigo que possa como tal ser lido. Há já imensas teses de mestrado e doutoramento – algumas bem longe do que vi e ouvi, digo com pena. Há já muitos livros, há músicas e há filmes. Mas a mim, do que conheço, parece-me sempre que as coisas passaram longe de quem escreveu ou divulgou.
Provavelmente, erro de análise da minha parte.
Finalmente, um registo da minha parte: as minhas homenagens sinceras aos emigrantes e suas famílias. Sejam os do Casteleiro, sejam os de toda a região.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

No final do século XIX, a Europa dominava o planeta. Era a fábrica do mundo, o banco do mundo, o cérebro do mundo. O europeu acreditava na força da sua cultura, da sua economia, da sua História.

Oscar Pistorius, atleta paraolímpico sul-africano Stephen Hawking. Apesar de sofrer de esclerose lateral amiotrófica desde os 21 anos tornou-se professor de Matemática na Universidade de Cambridge e um dos maiores cientistas mundiais Jesse Owens nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936

(clique nas imagens para ampliar.)

Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaEm 1859, Charles Darwin, na sua obra «A Origem das Espécies», tinha exposto a teoria evolucionista, segundo a qual todos os seres vivos foram originados por outros anteriores, sobrevivendo apenas os mais aptos, os mais velozes, os mais fortes, os mais inteligentes. Aqueles que, devido a um «erro» de carácter genético (uma mutação), nascem desadaptados (deficientes, frágeis, incapazes de caçar ou de se defender), não têm qualquer hipótese de sobreviver. Portanto, não transmitem as suas deficiências ou insuficiências não existem leões coxos, coelhos desdentados ou águias cegas. A Natureza encarrega-se de os eliminar: é a selecção natural. Pode, no entanto, acontecer que uma mutação, por um feliz acaso, torne um animal mais apto: uma girafa que, circunstancialmente, nasce com o pescoço mais alto que as outras, numa época de escassez de vegetação, sobrevive melhor que as outras, de pescoço mais baixo, transmitindo a sua mutação aos descendentes.
Na óptica darwinista, o homem evoluiu pelo mesmo processo. Não descendemos dos actuais macacos (como, erradamente, alguns interpretaram as afirmações de Darwin, ridicularizando-o por isso), mas sim de antepassados comuns. Quando, há 4 ou 5 milhões de anos, a África austral, densamente povoada por florestas, sofreu profundas alterações geológicas e climáticas, muitas espécies animais extinguiram-se. Outras, por se encontrarem casualmente adaptadas às novas condições do meio, sobreviveram e multiplicaram-se. Foi o caso dos Homo habilis que, por conseguirem caminhar verticalmente, desenvolveram mãos hábeis e cérebros mais evoluídos. Puderam, assim, sobreviver no ambiente hostil da savana e originar, ao que se pensa, toda a humanidade.
O darwinismo surgiu numa época de crença absoluta nas potencialidades inesgotáveis da ciência. O positivista acreditava que o futuro e a felicidade do homem residiam no progresso científico. O homem, finalmente liberto das amarras da ignorância, da superstição e do irracionalismo, tornar-se-ia senhor do seu destino. Foi essa confiança ilimitada nas capacidades do homem para traçar o seu próprio caminho que o filósofo Nietzsche sintetizou na teoria do super-homem.
Friedrich Nietzsche (1844-1900) recusa as concepções morais e religiosas judaico-cristãs e defende um homem que, acima das paixões, impõe a si próprio deveres e obrigações, finalidades criadoras, desenvolvendo ao máximo aquilo que deverá ser o cerne da sua vida: a vontade de poder. Para Nietzsche, a vida apenas tem sentido se cada homem for livre de determinar o seu próprio destino. Só assim ele pode recusar a escravidão e escolher a condição de senhor, de super-homem.
Infelizmente, como muitas vezes acontece, tanto o darwinismo como o pensamento nietzscheano foram abusivamente interpretados. Não faltaram aqueles que, apropriando-se do conceito de sobrevivência dos mais aptos e da ideia nietzscheana de super-homem, imaginaram um mundo de dominadores e dominados, de senhores e escravos, de raças superiores e raças impuras e degeneradas. Melhor ou pior elaboradas, não tardaram a afirmar-se doutrinas justificativas de colonialismos e de imperialismos, de racismos de todo o tipo, de holocaustos e genocídios. E surgiram também práticas eugénicas que, «substituindo» ou «ajudando» a Natureza, procuravam «tornar mais eficaz» a selecção natural eliminando os velhos, os doentes terminais, os deficientes, os portadores de taras, os loucos, os ciganos, os negros, os judeus. Criando, em síntese, o «verdadeiro super-homem»: ariano, alto, louro, forte, imune à piedade e à dor alheia, nascido para dominar e ser servido.
Foi essa a hedionda utopia nazi, alicerçada num meticuloso e frio desprezo pelo ser humano. Um desprezo de tal modo eficiente que levou ao extermínio programado de muitos milhões de pessoas. Ao Homo germanicus tudo seria permitido, porque pertencia a uma raça de deuses.
E, no entanto, em 1936, nos Jogos Olímpicos de Berlim, um negro humilhou os «super-homens» arianos. O norte-americano Jesse Owens ganhou quatro medalhas de ouro de um só fôlego e Hitler abandonou apressadamente o estádio para não ter de o felicitar.
Hoje, ao vermos os modernos «super-homens» do desporto, de todas as raças e de todos os credos, não podemos deixar de dar razão a Nietzsche (mas não aos seus abusivos intérpretes) – o homem faz-se a si próprio. Através do estudo, do treino persistente, do sacrifício, do livre arbítrio. Em suma, da vontade de poder.
Quando assistimos à notável performance de um atleta, temos alguma dificuldade em imaginar quanto esforço está por trás – geralmente são «três por cento de inspiração e noventa e sete de transpiração», como alguém disse. Foi por isso que o pintor Degas preferiu retratar os ensaios de ballet em vez da exibição final. Atraíam-no os nove décimos do iceberg. Exactamente como naquela conhecida história de Picasso: um dia, quando o famoso pintor se encontrava num restaurante da moda, abeirou-se dele um admirador que pediu para Picasso fazer ali mesmo um desenho e lho vender. O pintor fez o desenho e, em seguida, pediu-lhe cinco mil francos. «Cinco mil francos por três minutos?!» – exclamou o comprador. «Não» – respondeu Picasso – «Cem francos pelos três minutos e o resto pelos oitenta anos que estão para trás.»
Um homem nunca se mostra inteiro. Vemos dele muito menos do que aquilo que ele é. Mesmo quando a apresentação pública não resulta brilhante, quando o pianista se engana, ou quando o atleta falha e não ganha medalhas, quando se retira cabisbaixo e de lágrimas nos olhos, mesmo então ele merece os nossos aplausos. Por todo o esforço oculto. Uma queda não tem importância, importante é sabermos levantar-nos sempre que caímos.
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Soito iniciou em 16 de Setembro de 2011 a ampliação das instalações do quartel. O projecto é um grande salto na melhoria das condições da corporação e uma das maiores iniciativas da actual Direcção presidida por Maria Benedita Rito Dias.

(clique nas imagens para ampliar.)

Segundo o Sr. Arq. Celestino Pissarra, projetista, as fachadas vão apresentar desenhos e letras com o nome da Associação que se apresentam desenhadas nas peças de betão dos alçados, serão realizados em baixo relevo diretamente na cofragem, através de negativos adequados, estas terão uma iluminação indireta.

Quem pretender ajudar os bombeiros pode transferir o seu donativo para:
NIB: 003507020001137293062
ou, se for no estrangeiro, através do:
IBAN: PT50003507020001137293062, código CGDIPTPL.
A Direção e os Bombeiros Voluntários do Soito agradecem.
jcl

Quando há algum tempo assisti à apresentação do romance Flores de Jasmim* de João Gabriel Correia, na Livraria Orfeu, em Bruxelas, veio-me à memória o livro de Virgílio Ferreira – A Manhã Submersa**. Depois de ter lido o primeiro de um fôlego, procurei na minha biblioteca o segundo que reli com o entusiasmo da primeira hora.

A minha intuição inicial, na livraria do Joaquim Pinto da Silva, confirmou-se, e o paralelismo pareceu-me evidente.
Se bem que se trata de dois romances de épocas bem diferentes, num contexto nacional totalmente distincto, na minha opinião são talvez os dois únicos romances cuja acção se desenrola, do princípio até ao fim, num seminário.
Virgílio Ferreira descreve o universo concentracionário do Seminário Menor do Fundão, à maneira de Michel Foucault, entre o período da infância até a adolescência. Biográfico ou não, o romance de Virgílio Ferreira descreve-nos uma criança que dificilmente se consegue afirmar numa estrutura rígida, onde não é tolerado o menor desvio, sob o olhar ameaçador dos prefeitos de disciplina e dos professores O castigo físico era a regra frequente e obrigatória para endireitar os rebentos acabados de chegar das remotas aldeias beirãs dos anos quarenta.
Por seu lado, João Gabriel situa o seu romance no fim da década de sessenta, mais precisamente, no ano de 1969, ano em que o homem chegou à lua, em plena era marcelista, , no auge da contestação teológica pós-conciliar e na altura em que Paulo VI, com a encíclica Humanae Vitae, pretendeu editar normas para inculcar na consciência dos católicos a boa maneira de agir no leito conjugal.
Enquanto no livro de Virgilio Ferreira perpassa o medo e o terror, no de João Gabriel Correia a personagem tenta percorrer os caminhos de uma liberdade vigiada e controlada.
Mas João Gabriel Correia segue o seu percurso e distancia-se de Virgílio Ferreira. Em vez de descrever um ambiente fechado e inquisitorial de um seminário menor, aborda um mundo que se está abrindo no caminho da adolescência para a idade adulta, num clima quase tropical, em que os seminaristas descobrem a exuberância da vida e do amor, nos meandros da disciplina imposta pelas regras canónicas de um seminário maior.
Servindo-se da sua antiga competência profissional de psicólogo, João Gabriel Correia entra maravilhosamente na pele da personagem principal – o Júlio – para escalpelizar até à minúcia os primeiros movimentos amorosos do seminarista que descobre o mundo exterior, os outros e, enfim, a sua Guida.
Tal como no jardim das delícias dos primórdios do mundo, uma Eva introduz-se no Seminário Maior do Funchal e a sua presença não podia deixar de imprimir os traços da tentação de um Adão. Vestindo-se do manto de jornalista, a Guida penetra com curiosidade no ambiente do seminário, dando-o a conhecer nas suas reportagens num diário funchalense, onde ocupa um posto de estagiária, acabada de chegar do Continente.
Dois mundos, à partida nitidamente paralelos, acabam por se encontrar, atraídos quer pelo mistério do desconhecido, quer pelo questionamento constante de dois seres curiosos e rebeldes, quer ainda pelo intenso fervilhar de apelos insaciáveis.
Talvez por estar longe há muitos anos da sua terra natal, o autor teve necessidade de evocar os cantos e recantos do Funchal por onde as personagens vão evoluindo, proporcionando-nos assim um alegre deambular por entre ruas, praças, avenidas, jardins, cafés e restaurantes e outros monumentos da ilha.
É pois um romance situado no espaço e no tempo. É a reinvenção de uma história à maneira de Romeu e Julieta, com um fundo de proibição de normas sociais, mas também por isso mais aliciante e mais apetitoso.
Desconheço quanto tempo o autor demorou a escrever este romance. Nos encantos amorosos das mil e uma noites, João Gabriel Correia teve certamente manifesta influência do mundo árabe, aquando da sua estadia em Argel, na Delegação da União Europeia. Porém o leitor, imbuído num sôfrego enredo, não consegue despegar-se da sua leitura. As apropriadas descrições da ilha, as excelentes caracterizações das personagens muito bem recriadas, o brilhante ritmo cadenciado da linguagem dificilmente nos impedem de despegar os olhos do livro que se lê dum trago, apesar das suas 380 páginas.
Pela profundidade e beleza desta primeira obra, que muito honra a editora Orfeu, estou plenamente convencido que João Gabriel Correia, agora na Delegação da União Europeia no Haiti, (coragem por aí!) encontrará inspiração para nos brindar com outros bons escritos nos próximos tempos.

* Flores de Jasmim, de João Gabriel Correia, ed. Orfeu, Bruxelas, 2011
** Manhã Submersa, de Virgílio Ferreira, (1953), ed. Bertrand, Lisboa, 2000.

Joaquim Tenreira Martins

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