Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

CARREIRA – corrida. Fila de cereal disposta na eira, pronta para malhar; o m. q. covela. Camioneta de transporte de passageiros. O rapaz não dá carreira direita: não tem boa orientação ou não tem bom comportamento. Sinos às carreiras: em repiques festivos.
CARREIRO – vereda; caminho estreito.
CARREIRO DE SANTIGO – Estrada de Santiago (Clarinda Azevedo Maia – Batocas).
CARRETA – peça cilíndrica do tear, onde se seguram os liços (Luísa Lasso de la Veja y Pedroso Charters).
CARRETO – serviço prestado com o carro de vacas. Comboio de carros de vacas, que efectuam determinado transporte (Duardo Neves). Carro de vacas carregado (Francisco Vaz). Fazia-se o carreto para transportar produtos de e para as estações do comboio, assim ganhando os lavradores algum rendimento suplementar. Também se chamava carreto ao costume do povo se reunir e ir carregar e transportar pedra da serra, em carros, oferecendo-a aos novos casais para construírem suas casas (Fóios).
CARRICEIRAS – espécie de feno áspero e às vezes cortante que cresce em alguns lameiros (Duardo Neves).
CARRIL – caminho estreito; quelha; carreiro; atalho (Júlio Silva Marques).
CARRILHEIRA – maxilares do porco depois de «limpos», ou seja, arrebanhados da carne. A carrilheira era guardada na tarimba ou no caniço. Usava-se para curas: se havia inchaço em homem ou em animal escarchava-se a carrilheira e barrava-se a parte dorida com a medula dos ossos.
CARRO – veículo de tracção animal – carro de vacas, carro da burra. Cinquenta fachas, ou molhos, de palha ou de feno. Júlio António Borges refere, em relação a Castelo Rodrigo: cada carro transportava doze pousas de trigo, e cada pousa correspondia a cinco molhos. Ou seja, mais a norte do Sabugal, um carro eram 60 molhos.
CARROCO – puxo de cabelo na cabeça usado pelas mulheres (Clarinda Azevedo Maia – Lageosa).
CARROLA – monte de qualquer coisa. Carrola de pão: coluna de pães sobrepostos.
CARTAPEL – pequeno funil de cartão que serve para apertar a estriga (de linho) à roca. Clarinda Azevedo Maia registou cartapele e acrescenta que o funil pode ser de pele.
CARTAPELZINHO – franzino, molezinho (José Pinto Peixoto).
CARTÃO – moita de carvalhos novos e viçosos (Duardo Neves).
CARTAXO – chasco (pássaro); indivíduo fala-barato (José Pinto Peixoto).
CARTÓFAS – batatas (José Pinto Peixoto).
CARUMBA – caruma; agulhas de pinheiro.
CARUSSÉ – petróleo (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
CARVALHIÇO – carvalho pequeno.
CARVALHO – pau alto revestido de rosmaninhos e enfeitado com bandeiras coloridas, tradicionalmente queimado na noite de S. João. O pau era obtido do corte de um grande pinho, que era transportado, levantado e «vestido» no largo do arraial. No topo do carvalho colocava-se uma boneca com bombas ou um cântaro com o gato. Tirando este último pormenor (das bombas e do gato) o carvalho continua a preparar-se todos os anos na festa sanjoanina do Sabugal.
CARVOEIRA – forno improvisado, onde se faz carvão (Leopoldo Lourenço). Forma-se uma pilha de paus com uma caixa de ar, que se cobrem com uma camada de giestas e outra de terra, deixando-se dois orifícios (respiradores). Apichado o fogo, dura oito dias a combustão lenta, retirando-se depois o carvão, que permanecerá no local outros oito dias até ser ensacado.
CARVOEIRO – indivíduo natural de Malcata (Clarinda Azevedo Maia).
CASACA – casaco curto; blusão. Nas terras do Campo (Monsanto) designa blusa de mulher solta à frente (Maria Leonor Buescu).
CASA DAS BARBAS – barbearia (José Manuel Lousa Gomes ). Nas aldeias, estas casas apenas abriam aos sábados à tarde e aos domingos de manhã, dias em que os homens se escanhoavam e aparavam os cabelos. Os barbeiros de antigamente, para além do ofício próprio dessa profissão, exerciam também a medicina nas aldeias, tratando ferimentos e curando doenças.
CASA DE VIVER – casa de habitação.
CASCABOEZES – amendoins (Adérito Tavares) – do Castelhano: cacahuete.
CASCABULHO – grande quantidade de cascas (por exemplo de batata) que se dão de vianda aos porcos (Vítor Pereira Neves).
CASCALHEIRA – terreno pedregoso, com abundância de cascalho.
CASCALHO – seixos do rio misturados com terra, usados na construção de casas ou na pavimentação de caminhos.
CASCANOTE – carolo na cabeça; moquenco (Rebolosa).
CASCAR – bater, sovar. Cascou-lhe de rijo.
CASCARÃO – casca de ovo. Júlio António Borges acrescenta: casca de ferida cicatrizada.
CASCARROLHOS – amendoins (Duardo Neves).
CASCARRUDO – cascudo; diz-se das folhas de plantas grossas e rugosas como as da figueira (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia da Ponte).
CASCO – casca de laranja (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
CASCOREL – coscorel; bolo caseiro, parecido com a filhós, mas com a massa mais fina. Vítor Pereira Neves define como: «doce frito típico do casamento». Manuel dos Santos Caria escreve cascorés e Luísa Lasso de la Veja y Pedroso Charters usa o termo coscorão.
CASCOSA – batata – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
CASCOSA DO AR – castanha – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

leitaobatista@gmail.com

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