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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

CARREIRA – corrida. Fila de cereal disposta na eira, pronta para malhar; o m. q. covela. Camioneta de transporte de passageiros. O rapaz não dá carreira direita: não tem boa orientação ou não tem bom comportamento. Sinos às carreiras: em repiques festivos.
CARREIRO – vereda; caminho estreito.
CARREIRO DE SANTIGO – Estrada de Santiago (Clarinda Azevedo Maia – Batocas).
CARRETA – peça cilíndrica do tear, onde se seguram os liços (Luísa Lasso de la Veja y Pedroso Charters).
CARRETO – serviço prestado com o carro de vacas. Comboio de carros de vacas, que efectuam determinado transporte (Duardo Neves). Carro de vacas carregado (Francisco Vaz). Fazia-se o carreto para transportar produtos de e para as estações do comboio, assim ganhando os lavradores algum rendimento suplementar. Também se chamava carreto ao costume do povo se reunir e ir carregar e transportar pedra da serra, em carros, oferecendo-a aos novos casais para construírem suas casas (Fóios).
CARRICEIRAS – espécie de feno áspero e às vezes cortante que cresce em alguns lameiros (Duardo Neves).
CARRIL – caminho estreito; quelha; carreiro; atalho (Júlio Silva Marques).
CARRILHEIRA – maxilares do porco depois de «limpos», ou seja, arrebanhados da carne. A carrilheira era guardada na tarimba ou no caniço. Usava-se para curas: se havia inchaço em homem ou em animal escarchava-se a carrilheira e barrava-se a parte dorida com a medula dos ossos.
CARRO – veículo de tracção animal – carro de vacas, carro da burra. Cinquenta fachas, ou molhos, de palha ou de feno. Júlio António Borges refere, em relação a Castelo Rodrigo: cada carro transportava doze pousas de trigo, e cada pousa correspondia a cinco molhos. Ou seja, mais a norte do Sabugal, um carro eram 60 molhos.
CARROCO – puxo de cabelo na cabeça usado pelas mulheres (Clarinda Azevedo Maia – Lageosa).
CARROLA – monte de qualquer coisa. Carrola de pão: coluna de pães sobrepostos.
CARTAPEL – pequeno funil de cartão que serve para apertar a estriga (de linho) à roca. Clarinda Azevedo Maia registou cartapele e acrescenta que o funil pode ser de pele.
CARTAPELZINHO – franzino, molezinho (José Pinto Peixoto).
CARTÃO – moita de carvalhos novos e viçosos (Duardo Neves).
CARTAXO – chasco (pássaro); indivíduo fala-barato (José Pinto Peixoto).
CARTÓFAS – batatas (José Pinto Peixoto).
CARUMBA – caruma; agulhas de pinheiro.
CARUSSÉ – petróleo (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
CARVALHIÇO – carvalho pequeno.
CARVALHO – pau alto revestido de rosmaninhos e enfeitado com bandeiras coloridas, tradicionalmente queimado na noite de S. João. O pau era obtido do corte de um grande pinho, que era transportado, levantado e «vestido» no largo do arraial. No topo do carvalho colocava-se uma boneca com bombas ou um cântaro com o gato. Tirando este último pormenor (das bombas e do gato) o carvalho continua a preparar-se todos os anos na festa sanjoanina do Sabugal.
CARVOEIRA – forno improvisado, onde se faz carvão (Leopoldo Lourenço). Forma-se uma pilha de paus com uma caixa de ar, que se cobrem com uma camada de giestas e outra de terra, deixando-se dois orifícios (respiradores). Apichado o fogo, dura oito dias a combustão lenta, retirando-se depois o carvão, que permanecerá no local outros oito dias até ser ensacado.
CARVOEIRO – indivíduo natural de Malcata (Clarinda Azevedo Maia).
CASACA – casaco curto; blusão. Nas terras do Campo (Monsanto) designa blusa de mulher solta à frente (Maria Leonor Buescu).
CASA DAS BARBAS – barbearia (José Manuel Lousa Gomes ). Nas aldeias, estas casas apenas abriam aos sábados à tarde e aos domingos de manhã, dias em que os homens se escanhoavam e aparavam os cabelos. Os barbeiros de antigamente, para além do ofício próprio dessa profissão, exerciam também a medicina nas aldeias, tratando ferimentos e curando doenças.
CASA DE VIVER – casa de habitação.
CASCABOEZES – amendoins (Adérito Tavares) – do Castelhano: cacahuete.
CASCABULHO – grande quantidade de cascas (por exemplo de batata) que se dão de vianda aos porcos (Vítor Pereira Neves).
CASCALHEIRA – terreno pedregoso, com abundância de cascalho.
CASCALHO – seixos do rio misturados com terra, usados na construção de casas ou na pavimentação de caminhos.
CASCANOTE – carolo na cabeça; moquenco (Rebolosa).
CASCAR – bater, sovar. Cascou-lhe de rijo.
CASCARÃO – casca de ovo. Júlio António Borges acrescenta: casca de ferida cicatrizada.
CASCARROLHOS – amendoins (Duardo Neves).
CASCARRUDO – cascudo; diz-se das folhas de plantas grossas e rugosas como as da figueira (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia da Ponte).
CASCO – casca de laranja (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
CASCOREL – coscorel; bolo caseiro, parecido com a filhós, mas com a massa mais fina. Vítor Pereira Neves define como: «doce frito típico do casamento». Manuel dos Santos Caria escreve cascorés e Luísa Lasso de la Veja y Pedroso Charters usa o termo coscorão.
CASCOSA – batata – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
CASCOSA DO AR – castanha – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

leitaobatista@gmail.com

Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

CARDINA – bebedeira.
CARDO – planta cuja flor é usada para coalhar o leite.
CARECA – indivíduo natural da Torre.
CAREIO – cuidado; jeito; maneiras; propósitos; tino. Joaquim Manuel Correia traduz por «forças, melhoras».
CAREIRO – variedade de sapos grandes, com pele muito rugosa (Clarinda Azevedo Maia).
CARESTIA – preços muito elevados; vida cara. Também se diz careza.
CARGA – o que é transportado, por homem ou animal. Bebedeira.
CARGAR – carregar; pôr carga.
CARGUEIRO – aquele que no contrabando transportava as cargas, recebendo por isso uma quantia em dinheiro. Os cargueiros seguiam em coluna, guiados por um guia, o cortador. Em geral, cada carga pesava 25 quilos.
CARNAGÃO – volume exagerado do amojo das vacas paridas, relativamente ao pouco leite que dão (Duardo Neves).
CARNE ESFOLADIA – carne de animal esfolado (cabrito, borrego, vitela).
CARNEIRO DA SEMENTE – carneiro de cobrição.
CARNE GORDA – toucinho.
CARNIÇA – carne (Júlio António Borges).
CARNICEIRO – assassino (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
CARNIGÃO – parte esponjosa e dura de uma ferida (Júlio António Borges).
CAROÇA – cereja. Vamos à caroça? (Rapoula do Côa). Nas terras do Campo designa a azeitona carnuda (Maria Leonor Buescu).
CAROCHA – primeira fatia que se corta do pão (Júlio António Borges).
CAROLA – coisas colocadas em fila (Júlio António Borges).
CAROLO – farinha grosseira de milho, com que se fazem papas. Júlio Silva Marques escreve arolo.
CARPINS – meias dos pés (Clarinda Azevedo Maia, José Pinto Peixoto).
CARQUEJA – planta silvestre, cuja flor se usa para fazer chá, óptimo para o fígado. Também se usa para condimentar cozinhados.
CARRADA – carga completa de um carro.
CARRANCA – cara feia; careta. Clarinda Azevedo Maia, reportando-se a Vale de Espinho, traduz assim: coleira guarnecida de pontas de ferro que serve para defesa dos cães.
CARRANCHA – pernas abertas.
CARRANCHOLA – grande carrada (Adérito Tavares).
CARRANJA – transporte do cereal para a eira, onde será malhado. O m. q. acarranja.
CARRANJAR – transportar; fazer a carranja.
CARRÃO – pessoa vagarosa.
CARRAPACHO – forma de transportar as crianças: escarrapachadas no pescoço dos adultos (Júlio Silva Marques).
CARRAPATO – carraça de pele lisa; nu. Júlio António Borges acrescenta: feijão frade; chícharo. Indivíduo natural da Bendada (Clarinda Azevedo Maia).
CARRAPIÇO – carvalho novo. Desembaraçado a subir (José Pinto Peixoto, Leopoldo Lourenço).
CARRAPITO – coruto de uma árvore; o m. q. carrapiço.
CARRASCA – azeitona de fraca qualidade.
CARRASCO – árvore idêntica ao carvalho, que prolifera nas campinas da raia. Clarinda Azevedo Maia recolheu nos Forcalhos o mesmo vocábulo traduzido por: «tipo de abrunheiro que dá frutos muito amargos».
CARRASQUEIRO – o m. q. carrasco.
CARRASQUINHA – espécie de azeitona; o m. q. carrasca (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
CARRASPANA – bebedeira.
CARRASPAR – beber em demasia, embebedar-se. «Talvez pela força do hábito, a pinga não carraspava» (Francisco Carreira Tomé). Diz-se quando a língua fica áspera por efeito de certos alimentos.
CARRASPENTO – áspero; amargo. Esta maçã é carraspenta.
CARREGAR OS MACHINHOS – embebedar-se. «Não se livrava da fama de também carregar os machinhos» (Abel Saraiva).
CARREGO – fardo ou carga que se põe às costas, no contrabando. O seu peso rondava os 25 quilos. Carga de três ou mais sacas, colocadas sobre o dorso do burro (Luís Gonzaga Monteiro da Fonseca).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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CÃO DE VILA – indivíduo que habita na vila do Sabugal (dito em sentido pejorativo).
CÃO TINHOSO – Diabo. Cão afectado com a tinha (doença cutânea).
CAPACHO – estrado; peça circular de ráfia entrelaçada, usada como suporte do bagaço da azeitona, onde é espalhado e aguardará por ir à prensa. Clarinda Azevedo Maia traduz de modo diferente, em sinónimo de caçapo: ponta de chifre que o ceifeiro traz pendurada à cinta e onde mete a pedra de afiar a gadanha (Forcalhos).
CAPADA – rebanho de ovelhas; piara de gado.
CAPADO – bode ou chibo castrado – a que foram extraídos os testículos, com o fim de o engordar para matar. «Abate uma vitela e dois capados muito gordos» (Joaquim Manuel Correia ).
CAPADOR – homem que capa os animais; castrador. Montado mum possante macho, o capador assomava ao cimo da aldeia e soprava um apito para indicar a sua presença.
CAPADURA – pequeno corte em melão ou melancia, para verificar o seu estado.
CAPÃO – molho de vides cortadas na poda (Júlio António Borges).
CAPAR – castrar animais, cortar-lhes os órgãos de reprodução.
CAPAR A RIBEIRA – fazer saltar um seixo no cimo da água (Rapoula do Côa). também se diz capar a água (Célio Rolinho Pires). Joaquim Manuel Correia refere captar: «brincavam com as pedras finas de xisto, captando a água do pego».
CAPEIA – tourada arraiana onde se utiliza o forcão para desafiar o toiro – do Castelhano: capea.
CAPELA DO OLHO – pálpebra (Clarinda Azevedo Maia).
CAPELO – capuz de pano que protege a cabeça e o pescoço do apicultor das picadas das abelhas. Nevoeiro, ou névoa, que se forma no cimo dos montes. Clarinda Azevedo Maia apresenta um significado diferente: máscara de rede de arame usada para proteger a cara quando se tira o mel (Vale de Espinho).
CAPINDÓ – casaco curto e mal feito (Júlio António Borges).
CAPINHA – toureiro amador que, vindo de Espanha, percorria as aldeias da raia portuguesa a fim de estagiar nas capeias, exercitando-se com o sonho de um dia tourear numa praça. Ao capinha também se lhe chama maleta.
CAPUCHA – capa tradicional, com garruço que proteje a cabeça e o pescoço, muito usada pelas mulheres. À capucha: à socapa, às escondidas. «Mostrou-me então, à capucha, um saquitel que trazia» (Abel Saraiva).
CAPUCHO – costume da noite de Natal, em que os rapazes mais velhos, de cabeça encapuzada, afugentavam os mais novos (a canalha) para a cama. A designação provém do facto de ser costume colocar uma saca na cabeça. Capucho também designa um jogo tradicional – o jogo do capucho – em que um dos jogadores tapava a cabeça e tentava apanhar os companheiros que corriam à sua volta. Aquele que fosse panhado passava a ser o capucho e o jogo continuava.
CAQUEIRO – vaso de barro para flores; o m. q. caco.
CARABINEIRO – guarda alfandegário espanhol. Também designado por crabineiro. Os carabineiros eram geralmente mais severos no desempenho do serviço do que os nossos guardas-ficais, seus congéneres em Portugal, sobretudo com o chamado contrabando da barriga – aquele que se compunha por géneros alimentícios para consumo doméstico.
CARACHO – caramba (interjeição). Também se diz carache ou carago.
CARA DE CU À PAISANA – basbaque; ingénuo; anjinho. «À paisana» significa aqui ao léu, despido.
CARAMBOLA – monte de qualquer coisa, sejam, por exemplo, pedras, paus ou abóboras.
CARAMBOLO – jogo tradicional. Trata-se de um jogo de pontaria, em que se colocam de pé e em fila nozes, amêndoas, cascudos ou simplesmente bolotas. Os jogadores que se enfrentam iniciam com as mesma unidades e ficam com as que conseguem derrubar (Júlio Silva Marques).
CARAMELO – gelo; superfície de água gelada. Está tudo encaramelado. Também se diz caramelina: «está uma caramelina» (Joaquim Manuel Correia).
CARAMOÇO – carambola; montão de pedras; cabeço pedregoso. Júlio António Borges escreve caramosso.
CARANGONHA – cegonha (José Prata).
CARANTONHA – cara feia; careta. À carantonha: às cavalitas (Duardo Neves).
CARAPELA – bola de farrapos; péla. Jogo tradicional, também designado por jogo da pelota, em que os rapazes arremessam uma bola de trapos contra uma parede.
CARAPETEIRO – planta brava com espinhos.
CARAPETO – coluna de gelo na forma de estalagmite, formada da solidificação de águas que escorrem de lugares altos; o m. q. escarapeto. Espinho, pico: espetou-se-me um carapeto no dedo.
CARAPULO – componente do mangual: tira de cabedal que envolve a ponta da mangueira.
CARAVA – companhia; grupo de companheiros. Fazer carava.
CARAVELA – cata-vento para espantar pássaros. Também se diz cravela.
CARBUNCO – carbúnculo; doença que faz desenvolver insectos parasitas sob a pele. Também se diz cabrunco: «Que vos nasçam no corpo tantos cabruncos como de pelos tendes na cabeça, santarrões do diabo!» (Abel Saraiva).
CARCABIO – feijão – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
CARCÁVIO – dente – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
CARCHA – pedaço em que se dividem as batatas para cozer; talhada de melancia ou de melão. Clarinda Azevedo Maia traduz literalmente por batata, acrescentando ainda que o plural designa batatas cozidas com bacalhau (Lageosa).
CARCHAIS – ossos da cabeça do porco (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
CARCHANETA – risonho (José Prata).
CARCHANOLAS – castanholas; instrumento musical de duas peças de madeira, que se agitam com os dedos em concha. Nos Fóios eram assim designadas as matracas (Clarinda Azevedo Maia).
CARCHANOTE – salto. «Seguiam com os braços no ar dando carchanotes de feição» (José Pinto Peixoto sobre as danças populares).
CARCHANTADA – cabeçada (Adérito Tavares).
CARCHENTADA – dentada forte (Francisco Vaz).
CARCHO – pedaço de qualquer coisa: carcho de pão. Pequeno período de tempo: «se viesses à carcho comias connosco» (Júlio Silva Marques). Do Castelhano: cacho.
CARCHOILA – banco de madeira, onde as mulheres ajoelham quando lavam a roupa na ribeira (Adérito Tavares). Aumentativo de carcha (Júlio Silva Marques).
CARCÓDIA – casca de pinheiro. Também designa a faúlha (fanisca) que salta da casca de pinheiro quando arde (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia do Bispo). Também se diz carcóvia.
CARCOLÉ – codorniz (Célio Rolinho Pires).
CARDAR – não fazer coisa de jeito (Francisco Vaz); andar na boa vida. Dobrar o corpo para com a cabeça coçar ou lamber o traseiro – referente a animais (Duardo Neves).
CARDENA – cabra de cor acinzentada (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
CARDENHO – casa pequena e pobre. Lugar onde pernoitam os cabritos ao serem desmamados. Também se diz cardanho. Termo usado na gíria de Quadrazais, traduzido por casa (Franklim Costa Braga).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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BRAÇA – medida que vai de uma mão à outra mantendo os braços estendidos.
BRAÇADA – molho que se abrange com os braços (também se diz braçado). Medida que vai de uma mão à outra com os braços estendidos lateralmente.
BRACEJO – planta silvestre, utilizada para a cama dos animais e para fazer vassouras, estrados, capachos. Também se diz varacejo ou varaceja. Os dicionários registam baracejo.
BRACELETE – pulseira que se usa no braço. Com o advento do relógio de pulso passou a chamar-se bracelete aos tirantes pelos quais o mesmo se aperta.
BRAGAS – calças largas e curtas, usadas em dias de festa.
BRAGUILHA – parte das calças onde estão os botões de apertar. Também se diz perchenóla.
BRANCA – clara do ovo. A gema designava-se por amarela.
BRANDO – mole; doente.
BRANQUEAR (o linho) – lavá-lo em barrela, ou seja: fervido em água, sabão e cinza.
BRANQUINHO – pão de trigo – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
BRANQUINHOSO – pão de trigo – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
BRAVO – rebentos da videira que ainda não foi enxertada. Também se diz bravio.
BRECA – fúria; ira. Deu-lhe a breca num repente.
BREJOEIRO – estadulho; fueiro; pau comprido (Júlio António Borges).
BREQUEFESTA – festa de arromba; grande pândega; comezaina. Júlio António Borges refere brequefestes, que traduz por: banzé; zaragata.
BRIAITO – vestido muito berrante, geralmente de cor vermelha (Júlio António Borges).
BRICHE – espécie de saragoça grossa. «Vestia inteiramente de briche pardo» (Nuno de Montemor).
BRICOLA – pequeno concerto nos sapatos (Júlio António Borges).
BRIDO – vidro (José Manuel Lousa Gomes).
BRINCA – brincadeira; divertimento. A canalha anda na brinca.
BRIOL – vinho; bebedeira. O termo, embora de uso generalizado, fazia também parte da gíria de Quadrazais, com o mesmo significado (Nuno de Montemor).
BRITAR – abrir os ouriços com os pés ou com um martelo de madeira apropriado para recolha das castanhas..
BROCA – vaca – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
BROCHA – pequeno prego de cabeça larga, com que se ferrava o calçado. O m. q. carda.
BROCHO – bruto; estúpido (José Pinto Peixoto).
BROCO – bronco (José Pinto Peixoto). Boi – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
BRÓDIO – festa; divertimento; paródia (Nuno de Montemor).
BROEIRO – que se desfaz com facilidade; que se esboroa ou esmigalha. Pedra broeira.
BROSSA – pedra miúda de saibro (Leopoldo Lourenço).
BRUSCO – escuro; nublado; desagradável. Tempo brusco.
BRUXA – espécie de fogareiro de barro crivado de buracos (Joaquim Manuel Correia).
BUA – água (linguagem infantil).
BUCEL – garoto gordo e barrigodito (Duardo Neves).
BUCHA – refeição ligeira; mastiga. Comer dos gadanheiros a meio da manhã (Manuel Santos Caria). «Passei o dia com uma bucha de pão e queijo que levei no bornal» (Abel Saraiva).
BUCHEIRA – peça do enchido feita com pedaços de bucho (estômago), coração, bofes (pulmões) e carnes ensanguentadas. Júlio Silva Marques e Francisco Carreira Tomé referem buchana e Clarinda Azevedo Maia bechana. Também mais a Sul (Monsanto) se usa a expressão buchana (Maria Leonor Buescu).
BUCHO – estômago. Peça do enchido, feita com o estômago do porco, que é cheio com carne, ossos, rabo, orelha e outras partes. Tradicionalmente o bucho é comido no Domingo Gordo. Parte do braço, entre o ombro e o cotovelo (Clarinda Azevedo Maia – Batocas).
BUEIRO – rego feito à roda dos caminhos para escoar as águas. Cano (acrescenta José Pinto Peixoto).
BUENO – exclamação de afirmação (do Castelhano).
BUFANDA – cachecol (Júlio António Borges e Clarinda Azevedo Maia).
BUFARINHEIRO – vendedor ambulante de bugigangas.
BUFO – mocho real (Vítor Pereira Neves).
BULHA – briga; desordem; confusão.
BULIDOR – pau de ranhar o forno. O m. q. arranhadoiro.
BULIR – mexer; andar; trabalhar. Toca a bulir!.
BURGESSO – indivíduo estúpido; parvo. Júlio Silva Marques define assim: insulto equivalente a animal, besta.
BUREL – pano grosseiro de lã, muito usado para fazer capotes.
BURNIZEIRO – chuva miudinha e de curta duração (Duardo Neves).
BURRA – picota; engenho para tirar água dos poços. Tem outros nomes, variando conforme as terras: burra de augar – ógar ou ugar – (Sabugal ), ogadoiro (Pêga), picanço, esteio (Vila Fernando), cambo (nos dois últimos casos toma-se a parte pelo todo). São seus componentes: o esteio, gacha ou galhada (pau bifurcado com a base enterrada no solo); o cambo, travessal ou cavaleiro (pau móvel); o eixo do esteio (ferro que atravessa a bifurcação para segurar o cambo); o contra-peso (pedra que é presa a uma das extremidades do cambo); a vara, cambão ou vareiro (pau que se suspende da extremidade do cambo e onde se dependura o balde). Júlio António Borges traduz burra por: primeira fiada do cereal estendido na eira.
BURRA DE AUGAR – picota; engenho para tirar água dos poços (Sabugal). Também se diz somente burra ou então burra de ugar (ou ógar).
BURRANCO – burro novo e corpulento.
BURRECO – burro pequeno e fraco. Indivíduo pouco esperto.
BURREIRO – muar filho de cavalo e de burra. O macho quer-se burreiro e a mula éguadiça (filha de égua).
BURRICA – diminutivo de burra. Andar às burricas: andar escanchado nas costas de alguém.
BURRINHO – abóbora pequena; o m. q. aboboro.
BURRO – ferida no lábio, ou herpes, resultante do cieiro.
BURZIGADA – cozinhado dos dias de matança feito com sangue cozido e pão, regado com gordura do redanho derretida (adubo). Manuel Santos Caria escreve borgigada. Já Abel Saraiva escreve burgigada.
BURZINEIRO – chuvisco (José Prata).
BUSCAR – trazer. Vai buscar a faca.
BUTILHO – pequeno pau que se coloca entre os maxilares dos borregos e dos cabritos, para não mamarem (Júlio António Borges). O m. q. barbilho.
BÚZERA – barriga; pança, estômago. «Queríamos encher a búzera até o biabo dizer basta» (Abel Saraiva).
BÚZIO – vidro que está baço, fusco. Situação pouco clara.
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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BODO – banquete comunitário, promovido por alguma instituição, mordomia ou confraria, em cerimonial festivo, em honra da Senhora ou de algum santo (Francisco Vaz). Tradicionalmente o bodo está associado às festas do Espírito Santo, que se realizam numa boa parte do território português e em que era uso dar um festim de comida com vista a alimentar os pobres.
BOFES – pulmões do porco, fessura. Também se diz boches. «Mostra coração e há-de ter bofes» (Nuno de Montemor).
BOGALHADA – brincadeira de carnaval que consistia em lançar para dentro das casas latas cheias de bogalhas. O m. q. cacada ou panelada.
BOGALHO – nódulo que se forma nas folhas dos carvalhos. As bogalhas eram usadas pelas crianças para brincar: imitavam ovelhas, adornavam paus, serviam de berlinde. Entre as crianças era uso dizer: O ninho tem bogalhos, querendo afirmar que tinha ovos. Também se chamava bogalhos aos testículos ( o m. q. tomates).
BOGULHO – aquele que se atrasa a comer.
BOJO – coragem – ter o bojo de…
BÔLA – pequeno pão feito da arrebanhadura da masseira, que se deixava mal cozido e era comido quente (Júlio Silva Marques). Pão de ló escuro, com canela (Vítor Pereira Neves). Pequeno descanso oferecido ao ceifador, para que coma algo e retempere forças (José Prata).
BOLACHA – bofetada; estalada.
BOLACHADA – bofetada forte.
BOLERCA – castanha que se não chegou a criar (Clarinda Azevedo Maia). Também se diz chocha.
BOLETA – bolota ou lande; fruto do carvalho e da carrasqueira, usada para a ceva dos porcos. Clarinda Azevedo Maia recolheu a expressão beleta em Aldeia da Ponte.
BOLETA ANZINA – bolota doce (Clarinda Azevedo Maia).
BOLO – pão espalmado e comprido que é uso comer pelos Santos; o m. q. bica.
BOMBAZINA – tecido riscado, que imita o veludo.
BOMBILHA – lâmpada (Maria José Ricárdio Costa).
BOM-SERÁS – bom homem, que não se ofende e que tudo aceita resignado (Nuno de Montemor).
BONAIRO – farrapo; bocado de tecido (Júlio António Borges).
BONDA – o suficiente; basta; chega. Também se diz abonda.
BONDAR – bastar; chegar; ser suficiente.
BONECA – rapariga muito bonita e airosa, que dá nas vistas.
BONECO DE PÃO – pequeno pão de formas variadas, geralmente feito a partir da arrebanhadura da masseira, a que tinham direito as crianças após a fornada (Luís Monteiro da Fonseca).
BONECRO – homem afeminado; boneco (Francisco Vaz).
BONICA – excremento de animal; bosta. «Rodeira de bonica das vacas leiteiras» (Carlos Guerra Vicente).
BONITA – fatia de pão (Júlio António Borges).
BOQUE – buraco aberto no solo, para plantar árvores (Júlio António Borges).
BOQUERNA – boca – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
BORBORINHO – remoinho de vento usual no Verão. Vítor Pereira Neves escreve basborinho e Júlio António Borges diz barborinho. Desordem, acrescenta José Pinto Peixoto, que escreve burburinho, forma, aliás, dada por preferível pelos dicionaristas. O povo também diz redemoinho (Célio Rolinho Pires). Na crença popular o borborinho indica a passagem do Demónio.
BORDA – côdea de pão; a primeira fatia que se corta.
BORDALO – peixe pequeno dos rios e ribeiros. O m. q. escalo.
BORDOADA – pancada com recurso a um pau ou vara (de bordão).
BORGA – pândega; festança; patuscada.
BORNAL – farnel; saco da merenda. Saco com ração que se enfia no pescoço dos burros (Júlio Silva Marques). Pessoa que come demais; lambão (Clarinda Azevedo Maia – Batocas).
BORNECA – castanha que não chegou a criar (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos). O m. q. chocha. Em Trás-os-Montes diz-se boneca.
BORNIL – chumaço de palha, envolvido em pano ou em cabedal, que se coloca no pescoço dos burros para se jungirem à carroça ou ao arado; coalheira. O m. q. belfa.
BORNO – morno; tépido.
BORRA – depósito que os líquidos deixam no fundo da vasilha; o m. q. sarro.
BORRA-BOTAS – pessoa reles; desgraçado.
BORRACHA – pequeno odre de couro para vinho, muito usado por jornaleiros e gadanheiros. O m. q. bota.
BORRACHICA – biberão (Júlio António Borges).
BORRACHÃO – bêbedo incorrigível. Indivíduo natural de Pousafoles (Clarinda Azevedo Maia).
BORRACHO – bêbado.
BORRALHEIRA – lugar da lareira onde se coloca o borralho; fogueira grande, que expele muito calor.
BORRALHO – braseiro envolto com cinza.
BORRASCA – chuva súbita.
BORREGA – bolha que se forma nas mãos, em geral devido à ferramenta, ou nos pés, devido ao calçado. Em Trás-os-Montes (Mogadouro) usam a expressão burra com o mesmo sentido.
BORREGANA – nome próprio, ligado a vendedores de borregos (Francisco Vaz).
BORREGO – molho de feno preparado com o ancinho – dois borregos atados fazem uma facha. Cordeiro com mais de dois anos. Homem calmo, pacífico. Aquilo que os bêbedos vomitam (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
BORREGUINHO – castanha ainda mal criada (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
BORREIRA – soltura; diarreia.
BORRISCAR – borrar. Borriscou-se de medo.
BORRISMAR – chover miúdo. O m. q. chuvisnar.
BOSTA – mulher indolente (Júlio António Borges). Excremento de vaca.
BÔ’STÁ – interjeição: ora essa! essa agora! (José Pinto Peixoto).
BOTAR – atirar; deitar; lançar.
BOTAR A BARRIGA – abortar (relativo a animais).
BOTAS FERRADAS – botas com protectores de ferro no rasto.
BOTELHA – abóbora (Sabugal). Garrafa; cabaça usada para transportar o vinho. «Com um ancinho ao ombro e uma botelha no braço» (Abel Saraiva).
BOTELHO – abóbora pequena. Variedade de pimentos, de grande dimensão (Clarinda Azevedo Maia).
BOTIFARRA – bota grosseira e grande.
BOTIM – bota de cano alto, usada pelos homens. Antigamente era bota de borracha, comprada em Espanha (Clarinda Azevedo Maia – Batocas).
BOTÕES – brincos (Clarinda Azevedo Maia).
BOUÇA – terreno inculto, aproveitado para nele se roçar mato e periodicamente semear. Também se diz bocha.
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

BIA – diminutivo de Maria (Quadrazais).
BIBE – espécie de bata, aberta atrás, usada pelas crianças para proteger a roupa.
BICA – pão comprido e espalmado que se come pelos Santos feito com farinha triga e azeite, também designado por santoro e por bolo. É costume servir de presente dos padrinhos aos afilhados. Pequena refeição comida a meio da manhã, por ocasião das malhas, constituída por pão, conduto e vinho. Fonte com água a escorrer por um tubo, ou uma telha, podendo apular-se.
BICALVO – pessoa esquisita no comer; que come pouco (Júlio António Borges); o m. q. biqueiro.
BICAS – refeição que a noiva dá às amigas antes do casamento – despedida de solteira. Era uso oferecer as bicas no segundo domingo de proclames (ou pregões), sendo compostas por papas de milho ou de carolo (Joaquim Manuel Correia). «Na noite da véspera a noiva leva ao noivo a camisa de noivado e no dia das bicas as amigas da noiva traziam para sua casa açafates de verga cheios de tremoços, que distribuíam pelos presentes» (Francisco Vaz).
BICHA – sanguessuga; lombriga; cobra. As sanguessugas eram usadas para sugar o sangue pisado, nos hematomas. Bichas andadeiras: sanguessugas que andavam de casa em casa, alugadas a quem as necessitasse.
BICHA DA ÁGUA – cobra da água (Clarinda Azevedo Maia).
BICHANAR – chamar os gatos; falar baixinho, ciciar.
BICHANO – gato.
BICHO-ARANCU – pirilampo (Clarinda Azevedo Maia – Malcata). É mais comum dizer simplesmente arancu.
BICHO-CRELBO – animal rastejante, de cor negra com riscos vermelhos (Clarinda Azevedo Maia – Fóios). A este animal tTambém se lhe chama padre.
BICHO DA SEDA – pirilampo (Clarinda Azevedo Maia).
BICHO QU’ALUMIA – pirilampo (Clarinda Azevedo Maia – Sabugal).
BICHORNO – calor abafado (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos). Do Castelhano: bochorno.
BICO – dívida (Leopoldo Lourenço).
BIGORNA – pião grande ( Rapoula do Côa).
BIGORRILHA – pelintra; desprezível. «Não me assusta seu bigorrilhas!» (Joaquim Manuel Correia).
BILÁU – pénis (linguagem infantil). Também se diz biló.
BILHÓ – castanha assada e descascada (Júlio António Borges).
BILHOSTRES – cobres; moedas de pouco valor (Joaquim Manuel Correia).
BIQUEIRO – pessoa que tem fastio, que come pouco: «Estais muito biqueiros» (Abel Saraiva). Pessoa melindrosa (Francisco Vaz).
BISCA – pulga – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga). Jogo de cartas. «Jogavam à bisca lambida numa pobre mesa de pinho» (Abel Saraiva).
BISCO – vesgo (Clarinda Azevedo Maia). Do Castelhano: bizco. Nas terras do campo (Monsanto) dizem bisgo ou embisgo (Maria Leonor Buescu).
BISCOCHO – biscoito (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia da Ponte). Do Castelhano: bizcocho.
BISCUTAR – bisbilhotar; coscuvilhar.
BISCUTEIRO – aquele que biscuta.
BISGAR – piscar o olho (Carlos Guerra Vicente).
BITARDA – mulher de vida duvidosa (Júlio Silva Marques).
BIZARRIA – boa apresentação; galantearia; boniteza.
BLADA – castanha pilada ou seca (Fóios).
BLANCIGA – melancia (Júlio António Borges).
BLANDINA – azáfama; alvoroço.
BLENA – ama, patroa – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
BOAMENTE – de boa vontade; às boas (de boamente).
BOA-VAI-ELA – folgança; vadiagem. Andar na boa-vai-ela: divertir-se.
BOA VIDA – vida sem trabalho; vadiagem; diversão. «Alegres e leves, como se andassem à boa vida» (Nuno de Montemor).
BOBADA – parvoíce; bobice (Júlio António Borges).
BOBOCA – palerma (Júlio António Borges).
BOCA-ABERTA – pessoa que se admira de tudo; pacóvio; simplório.
BOCA DE ALPERGATA – boca grande – expressão jocosa (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos).
BOÇADO – lambuzado; vomitado; com os beiços sujos.
BOCANA – indivíduo que fala muito e é incapaz de guardar um segredo (Júlio Silva Marques e Duardo Neves). Pasmado; boca-aberta (Júlio António Borges). Parvo (Leopoldo Lourenço).
BOCHE – pulmão. Pessoa que fala muito, com ar de zangado; fole (Júlio António Borges); o m.q. bofe.
BOCHES – vísceras de porco (José Pinto Peixoto). Também se diz bofes.
BOCHINHO – diz-se de pessoa que se zanga facilmente.
BOCHO – cão. O nosso bocho. Interjeição para chamar o cão. Também se diz pocho.
BODA – jantar do dia do casamento. A boda comum era composta por pão-trigo, enchidos, queijo, azeitonas e vinho, tudo à farta. A chamada boda de panela, dos mais abastados, era composta por refeição à base de carne com arroz e batatas.
BODEGA – porcaria; sujidade. Diz-se de uma casa imunda.
BODEGO – indivíduo que vive na bodega, isto é, na porcaria, em local imundo (Júlio Silva Marques).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

BEBEROSO – formoso; bonito (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia do Bispo).
BEDUM – sabor e cheiro do sebo na carne de borrego ou carneiro. Diz-se que para a carne de borrego não cheire a bedum é necessário retirar-lhe as gorduras (ou sebo) que está no interior dos músculos das pernas.
BEI – diminuitivo de Isabel (Alfaiates).
BEIÇA – lábio, beiço. Expressão labial. Beiça caída – amuado.
BEIJINHO – a parte melhor de alguma coisa; o preferido da família (Júlio António Borges).
BEIRADA – fila de telhas da parte mais baixa de um telhado; beiral.
BEJOEGA – bolha de água na pele; o m. q. borrega.
BELA GALHANA – boa vida, sem nada que fazer. «É gente sem eira nem beira, que anda por aí à bela galhana» (Joaquim Manuel Correia).
BELA-LUZ – planta silvestre, que cresce nas tapadas.
BELANCIA – melancia.
BELDAR – dar à língua; falar muito. Rezingar (José Prata). Ladrar (José Pinto Peixoto). Falar sem tom nem som (Clarinda Azevedo Maia). «Beldava continuadamente» (Abel Saraiva).
BELDROEGA – planta espontânea, carnosa e suculenta, usada para sopa e saladas.
BELFA – colar de estopa cheio com palha que se coloca no pescoço das cavalgaduras para lavrar, puxar ao carro ou tocar a nora. O m. q. bornil.
BELFO – pessoa, ou animal, que tem o lábio inferior sobreposto ao superior. Burro belfo: forte defeito, que desvaloriza muito o animal.
BELGA – pequeno terreno de cultivo; courela. Clarinda Azevedo Maia refere a expressão bega, que recolheu nos Fóios. Quanto à palvra belga, a mesma autora dá-lhe um significado diferente: «cada um dos regos paralelos com que se divide o terreno, antes de semear e lançar o adubo» – talhar uma belga: abrir um rego.
BELIDA – mancha branca que aparece nos olhos ou nas unhas (Júlio António Borges).
BEM D’ALMA – conjunto de acompanhamentos, ofertórios, responsos, missas, trintários, ofícios e outras orações fúnebres celebradas em honra dos defuntos de uma irmandade. O bem de alma tem um preço, que é pago ao pároco.
BEM-HAJA – obrigado; agradecido.
BENARDINA – piada (Clarinda Azevedo Maia – Lageosa)
BENÇA – pagamento anual a barbeiros e a alfaiates pelos serviços prestados, ou a prestar, geralmente composto por alqueires de centeio. O m. q. bênção.
BENTO – aquele que adivinha o futuro e consegue curar doenças. Duardo Neves traduz literalmente por: «pessoa que tem de nascença uma cruz no céu da boca».
BENZENICAR – fazer de conta; fingir (Júlio António Borges).
BÉQUEIRO – taberneiro – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
BERÇA – couve galega. Caldo das berças. Também se diz verça.
BERDUGO – cobra (fem. berdugueira). Também se diz verdugo.
BERNA – bicho que se cria no couro do gado bovino; o m. q. medraça (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
BERRÃO – porco (Manuel Leal Freire). Também se diz barrão (Júlio António Borges)
BERRELAS – pessoa que berra muito.
BERRELHO – que berra muito. Leitão, bácoro.
BERTOLDO – palerma; idiota; parvo.
BERZUNDA – bebedeira (Júlio António Borges).
BESBELHO – babado; ufano; pasmado.
BESTUNTO – pessoa estúpida, com pouco expediente (Júlio António Borges).
BEXIGA – peça do enchido composta pela bexiga do porco cheia com carne dos ossos e couros.
BEZERRO – vitelo; novilho. Pedaço de parede caída numa habitação já antiga (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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ÀS TRÊS PANCADAS – atabalhoadamente; acção sem regra.
ASTRO – sol.
ATABAFAR – sufocar; respirar com dificuldade. «Atabafa esse riso, ouviste?» (Joaquim Manuel Correia).
ATABALHOADO – desorganizado; desajeitado. Júlio António Borges acrescenta: amalucado; tolo.
ATABALHOAR – fazer à pressa, com descuido.
ATABICAR – atafulhar; encher por completo; entalar.
ATACA – cordão de sola (atacador), próprio para apertar as botas (Júlio António Borges).
ATACADOR – cordão de apertar o calçado.
ATACAR – apertar o calçado.
ATADILHO – atilho; baraço; cordel (José Pinto Peixoto). Fita das ceroulas; liga das meias (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
ATADO – indivíduo pouco activo; acanhado.
ATADOR – homem que nas ceifas tem a tarefa de atar os molhos.
ATADURA – ligadura para feridas (Francisco Vaz).
ATAFAIS – arreios, correias com que se aparelham as bestas.
ATAFAL – indivíduo desajeitado; mal vestido; maltrapilho (Rebolosa). Retranca da albarda do burro. Pano de cobrir os machos; roupa mal feita (Júlio António Borges).
ATAFONA – moinho manual ou de tracção animal. A mó de baixo é fixa, com um olhal no centro, por onde passa o veio que a liga à mó andadeira (de cima), esta tem na face superior um furo onde se encaixa o pau que serve de manípulo.
ATAGALHO – nagalho; cordel; guita (Francisco Vaz).
ATAGANHAR – apertar o pescoço, estrangular.
ATALAIA – local alto e descampado (Rebolosa).
ATAMAR – acalmar; apaziguar. «Prantou-lhe um arganel de aço no focinho para lhe atamar o cio» (Carlos Guerra Vicente).
ATANAZAR – inquietar; atormentar (José Pinto Peixoto). Joaquim Manuel Correia refere atenezar.
ATANEGRIDO – muito cansado (Júlio António Borges).
ATARANTADO – atrapalhado; desorientado.
ATARNAGUIDO – indivíduo muito ocupado, atarefado (José Pinto Peixoto). Júlio António Borges escreve atanarguido.
ATAROLADO – mal cozido; escaldado.
ATAROLAR – cozer ligeiramente. Atarolam-se as batatas antes de irem ao forno, acompanhando a carne ou o peixe na assadeira.
ATARRACADO – baixo e forte.
ATARRACAR – bater os cravos para os aconchegar à ferradura (Júlio António Borges).
ATARRAZAR – fazer depressa, com ânsia.
ATAZANAR – aborrecer; chatear.
ATEIMAR – teimar, insistir.
ATENTAR – fazer cair em tentação; chatear, enervar. Não me atentes!
ATERNEGUIDO – deprimido (Júlio Silva Marques). Cheio de trabalho (Leopoldo Lourenço).
ATERNIGAÇÃO – desgosto; inquietação (Júlio António Borges).
ATERRAR – cobrir com terra. Aterrar o milho: cobrir os caules.
ATER-SE – fiar-se; confiar. Ficar atido a…
ATIDO – convencido; fiado; a pensar em…
ATILHAR – tapar, cobrir os cortiços (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
ATILHO – baraço; cordel. Atacador das botas. Francisco Vaz dá-lhe o significado de: molho, feixe.
ATINADO – indivíduo com juízo; prudente; bem comportado.
ATINAR – acertar; adivinhar.
ATIRADEIRA – fisga (Vitor Pereira Neves).
ATIRADIÇO – atrevido; corajoso; lançado na vida. O rapaz é atiradiço.
ATISCAR – ver – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
ATOLAMADO – doido; tolo (Júlio António Borges).
ATÓLICO – em grandes dificuldades; abismado, estupefacto (de atónito?). «Vimo-nos atólicos para secar o trigo» (Carlos Guerra Vicente).
ATONDAR – estontear; endoidecer (Júlio António Borges).
ATONGADO – mal vestido; desajeitado; mal apresentado (Júlio António Borges).
A TOQUE DE CAIXA – depressa; com rapidez.
ATOUCAR – atar o lenço da cabeça com as pontas para cima, na forma de touca (Clarinda Azevedo Maia – Batocas).
ATOUCINHADO – gordo; anafado (de toucinho).
ATULHADO – muito cheio; repleto.
ATRAVANCAR – bloquear; impedir passagem; estorvar; atravessar. Júlio António Borges refere atrabancar, a que dá o sentido de: pôr tudo a monte.
ATRO – outro (referente a pessoa) – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
ATUNGADO – desastrado (Júlio António Borges).
ATURQUESAR – afligir; aborrecer (Júlio António Borges).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

ARTAFÍCIOS – ferramentas de um ofício (Carlos Guerra Vicente).
ARTEIRO – aquele que usa arteirice; velhaco; manhoso; astuto. Júlio António Borges acrescenta: aprumado; pronto. Por sua vez Maria Leonor Buescu, referindo-se à linguagem de Monsanto (Penamacor), traduz por: alegre, vivo.
ARTELHO – junta ou união dos ossos (Leopoldo Lourenço); tornozelo.
ARTIFE – pão – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor). Artife branqueoso ou artife gírio – pão trigo; artife facho – pão centeio.
ARTLÃO-BOGAS – figa; dedos em forma de esconjuro (Pinharanda Gomes).
A SALTO – passar a fronteira fora dos locais não autorizados, furtando-se ao seu controlo. Assim, com a ajuda de passadores, ou engajadores, se fez a maior parte da emigração para França.
A SECO – sem comer. Trabalhar a seco: trabalhar sem o direito a alimentação fornecida pelo patrão. Comer de seco: comer sem prato, colher e garfo, recorrendo apenas a pão e a conduto.
ASILAR – prejudicar (Leopoldo Lourenço).
ASSADOR – caldeiro de latão, ou de barro, com o fundo furado, próprio para assar castanhas ao lume. Nalgumas localidades (como na Rapoula do Côa) chamam-lhe moderno.
ASSADURA – lombo de porco (próprio para assar). Mais a Sul (Monsanto) designa o pedaço de carne que se dá de presente por ocasião da matança (Maria Leonor Buescu).
ASSANHAR – enfurecer; atiçar os cães.
ASSARAMAGAR – fazer depressa e mal (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos).
ASSARAMPANTADO – assustado; espantado; atrapalhado.
ASSARAMPANTAR – atrapalhar; espantar.
ASSEDAR – fase da cultura do linho em que se faz a triagem da estopa, usando-se o sedeiro ou rastelo.
ASSEDEIRO – utensílio para limpar o sedeiro do linho (Luísa Lasso Pedroso Charters).
ASSENTADOR – instrumento feito com uma tira de couro, usado pelos barbeiros para dar fio à navalha de barbear.
ASSENTO – juízo; senso (Leopoldo Lourenço).
ASSÊ QUE SIM, ASSÊ QUE NÃO – parece que sim, parece que não. Creio que… (Joaquim Manuel Correia).
ASSERRUNCHADO – apertado (Júlio António Borges).
ASSOALHADO – recozido por demasiada exposição ao sol. A melancia está assoalhada.
ASSOBRADADO – com sobrado (piso de cima de casa térrea, junto ao telhado, feito de madeira e que serve para arrumos). Casa assobradada – que tem sobrado.
ASSOLDADADO – aquele que trabalha a soldo, sob contrato. Também se diz soldadado. Geralmente as soldadas eram válidas por um ano. O contrato era verbal, mas valia como se fosse acto formal, sendo cumprido à risca por ambas as partes. A feira de S. Pedro, no Sabugal, era a ocasião em que os proprietários contratavam pastores e ganhões, que se agrupavam ao redor da fonte de D. Dinis, munidos de vara ou de agilhada.
ASSOLDADAR – contratar a soldo (à soldada).
ASSOLDADAR-SE – submeter-se a um patrão, sob contrato, por um determinado período. Assoldadavam-se os pastores, ganhões e outros trabalhadores rurais, normalmente pelo período de um ano.
ASSOMAR – espreitar; aparecer. Cair (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia da Ponte).
ASSOVAR – incitar o cão a morder (Leopoldo Lourenço); o m. q. açugar ou atiçar.
ASSOVELAR – furar com sovela. Espicaçar; provocar; estimular.
ASSUCHIAR – alargar as poças quando se planta uma árvore, tornando o terreno mais leve para as novas raízes (Júlio António Borges).
ASSUQUIR – comer – termo da gíria de Qadrazais (Nuno de Montemor).
ASSURPALHADO – diz-se do céu coberto de nuvens (Clarinda Azevedo Maia – Batocas). Também se usa a expresão leite assurpalhado, com o significado de leite coalhado – em estado de ser usado para fazer queijo.
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

ARRÃ – rã (Duardo Neves).
ARRABANAR – cortar pequenas quantias de pão, queijo ou chouriça (Júlio António Borges).
ARRAIAL – festa ao ar livre; baile. Nas Terras do Campo (Monsanto) usa-se também para designar um agrupamento de construções pertencentes ao mesmo dono e anexos à habitação (Maria Leonor Buescu).
ARRAIOLA – raiola, jogo em que se atira uma moeda para um risco (ou raia) traçada no chão ou numa tábua. Este termo tem muitas vaiantes, consoante as terras, se não vejamos: José Pinto Peixoto, da Miuzela do Côa, chama-lhe raioila; Júlio Silva Marques, de Vilar Maior, escreve arraioila (e explica que o vocábulo vem do Castelhano – rayuela); Maria José Ricárdio Costa, de Aldeia do Bispo, refere raoula. Franklim Costa Braga, de Quadrazais, chama-lhe raibile. Leopoldo Lourenço, do Freixo, chama jogo do cão ao jogo da raiola.
ARRALÁRIO – relativo; sem sentido absoluto. «É tudo arralário» (José Pinto Peixoto).
ARRAMAR – espalhar as nuvens; deixar de chover. Júlio António Borges acrescenta: entornar; verter. «Já arramou, e já aí vem o sol» (Joaquim Manuel Correia).
ARRANAR – estender-se; pôr-se à larga.
ARRANHADELA – ferida superficial que resultou de arranhar. Arranhadela de um gato ou de uma silva.
ARRANHADOURO – pau de remexer o forno; o m. q. ranhadouro.
ARRANHÃO – o m. q. arranhadela. Também se diz ranhão.
ARRANJO – remedeio; governo da casa.
ARRÁTEL – antiga medida de peso, correspondente a 459 gramas.
ARRE – interjeição, pela qual se incitam as bestas a andar.
ARREAR – bater; zupar – arreou-lhe com força. Ir-se abaixo; ceder – arreou a carga. Colocar os arreios às cavalgaduras. «O Mateus, arreado a preceito, lá foi para a Guarda» (Abel Saraiva).
ARREAR AS CALÇAS – fazer as necessidades; defecar.
ARREATA – corda que segura os animais; prisão; rédea.
ARREATAR – atar; prender.
ARREBANHAR – raspar a barranha para aproveitar tudo. Meter ao bolso; roubar. Limpar o lameiro com o ancinho após o recolher do feno.
ARREBULHAR – embrulhar; envolver; engelhar. «Tudo se me arrebulha no estômago» (Joaquim Manuel Correia).
ARREBULHAR-SE – deitar-se (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia da Ponte).
ARRECADAR – guardar, pôr a salvo; receber.
ARRECADAS – grandes argolas de pôr nas orelhas, muito usadas pelas mulheres ciganas. Também se diz arcádias e arrecádias.
ARRECENDER – recender, exalar cheiro activo (José Pinto Peixoto) – cheira tão bem que arrecende.
ARREDELHAR – diz-se do movimento em círculo feito pela faísca ao cair (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
ARREDULHAR – deitar a baixo; fazer encolher alguém à pancada.
ARREFENA – zanga, desentendimento, discussão. «Não havemos de ter mais arrefenas, seja feita a tua vontade» (Joaquim Manuel Correia).
ARREFENTAR – arrefecer; refrescar. Não me aquenta nem me arrefenta.
ARREFERTAR – lançar na cara o que se ofereceu (José Pinto Peixoto). Leopoldo Lourenço regista arfertar, traduzindo por: pedir o que se ofereceu. Mais a Sul (Monsanto) diz-se refertar (Maria Leonor Buescu).
ARREGANHADO – cheio de frio, enregelado. «Queres morrer arreganhado?» (Joaquim Manuel Correia).
ARREGANHAR – sentir frio; arrefecer; gelar. Mostrar os dentes.
ARREGOLAR – rebolar (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia da Ponte).
ARREGUNHADELA – arranhão; o m. q. arranhadela.
ARREGUNHAR – ferir com as unhas; arranhar. O gato arregunha.
ARREGUNHO – arranhadela; arranhão.
ARREIO – apresto das bestas de carga.
ARRELAMPADO – aturdido; desorientado; surpreso. «Arrelampado como se tivesse visto bruxa numa encruzilhada» (Abel Saraiva).
ARRELIADO – zangado; amigo de arrelias e de brigas.
ARRELICADO – pessoa que está inutilizada, sem poder mover-se (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
ARREMANGAR – arregaçar as mangas. Júlio António Borges acrescenta: tropeçar.
ARREMATAR – compor um rego (Francisco Vaz); dar o nó; concluir.
ARREMEDAR – imitar com escárnio; maquear.
ARREMICAS – talvez (Júlio António Borges). Também se diz arrenicas.
ARRENDA – a primeira sacha (Júlio António Borges).
ARRENEGADO – zangado; descontente com alguém. «Fiquei mais arrenegado que se tivesse recebido bofetada» (Abel Saraiva).
ARRENEGAR – zangar; ralhar com alguém (Joaquim Manuel Correia). Arrenegado: zangado.
ARRENHAR – redemoinhar; andar em volta; o m. q. remunhar (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
ARREPESO – arrependido; cheio de pena (José Pinto Peixoto).
ARREQUALHO – girino; peixe cabeçudo (Júlio António Borges).
ARRESINADO – zangado; encolerizado. «Quem o ousasse desafiar, tinha de se haver com o seu génio arresinado» (Carlos Guerra Vicente).
ARRETO – cada um dos cordões de videiras da vinha, geralmente presas a um arame (Pínzio).
ARRIBAR – melhorar de saúde; arrebitar; erguer.
ARRIÇAR – lavrar o centeio com arado apropriado, quando tem apenas meio palmo (Júlio Silva Marques). O m. q. aricar.
ARRIFEIRO – brigão; grosseiro; mal educado.
ARRIFENA – zanga; briga. «Uma pessoa não pode andar com arrifenas com a sua mulher» (Joaquim Manuel Correia).
ARRIGAR – arrancar o linho da terra (Júlio António Borges).
ARRIMADEIRO – tronco de madeira que se coloca em primeiro lugar na lareira e sobre o qual se apoiam os troncos mais pequenos (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
ARRIMADOIRO – o m. q. arrimadeiro (Clarinda Azevedo Maia).
ARRIMAR – bater; castigar – arrima-lhe forte. Encostar; segurar; apoiar – arrimar o lume. Arrumar; colocar num lugar – arrima-o no canto.
ARRIMO – encosto; apoio; amparo.
ARROBA – medida de peso, equivalente a quinze quilos. Clarinda Azevedo Maia registou a arroba espanhola, equivalente a 11,5 quilos.
ARROCHADA – paulada; pancada com arrocho.
ARROCHAR – apertar a carga com a corda, recorrendo ao arrocho. Júlio António Borges acrescenta: espantar; oprimir.
ARROCHE – moca; cacete (Adérito Tavares) – de arrocho.
ARROCHINADO – apertado (Vítor Pereira Neves). Joaquim Manuel Correia escreve arrechinado.
ARROCHINAR – apertar. Júlio António Borges acrescenta: vestir muita roupa.
ARROCHO – pedaço de pau a que se recorre para apertar a carga aos burros, entalando-o na corda e volteando. Pau que serve de bengala ou de arma: deu-lhe com um arrocho. Pessoa teimosa e mal comportada: é torto como um arrocho.
ARRODEAR – andar à volta. Colocar o gado junto, a uma sombra. Também se diz arrodiar.
ARROLAR – embalar uma criança (José Pinto Peixoto). Para arrolar os meninos era uso entoar canções.
ARROMBOSO – rico; grande; extraordinário (Clarinda Azevedo Maia – Lageosa da Raia). Boda arrombosa: casamento rico, de arromba.
ARROZ GORDO – arroz de coelho ou de pombo que é uso comer no dia de Entrudo, precedendo o bucho (Manuel Leal Freire).
ARRUADO – disposto em fileira, em ordem (Francisco Vaz). Seguido (José Prata).
ARRUPAR – subir; ajudar a montar; erguer; arribar. José Pinto Peixoto refere arripar.
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ALOFADA – travesseira; almofada (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
ALOISA – pequena borboleta.
ALOMBAR – carregar às costas, sobre o lombo. Alombou com o carrego.
ALPARGATA – calçado leve, de goma e lona, comprado em Espanha e muito usado pelas mulheres. Também se diz alpergata. Franklim Costa Braga, de Quadrazais, escreve alpragata. Maria José Ricárdio Costa, de Aldeia do Bispo, recolheu alpercata. Nalgumas terras chamam-lhe simplesmente sapata.
ALPENDRADA – parte do curral coberta pelo alpendre, onde se guardam utensílios da lavoura, lenha e palha. Também se chama cabanal.
ALPENDRE – telheiro.
ALPERCATAR – ter cuidado; acautelar.
ALPISTE – arroz – termo jocoso e depreciativo (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia da Ponte).
ALPONDRAS – pedras que permitem atravessar a passo uma ribeira; o m. q. poldras.
ALQUEIRE – caixa rectangular de madeira, com um dos lados inclinado, utilizada para medir cereais. Medida de 16 litros (na generalidade do concelho do Sabugal). À semelhança do almude, a medida do alqueire varia de terra para terra – por exemplo, em Pêga equivale a 14 litros. Clarinda Azevedo Maia registou alquêre.
ALQUEIVAR – lavrar a terra para a deixar de pousio. O m. q. abarbeitar.
ALQUERNOQUE – sobreiro (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia do Bispo). Também se diz alcornoque.
ALQUEVE – terra alta lavrada, preparada para receber semente. Os dicionários registam alqueive.
ALQUITARRA – alambique portátil; caldeira para fazer aguardente. É composto pela caldeira (onde se coloca o engaço), o capitel (que recebe o vapor vindo da caldeira), o tubo (onde o vapor se liquefaz) e refrigerante (vasilha onde cai a aguardente). Leopoldo Lourenço regista alguitarra.
ALQUITÃO – banco de madeira onde as mulheres se ajoelhavam para lavar a roupa (Soito).
ALQUITREQUE – indivíduo muito mexido; um leva e traz (Rebolosa). Pessoa reles e de pouca importância (Duardo Neves). O m. q. alquitaque (Rapoula do Côa).
ALROTAR – arrotar.
ALROTE – arroto.
ALTANAR – casar – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
ALTAR – peito com seios volumosos (Júlio António Borges) – expressão jocosa.
ALTO – carro ligeiro; automóvel (Clarinda Azevedo Maia – Batocas).
ALUADO – lunático; parvo, doidivanas. A um afluente do Côa, que desagua no Sabugal, vindo da Urgueira, chamam ribeiro dos Aluados.
ALUGAR – acomodar uma besta, para nela facilmente montar (Francisco Vaz).
ALUMIAR – iluminar; dar luz. No norte (zona de Lamego) chamam alumios aos relâmpagos que vêm com as trovoadas.
ALUMIEIRA – tocha de palha (de alumiar – dar luz). Com a alumieira se alumiava nas noites escuras e se chamuscavam os porcos na matança.
ALVANAR – aqueduto de pedra por onde escorre a água, nos campos. «Saiu dali e foi refrescar o rosto ao alvanar» (Carlos Guerra Vicente). Mais a sul, em Monsanto, diz-se alvanel (Maria Leonor Buescu).
ALVANDIEIRA – pessoa que anda sempre a passear, que não para quieta (Júlio António Borges).
ALVEDRIO – livre arbítrio; vontade que não encontra constrangimento (Júlio Silva Marques).
ALVEITAR – veterinário amador; curandeiro de animais. José Prata também refere alvitar. Em geral era o ferreiro que nas aldeias exercia também a função de alveitar, por contraposição ao barbeiro, que curava as pessoas.
ALVÉOLA – ave pequena, de cauda comprida, que acompanha os lavradores nas aradas à cata de insectos na terra revolvida, a que também se chamam lavadeira. Também se diz arvéola.Maia para sul, nas chamadas Terras do Campo chamam-lhe lavradeira e lambrandeira (Maria Leonor Buescu).
ALVER – desafogado; espaçoso. «Casa alver» (Júlio Silva Marques).
ALVORÁRIO – doidivanas; maluco (José Prata).
ALVORADA – descarga de foguetes lançada pela manhã nos dias festivos. Segundo José Prata, raramente se excedem as cinco dúzias de foguetes. Também se chama alvorada ao rufo do tambor em dia de festa: «O povo acompanha o batalhão nos vivas e aclamações e o tambor toca uma alvorada» (Joaquim Manual Correia).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

leitaobatista@gmail.com

Damos continuidade à apresentação do léxico de palavras e expressões populares usadas em Riba Côa. Para além dos termos colhidos em trabalho de campo, ouvindo as gentes falarem entre si, também se colheram frutos de alguns pomares alheios, nomeadamente de monografistas que editaram livros fazendo referência ao léxico raiano.

ACHADA – planície pouco extensa em terreno montanhoso; pequeno planalto.
ACHACADO – adoentado; que sofreu achaque.
ACHAMBOADO – mau; grosseiro; da má qualidade. Falar achamboado: falar do povo; fala simples e rude (expressão recolhida por Clarinda Azevedo Maia nos Fóios).
ACHANASCADO – mau; reles; de má qualidade. Fala achanascada: falar do povo; fala simples e rude (expressão recolhida por Clarinda Azevedo Maia nos Forcalhos).
ACHAQUE – defeito; vício; doença.
ACHICADO – abaixado; acocorado.
ACHICAR – agachar, abaixar; humilhar.
ACHINCALHAR – humilhar, fazer pouco de.
ACHUDA – batata encortiçada por ter ficado muito tempo na terra (Duardo Neves).
ACINCHO – folha de madeira ou tira metálica enrolada e perfurada, usada para fazer o queijo. Luísa Lasso Charters (de Sortelha) recolheu com o mesmo significado os termos cinho e ancinho.
ACOANHAR – limpar o pão (gão de centeio) dos resíduos que contém após a malha. Varrer a eira com a coanha (vassora feita a partir de uma planta silvestre).
ACOBARDAR-SE – ter medo, mostrar-se tímido; fazer cerimónia (Clarinda de Azevedo Maia).
ACOIMAR – tratar de forma injuriosa. Castigar; sujeitar a coima.
ACOIMADO – tratado injuriosamente; castigado; sujeito ao pagamento de coima.
ACOJINER – morrer (termo recolhido por Clarinda Azevedo Maia na Lageosa da Raia).
ACOMODO alojamento.
ACOMPANHAMENTO – cerimónia religiosa que acontece após o funeral de alguém. O povo, com o pároco na dianteira, vai em procissão à casa da família enlutada, rezar pelo defunto. Franklim Costa Braga acrescenta: «comitiva do noivo que no dia do casamento se desloca a casa da noiva».
ACONAPAR – remendar a roupa; deitar conapos (remendos).
ACONCHAVAR – costume que consiste numa aposta, ou ajuste, entre duas pessoas, normalmente crianças, feita pela ligação dos dedos mindinhos. Aquele que no dia de Páscoa primeiro mandar rezar o outro recebe um oflar (geralmente um ovo cozido). Abel Saraiva, dos Gagos (concelho da Guarda), regista a fórmula do aconchavo: «Aconchavar, aconchavar / até ao dia do oflar / nesse dia te mandarei rezar». José Pinto Peixoto, da Miuzela, refere contratar. Manuel Leal Freire, da Bismula, chama-lhe enganchar (pelo enganchar dos dedos).
ACORCEAR – arrastar pedras com a corça (plataforma de madeira, o m. q. zorra) – termo recolhido por Clarinda Azevedo Maia em Aldeia do Bispo.
ACORDAR-SE – lembrar-se (do Castelhano) – termos recolhido por Clarinda Azevedo Maia em Vale de Espinho.
ACRAPULAR – apular, apanhar, suster algo (Rapoula do Côa).
ACTIVA – faca – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
ACUDADEIRA – cunha de ferro usada pelo pedreiro para talhar a pedra.
ACUDIR – retorquir; responder à chamada.
AÇUGAR – açular; assanhar; incitar o cão a morder.
ADEITO – porção de linho, correspondente a 50 estrigas (quantidade que se coloca na roca para fiar). Um adeito corresponde a dois afusais e cada afusal pesa dois arráteis (459 gramas). José Pinto Peixoto refere adeiço.
ADENTA – fase em que nascem os dentes às crianças (Júlio António Borges).
ADICAR – ver, observar – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
ADIVINHA-NEVES – pássaro preto, que surge em bandos no inverno que, diz-se, antecedem os nevões.
ADJUNTO – reunião; ajuntamento.
ADMENOS – a menos que.
À DOCA – à sorte, de qualquer maneira. Provirá da expressão latina ad hoc (Júlio Silva Marques).
ADOÇANTE – açúcar – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
ADONDAR – tornar dondo; amaciar.
ADREDE – de propósito; com esse mesmo fim. Ir adrede: ir de coisa feita. «Fogueira adredemente preparada» (Joaquim Manuel Correia).
ADREGA – finório, matreiro, espertalhão. «ciganos ou adregas» (Manuel Leal Freire).
ADUA – vez; sistema comunitário que estabelece a regra da alternância no uso comum de qualquer coisa, nomeadamente as águas para rega e o forno. «Apesar de não estar o uso da adua regulado por escrito, todos o seguem» (Joaquim Manuel Correia). Em Figueira de Castelo Rodrigo usa-se a expressão à duia (Carlos Guerra Vicente).
ADUANA – alfândega (do Castelhano).
ADUAR – dividir de forma justa e equilibrada a água da rega pelos vários proprietários que dela beneficiam; seguir o sistema da adua.
ADUBAR – condimentar a sopa, temperar.
ADUBO – gordura derretida utilizada na cozinha como tempero.
ADUELA – costela; juízo (Francisco Vaz). Cada uma das tábuas que fazem o corpo de um pipo.
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

leitaobatista@gmail.com

Despois de alguns artigos de enquadramente ao modo de falar dos povos de Riba Côa, incia-se agora a publicação de um léxico, que contém alguns das palavras e expressões populares usadas na região. Para além dos termos colhidos em trabalho de campo, ouvindo as gentes falarem entre si, também se colheram frutos de alguns pomares alheios, nomeadamente de monografistas que editaram livros fazendo referência ao léxico raiano.

ABAFADIÇO – calmoso; encalorado – tempo abafadiço.
ABAIXAR – fazer as necessidades no campo – abaixar as calças.
ABALADA – saída; partida do lugar onde se está – estou de abalada.
ABALADIÇA – última rodada bebida numa súcia de amigos ( a que antecede a abalada).
ABALAR – ir embora; partir. As pessoas nunca usavam a expressão ir embora, mas sempre abalar: «Esse bruto deixou abalar a égua» (Joaquim Manuel Correia). Mais para norte, em Figueira de Castelo Rodrigo, traduz-se por «mal vestido» (Júlio António Borges).
ABALDEAR – tornar baldio. Diz-se que uma propriedade é abaldeada quando se toma por passagem, o que pode fazer com que se torne caminho público.
ABALOFADO – inchado; gordo; balofo.
ABALROAR – deitar abaixo; deixar ao desmazelo; devassar.
ABANADELA – abanão; safanão; sacudidela.
ABANCAR – sentar para demorar.
ABANDALHAR – descuidar; perder a dignidade. Uma pessoa que veste mal é abandalhada.
ABANO – utensílio de junco entrelaçado, de forma circular, seguro por cabo de madeira, que serve avivar o lume.
ABANTESMA – fantasma; espectro. José Pinto Peixoto, da Miuzela, refere abentesma.
À BARBA LONGA – à custa dos outros; de borla.
ABARBATAR – deitar as mãos a qualquer coisa; apanhar; surripiar; tirar algo a alguém.
ABARBEITAR – dar barbeito à terra, ou seja, lavrá-la e deixá-la em repouso. José Pinto Peixoto refere aberbeitar.
ABARROTAR – encher o mais possível; atulhar; atestar. Diz-se que a panela está a abarrotar quando demasiado cheia, a deitar fora. Uma pessoa abarrota-se quando come em excesso, à tripa-forra.
ABASBAR – encher demasiado (Júlio António Borges).
ABEBOREIRA – figueira que dá abêboras.
ABÊBORA – abebra (ou abêbera); figo temporão. Clarinda Azevedo Maia registou outras variantes: bêbora, bebra, breba.
ABELHANA – avelã (Júlio António Borges) – do Castelhano (avellana).
ABELOIRA – dedaleira, planta existente em montes e bordas de caminhos (Júlio Silva Marques). Borboleta (José Pinto Peixoto).
ABERTA – intervalo na chuva. Lá vem uma aberta para enganar a esperta (adágio).
ABESPA – vespa; abelha brava. Também se diz: bespa, abêspera, abêspora, abespra.
ABETOIRO – abeloira; planta frequente na serra.
ABINADA – diz-se de uma aldeia anexa a outra do ponto de vista eclesiástico (Clarinda Azevedo Maia recolheu esta expressão nas Batocas). A palavra derivará de «binar», que significa, em linguagem eclesiástica, dizer duas missas no mesmo dia, o que acontece ao sacerdote que tem a seu cargo duas paróquias.
ABOBORO – abóbora pequena, ainda muito tenra. «E este aboboro é pró caldinho» (Joaquim Manuel Correia).
ABÓBRA – abóbora.
ABOBRADA – aboborada; papas doces de abóbora com leite.
ABOCANHAR – enxovalhar o próximo; difamar; censurar. Duardo Neves registou abocanar, a que atribui o significado anterior, dando a abocanhar o significado de «apanhar e lambuzar os alimentos; comer à maneira dos cães». Já José Prata refere que o gado bravo se escapava de Espanha para Portugal, abocanhando as colheitas.
ABONADO – rico; abastado (termo recolhido por Clarinda Azevedo Maia nos Forcalhos).
ABORNAR – arrefecer a sopa (Francisco Vaz).
ABRANGAR – vergar com o peso da carga; puxar para baixo o ramo de uma árvore (Duardo Neves).
ABRANGER – dar, chegar ao pé. Abranger pão para carregar o carro: diz-se quando se carrega o carro após a ceifa para transportar os molhos do centeio para a eira.
ABRASINADO – abrasado; cheio de calor (Júlio António Borges).
ABRIGADA – lugar soalheiro, resguardado do vento.
ABRIR O SOL – aparecer o sol por entre as nuvens.
ABROLHAR – brotar; rebentar. Clarinda Azevedo Maia recolheu este termo nos Forcalhos, usado com o significado de: mortificar; cobrir de espinhos.
ABRUNHO – murro; soco.
ABUISSE – desejo vão, que se não quer ou não se pode concretizar (Duardo Neves).
ABURRIMENTO – aborrecimento (do Castelhano).
ABURRIR – aborrecer (do Castelhano).
ACABADOTE – velho; um tanto acabado.
ACAÇAPAR – agachar, abaixar. Também se diz acachapar.
ACACHINAR – matar (os coelhos) com uma pancada na cabeça.
AÇAFATAR – mexericar; falar da vida alheia: lá anda ele a açafatar.
AÇAFATE – pequeno cesto de verga, de bordo baixo. Também se diz safate.
AÇAFATEIRO – intriguista, que açafata (sobretudo usado no feminino: açafateira).
ACAGAÇADO – amedrontado, assustado.
ACAMALHOAR – virar a terra em camalhão (leiva de terra virada pelo arado ou pela charrua); lavrar.
ACAMBOAR – meter ao cambão (cabo de madeira que liga à canga); rebocar. Duardo Neves traduz assim: «acto de ligar duas ou mais juntas de vacas a puxar pelo mesmo carro ou charrua; prestar ajuda».
ACAREAR – dar careio; dar guarida; recolher; cuidar. Clarinda Azevedo Maia refere acariar, que traduz por: «juntar, reunir, ir em busca de».
ACARRANJA – transporte do centeio para a eira no carro das vacas, onde formará a meda. Também se diz acarreja.
ACARRANJAR – fazer a acarranja; carregar; transportar. Também se diz acarrejar e acarjar.
ACARRAR – alapardar; esconder e ficar imóvel. Descanso das ovelhas na hora de maior calor, normalmente à sombra de uma árvore. «O javali acarrou numa densa mancha de matos» (Dr Framar, in Caçadas aos Javalis).
ACARRETAR – transportar em carro de tracção animal. Também se diz acartar.
ACEITA – buraco no solo aberto pela toupeira (termo recolhido por Clarinda de Azevedo Maia em Vale de Espinho).
ACELGA – planta comestível parecida com a beterraba, com a diferença de não lhe engrossar a raiz. Usada para fazer sopa.
ACENDALHAS – lenha miúda, usada para se acender o lume (Júlio António Borges).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

leitaobatista@gmail.com

Variados factores influenciaram os habitantes de Riba Côa no seu falar, contribuindo para a criação de uma espécie de «dialecto empobrecido», com muitas originalidades, como de resto observou e explanou a filóloga Clarinda de Azevedo Maia no seu estudo «Os Falares Fronteiriços do Concelho do Sabugal e da vizinha Região de Xalma e Alamedilla», datado de 1964.

Mas de onde provém essa forma de falar que se enraizou na raia ribacudana? Francisco Vaz (in Alfaiates na Órbita da Sacaparte, Lisboa, 1989), lança alguma luz, aventando possíveis fontes desse linguajar peculiar, sobretudo no que reporta ao léxico: «O idioma leonês que nos embalou o berço; a tradição cujas raízes não secam; vocábulos de criação original e simbólica, colhida das coisas; também a lei do menor esforço; a onomatopeia que supõe erudição».
A influência mais notada, segundo a generalidade dos estudiosos, terá sido o idioma do país vizinho, fruto dos contactos assíduos. A tudo isto não é alheio ainda o bilinguismo dos falantes, que ao conviver entre os dois lados da fronteira falam com facilidade ambas as línguas, fazendo com que, do nosso lado, expressões castelhanas integrem o falar normal e quotidiano das pessoas.
Depois, há a considerar que a linguagem do povo é, em todo o espaço e em todo o tempo, composta por um falar prático, funcional, recorrendo ao pragmatismo e à simplicidade de exposição, sem muitos rodeios e elaborações. Isso não significa ignorância, mas sim revela a forma nua e crua como pessoas que vivem na mesma comunidade, em amplos aspectos fechada ao mundo, necessitam de comunicar com absoluta compreensão. Claro que existem falares mais elaborados, quer ao nível da estrutura sintaxológica, quer ao nível lexical, mas isso reporta-se a compartimentos mais estanques do todo social, sobretudo no âmbito de grupos profissionais.
Grande importância teve também a corruptela ou simples deturpação de palavras e sons, que variam de terra para terra, sobretudo ao nível da pronúncia, cuja alteração acentuada conduzia a diferentes forma de expressão e a uma abundância de termos característicos.
Mas no que especialmente toca à fonética e à prosódia, há que atender à natural tendência para a simplificação de sons, dentro da lei do menor esforço, como é exemplo a supressão de sílabas ou o seu encurtamento. Também se trocam letras, sendo usual o câmbio do v pelo b, tão vivo em algumas terras ainda nos dias que agora correm (belho, binho). Também o ch se transforma geralmente em tch (tchouriça, tchapéu, bitcho), o que resulta da influência do falar castelhano. E, sobretudo, como elemento caracterizador, o som sibilante do s, que aparenta transformar-se em x (xou do Xabugal), o que na verdade não sucede. Aqui atendamos em o que nos deixou escrito o investigador miuzelense José Pinto Peixoto (in Miuzela – A Terra e as Gentes, Lisboa, 1996), na sua crítica à normalização da língua e ao consequente desaparecimento de ricas formas de expressão: «Havia uma diferença muito pronunciada nas sibilantes. Assim se distinguiam as sibililantes provenientes do s dobrado (ss), com tendência a pronunciar-se de forma dental, quase como se (asssim, passso, ect.) do c e s iniciais, ou do ç de origem árabe (sincelo, açafate, sete, etc.)».
Tenhamos também em conta as sábias palavras de Célio Rolinho Pires, autor de cavados estudos sobre o nosso berço raiano: «O homem do povo, a cuja cultura o homem erudito nem sempre deu a devida importância, regra geral prima pela simplicidade, pela lógica, pela racionalidade, pelo bom senso». Isto aplica-se especialmente ao modo de falar popular característico da nossa região.
Muito haveria a referir quanto à objectiva caracterização da forma de falar das gentes de Riba Côa, contudo não possuímos formação nem conhecimentos de Filologia que nos habilitem a tal. Contudo, também não é meta destes trabalhos esparsos mergulhar no estudo da parte sintáctica do falar. Deixemos tal tarefa para competentes linguistas, que nos evidenciem a disposição dos termos nas proposições e destas no discurso. O mesmo ocorre quanto à Fonética, campo imenso a desbravar em estudos mais profundos, baseados num rigoroso trabalho de campo, aprofundando a valoroso trabalho efectuado pela professora Clarinda Azevedo Maia, da Universidade de Coimbra.
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

leitaobatista@gmail.com

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