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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

CASEIRÃO – indivíduo natural da Moita.
CASETA – casa tosca, com uma simples cobertura, imprópria para habitação. Assim se chamava aos postos de sentinela junto à fronteira. No caminho de Aldeia da Ponte para Albergaria de Aragan havia junto à fronteira, do lado espanhol,uma dessas construções, a que os contrabandistas chamavam precisamente «a caseta».
CASIBEQUE – casaco curto; casa pequena (Júlio António Borges).
CASINHOLO – casa pequena e pobre.
CASINHOTO – o m. q. casinholo.
CASQUETA – boina – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
CASQUEIRO – pão. Chapéu velho de uso diário (Vítor Pereira Neves).
CASTANHA PILADA – castanha seca no caniço.
CASTANHA PISADA – o m. q. castanha pilada (Clarinda Azevedo Maia).
CASTANHEIRO – caule da batateira (Malcata).
CASTANHEIRO A ABRIR – castanheiro cujos ouriços «sorriem», deixando ver as castanhas.
CASTANHEIRO A CAIR – castanheiro em que as castanhas já caem dos ouriços.
CASTÃO – ponta metálica do fuso (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
CASTELHANA – faúlha; fanisca (Manuel Leal Freire). Clarinda Azevedo Maia registou, nas Batocas, o masculino, castelhano, com o mesmo sentido. Também se diz chispa.
CASTELOS – parte recortada da canga, por onde passa o tamoeiro. Nas Batocas dizem castalhos (Clarinda Azevedo Maia).
CASTIÇO – forte, bem constituído.
CASTIGAR – aceitar imediatamente, no decurso de um negócio, o preço pedido pelo vendedor para se evitar que o mesmo suba. «Nem regateou, castigou-me logo pelo que lhe pedi» (Abel Saraiva).
CASTRÃO – ponta metálica do fuso, à qual se prende a ponta do fio de linho. O m. q. castão.
CASULEIRO – peça do tear, na forma de uma caixa rectangular com vários compartimentos iguais, onde se introduzem os novelos de linho.
CASULO – interior da maçaroca de milho a que estão agarrados os grãos. O m. q. canudo.
CATA – pesquisa; busca. Fui à cata dele.
CATANCHO – interjeição, que indica admiração, o m. q. arre diacho!.
CATANO – interjeição que indica admiração, espanto, contrariedade, ira. Ah catano. Também se usa catancho.
CATAR – procurar. Matar piolhos e lêndeas com as unhas.
CATARRAL – tosse muito forte; bronquite aguda com expectoração abundante.
CATARRO – barulho; conversa fiada. Tens é catarro.
CATATUM – cabeça no ar; distraído (Júlio António Borges).
CATELA – bebedeira (Júlio António Borges).
CATERVA – grande quantidade; multidão; bando. Mais a Sul (Monsanto) diz-se catrefa (Maria Leonor Buescu).
CATITA – bem arranjado; bem vestido.
CATORZADA – grande quantidade; multidão; o m. q. caterva.
CATRAÇO – grande pedaço (Júlio António Borges).
CATRAIO – garoto; rapazola.
CATRAMEÇO – fatia grossa de pão (Júlio António Borges).
CATRAMOIÇO – pessoa pesada (Júlio António Borges).
CATRAPÃO – burro tropeçudo, de mau andar.
CATRAPISCAR – piscar o olho a alguém.
CATRAPÓ – pessoa mal feita; animal velho, que já troca as patas (Júlio António Borges).
CATRAPUZ – trote de cavalo; expressão que assinala uma queda (onomatopeia).
CATRAVADA – grande quantidade; o m. q. caterva.
CATRE – cama de ferro.
CATRINO – interjeição que indica admiração, espanto, ira. Diabo. O m. q. catano ou catancho.
CATROIO – cavalo – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
CATROLO – fatroco; grande naco de pão (Júlio Silva Marques).
CATRUZADA – quantidade elevada e indiscriminada (Júlio Silva Marques). O m. q. catorzada.
CATUNTO – bêbedo (Rapoula do Côa).
CATURNOS – meias de calçar os pés (Franklim Costa Braga, Clarinda Azevedo Maia).
CAVADA – sorte; porção de terra para cultivo de cereais, proveniente do arroteamento de moitas (Duardo Neves).
CAVALEIRO – pau móvel da burra de augar (termo muito usado mais a Sul, nas terras do Campo – Maria Leonor Buescu). Indivíduo natural de Vale de Espinho.
CAVALINHO DE NOSSO SENHOR – libelinha.
CAVALITAS – costas. Andar às cavalitas. Também se diz burricas. Júlio Silva Marques regista com o mesmo sentido: andar ao carrapacho (escarrapachado no pescoço). Duardo Neves regista por sua vez: andar à carantonha.
CAVALO – tronco onde se enxerta, juntando-lhe o garfo.
CAVALO DE PARADA – cavalo de cobrição (Clarinda Azevedo Maia).
CAVALO DE SETE MOEDAS – mulher espampanante, que se exibe muito (Vítor Pereira Neves).
CAVALO INTEIRO – cavalo que não está capado; de cobrição (Clarinda Azevedo Maia – Lageosa). O m. q. cavalo de parada.
CAVALO-MARINHO – chicote
CAVANIR – fugir; pôr-se ao fresco (de cavar). Júlio Silva Marques refere cabanir.
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

leitaobatista@gmail.com

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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

CARREIRA – corrida. Fila de cereal disposta na eira, pronta para malhar; o m. q. covela. Camioneta de transporte de passageiros. O rapaz não dá carreira direita: não tem boa orientação ou não tem bom comportamento. Sinos às carreiras: em repiques festivos.
CARREIRO – vereda; caminho estreito.
CARREIRO DE SANTIGO – Estrada de Santiago (Clarinda Azevedo Maia – Batocas).
CARRETA – peça cilíndrica do tear, onde se seguram os liços (Luísa Lasso de la Veja y Pedroso Charters).
CARRETO – serviço prestado com o carro de vacas. Comboio de carros de vacas, que efectuam determinado transporte (Duardo Neves). Carro de vacas carregado (Francisco Vaz). Fazia-se o carreto para transportar produtos de e para as estações do comboio, assim ganhando os lavradores algum rendimento suplementar. Também se chamava carreto ao costume do povo se reunir e ir carregar e transportar pedra da serra, em carros, oferecendo-a aos novos casais para construírem suas casas (Fóios).
CARRICEIRAS – espécie de feno áspero e às vezes cortante que cresce em alguns lameiros (Duardo Neves).
CARRIL – caminho estreito; quelha; carreiro; atalho (Júlio Silva Marques).
CARRILHEIRA – maxilares do porco depois de «limpos», ou seja, arrebanhados da carne. A carrilheira era guardada na tarimba ou no caniço. Usava-se para curas: se havia inchaço em homem ou em animal escarchava-se a carrilheira e barrava-se a parte dorida com a medula dos ossos.
CARRO – veículo de tracção animal – carro de vacas, carro da burra. Cinquenta fachas, ou molhos, de palha ou de feno. Júlio António Borges refere, em relação a Castelo Rodrigo: cada carro transportava doze pousas de trigo, e cada pousa correspondia a cinco molhos. Ou seja, mais a norte do Sabugal, um carro eram 60 molhos.
CARROCO – puxo de cabelo na cabeça usado pelas mulheres (Clarinda Azevedo Maia – Lageosa).
CARROLA – monte de qualquer coisa. Carrola de pão: coluna de pães sobrepostos.
CARTAPEL – pequeno funil de cartão que serve para apertar a estriga (de linho) à roca. Clarinda Azevedo Maia registou cartapele e acrescenta que o funil pode ser de pele.
CARTAPELZINHO – franzino, molezinho (José Pinto Peixoto).
CARTÃO – moita de carvalhos novos e viçosos (Duardo Neves).
CARTAXO – chasco (pássaro); indivíduo fala-barato (José Pinto Peixoto).
CARTÓFAS – batatas (José Pinto Peixoto).
CARUMBA – caruma; agulhas de pinheiro.
CARUSSÉ – petróleo (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
CARVALHIÇO – carvalho pequeno.
CARVALHO – pau alto revestido de rosmaninhos e enfeitado com bandeiras coloridas, tradicionalmente queimado na noite de S. João. O pau era obtido do corte de um grande pinho, que era transportado, levantado e «vestido» no largo do arraial. No topo do carvalho colocava-se uma boneca com bombas ou um cântaro com o gato. Tirando este último pormenor (das bombas e do gato) o carvalho continua a preparar-se todos os anos na festa sanjoanina do Sabugal.
CARVOEIRA – forno improvisado, onde se faz carvão (Leopoldo Lourenço). Forma-se uma pilha de paus com uma caixa de ar, que se cobrem com uma camada de giestas e outra de terra, deixando-se dois orifícios (respiradores). Apichado o fogo, dura oito dias a combustão lenta, retirando-se depois o carvão, que permanecerá no local outros oito dias até ser ensacado.
CARVOEIRO – indivíduo natural de Malcata (Clarinda Azevedo Maia).
CASACA – casaco curto; blusão. Nas terras do Campo (Monsanto) designa blusa de mulher solta à frente (Maria Leonor Buescu).
CASA DAS BARBAS – barbearia (José Manuel Lousa Gomes ). Nas aldeias, estas casas apenas abriam aos sábados à tarde e aos domingos de manhã, dias em que os homens se escanhoavam e aparavam os cabelos. Os barbeiros de antigamente, para além do ofício próprio dessa profissão, exerciam também a medicina nas aldeias, tratando ferimentos e curando doenças.
CASA DE VIVER – casa de habitação.
CASCABOEZES – amendoins (Adérito Tavares) – do Castelhano: cacahuete.
CASCABULHO – grande quantidade de cascas (por exemplo de batata) que se dão de vianda aos porcos (Vítor Pereira Neves).
CASCALHEIRA – terreno pedregoso, com abundância de cascalho.
CASCALHO – seixos do rio misturados com terra, usados na construção de casas ou na pavimentação de caminhos.
CASCANOTE – carolo na cabeça; moquenco (Rebolosa).
CASCAR – bater, sovar. Cascou-lhe de rijo.
CASCARÃO – casca de ovo. Júlio António Borges acrescenta: casca de ferida cicatrizada.
CASCARROLHOS – amendoins (Duardo Neves).
CASCARRUDO – cascudo; diz-se das folhas de plantas grossas e rugosas como as da figueira (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia da Ponte).
CASCO – casca de laranja (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
CASCOREL – coscorel; bolo caseiro, parecido com a filhós, mas com a massa mais fina. Vítor Pereira Neves define como: «doce frito típico do casamento». Manuel dos Santos Caria escreve cascorés e Luísa Lasso de la Veja y Pedroso Charters usa o termo coscorão.
CASCOSA – batata – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
CASCOSA DO AR – castanha – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

CARDINA – bebedeira.
CARDO – planta cuja flor é usada para coalhar o leite.
CARECA – indivíduo natural da Torre.
CAREIO – cuidado; jeito; maneiras; propósitos; tino. Joaquim Manuel Correia traduz por «forças, melhoras».
CAREIRO – variedade de sapos grandes, com pele muito rugosa (Clarinda Azevedo Maia).
CARESTIA – preços muito elevados; vida cara. Também se diz careza.
CARGA – o que é transportado, por homem ou animal. Bebedeira.
CARGAR – carregar; pôr carga.
CARGUEIRO – aquele que no contrabando transportava as cargas, recebendo por isso uma quantia em dinheiro. Os cargueiros seguiam em coluna, guiados por um guia, o cortador. Em geral, cada carga pesava 25 quilos.
CARNAGÃO – volume exagerado do amojo das vacas paridas, relativamente ao pouco leite que dão (Duardo Neves).
CARNE ESFOLADIA – carne de animal esfolado (cabrito, borrego, vitela).
CARNEIRO DA SEMENTE – carneiro de cobrição.
CARNE GORDA – toucinho.
CARNIÇA – carne (Júlio António Borges).
CARNICEIRO – assassino (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
CARNIGÃO – parte esponjosa e dura de uma ferida (Júlio António Borges).
CAROÇA – cereja. Vamos à caroça? (Rapoula do Côa). Nas terras do Campo designa a azeitona carnuda (Maria Leonor Buescu).
CAROCHA – primeira fatia que se corta do pão (Júlio António Borges).
CAROLA – coisas colocadas em fila (Júlio António Borges).
CAROLO – farinha grosseira de milho, com que se fazem papas. Júlio Silva Marques escreve arolo.
CARPINS – meias dos pés (Clarinda Azevedo Maia, José Pinto Peixoto).
CARQUEJA – planta silvestre, cuja flor se usa para fazer chá, óptimo para o fígado. Também se usa para condimentar cozinhados.
CARRADA – carga completa de um carro.
CARRANCA – cara feia; careta. Clarinda Azevedo Maia, reportando-se a Vale de Espinho, traduz assim: coleira guarnecida de pontas de ferro que serve para defesa dos cães.
CARRANCHA – pernas abertas.
CARRANCHOLA – grande carrada (Adérito Tavares).
CARRANJA – transporte do cereal para a eira, onde será malhado. O m. q. acarranja.
CARRANJAR – transportar; fazer a carranja.
CARRÃO – pessoa vagarosa.
CARRAPACHO – forma de transportar as crianças: escarrapachadas no pescoço dos adultos (Júlio Silva Marques).
CARRAPATO – carraça de pele lisa; nu. Júlio António Borges acrescenta: feijão frade; chícharo. Indivíduo natural da Bendada (Clarinda Azevedo Maia).
CARRAPIÇO – carvalho novo. Desembaraçado a subir (José Pinto Peixoto, Leopoldo Lourenço).
CARRAPITO – coruto de uma árvore; o m. q. carrapiço.
CARRASCA – azeitona de fraca qualidade.
CARRASCO – árvore idêntica ao carvalho, que prolifera nas campinas da raia. Clarinda Azevedo Maia recolheu nos Forcalhos o mesmo vocábulo traduzido por: «tipo de abrunheiro que dá frutos muito amargos».
CARRASQUEIRO – o m. q. carrasco.
CARRASQUINHA – espécie de azeitona; o m. q. carrasca (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
CARRASPANA – bebedeira.
CARRASPAR – beber em demasia, embebedar-se. «Talvez pela força do hábito, a pinga não carraspava» (Francisco Carreira Tomé). Diz-se quando a língua fica áspera por efeito de certos alimentos.
CARRASPENTO – áspero; amargo. Esta maçã é carraspenta.
CARREGAR OS MACHINHOS – embebedar-se. «Não se livrava da fama de também carregar os machinhos» (Abel Saraiva).
CARREGO – fardo ou carga que se põe às costas, no contrabando. O seu peso rondava os 25 quilos. Carga de três ou mais sacas, colocadas sobre o dorso do burro (Luís Gonzaga Monteiro da Fonseca).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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É Novembro de 1807 e o céu parece desabar sobre a terra. Sob chuva intensa, tocada a vento frio e cortante, uma horda de franceses avança a marchas forçadas pelos caminhos e veredas da enorme cadeia de montanhas que se espalham de Ciudad Rodrigo a Alcântara.

A tropa napoleónica entrou em Espanha e atingiu a cidade de Vitória, onde tomou o caminho de Burgos, Valhadolid e Salamanca. O plano da marcha manda avançar até Alcântara para dali entrar em Portugal.
O Exército de Observação da Gironda é composto por 26 mil homens e executa as ordens de Sua Majestade, o Imperador dos Franceses, Rei de Itália e Protector da Confederação do Reno, numa palavra Napoleão, o senhor da Europa Continental.
O general em chefe deste exército que macha veloz é Jean-Andoche Junot, Governador de Paris e Primeiro Ajudante de Campo de Sua Majestade o Imperador e Rei – feroz e corajoso combatente, a quem chamavam «A Tempestade». Merecera as graças do Imperador, que dele fizera embaixador de França em Lisboa e seguidamente tornara responsável pelo recrutamento e instrução militar em Paris. O conhecimento que tinha sobre Portugal pesou na escolha deste cabo-de-guerra para o comando da marcha até Lisboa onde garantiria o bloqueio continental decretado por Napoleão aos navios de e para Inglaterra.
A vaga é composta por três divisões de infantaria, comandadas por outros tantos generais de divisão: Delabord, Loison e Travot. Segue ainda uma divisão de cavalaria, sob o comando do general Kellerman. A artilharia roda igualmente, puxada por machos e bois, dada a falta de cavalos de tiro, e tendo por chefe o general Traviel.
É este o aparatoso exército, que saiu de França e que agora rompe pelas montanhas, espicaçado pelo chefe de estado-maior de Junot, o general Thiébaut, que a todo o custo quer garantir o cumprimento da cronologia da marcha.
Mas a chuva tudo retarda. As ribeiras crescem repentinamente e a lama invade os caminhos. As botas rompem-se e não há pares suficientes para a sua substituição. Cada soldado saíra do campo militar de Bayonne com dois pares de botas na mochila, mas a dureza da marcha faz com que muitos já caminhem descalços, sob o dilúvio, com as fardas encharcadas, pesando como chumbo. Ao cansaço junta-se a fome, a diarreia e o tifo, que derrubam os soldados a cada passo.
Entrados em Portugal, a ordem dos oficiais torna-se mais enérgica, impondo o avanço rápido, sempre em frente, sem parar. Neste ímpeto, cresce o perigo de sucumbir e ficar para trás. Não há camarada que quede para ajudar outro que cai de exaustão ou de fome. Desse se encarregará o campónio, que de navalha em punho o aliviará do pesadelo da existência.
Para os povos por onde o exército passa, o esfaqueamento de um francês caído sem forças ao redor de um caminho é a vingança pelos confiscos e pilhagens. A passagem da horda representa para os aldeões a chegada de uma calamidade.
O exército é composto por dezenas de milhares de bocas esfaimadas que querem ser alimentadas a todo o custo. Não há trem de mantimentos e a tropa fandanga socorre-se ao que encontra no caminho. O transporte das bocas de fogo, da pólvora e das equipagens não deixou espaço para as provisões alimentícias. Os poucos caixões de biscoito há muito que ficaram encalhados nos caminhos.
Por norma os oficiais do exército imperial aboletam-se em solares e palácios e a soldadesca ocupa os conventos e mosteiros que lhe ficam no caminho. Mas no geral dos locais de paragem em Portugal, não há habitações e nem sequer pardieiros, restando aos soldados tomar por cama o chão lamacento, onde nem sequer conseguem acender uma fogueira para lhes aquecer o corpo e secar os capotes.
Não é um exército, mas um formigueiro que avançava pelo carreiro, sujeito à chuva torrencial e ao sopro rijo do vento.
Os camponeses, que tinham guardado as colheitas como provisões para o Inverno, vêem as casas e os celeiros invadidos e rapinados. De nada vale implorar dó e clemência. Tudo acaba vasculhado e roubado, ficando as aldeias reduzidas a nada.
E as vagas não param, todos os dias chegam novas colunas, que passam e rapinam. A disciplina quebrou-se, a formatura está desfeita, a tropa segue em bandos desalinhados. Muitos dos retardatários correm as aldeias em busca de provisões e da satisfação de outras necessidades.
Onde há oficiais diligentes, a ordem é andar sem parar, mas no mais o exército rouba o pão da boca dos camponeses. As casas e as tulhas são reviradas e os animais são mortos, esfolados e esfandegados.
Quando não há aldeias para saquear ou quando a depredação alimentícia não é suficiente para suprir as bocas famintas, os soldados procuram sustentar-se com o que apanham no caminho. Mas é Novembro, e tirante alguma noz ou castanha que escapou ao rebusco dos pobres, nada há no campo. Vale a bolota dos carrascos. Saltando do caminho o soldado abaixa-se e enche os bolsos. Voltando à coluna, retoma a marcha e vai roendo a lande, que o alimenta nas jornadas.
Lá adiante, corre sem parar Junot, sempre acompanhado pelo fiel Delabord e a sua experiente 1ª divisão, deixando para trás um enorme rasto de soldados dispersos e perdidos.
«As invasões francesas de Portugal», por Paulo Leitão Batista

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Na ideia de ligar o Sabugal à Auto Estrada da Beira Interior (A23), agora sujeita a portagens, o Município do Sabugal «esturrou» algumas centenas de milhares de euros na abertura de uma estrada por trancos e barrancos, que de um momento para o outro, já lá vão dois anos, mandou suspender.

«O que nasce torto tarde ou nunca se endireita», diz o povo na sua imensa sabedoria. O rifão aplica-se ao caso em apreço, que é um exemplo de lamentável delapidação de dinheiro público, comparável a tantos outros que contribuíram para a desgraça das finanças do Estado. Alguém sonhou e quando acordou avançou a colocar em prática os ditames do devaneio. Não tinha plano de acção nem promoveu a discussão prévia. Avançou de peito aberto, desprovido de qualquer estudo e absolutamente indiferente à necessidade de consensos.
Chamaram a Engenharia Militar para abrir a estrada, pensando que isso não comportaria custos dignos de registo. Porém coube ao Município arcar com as despesas de manutenção das máquinas, reparações, combustíveis, explosivos, deslocações. Quando se deu fé a factura de meses e meses a marcar passo já ia numa cifra incomportável. As verbas despendidas eram ademais irrecuperáveis por não sujeitas a qualquer programa de financiamento.
Face ao desperdício reconheceu-se o óbvio: o Município não possui meios para tal aventura.
As obras pararam e da dita estrada aberta por entre penedias, a poder de fogo e de caterpillar, não mais se ouviu falar. Impõe-se saber o que fazer, que rumo tomar, até por que há eleições à porta.
Damos a nossa opinião, como contributo para uma discussão que se deseja.
Ao invés de se navegar sem rumo nem horizonte, impõe-se colocar rigor na conduta. E o caminho é simples:
Elabore-se o projecto (com o devido rigor técnico). Cumpra-se a inclemência da lei, submetendo-o à avaliação do impacto ambiental. Remeta-se o processo ao governo, e solicite-se, fundamentando com o interesse regional e nacional, a inclusão daquela via no Plano Rodoviário Nacional. Só assim o Estado financiará a obra.
Entretanto, face ao impasse, há que definir outras prioridades para o concelho: a requalificação da estrada nacional para a Guarda (sede do distrito) e da estrada nacional para o Terreiro das Bruxas e dali para Caria (a nossa ligação actual à A23).
«Contraponto», opinião de Paulo Leitão Batista

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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

CÃO DE VILA – indivíduo que habita na vila do Sabugal (dito em sentido pejorativo).
CÃO TINHOSO – Diabo. Cão afectado com a tinha (doença cutânea).
CAPACHO – estrado; peça circular de ráfia entrelaçada, usada como suporte do bagaço da azeitona, onde é espalhado e aguardará por ir à prensa. Clarinda Azevedo Maia traduz de modo diferente, em sinónimo de caçapo: ponta de chifre que o ceifeiro traz pendurada à cinta e onde mete a pedra de afiar a gadanha (Forcalhos).
CAPADA – rebanho de ovelhas; piara de gado.
CAPADO – bode ou chibo castrado – a que foram extraídos os testículos, com o fim de o engordar para matar. «Abate uma vitela e dois capados muito gordos» (Joaquim Manuel Correia ).
CAPADOR – homem que capa os animais; castrador. Montado mum possante macho, o capador assomava ao cimo da aldeia e soprava um apito para indicar a sua presença.
CAPADURA – pequeno corte em melão ou melancia, para verificar o seu estado.
CAPÃO – molho de vides cortadas na poda (Júlio António Borges).
CAPAR – castrar animais, cortar-lhes os órgãos de reprodução.
CAPAR A RIBEIRA – fazer saltar um seixo no cimo da água (Rapoula do Côa). também se diz capar a água (Célio Rolinho Pires). Joaquim Manuel Correia refere captar: «brincavam com as pedras finas de xisto, captando a água do pego».
CAPEIA – tourada arraiana onde se utiliza o forcão para desafiar o toiro – do Castelhano: capea.
CAPELA DO OLHO – pálpebra (Clarinda Azevedo Maia).
CAPELO – capuz de pano que protege a cabeça e o pescoço do apicultor das picadas das abelhas. Nevoeiro, ou névoa, que se forma no cimo dos montes. Clarinda Azevedo Maia apresenta um significado diferente: máscara de rede de arame usada para proteger a cara quando se tira o mel (Vale de Espinho).
CAPINDÓ – casaco curto e mal feito (Júlio António Borges).
CAPINHA – toureiro amador que, vindo de Espanha, percorria as aldeias da raia portuguesa a fim de estagiar nas capeias, exercitando-se com o sonho de um dia tourear numa praça. Ao capinha também se lhe chama maleta.
CAPUCHA – capa tradicional, com garruço que proteje a cabeça e o pescoço, muito usada pelas mulheres. À capucha: à socapa, às escondidas. «Mostrou-me então, à capucha, um saquitel que trazia» (Abel Saraiva).
CAPUCHO – costume da noite de Natal, em que os rapazes mais velhos, de cabeça encapuzada, afugentavam os mais novos (a canalha) para a cama. A designação provém do facto de ser costume colocar uma saca na cabeça. Capucho também designa um jogo tradicional – o jogo do capucho – em que um dos jogadores tapava a cabeça e tentava apanhar os companheiros que corriam à sua volta. Aquele que fosse panhado passava a ser o capucho e o jogo continuava.
CAQUEIRO – vaso de barro para flores; o m. q. caco.
CARABINEIRO – guarda alfandegário espanhol. Também designado por crabineiro. Os carabineiros eram geralmente mais severos no desempenho do serviço do que os nossos guardas-ficais, seus congéneres em Portugal, sobretudo com o chamado contrabando da barriga – aquele que se compunha por géneros alimentícios para consumo doméstico.
CARACHO – caramba (interjeição). Também se diz carache ou carago.
CARA DE CU À PAISANA – basbaque; ingénuo; anjinho. «À paisana» significa aqui ao léu, despido.
CARAMBOLA – monte de qualquer coisa, sejam, por exemplo, pedras, paus ou abóboras.
CARAMBOLO – jogo tradicional. Trata-se de um jogo de pontaria, em que se colocam de pé e em fila nozes, amêndoas, cascudos ou simplesmente bolotas. Os jogadores que se enfrentam iniciam com as mesma unidades e ficam com as que conseguem derrubar (Júlio Silva Marques).
CARAMELO – gelo; superfície de água gelada. Está tudo encaramelado. Também se diz caramelina: «está uma caramelina» (Joaquim Manuel Correia).
CARAMOÇO – carambola; montão de pedras; cabeço pedregoso. Júlio António Borges escreve caramosso.
CARANGONHA – cegonha (José Prata).
CARANTONHA – cara feia; careta. À carantonha: às cavalitas (Duardo Neves).
CARAPELA – bola de farrapos; péla. Jogo tradicional, também designado por jogo da pelota, em que os rapazes arremessam uma bola de trapos contra uma parede.
CARAPETEIRO – planta brava com espinhos.
CARAPETO – coluna de gelo na forma de estalagmite, formada da solidificação de águas que escorrem de lugares altos; o m. q. escarapeto. Espinho, pico: espetou-se-me um carapeto no dedo.
CARAPULO – componente do mangual: tira de cabedal que envolve a ponta da mangueira.
CARAVA – companhia; grupo de companheiros. Fazer carava.
CARAVELA – cata-vento para espantar pássaros. Também se diz cravela.
CARBUNCO – carbúnculo; doença que faz desenvolver insectos parasitas sob a pele. Também se diz cabrunco: «Que vos nasçam no corpo tantos cabruncos como de pelos tendes na cabeça, santarrões do diabo!» (Abel Saraiva).
CARCABIO – feijão – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
CARCÁVIO – dente – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
CARCHA – pedaço em que se dividem as batatas para cozer; talhada de melancia ou de melão. Clarinda Azevedo Maia traduz literalmente por batata, acrescentando ainda que o plural designa batatas cozidas com bacalhau (Lageosa).
CARCHAIS – ossos da cabeça do porco (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
CARCHANETA – risonho (José Prata).
CARCHANOLAS – castanholas; instrumento musical de duas peças de madeira, que se agitam com os dedos em concha. Nos Fóios eram assim designadas as matracas (Clarinda Azevedo Maia).
CARCHANOTE – salto. «Seguiam com os braços no ar dando carchanotes de feição» (José Pinto Peixoto sobre as danças populares).
CARCHANTADA – cabeçada (Adérito Tavares).
CARCHENTADA – dentada forte (Francisco Vaz).
CARCHO – pedaço de qualquer coisa: carcho de pão. Pequeno período de tempo: «se viesses à carcho comias connosco» (Júlio Silva Marques). Do Castelhano: cacho.
CARCHOILA – banco de madeira, onde as mulheres ajoelham quando lavam a roupa na ribeira (Adérito Tavares). Aumentativo de carcha (Júlio Silva Marques).
CARCÓDIA – casca de pinheiro. Também designa a faúlha (fanisca) que salta da casca de pinheiro quando arde (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia do Bispo). Também se diz carcóvia.
CARCOLÉ – codorniz (Célio Rolinho Pires).
CARDAR – não fazer coisa de jeito (Francisco Vaz); andar na boa vida. Dobrar o corpo para com a cabeça coçar ou lamber o traseiro – referente a animais (Duardo Neves).
CARDENA – cabra de cor acinzentada (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
CARDENHO – casa pequena e pobre. Lugar onde pernoitam os cabritos ao serem desmamados. Também se diz cardanho. Termo usado na gíria de Quadrazais, traduzido por casa (Franklim Costa Braga).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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Está um curso um doloso processo de destruição do Interior que conta com a cumplicidade de muitos autarcas que não defendem os interesses das suas populações.

Concelho do Sabugal - Reforma das Freguesias - 2012 - Mapa Blogue Capeia Arraiana

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Sob a divisa «agregação de freguesias», o governo quer cumprir o desiderato de extinguir órgãos locais representativos da população. Este desígnio é particularmente grave quando estão em causa aldeias do interior de Portugal que ademais à perda sucessiva de população, ao fecho de escolas, extensões de saúde, postos de correio, farmácias e outros serviços de interesse público, agora se confrontam com a perda da sua própria identidade.
A raia sabugalense tem sido particularmente fustigada por essa política de terra queimada que se pratica a partir dos gabinetes governamentais. Primeiro acabaram com as regedorias, os juízos de paz, os postos da Guarda Fiscal, da Polícia e da Guarda Republicana. O processo acelerou e só parará quando estiverem varridos de vez todos os serviços públicos de aldeias, vilas e cidades menores, concentrando-os nas grandes urbes. O economicismo prevalece em detrimento dos interesses das populações, nem que tal poupança se resuma ao valor dum prato de lentilhas.
Na generalidade das aldeias só uma instituição resistiu à fúria avassaladora da extinção: a Junta de Freguesia. É ela que confere identidade e dá voz activa à população. Mas os tempos mudaram e a pretexto da crise decidiu-se exterminar esse resquício, considerando-o desnecessário e inútil. Deixou de haver pudor, porque decretando-se o decesso da Junta de freguesia assina-se no mesmo acto a certidão de óbito da aldeia em apreço.
Foi agora conhecida a proposta da Unidade Técnica criada para a reorganização administrativa do território, que aponta para que o concelho do Sabugal passe a ter apenas 30 freguesias, menos 10 do que as actuais.
A Assembleia Municipal do Sabugal pronunciou-se a devido tempo contra a reforma, defendendo a inalterabilidade das juntas, mas os homens da comissão, lá de longe, cortaram a eito. Analisando a proposta percebe-se que em parte foi de encontro à ideia que alguns autarcas defenderam numa fase anterior à pronúncia, quando acharam que a ideia era boa. A questão que se coloca é a de como souberam os homens da dita Unidade Técnica da perfídia desses autarcas, que decidiram pelo povo, mas nas suas costas, sem o consultarem? Talvez o exemplo da futura «União de Freguesias da Ruvina, Ruivós e Vale das Éguas», uma ímpar aberração, explique o que se passou. Alguém terá telefonado e explicado aqueles senhores cinzentos, cujo presidente lamentou com hipocrisia que tenham que se encerrar tantas freguesias no interior de Portugal, por onde deveria cortar. É que a sede da nova junta funcionará na primeira dessas freguesias, impondo às outras duas o que a sua população não quer nem nunca manifestou querer.
A anuência de alguns autarcas a este infame ataque à integridade territorial das freguesias foi geralmente precedido de reuniões e de uma espécie de negociação, na qual se traçou o destino a dar à freguesia e ao povo que a habita. Os autarcas que assim agiram cometeram, digamo-lo com todas as letras, um acto de traição para com o povo que os elegeu. Foi decidir à revelia da sua vontade, sem considerarem a sua opinião.
Somos de parecer de que nenhuma freguesia do concelho do Sabugal deve aceitar render-se, anuindo à agregação numa outra. Ceder neste processo significa assassinar as nossas aldeias enquanto organismos vivos, capazes de terem voz própria e capacidade de acção.
E aqui há ainda a questão do perigoso precedente. Se hoje Badamalos, Aldeia da Ribeira e Vilar Maior se «agregam», passando a ser uma só Junta, nada impedirá que amanhã se tenham de juntar à Bismula, à Rebolosa ou até a Alfaiates, num imparável processo destruidor de identidades e liquidador das nossas terras.
Este roubo de freguesias que nos fazem segue a mesma lógica daquele que nos anunciará o fecho do centro de saúde, da repartição de finanças, da extensão da Segurança Social e dos postos da GNR. Culminará, se o deixarmos avançar, no encerramento do próprio concelho e da Câmara Municipal e no puro abandono das populações à sua sorte.
«Contraponto», opinião de Paulo Leitão Batista

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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

CANCHO – polpa dos frutos (Joaquim Manuel Correia ). Penedo; penhasco (Maria Leonor Buescu).
CANDEIA – utensílio de metal, com depósito para azeite ou petróleo, que se suspende para iluminar. Candeeiro com longo pé de madeira ou de metal, que acompanha as procissões.
CANDIL – candeia pequena.
CANDONGA – negócio ilícito; contrabando.
CANDONGUEIRO – indivíduo que anda na candonga; contrabandista.
CANEAR – morrer (Leopoldo Lourenço).
CANECO – caneca alta e estreita; chapéu alto (Júlio António Borges).
CANEJO – indivíduo com as pernas tortas, cujos joelhos roçam ao andar (Rebolosa).
CANELA – peça da lançadeira do tear, em forma de cubo, onde se enrola o fio.
CANELEIJA – recipiente ligado à moega do moinho, onde cai o grão a moer, que depois pingará para o buraco da mó (Franklim Costa Braga). José Prata chama-lhe caneleja. Clarinda Azevedo Maia acrescenta caleija.
CANELEIRA – instrumento de madeira usado para encher com fio de linho a canela do tear.
CANELEIRO – parte do tear onde se fixa a canela para enrolar fio.
CANELO – ferradura própria para o gado bovino.
CANGA – trave de madeira trabalhada e adaptada a ser colocada sobre o cachaço de dois animais de tracção, para que puxem ao carro ou lavrem a terra. A canga, normalmente feita em madeira de nogueira, contém os castelos, o vergueiro, as cravelhas e os barbantes.
CANDAÇO – engaço; pé do cacho de uvas, sem os bagos (Júlio António Borges).
CANGALHAS – dispositivo de madeira que se suspende no lombo dos burros para transporte. Há diferentes tipos de cangalhas: para a água (transporte de cântaros), para o estrume, para a lenha. Também significa óculos. De cangalhas: de pernas para o ar. Virou tudo de cangalhas. Nas terras do Campo (Penamacor, Idanha), chamam angarela ao dispositivo com que transportam os cântaros da água nos burros.
CANGRA – igreja – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
CANHA – mão esquerda.
CANHADA – calçada (José Prata). Rua íngreme (Clarinda Azevedo Maia) do Castelhano: cañada.
CANHÃO – mulher mal reputada; prostituta.
CANHO – esquerdino; canhoto.
CANIÇO – grade de madeira onde se secam (pilam) as castanhas, que se suspende na cozinha, de modo a apanhar o calor e o fumo da lareira. Armação de vime que se coloca no carro de bois (Júlio António Borges).
CANIL – pão próprio para os cães, feito de farelo (Júlio António Borges, Clarinda Azevedo Maia).
CANIVETE – habitante de Vilar Maior (Júlio Silva Marques).
CANJADA – cajado (José Prata).
CANJERÃO – jarro grande de barro vidrado (José Pinto Peixoto). Júlio António Borges refere canjirão, como sendo jarro para vinho, ou pessoa alta e desajeitada, vocábulo que reporta a Escarigo.
CANOA – pente de ornamentação, à espanhola (Francisco Vaz).
CANOCO – alimento para os animais (Duardo Neves).
CANÕES – canas de milho, já secas.
CANOSTRAS – costas; avesso. Virou-o de canostras. Também se diz calhostras.
CANTADOR – galo.
CANTANTE – galo ou galinha – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
CANTAR A MOLIANA – diz-se do choro das crianças. E serve de ameaça: vê lá se te ponho a cantar a moliana! (Júlio Silva Marques).
CANTAR DO CARRO – som estridente produzido pelo antigo carro de vacas, com eixo de pau de freixo. «O chiar dos carros era o orgulho dos lavradores que, quando chegavam a alguma localidade, faziam questão que o seu carro “cantasse” bem alto» (Norberto Gonçalves).
CANTAREIRA – estante onde se coloca a loiça e os cântaros da água; o m. q. vasal.
CANTARIA – pedra de granito bem talhada. Casa de cantaria: erguida com pedra aparelhada – casa de rico.
CÂNTARO – medida de capacidade; meio almude. A medida exacta do cântaro varia de terra para terra. Na maior parte das terras mede 12 litros. Porém, segundo Franklim Costa Braga (de Quadrazais) e Clarinda Azevedo Maia (que estudou o léxico de diversas terras da raia sabugalense) o cântaro mede 14 litros,. Lugar onde se metem os novelos quando se está a urdir a teia no tear (Clarinda Azevedo Maia – Batocas).
CANTEIRO – artista que trabalha as pedras de cantaria e alvenaria.
CANTIGAS – lérias; tretas; mentiras. Deixa-te de cantigas.
CANTIGAS DAS FILHOSES – cantares próprios do final da malha (Manuel dos Santos Caria).
CANTILENA – cantiga simples e pouco elaborada.
CANTORIA – reunião de vozes cantando, muito usado pelos rapazes da ronda, de noite. José Pinto Peixoto diferencia entre: cantorias ao profano (risos, gargalhadas sem jeito) e cantorias ao divino (cânticos religiosos próprios da Quaresma).
CANUCHO – o m. q. canudo.
CANUDO – interior da maçaroca de milho a que estão agarrados os grãos. Parte do foguete onde está contida a pólvora.
CANUTO – o m. q. canudo (Clarinda Azevedo Maia – Batocas).
CANZOADA – matilha de cães; gente reles e velhaca. Nas terras do Campo (Monsanto) dizem cãzoada (Maria Leonor Buescu).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

CAMALHÃO – terra virada pela enxada ou pelo arado. Montes de terra feitos à enxada entre as videiras (José Pinto Peixoto). Também se diz cambalhão (Clarinda Azevedo Maia). Semear batatas em camalhão: semear em regos alternados (Clarinda Azevedo Maia).
CAMBA – cada uma das duas peças curvas que formam a roda dos antigos carros de vacas, onde se aplica o rasto em ferro. Peça do arado, com curvatura, onde encaixa o dente e a rabiça (Júlio António Borges).
CAMBADA – corja, súcia.
CAMBADO – indivíduo que tem as pernas tortas.
CAMBAL – lugar escondido e com pouca circulação (Duardo Neves).
CAMBALACHE – negócio, troca – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
CAMBALACHO – conluio; tramóia; engano. Júlio Silva Marques refere cambaletche.
CAMBALHÃO – o m. q. camalhão (Clarinda Azevedo Maia).
CAMBALHEIRA – cadeia composta por anéis de ferro (Júlio António Borges).
CAMBÃO – temão; cabo de madeira que liga a canga ao arado, à charrua ou à grade, para os animais fazerem tracção. Cabo que liga o animal à nora ou à atafona. Júlio António Borges acrescenta: pau com gancho na ponta para tirar a fruta das árvores. Vara móvel da picota (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho) – ver burra.
CAMBIÇO – o m. q. cambão (Adérito Tavares). Indivíduo muito alto (Júlio Silva Marques).
CAMBO – pau grosso e comprido que forma a parte móvel da picota, ou burra de augar. Tomando a parte pelo todo, nalguns lugares chamam cambo ao próprio engenho de tirar água dos poços, como o fazem notar Francisco Vaz (de Alfaiates) e Clarinda Azevedo Maia (reportando-se às Batocas). Ver burra.
CAMBOA – ramagens colocadas no fundo do rio, sobre as quais se coloca uma rede – o tuão (Joaquim Manuel Correia).
CAMBOAR – atrelar duas juntas de vacas ao carro, para subir uma encosta (Júlio António Borges).
CAMBOS – balança de braços. Trata-se de uma barra horizontal móvel, que tem suspenso em cada extremo um prato ou um gancho, num se colocando o produto a pesar e do outro os pesos até que o fiel indique equilíbrio. Júlio Silva Marques chama-lhe câmbios.
CAMBRA – Câmara Municipal. «A adega dele é maior que a Cambra de Pinhel» (Abel Saraiva).
CAMBULHADA – cambada. Magote desordenado (Duardo Neves e José Prata).
CAMBULHÃO – uma quantidade de produtos que se juntam e se suspendem; cacho; réstia; corgalho; molhada – cambulhão de chouriças. Grupo sem ordem nem tino e que se desloca (Duardo Neves). De cambulhão: deitar tudo de uma só vez (Vítor Pereira Neves). «As recordações são como as cerejas, pegamos numas quantas e vem logo um cambulhão delas» (Abel Saraiva).
CAMBULHO – coisa mal feita (Clarinda Azevedo Maia – Fóios). Vaca muito desajeitada (Clarinda Azevedo Maia – Lageosa).
CAMIEIRAS – montes de giestas arrancadas (Meimão).
CAMISA – invólucro da maçaroca de milho; folhelho. Conjunto de todas as peças de vestuário, excepto o fato, que a noiva oferece ao noivo na véspera do casamento (Clarinda Azevedo Maia – Fóios). Em Aldeia do Bispo designa-se por muda (Clarinda Azevedo Maia).
CAMISA DE ONZE VARAS – dificuldades; apuros. Metido em camisa de onze varas.
CAMISO – camisa de criança (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos).
CAMISOLAS DE RACHA – camisolas abertas à frente e ornamentadas com laços de pano preto, usadas nos domingos e dias festivos.
CAMOECA – bebedeira. (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
CAMÕES – pessoa cega de um olho.
CAMPANA – campaínha; sino pequeno (do Castelhano: campaña).
CAMPINO – guardador de bois e vacas (Clarinda Azevedo Maia – Lageosa).
CAMPO – espaço onde uma pessoa se possa mover ou sentar (Duardo Neves).
CANA – pé de milho. Foi às canas: foi cortar milho para os animais. Clarinda Azevedo Maia refere que o pé de milho passa a chamar-se cana depois de lhe ser retirada a maçaroca.
CANABEQUE – qualidade de batata (grande e comprida).
CANABILHO – cesto velho, já sem asas (Clarinda Azevedo Maia).
CANADA – antiga medida, equivalente a dois litros. José Pinto Peixoto acrescenta: «caminho antigo murado, passagem», sendo a canadinha uma passagem estreita.
CANAFRECHA – planta em forma de cana que cresce espontaneamente nas tapadas. Francisco Vaz e Duardo Neves referem canafreche, Clarinda Azevedo Maia refere canaflecha. Era muito usada pelas crianças para fazerem trabalhos manuais, por ficar mole depois de seca.
CANALHA – garotada; criançada.
CANALHADA – bando de garotos.
CANALHO – garoto pequeno (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos).
CANÃO – pé de milho a que já foi retirada a maçaroca.
CANASTRA – cesta larga e baixa. Clarinda Azevedo Maia acrescenta: berço de verga (Batocas).
CANASTRÃO – cesto grande de verga com fundo rectangular e duas asas. Júlio António Borges acrescenta: mulher mal feita.
CANASTRILHO – cesto velho, já sem asas (Clarinda Azevedo Maia).
CANASTRO – corpo. Deu-lhe cabo do canastro. Cesto pequeno (Clarinda Azevedo Maia).
CANAVEIRA – torga ou urze, planta da serra (Carlos Alberto Marques).
CANAVILHO – vasilha já muito velha; qualquer coisa em mau estado (Júlio Silva Marques). Cesto velho (Duardo Neves).
CANCELA – grade de madeira com que se fecha uma portaleira. Com várias cancelas se forma o bardo das ovelhas, que também se designa simplesmente por cancelas.
CANCELA BARDADA – bardo; aprisco (Clarinda Azevedo Maia – Batocas).
CANCELAL – bardo; redil; aprisco; vedação para recolher o gado.
CANCELO – cancela pequena.
CANCHA– passada larga, para ultrapassar um obstáculo ou medir um terreno. O m. q. chanca. Mais a Sul (Monsanto) também se diz canchada (Maria Leonor Buescu).
CANCHAL – terreno onde há penedos e penhascos. Terra alta; baldio (Adérito Tavares). Terreno cheio de giestas (Duardo Neves). Lugar muito pedregoso (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos).
CANCHEIRA – terreno pedregoso e improdutivo, podendo ter pequenos espaços e arbustos (Duardo Neves).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

CAINCHEIRA – lugar muito pedregoso; barrocal (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
CAISCOL – cachecol.
CAISNADA – quase nada. Um caisnada de sal.
CAIXÃO DAS ALMAS – caixão pertença da irmandade das almas, utilizado à vez pelas famílias pobres (Franklim Costa Braga).
CAJADA – bengala; pau dos pastores. Do Castelhano: cayada.
CAJADO – nome que o povo dá a uma constelação celeste (Clarinda Azevedo Maia). O m. q. cajada.
CAL – estrutura, habitualmente de pedra, para conduzir a água de rega (Duardo Neves). Alguns autores escrevem cale. O m. q. caleiro.
CALABAÇOTE – doce ou compota de abóbora; aboborada (abóbora cozida com leite e açúcar). Do Castelhano: calabazote (Clarinda Azevedo Maia).
CALABRE – corda grossa de segurar a carga do carro das vacas; o m. q. leias. Dispositivo para elevação de pedras, associado a uma roldana (José Pinto Peixoto).
CALAÇAL – preguiçoso, mandrião. O m. q. calaceiro.
CALACEIRO – mandrião, preguiçoso; vadio; que vive à custa dos outros. O que se insinua para que lhe dêem o que pretende; caloteiro; pedinchão importuno (Joaquim Manuel Correia ).
CALADEIRA – peça do carro de vacas que anula o ruído provocado pela fricção do eixo com a cheda (Júlio Silva Marques). O m. q. coqueta.
CALAMPEIRAS – lugares cimeiros que envolvem o corro onde se realizam as capeias, nos quais a assistência toma lugar. Franklim Costa Braga escreve calampreias.
CALAPACHO – nú.
CALÇA-CAÍDA – indivíduo natural da Ruvina.
CALCANHEIRA – calcanhar do pé (Clarinda Azevedo Maia).
CALCANTAS – botas – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
CALCANTES – pés; sapatos. Termo também integrante da gíria de Quadrazais com o mesmo significado (Nuno de Montemor).
CALÇAR – colocar um calço para segurar ou suster algo. Calçar o carro.
CALÇAS RACHADAS – calças para crianças, com abertura por trás para que façam as necessidades bastando baixar-se.
CALCES – calças (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
CALÇO – algo que serve para equilibrar ou segurar. Pedra de equilibrar as panelas ao lume; pedra de colocar junto à roda do carro; cunha de segurar uma porta.
CALCOS – sapatos – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
CALDA – mistura de água com veneno próprio para desparasitar as plantas.
CALDEAR – deitar a calda com o uso do pulverizador. Misturar; temperar; crestar: mãos caldeadas pelo calor.
CALDEIRA – alquitarra; alambique portátil. Recipiente de latão, com asa, maior que o caldeiro. Cova feita ao redor do tronco de uma árvore, para suster a água das regas.
CALDEIREIRO – homem que andava de terra em terra a concertar panelas, caldeiros, pratos e outros utensílios de metal (Leopoldo Lourenço).
CALDEIRO – grande recipiente em folha de metal, onde se aquecia a vianda para os porcos e a beberagem das vacas, suspendendo-o nas cadeias, sobre o lume.
CALDIVANA – caldo muito aguado e muito mal temperado.
CALDO – sopa.
CALDO BORRAÇUDO – sopa de vagens secas, que se come no Inverno.
CALDO ESCOADO – ementa raiana que consiste num caldo de batatas cortadas em meia lua, que depois se escoam para um recipiente com fatias de pão, dando assim origem a dois pratos: as batatas, que se comem com carne frita, e a miga. Também se drsigna caldo de dois tombos.
CALDUDO – sopa de castanhas secas. Vítor Pereira Neves refere caldulo.
CALECHO – cálice; copa. «Calecho de licor de ovos ou de anis del mono…» (Manuel Leal Freire).
CALEIRO – canal de irrigação; cano de escoar a água dos telhados.
CALEJA – recipiente ligado à moega do moinho, para onde cai o grão a moer, que depois pingará para o olhal da mó. Mais a Sul (Monsanto) designa ainda a calha de madeira que encaminha a água nas regas (Maria Leonor Buescu).
CALEJO – lugar ou caminho estreito; viela (Júlio Silva Marques) – do Castelhano: calleja. Clarinda Azevedo Maia refere caleja.
CALENDÓRIO – história sem interesse (Júlio António Borges).
CALÊTE – terra ou pessoa de má qualidade (Júlio António Borges).
CALHABOÇO – calabouço; prisão.
CALHABRESA – cabra. «Sua calabresa!» (Carlos Guerra Vicente).
CALHADREIRA – mulher bisbilhoteira, alcoviteira (Duardo Neves).
CALHAMAÇO – mulher de má índole, com mau comportamento.
CALHANDRA – Mulher de mau porte. Cotovia, pequena ave cinzenta que canta de madrugada. «Já canta a calhandra, já rompe a manhã» (Nuno de Montemor). Pedra de grandes dimensões com que se jogava o fítis (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
CALHAROTE – pessoa que fala demasiado (Júlio António Borges).
CALHE – rua estreita. Do Castelhano: calle.
CALHOADA – pedrada; o m. q. barrocada.
CALHOSTRAS – costas; avesso. Virou-o de calhostras. Também se diz canostras.
CALIADOR – homem que barra as paredes com cal; caiador (Clarinda Azevedo Maia).
CALIAR – caiar (Duardo Neves, Clarinda Azevedo Maia).
CALÍPIO – eucalipto. Segundo Clarinda Azevedo Maia usam-se outros sinónimos: calita, calito, calitro.
CALMA – calor; tempo abafado. Está uma calma!.
CALMEIRÃO – corpulento; preguiçoso.
CALOIRA – preguiça (Júlio António Borges).
CALORAÇA – calor muito intenso.
CALUDA – interjeição usada para impor silêncio.
CALUVA – carne da cabeça e do pescoço do porco (Manuel dos Santos Caria). Mais a Sul (Monsanto) usa-se a expressão calubra com o mesmo sentido (Maria Leonor Buescu).
CALVÁRIO – cruz. Fazer calvários: fazer cruzes (Clarinda Azevedo Maia).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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BRAÇA – medida que vai de uma mão à outra mantendo os braços estendidos.
BRAÇADA – molho que se abrange com os braços (também se diz braçado). Medida que vai de uma mão à outra com os braços estendidos lateralmente.
BRACEJO – planta silvestre, utilizada para a cama dos animais e para fazer vassouras, estrados, capachos. Também se diz varacejo ou varaceja. Os dicionários registam baracejo.
BRACELETE – pulseira que se usa no braço. Com o advento do relógio de pulso passou a chamar-se bracelete aos tirantes pelos quais o mesmo se aperta.
BRAGAS – calças largas e curtas, usadas em dias de festa.
BRAGUILHA – parte das calças onde estão os botões de apertar. Também se diz perchenóla.
BRANCA – clara do ovo. A gema designava-se por amarela.
BRANDO – mole; doente.
BRANQUEAR (o linho) – lavá-lo em barrela, ou seja: fervido em água, sabão e cinza.
BRANQUINHO – pão de trigo – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
BRANQUINHOSO – pão de trigo – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
BRAVO – rebentos da videira que ainda não foi enxertada. Também se diz bravio.
BRECA – fúria; ira. Deu-lhe a breca num repente.
BREJOEIRO – estadulho; fueiro; pau comprido (Júlio António Borges).
BREQUEFESTA – festa de arromba; grande pândega; comezaina. Júlio António Borges refere brequefestes, que traduz por: banzé; zaragata.
BRIAITO – vestido muito berrante, geralmente de cor vermelha (Júlio António Borges).
BRICHE – espécie de saragoça grossa. «Vestia inteiramente de briche pardo» (Nuno de Montemor).
BRICOLA – pequeno concerto nos sapatos (Júlio António Borges).
BRIDO – vidro (José Manuel Lousa Gomes).
BRINCA – brincadeira; divertimento. A canalha anda na brinca.
BRIOL – vinho; bebedeira. O termo, embora de uso generalizado, fazia também parte da gíria de Quadrazais, com o mesmo significado (Nuno de Montemor).
BRITAR – abrir os ouriços com os pés ou com um martelo de madeira apropriado para recolha das castanhas..
BROCA – vaca – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
BROCHA – pequeno prego de cabeça larga, com que se ferrava o calçado. O m. q. carda.
BROCHO – bruto; estúpido (José Pinto Peixoto).
BROCO – bronco (José Pinto Peixoto). Boi – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
BRÓDIO – festa; divertimento; paródia (Nuno de Montemor).
BROEIRO – que se desfaz com facilidade; que se esboroa ou esmigalha. Pedra broeira.
BROSSA – pedra miúda de saibro (Leopoldo Lourenço).
BRUSCO – escuro; nublado; desagradável. Tempo brusco.
BRUXA – espécie de fogareiro de barro crivado de buracos (Joaquim Manuel Correia).
BUA – água (linguagem infantil).
BUCEL – garoto gordo e barrigodito (Duardo Neves).
BUCHA – refeição ligeira; mastiga. Comer dos gadanheiros a meio da manhã (Manuel Santos Caria). «Passei o dia com uma bucha de pão e queijo que levei no bornal» (Abel Saraiva).
BUCHEIRA – peça do enchido feita com pedaços de bucho (estômago), coração, bofes (pulmões) e carnes ensanguentadas. Júlio Silva Marques e Francisco Carreira Tomé referem buchana e Clarinda Azevedo Maia bechana. Também mais a Sul (Monsanto) se usa a expressão buchana (Maria Leonor Buescu).
BUCHO – estômago. Peça do enchido, feita com o estômago do porco, que é cheio com carne, ossos, rabo, orelha e outras partes. Tradicionalmente o bucho é comido no Domingo Gordo. Parte do braço, entre o ombro e o cotovelo (Clarinda Azevedo Maia – Batocas).
BUEIRO – rego feito à roda dos caminhos para escoar as águas. Cano (acrescenta José Pinto Peixoto).
BUENO – exclamação de afirmação (do Castelhano).
BUFANDA – cachecol (Júlio António Borges e Clarinda Azevedo Maia).
BUFARINHEIRO – vendedor ambulante de bugigangas.
BUFO – mocho real (Vítor Pereira Neves).
BULHA – briga; desordem; confusão.
BULIDOR – pau de ranhar o forno. O m. q. arranhadoiro.
BULIR – mexer; andar; trabalhar. Toca a bulir!.
BURGESSO – indivíduo estúpido; parvo. Júlio Silva Marques define assim: insulto equivalente a animal, besta.
BUREL – pano grosseiro de lã, muito usado para fazer capotes.
BURNIZEIRO – chuva miudinha e de curta duração (Duardo Neves).
BURRA – picota; engenho para tirar água dos poços. Tem outros nomes, variando conforme as terras: burra de augar – ógar ou ugar – (Sabugal ), ogadoiro (Pêga), picanço, esteio (Vila Fernando), cambo (nos dois últimos casos toma-se a parte pelo todo). São seus componentes: o esteio, gacha ou galhada (pau bifurcado com a base enterrada no solo); o cambo, travessal ou cavaleiro (pau móvel); o eixo do esteio (ferro que atravessa a bifurcação para segurar o cambo); o contra-peso (pedra que é presa a uma das extremidades do cambo); a vara, cambão ou vareiro (pau que se suspende da extremidade do cambo e onde se dependura o balde). Júlio António Borges traduz burra por: primeira fiada do cereal estendido na eira.
BURRA DE AUGAR – picota; engenho para tirar água dos poços (Sabugal). Também se diz somente burra ou então burra de ugar (ou ógar).
BURRANCO – burro novo e corpulento.
BURRECO – burro pequeno e fraco. Indivíduo pouco esperto.
BURREIRO – muar filho de cavalo e de burra. O macho quer-se burreiro e a mula éguadiça (filha de égua).
BURRICA – diminutivo de burra. Andar às burricas: andar escanchado nas costas de alguém.
BURRINHO – abóbora pequena; o m. q. aboboro.
BURRO – ferida no lábio, ou herpes, resultante do cieiro.
BURZIGADA – cozinhado dos dias de matança feito com sangue cozido e pão, regado com gordura do redanho derretida (adubo). Manuel Santos Caria escreve borgigada. Já Abel Saraiva escreve burgigada.
BURZINEIRO – chuvisco (José Prata).
BUSCAR – trazer. Vai buscar a faca.
BUTILHO – pequeno pau que se coloca entre os maxilares dos borregos e dos cabritos, para não mamarem (Júlio António Borges). O m. q. barbilho.
BÚZERA – barriga; pança, estômago. «Queríamos encher a búzera até o biabo dizer basta» (Abel Saraiva).
BÚZIO – vidro que está baço, fusco. Situação pouco clara.
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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BODO – banquete comunitário, promovido por alguma instituição, mordomia ou confraria, em cerimonial festivo, em honra da Senhora ou de algum santo (Francisco Vaz). Tradicionalmente o bodo está associado às festas do Espírito Santo, que se realizam numa boa parte do território português e em que era uso dar um festim de comida com vista a alimentar os pobres.
BOFES – pulmões do porco, fessura. Também se diz boches. «Mostra coração e há-de ter bofes» (Nuno de Montemor).
BOGALHADA – brincadeira de carnaval que consistia em lançar para dentro das casas latas cheias de bogalhas. O m. q. cacada ou panelada.
BOGALHO – nódulo que se forma nas folhas dos carvalhos. As bogalhas eram usadas pelas crianças para brincar: imitavam ovelhas, adornavam paus, serviam de berlinde. Entre as crianças era uso dizer: O ninho tem bogalhos, querendo afirmar que tinha ovos. Também se chamava bogalhos aos testículos ( o m. q. tomates).
BOGULHO – aquele que se atrasa a comer.
BOJO – coragem – ter o bojo de…
BÔLA – pequeno pão feito da arrebanhadura da masseira, que se deixava mal cozido e era comido quente (Júlio Silva Marques). Pão de ló escuro, com canela (Vítor Pereira Neves). Pequeno descanso oferecido ao ceifador, para que coma algo e retempere forças (José Prata).
BOLACHA – bofetada; estalada.
BOLACHADA – bofetada forte.
BOLERCA – castanha que se não chegou a criar (Clarinda Azevedo Maia). Também se diz chocha.
BOLETA – bolota ou lande; fruto do carvalho e da carrasqueira, usada para a ceva dos porcos. Clarinda Azevedo Maia recolheu a expressão beleta em Aldeia da Ponte.
BOLETA ANZINA – bolota doce (Clarinda Azevedo Maia).
BOLO – pão espalmado e comprido que é uso comer pelos Santos; o m. q. bica.
BOMBAZINA – tecido riscado, que imita o veludo.
BOMBILHA – lâmpada (Maria José Ricárdio Costa).
BOM-SERÁS – bom homem, que não se ofende e que tudo aceita resignado (Nuno de Montemor).
BONAIRO – farrapo; bocado de tecido (Júlio António Borges).
BONDA – o suficiente; basta; chega. Também se diz abonda.
BONDAR – bastar; chegar; ser suficiente.
BONECA – rapariga muito bonita e airosa, que dá nas vistas.
BONECO DE PÃO – pequeno pão de formas variadas, geralmente feito a partir da arrebanhadura da masseira, a que tinham direito as crianças após a fornada (Luís Monteiro da Fonseca).
BONECRO – homem afeminado; boneco (Francisco Vaz).
BONICA – excremento de animal; bosta. «Rodeira de bonica das vacas leiteiras» (Carlos Guerra Vicente).
BONITA – fatia de pão (Júlio António Borges).
BOQUE – buraco aberto no solo, para plantar árvores (Júlio António Borges).
BOQUERNA – boca – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
BORBORINHO – remoinho de vento usual no Verão. Vítor Pereira Neves escreve basborinho e Júlio António Borges diz barborinho. Desordem, acrescenta José Pinto Peixoto, que escreve burburinho, forma, aliás, dada por preferível pelos dicionaristas. O povo também diz redemoinho (Célio Rolinho Pires). Na crença popular o borborinho indica a passagem do Demónio.
BORDA – côdea de pão; a primeira fatia que se corta.
BORDALO – peixe pequeno dos rios e ribeiros. O m. q. escalo.
BORDOADA – pancada com recurso a um pau ou vara (de bordão).
BORGA – pândega; festança; patuscada.
BORNAL – farnel; saco da merenda. Saco com ração que se enfia no pescoço dos burros (Júlio Silva Marques). Pessoa que come demais; lambão (Clarinda Azevedo Maia – Batocas).
BORNECA – castanha que não chegou a criar (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos). O m. q. chocha. Em Trás-os-Montes diz-se boneca.
BORNIL – chumaço de palha, envolvido em pano ou em cabedal, que se coloca no pescoço dos burros para se jungirem à carroça ou ao arado; coalheira. O m. q. belfa.
BORNO – morno; tépido.
BORRA – depósito que os líquidos deixam no fundo da vasilha; o m. q. sarro.
BORRA-BOTAS – pessoa reles; desgraçado.
BORRACHA – pequeno odre de couro para vinho, muito usado por jornaleiros e gadanheiros. O m. q. bota.
BORRACHICA – biberão (Júlio António Borges).
BORRACHÃO – bêbedo incorrigível. Indivíduo natural de Pousafoles (Clarinda Azevedo Maia).
BORRACHO – bêbado.
BORRALHEIRA – lugar da lareira onde se coloca o borralho; fogueira grande, que expele muito calor.
BORRALHO – braseiro envolto com cinza.
BORRASCA – chuva súbita.
BORREGA – bolha que se forma nas mãos, em geral devido à ferramenta, ou nos pés, devido ao calçado. Em Trás-os-Montes (Mogadouro) usam a expressão burra com o mesmo sentido.
BORREGANA – nome próprio, ligado a vendedores de borregos (Francisco Vaz).
BORREGO – molho de feno preparado com o ancinho – dois borregos atados fazem uma facha. Cordeiro com mais de dois anos. Homem calmo, pacífico. Aquilo que os bêbedos vomitam (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
BORREGUINHO – castanha ainda mal criada (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
BORREIRA – soltura; diarreia.
BORRISCAR – borrar. Borriscou-se de medo.
BORRISMAR – chover miúdo. O m. q. chuvisnar.
BOSTA – mulher indolente (Júlio António Borges). Excremento de vaca.
BÔ’STÁ – interjeição: ora essa! essa agora! (José Pinto Peixoto).
BOTAR – atirar; deitar; lançar.
BOTAR A BARRIGA – abortar (relativo a animais).
BOTAS FERRADAS – botas com protectores de ferro no rasto.
BOTELHA – abóbora (Sabugal). Garrafa; cabaça usada para transportar o vinho. «Com um ancinho ao ombro e uma botelha no braço» (Abel Saraiva).
BOTELHO – abóbora pequena. Variedade de pimentos, de grande dimensão (Clarinda Azevedo Maia).
BOTIFARRA – bota grosseira e grande.
BOTIM – bota de cano alto, usada pelos homens. Antigamente era bota de borracha, comprada em Espanha (Clarinda Azevedo Maia – Batocas).
BOTÕES – brincos (Clarinda Azevedo Maia).
BOUÇA – terreno inculto, aproveitado para nele se roçar mato e periodicamente semear. Também se diz bocha.
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

BIA – diminutivo de Maria (Quadrazais).
BIBE – espécie de bata, aberta atrás, usada pelas crianças para proteger a roupa.
BICA – pão comprido e espalmado que se come pelos Santos feito com farinha triga e azeite, também designado por santoro e por bolo. É costume servir de presente dos padrinhos aos afilhados. Pequena refeição comida a meio da manhã, por ocasião das malhas, constituída por pão, conduto e vinho. Fonte com água a escorrer por um tubo, ou uma telha, podendo apular-se.
BICALVO – pessoa esquisita no comer; que come pouco (Júlio António Borges); o m. q. biqueiro.
BICAS – refeição que a noiva dá às amigas antes do casamento – despedida de solteira. Era uso oferecer as bicas no segundo domingo de proclames (ou pregões), sendo compostas por papas de milho ou de carolo (Joaquim Manuel Correia). «Na noite da véspera a noiva leva ao noivo a camisa de noivado e no dia das bicas as amigas da noiva traziam para sua casa açafates de verga cheios de tremoços, que distribuíam pelos presentes» (Francisco Vaz).
BICHA – sanguessuga; lombriga; cobra. As sanguessugas eram usadas para sugar o sangue pisado, nos hematomas. Bichas andadeiras: sanguessugas que andavam de casa em casa, alugadas a quem as necessitasse.
BICHA DA ÁGUA – cobra da água (Clarinda Azevedo Maia).
BICHANAR – chamar os gatos; falar baixinho, ciciar.
BICHANO – gato.
BICHO-ARANCU – pirilampo (Clarinda Azevedo Maia – Malcata). É mais comum dizer simplesmente arancu.
BICHO-CRELBO – animal rastejante, de cor negra com riscos vermelhos (Clarinda Azevedo Maia – Fóios). A este animal tTambém se lhe chama padre.
BICHO DA SEDA – pirilampo (Clarinda Azevedo Maia).
BICHO QU’ALUMIA – pirilampo (Clarinda Azevedo Maia – Sabugal).
BICHORNO – calor abafado (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos). Do Castelhano: bochorno.
BICO – dívida (Leopoldo Lourenço).
BIGORNA – pião grande ( Rapoula do Côa).
BIGORRILHA – pelintra; desprezível. «Não me assusta seu bigorrilhas!» (Joaquim Manuel Correia).
BILÁU – pénis (linguagem infantil). Também se diz biló.
BILHÓ – castanha assada e descascada (Júlio António Borges).
BILHOSTRES – cobres; moedas de pouco valor (Joaquim Manuel Correia).
BIQUEIRO – pessoa que tem fastio, que come pouco: «Estais muito biqueiros» (Abel Saraiva). Pessoa melindrosa (Francisco Vaz).
BISCA – pulga – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga). Jogo de cartas. «Jogavam à bisca lambida numa pobre mesa de pinho» (Abel Saraiva).
BISCO – vesgo (Clarinda Azevedo Maia). Do Castelhano: bizco. Nas terras do campo (Monsanto) dizem bisgo ou embisgo (Maria Leonor Buescu).
BISCOCHO – biscoito (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia da Ponte). Do Castelhano: bizcocho.
BISCUTAR – bisbilhotar; coscuvilhar.
BISCUTEIRO – aquele que biscuta.
BISGAR – piscar o olho (Carlos Guerra Vicente).
BITARDA – mulher de vida duvidosa (Júlio Silva Marques).
BIZARRIA – boa apresentação; galantearia; boniteza.
BLADA – castanha pilada ou seca (Fóios).
BLANCIGA – melancia (Júlio António Borges).
BLANDINA – azáfama; alvoroço.
BLENA – ama, patroa – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
BOAMENTE – de boa vontade; às boas (de boamente).
BOA-VAI-ELA – folgança; vadiagem. Andar na boa-vai-ela: divertir-se.
BOA VIDA – vida sem trabalho; vadiagem; diversão. «Alegres e leves, como se andassem à boa vida» (Nuno de Montemor).
BOBADA – parvoíce; bobice (Júlio António Borges).
BOBOCA – palerma (Júlio António Borges).
BOCA-ABERTA – pessoa que se admira de tudo; pacóvio; simplório.
BOCA DE ALPERGATA – boca grande – expressão jocosa (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos).
BOÇADO – lambuzado; vomitado; com os beiços sujos.
BOCANA – indivíduo que fala muito e é incapaz de guardar um segredo (Júlio Silva Marques e Duardo Neves). Pasmado; boca-aberta (Júlio António Borges). Parvo (Leopoldo Lourenço).
BOCHE – pulmão. Pessoa que fala muito, com ar de zangado; fole (Júlio António Borges); o m.q. bofe.
BOCHES – vísceras de porco (José Pinto Peixoto). Também se diz bofes.
BOCHINHO – diz-se de pessoa que se zanga facilmente.
BOCHO – cão. O nosso bocho. Interjeição para chamar o cão. Também se diz pocho.
BODA – jantar do dia do casamento. A boda comum era composta por pão-trigo, enchidos, queijo, azeitonas e vinho, tudo à farta. A chamada boda de panela, dos mais abastados, era composta por refeição à base de carne com arroz e batatas.
BODEGA – porcaria; sujidade. Diz-se de uma casa imunda.
BODEGO – indivíduo que vive na bodega, isto é, na porcaria, em local imundo (Júlio Silva Marques).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

BEBEROSO – formoso; bonito (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia do Bispo).
BEDUM – sabor e cheiro do sebo na carne de borrego ou carneiro. Diz-se que para a carne de borrego não cheire a bedum é necessário retirar-lhe as gorduras (ou sebo) que está no interior dos músculos das pernas.
BEI – diminuitivo de Isabel (Alfaiates).
BEIÇA – lábio, beiço. Expressão labial. Beiça caída – amuado.
BEIJINHO – a parte melhor de alguma coisa; o preferido da família (Júlio António Borges).
BEIRADA – fila de telhas da parte mais baixa de um telhado; beiral.
BEJOEGA – bolha de água na pele; o m. q. borrega.
BELA GALHANA – boa vida, sem nada que fazer. «É gente sem eira nem beira, que anda por aí à bela galhana» (Joaquim Manuel Correia).
BELA-LUZ – planta silvestre, que cresce nas tapadas.
BELANCIA – melancia.
BELDAR – dar à língua; falar muito. Rezingar (José Prata). Ladrar (José Pinto Peixoto). Falar sem tom nem som (Clarinda Azevedo Maia). «Beldava continuadamente» (Abel Saraiva).
BELDROEGA – planta espontânea, carnosa e suculenta, usada para sopa e saladas.
BELFA – colar de estopa cheio com palha que se coloca no pescoço das cavalgaduras para lavrar, puxar ao carro ou tocar a nora. O m. q. bornil.
BELFO – pessoa, ou animal, que tem o lábio inferior sobreposto ao superior. Burro belfo: forte defeito, que desvaloriza muito o animal.
BELGA – pequeno terreno de cultivo; courela. Clarinda Azevedo Maia refere a expressão bega, que recolheu nos Fóios. Quanto à palvra belga, a mesma autora dá-lhe um significado diferente: «cada um dos regos paralelos com que se divide o terreno, antes de semear e lançar o adubo» – talhar uma belga: abrir um rego.
BELIDA – mancha branca que aparece nos olhos ou nas unhas (Júlio António Borges).
BEM D’ALMA – conjunto de acompanhamentos, ofertórios, responsos, missas, trintários, ofícios e outras orações fúnebres celebradas em honra dos defuntos de uma irmandade. O bem de alma tem um preço, que é pago ao pároco.
BEM-HAJA – obrigado; agradecido.
BENARDINA – piada (Clarinda Azevedo Maia – Lageosa)
BENÇA – pagamento anual a barbeiros e a alfaiates pelos serviços prestados, ou a prestar, geralmente composto por alqueires de centeio. O m. q. bênção.
BENTO – aquele que adivinha o futuro e consegue curar doenças. Duardo Neves traduz literalmente por: «pessoa que tem de nascença uma cruz no céu da boca».
BENZENICAR – fazer de conta; fingir (Júlio António Borges).
BÉQUEIRO – taberneiro – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
BERÇA – couve galega. Caldo das berças. Também se diz verça.
BERDUGO – cobra (fem. berdugueira). Também se diz verdugo.
BERNA – bicho que se cria no couro do gado bovino; o m. q. medraça (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
BERRÃO – porco (Manuel Leal Freire). Também se diz barrão (Júlio António Borges)
BERRELAS – pessoa que berra muito.
BERRELHO – que berra muito. Leitão, bácoro.
BERTOLDO – palerma; idiota; parvo.
BERZUNDA – bebedeira (Júlio António Borges).
BESBELHO – babado; ufano; pasmado.
BESTUNTO – pessoa estúpida, com pouco expediente (Júlio António Borges).
BEXIGA – peça do enchido composta pela bexiga do porco cheia com carne dos ossos e couros.
BEZERRO – vitelo; novilho. Pedaço de parede caída numa habitação já antiga (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

BANDURRIAIS – terreno escabroso, cheio de pedras. «Seguindo pela vereda, que ali vai por entre bandurriais» (Joaquim Manuel Correia).
BANGUEJO – ao deus dará; ao acaso. «Andar ao banguejo» (Júlio Silva Marques).
BANHA – gordura; cada uma das cavidades abdominais do porco.
BANHADURA – além da medida (Júlio António Borges); o m. q. sobretedura. Era costume o vendedor deitar um pouco mais do que a medida que o cliente pretendia – Medi-lhe bem o azeite e até lhe botei banhadura.
BANHEIRA – alguidar de barro (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos).
BANHOS – pregões; proclames do casamento. Algumas semanas antes da data marcada para um casamento o pároco anunciava na igreja a intenção dos noivos se casarem, correndo a partir daí um período em que qualquer pessoa podia manifestar oposição ao enlace, dizendo as suas razões, nomeadamente se o caso contrariava a as leis canónicas.
BANQUETA – base de madeira em forma de L, com tampos laterais, usada pelas lavadeiras para se ajoelharem na ribeira (Bismula, Alfaiates). Banco (Sabugal). Tapoila (Bendada). Tacoila (Cerdeira). Carchoila (Aldeia do Bispo). Alquitão (Soito). Cunco (Aldeia Velha). Lavadeira (Sortelha). Temos nas diferentes designações deste objecto um dos melhores exemplos da variedade do léxico popular de Riba Côa.
BÂNZIOS – paus que compõem a urdideira (peça do tear do linho).
BARAÇA – cordel de enrolar ao pião, para o fazer girar.
BARAÇO – corda fina; cordel; guita.
BARANHA – confusão; mistura (Júlio Silva Marques e Clarinda Azevedo Maia). Meada de linho ou de algodão emaranhada (José Pinto Peixoto). O m. q. baralha?
BARBA – queixo. Em Aldeia da Ponte designa apenas a extremidade do queixo (Clarinda Azevedo Maia).
BARBANTE – correia de couro ou corda que segura a canga ao pescoço das vacas. Mais a Sul (Monsanto) usa-se a expressão brocho com o mesmo significado (Maria Leonor Buescu).
BARBASCO – planta tóxica que se esmaga para envenenar peixes (Carlos Alberto Marques). Nas terras do campo (Monsanto), designa frio intenso e seco (Maria Leonor Buescu).
BARBAS DO MILHO – fios da parte posterior da espiga de milho (também se diz linho). Das barbas do milho faz-se um chá especialmente indicado para as infecções urinárias.
BARBEIRO – aquele que na aldeia, para além de fazer barbas e cortar cabelo, exercia medicina, tratando as pessoas doentes. «É conhecido o tipo do barbeiro por ser homem mais polido, bem vestido, munido sempre de uma varinha de marmeleiro, de cãozinho ao lado, ledor dos jornais de todos os partidos» (Joaquim Manuel Correia). Vento frio e cortante; ventania. Está um barbeiro!
BARBEITO – lavra dada à terra para depois a deixar em descanso até à sementeira. Ganhar barbeito: ganhar força (a terra). Terreno de barbeito: por decruar, a descansar.
BARBELADA – carne da parte de baixo do focinho do porco, da barbela (Clarinda Azevedo Maia – Batocas).
BARBILHO – espécie de freio de verga, que impede os cabritos, ou os borregos, de mamarem para que se vedarem (conseguir que deixem de mamar). Júlio António Borges designa por butilho. Também se chama barbilho à rede que impede as vacas de comer enquanto trabalham – Júlio Silva Marques chama a este instrumento açaime, diferenciando-o do barbilho (apenas para vedar os cabritos). Mais a Sul (Monsanto) chama-se barbilho ao caule de cereal com que se ata a paveia nas ceifas (Maria Leonor Buescu).
BARBIQUECHE – freio improvisado com uma volta de corda (Adérito Tavares).
BÁRBORA – corruptela do nome Bárbara (também se diz Bárbola)
BARDA – abundância; grande quantidade. Em barda.
BARDALHÃO – socalco (Júlio António Borges); o m. q. batorel.
BARDAMERDAS – indivíduo fraco; reles; cobardolas.
BARDÃO – peça de coiro que se suspende do jugo ou da canga e onde se introduz o timão do arado ou a cabeçalha do carro (Clarinda Azevedo Maia); o m. q. tamoeiro. Parede para segurar a terra (Júlio António Borges).
BARDAR – cercar; colocar silvas sobre as paredes para que o vivo não as salte (Júlio Silva Marques). Tapar as cancelas do bardo com giestas, do lado de onde sopra o vento, para abrigar o gado (Clarinda Azevedo Maia). Também se diz embardar.
BARDINA – mulher vadia, de mau comportamento social (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia da Ponte).
BARDINO – indivíduo de má índole; velhaco. Libertino; vadio.
BARDO – cancelas onde se recolhe o gado ovino e caprino; redil; aprisco. Júlio António Borges traduz ainda por: fila de videiras ligadas a estacas e arames. «O pastor muda todos os dias o bardo» (Joaquim Manuel Correia).
BARFUINAÇO – encontrão que pode provocar queda grande a aparatosa (Duardo Neves).
BARGADO – adjectivo aplicado às vacas malhadas de preto e branco (Clarinda Azevedo Maia – Batocas).
BARIL – bom, agradável, bonito – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
BARILHA – rebento novo de oliveira, que deve ser cortado na poda (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
BAROLO – madeira de carvalho apodrecida na própria árvore, que arde bem e se desfaz facilmente com as mãos (Duardo Neves).
BARQUINAÇO – trambolhão; queda (Júlio António Borges).
BARQUINO – miúdo bastante gordo (Clarinda Azevedo Maia – Lageosa).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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Está patente ao público, na Galeria de Arte do Paço da Cultura, na Guarda, uma exposição denominada «Morcela da Guarda – Tradição, Saber e Sabor». A mostra, cujo catálogo (bilingue) contém um texto da autoria do sabugalense Paulo Leitão Batista, é uma iniciativa da Câmara Municipal da Guarda e da Pró-Raia.

Morcela da Guarda - Foto NAC - Blogue Núcleo Acção Cultural da CM Guarda

A exposição denominada «Morcela da Guarda – Tradição, Saber e Sabor» é uma iniciativa da Câmara Municipal da Guarda, contando com o apoio da Pró-Raia, e tem por objectivo enaltecer um dos mais genuínos e característicos produtos gastronómicos da região. Através de registos fotográficos e videográficos percorrem-se os caminhos da memória para se reviver a tradição das matanças do porco, que ainda há uns anos aconteciam nas aldeias, onde todas as famílias cevavam e matavam um «marrano» para dele retirarem alimento para todo o ano.
O porco era a mantença da casa, na medida em que fornecia carne e enchidos, que todos a apreciavam, confeccionados segundo os saberes que foram transmitidos em gerações sucessivas.
A partir do sangue retirado no momento da matança confeccionava-se um dos mais genuínos enchidos portugueses: a morcela. A da Guarda há muito que adquiriu nome e estatuto, sendo uma das mais apreciadas do país.
O catálogo da exposição contém textos de dois estudiosos das tradições regionais: Paulo Leitão Batista e Norberto Gonçalves. O primeiro, que também é chanceler da Confraria do Bucho Raiano, do Sabugal, escreve sobre a morcela enquanto primeiro enchido da matança, e aborda temáticas como «a ceva do marrano», «o tempo das matanças», e a própria «confecção das morcelas». Já Norberto Gonçalves apresenta um texto intitulado «De faca e alguidar», através do qual descreve o antigo ritual da matança.
O catálogo é de edição bilingue (português e inglês), e os textos são enquadrados por um conjunto de fotografias colhidas numa matança à antiga feita numa aldeia do concelho da Guarda. O vistoso e bem concebido catálogo contém ainda um conjunto de receitas modernas em que a morcela é o ingrediente principal.
No acto de inauguração da mostra, o presidente do Município da Guarda, Joaquim Valente, assumiu que uma das formas pelas quais a edilidade egitaniense irá defender o seu produto gastronómico de excelência será através da criação da Confraria da Morcela, que a Câmara irá apoiar.
Porém o primeiro passo para o lançamento da futura Confraria da Morcela da Guarda está dado e, para isso, nada melhor do que ter chamado a escrever o catálogo da exposição o chanceler da Confraria do Bucho Raiano.
A exposição, inaugurada no dia 12 de Julho, pode ser visitada até ao dia 15 de Setembro, de terça a sábado, das 14 às 20 horas.

Reportagem da LocalVisão Guarda. Aqui.

E porque sempre achei ridículas as falsas humildades aqui deixo um público louvor à enorme qualidade do texto do catálogo da exposição da autoria do Paulo. E só ficou por fazer a tradução para castelhano…
jcl

No verão de 2009, já lá vão três anos, os turistas que visitaram o Castelo do Sabugal tiveram ao seu dispor bicicletas para percorrem a cidade. O projecto «Bicôas – Passeios a Rodar», da iniciativa da empresa municipal Sabugal+ depressa definhou e com ele as bicicletas, que nunca mais foram vistas.

O projecto BICÔAS (bicicletas do côa) afigurou-se como uma iniciativa inovadora e pensada para dinamizar a cidade. Os visitantes poderiam alugar as bicicletas e assim rodarem em busca de um Sabugal diferente, visto a partir de um transporte ecológico, que ao mesmo tempo lhes proporcionava a melhoria da condição física.
Foram até definidos percursos, passando pelos pontos históricos de maior interesse da cidade, sendo um deles a barragem do Sabugal, no sentido de aproveitarem o nosso ar puro à beira-rio e contemplarem as nossas paisagens.
Bicôas Castelo SabugalAs bicicletas estavam no Castelo do Sabugal, onde se disponibilizavam para aluguer, acompanhadas por um regulamento de utilização (a febre camarária da produção de regulamentos já se fazia sentir), que obrigava ao preenchimento de uma ficha de inscrição e de um termo de responsabilidade.
Os preços eram convidativos: 2 euros à hora, 3,50 euros por manhã ou tarde, e 5 euros ao dia. Estiveram disponíveis durante uns meses, sem grande sucesso em termos de utilização, mas depois desapareceram para local incerto e das Bicôas não mais se ouviu falar.
Onde andam as Bicôas (que eram bicicletas de qualidade), é a questão que importa levantar.
«Contraponto», opinião de Paulo Leitão Batista

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A «abalada» persegue os jovens que restam no concelho do Sabugal tal qual afrontou as gerações anteriores, com a diferença de que afecta cada vez menos pessoas, em razão da população não parar de diminuir.

A infância é feliz no concelho do Sabugal. Não abundam crianças (há aldeias em que não há uma única), mas as que aqui nascem e crescem, sabem o que é viver em espaço aberto, em contacto com a Natureza, no seio duma comunidade solidária. Têm ao dispor alguns espaços de lazer (jardins, parques, sala de cinema) e há a possibilidade da prática de alguns desportos (futebol, natação, judo). E quem quer ir mais além em favor dos filhos, desloca-se à Guarda ou à Covilhã, onde encontra outras oportunidades para o salutar desenvolvimento infantil e juvenil.
As escolas locais fecham sucessivamente, mas restam as do Sabugal, do Soito e de algumas outras terras, garantindo-se o transporte escolar, alimentação, bem como o recurso ao necessário material pedagógico. O ensino é ministrado por pedagogos de qualidade, seguindo à risca os programas nacionais de educação.
O verdadeiro problema surge quando os jovens chegam ao fim da linha. E este condiz com o termo dos estudos no Sabugal. Aí sobrevém o grande drama que as famílias enfrentam. Ir para a Universidade significa rumar para longe, via de regra para as cidades do Litoral. Os pais sabem que os filhos encetam aí uma viagem que não terá retorno. Claro que voltarão nas férias e até num ou outro fim-de-semana desafogado, mas não há qualquer possibilidade de um regresso prolongado ou definitivo, porque quando terminarem a formação académica os jovens não encontrarão aqui emprego.
Há pais que têm de ir às cidades distantes visitar os filhos e os netos, dado que estes pouco se deslocam ao Sabugal. Outros, na velhice, seguem por longos períodos para a casa dos filhos procurando o seu apoio. Dali são, em muitos casos, remetidos para lares de terceira idade que lhes estejam perto. Alguns nem regressarão à sua terra na hora da morte, porque os filhos optam por os enterrar num cemitério próximo, onde lhes renovem amiudadamente as flores.
Muitos dos que clamam «nós os que cá estamos é que sabemos» terão porventura este destino cruel, porque o grande problema é que o Sabugal há muito deixou de ser terra para novos, e, assim, também não será terra para velhos.
A inércia da administração autárquica, o manifesto medo de dar a cara em defesa do concelho, a incompetência que grassa, são também razões para este drama atroz. Sim, esta fatalidade não advém apenas dos que tomam as decisões em Lisboa. O Sabugal também tem os seus coveiros.
«Contraponto», opinião de Paulo Leitão Batista

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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

AUGA – água.
AUGADO – insatisfeito; desiludido; que tem auguamento. Também se diz ógado. Júlio Silva Marques fala em aguado e em ougado, como aquele que ficou com vontade de uma coisa.
AUGAR – desejar ardentemente. Tirar água para rega (Francisco Vaz). Também se diz ogar.
AUGARRADA – aguaceiro; chuva súbita (Clarinda Azevedo Maia – Lageosa da Raia).
AUGUADEIRA – água da chuva que cai dos beirais das casas (Clarinda Azevedo Maia – Lageosa da Raia).
AUGUAMENTO – doença originada por um desejo alimentar insatisfeito. Vitor Pereira Neves, Joaquim Manuel Correia e Maria Leonor Buescu escrevem aguamento. Para se evitar o auguamento dos animais devem-se convidar, dando-lhes uma pequena porção de alimento, sempre que o dono verificar que ficaram com vontade de comer. Também a mulher que está gestante não deve deixar de provar uma iguaria, sempre que a vê comer a outra pessoa.
AUGUEIRA – canal por onde corre a água da rega. O m. q. regadeira (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos).
AVARANGAR – abanar com o peso. «As pernas avaramgavam como ramos de giestas» (Abel Saraiva). Clarinda Azevedo Maia também recolheu a expressão, mas com a alteração fonética: abrangar.
AVARICIOSO – avarento. Clarinda Azevedo Maia, que reporta o termo a Aldeia da Ponte, respeita a alteração fonética usual da consuante v: abaricioso.
AVECA – aiveca; cada uma das duas peças do arado que viram a terra, formando do rego. Júlio Silva Marques refere abecas e Júlio António Borges aibecas.
AVEJÃO – pessoa, ou cão pequeno, que toma ares de mais avantajado; pessoa encorpada (Júlio António Borges).
AVÉ-MARIAS – toque do sino em saudação da Virgem Maria, convidando a rezar: de manhã, ao meio-dia e ao sol posto (ao último toque, o do anoitecer, chama-se Trindades).
AVENTAL – resguardo de pano que as mulheres se coloca sobre a saia para a protegerem. Os ferreiros usam também um avental em couro para protecção das faúlhas expelidas pela frágua.
AVENTAR – deitar fora. Deitar abaixo: aventou com ele no chão. Júlio Silva Marques e José Pinto Peixoto referem avantar.
AVESSEIRA – encosta onde bate pouco o sol (lado Norte). A avesseira é menos própria o bom desenvolvimento das culturas agrícolas.
AVESTRUZ – mulher alta e desajeitada – termo depreciativo (Júlio António Borges).
AVEZADO – habituado. Bem avezado – bem educado. Clarinda Azevedo Maia recolheu a expressão com alteração fonética: abezado.
AVEZAR – tomar vezo; habituar; acostumar.
AVIADO – pronto; preparado. Clarinda Azevedo Maia recolheu em Aldeia do Bispo a expressão com alteração fonética: abiado, que traduziu por «informado» – mal abiado: enganado, mal informado.
AVIAR – despachar; seguir depressa. Ir aviar-se: fazer as necessidades fisiológicas.
AVINAGRADO – ébrio; bêbado; quezilento. «O vinho tornava-o avinagrado por dentro, fazendo a vida negra à mulher» (Manuel Leal Freire).
AVINHADO – que bebeu vinho em excesso; bêbedo.
AVINHADURA – primeira moedura que se faz, em cada ano, no lagar de azeite (Júlio António Borges).
AVINHAR – beber vinho em excesso; embebedar.
AVOANTA – perdiz; ave de caça; galinha; mosca – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
AZADO – jeitoso; adequado; propício; cómodo. Costuma dizer-se azadinho: Que sacho tão azadinho. «Preparou-se sítio azado para se apear» (Joaquim Manuel Correia).
AZÁFAMA – trabalho muito movimentado, com muita pressa.
AZAGAL – zagal; rapaz do gado. Moço de recados (Júlio António Borges).
AZAGUEIOS – berros e assobios que de noite os rapazes fazem às noivas, a avisá-las de que vão falar com elas a casa. «Ih! Ghi! Ghi! / Ah! Gha! Gha! / Oh! Gho! Gho!. Vozes estrídulas e arrastadas, em falsete, assobios agudos e cortantes, exclamações anasaladas de apupo e ameaça, lamentos cavos de anseios bárbaros». (Nuno de Montemor referindo-se aos azagueiros proferidos pelos moços de Quadrazais).
AZAMEL – mandrião; atado; preguiçoso; lento.
AZANGADO – vergado com o peso que transporta; muito carregado (Joaquim Manuel Correia). Vai azangadinho de todo.
AZEDA – planta que cresce espontânea nos lameiros, de sabor ácido, com a qual se faz sopa e salada.
AZEITEIRA – almotolia do azeite (Clarinda Azevedo Maia).
AZEITEIRO – chifre adaptado a frasco, de pregaria em volta da boca e tampa de cortiça, com uma mistura de óleos para untar, e que era acessório da gadanha (Manuel Leal Freire); o m. q. caçapo. Vendedor ambulante que nada pelas aldeias.
AZÉMOLA – mandrião; parvo; estúpido. Besta de carga.
AZERVE – carreiro feito no mato para caçar perdizes a laço (Meimão).
AZEVÉM – planta daninha que cresce entre o centeio (Nuno de Montemor).
AZIADO – aziago; azar; mau agouro. «Nascido no dia de Entrudo, um dia aziado» (Carlos Guerra Vicente).
AZIAR – instrumento em forma de tenaz, usado para aperta os beiços das bestas, de forma a mantê-las quietas enquanto são ferradas.
AZO – jeito; facilidade. Ter azo para…
AZOADO – atordoado; entontecido.
AZOAR – atordoar; entontecer.
AZORRADOR – rodo com que se puxa a cinza do forno (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia do Bispo).
AZORRAGUE – chicote (José Pinto Peixoto).
AZORRAR – juntar o cereal depois de malhado e separado da palha; varrer o forno antes de meter o pão; alizar o cereal nas medidas com o rasoiro; varrer o chão com as saias (Clarinda Azevedo Maia).
AZUCRINAR – aborrecer; chatear; fazer perder a paciência; entontecer (Bismula).
AZURZILHADO – batido pelo vento (Júlio António Borges).
AZURZILHAR – fustigar; bater (Júlio António Borges).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

ÀS TRÊS PANCADAS – atabalhoadamente; acção sem regra.
ASTRO – sol.
ATABAFAR – sufocar; respirar com dificuldade. «Atabafa esse riso, ouviste?» (Joaquim Manuel Correia).
ATABALHOADO – desorganizado; desajeitado. Júlio António Borges acrescenta: amalucado; tolo.
ATABALHOAR – fazer à pressa, com descuido.
ATABICAR – atafulhar; encher por completo; entalar.
ATACA – cordão de sola (atacador), próprio para apertar as botas (Júlio António Borges).
ATACADOR – cordão de apertar o calçado.
ATACAR – apertar o calçado.
ATADILHO – atilho; baraço; cordel (José Pinto Peixoto). Fita das ceroulas; liga das meias (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
ATADO – indivíduo pouco activo; acanhado.
ATADOR – homem que nas ceifas tem a tarefa de atar os molhos.
ATADURA – ligadura para feridas (Francisco Vaz).
ATAFAIS – arreios, correias com que se aparelham as bestas.
ATAFAL – indivíduo desajeitado; mal vestido; maltrapilho (Rebolosa). Retranca da albarda do burro. Pano de cobrir os machos; roupa mal feita (Júlio António Borges).
ATAFONA – moinho manual ou de tracção animal. A mó de baixo é fixa, com um olhal no centro, por onde passa o veio que a liga à mó andadeira (de cima), esta tem na face superior um furo onde se encaixa o pau que serve de manípulo.
ATAGALHO – nagalho; cordel; guita (Francisco Vaz).
ATAGANHAR – apertar o pescoço, estrangular.
ATALAIA – local alto e descampado (Rebolosa).
ATAMAR – acalmar; apaziguar. «Prantou-lhe um arganel de aço no focinho para lhe atamar o cio» (Carlos Guerra Vicente).
ATANAZAR – inquietar; atormentar (José Pinto Peixoto). Joaquim Manuel Correia refere atenezar.
ATANEGRIDO – muito cansado (Júlio António Borges).
ATARANTADO – atrapalhado; desorientado.
ATARNAGUIDO – indivíduo muito ocupado, atarefado (José Pinto Peixoto). Júlio António Borges escreve atanarguido.
ATAROLADO – mal cozido; escaldado.
ATAROLAR – cozer ligeiramente. Atarolam-se as batatas antes de irem ao forno, acompanhando a carne ou o peixe na assadeira.
ATARRACADO – baixo e forte.
ATARRACAR – bater os cravos para os aconchegar à ferradura (Júlio António Borges).
ATARRAZAR – fazer depressa, com ânsia.
ATAZANAR – aborrecer; chatear.
ATEIMAR – teimar, insistir.
ATENTAR – fazer cair em tentação; chatear, enervar. Não me atentes!
ATERNEGUIDO – deprimido (Júlio Silva Marques). Cheio de trabalho (Leopoldo Lourenço).
ATERNIGAÇÃO – desgosto; inquietação (Júlio António Borges).
ATERRAR – cobrir com terra. Aterrar o milho: cobrir os caules.
ATER-SE – fiar-se; confiar. Ficar atido a…
ATIDO – convencido; fiado; a pensar em…
ATILHAR – tapar, cobrir os cortiços (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
ATILHO – baraço; cordel. Atacador das botas. Francisco Vaz dá-lhe o significado de: molho, feixe.
ATINADO – indivíduo com juízo; prudente; bem comportado.
ATINAR – acertar; adivinhar.
ATIRADEIRA – fisga (Vitor Pereira Neves).
ATIRADIÇO – atrevido; corajoso; lançado na vida. O rapaz é atiradiço.
ATISCAR – ver – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
ATOLAMADO – doido; tolo (Júlio António Borges).
ATÓLICO – em grandes dificuldades; abismado, estupefacto (de atónito?). «Vimo-nos atólicos para secar o trigo» (Carlos Guerra Vicente).
ATONDAR – estontear; endoidecer (Júlio António Borges).
ATONGADO – mal vestido; desajeitado; mal apresentado (Júlio António Borges).
A TOQUE DE CAIXA – depressa; com rapidez.
ATOUCAR – atar o lenço da cabeça com as pontas para cima, na forma de touca (Clarinda Azevedo Maia – Batocas).
ATOUCINHADO – gordo; anafado (de toucinho).
ATULHADO – muito cheio; repleto.
ATRAVANCAR – bloquear; impedir passagem; estorvar; atravessar. Júlio António Borges refere atrabancar, a que dá o sentido de: pôr tudo a monte.
ATRO – outro (referente a pessoa) – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
ATUNGADO – desastrado (Júlio António Borges).
ATURQUESAR – afligir; aborrecer (Júlio António Borges).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

ARTAFÍCIOS – ferramentas de um ofício (Carlos Guerra Vicente).
ARTEIRO – aquele que usa arteirice; velhaco; manhoso; astuto. Júlio António Borges acrescenta: aprumado; pronto. Por sua vez Maria Leonor Buescu, referindo-se à linguagem de Monsanto (Penamacor), traduz por: alegre, vivo.
ARTELHO – junta ou união dos ossos (Leopoldo Lourenço); tornozelo.
ARTIFE – pão – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor). Artife branqueoso ou artife gírio – pão trigo; artife facho – pão centeio.
ARTLÃO-BOGAS – figa; dedos em forma de esconjuro (Pinharanda Gomes).
A SALTO – passar a fronteira fora dos locais não autorizados, furtando-se ao seu controlo. Assim, com a ajuda de passadores, ou engajadores, se fez a maior parte da emigração para França.
A SECO – sem comer. Trabalhar a seco: trabalhar sem o direito a alimentação fornecida pelo patrão. Comer de seco: comer sem prato, colher e garfo, recorrendo apenas a pão e a conduto.
ASILAR – prejudicar (Leopoldo Lourenço).
ASSADOR – caldeiro de latão, ou de barro, com o fundo furado, próprio para assar castanhas ao lume. Nalgumas localidades (como na Rapoula do Côa) chamam-lhe moderno.
ASSADURA – lombo de porco (próprio para assar). Mais a Sul (Monsanto) designa o pedaço de carne que se dá de presente por ocasião da matança (Maria Leonor Buescu).
ASSANHAR – enfurecer; atiçar os cães.
ASSARAMAGAR – fazer depressa e mal (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos).
ASSARAMPANTADO – assustado; espantado; atrapalhado.
ASSARAMPANTAR – atrapalhar; espantar.
ASSEDAR – fase da cultura do linho em que se faz a triagem da estopa, usando-se o sedeiro ou rastelo.
ASSEDEIRO – utensílio para limpar o sedeiro do linho (Luísa Lasso Pedroso Charters).
ASSENTADOR – instrumento feito com uma tira de couro, usado pelos barbeiros para dar fio à navalha de barbear.
ASSENTO – juízo; senso (Leopoldo Lourenço).
ASSÊ QUE SIM, ASSÊ QUE NÃO – parece que sim, parece que não. Creio que… (Joaquim Manuel Correia).
ASSERRUNCHADO – apertado (Júlio António Borges).
ASSOALHADO – recozido por demasiada exposição ao sol. A melancia está assoalhada.
ASSOBRADADO – com sobrado (piso de cima de casa térrea, junto ao telhado, feito de madeira e que serve para arrumos). Casa assobradada – que tem sobrado.
ASSOLDADADO – aquele que trabalha a soldo, sob contrato. Também se diz soldadado. Geralmente as soldadas eram válidas por um ano. O contrato era verbal, mas valia como se fosse acto formal, sendo cumprido à risca por ambas as partes. A feira de S. Pedro, no Sabugal, era a ocasião em que os proprietários contratavam pastores e ganhões, que se agrupavam ao redor da fonte de D. Dinis, munidos de vara ou de agilhada.
ASSOLDADAR – contratar a soldo (à soldada).
ASSOLDADAR-SE – submeter-se a um patrão, sob contrato, por um determinado período. Assoldadavam-se os pastores, ganhões e outros trabalhadores rurais, normalmente pelo período de um ano.
ASSOMAR – espreitar; aparecer. Cair (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia da Ponte).
ASSOVAR – incitar o cão a morder (Leopoldo Lourenço); o m. q. açugar ou atiçar.
ASSOVELAR – furar com sovela. Espicaçar; provocar; estimular.
ASSUCHIAR – alargar as poças quando se planta uma árvore, tornando o terreno mais leve para as novas raízes (Júlio António Borges).
ASSUQUIR – comer – termo da gíria de Qadrazais (Nuno de Montemor).
ASSURPALHADO – diz-se do céu coberto de nuvens (Clarinda Azevedo Maia – Batocas). Também se usa a expresão leite assurpalhado, com o significado de leite coalhado – em estado de ser usado para fazer queijo.
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

ARRÃ – rã (Duardo Neves).
ARRABANAR – cortar pequenas quantias de pão, queijo ou chouriça (Júlio António Borges).
ARRAIAL – festa ao ar livre; baile. Nas Terras do Campo (Monsanto) usa-se também para designar um agrupamento de construções pertencentes ao mesmo dono e anexos à habitação (Maria Leonor Buescu).
ARRAIOLA – raiola, jogo em que se atira uma moeda para um risco (ou raia) traçada no chão ou numa tábua. Este termo tem muitas vaiantes, consoante as terras, se não vejamos: José Pinto Peixoto, da Miuzela do Côa, chama-lhe raioila; Júlio Silva Marques, de Vilar Maior, escreve arraioila (e explica que o vocábulo vem do Castelhano – rayuela); Maria José Ricárdio Costa, de Aldeia do Bispo, refere raoula. Franklim Costa Braga, de Quadrazais, chama-lhe raibile. Leopoldo Lourenço, do Freixo, chama jogo do cão ao jogo da raiola.
ARRALÁRIO – relativo; sem sentido absoluto. «É tudo arralário» (José Pinto Peixoto).
ARRAMAR – espalhar as nuvens; deixar de chover. Júlio António Borges acrescenta: entornar; verter. «Já arramou, e já aí vem o sol» (Joaquim Manuel Correia).
ARRANAR – estender-se; pôr-se à larga.
ARRANHADELA – ferida superficial que resultou de arranhar. Arranhadela de um gato ou de uma silva.
ARRANHADOURO – pau de remexer o forno; o m. q. ranhadouro.
ARRANHÃO – o m. q. arranhadela. Também se diz ranhão.
ARRANJO – remedeio; governo da casa.
ARRÁTEL – antiga medida de peso, correspondente a 459 gramas.
ARRE – interjeição, pela qual se incitam as bestas a andar.
ARREAR – bater; zupar – arreou-lhe com força. Ir-se abaixo; ceder – arreou a carga. Colocar os arreios às cavalgaduras. «O Mateus, arreado a preceito, lá foi para a Guarda» (Abel Saraiva).
ARREAR AS CALÇAS – fazer as necessidades; defecar.
ARREATA – corda que segura os animais; prisão; rédea.
ARREATAR – atar; prender.
ARREBANHAR – raspar a barranha para aproveitar tudo. Meter ao bolso; roubar. Limpar o lameiro com o ancinho após o recolher do feno.
ARREBULHAR – embrulhar; envolver; engelhar. «Tudo se me arrebulha no estômago» (Joaquim Manuel Correia).
ARREBULHAR-SE – deitar-se (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia da Ponte).
ARRECADAR – guardar, pôr a salvo; receber.
ARRECADAS – grandes argolas de pôr nas orelhas, muito usadas pelas mulheres ciganas. Também se diz arcádias e arrecádias.
ARRECENDER – recender, exalar cheiro activo (José Pinto Peixoto) – cheira tão bem que arrecende.
ARREDELHAR – diz-se do movimento em círculo feito pela faísca ao cair (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
ARREDULHAR – deitar a baixo; fazer encolher alguém à pancada.
ARREFENA – zanga, desentendimento, discussão. «Não havemos de ter mais arrefenas, seja feita a tua vontade» (Joaquim Manuel Correia).
ARREFENTAR – arrefecer; refrescar. Não me aquenta nem me arrefenta.
ARREFERTAR – lançar na cara o que se ofereceu (José Pinto Peixoto). Leopoldo Lourenço regista arfertar, traduzindo por: pedir o que se ofereceu. Mais a Sul (Monsanto) diz-se refertar (Maria Leonor Buescu).
ARREGANHADO – cheio de frio, enregelado. «Queres morrer arreganhado?» (Joaquim Manuel Correia).
ARREGANHAR – sentir frio; arrefecer; gelar. Mostrar os dentes.
ARREGOLAR – rebolar (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia da Ponte).
ARREGUNHADELA – arranhão; o m. q. arranhadela.
ARREGUNHAR – ferir com as unhas; arranhar. O gato arregunha.
ARREGUNHO – arranhadela; arranhão.
ARREIO – apresto das bestas de carga.
ARRELAMPADO – aturdido; desorientado; surpreso. «Arrelampado como se tivesse visto bruxa numa encruzilhada» (Abel Saraiva).
ARRELIADO – zangado; amigo de arrelias e de brigas.
ARRELICADO – pessoa que está inutilizada, sem poder mover-se (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
ARREMANGAR – arregaçar as mangas. Júlio António Borges acrescenta: tropeçar.
ARREMATAR – compor um rego (Francisco Vaz); dar o nó; concluir.
ARREMEDAR – imitar com escárnio; maquear.
ARREMICAS – talvez (Júlio António Borges). Também se diz arrenicas.
ARRENDA – a primeira sacha (Júlio António Borges).
ARRENEGADO – zangado; descontente com alguém. «Fiquei mais arrenegado que se tivesse recebido bofetada» (Abel Saraiva).
ARRENEGAR – zangar; ralhar com alguém (Joaquim Manuel Correia). Arrenegado: zangado.
ARRENHAR – redemoinhar; andar em volta; o m. q. remunhar (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
ARREPESO – arrependido; cheio de pena (José Pinto Peixoto).
ARREQUALHO – girino; peixe cabeçudo (Júlio António Borges).
ARRESINADO – zangado; encolerizado. «Quem o ousasse desafiar, tinha de se haver com o seu génio arresinado» (Carlos Guerra Vicente).
ARRETO – cada um dos cordões de videiras da vinha, geralmente presas a um arame (Pínzio).
ARRIBAR – melhorar de saúde; arrebitar; erguer.
ARRIÇAR – lavrar o centeio com arado apropriado, quando tem apenas meio palmo (Júlio Silva Marques). O m. q. aricar.
ARRIFEIRO – brigão; grosseiro; mal educado.
ARRIFENA – zanga; briga. «Uma pessoa não pode andar com arrifenas com a sua mulher» (Joaquim Manuel Correia).
ARRIGAR – arrancar o linho da terra (Júlio António Borges).
ARRIMADEIRO – tronco de madeira que se coloca em primeiro lugar na lareira e sobre o qual se apoiam os troncos mais pequenos (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
ARRIMADOIRO – o m. q. arrimadeiro (Clarinda Azevedo Maia).
ARRIMAR – bater; castigar – arrima-lhe forte. Encostar; segurar; apoiar – arrimar o lume. Arrumar; colocar num lugar – arrima-o no canto.
ARRIMO – encosto; apoio; amparo.
ARROBA – medida de peso, equivalente a quinze quilos. Clarinda Azevedo Maia registou a arroba espanhola, equivalente a 11,5 quilos.
ARROCHADA – paulada; pancada com arrocho.
ARROCHAR – apertar a carga com a corda, recorrendo ao arrocho. Júlio António Borges acrescenta: espantar; oprimir.
ARROCHE – moca; cacete (Adérito Tavares) – de arrocho.
ARROCHINADO – apertado (Vítor Pereira Neves). Joaquim Manuel Correia escreve arrechinado.
ARROCHINAR – apertar. Júlio António Borges acrescenta: vestir muita roupa.
ARROCHO – pedaço de pau a que se recorre para apertar a carga aos burros, entalando-o na corda e volteando. Pau que serve de bengala ou de arma: deu-lhe com um arrocho. Pessoa teimosa e mal comportada: é torto como um arrocho.
ARRODEAR – andar à volta. Colocar o gado junto, a uma sombra. Também se diz arrodiar.
ARROLAR – embalar uma criança (José Pinto Peixoto). Para arrolar os meninos era uso entoar canções.
ARROMBOSO – rico; grande; extraordinário (Clarinda Azevedo Maia – Lageosa da Raia). Boda arrombosa: casamento rico, de arromba.
ARROZ GORDO – arroz de coelho ou de pombo que é uso comer no dia de Entrudo, precedendo o bucho (Manuel Leal Freire).
ARRUADO – disposto em fileira, em ordem (Francisco Vaz). Seguido (José Prata).
ARRUPAR – subir; ajudar a montar; erguer; arribar. José Pinto Peixoto refere arripar.
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

APAGA-LUME – pirilampo (Francisco Vaz).
APAJEAR – adular; lisonjear; dar mimos.
APALPADEIRA – mulher ao serviço da Guarda Fiscal, que fazia despir as mulheres contrabandistas para as revistar. «Levava-a ao posto da Lageosa, para que a apalpadeira a visse» (Nuno de Montemor).
APANHA – colheita. Apanha da castanha.
APANHAR – fazer a colheita ou a apanha.
APARADOR – homem que, na apanha da azeitona, a deita dos cestos para os sacos (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
APARELHAR – colocar os arreios às cavalgaduras; arrear.
APARELHO – albarda. Clarinda Azevedo Maia traduz assim: manta ou saco com que se cobre a albarda (Aldeia da Ponte). Nas Terras do Campo (Monsanto) além de arreio designa amojo dos animais (Maria Leonor Buescu).
APARRINADO – adoentado; amofinado; entristecido (José Pinto Peixoto).
APARTAR – separar; escolher; afastar. «Aparte-se um bocadinho, para olhar de mais longe esta beleza» (Nuno de Montemor).
APARTO – escolha e separação dos touros para a tourada.
APATANHAR – pisar; destruir com o andamento. «O gado bravo fugia das herdades espanholas para terra portuguesa, apatanhando as colheitas» (José Prata). Duardo Neves refere apatunhar, que traduz como: «atropelar com as patas – relativo a animais de grande porte».
APEAÇA – correia para jungir as vacas à canga. Para jungir ao jugo é usada a soga.
APEAR – pear; colocar peias: atar as patas dianteiras do cavalo.
APEADO – preso com peias.
APEGUILHAR – comer pão com peguilho (ou conduto).
APEIAS – peias; corrente de ferro com que se atam as patas das cavalgaduras.
APEIRADOR – o m. q. aparador (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
APELAZAR – apalpar; tactear. (Joaquim Manuel Correia).
APERALTADO – bem vestido.
APERNAR – prender pelas pernas; atar as patas das ovelhas para a tosquia. Bom enraizamento dos cereais (Duardo Neves).
APERREAR – fazer troça; insultar.
APESSOADO – de boa aparência; circunspecto.
APESTAR – exalar mau cheiro: cheira mal que apesta. Também se diz empestar.
APESUNHAR – espezinhar; andar sobre terras cultivadas (José Pinto Peixoto).
APIAR – prender; atar os braços e as pernar de uma criança (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia do Bispo): o m. q. apear.
APICHAR – acender o lume; atiçar ou açular o cão. Levantar falsos testemunhos a alguém (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos).
APILHAR – a comida conter sal em demasia. Agarrar; alcançar: aqui te agarro, além te apilho. Mais a Sul (Monsanto), significa atirar pedras a alguém (Maria Leonor Buescu).
APISTADEIRA – fisga (José Prata).
APISTAR – acertar, ter boa pontaria (José Prata).
APLICAR – trabalhar muito depressa; comer à pressa (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia do Bispo).
APONTAR – afiar; aguçar; fazer ponta. Apontar a relha – aguçar a relha do arado (Clarinda Azevedo Maia).
APORTEIRAR – gritar (Franklim Costa Braga).
APREGOAR – anunciar; fazer ler os pregões, ou banhos, anunciadores de casamento.
APREGUEJAR – praguejar, rogar pragas; blasfemar (José Pinto Peixoto).
APRISCO – cancelas onde se recolhe o gado; bardo (também se diz prisco). Júlio António Borges, de Figueira de Castelo Rodrigo, traduz de forma diferente: local separado, no redil, onde as ovelhas são ordenhadas.
APROCHEGAR – aproximar; chegar para perto.
APUCARAR – amealhar; guardar (Júlio António Borges).
APULAR – apanhar ou conter algo que vem pelo ar. Apular o cântaro: costume da Páscoa em que rapazes e raparigas seguem cantando a atirar um cântaro de uns para os outros. José Prata chama-lhe jogo do cântaro.
APUNHAR – tomar a massa nas mãos para dar forma aos pães (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
AQUENTAR – aquecer; estimular – não me aquenta nem me arrefenta.
AR – mal que provoca, nas crianças, um aspecto adoentado e amofinado, definhando continuamente, sem haver razão evidente. Se não for atalhado o doente pode ficar tísico. «Se, num prato com água, o azeite se espalhava era porque a criança tinha um ar, que devia de ser, logo, atalhado. Para atalhar um ar fazia-se um defumadoiro» (José Pinto Peixoto).
A RABO DE – atrás de… «Vem a rabo de mim» (José Manuel Lousa Gomes).
ARADA – terra lavrada.
ARADO – utensílio da lavoura para lavrar a terra. O tradicional é conhecido por arado de pau, é do tipo radial e é constituído pelas seguintes peças, segundo Manuel Santos Caria: sega, teiró, rabeca, avecas, mexilho, relha, tamão, pescunhos ou cunhas e chavelha (acessório). Já segundo Clarinda Azevedo Maia as peças são: rabela, tamão, tairó, traitora, mexilho, torno, prego, dente.
ARADO DE CEGA – arado equipado com uma cega, ou lâmina de ferro, a qual encaixa no toiró, variando a sua posição com o sentido da torna, de forma a cortar e virar a leiva para o lado da arada (Jarmelo).
ARADO ESPANHOL – arado com camba curta, que se prende ao timão por intermédio de duas argolas de ferro e cunhas de madeira (pescunhos).
ARANCOTAR – pavonear; ostentar (José Prata).
ARANCU – pirilampo. Joaquim Manuel Correia refere o termo arancu sem asas. Em Alfaiates Francisco Vaz chama-lhe apaga-lume. Clarinda Azevedo Maia refere: arancu, bicho da seda, bicho qu’alumia, bicho-arancu, sarançum saranrum, luzinha, vaga-lumo, pastorzinho. Nas terras do Campo (Monsanto) dizem arancum (Maria Leonor Buescu).
ARANHEIRA – teia de aranha.
ARANHÃO – pessoa atada, sem acção, sem destreza. «Sempre me saistes uns aranhões!…» (Abel Saraiva).
ARANZEL – pessoa ou coisa frágil (Júlio António Borges).
ARAVIAS – habilidades sem valor (José Pinto Peixoto).
ARCA – grande caixa rectangular de madeira, com o interior dividido em compartimentos, onde se guardavam os cereais. Também havia a arca salgadeira, para conservação da carne do porco, e as arcas para guardar a roupa.
ARCÁDIAS – argolas que as mulheres usam nas orelhas. Também se diz arrecádias e arrecadas.
ARCAZ – arca grande (Júlio António Borges).
ARCO-CELESTE – arco-íris (Clarinda Azevedo Maia). Em muitas terras diz-se arco-celestre.
ARCO DA VELHA – arco-íris (Franklim Costa Braga). A expressão histórias do arco da velha, designa narrações fantasiosas.
ARCO DA VIRGEM – arco-íris (Clarinda Azevedo Maia). Em muitas terras diz-se: arco da birge.
ARCO DE NOSSA SENHORA – arco-íris (Clarinda Azevedo Maia – Cerdeira do Côa).
ARCO-ÍRIS – meteoro luminoso, que apresenta as sete cores do espectro solar. Esta expressão era apenas usada pelas crianças, pois os mais velhos usavam outras variantes, como atrás se disse: arco-celeste, arco da velha, arco de Nossa Senhora, arco da Virgem.
ARÇOLHO – armadilha de caça, formada por tábuas moveis que cobrem um buraco feito no solo (Carlos Alberto Marques). A perdiz, ao pisar a tabuinha cai na cova, que a tábua volta a fechar.
ARCOSO – anel – termo da gíria de Quadrazais (Nuno Montemor).
ARDOSA – aguardente – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor)
AREIA – palerma; tonto. «És um areia» (Clarinda Azevedo Maia).
ARELO – tira de pano que segura o arméu de estopa à roca – as estrigas de linho eram seguras pelo cartapel (Manuel Santos Caria).
ARENGAR – fazer arenga; falar demoradamente e de forma enfadonha. O que estás para aí a arengar? Vitor Pereira Neves traduz por: resmungar; José Prata por: discursar, beldar, rezingar; Júlio António Borges por: falar sem interesse para quem ouve.
ARESTA – miolo da planta do linho, que se retira ao longo das várias fases da sua preparação até que fica a estriga de linho puro.
ARESTO – solução perante uma dificuldade. Não dar aresto: não encontrar caminho ou solução (Júlio Silva Marques).
ARGADILHO – rodízio usado para dobar o linho; dobadoura (José Pinto Peixoto).
ARGANEL – arame que se coloca no focinho dos porcos para que não revolvam palha da cama.
ÁRGIO – dinheiro (em moeda ) – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
ARGOLADA – pancada com a aldraba na porta; asneira.
ÁRIA – aspecto; fisionomia.
ARIADO – palerma; tonto (Clarinda Azevedo Maia).
ARICAR – passar o arado para remover as ervas daninhas. Segundo Francisco Vaz, também significa dizer asneiras.
ARIOSCA – tramóia; armadilha (Júlio António Borges).
ARMAÇÃO – esqueleto.
ARMAR-SE UMA TROVOADA – o tempo dar mostras de trovoada eminente – estando muito calor, o céu ficou escuro, cor de chumbo.
ARMAS DA GADANHA – cabo de madeira que se adapta à folha da gadanha. Em Vale de Espinho dizem armes, segundo Clarinda Azevedo Maia.
ARMÉU – porção de linho que vai de uma vez à roca para fiar. Manuel Santos Caria escreve ármeo e armo. Júlio Silva Marques e Clarinda Azevedo Maia escrevem ármio.
ARNAZ – robustez; força. «Vejo que estás com bom arnaz, homem» (Carlos Guerra Vicente).
AROLAS – pessoa sem préstimo, reles.
ARPALHÃO – pessoa sem jeito (Júlio António Borges).
ARQUEJO – alqueire – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor). Franklim Costa Braga refere arquerio.
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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Os capinhas, ou maletas, que se vão tornando uma raridade, foram durante décadas um elemento integrante da capeia arraiana, a maior e mais viva tradição cultural do concelho do Sabugal.

Um capinha em acção (foto Arraianos.net)Diversos estudiosos, entre etnólogos, antropólogos, historiadores e outros cientistas sociais, têm tropeçado com as capeias, encontrando aí um apetecível campo de estudo para desbravar, dada a peculiaridade que o espectáculo reveste. De onde lhe vêm as origens? Representa um ritual? É obra do acaso? J. Leite de Vasconcelos, ilustre etnólogo e estudioso da cultura popular portuguesa, reparou no forcão, máquina de lidar o touro deveras original, e descreveu em pormenor o curioso engenho: «Um triângulo de uns cinco metros de altura formado de varas muito grossas e atravessado por outras menores». Apresenta um esquema gráfico do forcão, nele indicando, através de letras, os vários posicionamentos dos lidadores. Destaque para o rabiador, o homem que dirige os movimentos do triângulo segundo os ataques do touro.
Na colecção leitiana de recortes de jornais lá surge também um artigo de Karl Marx (pseudónimo de Carlos Alberto Marques, grande escritor, geógrafo e etnólogo de Vale de Espinho), sob o título «Uma Corrida de Touros na Lageosa», publicado em 1926 no semanário regionalista «O Sabugal». Karl Marx relata em estilo incisivo o folguedo (assim se designava a capeia arraiana), evidenciando o entusiasmo, a alegria, a emoção e, bastas vezes, a aflição, que rodeia esta peculiar manifestação taurina. E o espectáculo não é só o rodopiar nervoso do forcão ao centro da praça improvisada. É, antes que tudo, o encerro dos touros trazidos de Espanha, da Genestosa, onde pastam em manadas. São os foguetes que restalam, sinal de festa e diversão. É o samarra, ou tamborileiro, que com seus rufos incendeia o corro. São os rapazes arrojados que, dum e doutro lado, avançam e passam junto ao animal com casacos, cobertas ou sacas. São os pouco ágeis que se afoitam à praça e logo são colhidos, para exaltação geral. São, finalmente, os capinhas ou maletas.
Em quem são os capinhas? São toureiros amadores, vindos de Espanha, que participam nas capeias arraianas para se exercitarem na arte do toureio. O autor valdespinhense descreve-os magistralmente no seu artigo:
«O capinha é um pobre de Cristo que no Inverno morre de fome ou se ocupa em trabalhos servis e que no Verão oferece em holocausto à sublime arte tauromáquica o seu cicatrizado corpo; de terra em terra, andrajosamente vestido, com uma capa de clara cor debaixo do braço, conta as touradas pelo número de ferimentos. É um apaixonado que, nesta escola donde quasi nunca sai, se treina para entrar na eternidade nas chaves de um toiro, diante de um público que o aclame, diante de uma mulher por quiem se muere. O capinha canta lindas malagueñas pelas tabernas, estende a capa a colher donativos e vai deixando umas gotas de sangue na terra que os outros regam com suor. Faz umas sortes arriscadas, espeta uns ferros e sobre tudo sonha com a glória.»
Na verdade, nas nossas aldeias, a capeia arraiana não é capeia se não incluir a apreciada e muito aplaudida exibição dos arrojados capinhas, em cujos redondéis se praticam no toureio, sonhando actuar um dia na praça de uma grande cidade de Espanha, onde triunfem recebendo aplausos e aclamações, cortando rabos e orelhas.
Paulo Leitão Batista

Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

ALOFADA – travesseira; almofada (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
ALOISA – pequena borboleta.
ALOMBAR – carregar às costas, sobre o lombo. Alombou com o carrego.
ALPARGATA – calçado leve, de goma e lona, comprado em Espanha e muito usado pelas mulheres. Também se diz alpergata. Franklim Costa Braga, de Quadrazais, escreve alpragata. Maria José Ricárdio Costa, de Aldeia do Bispo, recolheu alpercata. Nalgumas terras chamam-lhe simplesmente sapata.
ALPENDRADA – parte do curral coberta pelo alpendre, onde se guardam utensílios da lavoura, lenha e palha. Também se chama cabanal.
ALPENDRE – telheiro.
ALPERCATAR – ter cuidado; acautelar.
ALPISTE – arroz – termo jocoso e depreciativo (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia da Ponte).
ALPONDRAS – pedras que permitem atravessar a passo uma ribeira; o m. q. poldras.
ALQUEIRE – caixa rectangular de madeira, com um dos lados inclinado, utilizada para medir cereais. Medida de 16 litros (na generalidade do concelho do Sabugal). À semelhança do almude, a medida do alqueire varia de terra para terra – por exemplo, em Pêga equivale a 14 litros. Clarinda Azevedo Maia registou alquêre.
ALQUEIVAR – lavrar a terra para a deixar de pousio. O m. q. abarbeitar.
ALQUERNOQUE – sobreiro (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia do Bispo). Também se diz alcornoque.
ALQUEVE – terra alta lavrada, preparada para receber semente. Os dicionários registam alqueive.
ALQUITARRA – alambique portátil; caldeira para fazer aguardente. É composto pela caldeira (onde se coloca o engaço), o capitel (que recebe o vapor vindo da caldeira), o tubo (onde o vapor se liquefaz) e refrigerante (vasilha onde cai a aguardente). Leopoldo Lourenço regista alguitarra.
ALQUITÃO – banco de madeira onde as mulheres se ajoelhavam para lavar a roupa (Soito).
ALQUITREQUE – indivíduo muito mexido; um leva e traz (Rebolosa). Pessoa reles e de pouca importância (Duardo Neves). O m. q. alquitaque (Rapoula do Côa).
ALROTAR – arrotar.
ALROTE – arroto.
ALTANAR – casar – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
ALTAR – peito com seios volumosos (Júlio António Borges) – expressão jocosa.
ALTO – carro ligeiro; automóvel (Clarinda Azevedo Maia – Batocas).
ALUADO – lunático; parvo, doidivanas. A um afluente do Côa, que desagua no Sabugal, vindo da Urgueira, chamam ribeiro dos Aluados.
ALUGAR – acomodar uma besta, para nela facilmente montar (Francisco Vaz).
ALUMIAR – iluminar; dar luz. No norte (zona de Lamego) chamam alumios aos relâmpagos que vêm com as trovoadas.
ALUMIEIRA – tocha de palha (de alumiar – dar luz). Com a alumieira se alumiava nas noites escuras e se chamuscavam os porcos na matança.
ALVANAR – aqueduto de pedra por onde escorre a água, nos campos. «Saiu dali e foi refrescar o rosto ao alvanar» (Carlos Guerra Vicente). Mais a sul, em Monsanto, diz-se alvanel (Maria Leonor Buescu).
ALVANDIEIRA – pessoa que anda sempre a passear, que não para quieta (Júlio António Borges).
ALVEDRIO – livre arbítrio; vontade que não encontra constrangimento (Júlio Silva Marques).
ALVEITAR – veterinário amador; curandeiro de animais. José Prata também refere alvitar. Em geral era o ferreiro que nas aldeias exercia também a função de alveitar, por contraposição ao barbeiro, que curava as pessoas.
ALVÉOLA – ave pequena, de cauda comprida, que acompanha os lavradores nas aradas à cata de insectos na terra revolvida, a que também se chamam lavadeira. Também se diz arvéola.Maia para sul, nas chamadas Terras do Campo chamam-lhe lavradeira e lambrandeira (Maria Leonor Buescu).
ALVER – desafogado; espaçoso. «Casa alver» (Júlio Silva Marques).
ALVORÁRIO – doidivanas; maluco (José Prata).
ALVORADA – descarga de foguetes lançada pela manhã nos dias festivos. Segundo José Prata, raramente se excedem as cinco dúzias de foguetes. Também se chama alvorada ao rufo do tambor em dia de festa: «O povo acompanha o batalhão nos vivas e aclamações e o tambor toca uma alvorada» (Joaquim Manual Correia).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

ALÇAPÃO – abertura no soalho com tampa levadiça que dá acesso à corte (estábulo) dos animais.
ALCAPARRA – azeitona curtida depois de se lhe retirar o caroço (Júlio António Borges).
ALÇAPREMA – barra de ferro para levantar pesos; alavanca.
ALÇAR – erguer; levantar. Alçar a pata: diz-se do cão quando urina. Júlio António Borges acrescenta: «na agricultura designa o trabalho do arado, ou da charrua, preparando a terra para nova sementeira; a primeira volta no cultivo dos cereais».
ALCATRUZ – cada um dos recipientes de latão que compõem a nora de tirar água, também chamados copos.
ALDEAGA – vadio; estroina; pessoa de carácter alegre e folgazão, que não pára quieta (Júlio Silva Marques). Trapalhão (José Prata). O m. q. adrega (Manuel Leal Freire). Também se diz aldeagante.
ALDONAIRO – peça de vestuário mal feita (Júlio António Borges).
ALDRA – mentira.
ALDRABA – argola de ferro para puxar e bater à porta. Júlio António Borges, de Figueira de Castelo Rodrigues, refere aldrave.
ALDRABÃO – mentiroso; intrujão.
ALDRABAR – mentir; enganar.
ALDRÁCIA – recompensa; reconhecimento. Não ter as aldrácias: não se obter um gesto de reconhecimento após prestar um favor a alguém (Júlio Silva Marques). Esperteza; habilidade; manha (Duardo Neves).
ALDRÚVIA – aldrabão; vigarista (José Pinto Peixoto). Os dicionários registam aldrúbio.
ALECRIL – alecrim (Clarinda Azevedo Maia, que também regista alicril).
ALEGUME – feijão – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
ALEIJÃO – entalão; fractura; lesão.
ALETRIA – doce feito com leite, massa delgada e açúcar.
ALEVANTO – acto de erguer da cama; hora de levantar. Andou de alevanto: teve diarreia durante a noite.
ALFAIATE – insecto, que anda sobre a água.
ALFOBRE – viveiro de plantas hortícolas, para transplantar.
ALFORGE – saco duplo que se põe sobre as cavalgaduras para transporte. Normalmente é feito com farrapos.
ALFORJADA – roupa velha que é costume vestir no dia de Entrudo (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia do Bispo).
ALGARAVIADA – conjunto de vozes confusas e desacertadas (Carlos Guerra Vicente).
ALGEIRÁS – pessoa má (Júlio António Borges, que também regista aljaraz).
ALGUEIRO – argueiro; cisco que entrou para o olho. Vês os algueiros nos olhos de outros e não vês as trancas nos teus.
ALIFANTES – olhos – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
ALIMAL – animal; besta; homem estúpido (Francisco Vaz).
ÀLIMO – olmo (Clarinda Azevedo Maia).
ALÍMPIO – azeite – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
ALIMPIOSA – azeitona – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
ALINHAR – temperar ou adubar as comidas (Carlos Alberto Marques).
ALIPANTES – olhos – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
ALJAROZ – casa velha e abandonada (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
ALJUBAR – dar para muito; surdir; render (José Prata).
ALJUBE – casa sem luz, sem condições; pardieiro (Júlio Silva Marques).
ALMA DE CEVADA – alcunha que se dava aos judeus (Júlio Silva Marques).
ALMA PENADA – alma que se extraviou e que vagueia pelo mundo. Uma alma penada é um risco para a sociedade, pela sede de vingança e pelo comportamento agressivo que pode ter, daí serem muito temidas pelas pessoas.
ALMAREADO – tonto; maluco (Fóios).
ALMÁRIO – armário (Franklim Costa Braga).
ALMAS DO PEDITÓRIO – objecto de madeira para onde se recolhem as esmolas nas missas (António Cerca).
ALMEIRÃO – planta espontânea (chicória brava), de que se fazem vassouras para limpar o pão nas malhas. O m. q. coanha.
ALMEIRO – leite – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor). Segundo Franklim Costa Braga, também se dizia almerio.
ALMENDRA – amêndoa (Júlio António Borges).
ALMINHA – cruz ou nicho escavado em rocha, que assinala lugar de devoção, geralmente ao redor dos caminhos. Junto à alminha o viandante deve rezar uma oração pelas almas do purgatório. No plural também significa objecto, geralmente de madeira, para onde se recolhem as esmolas nas missas (Maria José Ricárdio Costa), que também se designa por almas do peditório (António Cerca).
ALMOFIA – prato de grandes dimensões, quase alguidar (Vitor Pereira Neves). Quase terrina (acrescenta José Pinto Peixoto).
ALMOTACEL – inspector camarário de pesos e medidas.
ALMOTRIA – almotolia (Francisco Vaz). Recipiente em folha de zinco, de forma cónica usado para guardar o azeite na cozinha, pronto a temperar as comidas. Duardo Neves refere almetria. Clarinda Azevedo Maia acrescenta ainda almotoria. Na linguagem de Monsanto diz-se almetoria (segundo Maria Leonor Buescu)
ALMUDE – medida de 28 litros (no concelho do Sabugal e demais Riba Côa). A medida do almude varia conforme a região do País, equivalendo, na maior parte delas, a 24 litros (12 canadas).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

AGUILHADA – vara com ferrão na extremidade, própria para picar as vacas. Medida de comprimento, correspondente a 19 palmos (significado colhido por Clarinda Azevedo Maia na Lageosa da Raia).
AICHE – pequeno ferimento (linguagem infantil); o m. q. farraiche. Muitos autores escrevem aixe e axe.
AIDRO – adro, terreiro à volta da igreja. O povo ajuntou-se no aidro.
AJAVARDADO – sujo; grosseiro (de javardo: javali).
AJAVARDAR – sujar; fazer mal; estragar. Ajarvadou o trabalho.
AJOUJADO – muito carregado; cansado.
AJOUJAR – carregar muito, fazer cansar. Júlio António Borges dá o significado de: juntar.
AJUSTAR – contratar; combinar a prestação de um trabalho e a sua contrapartida.
AJUSTE – contrato de trabalho. Andar de justo: trabalhar sob contrato.
ALA – interjeição que indica pressa. Ala, que sa faz tarde!. Joaquim Manuel Correia traduz por levantar chama: «o lume tomou ala».
ALABARDA – pau enfeitado, usado nas touradas pela mordomia quando pede a praça. Bandeiras usadas nas festas do Espírito Santo, em algumas terras; o m. q. labarda. «Era constituída por duas bandeiras, ambas em forma de galhardete, e cujos panos de uma forma quadrada, eram constituídos por retalhos quadrados de cores, em que predominava o vermelho, o amarelo e o verde e por um ceptro, de pau alto, encimado por uma cruz, em torno da qual se colocavam cravos e manjericos, a modos de enfeite» (Pinharanda Gomes).
ALABARDEAR – manejar a alabarda, agitando as bandeiras a pulso, até ao cansaço (Pinharanda Gomes). Também se diz labardear.
ALACRÁRIO – lacrau; escorpião (Vitor Pereira Neves, de Sortelha). Júlio Silva Marques, de Vilar Maior, escreve alecral. José Prata, de Aldeia da Ponte, refere lacrário. Júlio António Borges, de Figueira de Castelo Rodrigo, refere alacrairo e alacrau.
ALACRÊNCIA – miriápode; centopeia (Vitor Pereira Neves).
ALAFRAU – patife (Júlio António Borges).
ALAGADEIRA – mulher desgovernada, incapaz de gerir a casa; gastadora (Júlio António Borges).
ALAGOA – lagoa (Duardo Neves).
ALAGOSTA – mulher que esbanja; o m. q. alagadeira.
ALAGOSTAR – esbanjar (José Pinto Peixoto).
ALAMAR – enfeite no vestuário (Júlio António Borges).
ALAMBA – resina (Joaquim Manuel Correia).
ALAMBAZADO – cheio; farto; que comeu em excesso; que encheu o odre.
ALAMBAZAR – comer em excesso.
ALAMBRAR – atiçar a chama – lambra (José Pinto Peixoto).
ALAMPIÃO – lampião, candeeiro grande (Francisco Vaz).
ALÂMPIO – azeite – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
ALAMPIOSA – azeitona – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
ALANCAR – carregar excessivamente; vergar com o peso. Também diz alangar, segundo José Prata. Por sua vez Júlio António Borges traduz por: «ir-se embora».
ALANGOSTA – pessoa que come demais; lambão (Clarinda Azevedo Maia).
ALANTERNA – lanterna; candeia que acompanha os funerais (Franklim Costa Braga).
ALANZOAR – dizer coisas à toa; falar muito. «E tu a alanzoar que estou bêbeda» (Abel Saraiva).
ALAPARDADO – agachado; escondido. Júlio António Borges traduz por: «sentado à vontade».
ALAPARDAR – agachar; esconder.
ALARDE – ostentação; aparato.
ALAVÃO – parte do rebanho de ovelhas que está a produzir leite, que se separa para melhor trato (Vítor Pereira Neves).
ALBARCA – calçado espanhol, feito de borracha – em geral pelo aproveitamento de pneu velho, segundo Adérito Tavares. Calçado tosco de madeira e couro (Clarinda Azevedo Maia).
ALBARDA – aparelho para colocar sobre o lombo das bestas de carga, feito com cabedal e estopa e cheio com palha. Albardeiro era o mestre no fabrico e venda de albardas.
ALBARDADO – com albarda. Bacalhau frito passado por farinha e ovo.
ALBARRÃ – espaço amplo e desocupado (Rapoula do Côa): cabanal albarrã. José Prata traduz por: «descampado».
ALBERNÓ – peça de vestuário que fica desajeitada ao corpo (Júlio Silva Marques). Júlio António Borges, de Figueira de Castelo Rodrigo, refere albornó, expressão igualmente referenciada por Maria Leonor Buescu acerca da linguagem de Monsanto, dando-lhe o mesmo significado. A generalidade dos dicicionários da língua portuguesa registam albornoz.
ALBOREDO – alvoroço; barulho; gritaria (Clarinda Azevedo Maia – termo recolhido em Aldeia da Ponte).
ALBRICOQUE – alperce; pêssego (José Pinto Peixoto).
ALBROQUE – celebração do fecho de um negócio, com pagamento de vinho a todos os intervenientes. Também se diz alboroque, alberoque e alborque. João Valente publicou neste blogue um interesante texto intitulado «Alborque ou Albroque» (dividido em duas partes) acerca da origem e do uso deste termo na raia sabugalense, que pode consultar aqui e aqui.
ALBRÓTIA – abrótea; planta espontânea muito procurada pelos animais quando pastam no campo. José Manuel Lousa Gomes, do Soito, refere que esta planta era apanhada para servir de alimentação aos porcos.
ALÇA – suspensório usado pelos garotos, feito a partir da tira da bainha dos tecidos. Júlio António Borges dá outro significado: «quadro de madeira, metido na colmeia, onde as abelhas constróem os favos».
ALCABOSIAR – berrar; ralhar (Júlio António Borges).
ALCACER – horta constituída especialmente por pimentos, cebolas, tomates, couves: «tenho de ir à Regada bachicar o alcacer» (Porfírio Ramos). Mais a sul, em Monsanto, designa o terreno em que cresce trigo, cevada ou centeio (Maria Leonor Buescu).
ALCADUTO – aqueduto (José Prata).
ALCAGUETE – alcoviteiro (Clarinda Azevedo Maia – termo recolhido em Vale de Espinho). Do Castelhano: alcahuete.
ALCAIDE – designação que em algumas terras se dava ao regedor. No tempo da reconquista cristã designava a pessoa nomeada pelo rei para administrar militarmente uma vila ou cidade, residindo no respectivo castelo. Em Espanha o alcalde é a pessoa que está à frente da administração de uma povoação.
ALCAMAZES – pulos; saltos. Andar aos alcamazes: brincar pulando e saltando, sem regra (Júlio Silva Marques).
ALCANÇAR – conceber; engravidar. Normalmente usado quando referente a animais.
ALCANDÓRIO – coisa grande e desajeitada; pessoa alta e mal apresentada (Júlio António Borges).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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Por impossível que pareça, o Sabugal continua estar entre os municípios portugueses que mais população vai perdendo em cada ano que passa.

Festas de Agosto - António Cabanas - Terras do Lince - Capeia Arraiana

Segundo os dados agora divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), entre os anos 2010 e 2011, o Sabugal voltou a estar entre os cinco municípios portugueses que mais sofreram com o abandono humano. Com perdas de população superiores a dois por cento destacaram-se os concelhos de Arronches e Crato (ambos no Alentejo) e Sabugal, Penamacor e Vila Velha de Ródão (estes três na região Centro).
A tendência para a despopulação do interior manifesta-se imparável, devido sobretudo a um modelo de desenvolvimento que favorece a litoralidade da economia. Junto ao mar estão as cidades mais dinâmicas, onde a indústria e os serviços possibilitam o emprego. O interior quase não tem actividade económica e a pouca que resta vai sendo progressivamente desmantelada.
Mau grado os tempos de crise, e apesar de Portugal ter perdido mais de 30 mil habitantes no período em análise, a chamada Grande Lisboa continuou a crescer populacionalmente, acentuando-se a visão macrocéfala do país. Na capital e ao seu redor concentram-se mais de dois milhões de pessoas, o que representa um quinto da população nacional.
Se a principal responsabilidade pela situação do concelho do Sabugal a podemos deitar para as costas deste errado paradigma de desenvolvimento, não devemos também deixar de imputar culpas à má governabilidade local. Nada do que no Sabugal é feito contribui para estancar esta sangria desatada que perdura há décadas. O anunciado fecho do Tribunal, o possível encerramento das Finanças e do Centro de Saúde (desde há muito na corda bamba), aliados ao insensato projecto de extinguir metade das Juntas de Freguesia, levam a crer que um dia, mais cedo do que tarde, decretarão o encerramento do próprio concelho e do seu Município. Voltaremos ao tempo do ermamento, quando, antes da chegada do rei Dinis, no século XIII, eramos terra erma, sem gente nem instituições.
O chão foge-nos debaixo dos pés e a Câmara assobia para o lado, preocupada com o calendário e a organização de festas e festarolas, numa paródia permanente.
Vem aí Agosto, mês em que alguns emigrantes ainda retornam, nem que seja por uns dias, criando as condições para a continuidade do movimento festivo. Será, como sempre foi, um tempo de mera ilusão.
Findo Agosto voltaremos à crua realidade: uma nova leva de jovens sairá para continuar os estudos, numa viagem sem regresso, porque a sua terra não lhes garantirá futuro.
É este o nosso triste fado!…
«Contraponto», opinião de Paulo Leitão Batista

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Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

ADVERTIDO – alegre, folgazão, divertido.
ADVERTIR – alegrar; divertir.
A EITO – seguidamente, de enfiada: Levar a eito.
AÉREO – distraído; sem tino.
AFARVADO – acalorado (Júlio António Borges).
AFEITAR – barbear (do Castelhano): afeitou-se antes de ir para a festa.
AFERREAR – fazer zangar; o m. q. aferrenhar.
AFERRENHAR – fazer zangar. Atiçar os cães: quando passa gosta de aferrenhar os cadelos.
AFIADEIRA – pedra de xisto para afiar facas; agucina (Vítor Pereira Neves – Sortelha).
AFIANÇAR – dar a certeza, garantir, assegurar.
AFICAR – espetar no chão perpendicularmente (termo recolhido por Clarinda Azevedo Maia nos Forcalhos); o m. q. afincar.
AFIFAR – bater; sovar: afifou-lhe sem dó nem piedade.
AFINADO – esperto; sagaz. Irritado; zangado.
AFINAR – irritar, zangar.
AFIRMAR – observar; verificar; fixar os olhos em algo.
AFOGADILHO – à pressa, sem calma: anda sempre num afogadilho.
AFOGA-MARRANOS – cachecol (Francisco Vaz – Alfaiates).
AFOGAR – estrangular; matar por asfixia.
AFOITO – destemido; corajoso; que não tem medo; o m. q. foito. Clarinda Azevedo Maia define de modo, reportando a palavra às Batocas: «prevenido, que conta com alguma coisa que vai suceder».
AFOLIAR – desafiar o touro a investir, colocando-se à sua frente.
AFORRAR – arregaçar as mangas ou as calças. Aforrou-se e avançou de punhos cerrados.
AFUNDIR – afundar; ir para o fundo.
AFUSAL – porção de linho com dois arráteis (459 gramas). Clarinda Azevedo Maia define de outra forma, reportando a Aldeia da Ponte: «conjunto de 24 mãos-cheias de linho depois de espadelado».
AGACHAR – abaixar-se, pôr-se de cócoras. Defecar. Agachou-se para dar de corpo.
AGACHIZ – esconderijo; cabana muito exígua, onde uma pessoa mal se pode movimentar. Cada um em seu agachiz.
AGADANHAR – ceifar com a gadanha: O mê home foi agadanhar o lameiro.
AGALHADO – pau bifurcado para virar o feno, o m. q. galhada (Francisco Vaz – Alfaiates) ou agalhada. Também significa pau bifurcado para segurar as cancelas do aprisco – o que noutras partes do país se chama fôrca (J. Leite de Vasconcelos).
AGARRAR O SENTIDO – ficar aguado, com um desejo insatisfeito (apenas relativo a animais). A vaca ganhou o sentido do lameiro e é para lá que embica.
AGASNATAR – agarrar pelo pescoço (gasnato). Agasnatou-o de tal modo que o ia afogando.
AGASTAR – ofender, aborrecer.
AGATONAR – roubar – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
AGAZIAR – dar três uivos seguidos (Ah! Hi! Hi!) em sinal de alerta – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
AGAZULAR – asfixiar; apertar as goelas (Júlio António Borges). O m. q. agasnatar.
A GENTE – nós; as pessoas: A gente somos pobres.
AGONIADO – enfadado; enjoado.
AGRADAR-SE – olhar para algo com gosto. Agradou-se da cachopa.
AGRANGIR – angariar (Júlio António Borges).
AGRAZ – uva verde; muito azedo (Júlio António Borges).
AGRE – amargo; azedo; acre.
AGRO – talhado a pique; ribanceira (Clarinda Azevedo Maia). O m. q. agre. Conjunto da produção agrícola: vão bons os agros; colhi muito agro.
AGRUNHO – abrunho (Júlio António Borges).
AGUAÇADA – aguaceiro; chuva súbita e forte (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia da Ponte).
ÁGUA CHILRA – água choca: Donde veio esta água-chilra?
AGUADA – chuva forte e intensa. Júlio António Borges traduz por «Criança muito magra».
AGUADEIRAS – cangalhas (suporte de madeira) para transporte de cântaros no lombo de um burro.
AGUADOIRO – molhos de linho (Júlio António Borges).
ÁGUA-MEL – indivíduo natural de Vale de Espinho – dito depreciativo de que os valdespinhenses não gustavam.
AGUAMENTO – desejo alimentar insatisfeito (também se diz auguamento). Para se evitar o auguamento dos animais devem-se convidar, dando-lhes uma pequena porção de alimento. Também a mulher que está gestante não deve deixar de provar uma iguaria, sempre que a vê comer a outra pessoa.
ÁGUA-REZIA – aguaceiro; chuva forte (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos).
AGUÇADEIRA – pedra de afiar (também se diz aguçadoura).
AGUCINA – pedra de afiar. O m. q. aguçadeira, afiadeira ou esmoril. Nos currais ou nos balcões das casas havia sempre uma grande e pesada agucina para afiar facas, podoas e malhos. Também havia pedras pequenas, como a de afiar a gadanha.
AGÚDIA – formiga grande com asas, muito utilizada como isco para apanhar taralhões com costelas (costis) – Vítor Pereira Neves.
AGUIGUIAR – grito dos rapazes nas rondas nocturnas: ah-gui-gui! Júlio Silva Marques, de Vilar Maior, chama-lhe aguguiar. José Prata, de Aldeia da Ponte, usa o termo aghighar. José Pinto Peixoto, da Miuzela, refere aghughiar. Clarinda Azevedo Maia registou ahihiar. Os gritos dos rapazes da ronda, ou da «confraria dos solteiros», como lhe chama Manuel Leal Freire, eram um sinal de poder e de afirmação. De noite as ruas de cada aldeia eram da ronda, a quem cabia zelar pela segurança. Nuno de Montemor chama azagueios a esses gritos dos rapazes da ronda. Franklim Costa Braga coligiu o termo agaziar, que apresenta inserido na gíria de Quadrazais, significando dar três uivos seguidos (ah, ih, ih), o que seria um sinal de alerta usado no contrabando.
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

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Damos continuidade à apresentação do léxico de palavras e expressões populares usadas em Riba Côa. Para além dos termos colhidos em trabalho de campo, ouvindo as gentes falarem entre si, também se colheram frutos de alguns pomares alheios, nomeadamente de monografistas que editaram livros fazendo referência ao léxico raiano.

ACHADA – planície pouco extensa em terreno montanhoso; pequeno planalto.
ACHACADO – adoentado; que sofreu achaque.
ACHAMBOADO – mau; grosseiro; da má qualidade. Falar achamboado: falar do povo; fala simples e rude (expressão recolhida por Clarinda Azevedo Maia nos Fóios).
ACHANASCADO – mau; reles; de má qualidade. Fala achanascada: falar do povo; fala simples e rude (expressão recolhida por Clarinda Azevedo Maia nos Forcalhos).
ACHAQUE – defeito; vício; doença.
ACHICADO – abaixado; acocorado.
ACHICAR – agachar, abaixar; humilhar.
ACHINCALHAR – humilhar, fazer pouco de.
ACHUDA – batata encortiçada por ter ficado muito tempo na terra (Duardo Neves).
ACINCHO – folha de madeira ou tira metálica enrolada e perfurada, usada para fazer o queijo. Luísa Lasso Charters (de Sortelha) recolheu com o mesmo significado os termos cinho e ancinho.
ACOANHAR – limpar o pão (gão de centeio) dos resíduos que contém após a malha. Varrer a eira com a coanha (vassora feita a partir de uma planta silvestre).
ACOBARDAR-SE – ter medo, mostrar-se tímido; fazer cerimónia (Clarinda de Azevedo Maia).
ACOIMAR – tratar de forma injuriosa. Castigar; sujeitar a coima.
ACOIMADO – tratado injuriosamente; castigado; sujeito ao pagamento de coima.
ACOJINER – morrer (termo recolhido por Clarinda Azevedo Maia na Lageosa da Raia).
ACOMODO alojamento.
ACOMPANHAMENTO – cerimónia religiosa que acontece após o funeral de alguém. O povo, com o pároco na dianteira, vai em procissão à casa da família enlutada, rezar pelo defunto. Franklim Costa Braga acrescenta: «comitiva do noivo que no dia do casamento se desloca a casa da noiva».
ACONAPAR – remendar a roupa; deitar conapos (remendos).
ACONCHAVAR – costume que consiste numa aposta, ou ajuste, entre duas pessoas, normalmente crianças, feita pela ligação dos dedos mindinhos. Aquele que no dia de Páscoa primeiro mandar rezar o outro recebe um oflar (geralmente um ovo cozido). Abel Saraiva, dos Gagos (concelho da Guarda), regista a fórmula do aconchavo: «Aconchavar, aconchavar / até ao dia do oflar / nesse dia te mandarei rezar». José Pinto Peixoto, da Miuzela, refere contratar. Manuel Leal Freire, da Bismula, chama-lhe enganchar (pelo enganchar dos dedos).
ACORCEAR – arrastar pedras com a corça (plataforma de madeira, o m. q. zorra) – termo recolhido por Clarinda Azevedo Maia em Aldeia do Bispo.
ACORDAR-SE – lembrar-se (do Castelhano) – termos recolhido por Clarinda Azevedo Maia em Vale de Espinho.
ACRAPULAR – apular, apanhar, suster algo (Rapoula do Côa).
ACTIVA – faca – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
ACUDADEIRA – cunha de ferro usada pelo pedreiro para talhar a pedra.
ACUDIR – retorquir; responder à chamada.
AÇUGAR – açular; assanhar; incitar o cão a morder.
ADEITO – porção de linho, correspondente a 50 estrigas (quantidade que se coloca na roca para fiar). Um adeito corresponde a dois afusais e cada afusal pesa dois arráteis (459 gramas). José Pinto Peixoto refere adeiço.
ADENTA – fase em que nascem os dentes às crianças (Júlio António Borges).
ADICAR – ver, observar – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
ADIVINHA-NEVES – pássaro preto, que surge em bandos no inverno que, diz-se, antecedem os nevões.
ADJUNTO – reunião; ajuntamento.
ADMENOS – a menos que.
À DOCA – à sorte, de qualquer maneira. Provirá da expressão latina ad hoc (Júlio Silva Marques).
ADOÇANTE – açúcar – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
ADONDAR – tornar dondo; amaciar.
ADREDE – de propósito; com esse mesmo fim. Ir adrede: ir de coisa feita. «Fogueira adredemente preparada» (Joaquim Manuel Correia).
ADREGA – finório, matreiro, espertalhão. «ciganos ou adregas» (Manuel Leal Freire).
ADUA – vez; sistema comunitário que estabelece a regra da alternância no uso comum de qualquer coisa, nomeadamente as águas para rega e o forno. «Apesar de não estar o uso da adua regulado por escrito, todos o seguem» (Joaquim Manuel Correia). Em Figueira de Castelo Rodrigo usa-se a expressão à duia (Carlos Guerra Vicente).
ADUANA – alfândega (do Castelhano).
ADUAR – dividir de forma justa e equilibrada a água da rega pelos vários proprietários que dela beneficiam; seguir o sistema da adua.
ADUBAR – condimentar a sopa, temperar.
ADUBO – gordura derretida utilizada na cozinha como tempero.
ADUELA – costela; juízo (Francisco Vaz). Cada uma das tábuas que fazem o corpo de um pipo.
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

leitaobatista@gmail.com

Despois de alguns artigos de enquadramente ao modo de falar dos povos de Riba Côa, incia-se agora a publicação de um léxico, que contém alguns das palavras e expressões populares usadas na região. Para além dos termos colhidos em trabalho de campo, ouvindo as gentes falarem entre si, também se colheram frutos de alguns pomares alheios, nomeadamente de monografistas que editaram livros fazendo referência ao léxico raiano.

ABAFADIÇO – calmoso; encalorado – tempo abafadiço.
ABAIXAR – fazer as necessidades no campo – abaixar as calças.
ABALADA – saída; partida do lugar onde se está – estou de abalada.
ABALADIÇA – última rodada bebida numa súcia de amigos ( a que antecede a abalada).
ABALAR – ir embora; partir. As pessoas nunca usavam a expressão ir embora, mas sempre abalar: «Esse bruto deixou abalar a égua» (Joaquim Manuel Correia). Mais para norte, em Figueira de Castelo Rodrigo, traduz-se por «mal vestido» (Júlio António Borges).
ABALDEAR – tornar baldio. Diz-se que uma propriedade é abaldeada quando se toma por passagem, o que pode fazer com que se torne caminho público.
ABALOFADO – inchado; gordo; balofo.
ABALROAR – deitar abaixo; deixar ao desmazelo; devassar.
ABANADELA – abanão; safanão; sacudidela.
ABANCAR – sentar para demorar.
ABANDALHAR – descuidar; perder a dignidade. Uma pessoa que veste mal é abandalhada.
ABANO – utensílio de junco entrelaçado, de forma circular, seguro por cabo de madeira, que serve avivar o lume.
ABANTESMA – fantasma; espectro. José Pinto Peixoto, da Miuzela, refere abentesma.
À BARBA LONGA – à custa dos outros; de borla.
ABARBATAR – deitar as mãos a qualquer coisa; apanhar; surripiar; tirar algo a alguém.
ABARBEITAR – dar barbeito à terra, ou seja, lavrá-la e deixá-la em repouso. José Pinto Peixoto refere aberbeitar.
ABARROTAR – encher o mais possível; atulhar; atestar. Diz-se que a panela está a abarrotar quando demasiado cheia, a deitar fora. Uma pessoa abarrota-se quando come em excesso, à tripa-forra.
ABASBAR – encher demasiado (Júlio António Borges).
ABEBOREIRA – figueira que dá abêboras.
ABÊBORA – abebra (ou abêbera); figo temporão. Clarinda Azevedo Maia registou outras variantes: bêbora, bebra, breba.
ABELHANA – avelã (Júlio António Borges) – do Castelhano (avellana).
ABELOIRA – dedaleira, planta existente em montes e bordas de caminhos (Júlio Silva Marques). Borboleta (José Pinto Peixoto).
ABERTA – intervalo na chuva. Lá vem uma aberta para enganar a esperta (adágio).
ABESPA – vespa; abelha brava. Também se diz: bespa, abêspera, abêspora, abespra.
ABETOIRO – abeloira; planta frequente na serra.
ABINADA – diz-se de uma aldeia anexa a outra do ponto de vista eclesiástico (Clarinda Azevedo Maia recolheu esta expressão nas Batocas). A palavra derivará de «binar», que significa, em linguagem eclesiástica, dizer duas missas no mesmo dia, o que acontece ao sacerdote que tem a seu cargo duas paróquias.
ABOBORO – abóbora pequena, ainda muito tenra. «E este aboboro é pró caldinho» (Joaquim Manuel Correia).
ABÓBRA – abóbora.
ABOBRADA – aboborada; papas doces de abóbora com leite.
ABOCANHAR – enxovalhar o próximo; difamar; censurar. Duardo Neves registou abocanar, a que atribui o significado anterior, dando a abocanhar o significado de «apanhar e lambuzar os alimentos; comer à maneira dos cães». Já José Prata refere que o gado bravo se escapava de Espanha para Portugal, abocanhando as colheitas.
ABONADO – rico; abastado (termo recolhido por Clarinda Azevedo Maia nos Forcalhos).
ABORNAR – arrefecer a sopa (Francisco Vaz).
ABRANGAR – vergar com o peso da carga; puxar para baixo o ramo de uma árvore (Duardo Neves).
ABRANGER – dar, chegar ao pé. Abranger pão para carregar o carro: diz-se quando se carrega o carro após a ceifa para transportar os molhos do centeio para a eira.
ABRASINADO – abrasado; cheio de calor (Júlio António Borges).
ABRIGADA – lugar soalheiro, resguardado do vento.
ABRIR O SOL – aparecer o sol por entre as nuvens.
ABROLHAR – brotar; rebentar. Clarinda Azevedo Maia recolheu este termo nos Forcalhos, usado com o significado de: mortificar; cobrir de espinhos.
ABRUNHO – murro; soco.
ABUISSE – desejo vão, que se não quer ou não se pode concretizar (Duardo Neves).
ABURRIMENTO – aborrecimento (do Castelhano).
ABURRIR – aborrecer (do Castelhano).
ACABADOTE – velho; um tanto acabado.
ACAÇAPAR – agachar, abaixar. Também se diz acachapar.
ACACHINAR – matar (os coelhos) com uma pancada na cabeça.
AÇAFATAR – mexericar; falar da vida alheia: lá anda ele a açafatar.
AÇAFATE – pequeno cesto de verga, de bordo baixo. Também se diz safate.
AÇAFATEIRO – intriguista, que açafata (sobretudo usado no feminino: açafateira).
ACAGAÇADO – amedrontado, assustado.
ACAMALHOAR – virar a terra em camalhão (leiva de terra virada pelo arado ou pela charrua); lavrar.
ACAMBOAR – meter ao cambão (cabo de madeira que liga à canga); rebocar. Duardo Neves traduz assim: «acto de ligar duas ou mais juntas de vacas a puxar pelo mesmo carro ou charrua; prestar ajuda».
ACAREAR – dar careio; dar guarida; recolher; cuidar. Clarinda Azevedo Maia refere acariar, que traduz por: «juntar, reunir, ir em busca de».
ACARRANJA – transporte do centeio para a eira no carro das vacas, onde formará a meda. Também se diz acarreja.
ACARRANJAR – fazer a acarranja; carregar; transportar. Também se diz acarrejar e acarjar.
ACARRAR – alapardar; esconder e ficar imóvel. Descanso das ovelhas na hora de maior calor, normalmente à sombra de uma árvore. «O javali acarrou numa densa mancha de matos» (Dr Framar, in Caçadas aos Javalis).
ACARRETAR – transportar em carro de tracção animal. Também se diz acartar.
ACEITA – buraco no solo aberto pela toupeira (termo recolhido por Clarinda de Azevedo Maia em Vale de Espinho).
ACELGA – planta comestível parecida com a beterraba, com a diferença de não lhe engrossar a raiz. Usada para fazer sopa.
ACENDALHAS – lenha miúda, usada para se acender o lume (Júlio António Borges).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

leitaobatista@gmail.com

Abordamos neste artigo, e noutros que se seguirão, o linguajar tradicional do povo raiano das zonas do Sabugal e de Riba Côa, procurando caracterizar formas de expressão que o tempo está a fazer desaparecer, face ao continuado processo de normalização linguística. Depois de uma superficial caracterização desse «falazar» típico, seguir-se-á a publicação de um léxico enumerando alguns dos termos populares e os seus significados.

Uma nota prévia para referir que, não me opondo à natureza prática do Acordo Ortográfico tendo em vista harmonizar a Língua Portuguesa escrita e falada por diversos povos no mundo, considero que a raiz e a matriz de uma língua está no povo que por ela se expressa. Por isso cito e concito Aquilino Ribeiro, o escritor português que melhor defendeu o regionalismo tradicional português: «Persisto em crer que pouco pode a disciplina léxica e literária contra o uso inveterado e a acção do inconsciente mas irrefragável formador da língua que é o povo» (in Aldeia – Terra, Gente e Bichos). E é precisamente na riqueza lexical da língua portuguesa falada pelo povo de Riba Côa que me irei centrar, formulando uma recolha de palavras e de expressões linguísticas que o tempo já quase derriscou.
As gentes de Riba Côa, herdaram um «falar português» algo diferente daquele que é praticado noutras partes do país. Há de facto peculiaridades de expressão, que caracterizam a fala do povo desta faixa de terra que vai de Quadrazais a Barca d’Alva, com influências visíveis em ambas as margens do rio Côa, à roda do qual os povos se estabeleceram e comunicaram entre si.
Sendo a fala o meio mais poderoso na comunicação entre as pessoas que vivem numa mesma comunidade, ou em comunidades vizinhas, estes povos construíram um modo de expressão linguística próprio, com características claras ao nível da morfologia, da sintaxe e do léxico.
Não se trata porém de um dialecto, muito longe estamos disso, porque aí teríamos uma variante da língua portuguesa, da qual diferiria por características fonéticas, fonológicas e particularidades lexicais muito vincadas – em Portugal só o Mirandês é considerado um dialecto, pois diferencia-se em determinadas situações do português padrão, ainda que lhe seja muito próximo. No que toca a Riba Côa, estamos perante um falar, que incorpora alguns desvios em relação ao português normal, com particularidades fonéticas e lexicais, e apenas com forma na oralidade. Porém, mesmo em termos de falar, estamos perante um conceito limitado, porque só com alguma vontade se pode hoje considerar que ele existe, pois não é notada complexidade nem coerência que permita concluir tratar-se de uma variante linguística, ainda que ténue.
Os artigos seguintes abordarão a origem do linguajar característico desta região e o desenvolvimento da sua fonética, morfologia e sintaxe. Abordar-se-á ainda o processo de normalização linguística (que destrói a riqueza lexical), e apresentar-se-á um léxico que foi fruto de uma aturada recolha no terreno e nas obras escritas de muitos autores, sobretudo dos nossos maiores monografistas.
Para justificação deste modesto intento, cito o prestigiado filólogo Manuel Paiva Boléo: «Todo o homem que não explorou cuidadosamente os falares regionais do seu país, não conhece da sua língua senão metade».
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

leitaobatista@gmail.com

Cada povo tem entre a sua gente almas de toda a casta e condição. Assim se passava na minha terra no tempo antigo, e ainda hoje, quando já poucos aqui moram. Pois lhes conto que havia cá dois moços desvairados que todos tolerávamos, menos o casmurro do padre Narciso que a todo o custo queria que tomassem carreira direita.

A Maria Rita, que era filha do Zé Barra, era uma taranta. Galreava de manhã ao anoitecer: que a mãe lhe botara o gadanho à travessa de pentear o cabelo; que os manos lhe puxaram o fio da roca; que a marrana velha trepara a escaleira e estrumara no balcão. Os de casa aturavam-lhe pacientemente o escarcéu, pouco ligando àquelas sismas.
O povo também fazia orelhas moucas às bacorices, tirando uma ou outra mulher, que fazia cruzes quando os impropérios eram por demais ultrajantes.
– É uma soventa! Na malcriadez da faladura ganha aos grunhidos de um cevado! – dizia por vezes a Marquinas, que era a maior beata da terra e muito amiga do padre Narciso, a quem, diziam as más línguas, satisfazia os apetites carnais.
O Tó Faleiro, maltrapilho da locanda, tido como amigo do Mafarrico, era chanfrado como a Maria Rita e divertia-se reinando com ela. De cabelo revolto, nariz largo e achatado como o de um africano, leve penugem sebosa a cobrir-lhe as béculas, passeava pela aldeia na pedincha. Alguém, à maldade, lhe metera na tola que a Maria Rita precisava de macho para lhe acalmar a cachondice, e já nada o fez ficar quedo.
Aproximava-se do curral do Zé Barra e recitava uma cantilena que a loucura lhe gerara na cachimónia:
Lagarta lagartixa,
chiba chibarra,
chega-te à roda
toma a mamarra!

De dentro do casebre saía uma vaga de palavrões e voavam bancas e tamancos. O Faleiro corria então desenfreado para junto do pio, que ficava a um canto do adro, onde soltava gargalhadas. Depois, passado o vendaval, rodava à cata de uma côdea.
Os catraios gozaram a bom valer, ora se juntado ao tolo nas risadas, ora fazendo coro com a estouvada no escarcéu dirigido ao pelintra.
A aldeia já se habituara, a estes engrimanços e vozearias repicadas. Só o padre Narciso se não conformava com aquela vivência e tresjurava que com a ajuda de Deus havia de meter os orates na linha.
Se estivesse na sacristia, vinha à rua e chamava o Tó Faleiro. O farrabraz acudia como um cordeiro e ouvia, caludo e de cabeça baixa, a repreensão do padre, que o benzia com água benta e o remetia para fora do adro.
– Põe-te ao largo Tó!… Para berreira já bonda a da Maria Rita, que vive naquela furda.
O Faleiro rodava dali, atravessando o terreiro a passo lento, de espinhela torcida e pernas abauladas. Não tardava porém a volver para continuar com as suas malandrices.
Da Maria Rita o padre Alípio tinha temor, pois a coitada, acometida pelo desmando, não se lhe calava um instante.
De uma vez, quis ir a falas mansas com ela, a ver se lhe metia juízo na cachimónia, falando-lhe de Deus e dos Santos.
Eu, que estava no meu balcão, comendo uma côdea, assisti a tudo.
O padre, caminhando pela rua, encontrou-se com a Maria Rita, que provinha da fonte com um cântaro de água à cabeça.
– Deus te abençoe Maria Rita. Já rezaste as orações da manhã? – perguntou-lhe o abade de falinha donairosa.
– Esta nôte vi Nossa Senhora – disse-lhe a moça de repelão.
– Ah, sim?! E contas-me esse sonho lindo?
– Vi Nossa Senhora toda encarrapata e escarrapachada num cavalo castanho, que corria doudo p’las tapadas.
– Ora, és uma chouchana – atirou-lhe o padre Narciso, que virou costas e rodou para casa, afinal ciente que não era capaz de lhe curar a maluqueira.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

Pois lhes conto que um dos meus grandes desgostos foi ver a minha filha mais velha, a Cassilda, casada com um fusco das Batocas. Então eu, com uma vida inteira de carrego no costado a fugir a esses diachos, para a criar a ela e aos irmãos, e a lorpa a dar olhares e depois a anagalhar-se com um dos lapuzes?

Ainda por riba o Augusto Correia, que é esta a sua graça, para além de rabo de saias e colhereiro, era um guardilha pouco cumpridor do seu dever de autoridade. A laia que tinha era para andar de olho fito nos carregos de mulheres e catraios, mais fáceis de surripiar. Onde lhe fairasse a azeite, pão de torno ou galhetas, logo saltava ao caminho, de mão pronta a filar a mercancia.
Careio para o contrabando de alto quilate, o alma do diabo não o tinha. A mim, lhes juro, nunca pôs ele a mão na vestia nem me tomou qualquer carrego. Augado andou ele, mas nanja, que não tinha sorrelfa para isso.
Pois foi este babanca que caiu no goto da nossa Cassilda, para minha grande infelicidade. Tanto morgado que havia na terra, rapazes honrados e trabalhadores, lavradores ou negociantes, com bons dotes e anafados herdos, e a palonça a ficar caidinha pelo Gusto Correia, como se não houvesse outro poldrão no mundo…
Muito me envelhaquei quando soube do arremedo, que ela e a minha mulher me esconderam por basto tempo. Querendo tirar-lhe o vezo, ainda a proibi de sair com o pandilha e, de uma vez, até me predispus a abrir-lhe os olhos à lambada. Valeu a minha Belmira, que me trouxe à memória que também acasalara comigo sem o consentimento de meu sogro.
A verdade é que tanto andaram, aproveitando as minhas ausências no ofício de contrabandista e de negociante, que quando dei fé a coisa já ia de tal modo adiantada, que fazê-la volver atrás era um drama.
A custo lá aceitei que se botassem pregões, com a condição de o lapuz não me aparecer pela frente. Só lhe apontei falas no dia do casamento, quando o valdevinos, em plena igreja, se me dirigiu a pedir a bênção. Dei-lhe boas caras, mas botei-lhe entre dentes:
– Tem tento no que te digo. Se alguma vez me soar que zupas a minha filha és homem morto.
Ele arregalou os olhos e avermelharam-se-lhe as béculas, em sinal de que percebera o recado.
Mais tarde, na noite do Sagrado Nascimento, sentei-me à mesa com ele a consoar. Lá estive meio contrariado e retorcido, quando o jagodes me atirou ao rosto:
– Vossemecê, meu sogro, devia deixar o contrabando…
Logo acusei a assovelada.
– Olha lá, ó canastrão, e de onde me vinha o arrimo da casa? Metia-me a roubar?
– Podia viver da lavoura, que lhe dá cabonde.
– Que sabes tu da vida lafaruz? E diz-me lá que febre te faz o meu contrabando?
– O comandante do posto já me atirou às ventas que sou genro de um contrabandista…
– Pois não há mal em dizer a verdade… Responde-lhe que teu sogro é contrabandista honrado, que nunca escarrou na sopa de ninguém, nem assaltou gente nos caminhos, como os guardas-fiscais, que arrebanham mulheres e ganapos a toda a hora.
O salamurdo estremeceu:
– Se não larga a faina do contrabando, garanto-lhe que serei eu a filar-lhe a carga e a metê-lo no chilindró.
– Tinhas que nascer outra vez para me aliviares o carrego.
A Cassilda que esperava cria daquele machacaz, agarrou-se à barrigona em pranto, maldizendo a nossa zanga e falando que podia ter desmancho. Saí de casa e meti-me na loja de volta do vivo.
Nos tempos seguintes redobrei os cuidados, não fosse o meu genro querer tomar-me alguma carga, para me envergonhar. Mas andei muito tempo sem lhe botar a vista, para meu descanso.
Um dia de inverno, manhã cedo, tornando de Espanha com o macho carregado de fazenda, entrei numa taberna na Aldeia da Ribeira para tomar uma copa de aguardente. Estava eu de calecho entre os dedos, à conversa com a Ti Mariana, a dona da venda, quando notei um vulto a passar a porta.
– Então Ti Tosca, descuidou-se e acabo de o filar com o macho carregadinho de pana.
Era o sandeu do meu genro, que me montara trapa.
– A carga vem do mercado da Malhada, onde ontem estive e me demorei. Nunca ela viu a raia nem a Espanha – disse-lhe.
– Não tem forma de o provar. E ademais vi bem tratar-se de contrabando. Acompanhe-me ao posto que está preso.
Saí da venda magicando como escapulir, sendo que já não tinha a genica da juventude.
Cá fora o fusco ia pôs-me a mão na casaca, por lá a prevenir que eu lhe fugisse.
– Afasta me mim as unhas, que me deves respeito – atirei-lhe.
Ele recolheu a mão e eu, pegando no varal que deixara encostado à parede, mandei uma verduada no macho que deu dois saltos e se pôs em fuga, e arrumei um encontrão ao Gusto, mandando-o a terra. Corri rua abaixo a rabo do macho, com o meu genro em perseguição. Deixei a rua e saltei para um quintal e dali para uma tapada e, mais além, para um lameiro junto à ribeira, que ia alta com a farta água das chuvas. O valdevinos vinha na minha cola, já quase a filar-me, quando formei um salto para o meio da ribeira. Nadei um pouco e, já perto da outra margem, olhei para trás e lá vi o rapazola na borda da água.
– Anda, molha o capote – desafiei-o.
Não foi capaz disso, e eu saí da água e embrenhei-me num matagal.
Fiquei encharcado e sujeito ao reumatismo, mas garanto-lhes que aquele basófias nunca me pegou nem me tomou qualquer fardo.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

A Finota era a jumenta velha que tinha na corte para as lidas caseiras. Fora possante e ligeira no andar, sem rival no povo, capaz de alombar com cinco feixes de ferrém e ainda com o catraio mais novo escarrapachado no coruto da carga, mas o tempo passou-lhe no pêlo e a velhice tornou-a de fraco préstimo.

Para as andanças do contrabando e do negócio lá tinha o macho, que era um vergalhudo, mas nas fainas da lavoura era a burrinha que pontuava. Só que o trabucar constante nas precisões deixaram-lhe mossa, e um dia, firmando-me no animal, notei que andava arrastando as patas, de focinho descaído, olhando o chão. O pêlo tornara-se ruçote e tomei fé de que se lhe avarangavam as patas.
– Tão afinada que era a burranca e agora está pr’áqui uma zonza de meter dó – disse-me a Belmira.
– Oh, mulher, põe-se com dono e merca-se outra!
– Tenho-lhe estima, home!.. e custa-me largar de mão a jumenta. É o mimo da canalha.
Como não era homem de demasias, uma madrugada aparelhei a burra e meti-me a caminho do mercado de Alfaiates. Cem mérreis foi o que pedi pelo animal. Mas quem queria uma burra velha, sem genica e com ares de já nem poder com a albarda? E aquela feição tristonha, as patas trôpegas, o focinho belfo, as orelhas murchas, o andar topinho…
Um negociante rogou que a desaparelhasse, para melhor exame, e pus-lhe a nu o lombo esquelético.
– É quase tão velha com’ó castelo! Atire-a pra uma barroca, que ainda serve de sustento aos lobos – disse-me.
Esmorecido, desci a parada a ver se alguém pegava ao negócio, mas não houve interessados.
E já ia de abalada quando se acercaram dois gitanos, que cobiçaram a burranca. Preado para me livrar do animal, fechei negócio por uma nota de vinte.
Algo amonado, que isto do vivo cria-nos estima, volvi a casa pensando em como acarear dinheiro para apreçar outro jerico mais forte e sadio.
Dias depois despachei dois carros de batatas para a estação da Cerdeira e, com o ganho, decidi satisfazer os rogos da mulher e dos catraios indo ao mercado de Vila do Touro, de coisa feita em trazer outra montada.
Embrenhado na feira do gado mirei o que havia. A parada estava alta para as burras mais maduras e não me agradava a ideia de levar um burranco novo e bravio. Antes queria animal amansado e afeito às fainas, de preferência uma burra, que já apanhara escaldão com burros, que só capados refreiam os maus repentes.
Após muito fairar, volvi a dar de chofre com ciganos. Um deles puxou-me pela aba do sartum para me empontar uma jumenta de pêlo luzidio e bem aparelhada, mas muito irrequieta. Fiquei de pé atrás, que nas tramas do negócio há que ter cautelas com o paleio daqueles adregas.
– Oh, compadre, não é brava a bicha! Está é pouco avezada a esta blandina, que é burra de trabalho. Puxa à carroça e até lavra junguida com uma vaca. Olhe que a merquei a um lavrador da Nave, home de muita lida!
Ora vai, ora deixa, acabei por cerrar o trato em duas notas de cem mérreis e, feliz da vida, conduzi o animal a casa, carregado com duas sacas de centeio que apreçara.
Ufano, mostrei à minha gente a nova jumenta. Acharam-na lustrosa, bonita de cabeça e azadinha para o carrego. Só o dianho da mulher lhe notou achaque.
– Ou puxas-te muito por ela na caminhada ou é chancana de têmpera. Tem tremores e quase bota fora os bofes de tanto arfar.
– Que diacho! Então não vês que marchou duas léguas ajoujada com dez arrobas?
Enfiei-a na corte, junto do outro vivo, e enchi-lhe a manjedoura de feno.
No outro dia, logo pela alba, soltei as vacas e a burra para as conduzir ao lameiro. Para meu espanto a jumenta tomou a dianteira e seguiu calmamente, tomando o destino certo. Lá chegada passou o portal e foi-se espojar na sombra de um freixo. «O raio da burra já parece conhecer o caminho e o lameiro», matutei. Chegando-me ao animal, examinei-o.
Atazanei-me e até o rosto se me afogueou. Fora aldrabado! Esta burra não era mais do que a minha Finota! Conhecia-lhe bem as mataduras das patas traseiras… Os ciganos lavaram-na, deram-lhe lustro e bachicaram-lhe o traseiro com aguarrás para ficar activa.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

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Tema: Acção Poética e Sonora
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