O solipsismo (do latim solus + ipse , só mesmo) é o conceito filosófico com que se designa toda a doutrina segundo a qual é impossível ir mais além da própria consciência, no que resulta a impossibilidade de conhecer algo mais do que o próprio “eu”, considerando-se a única realidade evidente e absoluta. Tornou-se famosa com René Descartes (filósofo francês, 1596-1650). Pode caricaturar-se como se se vivesse numa caixa fechada, e tudo isso fosse a realidade.

Esta doutrina assaltou-me o pensamento ouvindo o Primeiro-Ministro na Madeira, onde foi depois de uma negociata às escuras entre o governo central e o governo regional, com mais um cheque aquele para este, com a certeza de que deve ser para pagar mais uma megalómana iluminação de Natal e o fogo de artifício na passagem de ano. Mas ouvindo-o, colocando aquele ar de que, é ele e o seu governo a salvação da pátria, pensei que todas aquelas convicções deveriam caber unicamente na tal caixa fechada. A crença, porque só pode ser crença, num orçamento que todos consideram irrealista e, portanto, no cumprimento das metas aí estipuladas, cai por terra quando olhamos para o orçamento de 2012, quando se prepara mais um orçamento rectificativo. E este é já o segundo ou terceiro este ano! Haverá confiança para que o do próximo ano não se passe o mesmo? O mesmo solipsismo transbordou na entrevista que o primeiro-Ministro concedeu a uma televisão privada. Dessa entrevista não saiu nada que possa dar um mínimo de esperança aos portugueses. O Primeiro-Ministro falou de uma realidade que só existe na sua caixa. Para o país real (como se gosta de chamar ao país das pessoas cá no burgo) não houve uma palavra que apontasse um abjectivo. Não contrariou a observação do entrevistador quando o confrontou com o facto de que o país vai chegar ao fim do memorando mais fortes mas mais pobres, não respondendo à questão essencial, que sociedade seremos no final do cumprimento do memorando. Limitou-se a um discurso redondo e vazio. Confirmando que todos os sacrifícios que nos estão a ser pedidos, servem para podermos ir aos mercados mais cedo, mas não apontando um único benefício do uso do dinheiro que tem cortado aos trabalhadores. Confessando que todas a previsões do governo têm falhado, desculpando-se com o simplismo de que eram previsões. Pois… Definitivamente, o governo vive em solipsismo. Acredita que a sua receita está certa, quando os números mostram que errou em toda a linha, e para o demonstrar, insiste na receita. “Chegaremos lá vivos. Mas será muito difícil!”, foi com estas palavras de esperança que o Primeiro-Ministro terminou a entrevista. Que consolo!! Mas aqui o governo deve ser entendido não como um todo, mas parte. Pois o partido mais pequeno da coligação demonstrou claramente que está incomodado, disse-o e protestou. Resultado: foi ignorado. Provando-se que o CDS, nesta coligação, vale nada. Se não é, parece que está ali para usufruir do poder pelo poder, permitindo ao seu líder, pavonear-se pelo mundo fora e, a mais uns quantos, manter-se nos corredores do poder. Porque governar, influenciar a governação, decidir, zero. A aprovação deste orçamento provou-o.
Este orçamento é assassino. Contudo o governo espera que a realidade se adeque às suas teorias e receitas. Considerando estas a realidade. É solipsismo.

P.S. O governo decretou tolerância de ponto nos dias 24 e 31 de Dezembro (quanto a mim bem). Para quem acabou com os feriados históricos e religiosos (também eles históricos), acusando os portugueses de trabalharem pouco e de Portugal ter demasiados feriados vem, agora, procurar parecer benevolente e simpático. Precisamente agora, quando nos brinda com um orçamento que nos levará à miséria. É um presente de desconfiar.
P.S. Alguém explica ao senhor Primeiro-Ministro que o ensino é obrigatório e gratuito, preto no branco na Constituição, até ao 12º ano, portanto não pode ser pago!

«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

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