Estava eu bem espojado no areal fino da praia de Ponta Negra, em Natal (cidade de povo potiguar), gozando das belas visões de coisas semelhantes a passagens de modelos, ali passando «provocatoriamente» à minha frente, e bebendo o doce líquido quase gelado do quinto coco verde (líquido que médicos garantem ser equivalente a soro fisiológico), quando olhei para trás e vi um reclame de uma agência de viagens onde se podia ler de longe a palavra «Amazónia».

José Jorge CameiraDe repente lembrei-me que estava no país onde existe a famosa Amazónia! Pensei: por que não vou até lá? Fui à tal agência e ao fim de meia-hora tinha na mão um bilhete de ida e volta até Manaus e que me custou o equivalente a 500 euros, só a viagem.
É o meu hábito, quando viajo para algum lado a primeira vez, não marco nada, não reservo nada. Quando chego ao aeroporto, sento-me na primeira cadeira e então organizo mentalmente tudo. Onde dormir é sempre a primeira meta a resolver. O resto é por arrastamento dinâmico.
A viagem teve a durabilidade anunciada de 6 horas. Viajei num pequeno mas moderno avião da TAM, com uns 150 lugares que aterrava em cada cidade importante, para sairem uns e entrarem outros passageiros. Saindo de Natal, aterrou em Fortaleza; daqui até S.Luis; S. Luis – Belém; Belém-Santarém e desta cidade finalmente Manaus.
Curioso: em S.Luis (cidade de origem francesa mas com cheiro da arquitetura pombalina) uma pessoa entrou com uma gaiola que continha uns pássaros esquisitos e fez-me uma grande vénia – será que eu lhe pareci algum fiscal do Ibama (o nosso IPAR), que controla também as aves raras de todo o Brasil?
O que me fez lembrar esta viagem? Os comboios em Portugal! Às tantas tive a sensação de viajar na Linha de Comboio da Beira Baixa: sai de Lisboa passa por todas as Estações junto ao Rio Tejo até morrer em Castelo Branco. Portanto no Brasil viajar de avião entre cidades parece uma viagem vulgar de comboio em Portugal. É a força das distâncias naquela Potência Emergente, como agora se diz.
Foi fascinante voar sobre a Amazónia na sua parte leste – ver lá de cima aquele imenso mar verde de árvores, aqui e ali o serpentear de rios ziguezagueando. Bem saliente e dominador, o grande e misterioso Rio Amazonas, bem castanho de suas águas.
Vêr a cidade de Manaus por cima foi para mim uma grande surpresa – estava a contar com uma cidadezinha do interior para ali esquecida, rodeada por florestas cheias de bichos, com 50 ou 60 mil pessoas, casas modestas, essas coisas bem simples dos interiores. Afinal o que vi foi uma cidade de grandes dimensões (nem sei quantas vezes maior que Lisboa), estendendo-se pelas margens do Grande Rio. Imensos arranha-céus, quase tocando no avião no momento da «aterrissagem». Muitos reclames luminosos piscantes de conhecidas multinacionais. Milhões de pessoas, 4, …5, …sei lá ao certo! Um verdadeiro espanto! Junto às margens do rio, imensas casas-palafitas, essas com pernas bem altas para aguentar a subida das águas, onde a toda a hora a criançada mergulha.
No Aeroporto de Manaus fui bem claro ao taxista – Por favor leve-me para uma Pousada boa, o mais perto possível do Rio.
Fiquei na «Sol e Mar» (descobri que tinha comissão combinada), onde por 60 reais diários (25euros) tive uma suite e café-da-manhã bem farto (o pequeno-almoço no Brasil). Instalei-me, tomei de imediato um banho, a humidade ali é alta pois comecei a suar logo após a chegada – qual sauna grátis!
Fui jantar a um restaurante ali perto – o Fiorentina. Tive ali a primeira surpresa. Servi-me duma travessa onde estava um grande peixe cozinhado, a empregada pôs no meu prato um naco bem grande, misturado com um arroz saboroso que ainda hoje não sei que tempero tinha.
Quando comecei a comer o peixe, deparo com uma enorme espinha lateral, uma costela… algumas maiores que o meu dedo indicador! E outras mais apareceram, que guardei e ainda as tenho comigo. Comecei a ver que naquela região era tudo em tamanho grande!
A empregada, com rosto de índia, que olhava atónita para mim, disse-me que foi a primeira vez que viu um Português em pessoa. Porventura um descendente de descobridores ou colonos, terá pensado. Joga-me esta pergunta:
– Posso tocar na mão do «Sior»? Eu nunca vi um Português na minha frente…
Atendeu-me especialmente e o preço também foi especial – uns 15 reais por um jantar farto (6 euros).
Antes de recolher ao quarto, ainda deu para ir descobrir o que seria aquele enorme e persistente barulho que se ouvia cá fora e irradiava uma grande luminosidade para o céu.
Era nem mais nem menos uma grande feira ou mercado ao ar livre e ocupava vários quarteirões, talvez o equivalente a duas ou três cidades de Beja. Ora, como feiras é comigo…fui logo até lá!
Percorri aquilo tudo e valeu-me a boa forma física que geralmente tenho. Tudo por lá se vendia: calçado, roupas, loiças, artesanato indígena, muitas ervas para chás, chás com efeitos iguais ao viagra, mas com garantia de eficácia, vidros, cobres… tudo! Também bicheza da Floresta, mas escondida!
Comprei artesanato e algo que só há naquela região. Existe no Rio Amazonas um peixe enorme e comprido, o pirarucu, que atinge os 200 quilos de peso. Por conseguinte tem escamas grandes. Os artesãos com essas escamas fazem máscaras, escudos de guerra, punhos de lanças. E em cada escama desenham casas, árvores, de pássaros… uma maravilha! Essa máscara que se vê em anexo é feita dessas escamas sobrepostas.
O quarto na Pousada tinha dois níveis. O inferior com a cama e, três degraus acima, estava a casa de banho (no Brasil diz-se banheiro), separados por um lancil de 5 centímetros de altura (coisa esquisita, pensei eu). Mais tarde notei a utilidade.
Antes de me deitar e para não ligar o ar condicionado, deixei a janela da casa de banho aberta, porque me garantiram que não havia mosquitos em Manaus (não acreditei, mas vi que é verdade, escreverei o motivo).
Bem… nessa noite caiu uma trovoada imensa com relâmpagos que iluminavam por completo o quarto! De meter medo ao mais corajoso. Impossível dormir com tanto barulho! Mais luminosidade que aquelas bombas ianques sobre Bagdade! Foi «uma guerra» quase toda a noite…
Não podendo dormir, levantei-me para ir verter águas à casa de banho…
Mal ponho o pé depois do tal lancil, senti água até precisamente 5 cms acima dos meus pés! Tinha entrado água no banheiro, as minhas sandálias boiavam, quais barquinhos….
De manhã, um sol quente, céu limpo e azul, como se nada tivesse acontecido!
Programei com o rapaz da recepção para a manhã seguinte às 9 horas um passeio pelo famoso Rio – a minha grande aventura: ver e navegar no maior rio do Mundo! Preço 70 reais (28 euros) incluindo lanchinho no barco e almoço durante o passeio, virem-me buscar e trazerem-me à Pousada numa Bésta (minibus).
É o chamado Passeio «Encontro das Águas» para os Turistas. Na verdade, em frente a Manaus correm dois rios: O Solimões, de águas barrentas e o Rio Negro, de águas negras. Águas negras, por quê? Porque transporta areias negras ácidas diluídas e o vapor emergente mata tudo o que é mosquito, ovos, larvas… daí não haver mosquitos em Manaus!
Os dois rios viajam paralelamente e 12 quilómetros após Manaus juntam-se, e acontece um momento ímpar na junção – as duas cores fundem-se numa só, num suave remoinho de folhagem… então verdadeiramente e só nesse momento se chama Rio Amazonas.
(A aventura na Amazónia continua na próxima crónica…).

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

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