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O ser é insólito; é dentro de si, a ciência de ser é-lhe infusa, mas dela não possui consciência, porque, o que possui cons-ciência, já não é insólito puramente, pois, pela consciência, comunica com o outro que, próximo ou distante, se lhe apõe, expõe ou opõe.

Dessa forma, o ser só devém real pelo pensar e, por isso, o motivo de, na ordem lógica, o ser vir colocado depois do pensar.
A consciência do ser não é a ciência que o ser infusamente em si possui, derramada em ubérrimas nascentes; é a relação do infuso saber do ser com o outro, ser ou coisa, que lhe é exterior, ou extrínseca. O sufixo cons, da palavra consciência, indica o ponto e o instante em que o encontro do ser e do pensar estala, num saber clarividente, ou que vê claro, o saber comungado, comunicado, ou cons-ciente. Não há forma de consciência insólita, só a relação do ser e do pensar, com seus difluentes colaterais (as formas individuadas do pensar) gera e suporta a consciência, que, neste caso, não deve ser tomada como valor da ética, mas como conceito gnoscológico. A consciência é a teoria do conhecimento em discurso. O que gera a consciência é a relação do pensar com o ser e do ser com o pensar, o pensamento que, inscrito no ser, a ele, todavia, se opõe, e, todavia, o garante e justifica. O pensamento de um cientista não garante o ser da ciência, mas, ao opor-se ao fenómeno científico, fundamenta a realidade que só advém real, porque ele, cientista, se lhe opõe, e a pensa como objecto. O objecto tem a validade que o sujeito pensante lhe confere.
Entre uma concepção absoluta do ser como ser insólito – ao modo de Parménides – e uma concepção racionalista do ser como relação do pensamento para o ser – ao modo cartesiano – todas as tesas cabem numa teoria do ser, desde que postulem a primeira condição relacional entre o ser que pensa, o ser pensado, e o ser que pensa no ser, ou principal origem.
Pensante, o homem é sujeito, dispõe de uma realidade específica, própria e autónoma, enquanto enfrenta o ser como objecto de pensamento. O homem é dito animal racional porque, entre os animais (quem poderá garantir a dita irracionalidade destes outros?) parece ser o único que enfrenta o ser, ou o especula de frente (no espelho, que é espéculo, se enfrenta toda a imagem nele contida), dele se distinguindo, dele se autonomizando, garantindo para si, homem, a propriedade de ser racional. Esse que, sendo o próprio, não se confunde com o outro; o que, ao situar-se, na afirmação de propriedade situada, testemunha a autonomia de uma propriedade mental. A forma mais perfeita, e por isso de todo em todo inalienável, de propriedade privada. O fisco dos bens materiais, a solicitação dos bens financeiros e industriais, agrícolas e comerciais, são nada, quando equiparados às tentativas para diminuir a propriedade mental de cada homem.
O que pensa, e é como pensa, distingue entre pensamento e movimento, entre mentalidade e seriedade, entre capital e manual, entre realidade e eventualidade. Este assume a forma universitária de ser, a que não poderá ser, caso lhe faleçam a propriedade pensante e a autonomia movente. A imagem que cada um tiver do mundo será a imagem que o mundo terá dele, porque, imagens delidas e sobrepostas no mesmo espelho, aí, onde o pensamento pensa o ser, o próprio ser ascende no pensamento. Tais imagens hão-de ser as palavras, os lares onde o ser habita, segundo a maravilhosa expressão de Heidegger! Os lares, que testemunham a existência de uma propriedade de ser e uma autonomia de pensar! Quanto mais a minha casa for a minha casa, mais poderei abrir a porta aos vizinhos, ou, só o que sabe e tem garantia do saber, se abre sem temor do saber do outro, porque não corre o risco de sufocar, porque está prevenido contra as hipóteses do pior colonialismo, o colonialismo mental.
O que ambiciona ser ele próprio, e não outro, terá a todo o momento de confluir no impróprio (ou não próprio) e a todo o momento desse impróprio efluir. A total individualidade do ser continuará insularizada, mesmo que participe na mais pura socialidade, enquanto a individualidade pensante for a que a si mesma se pensa, e aos outros em si, jamais renunciando ao princípio de autenticidade: ser existencialmente o retrato de ser mentalmente, na parte de ser que couber a cada um.
Pinharanda Gomes

Este texto do filósofo quadrazenho Pinharanda Gomes foi publicado pela primeira vez em 1971 no jornal A Capital, vindo depois a integrar o volume «Pensamento e Movimento» editado em 1974,o qual reúne um conjunto de reflexões agregadas em cinco temas estruturantes: o Ser, o Estar, o Mover, o Saber e o Unir. Transcrevemos este interessante texto tendo em conta a homenagem que o Sabugal vai prestar ao seu escritor no dia 9 de Junho, por ocasião da inauguração do Centro de Estudos constituído com os livros e documentos que o autor doou ao concelho do Sabugal.
plb

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A minha chegada ao Sabugal teve também um certo impacto nas Colegas, nas meninas. Esquisito, mas elas olhavam para mim com ar de quem via uma ave rara…Se calhar era porque viam sempre os mesmos rapazes da Vila, ano após ano. Eu era sangue novo naquela acalmia social!

José Jorge CameiraOlhares matreiros, sorrizinhos, joguinhos de olhos, bilhetinhos com mimos atirados para mim durante as aulas… a minha auto-estima subiu para valores inimagináveis !
Até cheguei a pensar que afinal eu era um rapaz bonito, catancho!
Houve uma menina que me chamou uma atenção especial. Era aloirada, olhos azuis, rosto redondo, de coranço rápido, vestidinhos amarelos, verdes, limpíssima, exalava meiguice, inacessível … E não era menina fácil, nem me dirigia especiais olhares…
Um dia, numa festa no Externato, até declamei um poema dedicado a ela! Eu que sempre detestei poesias, tive que procurar um poema adequado num livro antigo, não fossem descobrir que o dito poema não fora da minha lavra…
Mas eu já sabia, apesar dos meus verdes 18 anos, que um rapaz com tempo e paciência, consegue namorar com qualquer rapariga que deseje ou escolha! Bastava marcar a «presa»! Mais tarde ou mais cedo, seria minha namorada, eram favas contadas!
Tinha o meu objectivo supremo quase alcançado – namorar com a difícil Colega – quando um dia, no fim dum período, fomos esperar as camionetas que traziam os estudantes da região da Guarda.
Estava eu com a minha mão tocando de raspão na mão dela (de bmão dada era impossível), quando da camioneta saiu uma estudante que eu não conhecia, que se me dirigiu e disse:
– Tu és o Zé Jorge?
– Sou…
– A tua namorada não pôde vir e manda-te cumprimentos…
O chão desabou sob mim, senti as pernas perderem força, quase que desmaiei! A menina dos meus olhos, ali ao meu lado, corou e abandonou-me logo ali para sempre, de nada valendo os meus bilhetinhos e inúmeros argumentos sobre a falsidade do acontecido.
Dessa vez senti-me injustiçado. Tanto trabalho, tanto ardor… para nada, era ali o fim do meu sacrifício! Era mentira e nem sei até hoje como e quem forjou aquela armadilha! Talvez tivesse sido a mando do gajo com quem ela casou…

Sendo eu do Vale e estudando no Sabugal, onde se faziam grandes jogatanas no campo pelado do Sporting Clube do Sabugal, foi natural eu organizar um jogo de futebol entre a malta do Vale e colegas do Externato.
Num domingo combinado, eis que a minha aldeia é atravessada por um vistosa camioneta com a bandeira do Sporting do Sabugal. O Alexandrino, o capitão dos sabugalenses e colega do 4ºano, diz-me então:
– Zé Jorge, cá estamos nós, não te aflijas porque veio a equipa de juniores do Sporting. A malta do Externato afinal não apareceu e então viemos nós, fazemos um treinozinho nas calmas…
– Alexandrino, não foi isso que combinámos e assim vamos levar uma abada!
Lá fomos para o nosso estádio – aquela nesga de terreno em frente à porta da Ermida da Senhora da Póvoa.
A nossa equipa reuniu e dissemos todos: a nossa única esperança são as árvores. Os gajos do Sabugal são melhores que nós, mas não sabem das árvores e vão marrar nelas de certeza, até pode ser que a gente ganhe com a ajuda da Senhora da Póvoa!
– E tu, Zé Jorge, como és alto, ficas à baliza!
Bem… aconteceu mesmo a tal abada! Os gajos do Sporting pareciam endiabrados e nem as árvores os paravam. Chocavam com elas a toda a hora, sim, mas levantavam-se logo!
Perdemos e por 7 secos!
No fim do jogo, uma mulher que estava sentada no paredão ali mesmo perto do coreto, vem a correr na minha direcção, arreia-me várias vezes com a sombrinha e grita bem alto e repetidamente:
– Traidor ! Vendido ! Zé Preto dum raio!
(Na aldeia era esse o meu nome e não Zé Jorge. Por que a minha pele era morena, mesmo escurinha…)
Durante o meu 5ºano de Ciências, quando me apercebi que conseguia manter a média de 12 valores, decidi organizar um grande convívio (baile e jogo de futebol) entre a malta do Externato e alunos do Colégio de S. José da Guarda, conhecia muita malta de lá e entre eles o António Marques. Correu tudo bem: o jogo ganhámos por 2-0 (eu com uma bela exibição que quase fui chamado para internacional junior) e o baile abrilhantado pelo gira-discos do Nélito Alexandrino correu do melhor, as meninas foram aos «milhares» dançar preferentemente com os rapazes da Guarda, mesmo com o cheiro a suor da jogatana, banho só lá em casa na Guarda…
Conheci o António Marques quando eu era estudante no Outeiro de S. Miguel, teria uns 16 anos. Um dia disse-me:
– Ó Jorge, vamos a Pinhel. Vamos ver as meninas que dizem ser lindas e jeitosas…
Levou-me a casa dele (o pai era um conhecido professor egitaniense) e perante o meu espanto pegou da garagem o Carocha preto do pai e lá fomos até Pinhel, mesmo sem carta de condução.
O António vivia numa cidade, a Guarda, que nos meses de Verão enchia-se de milhares de turistas. Para compensar do frio dos Invernos…
Conheceu no Jardim Público e durante as Festas de Agosto uma jovem turista sueca que estava acampada com os pais no Parque de Campismo. Era lindíssima, cabelos loiros compridos, olhos azuis e um corpo atlético que todos olhavam…
O meu amigo entrou em intimidade total com ela. Diariamente bebia e abusava daquele mel e o feitiço tomou conta dos seus sentidos, a ponto de querer convencê-la a ficar na Guarda! Mas que ilusão mais maluca!
Os pais dela, após 15 dias na cidade, pegaram na caravana e foram para outras paragens, foi para isso que vieram da Suécia, para férias…
Foi depois daquele jogo de futebol do Sabugal, em que eu e o António Marques jogámos como adversários, que eu soube da notícia que me derrotou a alma durante muito tempo:
O António, roído de saudades da sua linda sueca, foi à casa de banho do Jardim da Guarda e ali mesmo pôs termo à vida!
Mas que desperdício!
Ali bem perto do campo de futebol do Sporting, onde se realizou o tal jogo contra o Colégio de S. José, vivia numa moradia uma linda e prendada menina que namorava um rapaz da Vila que não era lá muito masculino. Houve até um colega que afirmou peremptoriamente que espreitou atrevidamente pela janela da casa e viu-o a fazer bordados…
Passados uns anos fiquei a saber que essa menina afinal não casou com o rapaz dos «bordados» e é hoje a companheira dum meu amigo de sempre dos Fóios…
Neste Externato consegui um relativo sucesso escolar: após fazer o 4ºano, no ano seguinte decidi como aluno-maior preparar-me para a Secção de Ciências do antigo 5ºano.
Fiz todas as provas escritas e orais no Liceu da Guarda e consegui a média que eu estabeleci: 12 valores… ena cum catano!!
Porque mais do que esta nota, seria privar-me de muita coisa!!!

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

Um destes dias (de uma Primavera tardia que parece querer disfarça-se de Verão) fui chamado, pela festa, a Castelo Mendo e tive oportunidade de me sentar em sítio propício à observação. Surgiu-me, assim, pretexto para contar e, o que a vista me ofereceu, levou–me a começar por «era uma vez».

Castelo Mendo - Ruta de los Castillos

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»Era, então, uma vez uma aldeia de pedra, muito antiga e muralhada. As ruas eram estreitas e curvosas. O chão era de granito irregular. As casas eram pequenas e sóbrias e com telhas de barro castanho/avermelhado. As portas das casas eram baixas e as janelas desenhavam pequenos quadrados enfeitados com vasos de flores. Entrava-se, na aldeia, por uma porta rasgada na muralha.
À entrada o largo com tílias grandes e sombrosas ajudava a construir um cenário que me trouxe à memória os contos de fadas e os livros de leituras infantis.
Num olhar mais largo, confirmavam-se, no horizonte, as escarpas da margem esquerdina do Rio Coa que ali se abria, abruptamente, num vale (qual clareira entre montes) às portas do concelho de Almeida. No centro do vale empolava-se uma colina, que tentava, sem conseguir, equivaler-se às alturas circundantes. A orlar o cimo da colina surgia, sobranceira, a antiquíssima Vila de Castelo Mendo, qual página histórica, escrita de lutas e defesas antigas. Há, de facto, supremacia das alturas sobre o chão do vale e a durabilidade granítica das muralhas ainda decora e preserva o ambiente medievo provando resistências de outros tempos.
Da aldeia, olhando em redor, observam-se encostas e cumes pontuados de rochas cujos intervalos se enchem de ervas, giestas, carrascos e carvalhos, estes com folhas achatadas, elevando-se a cima da restante vegetação e crescendo para além de si mesmos. Agora, em época de Primavera, as giestas baixas e coloridas pelas maias pintam os campos lembrando extensos jardins amarelos a perfumar ambientes primaveris. Havia, claro, algumas (poucas) terras cultivadas, bastante próximas do rio verde que descansa na passividade calada do vértice fundeiro do vale.
A aldeia apresenta-se, assim, ao visitante, como uma proposta agradável, impressa numa extensa página de natureza e oferecendo, primeiro, a muralha, depois as três igrejas, o pelourinho, as casas, as ruas e os pequenos largos, tudo enraizado na época medieval. A modernidade acrescentou-lhe, já, um pequeno museu de arte sacra, um café, um bar de uma associação e algumas casas de turismo rural.
Da Igreja de Santa Maria, a mais alta, em ruinas, surgem espetaculares vistas sobre o Côa e os olhares podem, então, perder-se seguindo a estreiteza e a austeridade das margens, lá por onde se distendem as águas do rio, mansas este ano, numa direta relação com a fraca intensidade das chuvas.
Castelo Mendo é uma aldeia histórica, no verdadeiro sentido da palavra, que não disfarça profundas antiguidades. É sitio onde a história lançou raízes e, agora grita memórias guardadas em cada monumento, em cada recanto ou, até, entre as sombras.
Permito-me comparar esta a outras aldeias deste interior profundo, encostadas à raia, que me fazem lembrar pérolas dispersas a exalar perfumes históricos.
O prazer que obtenho ao percorrer estas aldeias e ao perder-me de sítio em sítio como se procurasse histórias ou lendas do meu próprio imaginário é, de facto, difícil de descrever.
Durante o ano Castelo Mendo veste-se de festa várias vezes e regressa a vários passados, uns mais profundos que outros. Na festa de treze de maio vai, apenas, até meados de século passado mas, com a Feira Medieval, regressa ao século XII. Neste evento anual recriam-se culturas, usos e costumes antigos, ceias e torneios medievais e a aldeia enche-se, de personagens vestidos a preceito num imperativo retorno a toda a antiguidade da terra.
É, então, daqui, desta observação, de hoje, que me atrevo a propor uma visita a esta raia de castelos e muralhas, de cor verde/amarelada e, sempre, prenhe de história.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

Os poetas, nas palavras de Erasmo, «formam uma raça independente, que constantemente se preocupa em seduzir os ouvidos dos loucos com coisas insignificantes e com fábulas ridículas. É espantoso que com tal proeza se julguem dignos da imortalidade». E continua: «esta espécie de homens, está, acima de tudo, ao serviço do Amor-Próprio e da Adulação». E dizia isto Erasmo, não por julgar a poesia um género literário menor, mas por saber que o mudo da poesia é o da adulação e da crítica elogiosa, com que de poetas medíocres, se fazem poetas da moda. (parte 2 de 4).

João Valente - Arroz com Todos - Capeia ArraianaApós a leitura de uma obra poética, analisando um estilo, um tema, uma originalidade, uma técnica, uma escola, podemos dizer que ela é talentosa, sublime, genial. Pensamos evidentemente, que o seu criador é, por isso, talentoso, sublime, genial. Mas isto são conceitos que tentam explicar mecanismos psicológicos. O que significam cada um deles? Existem de facto? Existem só em determinados indivíduos, ditos artistas, e não nos outros?
Donde, falar de homem vocacionado, talentoso, genial, é falar de conceitos que, tendo evidente utilidade instrumental, são escassos como explicação de um processo criativo.
Podemos dizer portanto que uma obra é genial, mas já dificilmente isso se pode afirmar de um artista, porque a explicação da criatividade artística é mais uma questão de psicologia; o que nos remete para a conclusão de que a compreensão da criatividade estética de um poeta deve ter em conta a compreensão da sua natureza. Isto leva-nos a Manuel Leal Freire e ao seguinte poema sobre a Capeia:

Negro
Mais negro que os fogueiros ào inferno;
Gordo,
Mais gordo que as mulheres de um rei negróide;
Bufão,
Mais bufão do que Noto, Eolo e Bóreas à compita;
Veloz,
Mais veloz que os golfinhos de Nereu –
Entrou na praça o boi galhardo.
Escarvando,
Olfacteou o argiloso chão,
Com um ar de Satã alucinado.Depois,
Erguendo a cabeça,
Achou pequenas a pequenez da praça
E a amplidão dos céus.
Depois, ainda,
Mugiu
Em ódio clamoroso e clangoroso.
Então,
A praça entrou nos delírios do pavor.
O forcão
Quedou-se desamparado
No meio do terreiro
E os capinhas galgaram em pânico
O espaço que os separava das trincheiras.
Sozinho,
No meio da praça,
O boi,
Já gigante,
Mais se agigantava.
Empoleirado num carro,
Exalçado a lenha
E enfeitado a colchas,
O tamborileiro rufava,
Querendo rebentar o velho bode.
Então os solteiros ganharam coragem
E, saltando aos magotes para a arena,
Imobilizaram o boi
Entre os aplausos dos homens
E os gritos das mulheres.

Este poema é de inegável beleza; provoca sentimento de prazer. Mas porque digo isto deste poema, e dos anteriores não?
A resposta está no temperamento, carácter diferente de quem os criou, isto é, a criatividade que está na origem dos diferentes poemas baseia-se também em personalidades diferentes. E que tipo de personalidades são esses?
Ao contrário da anterior, que é plana, a personalidade de Leal Freire é redonda, ideativa-criativa, poética, pela facilidade que tem em pôr, de forma artística, um pensamento em verso, aliando a sensibilidade estética (formal), à sensibilidade ética (criativa).
O autor dos poemas anteriores «arruma» versos; Leal Freire, personalidade artística, vive a vida como uma forma de arte, revive no dia a dia a sua fantasia, o lúdico, o sonho, que transporta para o quotidiano o seu sonho artístico, como se vê sobejamente no seu poema «Capeia».
É que a poesia é arte, e como tal, coisa do espirito que só conhecemos tendo educado um apurado sentido ético e estético. Por isso a poesia é coisa para ser tratada com a seriedade da filosofia, como faremos daqui para diante.
Quem melhor perceberam isto nos tempos modernos foram Hegel e Kant, ambos partindo de Platão no diálogo com Hippias maior, da ideia geral do belo, para elaborar uma «filosofia da arte» ou da poesia. Aquele tratando a poesia como as restantes manifestações de arte, mas a mais sublime entre elas; este referindo-se expressamente à poesia.
Para Hegel, como podemos ver na Introduction à l’Esthétique, Aubier, Paris, 1964, tradução de Mirian Magda Giannella, o belo existe aqui e em todo lugar ao redor de nós, intervindo «em todas as circunstâncias da vida» como um «génio amistoso que reencontramos em todo lugar».
E – não é para nos espantarmos – o único belo que o interessa é o belo artístico, o das produções humanas, excluindo-se o belo natural, porque aquele, sendo produção do espírito e comunicando a sua superioridade aos seus produtos e à arte, é superior a este.
Uma das consequências dessa superioridade incontestável do espírito é que a arte não deve imitar a natureza, ao contrário do que defendia Aristóteles, mas expressar o belo, porque o seu objetivo não é de satisfazer a lembrança, mas a alma, o espírito.
A prova é que a arte sempre simbolizou, representou, figurou o sentimento religioso do homem ou sua aspiração à sabedoria, sendo graças aos vestígios artísticos das civilizações e das culturas antigas, que podemos reconstituir o que foram as ideias e as crenças que animavam os homens das épocas anteriores.
E por isso é que para Hegel, a ideia do belo é a própria realidade concreta que toma a forma sensível do belo artístico, um pensamento que não é atividade passiva, recolhimento ou distanciamento, mas na faculdade activa responsável pelo domínio da criatividade, da capacidade de criar formas e instaurar significados, contrário de Platão, para quem a ideia do Belo, como a do Verdadeiro e do Bem, é abstrata, a-temporal, a-histórica.
Por sua vez, na Crítica da Faculdade do Juízo, Kant distingue entre beleza pura e livre (arte à grega) e beleza dependente (conceito): A primeira, encontra-se exclusivamente na forma, sem qualquer conceito (ex. música sem palavra e determinadas artes decorativas) que agrada pela forma pura; a segunda depende de algum conceito, o qual perturba a nossa relação com o objecto.
Quando a beleza depende dos conceitos, como a poesia, somos determinados por algo cognitivo da nossa relação com a forma que atrapalha esta nossa relação com a forma. Estes conceitos podem ser determinados, com um determinação objectiva, criados através de algo no objecto que determina esses conceitos (ex. o conceito de mesa depende daquilo que é o objecto mesa, em que para atingirmos o conceito de mesa temos de encontra um objecto externo correspondente), ou indeterminados, sem referência externa (ex. conceito de Bem-aventurança, Vida Além-túmulo, Beleza).
O nosso entendimento, o nosso sistema cognitivo, está montado expressamente para unificar os dados da experiência e para nos conduzir a conceitos objectivos claros e distintos e não encontrando este tipo de conceitos, a imaginação vai propor-lhe imagens, aquilo a que Kant chama ideias estéticas, de modo a encontrar um correspondente objectivo para estes conceitos.
A arte dedica-se precisamente a isto, à tentativa de criar imagens (ideias estéticas, segundo Kant) para conceitos indeterminados. Por exemplo, para o conceito de beleza seria representada por uma imagem da mitologia, o Pavão de Juno. Outro exemplo é a forma como Kant representa o cosmopolitismo, escolhendo um verso de Frederico II, em que este descrevia um belo pôr-do-sol e a certa altura compreendemos que ele está a falar de si próprio no fim da vida, tal como o Sol deu a volta ao mundo e compreendeu todas as coisas também o homem cosmopolita conheceu tudo, deu a volta ao mundo e pode descansar tranquilamente.
(Continua)
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

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