Sem bem que a saúde me venha acompanhando, pois ando no mundo há um boa tulha de anos, a verdade é que nem sempre me senti sadio, muito por mor dos meus afazeres de homem aventureiro, que a nada me neguei ao longo da vida, na ideia de ganhar o meu sustento e o dos que mantinha de portas adentro.

Há muito tempo, tive a minha hora minguada e caí numa modorra infernal. Não sentia as forças, tomava-me da fadiga e abancava à roda da borralheira. Se emborcasse sustância largava arrotos descomunais, rugiam-me os intestinos e atirava sonoras ventosidades, que pareciam os estrondos dos canhões dos franceses do tempo do general Maneta. Sentia fastio, doía-me o toutiço e quedavam-me dormentes os braços e as carranchas.
Toda a populaça da Bismula e dos povos em redondo sentiu dó quando tomou fé que o Zé Tosca, preado contrabandista e feirão errante, deixara de cruzar os caminhos da raia e de tomar lugar no terreiro dos mercados. E a falta que eu fazia nas levas da candonga! Era nesse tempo o cortador mais afamado da raia, capaz de conduzir ao Inferno um grupo de homens carregados, se disso houvesse precisão.
A Belmira ao ver-me assim, desacorçoado e pejado de dores, mandou chamar o barbeiro do povo, o Ti João Vasco. Foi contra a minha vontade, pois tinha de há muito uma desavença com o dianho do barbeiro, motivada por uma divisão de águas, em que me vira obrigado e mandar-lhe dois bofetões nas fuças. Mas o homem lá veio, cioso do seu ofício, recomendando mezinhas e cortando-me os pulsos.
¬- Olha-me para este sangue estragado, mais negro que um chapéu – disse-me o barbeiro Vasco, ao mesmo tempo que me apulava o sangue para um alguidar, como quem o colhe a um marrano para fazer as morcelas.
Mas o tratamento do mestre em curas não tomou efeito e o mesmo sucedeu com os responsos e feitiçarias da Ti Páscoa, a benta lá da terra. Ia definhando a olhos vistos, caminhando-me para a morte, já quase resignado ao triste destino. Olhava para a catraiada mais nova pensando em como se criaria sem o concurso do pai, que era afinal o arrimo da casa.
– Vá ao praticante de Almedilha, homem de Deus! – atirou-me a nossa vizinha, a Ti Rosalina, muito combalida com o avanço da moléstia.
– Ando farta de andanças. Não há modo de lhe atalharem o mal – lamentou-se-lhe a minha Belmira.
Porém, na manhã chegante, ainda ao lusco-fusco, a Belmira, mulher de um raio, atirou-me para riba da albarda do macho, e botámo-nos ao caminho. Atravessámos as Batocas sob o olhar curioso daquelas gentes que me conheciam e que nunca me houveram visto em tais preparos, qual farrapo engelhado, que parecia seguir para ao encontro da morte. Passada a raia entrámos no povoado castelhano, onde o praticante dava consultas. Vivia numa casinha modesta, em cuja sala, forrada de armários com remédios, nos recebeu e me mandou sentar. A Belmira largou o rol das queixas e dos achaques que me apoquentavam e me não deixavam dar carreira direita.
Ouvidos os sinais da malina, o praticante sentenciou:
– É embaraço intestinal. Há quanto não desorga?
– Já lá vão aquase duas semanas – respondeu a zelosa mulher.
O curador consultou um livro, grosso como um missal, e ditou a prescrição:
– Faça-o emborcar leite, muito leite. Encharque-o de limonadas e meta-lhe às golas cozimentos de arroz ou de cevada. Que beba chá de marcela e arrume-lhe com pungentes de cene e de ruibardo.
Botadas contas, a mulher desembolsou dois duros, e volvemos a casa, amargurados com a avultada despesa e pouco ou nada esperançosos com a receita.
Ainda falei em deitar as indicações do praticante aos quintos dos infernos, mas a patroa, zelosa como nunca, tratou nesse mesmo dia de iniciar os tratamentos, seguidos com todo o rigor, após a recolha das ervas pelas casas das vizinhas.
O certo é que às primeiras tomadas, me deu uma desintéria do catano, que quase me deixava sem entranhas. Arribei ao cabo de uma semana e senti-me voltar a ser um homem sadio. Perdi as dores, recuperei a força e o génio para a vida e botei-me de novo à faina, passando mercancias de um para o outro lado da fronteira e correndo os mercados da redondeza, em rebusca do meu ganha pão.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

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