O FC Porto, originalmente fundado em 1893, mas cuja vida regular se inicia em 1906, sempre «catalisou» poderosamente uma identidade social iminentemente local: a cidade e a região a que pertence.

José GuilhermeSignificativo, ainda, é o facto de cronicamente se apresentar como principal presentante de uma identidade marcada por uma auto-imagem baseada em representações sociais que afirmam a injustiça e a discriminação de que a mesma se sente vítima, provocando uma situação de confronto regionalista de que o clube é o mais importante símbolo. A isto não será estranho, com certeza, a situação histórica do Porto como segunda cidade do país.
O caso do FC Porto, e dos seus adeptos, é particularmente feliz no que toca à relação entre a identidade local e a paixão pelo futebol, ao demonstrar como o jogo e a equipa de futebol surgem como ocasião é motivo privilegiado para afirmar os principais valores do colectivo e a sua identidade própria.
O futebol, como qualquer facto cultural, é apropriado de diferentes formas consoante os contextos sociais. É sentido e significa coisas diferentes em locais diversos. Por isso os clubes de futebol são diferentes uns dos outros; possuem culturas distintas. São os elementos-tipo dessa cultura do clube de futebol que aqui se pretende categorizar, com referência ao caso da identidade «portista».

Contra Lisboa
Algumas das principais auto-representações da comunidade em que se insere transformam o FC Porto numa identidade de resistência ao que é considerado como o poder centralista no país. O futebol parece constituir o mais poderoso instrumento desse descontentamento expresso. Entre os habitantes da cidade, o campo desportivo foi sempre encarado como terreno propício à expressão do sentimento (mais vasto) de discriminação e injustiça, relativamence à capital, de que sempre se sentiram vítimas, contribuindo para o agravamento desse sentimento o facto dos resultados obtidos, até aos anos 80, serem nitidamente inferiores aos dois principais «rivais» de Lisboa (apenas cinco titulos nacionais contra 23 do Benfica e 15 do Sporting).
Não admira, pois, que os resultados da equipa sempre tenham sido vividos e sentidos como muito significativos e fundamentais pelos adeptos do cIube. As vitórias servem para afirmar a identidade de resistência, em que a autovalorização se processa sempre em oposição aos «inimigos» de Lisboa, seguindo diversas formas de denúncia e regionalismo. Expressões como «O Porto é uma nação» ou «O Porto deu o nome a Portugal», surgem como resposta à velha maxima lusitana criada por Eça de Queiroz, «Portugal é Lisboa, e o resto é paisagem», e marcam bem este tipo de atitudes e discursos.
As vitórias portistas no futebol são, afinal, novos elementos a juntar ao vasto e continuo processo de afirmação e de autovalorização da comunidade, em contraposição às identidades a que esta se opõe. Assim foram recebidas as grandes vitórias do clube nos anos 20 e 30, como seriam depois festejados os triunfos obtidos em catadupa mais para o final do século, que incluíram a afirmação internacional de 1987 e o «penta» dos anos 90.
No que diz respeito aos significados atribuídos às derrotas (e é importante notar que durante largos períodos de tempo, de 1940 a 1956 e de 1959 a 1978, o FC Porto foi um clube «perdedor»), estas são caracteristicamente vistas como a comprovação da injustiça e discriminação regionalista, já que por norma são associadas a más decisões dos árbitros, à manipulação de resultados por parte dos adversários, ou ainda aos infortúnios do destino.
(Continua na próxima semana.)
Extracto de «A Paixão do Povo – História do Futebol em Portugal», de João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro (2002).

«Futebol – A Paixão do Povo», opinião de José Guilherme

joseguilherme.r@gmail.com

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