O ano de 1906 foi o primeiro da existência de um dos mais significativos emblemas da história do futebol em Portugal, o Sporting Clube de Portugal. Representando a essência da própria origem do futebol no país, o Sporting Club de Portugal nasceu em «berço de ouro», no seio da aristocracia lisboeta do inicio do século.

José GuilhermeOs primeiros estatutos do clube não esquecem a referência a uma agremiação formada por pessoas da boa sociedade e dão a prioridade ao ténis como desporto a ser praticado no clube. Um dos traços identitários do Sporting ficava desde logo esboçado, embora muitas coisas viessem a mudar, principalmente a partir dos anos 40, graças a muitas e gloriosas vitórias e exibições dos célebres «Cinco Violinos», que tornaram o Sporting extremamente popular um pouco por todo o país e em todas as camadas sociais. Nos primórdios do clube, a situação social e financeira privilegiada dos seus mentores e sócios, principalmente de José Roquette e do seu tio, o Visconde de Alvalade, ajudou a reunir condições físicas e humanas para a prática do futebol, algo sem paralelo nos outros clubes da altura. A equipa do Sporting dispunha de um dos melhores recintos da época e contava com exímios jogadores vindos do Sport Lisboa (formação que esteve na origem do SL Benfica), que não tinha onde treinar. Esta solução encontrada pelos «leões» para juntarem uma boa formação, acabaria por dar origem aos primeiros passos de uma rivalidade quase centenária, entre o Sporting e o BenfIca, e que ocupa lugar destacado na história do desporto português.

O ciclo dourado dos «famosos cinco»
O Sporting começou a criar fama de equipa «grande» na disputa do Campeonato de Lisboa, prova em que exerceu um domínio quase avassalador, entre 1922 e 1947, vencendo 16 em 25 títulos possíveis, sendo que 6 deles, foram consecutivos (entre 1934 e 1939). Esta hegemonia futebolística dos «leões» em Lisboa alargou-se ao plano nacional durante toda a década de 40 e 50. Entre 1947 e 1954, o Sporting conquistou sete campeonatos nacionais em oito possíveis, alcançando ainda o primeiro «tetra» da história, entre 1951 e 1954. Eram os tempos dos inesquecíveis «Cinco Violinos», provavelmente a maior referência da identidade sportinguista até aos nossos dias. Pena foi que nesta altura ainda não existissem as competições europeias, pois se tal acontecesse com certeza que Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano (acompanhados por outros excelentes praticantes) teriam brilhado e deslumbrado por essa Europa fora. Curiosamente, o Sporting ficaria ligado ao nascimento dessas mesmas competições europeias. Quando em 1956, na primeira edição da Taça dos Campeões, Martins foi o marcador do primeiro golo da competição, no jogo inaugural da prova, que opôs Sporting e Partizan Belgrado, no Estádio Nacional. Nesta altura, o Sporting era a equipa portuguesa com mais prestígio a nível internacional, não sendo de estranhar por isso o convite para o clube «leonino» participar na primeira edição da Taça dos Campeões Europeus, quando quem tinha vencido o Campeonato Nacional (1954/55) fora o Benfica. Alguns anos antes, em 1949, o Sporting tinha ido à final da Taça latina, perdendo com o Barcelona por um escasso 2-1.

Uma identidade cada vez mais nacional
Como seria de esperar, o sucesso e a fama do Sporting dos «Cinco Violinos», que dominou o futebol em Portugal durante tantos anos, acabaria por redundar num processo de popularização do clube, tanto no sentido do aumento do número de adeptos em todo o país, como no sentido da expansão social do próprio clube, que progressivamente foi chegando a outras camadas sociais. Um bom indicador deste processo de difusão social foi o facto de apenas na década de 50 deixar de ser obrigatória a exposição pública da proposta de sócio durante uma semana, na sede do clube, para assim ser possivel contestar a idoneidade ou a irrepreensibilidade da conduta do candidate a sócio «leonino». Assim, ser sócio do Sporting era sinónimo de respeitabilidade e honorabilidade.
(Continua na próxima semana.)
Extracto de «A Paixão do Povo – História do Futebol em Portugal», de João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro (2002).

«Futebol – A Paixão do Povo», opinião de José Guilherme

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