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Passam-se hoje, dia 3 de Abril de 2012, duzentos anos sobre a quarta invasão de Portugal pelas tropas napoleónicas e, em simultâneo, 201 anos sobre a importantíssima batalha do Sabugal, que marcou o final da terceira invasão.

É comum falarmos em três invasões de Portugal perpetradas pelos exércitos napoleónicos. Todos conhecemos, aliás, os comandantes franceses dessas três invasões: Junot, Soult e Massena. Porém houve uma quarta invasão de Portugal, comandada pelo marechal Marmont, que poucos conhecem e que a história, por regra, omite.
Alguns autores consideram porém ousado chamar-lhe «invasão», pois tratou-se sobretudo de uma incursão ou sortida do exército francês em território português, ou ainda, usando a linguagem táctico-militar, de uma «manobra de diversão».

Marmont substituiu Massena
Após a batalha do Sabugal, ocorrida em 3 de Abril de 1811, o exército francês retirou para Espanha. Face ao fracasso da terceira invasão, Massena caiu no desfavor de Napoleão, que lhe retirou o comando do Exército de Portugal, substituindo-o por August Marmont, um marechal de 36 anos que detinha o título de Duque de Ragusa. Oriundo de famílias nobres, o jovem marechal não detinha o prestígio de Massena, mas gozava dos favores de Napoleão que o considerava um comandante com elevados méritos.
A prioridade de Marmont foi reorganizar o Exército de Portugal, que o imperador mantinha com o fim de realizar uma nova expedição em Portugal para expulsar os ingleses da Península, «atirando-os para o mar». A expedição deveria contudo aguardar pelo momento oportuno, sendo intenção de Bonaparte vir ele mesmo à Península para a comandar.
A primeira missão que lhe foi atribuída foi juntar-se ao Exército do Sul, chefiado pelo marechal Soult, tendo em vista salvar a praça de Badajoz, que fora cercada pelo exército anglo-português. A simples união dos dois exércitos franceses, que actuaram coordenados na linha do Guadiana, fez desmobilizar Lord Wellington, que levantou o cerco a Badajoz, recuando para Elvas e Campo Maior.
Os dois marechais franceses (Soult e Marmont) pensaram perseguir o exército anglo-luso e enfrentá-lo, lançando uma nova ofensiva em Portugal, que facilmente chegaria a Lisboa atravessando as planícies do Alentejo. Contudo, não havendo para isso ordens formais de Bonaparte, o movimento não foi executado. A ordem vinda do imperador foi antes a da separação dos dois exércitos, devendo Marmont subir para o vale do Tejo e Soult descer para sul, retomando as posições anteriores.

A acção de Wellington em Portugal
Arthur Welleslay, visconde de Wellington, que comandava o exército aliado, era um homem prudente e atempado. Media cuidadosamente cada uma das suas acções, avançando sempre com segurança, não sendo nada propenso a aventuras e a ousadias. Vencendo a batalha do Sabugal, correu os franceses para Espanha, repelindo-os de novo em Fuentes de Oñoro quando tentaram regressar, mas nem de uma e de outra vez os perseguiu por Espanha adentro.
A sua prioridade era salvaguardar as fronteiras de Portugal, livrando-as do perigo de uma nova invasão. O plano que gizou impunha a conquista de duas praças-fortes espanholas que haviam caído nas mãos dos franceses: Ciudad Rodrigo e Badajoz. Começou por esta última, levando o seu exército para o Alentejo, onde contava operar com mais segurança e com maiores probabilidades de sucesso. Repelida a tentativa de tomar Badajoz, parte de novo para a Riba-Côa, instalando-se na Freineda no verão de 1811.
Foi aí que planeou, em grande secretismo, o cerco a Ciudad Rodrigo. Reconstruiu a fortaleza de Almeida, e apetrechou-a com artilharia pesada e material de cerco. A 1 de Janeiro de 1812, em pleno Inverno, com um exército de 35 mil homens e munido do trem de artilharia que estava em Almeida, irrompeu de encontro à fortaleza espanhola, que foi bloqueada, cercada e bombardeada, sendo tomada a 19 de Janeiro, numa acção que custou a vida ao lendário general Craufurd, comandante da Divisão Ligeira.
Tomada Ciudad Rodrigo, Wellington encaminhou-se imediatamente para sul e pôs cerco a Badajoz, deixando a fronteira de Riba-Côa sob a vigilância das milícias.

O susto de Napoleão Bonaparte
A queda de Ciudad Rodrigo e a imediata ofensiva sobre Badajoz por parte do exército aliado, causaram o enfurecimento do imperador dos franceses, que anteviu uma forte ofensiva de Wellington em direcção a Madrid em acto contínuo à mais que provável tomada da praça do sul. Assustado com essa possibilidade, Bonaparte ordena a Soult que se encaminhe para Badajoz, a fim de socorrer a cidade, ao mesmo tempo que instruiu Marmont a fazer uma «manobra de diversão», através de uma forte ofensiva em Portugal, na Beira Baixa, de modo a atrair Wellington e assim salvar Badajoz e desviar o exército aliado do caminho da capital espanhola.
Marmont reuniu junto ao rio Tormes, nas imediações de Salamanca, 18 mil homens, um pouco menos de metade do Exército de Portugal, que estava espalhado pelas províncias sob a sua jurisdição, e avançou em direcção à fronteira portuguesa. Não levava artilharia pesada, pois tratava de cumprir à risca as ordens do imperador, que pretendia uma manobra rápida, se bem que ostensiva, sobre o território português. Passando junto a Ciudad Rodrigo a guarnição espanhola, que Wellington ali deixara, ainda temeu que o objectivo dos franceses fosse atacá-la ou bloqueá-la, mas a tropa passou e andou a toda a pressa, seguindo no caminho de Portugal.

Marmont invade Portugal
A 3 de Abril de 1812, exactamente um ano após a batalha do Sabugal, os franceses reentram em Portugal, tentando tomar Almeida de assalto, no que foram repelidos pela milícia portuguesa que guarnecia a praça. Marmont avançou então para norte, passando por Alfaiates e chegando ao Sabugal, onde a 8 de Abril estabeleceu o seu quartel-general.
A partir do Sabugal, onde ficou instalado, o marechal enviou sortidas a Penamacor, Belmonte, Idanha-a-Nova, Covilhã e Fundão, chegando a sua vanguarda a Castelo Branco.
Entretanto o exército aliado tomou Badajoz aos franceses a 7 de Abril, numa violenta e dura batalha, extremamente cara para ambos os lados. Wellington, tomando conhecimento da movimentação francesa em Portugal, decidiu não dar descanso aos seus soldados e subiu com todo o seu exército para norte, em marchas forçadas, em socorro da Beira.
Face ao avanço dos aliados, as tropas de Marmont abandonaram as suas posições, recuando para evitar o confronto com o exército luso-britânico. No caminho da retirada, Medelim e Pedrógão de S. Pedro foram saqueadas e literalmente destruídas pelas tropas invasoras.
O exército aliado continuou a sua marcha apressada, em perseguição a Marmont, porém este levantou o seu acampamento no Sabugal e regressou a Espanha a 24 de Abril, sem que a vanguarda aliada o tivesse avistado.
Após mais de 250 quilómetros, sem conseguir ver o inimigo, que recuava com avanço, Wellington decidiu parar em Alfaiates, onde deu merecido descanso às tropas.

O malogrado plano de Trant
Houve nesta incursão francesa um aspecto curioso, que merece uma referência.
Instalado na cidade da Guarda, o brigadeiro Trant, oficial britânico que chefiava a milícia portuguesa que ajudara o governador de Almeida, La Masurier, na defesa da fortaleza, verificando que os franceses tinham acampado no Sabugal, elaborou um ousado plano para o atacar de surpresa. Comunicou com o brigadeiro Wilson e com o general Bacelar, que igualmente comandavam milícias, e pediu-lhes para se reunirem a si na Guarda, a fim de executarem juntos o movimento de ataque aos franceses. Marmont, apercebendo-se porém da concentração das milícias, antecipou-se aos planos de Trant e enviou à Guarda uma sortida de cavalaria. O brigadeiro inglês retirou à pressa, indo instalar-se para lá do Mondego, mas na manhã do dia 14 de Abril a cavalaria francesa atacou o batalhão português que cobria a retirada, que foi rapidamente desbaratado, fazendo 200 prisioneiros.
Trant escrevera ao comandante-chefe dando-lhe conta da retirada precipitada e do fracasso do plano de ataque ao quartel-general de Marmont no Sabugal. A 17 de Abril, Lord Wellington respondeu-lhe de Castelo Branco , censurando-o vivamente por se ter posicionado na Guarda, que considerava ser «a mais traiçoeira posição militar em Portugal», por não oferecer condições de retirada, louvando-o contudo por ter dado disso conta a tempo de salvar o grosso da milícia.

As atrocidades da quarta invasão
Esta fugaz invasão de Portugal, que teve o epicentro no Sabugal, e que durou apenas 20 dias, deixou um tremendo rasto de violência e de destruição nas terras por onde passou. Nunca uma movimentação das tropas napoleónicas pelas nossas terras raianas fora tão violenta e excessiva como o foi esta incursão fugaz.
A ofensiva ocorreu no início da Primavera de 1812, um ano após a última passagem de tropas francesas e quando os habitantes refaziam as suas vidas. Wellington estivera largos meses na Freineda, e percorrera as terras da Raia, incentivando os habitantes a reconstruírem as suas casas, os moinhos e os fornos que foram arrasados por ocasião da terceira invasão. A sua presença criou uma sensação de segurança e os populares refizeram o seu quotidiano, recompondo as habitações, voltando a criar gado e preparando as sementeiras.
A sortida de Marmont apanhou-os de surpresa, vendo num ápice as terras de novo invadidas pelas hordas francesas, que a todo o custo procuraram meios de subsistência. Voltaram os saques e os abuso de toda a ordem, dentre os quais os actos de vingança perpetrados pelos mesmos soldados que há um ano ali haviam passado em retirada.
O cenário nas aldeias onde passou esta incursão era de pura destruição, com casas pilhadas e queimadas, igrejas espoliadas e profanadas e o gado abatido e esquartejado para servir de alimento aos soldados.
William Warre, jovem major britânico ao serviço do exército português, que veio com Wellington na perseguição aos invasores, escreveu uma carta à família a partir da aldeia da Nave, onde pernoitou:
«Meu querido pai,
É impossível dar-vos uma ideia da desgraça existente em todas as vilas por onde o inimigo passou, pois destruíram tudo aquilo que não puderam levar. Na minha presente habitação, o chão foi feito em pedaços e as janelas, portas e mobílias incendiadas, só escapando a arca e a cadeira que estou usando, que parecem ter desafiado as chamas. A fome e a penúria dos infelizes camponeses que nos cercam por toda a parte, e a caridade que fomos fazendo a alguns, já esgotou completamente os nossos meios. O dinheiro tem pouca utilidade onde nada pode ser comprado. Toda a forragem para os cavalos foi, nos dois últimos dias, aquela que conseguimos cortar nos campos, embora nem estes tenham escapado à rapacidade do inimigo.(…).
Nava (sic), na estrada entre Sabugal e Alfaiates, 24 de Abril de 1812.
»
Uma invasão quase desconhecida, mas que deixou marcas profundas na nossa região e que, por isso, não devemos deixar apagar da memória histórica.
Paulo Leitão Batista

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Após a batalha do Sabugal, em 3 de Abril de 1811, o exército francês retirou para Espanha. Contudo Napoleão Bonaparte não desistira de submeter Portugal, continuando à espera de uma oportunidade, de que foi exemplo a perseguição ao exército anglo-luso que culminaria no combate de Aldeia da Ponte, acontecido em 27 de Setembro de 1811, há precisamente 200 anos.

Face ao fracasso da terceira invasão, Massena caiu no desfavor de Napoleão, que lhe retirou o comando do Exército de Portugal, entregando-o a August Marmont, um jovem marechal de 36 anos, que detinha o título de Duque de Ragusa. Oriundo de famílias nobres, coisa pouco comum entre a oficialidade francesa, Marmont não tinha o prestígio de Massena, mas o Imperador considerava-o um comandante talentoso e muito promissor.
Marmont começou por instalar o seu exército junto a Salamanca, para lhe dar descanso pois estava fortemente desgastado com a campanha em Portugal e a recente investida sobre Fuentes de Oñoro, nos dias 3 e 4 de Maio, que fora repelida pelos aliados. Extinguiu os corpos e reorganizou as divisões e as brigadas, mudando alguns comandantes, ao mesmo tempo que procurou arranjar subsistências, lançando no terreno destacamentos de forrageadores e constituindo depósitos de víveres e de armamento. Sabia que Napoleão queria reentrar em Portugal e assim tratava de colocar o exército pronto para a missão. A ideia de que o próprio Imperador viria em pessoa comandar a expedição vitoriosa, animava-o a prosseguir os preparativos para esse grande momento de glória.
Porém Bonaparte deu-lhe ordem para ir para sul, em socorro do marechal Soult, que tentava salvar a praça de Badajoz do cerco a que fora sujeita pelo exército anglo-português, comandado pelo duque de Wellington. A 6 de Junho o Exército de Portugal colocou-se em movimento e no dia 18 Marmont juntou-se a Soult. A simples união dos dois exércitos franceses, fez desistir Lord Wellington, que levantou o cerco a Badajoz, recuando para Elvas e Campo Maior.
Os dois marechais (Soult e Marmont) pensaram perseguir o exército anglo-luso, lançando uma nova ofensiva em Portugal, que facilmente chegaria a Lisboa atravessando as planícies do Alentejo. Contudo, as ordens formais de Bonaparte, que tudo comandava desde Paris, foram para que Marmont subisse para o vale do Tejo e Soult descesse para sul, retomando as posições anteriores.
Wellington, face ao fracasso da tentativa de tomada de Badajoz, decidiu partir com a maior parte do seu exército para Riba-Côa, a fim de tomar Ciudad Rodrigo, que igualmente permanecia nas mãos dos franceses. A partir da Freineda, onde instalou o quartel-general, enviou uma boa parte das suas tropas por Espanha adentro, até perto de Ciudad Rodrigo, para bloquear a praça-forte.
Em 23 de Setembro, o marechal Marmont, após reunir o grosso do seu exército, resolve desalojar os aliados das suas posições, atacando-os. Nos dias seguintes, os aliados, não aguentando as cargas sucessivas dos franceses, recuaram de posição em posição, usando a tácita de retirada por escalões, e aproximaram-se da fronteira.
A 27 de Setembro, já com o exército anglo-luso em Portugal, Marmont decide lançar um forte ataque à povoação de Aldeia da Ponte, onde uma boa parte dos aliados se haviam instalado. Coube aos generais Thiebault e Souham comandar as investidas, que encontraram nos portugueses e ingleses firme e determinada resistência. Porém ao final do dia, após uma renhida disputa, com dezenas de baixas de ambos os lados, os aliados abandonam a aldeia, que foi tomada pelos franceses.
No dia seguinte, 28 de Setembro, a tropa anglo-lusa ocupava firmemente as alturas do Soito, com a direita nos Fóios e a esquerda em Rendo, em posição de evitar a continuação da progressão. Nesse mesmo dia os Franceses, considerando arriscada uma nova manobra de ataque, decidem retirar para tomar posições que evitassem uma nova aproximação a Ciudad Rodrigo.
Veja Aqui a descrição do Combate de Aldeia da Ponte, da autoria de Manuel Peres Sanches.
Paulo Leitão Batista

A Divisão Ligeira do exército britânico teve um papel fundamental na luta contra a invasão francesa de Portugal, tendo actuado em diversos cenários com grande heroicidade, incluindo na Batalha do Sabugal em 3 de Abril de 1811.

Face à previsão de uma terceira invasão francesa, Arthur Wellesley, então visconde de Wellington, reestruturou o exército britânico em divisões, nas quais integrou unidades portuguesas, que passariam a actuar em conjunto.
Em 22 de Fevereiro de 1810, criou a Divisão Ligeira, sucedânea da Brigada de Infantaria Ligeira, considerada uma tropa versátil e composta por militares de elite.
Entrega o comendo desta divisão ao general Robert Craufurd, um jovem promissor em cujo valor Wellington acreditava. Isso não foi pacífico, uma vez que tinha com ele outros generais mais antigos que ambicionavam a atribuição desse comando.
A divisão Ligeira estava equipada com a espingarda Baker, mais evoluída do que o musquete que equipava o resto da infantaria britânica. Essa espingarda tinha o cano estriado e era mais leve, tendo maior alcance e maior precisão no tiro. Além disso os homens que a constituíam eram escolhidos entre os melhores atiradores e era-lhes incutido um espírito de corpo e de sacrifício, que os tornavam capazes de efectuar missões descentralizadas, desgarradas do corpo principal do exército, em acções de reconhecimento e de retardamento onde a versatilidade e a velocidade de movimentação eram essenciais.
A nova divisão foi constituída pelos regimentos britânicos 42º, 53º e 95º, a que se juntaram os batalhões de caçadores portugueses números 1 e 3. A divisão foi ainda reforçada pelo 1º regimento de Hussardos da Legião Alemã do Rei, um corpo de cavalaria do exército alemão, que servia os ingleses em Portugal.
Wellington sabia que estava em posição de desvantagem face à excelente cavalaria de Massena, e decide colmatar a sua insuficiência de cavaleiros com o serviço da Divisão Ligeira, cuja versatilidade usou para constituir uma força de observação e de contenção. Assim, encarregou o general Craufurd de estabelecer a linha avançada do dispositivo de defesa de Portugal, dispondo as suas tropas entre os rios Côa e Águeda, com postos avançados muito próximos das tropas de Massena, que começaram por tomar Ciudad Rodrigo, antes de avançarem para Portugal.
Foi a Divisão Ligeira que retardou a invasão, envolvendo-se em refregas com a vanguarda francesa e movimentando-se com rapidez, procurando dar a entender que o grosso do exército estava próximo e pronto a enfrentar a força invasora. Contrariando as indicações de Wellington, Craufurd envolveu-se na batalha do Côa, junto à ponte de Almeida, onde se bateu valorosamente com as hordas do 6º Corpo do exército francês, que, sob o comando do marechal Ney, iniciou a terceira invasão de Portugal. Depois, perante o avanço do dispositivo francês em direcção a Lisboa, a Divisão Ligeira formou a retaguarda do exército anglo-português, procurando observar de perto a evolução da vanguarda da força invasora.
No Buçaco formou no flanco direito do dispositivo de Wellington, em missão de protecção, que cumpriu com denodo. Já nas linhas de Torres Vedras, ocupou um sector da defesa de Lisboa, em igualdade com as demais divisões do exército.
De volta ao Côa, a divisão ligeira, sob o comando interino do general Erskine, por ausência de Craufurd, de licença em Inglaterra, bateu-se na Batalha do Sabugal. Teve aqui uma acção decisiva, actuando com coragem quando apanhada numa situação desfavorável, o que lhe valeu rasgados elogios de Wellington.
Entretanto, já com Craufurd de volta ao comando, a Divisão Ligeira voltou a destacar-se no assalto à praça de Ciudad Rodrigo, em 8 de Janeiro de 1812, onde o seu mítico comandante é gravemente ferido, morrendo após quatro dias de sofrimento, sendo enterrado na brecha.
Paulo Leitão Batista

Fomos a Torres Vedras falar com o Coronel Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão, um dos autores do livro «Sabugal e as Invasões Francesas», que vai ser lançado no Sabugal no próximo dia 2 de Abril, por ocasião da evocação do bicentenário da Batalha do Sabugal. No livro o coronel Mourão descreve com grande minúcia essa última batalha com as tropas francesas em solo português, o que também serviu de mote para a animada conversa com o afável investigador.

– Foi o facto de ser militar a viver aqui em Torres Vedras, a cidade que deu o nome às linhas que defenderam Lisboa dos franceses, que o motivou a investigar e escrever acerca das invasões napoleónicas?
– Verdadeiramente eu nem sei bem como nasceu o meu gosto pela História mas, gostando deste ramo do conhecimento, é natural, pela minha profissão, que me interesse mais pela História Militar. Comecei por canalizar a minha atenção para o estudo da Primeira Guerra Mundial mas as comemorações do Bicentenário da Guerra Peninsular fizeram-me mudar de rumo. Esta é uma boa oportunidade para estudar este tema. Quanto à motivação para escrever sobre o assunto, essa é para mim uma consequência lógica da aquisição de conhecimentos. Estes terão de ser partilhados ou o trabalho de investigação (se é que o que eu tenho feito pode ser designado desta forma) torna-se inútil.
– Ao que sei trabalhou, enquanto oficial do exército, na área da História Militar, o que terá contribuído para aprofundar esse gosto pelo passado histórico.
– Isso é verdade. Em 1990 fui colocado na Escola de Sargentos do Exército onde exerci, entre outras funções, a de professor de História Militar. Antes disso, o meu contacto com a História Militar foi durante o Curso de Promoção a Oficial Superior, no IAEM, quando tive de apresentar um trabalho sobre as Linhas de Torres Vedras. Gostei de fazer o trabalho e a sua apresentação correu muito bem. Mais tarde, fui colocado na Direcção de História e Cultura Militar, onde terminei o serviço activo. Ali desempenhei várias funções e, a última, já na situação de reserva, tinha a ver com o estudo e divulgação da História e foi durante este tempo que decidi começar a publicar na Wikipédia os artigos sobre as batalhas em que participaram as forças portuguesas.
– E foi dessa forma que se deparou com a Batalha do Sabugal?
– Sim, o trabalho sobre a Batalha do Sabugal aparece no contexto de todo o trabalho que tenho desenvolvido. Esta batalha foi, na realidade, o último confronto importante, entre tropas anglo-lusas e tropas francesas, em território português. No entanto, quando Massena retirou deixou uma guarnição francesa em Almeida que só viria a abandonar Portugal alguns dias depois, numa fuga espectacular. Mas a Guerra Peninsular não termina com o fim das Invasões Francesas. Aliás, em 1812, Marmont entra em Portugal, embora por um curto período de tempo. Mas a Guerra Peninsular só termina em 1814, em França, e em todo este processo as tropas portuguesas são parte essencial do exército de Wellington. Mas, voltando à Batalha do Sabugal, procurei descrevê-la ao pormenor, a partir dos relatos que nos são apresentados pelos principais historiadores que escreveram sobre este tema: Napier, Oman e Fortscue. Nos trabalhos que tenho publicado sobre batalhas, para além dos antecedentes que nos permitem saber como se chegou aquela situação, tenho tido o cuidado de apresentar sempre dois elementos que me parecem fundamentais antes da descrição da batalha: o terreno onde se desenrola a batalha, e a composição das forças em presença. É muito difícil compreender qualquer descrição se não tivermos estes elementos presentes. Ao divulgar um texto sobre estes temas não estou a fazê-lo para quem conhece a organização militar, o que é uma divisão, uma brigada ou um batalhão.
– Descreveu e desenhou em croquis o próprio plano de Wellington para a batalha. Crê que ele pretendeu mesmo envolver e capturar o segundo corpo do exército francês, que estava na margem direita do Côa, um pouco acima do Sabugal?
– Como eu refiro no próprio texto (que irá ser publicado), não nos chega através dos autores que referi ou outros, uma clara definição do plano de Wellington. Fortescue e Charles Oman apresentam as intenções de Wellington de forma diferente. Li ambos os autores, verifiquei o terreno, através de mapas e croquis, vi a disposição inicial das forças e, perante isso, atendendo aos princípios doutrinários que se utilizavam (e utilizam) cheguei à conclusão que apresento. Se tudo fosse realizado de acordo com o que estava planeado, teria Reynier conseguido retirar? Se não conseguisse retirar, ofereceria resistência? E, se oferecesse resistência, teriam os outros corpos de exército, principalmente o oitavo, de Junot, oportunidade de intervir? São muitos «ses» que conduzem a raciocínios especulativos e esse não é, a meu ver, o trabalho do historiador.
– Mas Massena tinha outras forças muito perto, que podia enviar em socorro do segundo corpo. Será que Wellington não teve isso em conta?
– Repare que Wellington fixou o sexto corpo com a colocação de uma divisão na margem do Côa a sul do Sabugal. Por outro lado, utilizou as milícias de Trant e Wilson, a norte, ameaçando Almeida e fixando, desta forma, o nono corpo. O oitavo corpo estava recuado, em Alfaiates, muito maltratado. Fazer avançar essas forças em apoio do segundo corpo, de Reynier, significava para Massena aceitar outros riscos e ver a sua retirada cortada, não só para o segundo corpo mas para todo o Armée de Portugal. Wellington teve, certamente, isso em conta e, provavelmente, sabia que estava a correr riscos. Todas as operações militares envolvem riscos.
– À época, tendo em conta os meios de comunicação existentes, talvez fosse difícil ao comandante aliado ter conhecimento do real posicionamento de todas as forças inimigas…
– Existia um sistema de informações que funcionava. Forças de reconhecimento, os guerrilheiros ou a população, todos observavam e transmitiam o que viam. Existiam agentes no terreno em busca de dados que produzissem essas informações. Se olharmos para o dispositivo, não apenas das forças destinadas à batalha mas também que se destinaram a fixar os Sexto e Nono Corpos de Exército, vemos que Wellington tinha a noção clara da disposição das tropas francesas. De qualquer forma, os meios de comunicação poderiam facilitar, quando muito, o acompanhamento dos movimentos das suas próprias tropas. Mas, repare, a maior parte das fardas da época são bem coloridas. Os militares britânicos fardados de branco e vermelho são facilmente identificáveis no terreno. Na Roliça confundiram-se com as tropas suíças ao serviço dos franceses. As tropas ligeiras, como os Caçadores ou os «Rifles», utilizavam normalmente fardas com cor entre o castanho e o verde. Mas essas tinham, normalmente uma missão diferente e, para a cumprirem, deviam confundir-se o mais possível com o terreno.
– Tenho ideia de que Wellington era um general demasiado frio e calculista para se dar a uma aventura dessas, tendo por base o plano ousado que nos sugere.
– Wellington era de facto calculista, cauteloso, mas não deixava de mostrar audácia quando a oportunidade urgia. Sem essa audácia, Soult não teria sido expulso tão facilmente do Porto durante a segunda Invasão Francesa. Wellington soube sempre dar o devido valor ao terreno e aproveitar uma boa oportunidade para resolver a situação. Veja-se o desenrolar da Batalha de Salamanca, em que os exércitos inimigos observaram-se durante seis semanas e quando a oportunidade surgiu (também foi a necessidade de resolver a situação) Wellington atacou. Foi uma grande vitória. E actuava frequentemente com tropas numericamente inferiores às do inimigo. Em Fuentes de Oñoro, os aliados tinham menos 10 mil homens que os franceses. Wellington era um comandante que não fugia de se mostrar na linha da frente. Aliás, quando o seu prestígio era já muito maior que na época que estamos a tratar, Wellington utilizou a sua figura na linha da frente para influenciar as suas tropas e também as do inimigo. Foi assim em Sorauren, em Julho de 1813. Independentemente de tudo isto, Wellington terá cometido erros, como qualquer comandante. No campo da táctica, Napoleão é considerado um génio e cometeu erros…
– Ainda sobre a Batalha do Sabugal: concorda que foi porém o falhanço do plano de Wellington que ditou a vitória das forças anglo-lusas?
– Isso é especulação. Não o podemos afirmar dessa forma. O plano era plausível e pretendia alcançar um objectivo, porém algumas contrariedades, nomeadamente o nevoeiro cerrado e a consequente desorientação da força torneante, levaram à precipitação do combate. Na História, devemos procurar saber «como foi» e não «como seria se». Teria corrido bem se tudo se passasse como estava planeado? Não sabemos. Não se passou assim. Podemos, no máximo, procurar explicações para o que se passou. O que não se passou não existiu e o que não existiu não faz parte da História.
– Pelo que li da sua descrição da batalha, o desrespeito pelo plano deveu-se a erros de Erskine, o comandante interino da divisão ligeira, que fazia precisamente o tal movimento torneante a montante do rio Côa.
– Erskine comandava a divisão ligeira e a cavalaria. No comando da divisão ligeira substituía temporariamente Robert Craufurd. Erskine estava no exército de Wellington, não a pedido deste, pelo contrário. Charles Oman refere que a influência política de Erskine impediram Wellington de o enviar de volta para Inglaterra. Mas a verdade é que Erskine já tinha cometido erros, fez o que fez na Batalha do Sabugal e continuou no comando da divisão ligeira. O principal corpo de tropas sob o comando de Erskine era a divisão ligeira. Esta divisão tinha duas brigadas e isso significa que alguém tem que coordenar a acção das duas brigadas. Erskine, ao afastar-se com a cavalaria, deixou as brigadas por sua conta. Erskine foi uma figura muito polémica. Via mal e precisava que lhe indicassem a posição das tropas ao longe. O professor Charles Esdaile, autor de uma importante obra sobre a Guerra Peninsular, refere claramente o seu problema com a bebida. Outros referem a sua arrogância. É difícil saber o que há aqui de real ou de opinião mas é certo que foi uma figura polémica. Em resumo, na minha opinião, houve ausência de acção de comando por parte de Erskine.
– Massena terá dito mais tarde, em defesa da sua prestação em Portugal, que, tirando os canhões que deixou deliberadamente para trás durante a retirada, apenas perdeu para o inimigo uma peça de artilharia no Sabugal. Esse desejo de não deixar capturar peças e a inversa vontade de o conseguir, explicam essa disputa tão acirrada no Sabugal, por um simples obus?
– É sempre importante capturar artilharia ao inimigo. Impede-o de a utilizar contra a força que a capturou e isso é mais importante quando a artilharia não é numerosa. No entanto, o obus da Batalha do Sabugal, a sua captura, perda, recaptura, serve apenas para ilustrar melhor a forma como o combate se desenrolou, numa sucessão de ataques e contra-ataques, num terreno onde, no meio, tinha ficado um obus francês. Mais importante que perder um obus era deixar capturar o estandarte da unidade. O obus estava no local dos combates mas estes não se travaram por causa do obus.
– Voltamos a Massena, que elogiou Reynier pelo seu desempenho na Batalha do Sabugal, dado que conseguiu retirar em boa ordem, sem grandes perdas. Mas a verdade é que os franceses tiveram no Sabugal uma pesada derrota, não acha?
– Uma pesada derrota não significa necessariamente um mau desempenho do comandante ou das tropas derrotadas. Os franceses perderam a batalha, disso não há qualquer dúvida, porém temos de aceitar que Reynier teve o sangue frio suficiente para retirar de forma ordenada e de acordo com a doutrina táctica. Uma retirada perante um inimigo mais forte não é uma operação fácil nem do ponto de vista da execução táctica nem do ponto de vista do moral das tropas. Se não for executada com firmeza torna-se uma debandada o que significa, antes de mais, um número muito mais elevado de baixas. É normal darmos muita importância aos vencedores. Certamente será merecida e, neste caso, as tropas da divisão ligeira, foram merecedoras dos maiores elogios. Ficamos orgulhosos dos nossos batalhões de Caçadores, o 1 e o 3, que ali estiveram presentes. Com isto temos a tendência para ignorar ou depreciar o trabalho realizado pelos derrotados. Temos de ser cautelosos com este procedimento porque, ao estudarmos as retiradas de Soult ou de Massena no decorrer das segunda e terceira invasões francesas, temos de concluir que os soldados franceses eram bons soldados e os generais que os comandavam eram, em geral, grandes generais. O facto de terem sido aqui derrotados não lhes retira os méritos merecidos. Napoleão foi um grande general mas, por vezes, deu aos seus generais missões impossíveis.
plb

Embora pouco referida pelos historiadores, houve uma quarta invasão francesa de Portugal, a que se pode chamar incursão ou «manobra de diversão». A sortida, comandada por Marmont, passou pelo Sabugal, onde de resto ficou instalado o quartel-general, e foi marcada pela violência inusitada dos soldados franceses que, sedentos de vingança, exerceram terríveis atrocidades.

Após o fracasso da terceira invasão, Bonaparte, agastado com Massena, retirou-lhe o comando do Exército de Portugal, entregando-o ao marechal Marmont. O Imperador não desistira de invadir Portugal, aguardando contudo pelo melhor momento.
O Inverno de 1811, passou-se com a presença de Wellington na região de Riba Côa, instalado na Freineda. Foi aí que planeou, em grande secretismo, o cerco a Ciudad Rodrigo. Reconstruiu a fortaleza de Almeida, e apetrechou-a com artilharia pesada e material de cerco. A 1 de Janeiro de 1812, com um exército de 35 mil homens, munido do trem de artilharia que estava em Almeida, irrompeu de encontro à fortaleza espanhola, que foi bloqueada, cercada e bombardeada, sendo tomada a 19 de Janeiro, numa acção que custou a vida ao general Craufurd.
Após tomar Ciudad Rodrigo Wellington encaminhou-se para sul e pôs cerco a Badajoz, cuja praça foi tomada aos franceses num assalto muito caro para ambos os lados, no dia 7 de Abril, assim escancarando a porta da via directa para Madrid.
O forte ataque a Badajoz assustou Napoleão, que ordenou a Marmont a execução de uma manobra de diversão, investindo em Portugal pelo centro. Foi assim que a 3 de Abril, exactamente um ano após a batalha do Sabugal, os franceses lançaram uma forte e rápida ofensiva, tentando tomar Almeida de assalto, no que foram repelidos pela milícia portuguesa que guarnecia a praça. Marmont avançou então com 18 mil homens para o Sabugal, onde a 8 de Abril estabeleceu o seu quartel-general. Dali enviou sortidas a Penamacor, Belmonte, Covilhã e Fundão, chegando a sua vanguarda a Castelo Branco.
Entretanto o brigadeiro Trant, à frente da milícia portuguesa que ajudara o governador de Almeida, La Masurier, na defesa da fortaleza, verificando que os franceses tinham acampado no Sabugal, elaborou um ousado plano para o atacar de surpresa. Comunicou com o brigadeiro Wilson e com o general Bacelar, que igualmente comandavam milícias, e pediu-lhes para se reunirem a si na Guarda, a fim de executarem juntos o movimento de ataque aos franceses. Marmont, apercebendo-se porém da concentração das milícias, antecipou-se aos planos de Trant e enviou à Guarda uma sortida de cavalaria. O brigadeiro inglês retirou à pressa, indo instalar-se para lá do Mondego, mas na manhã do dia 14 de Abril a cavalaria francesa atacou o batalhão português que cobria a retirada, que foi rapidamente desbaratado, fazendo 150 prisioneiros.
Entretanto Wellington, face à movimentação francesa, subiu de Badajoz em marchas forçadas, o que fez Marmont abandonar as suas posições em Castelo Branco, recuando para evitar o confronto com o exército luso-britânico. No caminho da retirada Medelim e Pedrógão foram saqueadas e destruídas pelas tropas invasoras.
Trant escrevera ao comandante-chefe dando-lhe conta da retirada precipitada e do fracasso do plano de ataque ao quartel-general de Marmont no Sabugal. A 17 de Abril, Lord Wellington respondeu-lhe de Castelo Branco, censurando-o vivamente por se ter posicionado na Guarda, que considerava ser «a mais traiçoeira posição militar em Portugal», por não oferecer condições de retirada, louvando-o contudo por ter dado disso conta a tempo de salvar o grosso da milícia.
De Castelo Branco o exército continuou a sua marcha apressada, em perseguição a Marmont, porém este deixou o Sabugal e regressou a Espanha em 24 de Abril, sem que a vanguarda aliada o tivesse alcançado.
Após mais de 250 quilómetros, sem conseguir avistar o inimigo, que recuava com avanço, Wellington decidiu parar em Alfaiates, onde deu merecido descanso às tropas.
Esta fugaz invasão de Portugal, que apenas durou 20 dias, deixou um tremendo rasto de sangue e de morte. Nunca uma passagem de tropas napoleónicas pelas nossas terras raianas fora tão violenta e excessiva como a desta incursão fugaz.
O cenário nas aldeias era de pura destruição, com casas saqueadas e queimadas, igrejas pilhadas e profanadas e cadáveres abandonados no chão.
William Warre, jovem major britânico ao serviço do exército português, que veio com Wellington na perseguição aos invasores, escreveu uma carta à família a partir da aldeia da Nave, onde pernoitou:
«Meu querido pai,
É impossível dar-vos uma ideia da desgraça existente em todas as vilas por onde o inimigo passou, pois destruíram tudo aquilo que não puderam levar. Na minha presente habitação, o chão foi feito em pedaços e as janelas, portas e mobílias incendiadas, só escapando a arca e a cadeira que estou usando, que parecem ter desafiado as chamas. A fome e a penúria dos infelizes camponeses que nos cercam por toda a parte, e a caridade que fomos fazendo a alguns, já esgotou completamente os nossos meios. O dinheiro tem pouca utilidade onde nada pode ser comprado. Toda a forragem para os cavalos foi, nos dois últimos dias, aquela que conseguimos cortar nos campos, embora nem estes tenham escapado à rapacidade do inimigo.(…).
Nava (sic), na estrada entre Sabugal e Alfaiates, 24 de Abril de 1812.
»
Uma invasão quase desconhecida, mas que deixou marcas profundas na nossa região e que, por isso, não devemos deixar apagar da memória histórica.
Paulo Leitão Batista

A «política de terra queimada» posta em prática por Wellington, transformando Portugal num deserto, para que as tropas invasoras não encontrassem meios de subsistência, tornaram os esfomeados soldados franceses em verdadeiros animais ferozes, sofrendo as populações os consequentes actos de barbárie.

Fuzilamento em Madrid na Guerra Peninsular - quadro de GoyaÀ medida que o exército de Massena avançava os franceses davam-se conta de que em Portugal apenas encontrariam fome e miséria. O povo abandonara as aldeias, vilas e cidades, escondera os meios de subsistência que não pudera transportar, queimara as searas, destruíra fornos e moinhos, envenenara fontes e poços. Esta bem sucedida táctica, onde os portugueses de tudo se desprenderam por manifesto patriotismo, foi dois anos depois seguida na Rússia, onde as tropas de Napoleão Bonaparte voltaram a sentir os efeitos da fome, a que se juntaram os do frio extremo.
Nos dias de marcha o soldado comia a parca ração de biscoito que lhe era distribuída, mas quando a coluna parava e acampava, eram de imediato organizadas batidas, ou acções de saqueamento, procurando-se víveres pelos aglomerados populacionais em redor. Como não encontravam vivalma nem meios alimentícios à mão, procuravam adivinhar onde estavam escondidos. Cavavam onde houvesse terra remexida de fresco e, por vezes, eram premiados com a descoberta de uma arca cheia de cereal. Esbarrondavam as frágeis paredes das casas e encontravam nos vãos falsos arcas salgadeiras cheias de carne de porco. Entravam nas lojas e por vezes ficavam deslumbrados com pipas cheias de vinho que os seus proprietários, na pressa da fuga, não tiveram tempo de entornar. Atentos aos sons do campo detectavam o balir, o mugir e o grunhir dos animais domésticos que ficaram para trás ou que tresmalharam, apressando-se a conduzi-los ao acampamento, onde eram abatidos à medida das necessidades.
Na falta de outro alimento a soldadesca sacrificava os burros de carga que acompanhavam o exército. Nunca tanto asno foi comido nas terras portuguesas como nos dias da terceira invasão francesa. Das largas centenas de burros que as hostes napoleónicas trouxeram para transporte de carga e de feridos em combate, apenas parcas dezenas regressaram a Espanha no final.
Cada regimento organizava as suas pilhagens para buscar sustento. Chefiadas por sargentos, as colunas de saqueadores, que os generais designavam de «forrageadores», iam pelo campo seguindo direcções diferentes. Por vezes estas sortidas demoravam dias, só regressando quando tivessem deitado mão a algo capaz de matar a fome aos camaradas. As aldeias estavam desertas, e ai do desventurado que estes soldados encontrassem. Vinham-lhe ao de cima instintos de ferocidade e eram capazes de o torturarem até à morte para obterem a revelação de onde havia algo para pilhar.
Soldado francês com o resultado da pilhagemO capitão Jean-Baptiste Delafosse, que esteve integrado no corpo de Reynier, publicou as suas memórias sobre a campanha de Portugal, onde descreveu, com manifesta emoção, o que a tropa gaulesa passou, justificando assim os actos de barbárie praticados sobre a população portuguesa:
«Desgraçado do camponês que o destino fazia encontra-se com saqueadores! O pobre infeliz via-se, em primeiro lugar, despojado e, muitas vezes, cúmulo do horror, era morto… por homens a quem a fome, essa dura necessidade, tinha tornado cruéis e semelhantes a selvagens (…). Necessitavam de guias em localidades desconhecidas; apanhavam um, ordenavam-lhe que os conduzisse a uma aldeia, não era a sua, bem entendido, onde ele os levava; chegados lá, forçavam-no a indicar os esconderijos, mas, como fazer? O pobre diabo não os conhecia (…). Passavam-lhe uma corda pelo pescoço e o infeliz ouvia estas palavras: “Enforcado até que nos digas onde está o grão!”… Como não o sabia indicar, suspendiam-no até começar a ficar azulado; então punham-no em terra para que falasse! Infeliz! (…) O soldado, na sua ferocidade, dizia-lhe: “Ah, tu não queres dizer onde fica o grão? És um bandido, à forca!” E enforcado ficava.»
Mas vingança gera vingança e o mesmo capitão francês descreve um episódio atroz a que assistiu:
«Em frente de uma casa isolada encontrámos, na nossa marcha de retirada, quatro corpos enforcados numa árvore!… Entrando no rés-do-chão, um espectáculo medonho ofereceu-se aos nossos olhos: sobre a parede estava pregada a pele de um homem esfolado há pouco tempo e por baixo estava escrito em português: “Dragão francês, esfolado vivo, por ter enforcado os nossos homens!…”»
Era esta a resposta do povo português face ao saque, às sevícias, à morte por divertimento e ao abuso das mulheres constantemente praticados pelos soldados franceses.
A prática selvagem de esfolar franceses começou logo em Riba-Côa, nos primeiros dias desta infernal terceira invasão, quando em Nave de Haver foram detidos por populares dois oficiais franceses (um coronel e um tenente) e dois soldados que se haviam perdido da escuridão e ali tinham ido parar. O tenente d’Oraison, atingido com um tiro, foi de seguida esfolado pelas mulheres da aldeia, que assim exprimiram o ódio aos franceses que as violavam e lhe matavam os maridos e os filhos. O coronel Pavetti e os dois soldados foram violentamente torturados e enviados à tropa regular anglo-portuguesa, que estava do outro lado do Côa. Ao ter conhecimento do sucedido, Massena mandou cercar a aldeia e fuzilar os culpados, sendo conduzidos ao quartel francês um conjunto de camponeses, que pagariam com a vida a ousadia e a barbárie popular. Wellington, ao saber do caso, escreveu a Massena, intercedendo pelos infelizes, que eram, assegurava-o, homens da Ordenança portuguesa. Deveriam por isso ser tratados como prisioneiros, da mesma forma que ele tratava os soldados franceses capturados. Massena, agastado com a argumentação de Wellington, que na sua perspectiva apenas defendia assassinos, respondeu-lhe com azedume: «Não lhe fica nada bem falar da sua lealdade nos actos de guerra e no seu respeito pelos usos estabelecidos entre as nações civilizadas. Pois não é o senhor que obriga os portugueses, dos quais, no entanto se diz protector, a devastar as suas propriedades e a fugir quando chegam os franceses?». E os pobres camponeses de Nave de Haver foram de facto executados.
Foram tempos tenebrosos, onde a ira e a sede de vingança tomaram conta de tudo. Tempos que importa evocar na perspectiva de se tomar consciência da desumanidade que sempre acompanha os conflitos armados entre as nações e do sofrimento atroz que por essa via é imposto às populações atingidas.
Paulo leitão Batista

Jean-Louis Ebénézer Reynier nasceu a 14 de Janeiro de 1771 em Lausanne, na Suíça, tendo-se destacado enquanto militar ao serviço de Napoleão. Na terceira invasão de Portugal coube-lhe ocupar o Sabugal e Alfaiates, onde permaneceu no período preparatório do avanço para Lisboa. Na retirada voltou a acampar no Sabugal, onde enfrentou as tropas anglo-portuguesas comandadas directamente por lord Wellington.

Reynier foi um oficial talentoso, que porém era por vezes acusado de ser muito inseguro e de trato difícil.
Formado em engenharia civil, ofereceu-se para servir no exército francês em 1792, tornando-se oficial de artilharia. Serviu abnegadamente em combate, o que, aliado aos seus conhecimentos, lhe valeu ser promovido a general de brigada com apenas 24 anos.
Integrou a expedição ao Egipto, onde serviu na batalha das Pirâmides e foi nomeado governador de uma província. Tomou parte na expedição à Síria, e, de volta ao Cairo, desentendeu-se com o comandante-em-chefe, o general Menou, o que lhe valeu ser preso e acusado de traição.
Já em Paris, bateu-se em duelo com o general Destaing, a quem provocou a morte. Napoleão expulsou-o então da cidade. Mas o reconhecido talento de Reynier fez com que estivesse de volta pouco tempo depois.
Em 1804 integrou o Corpo de Observação de Nápoles, e, no ano seguinte, venceu os austríacos. Em 1806 serviu sob as ordens de Massena e, em 1807, assumiu o comando do exército francês na Calábria, cuja campanha o levou a Grande Oficial da Legião de Honra. Em 1808 foi nomeado Ministro da Guerra e da Marinha do Reino de Nápoles.
No decurso da importante Batalha de Wagram, o Imperador retirou o comando ao Marechal Bernadotte, chamando Reynier para o substituir à frente de um dos corpos.
No final de 1809 foi enviado para a Península Ibérica, onde tomou o comando do 2º corpo, que integrou o Exército de Portugal, sob as ordens de Massena. Apesar dos reveses desta campanha, Reynier tornou-se Conde do Império, em reconhecimento dos seus méritos.
Em Janeiro de 1812 retornou a França para preparar a campanha da Rússia, na qual participou. Na retirada, já na Alemanha, ficou prisioneiro dos russos, que, sabendo-o suíço de nascimento, lhe ofereceram uma comissão no seu exército. Reynier recusou, permanecendo fiel à França, e retornou a Paris, graças a uma troca de prisioneiros. Desgastado pelas campanhas adoeceu gravemente e morreu pouco depois, em 27 de Fevereiro de 1814.
No decurso da terceira invasão de Portugal foram diversos os momentos de tensão entre Massena e os seus comandantes dos corpos, incluindo Reynier. Massena considerava-o um general com muito talento, mas que era tímido e desesperava perante a menor dificuldade.
Antes da invasão se iniciar, coube-lhe cobrir a linha do Tejo, sustendo as tropas do general Hill. Depois o marechal comandante ordenou-lhe que viesse para norte, entrasse em Portugal pela Idanha e atingisse o Sabugal e Alfaiates, onde deveria instalar os seus 18 mil homens. Esteve no Sabugal de 27 de Agosto a 11 de Setembro de 1810. Seguiu depois para a Guarda e desceu o vale do Mondego, acompanhando os outros corpos no movimento geral.
Na batalha do Buçaco Reynier formou a esquerda do ataque francês, tendo sofrido pesadas baixas. Passando Coimbra e Leiria o exército invasor chegou às célebres linhas de Torres Vedras, também chamadas de Lisboa, que não conseguiu ultrapassar, espraiando-se em toda a sua extensão, cabendo a Reynier ocupar Vila Franca de Xira e Castanheira do Ribatejo. Recuou depois para Santarém, cidade que ocupou enquanto os franceses esperaram por reforços que nunca chegaram.
Reynier era admirado pelos seus soldados, dado o rigor com que manobrava as tropas e os estratagemas a que recorria para iludir o inimigo. Em Santarém, passando grandes privações, por falta de víveres, Reynier pensou numa incursão à margem esquerda do Tejo para recolher algum do gado. Wellington tinha soldados guardando toda essa margem, sem porém se conhecer o seu número. Reynier concretizou então um plano, que consistiu em fazer subir um balão de ar quente que mandou fazer com papéis, facto que despertou a curiosidade dos soldados portugueses e ingleses, que saíram dos seus refúgios para observarem o artefacto. Munido do seu binóculo o general contou então as tropas inimigas, planeando depois uma incursão que foi muito bem sucedida.
Aquando da retirada, Reynier voltou a surpreender ao montar um estratagema que iludiu as linhas luso-britânicas e lhe garantiu um avanço considerável. Mandou fazer manequins vestidos de soldados, colocou-os nos locais das sentinelas e abandonou os postos durante a noite. Só ao amanhecer os aliados deram conta de que as linhas francesas estavam desertas.
Na véspera da batalha do Sabugal Reynier fez mais uma vez desesperar Massena, que estava em Alfaiates. O Marechal ordenara-lhe que garantisse a ponte do Côa, dando tempo a Loison para recuar com o seu corpo. Porém Reynier mostrava-se nervoso e impaciente, face aos movimentos que os seus postos avançados observavam ao exército anglo-luso, que vinha de Vale Mourisco em direcção ao Sabugal. Os ajudantes de campo de um e outro oficial cruzavam-se incessantemente com missivas. Reynier dizia estar defronte de toda a vanguarda do exército aliado e queria retirar durante a noite, mas Massena ordenava-lhe que se mantivesse firme e escrevia-lhe: Não penso que o inimigo nos queira atacar; colocou-se na estrada de Penamacor para ver se queremos ir por ela. (…) o 6º corpo está à sua direita e o 8º atrás de si, e ou um ou o outro lhe dará apoio em caso de necessidade. (…) Para lhe dizer a verdade, não creio que lord Wellington esteja à sua frente. Mas estava, e em pessoa, preparando um ataque vigoroso às linhas francesas. Atacado, Reynier resistiu quanto pôde, até receber enfim autorização para retirar.
Massena elogiou porém o esforço do seu general: o combate do Sabugal honra Reynier, pois este general recuperou toda a sua energia logo que a acção começou, escreveu o general Koch nas «Memórias de Massena». Na verdade cumpriu a sua missão e conseguiu retirar em boa ordem, sem perdas consideráveis.
O nome de Reynier está escrito no lado sul do Arco de Triunfo.
Paulo Leitão Batista

A Batalha do Buçaco (ou Bussaco, de acordo com a grafia antiga), foi travada durante a Guerra Peninsular, próxima do Luso, na Mealhada, a 27 de Setembro de 1810, combatendo por um lado forças coligados portuguesas e britânicas, sob o comando de Arthur Wellesley, primeiro Duque de Wellington, e por outro as forças francesas lideradas pelo marechal André Massena.

Wellington retirara do Côa frente ao avanço imparável na máquina de guerra francesa, cujos soldados estavam ávidos por combater os ingleses e portugueses, que lhes fugiam sucessivamente, dando-lhes a entender que receavam qualquer recontro.
Mas, chegado à montanha do Buçaco, o comandante inglês decidiu ocupá-la com as suas forças (cerca de 50 mil homens, metade dos quais portugueses), esperando aí pelo exército invasor.
A posição ocupada no alto da montanha era formidável e meteu respeito aos franceses, fazendo com que Massena hesitasse. Bastar-lhe-ia contornar a serra para evitar um recontro generalizado, fazendo com que Wellington desmonta-se as suas linhas, mas o desejo de uma batalha era demasiado forte para soldados que se achavam os melhores do mundo, ainda mais perante um inimigo que assistira impávido à queda das praças de Ciudad Rodrigo e de Almeida e que se colocara em fuga face ao avanço do exército francês. A posição era difícil e claramente desfavorável, mas o comandante francês acreditava na vitória.
Do outro lado Wellington estava confiante na vantagem da sua posição, e esperava serenamente que os franceses o atacassem rompendo a pique pela serra e expondo-se ao fogo dos aliados. Foi atacado por cinco vezes sucessivas pelos homens de Massena, mas não cedeu a posição. O último assalto foi comandado pelas forças do Marechal Ney e do general Reynier, que foram incapazes de desalojar as forças anglo-lusas. Os franceses tiveram cerca de 4500 baixas, entre mortos e gravemente feridos, sendo que as perdas dos luso-britânicos ascenderam apenas a 1250 homens.
Esta foi a primeira batalha da Guerra Peninsular em que as forças do reconstituído e reorganizado exército português participaram (o exército havia sido desmobilizado por Junot em Dezembro de 1807 e parte dele enviado para servir Napoleão; só em 1809 havia sido restaurado e treinado pelo marechal inglês William Carr Beresford). Os soldados portugueses bateram-se aliás com grande coragem, o que lhes valeu fortes elogios por parte de Wellington.
A Batalha do Buçaco, vai ser recriada a 25 e 26 de Setembro numa iniciativa organizada pela Câmara Municipal da Mealhada, que reúne cerca de 200 figurantes de associações napoleónicas de vários países.
Ao princípio da tarde do dia 25 realiza-se um desfile pela Avenida Emídio Navarro, no Luso, ao qual se seguirá a recriação de uma escaramuça junto ao monumento evocativo da batalha.
No dia 26 recria-se a Batalha do Buçaco, pelas 11h00, junto às portas do Sul.
plb

A 27 de Agosto de 1810, há precisamente 200 anos, as tropas do 2.º corpo do exército francês, comandadas pelo general Reynier, vindas do sul para se juntarem ao grande exército de Massena, ocuparam em força as terras dos concelhos do Sabugal, Alfaiates e Vilar Maior, provocando a fuga desesperada das populações.

Enquanto o 6.º corpo, de Ney, manobrava em redor de Almeida, estabelecendo o cerco à fortaleza, e o 8.º corpo, de Junot, estava ainda em Espanha nas margens do rio Águeda, o 2.º corpo, de Reynier, operava em Cória e Placencia, na linha do Tejo. Massena montara o seu quartel-general no forte de La Conception, frente a Vale da Mula, de onde emanava as ordens do dia.
O marechal ainda não decidira como invadir Portugal e estava inclinado a fazê-lo em duas frentes, partindo uma coluna de Almeida, pela estrada da Beira, e penetrando a outra pelo vale do Tejo, em direcção a Abrantes. Porém acabaria por preferir juntar os três corpos e avançar em força por Celorico e Viseu, pois a postura de Wellington, que deixara cair Ciudad Rodrigo e não auxiliava Almeida, indiciava que podia dar-lhe perseguição e enfrentá-lo em qualquer posição.
Foi assim que na manhã do dia 25 de Agosto enviou ordens a Reynier para se deslocar para norte e tomar posição na margem direita do Côa, à esquerda do corpo do marechal Ney. Em cumprimento dessas instruções, o 2.º corpo avançou em marchas rápidas e no dia 27 ocupou em força os concelhos do Sabugal, Alfaiates e Vilar Maior, cujas aldeias ao redor foram também tomadas pelos destacamentos, tendo os soldados ocupado as casas abandonadas pelos habitantes receosos. Tal como o comandante em chefe lhe prescrevera, Reynier estabeleceu o seu quartel-general em Alfaiates e guarneceu fortemente a ponte do Sabugal, tendo em vista dissuadir qualquer tentativa do exército anglo-português de atravessar a linha do Côa.
Os concelhos raianos onde até então tinham forrageado os destacamentos do 6.º Corpo, ficavam agora literalmente ocupados pelas tropas do 2º corpo, as mesmas que com o marechal Soult haviam protagonizado a segunda invasão de Portugal. Estes soldados experientes e com amargas recordações dos portugueses teriam que ali subsistir até que fosse dada a ordem de avançar em direcção a Lisboa. Os povos das terras em redor sofreram então como nunca os excessos da soldadesca que, querendo alimentar-se e aprovisionar-se de viveres, lançavam mão a tudo o que servisse de alimento para os homens e para os animais do exército.
Esta forte e dura ocupação militar das nossas terras manter-se-ia até ao dia 11 de Setembro, data em que Massena transmitiu aos seus lugares tenentes as instruções para a execução dos movimentos preparatórios para o avanço da invasão. Nesse mesmo dia o 2.º corpo deixou as suas posições na margem direita do Côa e marchou para a Guarda, de onde depois prosseguiu num movimento combinado com os restantes corpos do exército.
Já em finais de Março de 1811, malograda a terceira invasão e em plena retirada, as tropas do 2.º corpo voltariam a ocupar as terras do Sabugal, com a ideia de aí conterem o avanço dos anglo-lusos, que lhes davam perseguição. As populações voltaram então a sofrer com as atrocidades dos soldados franceses que vinham ainda mais famintos e coléricos do que quando dali haviam estado há sete meses.
No dia 3 de Abril de 1811, teve lugar a batalha do Sabugal, onde os homens de Reynier foram batidos pelos portugueses e ingleses comandados por Wellington, livrando-se assim os sabugalenses das pilhagens e dos excessos da tropa francesa.
Paulo Leitão Batista

Tendo as populações da Raia abandonado as aldeias e os campos com as searas amadurecidas, Massena não teve outro remédio que ordenar aos seus soldados que fizessem a ceifa para assim fazer face à extrema penúria do seu exército.

Já o dissemos antes: há duzentos anos, nestes dias de Agosto, os campos de Riba Côa estavam pejados de soldados franceses, preparando-se para atravessarem o Côa e avançar decididamente em Portugal.
O exército anglo-luso aguardava a ofensiva na margem esquerda do rio, observando os movimentos dos franceses, mas não esboçando o mínimo movimento de auxílio à praça de Almeida, que estava cercada e era flagelada pelos canhões. As tropas de Wellington estavam nutridas, sendo abastecidas regularmente por comboios de víveres vindos do sul, porém o exército de Massena passava por enormes privações, subsistindo com dificuldade.
Quando os franceses entraram em Portugal para a terceira invasão, no final de Julho de 1810, estavam a meia ração de pão e biscoito e as doenças, motivadas pelo calor excessivo, dizimavam muitos soldados. Não se poderia prosseguir com a incursão sem ser resolvido o problema do abastecimento das tropas, pelo que o marechal francês decidiu reunir recursos, enquanto prosseguia com o cerco de Almeida.
Os campos estavam cobertos de searas doiradas, mas não havia quem fizesse a colheita, porque os portugueses levavam a preceito as instruções de Wellington e da Regência no sentido do abandono literal dos campos para dificultar a subsistência do exército invasor. O capitão Guingret, que comandava um batalhão do 6º corpo do exército de Massena, descreveu no livro «Campanhas do Exército de Portugal» as dificuldades resultantes dessa política de terra queimada: «Os habitantes fugiam constantemente quando nos aproximávamos; abandonavam as suas casas para se refugiarem no meio das montanhas ou no âmago das florestas. Levavam sempre consigo os seus pertences e provisões de toda a espécie; levavam também o gado e antes de fugir tinham todo o cuidado de esconder e enterrar, nos lugares mais difíceis, tudo aquilo que não podiam levar. Se a nossa marcha rápida ou imprevista não lhes deixava tempo para construir ou cavar os seus esconderijos, lançavam para os poços, nos charcos ou nos rios tudo o que podia servir para alimentar o nosso exército.»
Face à situação, Massena resolveu que os seus próprios soldados procederiam à ceifa, à malha, à moagem e à cozedura do pão para abastecimento do exército. Para tanto mandou vir das imediações de Salamanca todas as foices que foi possível reunir, distribuindo-as depois pelos soldados. «Cada regimento tinha os seus ceifeiros, os seus debulhadores, os seus moleiros e os seus padeiros», escreveu o General Koch nas «Memórias de Massena». E o empenho foi tal que os soldados gauleses se espalharam, em grupos, pelos campos da raia, em toda a margem direita do rio Côa, tornando-se em camponeses zelosos, de foices e de manguais em punho. Outros dedicaram-se a reparar os moinhos junto às ribeiras, que os portugueses haviam desactivado, e a construir fornos ou a recuperar os que tinha cada aldeia.
O coronel Nöel, chefe do estado-maior do 6º corpo do exército francês, contou também nas suas «Memórias Militares de Um Oficial do Primeiro Império», como se deram os trabalhos no seu sector: «Estando o trigo ainda por colher, tomo a decisão de o colher eu mesmo, bater, moer e confeccionar o biscoito. (…). Mando que recolham as foices junto dos camponeses e mando fabricar manguais aos operários de artilharia e aos correeiros do comboio militar. Apodero-me de um moinho e consigo fabricar um excelente biscoito. Os camponeses julgavam que ao recusarem-se às nossas requisições escapariam a isso. ».
A azáfama foi tal na angariação das provisões para a subsistência do exército que os trabalhos do cerco de Almeida, nomeadamente a construção da trincheira e a instalação das baterias de artilharia, não avançavam ao ritmo pretendido: «mais de metade dos regimentos estavam a ceifar as searas ou a trabalhar nos moinhos e nas padarias», revelou ainda o general Koch.
Paulo Leitão Batista

Passou mais um ano sobre a importante batalha do Sabugal, que aconteceu em 3 de Abril de 1811, no quadro da guerra peninsular. Para o ano fazem-se 200 anos e até ao momento nenhuma autoridade responsável avançou com a ideia de evocar esse momento histórico.

O exército do marechal Massena, cuja fama de estratega militar só era superada pela do próprio imperador Napoleão Bonaparte, tinha batido em retirada após não ter sido capaz de atravessar as Linhas de Torres Vedras e tomar Lisboa. O segundo corpo, comandado pelo General Reynier cumprira as ordens do marechal e instala-se no Sabugal, onde foi surpreendido pelas forças anglo-lusas de Wellington, que atacaram o seu acampamento no sítio do Gravato obrigando-o a retirar para Espanha.
Massena não queria desistir da conquista de Portugal e o seu recuo era apenas estratégico.
Não conseguindo entrar em Lisboa, os 65 mil homens do exército francês fixaram-se em Santarém, onde estiveram durante semanas aguardando reforços. Mas o caso é que os franceses ficaram isolados, sem conseguir estabelecer comunicações com os restantes corpos de exército que operavam em Espanha e desconhecendo por completo se as restantes movimentações ordenadas pelo imperador se estavam a cumprir. Cansado de esperar e já com imensas dificuldades em alimentar o seu exército, Massena decidiu recuar. Fê-lo de forma controlada, mas seguido de perto pela tropa de Wellington.
Quando conseguiu comunicar com os corpos de exércitos que operavam em Espanha, verificou o ponto da situação: a sul o marechal Mortier conquistara Badajoz e Campo Maior e tinha ali estacionadas forças consideráveis; o marechal Bessiéres marchava com um corpo de exército para Ciudad Rodrigo, vindo do norte de Espanha. Face a esta realidade Massena elaborou um plano audaz, disposto a relançar a invasão: abandonar na fortaleza de Almeida, tomada pelos franceses, os doentes e feridos e tudo o mais que embaraçava os movimentos do seu exército e seguir pelo vale do Côa até ao Sabugal, depois para Belmonte e Penamacor, entrar em Espanha, atravessar Coria e encontrar-se com o exército de Mortier em Alcântara. Dali lançaria uma forte ofensiva sobre Lisboa, seguindo desta vez pela margem esquerda do Tejo.
O arrojado plano de Massena de fazer uma ofensiva pelo Alentejo, confrontou-se porém com a recusa do marechal Ney, que comandava o 6º corpo, em obedecer a essas ordens, o que levaria à sua exoneração e substituição. Esta contrariedade fez-lhe perder o tempo suficiente para que Wellington, apercebendo-se de que a movimentação que os franceses ensaiavam não era lógica, avançasse para o Sabugal, onde já estava a vanguarda de Massena, e aí atacasse o corpo do general Reynier, infligindo-lhe uma derrota
Com a linha de operações interceptada, e um corpo de exército destroçado, nada mais restou a Massena que mandar retirar todas as suas tropas de Portugal, assim terminando a terceira invasão.
Foi esta a importância histórica da Batalha do Sabugal na guerra peninsular. Foi decisiva, na medida em que fez desistir os franceses de tentar invadir o nosso país. De facto, permaneceram mais dois anos em Espanha, mas não mais tentariam ocupar o solo português.
É possível que as entidades do concelho não se aponham à tarefa de comemorar os 200 anos da Batalha do Sabugal, mas fica a promessa que no ano que vem o Capeia Arraiana voltará a evocar a data.
plb

JOAQUIM SAPINHO

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