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Um dia, apareceram no Vale da Senhora da Póvoa uns homens engravatados a dizer na tasca, em voz bem alta, que queriam comprar volfrâmio, e toda a quantidade que houvesse…

José Jorge CameiraO Ti Valdemar Carolo (nome fictício), de qual já aqui falei noutra crónica, terá dito que tinha muito dessa coisa. Isso gerou uma mudança total na vida dele: vendeu as cabras e começou a extrair sozinho o tal minério para aqueles clientes certos. Era só ir aos buracos, apanhar, carregar os alforges do macho e as cangalhas de dois ou três burros que entretanto comprou e guardar no palheiro, fazendo cagulo, repetindo o mesmo vezes sem conta…
E o dinheiro começou a entrar na vida dele em grande quantidade! Às carradas…
Mas que fazer com tanta nota de mil escudos, se não havia onde as gastar, ou seja, se não havia «coisas» para comprar?
A primeira viagem grande que fez foi a Penamacor ao dentista. Combinou com ele arrancar toda a dentadura, a de cima e a de baixo, cravelhas incluídas, e botar dentuça nova, mas em ouro do amarelo!
Tanta nota tinha, que até deu para forrar a parede interior de taipa da casa. Aquilo dava para tudo, até para limpar o rabo! Isso de se limpar com pedras e ervas já era coisa do antigamente! Algumas notas dessas de cem escudos, do Pedro Nunes, apareceram mesmo na Fonte Santa, no Lameiro e na Serrinha. O povo então dizia, quando por aqui e além encontrava emplastros cobertos de mosquedo:
– Olhem, o Ti Valdemar passou por aqui…esteve ali a baixar as calças!
Era até uma forma de alguns também lucrarem com a fortuna dele, por que o bom do nosso homem, à falta de melhor prás limpezas, servia-se das notas que lhe pingavam dos bolsos !
Estou a imaginar o Ti Valdemar a entrar nas duas tascas do Vale de Lobo e sorrir sem motivo, só para todos verem o «corta-palha» novo e amarelo, brilhando com a luz mortiça das candeias d’azeite!
Num outro dia, ouviu num rádio de válvulas, comprado na Feira de Santo Estêvão, um insistente reclame das canetas Parker 51, muito na moda naqueles anos…
Por que não comprar uma, se havia carcanhol para isso à barda?
Inabanão põe-se a caminho de Castelo Branco, entra numa loja e pede uma dessas tais canetas Parker 51. Que não havia, ainda não tinham chegado à cidade, ter-lhe-à dito o comerciante. Cheirando-lhe a pateguice, informou que tinha uma de outra marca, melhor e mais cara. Por 10 notas (ou seja mil escudos) vendia-lhe uma. Era uma caneta daquelas das feiras, rafeirosas, levantava-se uma mola com a unha que apertava dentro uma borrachinha cheia de tinta e borrava de imediato os dedos, as mãos, o bolso, a camisa… tudo !
Foi essa mesma que ele quis. Pagou e lá foi de volta para o seu Vale de Lobo, onde a mostrou a todos! Na rua prendia-a no bolso da camisa, mas com a dita do lado de fora! Mas para que queria uma caneta, se nem ler e escrever sabia! Mas que ganda metarroano !!

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

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Irei contar neste espaço do Capeia Arraiana algumas estórias verdadeiras vividas no Vale da Senhora da Póvoa, as quais me chegaram por duas vias.

José Jorge CameiraA minha Tia Ana (irmã do meu Avô) nasceu em 1886 e faleceu com 99 anos. Era uma mulher perspicaz, alta e forte, de quem eu confesso que tinha medo, uma chapada dela matava-me de certeza e por isso tive de aprender a correr muito. Juntamente com outras irmãs, irmãos e sobrinhos, naquelas noites de Inverno gélido características da região, ficavam à roda do lume de chão, com as panelas de ferro onde se fazia o comer e normalmente dependuradas pelas trempes negras de fumo que surgiam dos interiores já bem encarvoados da lareira. Foi nessas noites que ela me contou algumas estórias que ainda recordo.
Outra fonte foi o Ti Manel Adriano era homem alto, corpulento, mas perneta. Vivia de fazer vassouras e vendê-las ao povo. Tinha uma perna de pau e apoiava-se num grande e ameaçador bordão. No Inverno usava um grande e pesado capote amarelado, que mais parecia um cobertor de pápa. Quando se ouvia o toc-toc da perna postiça nas pedras da Rua Direita já se sabia que ele ia para casa. Era então que a moçada ia atrás dele injuriando-o e atirando-lhe pedrinhas. Ele então virava-se para trás, fazia zunir no ar o bordão em círculo e lançava um grito pior que um rugido de leão:
– ARREDA QUE VAI DA PÓSTA!
E os passarinhos em forma de gente fugiam chilreando pela ladeira da Igreja acima…
Eu, ou por lhe ter medo ou por pensar que fosse contar ao meu Avô (o tenente Cameira, então Presidente da Junta de Freguesia) que eu também o «judiava», o que originaria as inerentes sevícias, nunca me meti com ele. O que me valeu ser pessoa, melhor dizendo menino, com elevado estatuto de confiança junto de si.
Daí que ele me contou muitas das estórias que guardava na memória. As narrações aconteciam numa escadaria de recanto que havia do lado esquerdo de quem desce a Rua Direita, antes do Chafariz. Mas algo insólito aconteceu um dia comigo e com ele. Ainda hoje não sei os porquês, uma tarde o Ti Manel Adriano pede lá em casa que me deixem ir jantar à casa dele…
Vestiram-me um calçanito branco ou beje e lá fui todo lampeiro, até levei uma garrafa de vinho, lá na nossa casa havia várias pipas cheias.
O Ti Manuel Adriana fez-me sentar num mocho (esses banquinhos baixos, feitos de folhas grossas de cortiça) enquanto o crepitar da lareira fazia o guisado de carne. Assim foi, comi daquilo à farta, sabe melhor na casa dos outros e ainda mais por insistência dele. Pelas 11 da noite, sonolento, voltei para casa e no outro dia havia risada da grande por parte das minhas primas!
É que na retaguarda dos meus calções estava desenhado a negro da fuligem o tal mocho onde me sentara na casa do Ti Manel Adriano!
Decorriam os anos de 1940 e havia imensas convulsões políticas, sociais e bélicas por essa Europa. Acabara uma guerra que fora um balão de ensaio para outra bem mais mortífera.
Em Portugal reinava esse Cônsul déspota de nome Salazar, que urdia planos camaleónicos – ora autorizava os ingleses e americanos a utilizarem os Açores e a Madeira, para apoio logístico de aviões e barcos carregados de bombas nos bojos, ora vendia ao III Reich de Hitler e Goering, alguns produtos alimentares em conserva e determinado minério, matéria prima necessária para os fabrico de blindados Panzers para o Africa Corps do nazi Himmler no Norte de África.
Esse minério – o volfrâmio – sempre o houve no Vale da Senhora da Póvoa, já os Romanos, Celtas e Mouros sabiam disso!
Houve um conterrâneo do Vale de Lobo (em 1955 mudou o nome para Vale da Senhora da Póvoa), o Ti Valdemar Carolo (nome fictício), que passava a vida apascentando as suas cabras um pouco mais acima da Ermida da Senhora da Póvoa, em Sortelha-a-Velha, nos contrafortes de cá da Serra da Opa, vigiando-as não fosse o demo empurrá-las para dentro de uns buracos que por ali havia tapados por silvas. O rebanho era controlado por estridentes assobiadelas e o zurzir sonante das varas de marmeleiro e por um possante cão rafeiro, que malhava dentadas nos animais mais ariscos.
Tornou-se dono desses tais buracos onde os antigos extraíam essa «coisa» pesadota, bem escura e de cheiro pestoso.
Há uma estória – será lenda? – em que um dia o Ti Valdemar terá visto uma alcateia de lobos descer a encosta da Serra da Opa, vindo dos lados do Anascer. Tendo enxotado as suas cabras em direcção à aldeia, atraiu para si esses predadores, empoleirando-se no alto de uma árvore e ali permanecendo dois dias e duas noites, até que os bichos abalaram, cansados de tanta espera…
Será que vem daí o nome «Vale de Lobo»?

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

Esta e outras «estórias» que se seguirão nesta coluna serão contadas semanalmente pelo José Jorge Cameira, um filho do Vale da Senhora da Póvoa (que noutro tempo se chamou Vale de Lobo) e da Moita, que está radicado na cidade de Beja, onde vive e trabalha há muitos anos.
jcl e plb

Casteleiro, Verão de 1941: centenas de jovens e não só dedicam-se há dois ou três anos à recolha de minérios vários pelas serras. Sobretudo, volfrâmio. Depois, vendem a recolectores intermediários que se deslocam às várias aldeias em volta, lhes compram os minérios e o vendem depois ou aos donos das «separadoras» ou a agentes italianos e ingleses estacionados na região.

Não é uma notícia, pelo menos não uma que eu conheça. Mas podia ter sido. De facto, naqueles tempos, já com a Segunda Guerra Mundial no seu terceiro ano, a falta de metais apropriados para as necessidades da guerra fez com que por todo o lado se procurassem essas matérias-primas para fazer armas. Os inimigos que se digladiavam no terreno (de um lado, o Eixo: alemães e italianos; do outro, os Aliados: americanos e ingleses) precisavam dessa matéria-prima.
Não esquecer: o nosso País manteve-se neutro neste conflito. Isso devia querer dizer que não ajudávamos nem uns nem os outros.
Mas no caso concreto, para o bem e para o mal, acabámos por ajudar ambos lados desta gigantesca barricada que foi a II GG.
Ao Casteleiro e arredores acabaram por vir parar todos eles.
Os ingleses assentaram arraiais mais ali do lado da Serra da Pena que terão comprado aos espanhóis que a construíram e, durante a guerra, acabariam por se dedicar também à exploração da mina da Bica (mina de urânio, um metal que, como se sabe, é radioactivo e que começava a conhecer as suas primeiras aplicações bélicas, depois da aplicação medicinal bem publicitada em conjunto com o Hotel da Serra: eram as Águas Rádium, lembram-se?).
Do outro lado, estacionados mesmo no Casteleiro, os italianos irmãos Menegoni, que compravam o volfrâmio e o separavam para vender ao seu Estado que dele precisava para fabricar canhões. O tungsténio, nome científico do volfrâmio, é um metal muito duro. Misturado com outros, forma uma liga que resiste pela sua dureza e que aguenta a temperatura do momento da explosão do canhão para lançar o projéctil a longa distância.
Portugal era o principal produtor mundial de volfrâmio.
Ou seja: ouro sobre azul: nós tínhamos, ingleses e italianos precisavam e compravam.
No Casteleiro, sobretudo nos ribeiros e linhas de água da Serra da Preza e em Vale de Castelões, a actividade de busca, nesses dias, era frenética.
Jovens rapazes e raparigas de 16 e 17 anos (nesse tempo, com estas idades, eram mesmo muito, muito jovens) dedicavam-se a recolher o mineral – por vezes também algum estanho e outros metais.
Depois era só vender aos intermediários.
O resto era a trajectória industrial da época: separadoras, comboio, Inglaterra ou Itália, fábrica de armamento, campos de luta na França ou no Leste europeu.
No Casteleiro, onde os italianos chegaram a construir uma separadora (havia outra a funcionar no Terreiro das Bruxas), ficou muito dinheiro dessa frente de guerra: a guerra das transacções comerciais dos materiais com que se fabricam os materiais de guerra.
No livro «O Estado Novo e o Volfrâmio (1933-1947)», João Paulo Avelãs Nunes refere a existência da Companhia Mineira do Casteleiro, Lda. (constituída em 1937 e exploradora de nada menos do que 17 minas), da qual era sócio o engenheiro judeu formado em Paris, de origem polaca chamado Samuel Schwartz, que era sócio de dezenas de empresas mineiras e que nunca deve ter ido ao Casteleiro (não se fala dele: tudo isto funcionava apenas para registo em Lisboa e legalização, presumo).
Estava-se em 1941-42. O acordo de Portugal com a Alemanha sobre fornecimento de 3.000 toneladas de tungsténio seria denunciado pela parte portuguesa em 1944, devido à pressão dos Aliados. Acabava-se aí o El Dorado da juventude (e não só)do Casteleiro e arredores.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

A empresa japonesa Sojitz Corporation adquiriu as Minas da Panasqueira através de uma Oferta Pública de aquisição (OPA) lançada sobre a empresa canadiana Primary Metals, até agora proprietária da firma que detinha e explorava as minas, a Beralt Tin & Wolfram (BTW).

Pormenor do bairro operário da PanasqueiraFoi na bolsa de valores de Vancouver (Canadá) que a OPA foi lançada e coroada de sucesso, dada a resposta afirmativa de cerca de 95 por cento dos accionistas, que aceitaram os termos da oferta.
As Minas da Panasqueira estão situadas na serra do Açor, no concelho do Fundão, e são as maiores minas subterrâneas do mundo, com mais de 12 mil quilómetros de túneis. Existem há cerca de 100 anos, nelas se explorando sobretudo volfrâmio.
A história das minas é constituída por bons e maus momentos, em função da oscilação do preço do volfrâmio. Foi no período em que aconteceu a Segunda Guerra Mundial que a exploração mineira aqui atingiu o auge, vendendo grande quantidades de volfrâmio para a indústria de armamento. Nessa altura chegou a empregar 11 mil trabalhadores.
Actualmente as Minas da Panasqueira empregam 296 trabalhadores, admitindo-se agora contudo que a Sojitz Corporation poderá alargar em breve o quadro de pessoal, pois perspectiva conseguir um expressivo aumento da produção.
plb

JOAQUIM SAPINHO

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