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Conto agora a verdadeira estória do comboio comprado por alguém de Vale de Lobo, o Vale da Senhora da Póvoa de hoje, no tempo da exploração do Volfrâmio.

José Jorge CameiraO Ti Valdemar tinha um problema com os estamportes, quando tencionava sair do Vale de Lobo para ir à cidade comprar qualquer coisa….
Ouviu falar que ali para os lados da Fatela, havia uma Estação de Caminho de Ferro que servia Penamacor e o concelho e na qual havia comboios e concerteza que haveria de haver um à venda. Com um cambóio, as suas viagens estariam facilitadas, era pouco digno para ele viajar sentado na albarda do burro!
Lá foi até à tal Estação, não sem antes atafulhar os bolsos com notas de Mil Escudos, aquilo era pesado, ouvira dizer, portanto devia ser caro…
Na Fatela estava um varredor, pacientemente limpando os trilhos paralelos de ferro com uma vassoura de estevas. O Ti Valdemar chega-se à fala com ele e podemos imaginar o diálogo, porque o que sucedeu… aconteceu mesmo!
– Ó Ti Homem, ouvi dizer que há aqui um cambóio para vender…
– Vem mesmo na hora certa, está aqui este, é de mercadorias, já não serve e vendem.
– Faça um preço justo que eu compro.
O homem vendo que estava ali um lorpa e paspalho, alambazou-se logo para cima:
– Vendo-lho por cem mil réis e olhe que está muito barato.
– Pegue lá já o dinheiro e quando é que posso vir buscá-lo?
– Quando vossemecê quizer…
O Ti Valdemar pensou numa maneira de levar o comboio para a terra:
-Trago um carro de bois, 2 ou 3 calabres (cordas) dos mais fortes e reboco o meu cambóio…
Um vizinho, o Ti Tó Nabais tinha o «Borisca» e a «Cereja», uma parelha valente de bois que bem picados puxariam facilmente aquela bisarma andante.
Passados 15 dias o Ti Valdemar voltou à Estação para levar o «seu» cambóio, mas na verdade já não estava lá, tinha seguido o caminho para que fora feito: levar e trazer mercadorias…
O varredor por certo mudou-se para uma vida mais confortável, porque com CEM MIL RÉIS poderia viver sem fazer nada durante alguns anos…
O Ti Valdemar Carolo quando morreu, estava desdentado – com o fim da guerra e a derrota dos maus, acabou-se a procura de volfrâmio.
Para comer e beber foi arrancando e vendendo os dentes um a um, por fim o cravelhame fora-se todo….

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

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Este foi o ambiente onde nasci: Casteleiro, fim dos anos 40, na Beira Baixa. Agora sei que é assim mas que não é só assim…

Quando se é pequeno tem-se uma ideia difusa do tamanho do mundo. Quando se nasce no Casteleiro, está-se o ano inteiro no fundo de uma «caldeira», uma espécie de cova. Por isso, penso que ali começa objectivamente a Cova da Beira – independentemente do significado económico-turístico-marketeiro que hoje assume a expressão Cova da Beira.
Quando se é pequeno, sabe-se vagamente que há mais mundo para lá do Terreiro das Bruxas ou de Santo Estêvão, para um lado, indo talvez até ao Vale de Lobo (hoje, Vale da Senhora da Póvoa); e para lá de Santo Amaro, da Catraia ou de Caria, para o outro lado, quando muito até à Covilhã…
Claro que os olhos bem viam sempre, lá no alto, para um dos lados da aldeia, com os seus perto de 1000 metros, o Cabeço de São Cornelho.
Este nome é seguramente uma corruptela popular para São Cornélio, o orago de uma pequena elevação próxima, em Sortelha – e escusam alguns intelectuais apressados de vir pôr em causa esta ligação ao santo. O povo chama-lhe mesmo o que escrevi: cabeço do santo, São Cornélio. Acho mesmo que ali há uma capela dedicada a São Cornélio, não? – isso é que não afirmo sem fonte segura…
Para o lado contrário, duas outras elevações: uma, a Serra da Opa, para nós sempre a Serra d’Opa, com cerca de 860 metros, aproximadamente; a outra, o Cabeço Pelado, com uns 600 metros, julgo.
Há quem garanta que é ali, na Serra da Opa, que se define a fronteira natural entre a Beira Baixa – à qual então o Casteleiro pertence – e a Beira Alta.
A Beira Baixa começa ali. Aliás, quando era miúdo aprendi a escrever isso nas cartas: Beira Baixa / Casteleiro.
Este era o nosso «habitat» e assim se confinava o horizonte da pequenada, até que se começava a ter a dimensão das coisas e da região, depois, o País, a Europa… etc..

Vem isto a propósito de uma ideia fixa que não me abandona há mais de 40 anos – desde que me considero com instrumentos de análise suficientes para poder estudar e fundamentar uma opinião minha sobre seja lá o que for, desde que me interesse.
De facto, quem cresce rodeado de serranias, mesmo que não muito elevadas, fica marcado pela situação de afundamento.
Aquele meu (nosso) povo, para o bem e para o mal, viveu séculos ensimesmado, virado para si mesmo. Os terrenos, a agricultura, a lavoura, o tratar dos campos, o tratar do «vivo» (os animais), herdando e desenvolvendo os processos de cultivo que vêm de tempos imemoriais (dos romanos, dos árabes, dos judeus – esses menos dedicados à agricultura, como se sabe).

Cada um de nós, os que ali nascemos, tem a sua marca desta mentalidade e desta forma de estar na vida. Mesmo que, depois, contrabalançada com a riqueza das vivências de cada um através dos meios que frequentou ao longo da vida.

Válida para qualquer terra, esta tese assume força específica dentro de mim quando me auto-estudo…
O mesmo que acontece com qualquer de vocês, certamente.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

JOAQUIM SAPINHO

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