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Tal como ao redor da lareira, a ouvir o crepitar de um lume vivo, assim nós nos encontrávamos todos satisfeitos, em volta de um Bucho Raiano, algures, no começo de uma longa noite, em Bruxelas, entre meados de Janeiro e o Carnaval.

Aqueles três homens e três mulheres estavam ali a festejar uma tradição que se transmitiu durante séculos e tenho a impressão de que só o olhar suave de um Bucho Raiano gorducho e redondinho, mas por demais astuto e vivaço, nos poderia fazer a contagem dos anos que o têm contemplado ao largo de tantas gerações.
Também não sabemos quantas lendas nos poderiam ter enfeitiçado para nos sentirmos como que endemoninhados perante um quase deus que ao mesmo tempo veneramos, nos encanta e alimenta. De que miragem fascinante andaríamos nós à procura?
Já cheirava a infância e a ternura, e repassavam pela nossa mente os gestos rituais das nossas mães e avós, quando o bucho nos activou as papilas gustativas, ao vê-lo todo rosado em cima da mesa. Parecia ter já bebido alguns copos de um clarete sorrateiro. Mesmo com as faces e as maçãs do rosto afogueadas, ainda não tinha perdido a sensatez ancestral de quem nos traz o sustento, a tradição, o encanto e a emoção de estarmos juntos.
Com o religioso silêncio, interrompido apenas pelo tilintar dos talheres e apressados para principiar um ritual iniciático, já estava preparado o ambiente para a evocação de lendas e tradições imemoriais ao redor de um Bucho Raiano. O anfitrião e confrade privar-se-ia de repetir os contos romanescos da sua infância e também nada diria sobre as múltiplas viagens ao interior de si próprio. Procuraria proporcionar uma atmosfera condigna, própria de um ritual legendário para favorecer o enlevo que brotaria espontaneamente das raízes e da memória.
Ambiente estranho este de estar em frente, melhor dito, em redor de um bucho. Todas as crenças, contos, lendas e produtos capitosos de uma terra se entremisturam para dar lugar ao dialogo amistoso e criativo que nos avivava o prazer de estarmos juntos. As histórias que cada um de nós tinha vivido ao longo da vida cruzavam-se com o olhar atento de um bucho que sabia observar, ouvir e interpelar para que a comunicação não se esgotasse num simples acto de levar à boca e que iria ter lugar dali a instantes. Este genuíno raiano de bucho pretendia assumir-se como uma caixa de ressonância, a transmitir-nos os ecos que evocavam a nostalgia e a saudade.
Mas este não era qualquer bucho. Era o Bucho Raiano! E já estávamos a esquecer este predicado distintivo e alusivo a culturas destinadas por natureza à ameaça e à extinção, simplesmente por estarem na fronteira e no interior. Porém, entre os convivas alguém as teria considerado ainda mais fecundas por terem resistido corajosamente entre dois mundos. A tradição teve a oportunidade de se afirmar ao longo dos séculos, mas não deixou de estar à escuta e com a porta aberta a outras culturas que nos alargavam os horizontes. Pudemos comparar, pudemos provar outros gostos, mas nem o rodar do tempo, nem as constantes passagens de forasteiros pela fronteira conseguiram destruir a tradição que se enraizou na nossa memória réptil, deixando-nos ficar um sabor constante e indelével que faz parte da nossa tradição cultural e gastronómica.
Este instinto de ir ao encontro e de observar tivemos o privilégio de o experimentar do cimo das serranias da nossa Serra da Malcata e dos vários montes que a constituem e a circundam. Das suas alturas pudemos olhar para mais longe, para outros mundos e não ficámos limitados aos horizontes que nos rodeavam, nem tão pouco asfixiados com o que tínhamos e comíamos.
E, a propósito do Bucho Raiano, já estávamos longe demais. É quando acordámos do nosso enlevo, já o professor Carvalho Rodrigues nos tinha conduzido para bem mais longe. Tínhamos passado várias fronteiras e estávamos já no Egipto, em companhia do Santo Antão. Este sim era um valente raiano e amigo dos buchos, das chouriças, dos porcos, dos presuntos, dos salpicões, das farinheiras e das farinhatas e de todas as tentações que de dia e de noite o assediavam. Não admira pois que também os grandes pintores como Jerónimo Bosch se tenham lembrado dele para o imortalizar numa pintura denominada as Tentações de Santo Antão, cujo belíssimo quadro, antes de chegar a Lisboa teria passado certamente pela raia sabugalense, itinerário fronteiriço obrigatório para chegar à capital do Reino.
O saco do bucho é um verdadeiro ninho de tentações. É o topo da raia humana atiçado por todas as seduções que nos assolam. A umas resistimos, mas a outras abrimos as portas, saboreando-as gostosamente até à medula dos ossos, inebriados com o prazer exacerbado da gula pecaminosa.
Que mistura esta da natureza tórrida, da concupiscência endiabrada e da ascética salamanquina ou avilena que se entrelaçam em vésperas de um tempo quaresmal, de deserto e de privações como se o mundo aqui terminasse!
Todo o saber acumulado num bucho raiano não caberá certamente na Livraria Orfeu, do Joaquim Pinto da Silva, observador atento aos sabores literários escondidos na raia beirã e que não deixava de manifestar a sua admiração pelos saberes acumulados numa peça de arte e tradição que se ia consumindo em cima de uma mesa à volta da qual não arredávamos pé. A sua Foz do Douro estava por um momento esquecida!
Eram os preparativos de um terceiro capítulo que se aproximava a passos largos. Tínhamos feito naquela noite uma longa viagem em companhia do fiel e solidário amigo Bucho Raiano. Agora, familiarizados com a sua amizade, iríamos com mais confiança ao seu encontro, em romagem peregrina, à escuta de um bom momento de inspiração e abertura a uma cultura e gastronomia ancestrais.
Joaquim Tenreira Martins
Quando há algum tempo assisti à apresentação do romance Flores de Jasmim* de João Gabriel Correia, na Livraria Orfeu, em Bruxelas, veio-me à memória o livro de Virgílio Ferreira – A Manhã Submersa**. Depois de ter lido o primeiro de um fôlego, procurei na minha biblioteca o segundo que reli com o entusiasmo da primeira hora.
A minha intuição inicial, na livraria do Joaquim Pinto da Silva, confirmou-se, e o paralelismo pareceu-me evidente.
Se bem que se trata de dois romances de épocas bem diferentes, num contexto nacional totalmente distincto, na minha opinião são talvez os dois únicos romances cuja acção se desenrola, do princípio até ao fim, num seminário.
Virgílio Ferreira descreve o universo concentracionário do Seminário Menor do Fundão, à maneira de Michel Foucault, entre o período da infância até a adolescência. Biográfico ou não, o romance de Virgílio Ferreira descreve-nos uma criança que dificilmente se consegue afirmar numa estrutura rígida, onde não é tolerado o menor desvio, sob o olhar ameaçador dos prefeitos de disciplina e dos professores O castigo físico era a regra frequente e obrigatória para endireitar os rebentos acabados de chegar das remotas aldeias beirãs dos anos quarenta.
Por seu lado, João Gabriel situa o seu romance no fim da década de sessenta, mais precisamente, no ano de 1969, ano em que o homem chegou à lua, em plena era marcelista, , no auge da contestação teológica pós-conciliar e na altura em que Paulo VI, com a encíclica Humanae Vitae, pretendeu editar normas para inculcar na consciência dos católicos a boa maneira de agir no leito conjugal.
Enquanto no livro de Virgilio Ferreira perpassa o medo e o terror, no de João Gabriel Correia a personagem tenta percorrer os caminhos de uma liberdade vigiada e controlada.
Mas João Gabriel Correia segue o seu percurso e distancia-se de Virgílio Ferreira. Em vez de descrever um ambiente fechado e inquisitorial de um seminário menor, aborda um mundo que se está abrindo no caminho da adolescência para a idade adulta, num clima quase tropical, em que os seminaristas descobrem a exuberância da vida e do amor, nos meandros da disciplina imposta pelas regras canónicas de um seminário maior.
Servindo-se da sua antiga competência profissional de psicólogo, João Gabriel Correia entra maravilhosamente na pele da personagem principal – o Júlio – para escalpelizar até à minúcia os primeiros movimentos amorosos do seminarista que descobre o mundo exterior, os outros e, enfim, a sua Guida.
Tal como no jardim das delícias dos primórdios do mundo, uma Eva introduz-se no Seminário Maior do Funchal e a sua presença não podia deixar de imprimir os traços da tentação de um Adão. Vestindo-se do manto de jornalista, a Guida penetra com curiosidade no ambiente do seminário, dando-o a conhecer nas suas reportagens num diário funchalense, onde ocupa um posto de estagiária, acabada de chegar do Continente.
Dois mundos, à partida nitidamente paralelos, acabam por se encontrar, atraídos quer pelo mistério do desconhecido, quer pelo questionamento constante de dois seres curiosos e rebeldes, quer ainda pelo intenso fervilhar de apelos insaciáveis.
Talvez por estar longe há muitos anos da sua terra natal, o autor teve necessidade de evocar os cantos e recantos do Funchal por onde as personagens vão evoluindo, proporcionando-nos assim um alegre deambular por entre ruas, praças, avenidas, jardins, cafés e restaurantes e outros monumentos da ilha.
É pois um romance situado no espaço e no tempo. É a reinvenção de uma história à maneira de Romeu e Julieta, com um fundo de proibição de normas sociais, mas também por isso mais aliciante e mais apetitoso.
Desconheço quanto tempo o autor demorou a escrever este romance. Nos encantos amorosos das mil e uma noites, João Gabriel Correia teve certamente manifesta influência do mundo árabe, aquando da sua estadia em Argel, na Delegação da União Europeia. Porém o leitor, imbuído num sôfrego enredo, não consegue despegar-se da sua leitura. As apropriadas descrições da ilha, as excelentes caracterizações das personagens muito bem recriadas, o brilhante ritmo cadenciado da linguagem dificilmente nos impedem de despegar os olhos do livro que se lê dum trago, apesar das suas 380 páginas.
Pela profundidade e beleza desta primeira obra, que muito honra a editora Orfeu, estou plenamente convencido que João Gabriel Correia, agora na Delegação da União Europeia no Haiti, (coragem por aí!) encontrará inspiração para nos brindar com outros bons escritos nos próximos tempos.
* Flores de Jasmim, de João Gabriel Correia, ed. Orfeu, Bruxelas, 2011
** Manhã Submersa, de Virgílio Ferreira, (1953), ed. Bertrand, Lisboa, 2000.
Joaquim Tenreira Martins
Comemora-se no dia 3 de Abril (domingo) o bicentenário da Batalha do Sabugal, a última das que aconteceram em território português por ocasião das invasões francesas. A Câmara Municipal e a empresa Sabugal+ elaboraram um programa evocativo que acontece no próximo fim-de-semana.

No sábado, dia 2 de Abril, pelas 14 horas, haverá a inauguração de uma exposição, designada «A defesa da Fronteira da Beira», no Museu Municipal do Sabugal.
De seguida, no Auditório Municipal, decorrerá o lançamento de dois livros dedicados às invasões. O primeiro, intitulado «A Batalha do Gravato – Narrativas do Famigerado Combate do Sabugal», é da autoria de Manuel Morgado e Marcos Osório.
O segundo, intitulado «Sabugal e as Invasões Francesas», sendo seus autores Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão, Joaquim Tenreira Martins e Paulo Leitão Batista, será apresentado pelo escritor e pensador J. Pinharanda Gomes, que assina o prefácio da obra.
Seguir-se-á, ainda no auditório, um Encontro Temático dedicado às invasões, estando previstas as comunicações:
Adérito Tavares: «O expansionismo napoleónico na Península Ibérica: o princípio do fim»;
Joaquim Tenreira Martins: «Sabugal e as tentações de Massena na terceira Invasão Francesa»;
José Alexandre Sousa: «Condicionalismos humanos e naturais numa acção militar – o combate do Sabugal a 3 de Abril de 1811»;
Paulo Leitão Batista: «O Sabugal e a quarta Invasão Francesa»;
José Paulo Ribeiro Berger: «A importância da ponte sobre o rio Côa no Sabugal para o êxito do exército aliado na perseguição a Massena».
Pelas 21 horas haverá um concerto pelo Ensemble da Orquestra Sinfónica do Exército.
No domingo, dia 3, haverá repique de sinos pelas 9h30, seguido da inauguração de um memorial no sítio do Gravato, com presença militar.
Pelas 11 horas será inaugurado um monumento evocativo da Batalha na rotunda de entrada no Sabugal, da autoria do escultor Augusto Tomás, seguida de cerimónia de homenagem aos mortos e evocação histórica pelo Tenente-Coronel Urze Pires.
Às 12 horas haverá missa pelos mortos em combate.
À tarde, pelas 15 horas, decorrerá no castelo uma recriação das comemorações da vitória.
plb
Pinharanda Gomes, consagrado escritor e filósofo natural de Quadrazais, vai apresentar no sábado, dia 2 de Abril, pelas 14h30, no Auditório Municipal do Sabugal, o livro «Sabugal e as Invasões Francesas», que incluiu os textos que Paulo Leitão Batista publicou acerca do tema no Capeia Arraiana.
Pinharanda Gomes, ele próprio um colaborador de longa data do blogue Capeia Arraiana, assinou o prefácio do livro, que para além de Paulo Leitão Batista, tem ainda como co-autores Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão e Joaquim Tenreira Martins.
O lançamento da obra conta ainda com a presença do editor, Joaquim Pinto da Silva, da editora Orfeu, com sede em Bruxelas.
O coronel Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão, especialista em História Militar, escreve sobre a Batalha do Sabugal, explicando os pormenores do combate entre o segundo corpo do exército francês, comandado por Reynier, e as tropas aliadas, comandadas por Wellington. O escritor e investigador Joaquim Tenreira Martins, natural de Vale de Espinho, aborda aspectos ligados à terceira invasão e à passagem das tropas por Riba-Côa. Paulo Leitão Batista, nascido no Sabugal, recuperando o essencial dos textos publicados no blogue, escreve sobre aspectos curiosos das invasões, nomeadamente acerca da passagem das tropas pelas terras raianas que actualmente formam o concelho do Sabugal.
Seguidamente ao lançamento do livro, dois dos seus autores, Paulo Leitão Batista e Joaquim Tenreira Martins, integrarão o painel de oradores do «Encontro Temático» dedicado às invasões, que a Câmara Municipal e a empresa Sabugal+ programaram para essa mesma tarde de 2 de Abril no Auditório Municipal.
aps

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