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Não havia pai para o Casimiro, um fusco do catano, que fazia parte da guarnição do posto de Aldeia da Ponte, e que era, bem o posso afirmar, o terror dos contrabandistas do meu tempo.
O Casimiro era afinado como uma doninha. Encafuava-se nos cambais junto à raia, onde o cargueiro menos cuidava, e esperava pacientemente que um desgraçado lhe passasse rente. No momento oportuno saltava-lhe na galupa, agarrando-o firmemente e clamando com a sua voz de trovão:
– Larga a carga, jagodes.
De pouco valia tentar cavanir, que o fusco era arteiro e estava em vantagem, pronto para dar uma carreira, se caso fosse, tirando partido das suas longas gâmbias.
Em algo era porém menos ruim, aquela alma de cântaro: nunca aprisionava o homem que filava. Contentava-se com a tomada da carga, embora fosse useiro em recorrer ao costado do contrabandista para lhe levar a mercancia até perto do posto, dizendo-lhe depois que se pusesse ao fresco. O coitado aproveita e dava às de Vila Diogo, enquanto o Casimiro, para não deixar suspeitas, lhe berrava que o apanharia nem que fosse no outro mundo. De carga pejada, fosse fazenda, calçado, azeite, conhaque, pão ou simples galhetas, o sandeu apresentava-se perante o comandante, o cabo Peres, pronto para levantar o auto.
A mania de dar fuga aos contrabandistas depois de os fazer alombar com o carrego até às primeiras casas de Aldeia da Ponte, valeu-lhe de uma vez um contratempo. O Zé Covas, de Alfaiates, que era rapaz taludo, mas algo cagaçolas, foi uma noite vítima do Casimiro e alancou com a pesada carga de enxadas que trazia de Espanha até junto do posto. Mas quando o guarda lhe fez sinal para se escapulir, o Covas temeu que fosse ardil, vindo-lhe à mona a ideia de que receberia um tiro pelas costas, e fez-se desentendido.
– Vá azagal, larga o carrego e põe-te a léguas! – rosnou-lhe o Casimiro em voz baixa.
Moita. O candongueiro, imperturbável, não se mexia.
O Casimiro foi então mais directo:
– Ó palonço, arreia o fardo e desanda, que não te quero levar preso.
Ao Covas bem lhe apetecia livrar-se do apreensor, mas não lhe saía do tutano que aquilo era ariosca e que receberia fogachada, dizendo depois o guarda que abatera um preso em fuga.
Estavanado e já cansado de perder tempo, o Casimiro correu-o a pontapé, obrigando-o a seguir caminho.
Pois meus caros, lhes garanto que nunca me deixei filar por esse basbaque, e nem sequer me aconteceu aventar ao chão carga que ele apanhasse. Muitos lhe ouviram alanzoar que lhe faltava uma façanha na folha de serviço: deitar a manápula ao Tosca da Bismula. Só que eu, e não é para me gabar, era o mais astuto dos contrabandistas do meu tempo e, por mais esperas e aguardos que me fizesse, não houve forma de me colocar a mão em riba.
Sentindo-se incapaz de me filar junto à raia, estudou-me os percursos e uma noite esperou-me ao redor do caminho que seguia da Rebolosa para a Bismula, a pouca lonjura das últimas casas do povoado, portanto já bem longe da linha da raia e onde eu nunca esperaria sobressalto.
Caminhava à vontade, ciente de que a fazenda estava fora de perigo, quando, de repente, me saltou um vulto adiante, que me urrou:
– Larga a teleiga, Tosca. Estás filado.
Mesmo aturdido, consegui dar dois passos atrás, voltar-lhe as costas e correr de afogadilho de volta ao povoado, com o Casimiro a perseguir-me, quase lhe sentindo o bafo. Como ele tinha a perna longa não duvidei que me apanharia em breve, pelo que quando me aproximei da primeira casa atirei-me de um pulo ao cimo da parede do curral, que galguei para o outro lado. Já dentro do curral alapei-me debaixo de umas fachas de feno que estavam sobre o chedeiro do carro das vacas.
Do meu refúgio, quedo e de arfar sustido, pude ver o fusco, que saltou igualmente o muro e parou a mirar ao redor, a ver se descobria o meu paradeiro. A um ponto fixou os olhos no chão e disse em voz nítida:
– O lapuz já aqui largou carga.
E abaixou-se para apelazar o que lhe parecia ser uma boina basca.
Só que a mão deu com coisa mole, húmida e inconsistente, que lhe fez chegar às narinas um cheiro intenso.
– Conho, é uma bosta de vaca! – disse o Casimiro ao mesmo tempo que sacudia a mão borrada.
Estavanado, cirandou pelo curral, a ver se me topava. Vasculhou a moreia da lenha, assomou-se ao poleiro das pitas, debaixo do carro, dentro da dorna, até que o tremeluzir de uma luz, que se acendeu na casa o fez desistir e voltar a saltar o muro.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»
leitaobatista@gmail.com
Antes queria andar só correndo os caminhos de Deus que fazê-lo com má carava. Mas como vivemos em súcia e havia basta gente a andarilhar pelas estradas, sucedia-me ir muitas vezes acompanhado, ainda que nada o desejasse.
Um desses meus parceiros de ocasião era o Manuel Porro, de Aldeia da Dona, que comerciava em tamancos e albarcas de seu próprio fabrico. Era homem latagão, alto que nem uma torre sineira, com gâmbias longas que lhe permitiam, de uma só passada, avançar maior porção de terreno do que eu fazia com dois passos. Era o cabo dos trabalhos acompanhá-lo caminhando, sendo quase necessário galgar para não o perder de vista. Algumas vezes, cansado da correria, desculpei-me em ir dar de corpo atrás de um barroco fronteiro ao caminho, para o deixar ir adiante e assim o perder de vista.
Pois de uma vez, em dia chuvoso, em que tornava de Pinhel, da Feira dos Santos, seguindo por um caminho lamacento, fui alcançado pelo Manuel Porro quando já estava perto da Parada. Vindo no seu andar rézio, como um toiro desgovernado, ainda me desviei para o deixar passar, mas o homem, depois de me dar a salvação, refreou o passo e dispôs-se a seguir na minha carava. Trazia de rédea, como sempre, o seu burreco preto, chamado Moreno, que era um jerico patarreco, mas desalmado para andarilhar, tal qual o dono.
– Então como correu o negócio? – perguntou-me.
– Menos mal, ainda que retorne com boa parte da fazenda.
– Pois amigo, a mim há muito que uma feira não me corria de feição como a de hoje. Vendi quase tudo a bom preço e uns pares de tamancos que me restaram ainda os deixei ao desbarato.
– Não tive tanta sorte, pois torno com o macho carregado.
– O Moreno vai folgado. Não quer aliviar o macho? – disse-me o Porro, mostrando-se prestável.
– Bem-haja, mas vou deixar na Cerdeira, em casa de um freguês, boa parte do que trago.
Na Cerdeira demorei-me um instante no trato com o meu freguês, e pensei que o Porro deitasse adiante. Mas o raio do rapaz não arredou pé, e ainda me ajudou a descarregar a fazenda. Seguimos depois pelo caminho na Miuzela para atravessarmos a Côa junto a Badamalos.
Chegados à ribeira demos com a água correndo a monte, cobrindo uma parte do pontão. Hesitámos na travessia, mas voltear pela ponte de Sequeiros, mais a riba, far-nos-ia perder muito tempo, e não queríamos que a noite nos surpreendesse.
Decidimos atravessar, ainda que molhando os pés na água corrente. Segui primeiro, com o macho de rédea. O animal estava avezado a superar comigo todos os perigos e foi com redobrados cuidados que passámos a parte do pontão em que a água corria desalmadamente, ainda que pouco mais cobrisse que o tornozelo.
Quando atingi a outra banda reparei no Manuel Porro, que se via e havia para encarreirar o Moreno para o pontão. Bem lhe puxava pela arreata, mas o animal parecia ter os cascos colados à terra. O Porro sovou-lhe o lombo com um arrocho e meteu-lhe o ombro à traseira, mas não havia modo de o arrancar.
– Não o force Manel, que isso dá mau resultado – berrei-lhe, a ver se o continha, pois bem sabia que ele era cabreado quando lhe dava a tineta.
– De mim este barzabenas não manga. Passa nem que seja de rojo – disse o Porro, zupando de rijo no animal.
– Eu volto a essa banda e vamos passar a ponte, seguindo depois por Valongo – gritei-lhe de novo.
Nem me respondeu, irado que estava. E tanto espadelou o animal que este se deitou parecendo morto. Para meu espanto, o Manuel Porro botou as manápulas aos atafais do burro e, recorrendo à sua força descomunal, ergueu-o como se fosse uma saca de batatas e botou-o às costas. O animal esperneou, mas o Porro, fazendo jus à fama de vergalhudo, não mais o largou, metendo pelo pontão em passo firme, sob o meu olhar de assarapantado.
Acabando a travessia, o Manuel Porro, de cara rubra pelo esforço heróico a que se sujeitara, aventou o burro ao chão lamacento e disse-lhe com ar severo:
– Podes ser mais esperto do que eu, mas não me ganhas em teima e em valentia.
E dali arrancámos em passo estugado, a ver se nos livrávamos do breu nocturno.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»
leitaobatista@gmail.com
Não há melhor dita que ir à missa de domingo vestido de grave, em ares de janota, ouvir a palavra de Deus e a prática do nosso prior, e depois sair à rua de alma desenxovalhada, pronto a enfrentar as amarguras da vida.
Noutro tempo, quando a aldeia era aldeia, ao rabo da cerimónia juntavam-se os amigos no adro trocando larachas acerca do tempo e badalhocando na vida alheia. A bácora grande da ti Marzabel pariu uma dúzia de recos luzidios; ao Zé Birra embostaram-lhe o poço do horto; os Cabrais vão erguer choupana ao cimo do povo… Ali se laparchinava em descoberta das novidades.
Pela minha parte aproveitava para fazer a cobrança do que me era devido por alguns, aos quais fiara fazenda. Assim abordei de uma vez o Joaquim Tourais, questionando-o pela paga de um pano de chita que há muito lhe vendera.
– Não gosto de ser tinhoso, mas já é tempo de me pagares a mercadoria.
– Inda onte tive com os trinta mérreis na mão, de coisa feita em me botar a sua casa – disse-me ele de ar atarantado.
– Pois como lá não foste, aqui me tens pra receber a paga.
– O caso é que o damonho da minha Maria, que é de má laia, me rogara que lhe mercasse umas pitas pedreses, e tanto me azucrinou a cabeça que me cheguei ao ti Videira e lhe aprecei quatro das que tinha no poleiro.
Arreliei-me com aquela léria. O palonço de cada vez alanzoava sua laracha e não havia modo de me pagar a dívida.
– Primeiro cumpres a obrigação que tens para comigo, depois tratas das tramóias da tua… Agora toca de ir ao poleiro agasnatar as pitas, que as levarei de paga – disse-lhe já farto das suas escusas.
– Isso não ti Zé. Tenha dó! A minha desancava-me!
– Catano, e deixo que me ferres o cão? – berrei-lhe já arresinado, com os punhos cerrados, disposto a zurzir-lhe o pêlo.
– Não se aferrenhe, que o caso se remediará. Daqui a dias lhe pagarei, afianço-lho!
Virou costas e largou em passo estugado, temente que o maltratasse.
O Joaquim Tourais não era má peça. Seria até dos mais justos homens da Bismula. O mal era a bácora da mulher, que o abarcara já viúvo e lhe dera a volta ao tutano. Meteu-se-lhe de portas adentro a rogar homem maduro que lhe tirasse a cachondice, e toma, passados dias, o padre anunciava os proclames da atadura. Pôs-lhe a vida negra, o raio da cachopa. Fazia-o penar de patrão em patrão no ganho do jornal, que logo ela lhe surripiava do bolso quando chegava a casa estafado. Era ela quem marcava a ordenança, vivendo como reca cerrada em seu cortelho. O pobre Tourais, desorientado com a vida, tinha de pedir fiado para beber na taberna e mercar roupa com que se vestisse ao domingo e dias nomeados.
Que o rapaz era boa pessoa e aplicado trabalhador sabia-o de sobeja, que eu mesmo poria as mãos na lambra pela sua justeza, agora que me não pagasse a fazenda por mor das tinetas da mulher é que não podia permitir. O caso tinha de ser remediado, e dei por mim a malucar em como cobrar a dívida, pois o bagalhuço fazia-me falta para o andamento do negócio, e não me agradava que aquela zoupeira se estivesse a rir da trama. Sabia que a maldita tinha artes para a costura, e que houvera talhado e alinhavado uma chambra com a chita que ele me rogara. Eu mesmo já lha topara vestida num dia festivo. Ora, deixa ver, que o caso tem boa solução.
Num dia, ao fecho da tarde, dando fé de que o Tourais dava as ultimas cavadelas no chão onde ganhava a jorna, dispus-me a pôr fim ao caso. Chamei o meu Luís, catraio com ares de maltês, puxado à laia do pai, e dei-lhe instruções.
– Daqui a nada, quando te assobiar do fundo da rua, dás um salto à casa do ti Joaquim Tourais e dás recado à ti Maria para que corra à taberna que o homem se engolfou em vinho. Depois desandas para casa, como se de nada se tratasse. E nem chus nem mus, bico cerrado. Entendeste?
– Sim, meu pai!
– Então fica atento ao meu silvar.
E lá fui até ao cabo da ruela, onde soprei o assobio combinado. O rapaz arrancou que nem foguete a cumprir o que lhe ordenara. Olhei em redor para me certificar se alguém dera fé, mas não havia que ter cuidados, a populaça ainda labutava nos agros e o povo estava deserto. Saltei então para o acanhado curral do Tourais, onde me alapardei por detrás da moreia de lenha que estava a um canto. Num ai chegou o meu Luís, que berrou do meio da rua.
– Ó ti Maria! Ó ti Maria!
A calhandra assomou-se à porta da casa térrea, de pescoço vermelhão erguido, que nem perua no poleiro.
– Que queres, garoto?
– O ti Jaquim está lá abaixo na taberna emborrachado de todo. Nem se tem nas pernas. É melhor lá ir por ele.
– Ai o malvado, que o desanco!
E saiu a toda a pressa, atravessando o curral esbaforida. Tinha o caminho livre para fazer as minhas contas. A porta ficara escancarada, pelo que foi só entrar e correr à cata da arca da roupa, que encontrei na saleta, encostada ao tabuado. Abri-a e revolvi a farrapada até descobrir a chambra de chita rubra. Botei a mão ao que era meu, escondi-o debaixo da véstia e saí do casoto. Já em casa enfiei a gribalda no meio de outras fazendas, e segui com meus afazeres, satisfeito da vida.
No dia seguinte deu brado que a casa do Joaquim Tourais fora roubada. Já eu estava longe, no mercado de Alfaiates a vender fazendas, entre as quais uma vistosa blusa de chita encarnada.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»
leitaobatista@gmail.com
O meu preferido entretém nas horas mortas era serigaitar pelos campos em busca dos animais bravios. Já meu pai, que Deus haja, era, para além de lavrador, um valente monteiro e foi com ele que aprendi a lidar com a clavina e a bater tojeiros, silvedos e tourais à cata de coelhos e lebres.
A bem dizer, isso de caçar estava-me no sangue desde garoto, pois logo cedo afinei a pontaria com a fisga e montei costis para filar tordos e gaios. Era o inimigo número um da passarada, entre os catraios do povo, para além de mestre a armar laço, arçolhos e ferros nos locais apropriados. Em casa havia sempre fartura de coelhos e perdizes, quando me dispunha dar uma volta pelo campo. E mais não haveria por a vida de contrabandista e negociante não me deixar muito tempo vago para me dedicar a tais artes.
Em geral caçava sozinho, com a singela companhia da Doninha que, fairando e embrenhando-se nos matagais, fazia a caça sair para campo aberto, onde eu lhe apontava e chapeava chumbo. Mas também gostava de uma boa carava, sempre se convivia e botava faladura, enquanto se percorriam as tapadas ou quando se abancava a emborcar uma mastiga.
Um dos meus nobres comparsas nestas lidas, quando havia ocasião, era o padre Hilário, da Vila do Touro. Era um artista a apontar a espingarda e matreiro ao ponto de se aprochegar, de manso, dos tourais e chumbar os coelhos quando estercavam. Embora barrigana e com ares de lapão, tinha genica que chegasse para trepar a eito pelos cerros e seguir de rota segura em direituras dos barrocais onde abundava caça. Era também homem reinadio e tagarela como poucos. Não fora a sotaina, que até quando seguia pelo mato envergava, e ninguém diria tratar-se de um sacerdote da Madre Igreja.
O padre Hilário apreciava da minha carava, pois também eu era folgazão e advertido e sabia-me deslocar ao esconde-esconde pelos montes, mexendo-me como uma verdugueira quando quer abocanhar um pássaro. Fazíamos uma boa dupla na caça.
Há muito tempo, vivi com ele uma parte, que agora lhes vou contar.
Num mercado da Vila do Touro, que se fazia todas as últimas quintas-feiras do mês, e a que raro faltava, fui ter com o dito prior, pois ele era, além de grande amigo, o meu confessor. Ficou ufano com a minha presença e foi comigo ao confessionário onde, por seu intermédio, prestei contas com Deus. Feita a obrigação, deu-me de cear e logo ali se fez a combina. Ele dava-me dormida na tarimba que tinha montada no paranho e na madrugada chegante íamos caçar.
Descansei o corpanzil em riba duma facha de palha, mas logo que o galo cantou, puxei a clavina do alforge e meti o bornal, com o farnel que trouguera, a tiracolo. Na cozinha rilhámos uma côdea e ala, seguimos à vida.
Por toda a manhã percorremos os cabeços pedregosos de Vale Mourisco, local onde a bicheza bravia abundava e nós conhecíamos a pente fino.
A meio da manhã chegou-se-nos a nainita e decidimos manjar qualquer coisa. Descemos do Cabeço do Peneducho e estacionámos numa achada, à beira de uma presa com água limpa. Saquei então de um fatronco de pão centeio, de uma bela chouriça e de um valente naco de presunto apimentado. Espantou-se o padre Hilário com tal fartança.
– Ó Tosca! Que diabo. Nem pareces temente a Deus!
– Ora essa, sou um pobre pecador que anda sempre pronto a dar contas ao Senhor.
– Então e hoje, que na liturgia é dia de jejum e abstinência, trazes carne prá manja?
– Tem razão Vossa Reverência – disse-lhe, coçando o tutano – nem tal coisa me veio à lembrança!… Onde raio estava com a cachimónia?!
O padre enrugou a fronte, dando ares de desassossego.
– E passaremos fome? – procurou-me.
– Que hemos de fazer? Se é jejum, jejuamos, cumprindo a obrigação… E que boa posta de bacalhau lá tinha na arca! – lamentei-me.
O abade olhou de esguelha para a chouriça e para o presunto, todo a lamber-se e a lamentar-se de ficar com o odre vazio. Botou então o gadanho ao nagalho da chouriça, levantou-se e chegou-se perto do bueiro, onde a mergulhou na água fria e a fez boiar de um lado para o outro. Tirou-a depois e, virando-se para mim:
– Já nadou Tosca! E se nadou é peixe! Vamo-nos a ela!
– Mas, se é pecado?
– Qual pecado, homem de Deus? Desde quando não se come peixe na Quaresma? Passa cá a naifa que já vai num ai.
Dado o ousio do padre atirei-me ao farnel e ali nos alambazámos, enchendo o fole.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»
leitaobatista@gmail.com
Em tempos de solteiro já corria desenfreado por festas, feiras e romarias. Terra onde houvesse pé de dança ou se armasse briga no terreiro, ali caía disposto a tudo.
Mas aquilo eram tempos do catano. Meu pai, que Deus haja, cortava-me as asas e, em domingos e dias santos, mandava-me pastorear as ovelhas. Ora eu não era pessoa que quedasse num lugar quando malucava ir a outro. Logo que se aprochegasse o meio do dia mandava-me a uma das cabras da piara e tetava umas goladas, rilhava a côdea que traguia no bornal, mandava o cajado pró diacho e lançava-me à desfilada, direitinho a onde me fairasse arraial. O gado ficava bem entregue aos dois cães da pastoria, que melhor do que eu o sabiam guardar.
Quando fui dar o número ao Sabugal, e me vi livre de carregar a mochila de soldado, o velho agraciou-me com um par de botas ferradas.
– Não quero que rompas a pele dos calcantes nem dês cabo de mais tamancos. Aqui tens calçado p’rás tuas correrias domingueiras.
Queria ver-me casado e fora de casa! Botei-me então a correr esses caminhos de Deus, em busca de noiva, nos entrementes do contrabando a que me passei a dedicar.
Encertei-me nas levas do amor namoriscando uma raparigota de Alfaiates, a Maria Bernardina. Era moça pegada aos vinte, a quem não faltavam pretendentes lá na terra. De tal lhe andavam ao fairo, que logo quando lhe botei faladura me apareceram os rapazes mais tisudos do povo a reclamar a patenta. Tive que lhes baralhar as voltas e andar fugido daquele poiso. Só em noites de breu me atrevia ir trocar umas lerias com a galfarra. Mas, enfadado dessas lidas, quis pôr tudo em pratos limpos:
– Ó Bernardina! Ou vamos amanhã ter com o prior ou vou-me andando à pergunta d’outra.
Ficou-se-me em pranto, o raio da moça. Que não podia ser, que tudo tinha o seu tempo, que lhe diria o pai se ainda mal sabia do derriço… Tive de largá-la e ir em busca de outras paragens.
Conheci então a Maria Rita num arraial em Ruivós. Era rapariga esbelta, trabalhadeira e, ao que soube, bem entendida nas lidas da cozinha. Vinha-me a calhar! Ainda lhe cheguei a falas, mas logo me veio aos ouvidos que seu pai, que era o regedor, a tinha bem guardada para um morgado lá do povo. Para evitar demasias decidi retirar-me de tais terrenos.
Durante muito tempo corri a Raia à cata de rapariga. Namoradeiras havia muitas, mas a maldita fama de corrécio e bom puxador de naifa não me ajudava nada. E já quase tinha perdido a esperança de formar família e mudar de vida, quando se me chegou o Chico Moita, meu companheiro de caminhos e atalhos, e me disse ao ouvido:
– Olha lá, Zé! Boa mulher, bem constituída e desembaraçada, há-a na Malhada. Não seria mau dares por lá uma volta.
– E que idade tem a perdigota?
– Já anda chegada aos trinta, mas está ali um bom partido. Se por lá fores toma tino no que te digo: só quer homem trabalhador e que dê bom chefe de família. Ao que por aí ouvi zurrar, já muitos se lhe chegaram e não a convenceram.
No dia seguinte, logo pela alba, meti-me a caminho da Malhada Sorda, a ter com a dita senhora. Não é que tivesse grande fé no propósito, mas sempre lá ia para me desenganar. Soube no povo que tinha uma quinta a pouca distância, onde vivia e tomava conta de muito vivo. Recebeu-me uma mulher alta e morena, vestida com saiote até meia canela e uma curta blusa de tomentos, deixando adivinhar fartos e formosos seios. A blusa arremangada deixava mostrar também uns braços musculosos, por certos devidos à muita faina.
– Que quer cá da quinta? Se vem pra comprar ovos ou peles de ovelha, por agora a casa está vazia.
– Venho plos seus dotes, minha senhora! – arrumei-lhe de caras.
– Ora, isso não é pra qualquer um! Entre, que já se verá.
Já no curral, mediu-me de alto a baixo e deitou a manápula a uma garrancha.
– Muitos têm vindo na mesma fé. É certo que preciso de marido, que o tempo está-me a passar, mas só me leva o que for melhor que eu em trabalho e em manha.
– E como quer que lhe mostre a valentia? Jogamos à pancada?
– Nada disso. Pegue nesta garrancha e dê-me uma demão.
Hesitei em ajavardar a roupa nova que vestia, mas decidi-me a aceitar a compita. Entrei na corte e arranquei o estrume, que encimei em moreia no curral. Depois fiz a cama do vivo com duas fachas de palha centeia e descarreguei ainda um carro de feno que estava junto à palheira. No fim, já cansado, quis saber a sentença:
– Ora diga-me se o desembaraço foi do seu agrado.
– Bem, isso ainda se verá na ordenha do gado, que está por fazer.
– Conho! Agora percebo porque nenhum a desencantou desta furda! Se quer criados pague a um ganhão que a sirva no trabalho e a aqueça na enxerga.
Palavras ditas e em três pulos tornei ao caminho que me levava a casa. Alguma cachopa lá encontraria na terra que isto ali de andar a mando de saias não me estava no feitio. Bem me dizia minha mãe: livra-te de mulher que sabe latim e de moça que faz im!
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»
leitaobatista@gmail.com
Malgrado o enorme valor despendido pela Câmara Municipal, o facto da 7ª etapa da Volta a Portugal em Bicicleta de 2011 ter o seu início no Sabugal, trará diversas vantagens, dentre as quais a grande projecção mediática e a oportunidade de negócio para algumas empresas locais, nomeadamente no ramo da hotelaria e restauração.
Soube-se agora que, no dia 12 de Agosto, o Sabugal será o ponto de partida para o contra-relógio da Volta a Portugal em Bicicleta, que ligará esta cidade raiana à capital de distrito num percurso com cerca de 30 quilómetros.
A inclusão do Sabugal na Volta, como ponto de partida, implicou a celebração de um protocolo entre o Município e a empresa PAD Produção de Actividades Desportivas SA, a quem cabe a organização da prova. O objecto do acordo materializa-se na regulação dos termos e condições da prestação de patrocínio à etapa da Volta.
A Câmara paga uma verba cujo montante em concreto ainda não foi revelado, mas que pode atingir os 50 mil euros, a troco de umas quantas contrapartidas insignificantes e até burlescas, de que são exemplo: a designação da Câmara como patrocinador oficial da prova (entre outras dezenas de patrocinadores), referência ao Município em alguns spots publicitários, presença do presidente da Câmara na cerimónia protocolar de início da etapa e corte da fita da partida, depoimento do presidente no livro oficial da volta, direito a que duas pessoas indicadas pelo Município acompanhem a etapa numa viatura da organização (quem serão os felizardos?).
Perguntar-se-á se merece a pena, em tempos de crise e quando o Município se atola em dificuldades financeiras, patrocinar com tão elevado valor uma prova desportiva. Se fizermos a análise custo-benefício tendo apenas em conta os termos do protocolo, diríamos peremptoriamente que não. Porém, há que atender a outros factos, porque a realização de uma etapa da Volta é algo que movimenta uma imensa logística e chama muito a atenção.
Há desde logo a projecção mediática do Sabugal enquanto local da partida da etapa. Depois há toda a movimentação gerada com a execução da prova. Atletas, equipas técnicas, staff de apoio, polícias, organizadores, jornalistas, patrocinadores, em suma largas centenas de pessoas, irão acorrer ao Sabugal. Tratando-se de um contra-relógio individual, a atenção para com o local da partida não se resume a um momento, pois a saída dos ciclistas far-se-á pausadamente, cada um por sua vez e com os mais bem classificados a serem os últimos a partir.
Não se esqueça ainda que vem sendo hábito a televisão que tem o exclusivo da transmissão da Volta, fazer um programa durante a manhã a partir do local onde a etapa diária começa, dando expressão à vida local, às artes e ofícios, à gastronomia, às tradições e dando voz às pessoas da terra.
Muitos dos envolvidos com o evento irão pernoitar no Sabugal, beber e alimentar-se nos cafés e restaurantes, abastecer as viaturas nos postos de combustível e fazer compras nas diversas casas comerciais.
Desconhecendo, como acima referimos, o valor concreto da comparticipação financeira da Câmara para ver garantida a realização do inicio da prova no Sabugal, existem desde já razões para com isso nos congratularmos, felicitando o presidente António Robalo por o ter conseguido.
«Contraponto», opinião de Paulo Leitão Batista
leitaobatista@gmail.com
O Sabugal e as Invasões Francesas anda agora de terra em terra. Depois de ter estado no Auditório Municipal do Sabugal, a quando das comemorações da Batalha do Sabugal, no dia 2 de Abril, passou pela Casa do Concelho do Sabugal, em Lisboa, no dia 19 Maio, onde estiveram os três autores e, no dia 31 de Maio, foi apresentado na Livraria Orfeu, em Bruxelas.

Para a apresentação deste livro, a Orfeu, na pessoa do seu director, Dr. Joaquim Pinto da Silva, escolheu duas altas personalidades que vivem em Bruxelas: o General Artur Pina Monteiro e o cientista, bem conhecido do povo português, o Professor Fernando Carvalho Rodrigues.
Tanto um como o outro se entusiasmaram pela leitura deste livro, reconhecendo o seu valor no domínio da história militar e sobretudo afirmando que vem preencher uma lacuna nestas disciplinas, tanto mais que os três autores apresentam três sensibilidades da mesma realidade, o que é raro e altamente enriquecedor.
Esteve presente apenas um dos co-autores – o Joaquim Tenreira Martins – que vive em Bruxelas, o qual se sentiu deveras honrado com as palavras elogiosas (reencaminha-as também para os outros escritores) que foram ditas a propósito desta obra escrita a três mãos.
Caso quase inédito no lançamento de um livro foi o facto de ter sido apresentado por duas eminentes personalidades que conhecem muito bem o Sabugal, o tema das invasões francesas e a importância estratégica que representava nessa altura o rio Côa.
Após a apresentação, Joaquim Tenreira Martins quis transmitir ao público aquilo que normalmente não se sabe quando se lê um livro, isto é, a história do seu nascimento ou aquilo que motivou a sua feitura.
«Se me permitem, gostaria de vos dar algumas informações sobre as razões desta aventura e sobretudo acerca da maneira como é que três pessoas, três autores, sem se conhecerem, e podem acreditar que foi mesmo assim, sem se conhecerem, e ainda por cima, longe uns dos outros, como é que puderam escrever este livro?
Através das várias leituras sobre este período das invasões francesas, um dia descobri que a batalha do Sabugal, Sabugal’s Battle, como dizem os ingleses, tinha sido a última batalha travada em território português. Foi com esta batalha que os portugueses e os ingleses enxotaram de uma vez para sempre os franceses do nosso país.
E eu comecei a escrever sobre este tempo nos jornais da região – o Cinco Quinas, A Guarda e outros.
À medida que ia lendo e escrevendo começava a ter ideia que as terras de Ribacoa tinham sido palco de batalhas, combates, escaramuças e de encontros guerreiros, de que ainda quase ninguém tinha falado. Sobre Almeida, Buçaco, Torres Vedras já muito se tinha escrito, mas sobre o Sabugal, quase nada.
Lembro-me que esta preocupação era partilhada também por um dos autores do Livro – o Paulo Leitao Batista – que nessa altura ainda não conhecia – e ia lendo também os seus artigos que inseria no blogue Capeia Arraiana. Aquele que mais me alertou foi o que escreveu há uns três anos, intitulado: falta comemorar a batalha do Sabugal, indignando-se por nem sequer haver um monumento a assinalar a última batalha que ali se tinha travado havia quase 200 anos.
Para mim foi quase um apelo. Já tinha muita coisa escrita sobre as batalhas travadas naquela região e um dia ao dar uma conferência nos Fóios, que tinha por título as batalhas de Ribacoa na 3ª invasão francesa, os meus colegas e amigos escritores do concelho de Sabugal abriram os olhos, ou como diria o autor do prefácio deste livro – o J. Pinharanda Gomes – ficaram arrelampados, ao tomarem conhecimento destes acontecimentos ocorridos tão perto de nós, realidade desconhecida ou esquecida durante várias gerações.
Pesava-me na consciência ver aproximar-se a data do bicentenário e não celebrar a memória deste tão importante acontecimento. Contactada a Câmara parecia não haver vontade de nada, apesar de se saber que o exército tinha verbas para este género de acontecimentos.
A certa altura já não havia tempo a perder. E aquela ideia que deve ser sempre o estado, as câmaras a fazerem tudo, poderia também ser substituída por uma iniciativa cívica de cidadãos que, venha o que vier, poderiam contribuir com aquilo que têm e de que são capazes, a fim de celebrarem tão importantes acontecimentos.
Lembro-me que acordei um dia, precisamente no dia 17 de Janeiro de 2011 e tive vontade de enviar um mail ao Coronel Manuel Mourão, também co-autor, que conhecia apenas através das leituras que fazia dos seus bons artigos na Wikipédia, e a quem enviava de vez em quando também os meus escritos para corrigir, dada a minha deficiência em organização militar. Nesse mail convidava-o a escrevermos um livro, que era possível que tivesse de ser pago por nós, sobre a Batalha do Sabugal. Ele tinha precisamente um artigo na Wikipédia sobre a Batalha do Sabugal, e remodelando-o e aprofundando-o um pouco, poderia trazer ao livro a descrição da parte técnica da batalha. Respondeu-me logo a dizer que sim, mas que não queria gastar dinheiro. Já tinha o seu acordo, já não estava mal. Telefonei no dia seguinte ao Paulo Leitão Batista encorajando-o para a mesma tarefa, pois com aquilo que já tinha escrito sobre as invasões francesas no blogue Capeia Arraiana, poderia dar um bom contributo para o livro. Sobre os custos veríamos depois. Na posse das duas confirmações, convidei o editor Joaquim Pinto da Silva que se entusiasmou ainda mais do que eu com a ideia e devo dizê-lo sem rodeios que nos prestou, desde a primeira hora, todo o seu apoio, dedicação e saber, tendo custeado a edição que tem a chancela da Orfeu.
De fins de Janeiro a 3 de Abril o livro tinha de estar pronto. Os textos mais acabados eram os do Paulo Leitão Bastista, pois já os tinha publicado no blogue de que ele é director. Era necessário dar-lhe uma unidade e um título aglutinador e sugestivo. O Coronel Manuel Mourão tinha de trabalhar o seu texto do Wikipédia, consultar a bibliografia e refazer os croquis. E eu tinha de trabalhar os meus escritos que tinham sido redigidos numa outra óptica, a pensar num livro que se pretendia designar as batalhas de Ribacoa na 3ª. invasão francesa.
O tempo que restava do mês de Janeiro e de Fevereiro foi trabalhar de dia e de noite com os nossos textos, com o editor, com o grafista, com as correcções de cada um. Foi um mês de árduo labor. Mails, telefonemas todos os dias. Tudo devia ser visto ao pormenor. Foi uma autêntica epopeia.
Devo dizer que um livro de batalhas sem um militar, não poderia ser um livro sério. Foi precisamente através do contributo do nosso amigo coronel Manuel Mourão que este livro poderá ser considerado uma referência nesta importante batalha. Com ele adquirimos mais confiança. Ele confortou a nossa visão inicial. Proveniente das altas escolas militares de Portugal, continua ainda a dar o seu contributo no domínio histórico militar, escrevendo para a Wikipédia (e foi por aqui que eu o encontrei). É também no seu blogue (A Guerra Peninsular para além das Invasões Francesas) bem documentado e cheio de referências que nos continua a transmitir o seu saber sobre este tão importante tema.
Por fim, devo ainda referir o primeiro encontro com os autores, que ocorreu apenas no próprio dia das comemorações da Batalha do Sabugal, precisamente em frente da Casa do Castelo (Sabugal), no dia 2 de Abril. Nunca nos tínhamos visto. Foi deveras emocionante o nosso primeiro encontro real. O livro já estava feito, tinha acabado de chegar do Porto, que o tinha trazido o editor Joaquim Pinto da Silva. Ainda estava quentinho. O abraço que nos demos foi um abraço de amizade, depois de um intenso trabalho, na preocupação de fazer um livro dedicado a uma batalha que estava esquecida na rota das invasões francesas, mas que foi a última a ser travada em território português. Só depois da Batalha do Sabugal é que Portugal começou a ser um país livre, fora da alçada do jugo dos militares franceses que tanto dano causaram ao nosso país.»
Joaquim Tenreira Martins
As cerimónias oficiais da evocação da Batalha do Sabugal no sítio do Gravato tiveram início no dia 2 de Abril de 2011 no Auditório Municipal do Sabugal. O professor Adérito Tavares abriu «as hostilidades» explicando (como só ele é capaz) o «expansionismo napoleónico na Península Ibérica: o princípio e o fim». Já no dia anterior, sexta-feira, no mesmo local, uma plateia repleta de alunos das Escolas do Sabugal tiveram oportunidade de aprender com o ilustre historiador natural de Aldeia do Bispo. Seguiu-se o lançamento dos livros «A Batalha do Gravato – Narrativas do famigerado combate do Sabugal» da autoria de Manuel Morgado e Marcos Osório e de «Sabugal e as Invasões Francesas» de Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão, Joaquim Tenreira Martins e Paulo Leitão Batista. O prefácio e a apresentação do livro escrito a «três mãos» esteve a cargo do filósofo e pensador sabugalense mestre Jesué Pinharanda Gomes.
Na sexta-feira, 1 de Abril, os alunos do Agrupamento de Escolas do Sabugal encheram o Auditório Municipal do Sabugal para escutar e aprender com o historiador Adérito Tavares muitos pormenores pouco falados das chamadas batalhas napoleónicas entre franceses e ingleses (ajudados pelos portugueses).
No sábado, 2 de Abril, o Auditório voltou a encher-se de sabugalenses (e muitos militares fardados) para assistirem ao lançamento dos livros «A Batalha do Gravato – Narrativas do famigerado combate do Sabugal» da autoria de Manuel Morgado e Marcos Osório e de «Sabugal e as Invasões Francesas» de Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão, Joaquim Tenreira Martins e Paulo Leitão Batista.
O Presidente da Câmara Municipal do Sabugal, António Robalo, destacou no seu discurso de abertura: «Celebramos um percurso histórico que nos orgulha!» e quase a finalizar enfatizou que «tendo a História como única juíza das nossas acções, acreditamos profundamente ser este o caminho certo que melhor defende e promove o bem comum da comunidade que pretendemos servir e tendo no sorriso de quem servimos o único medidor de satisfação, acreditamos profundamente na força do nosso concelho e da nossa gente».
A vice-presidente da autarquia, Delfina Leal, ocupou-se da moderação encontro temático «Sabugal e as Invasões Francesas» onde marcaram presença Pinharanda Gomes, Adérito Tavares e os autores dos dois livros.
Mestre Pinharanda Gomes, com aquela humildade que todos lhe conhecemos, começou por dizer que «se sentia duplamente intruso na cerimónia». Em primeiro lugar «é mentira que tenha escrito um prefácio para o livro porque é um pós-fácio escrito depois da obra terminada mas como assim está instituído vamos então chamar-lhe prefácio» e o segundo acto de intrusão está relacionado com «a gentileza do convite dos autores que não necessitavam necessariamente da minha apresentação». «Agradeço a honra e a gentileza que me deram de estar aqui presente e vou dar o meu contributo pessoal apenas como leitor desta obra que foi editada pela livraria portuguesa e galega Orpheu. Sobre a temática do tenente-coronel Gouveia Mourão não me vou pronunciar porque não tenho competência para tanto. Fiquei livre da tropa e penso mesmo que nunca dei um tiro na minha vida». «Sobre o doutor Joaquim Tenreira Martins, natural de Vale de Espinho, o que posso dizer de alguém que é licenciado em Ciências Políticas na Universidade de Lovaine – um exclusivo que só apareceu em Portugal na Universidade Católica – e mestre pela universidade de Lille?». «O meu amigo doutor Paulo Leitão Batista aplica as palavras num modo estilístico. O prosador não tem de saber colocar o sujeito, o predicado, o complemento. A palavra para ser palato tem de sair do palato. A palavra sai do céu da boca para o papel. No caso do Sabugal temos depois de Manuel Leal Freire o Paulo Leitão Batista. Se lerem o livro «Terra Batida» temos as três memórias.»
Após a apresentação dos três autores mestre Pinharanda Gomes «explicou» a obra «dividida em três obras». «No primeiro texto tive que aprender a interpretar o ensaio político, táctico e militar acompanhado das dificuldades do terreno. Quando um autor é capaz de sonhar o sítio e descrevê-lo historicamente é uma arte. O texto beneficia desta virtude. Nas terceiras invasões francesas nem todos morreram no campo de batalha.» «O segundo livro é um estudo entre o sociológico e o militar nos séculos XVII, XVIII e XIX. Algumas passagens fazem lembrar o Hans Christian Andersen. A sua narrativa termina com o desastre de Napoleão.» «Finalmente o terceiro livro obedece ao canône histórico com pesquisa feita em fontes avulsas e chama ao palco as principais personagens da guerra – o Maneta era um general terrível, era um homem de cortar à faca – e termina, também, com a derrota de Napoleão que passou à condição de reformado em Liège com apenas 45 anos.
Para Jesué Pinharanda Gomes o livro «é um resumo das invasões francesas e uma separata do que se passou no Côa mostrando que o Wellington não quis envolver-se muito nas batalhas da fronteira porque talvez pensasse que era mais importante a defesa de Lisboa apesar de Napoleão a partir de certo momento idealizar não uma União Europeia mas uma Europa Imperial». A concluir recordou que «ainda hoje no retábulo da Sé da Guarda estão os sinais dos disparos das tropas francesas» não sabendo contudo se «alguma vez se fez algum inquérito aos males que os franceses fizeram aqui na Raia». «Felicito vivamente os autores, o editor e sugiro que comprem a obra», rematou Pinharanda Gomes.
jcl
As cerimónias oficiais da evocação da Batalha do Sabugal no sítio do Gravato tiveram início no dia 2 de Abril de 2011 no Auditório Municipal do Sabugal. O professor Adérito Tavares abriu «as hostilidades» explicando (como só ele é capaz) o «expansionismo napoleónico na Península Ibérica: o princípio e o fim». Já no dia anterior, sexta-feira, no mesmo local, uma plateia repleta de alunos das Escolas do Sabugal tiveram oportunidade de aprender com o ilustre historiador natural de Aldeia do Bispo. Seguiu-se o lançamento dos livros «A Batalha do Gravato – Narrativas do famigerado combate do Sabugal» da autoria de Manuel Morgado e Marcos Osório e de «Sabugal e as Invasões Francesas» de Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão, Joaquim Tenreira Martins e Paulo Leitão Batista. O prefácio e a apresentação do livro escrito a «três mãos» esteve a cargo do filósofo e pensador sabugalense mestre Jesué Pinharanda Gomes.
O Coronel Manuel Mourão falou em nome dos três escritores: «O meu agradecimento a Jesué Pinharanda Gomes por se ter dignado escrever o prefácio do livro. O livro está incompleto. O tema é muito vasto e estamos muito longe de esgotar o tema. Há muitos pontos obscuros acerca desta batalha. É preciso estudar a batalha tendo em atenção a doutrina e as forças em confronto. É preciso estudar tudo o que anda à volta desta batalha. É preciso contar o que pensavam as pessoas que cá viviam sobre a chegada dos franceses. É importante saber a visão que tinham os militares franceses sobre esta batalha. Em nome dos três autores do trabalho o meu muito obrigado a todos por terem comparecido.»
O editor Pinto da Silva (Editora Orfeu) aproveitou para fazer alguns agradecimentos: «Vou contar uma cena porque sou funcionário de uma instituição comunitária. Um dia um comissário europeu (alemão) foi a uma reunião e começou o discurso desta maneira – É a segunda vez que estou aqui. A primeira vez foi de pára-quedas – E, claro, criou um grande mal-estar. Estou aqui por causa da família Tenreira Martins que me deram a beber chá de poejo e fiquei assim e estou aqui por causa da Casa do Castelo e a família Bispo. Agradeço aos autores. A Orfeu está sedeada em Bruxelas e produz há 25 anos onde passaram por lá muito dos políticos e da cultura portuguesa. A nossa condicionante é a cultura portuguesa e nunca a política. Democraria, cultura, abertura é o que nos interessa na Orfeu.
A intervenção do professor Adérito Tavares teve por tema «O expansionismo napoleónico na Península Ibérica: o princípio do fim». O historiador, natural de Aldeia do Bispo, começou por recordar que «tinha sido um grande privilégio ter falado aqui ontem para cerca de 200 alunos das Escolas do Sabugal que se portaram lindamente. Será um momento marcante destas cerimónias».
O historiador ilustrou a sua apresentação com excelentes cartoons britânicos contemporâneas das batalhas das invasões francesas disponíveis na página web da Universidade de Oxford. E foram muitos os tópicos abordados por Adérito Tavares começando por desmistificar um símbolo da cidade do Porto que muitos confundem e transportam para a clubite desportiva. «A estátua do Porto com o leão e a águia é a luta ibérica. A águia napoleónica recebeu feridas profundas nas batalhas ibéricas. Napoleão Bonaparte foi um plano megalómano que pretendeu unir a Europa mas não contou com o apoio da Inglaterra. A Inglaterra veio à Península Ibérica defender Portugal porque entender ser um excelente campo de batalha para combater os franceses. Na verdade, foi na Península Ibérica que a águia napoleónica começou a ser ferida de morte, como vemos no monumento da Rotunda da Boavista, no Porto. A Guerra Peninsular, como dizia Churcill a propósito de outros combates foi o princípio do fim para Napoleão Bonaparte e para o seu projecto megalómano. E a Batalha do Sabugal contribuiu para apressar o fim desse princípio», esclareceu.
«A ocupação da Península Ibérica fez-se graças a poderosos exércitos mas também à custa de uma bárbara repressão exercida sobre a população portuguesa e espanhola. Junot e as suas tropas rapinaram tudo quanto puderam (incluindo ouro) em Portugal. O povo português sofreu tal como o espanhol que tiveram Goya para retratar os assassínios nas 80 gravuras «Los Desastres de la Guerra».
«Os efeitos da passagem dos exércitos napoleónicos pelas terras do Sabugal foram devastadores. Por todo o lado os invasores aterrorizaram as populações, que preferiram abandonar as aldeias e refugiar-se nos campos. Depois da imensa calamidade que foram as invasões francesas veio a ocupação britânica. Se Portugal não morreu da doença (franceses) podia ter morrido da cura (ingleses)», concluiu Adérito Tavares.
Joaquim Tenreira Martins falou de Massena. «Massena foi nomeado por Napoleão e prometeu-lhe um grandioso exército bem equipado. Massena veio para Portugal acompanhado da sua amante e contam-se sobre o casal várias situações anedóticas. Antes da Batalha do Buçaco o ajudante de campo teve de lhe bater à porta do quarto para lhe lembrar que já estava atrasado cerca de uma hora. Massena esteve perto de ser capturado. Na Ruvina aconteceu um episódio burlesco. Ainda antes da Batalha do Sabugal a tentação da carne fez com que Massena tivesse de saltar para o cavalo sem roupa para fugir. A primeira tentação que Massena teve aconteceu em Celorico. O exercito de Portugal tinha chegado a Celorico sem sapatos nem farda. O moral estava de rastos mas Masssena queria provar que o seu exército ainda tinha capacidades. No dia 22 de Março deu ordem aos três corpos de exército que avançasse contra a Guarda e Sabugal. Michael Ney informou Massena que sem ordens expressas do Imperador não avançaria contra os ingleses e mesmo que fosse destituído ou condenado à morte não tomaria a decisão de avançar sobre Almeida.
Paulo Leitão Batista reescreveu a história recordando que «é comum falarmos de três invasões de Portugal perpretadas pelos exércitos napoleónicos e todos conhecemos, aliás, os comandantes franceses dessas três invasões: Junot, Soult e Massena». Porém «houve uma quarta invasão de Portugal, comandada pelo marechal Marmont, que poucos conhecem e que a história, por regra, omite. É contudo ousadia chamar-lhe invasão, pois tratou-se tão só de uma incursão ou sortida do exército francês em território português, ou ainda, usando a linguagem táctico-militar, de uma manobra de diversão».
Durante a sua intervenção Paulo Leitão falou da substituição de Marmont por Massena, da acção de Wellington em Portugal, do susto de Napoleão Bonaparte com a possível ofensiva sobre Badajoz, a invasão de Portugal pelo marechal Marmont, o malogrado plano de Trant e as atrocidades da quarta invasão.
O encontro finalizou com a intervenção do coronel Sodré de Albuquerque com o tema «a importância da ponte do Côa, no Sabugal, para o êxito do exército aliado na perseguição a Massena».
Para ficar a saber tudo, mas mesmo tudo, sobre as Invasões Francesas recordamos a sugestão de Pinharanda Gomes: «Comprem a obra!»
O Capeia Arraiana felicita os três autores pela qualidade do seu trabalho.
jcl
Pinharanda Gomes, consagrado escritor e filósofo natural de Quadrazais, vai apresentar no sábado, dia 2 de Abril, pelas 14h30, no Auditório Municipal do Sabugal, o livro «Sabugal e as Invasões Francesas», que incluiu os textos que Paulo Leitão Batista publicou acerca do tema no Capeia Arraiana.
Pinharanda Gomes, ele próprio um colaborador de longa data do blogue Capeia Arraiana, assinou o prefácio do livro, que para além de Paulo Leitão Batista, tem ainda como co-autores Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão e Joaquim Tenreira Martins.
O lançamento da obra conta ainda com a presença do editor, Joaquim Pinto da Silva, da editora Orfeu, com sede em Bruxelas.
O coronel Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão, especialista em História Militar, escreve sobre a Batalha do Sabugal, explicando os pormenores do combate entre o segundo corpo do exército francês, comandado por Reynier, e as tropas aliadas, comandadas por Wellington. O escritor e investigador Joaquim Tenreira Martins, natural de Vale de Espinho, aborda aspectos ligados à terceira invasão e à passagem das tropas por Riba-Côa. Paulo Leitão Batista, nascido no Sabugal, recuperando o essencial dos textos publicados no blogue, escreve sobre aspectos curiosos das invasões, nomeadamente acerca da passagem das tropas pelas terras raianas que actualmente formam o concelho do Sabugal.
Seguidamente ao lançamento do livro, dois dos seus autores, Paulo Leitão Batista e Joaquim Tenreira Martins, integrarão o painel de oradores do «Encontro Temático» dedicado às invasões, que a Câmara Municipal e a empresa Sabugal+ programaram para essa mesma tarde de 2 de Abril no Auditório Municipal.
aps
No bicentenário da Batalha do Sabugal, vai ser lançado o livro «Sabugal e as Invasões Francesas», que dá a conhecer a real importância do Sabugal e da sua região no contexto dos movimentos militares e dos confrontos que ocorreram no decurso da Guerra Peninsular.

O livro, editado pela Orfeu, tem três autores, o que proporciona perspectivas diferentes do que foi o Sabugal no contexto das invasões napoleónicas.
Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão descreve em pormenor a Batalha do Sabugal, acontecida em 3 de Abril de 1811. Explica as movimentações de retirada do exército de Massena, descreve o local onde se deu a batalha e as forças em presença, decifra os planos de Wellington para o confronto e a forma como realmente a batalha ocorreu. Os textos são complementados por croquis muito elucidativos, onde se observam os movimentos planeados e as manobras que foram de facto executadas.
Joaquim Tenreira Martins escreve sobre o Sabugal no tempo de Napoleão. Explicita o contexto histórico em que aconteceram as invasões francesas, com destaque para a terceira, que foi a que mais afectou a região do Sabugal. Desenvolve uma sugestiva e interessante tese acerca das duas «tentações» de Massena em diferentes momentos do movimento de retirada. Descreve o contexto em que aconteceu a Batalha do Sabugal e pormenoriza os planos e os movimentos das tropas que se digladiaram depois em Fuentes de Oñoro.
Paulo Leitão Batista traça alguns retratos do que foram as movimentações militares, os combates e os actos colaterais, tendo por cenário Riba-Côa e em especial as terras raianas do Sabugal. Descreve episódios pouco conhecidos e traça o perfil de alguns dos famosos generais que por aqui passaram em campanha.
O prefácio do livro é da autoria do escritor e filósofo quadrazenho Pinharanda Gomes, que aceitou escrever algo acerca da oportunidade da publicação da obra.
E quem são os autores do livro, que será apresentado no Sabugal, em sessão pública, no dia 2 de Abril?
Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão, Coronel de Infantaria na Reserva, natural de Lisboa e residente em Torres Vedras, é especialista na área da História Militar, sendo ainda colaborador da Wikipédia no domínio da Guerra Peninsular.
Joaquim Tenreira Martins, nascido em Vale de Espinho, no concelho do Sabugal, e a residir em Bruxelas, é investigador do Instituto Superior de Ciência Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa e desde há alguns anos que tem estudado e publicado artigos sobre a temática das invasões francesas.
Paulo Leitão Batista, natural do Sabugal e a residir em Lisboa, é co-autor do blogue sabugalense Capeia Arraiana, onde tem publicado textos sobre as invasões francesas. Foram precisamente esses textos que estiveram na base do seu contributo para o livro que vai agora ser editado.
plb
A atrelagem do gado bovino fazia-se por intermédio de jugos e cangas, pelos quais se puxava o carro e o arado. O jugo e a canga são porém instrumentos muito diferentes, variando a sua forma de terra para terra.
A canga consiste numa trave de madeira trabalhada e adaptada a ser colocada sobre o cachaço de dois animais de tracção, para que puxem ao carro ou lavrem a terra. A melhor das cangas é feita em madeira de nogueira. Ao centro tem os castelos, que é a parte recortada da canga, por onde passa o tamoeiro (ou bardão), nome dado à tira forte de couro usada para prender a cabeçalha (ou cambão) à canga. Tem ainda quatro hastes, chamadas cravelhas (ou chavetas), cuja função é encaixarem no pescoço das vacas. Na extremidade das cravelhas prende o barbante, que é uma correia de couro, ou corda, que passa por baixo da barbela dos animais. Ao centro está o vergueiro, que consiste numa barra de ferro cuja função é evitar que a canga revire quando os animais fazem tracção. A canga encosta ao cachaço do animal, mas para além do barbante, que a prende ao pescoço, também é segura aos chifres, através da apeaça (ou piaça), que é uma correia de couro.
O jugo é por sua vez uma trave de madeira com duas curvaturas, próprias para encaixar na nuca das vacas, para fazerem tracção. É uma espécie de canga, com a diferença de não possuir cravelhas, assentando as curvaturas, ou gamelas, directamente na cabeça dos animais, sendo cingidas aos cornos através de uma correia. A esta correia chamavam soga ou corneira, e era mais pequena do que a apeaça, usada com a canga. Para protecção da nuca dos animais era colocado um pedaço de pele de cabra ou de ovelha, chamada melena (ou molena) que se colocava entre o jugo e a cornadura das vacas. Tal como a canga o jugo também tem castelos, por onde passa o tamoeiro.
Pelo descrito se verifica que a canga e o jugo são instrumentos diferentes. A canga aplica o «sistema jugular», em que o animal puxa com a corcova do cachaço e a cabeça tem liberdade de movimentos. O jugo aplica o «sistema cornal», em que o animal puxa com os chifres, estando a cabeça completamente impedida de movimentos, sendo portanto o jugo de uso mais penoso para os animais.
Na região de Riba Côa, tanto a canga como o jugo tem formas simples e práticas, mas noutras partes do país estes instrumentos assumem formas melhor elaboradas, onde o artista que os produziu espelha o seu saber e a sua arte. Exemplos disso são os jugos de tábua usados no Minho e noutras terras do norte, os quais são altos e profusamente entalhados e vazados, o que lhes deixa uma decoração muito vistosa.
Paulo Leitão Batista

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