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Estão na moda as caminhadas. Por tudo e por nada se organiza uma caminhada. É um bom convívio, certamente, mas eu cá prefiro a solidão do meu caminho.

Mondeguito

João Valente - Arroz com Todos - Capeia ArraianaAndar a pé é uma nobre arte, semelhante à dos antigos cavaleiros andantes, que muito poucos entendem e que nenhuma fortuna é capaz de comprar, porque exige os requisitos do lazer, liberdade e independência, que são essenciais a um bom andarilho e comuns aos heróis.
A origem da palavra andarilho está no sauntering palavra que derivada de sainte-terrer, vadios que na idade média pediam esmola para ir à Terra Santa. Os que iam eram os saunters, os outros, meros vagabundos, que tão bem retrata o romance anónimo medievo, El Lazaralilho de Thormes. Mas para partir era necessário um estado de espírito de total despojamento; era o desprendimento de pai e mãe, irmão e irmã, esposa e filho, amigos, na incerteza da viagem, o saldar as dívidas, fazer o testamento, deixar os negócios em ordem e ser um homem livre para iniciar a caminhada.
Neste sentido o andarilho era também um Sans terre, um sem pátria, no sentido em que a sua pátria passava a estar em toda a parte. É este o verdadeiro segredo do sauterning. O pertencer a toda a parte e a nenhuma em particular. O peregrino renunciava a seu trabalho, fonte de seu sustento cotidiano, trocando a segurança e o conforto de seu lar, seu espaço homogêneo, conhecido, familiar, pela heterogeneidade do espaço desconhecido, pelo imponderável.
Em suma; a peregrinação era uma aventura, tal como o caminhar na natureza o deve ser!
Por isso, pertencer à verdadeira família dos andarilhos, ser andarilho, exige um desprendimento de alma, uma ascese, igual à do peregrino. E esta alma de peregrino que deve ter o caminhante, não se adquire; tem de se buscar no interior do coração de cada um: Ambulatur nascitur, non fit.
Podem-se fazer dezenas de caminhadas nas quais se tem a felicidade de percorrer as matas, as colinas, os campos, longe das preocupações mundanas mas sem este espírito de desprendimento nunca conseguiremos ter os sentidos despertos, a imaginação livre para a verdadeira fonte da vida que é a natureza.
É na rusticidade da natureza que está a preservação do mundo. Uma comunidade subsiste, não mais pela existência de homens bons que nela vivam mas também pelas matas e charcos que a circundam. Um território onde uma floresta primitiva cresça sobre outra que apodrece no subsolo, tanto fornece trigo e batatas como poetas, filósofos e reformadores para as gerações vindouras. Homero, Confúncio e Licurgo, comeram trigo e mel como todos os homens. Não é por acaso que os Eubeus, originários de uma ilha vulcânica e pioneiros da expansão grega para ocidente procuravam solos vulcânicos para estabelecerem as colónias, ou que Rómulo e Rémulo tenham sido amamentados pela mítica loba; é que nações civilizadas como Grécia ou Roma – devem a sua existência a florestas primitivas que há séculos se decompuseram, tendo sobrevivido enquanto se não exauriu o solo desse adubo vegetal.
Tudo o que o homem civilizado é, deve-o pois à natureza! Quantas vezes o esquecemos…
Mas também o mais belo é o mais natural e selvagem… O pato selvagem é mais veloz e belo que o doméstico; um livro verdadeiramente bom é algo tão natural e inexplicavelmente belo como uma violeta descoberta num lameiro.
De que serve pois organizarmos caminhadas, os nossos passos levarem-nos às florestas, ao campo, à serra, se o nosso coração não consegue levar-nos até lá? De que serve lá estarmos corporeamente, sem lá entramos em espírito?
Só a liberdade e solidão do andarilho proporciona aventura e a sensação de sair do nosso mundo, para nos internarmos numa floresta, tornando os nossos passos tão frescos naturais e verdadeiros que parecem expandir-se como os botões de rosa à aproximação da Primavera. Só ela tem a magia de fazer com que um caminho percorrido anos a fio, traga sempre novas sensações; uma simples casa de campo que se ainda não deparara, quebre subitamente a monocromia do prado, uma andorinha sobre um junco do ribeiro lembre o conto do príncipe feliz de Oscar Wilde que acabámos de ler, na forma bizarra de uma raiz saliente de um pinheiro a imaginação veja a cara de uma pessoa conhecida.
Enfim, a natureza tem uma personalidade tão vasta e universal que jamais vimos algo de igual feição. É este o segredo.
Há tempos repeti uma caminhada que costumava fazer na juventude. Foi a pé, para ir dormir ao Covão da Ponte, na Serra da Estrela. Subi a estrada que vai de Manteigas à Pousada e apanhei uma cortada em terra batida que depois de uma íngreme subida de dois kilómetros sobre o Vale de Sameiro, desce mais outros quatro pelo vale, fonte de um pequeno riacho, semeado de pequenas quintas de culturas estivais e pastos. Lá ao fundo é o Covão da Ponte com o Mondeguinho cristalino e frondosíssimo arvoredo, e na encosta oposta, a subida para os Casais de Folgosinho, povoada de castanheiros.
Era pelo fim do dia e tive a uma das mais notáveis paisagens de crepúsculo Estival da vida. Já tinha feito dezenas de vezes aquele trajecto e àquela hora, mas nunca tinha reparado como o sol a entrar nas alas da mata sobranceira ao Covão, incendiava a majestosa mancha dos seus castanheiros e justamente antes de se pôr, desencadeava a mais branda e brilhante luz solar sobre o pasto.
Assim, peregrinando, a minha sombra projectando-se no caminho, o sol brilhou no meu espírito, aqueceu o meu coração com a sua luz serena e dourada, naquela colina de Verão, como nunca tinha acontecido.
Haverá lá coisa no mundo que pague isto?
Esta semana vou fazer pela enésima vez o mesmo trajecto, e de certeza que me vou agradavelmente surpreender com qualquer novidade na paisagem, porque vou sozinho e imbuído do tal espírito livre de andarilho.
Até sempre! Não sei se e quando volto…
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

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