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Vamos comparar como era dantes numa e noutra destas nossas duas aldeias. Pelo olhar de dois padres (curas), proponho hoje um exercício comparativo. Podemos ficar a conhecer melhor as duas aldeias que cercam a Serra d’ Opa. Estamos em 1758. Trata-se da organização paralela das respostas que os dois padres deram aos serviços de Lisboa / Marquês de Pombal, através do «interrogatório» de um Padre chamado Luís Cardoso.

Primeira constatação: o Casteleiro era anexa de Sortelha, em termos religiosos, e dependia dessa sua então sede de concelho em termos civis; o Vale tinha autonomia religiosa. Mas havia cura (padre responsável) em ambas as freguesias.
Um apontamentozinho pessoal: gosto mais da caneta de aparo mais fino do Padre Olival: dá melhor leitura. Publicamos hoje nesta peça a 1ª página. Quanto às respostas do padre do Casteleiro, já publiquei uma no «Capeia» e podem ser consultadas no «Viver Casteleiro» – ver link aí em baixo.
Mas acho que aquele cura (Padre Olival) era mais analfabeto que o do Casteleiro. Escreve, por exemplo, que há «sento» e doze fogos no Vale (assim mesmo: sento). Mesmo para o século XVIII, é obra… O outro, o Padre Leal, escreve bem a palavra e diz que no Casteleiro há «cento e cinquenta e dois fogos».
Portanto, e já agora: o Casteleiro tinha mais gente. Mas o Vale é mais rico: ao cura, o Vale assegurava uma renda anual de 200 mil réis e o Casteleiro apenas 20. Coitado do Padre Leal… Custa-me aliás a crer tamanha disparidade de rendimentos. Pode haver aqui ou dualidade de critérios ou erro de um deles. Acho estranho.
Depois, verifique-se que ambas as terras «pertencem a El Rei». Não têm nem senhores nem donatários.

As duas aldeias
O Vale desse tempo é contornado pela sua ribeira, que vem de Santo Estêvão e vai para a Benquerença mas que só corre durante alguns meses no ano. Portanto, parece-me que o Vale também se deslocalizou um pouco, tal como a minha terra. Mas têm de ser as pessoas do Vale a confirmar essa alteração e a explicá-la, claro. Falando com os mais velhos, em geral obtêm-se pistas que levam a outras pistas… e tal… e as conclusões por vezes surgem.
O Casteleiro, confirmemos, ia até Cantargalo. Portanto, estendia-se pela ribeira (que pode ver na imagem). E só chegava a 30 passos da capela de São Francisco, onde hoje é o largo principal, à beira da actual estrada nacional.
Noto que o Padre Leal, do Casteleiro, não tem os seus paroquianos em grande conta. É que, perguntado pelos serviços de Lisboa «se há memória de que florescessem, ou dela saíssem, alguns homens insignes por virtudes, letras ou armas», o cura tem o desplante de se exprimir assim sobre os meus antepassados: «Nada por ser gente muito rústica e não se lembrarem de memória alguma».
Mas, pelos vistos, as pessoas, tanto do Casteleiro como do Vale, escrevem e lêem: ambas as terras se servem do correio de Penamacor – afirmam os dois curas.
As duas aldeias, como todos saberão, ficam uma de um lado e outra do outro de uma serra. Mas qual é o nome da serra? Para o Padre Olival (do Vale) é a Serra do Pa. Para o Padre Leal é a Serra d’ Opa. Vou pelo da minha terra: como já escrevi, foi assim que sempre ouvi chamar à serra.
No que eles também não se entendem totalmente é na caracterização do «temperamento» (clima, penso) da serra. Diz um, o do Vale, que é «quente e saudável». E diz o outro que «é frio mas saudável».
As duas terras são livres e pertencem a El Rei. Vê-se ao longo das perguntas a repetida preocupação sobre a existência de «senhores» e de «privilégios». E os padres sempre a darem a mesma resposta: «Nada». «É d’ El Rei». «As águas das ribeiras são livres».

Senhora da Póvoa e Santa Ana
Acho estranho que no relatório sobre o Casteleiro não haja uma letra sobre a Senhora da Póvoa. Mas, provavelmente, a Senhora da Póvoa não era ainda conhecida fora do Vale. Ao que li, isso só vai acontecer uns anos depois destes textos, lá mais para o fim do séc. XVIII (terá a imagem original realmente vindo à força da Póvoa, perto do Meimão?).
As romagens do Casteleiro eram efectuadas até meia encosta da Serra d’ Opa, à capela de Santa Ana. Quem ia a estas romagens a Santa Ana? «Somente os moradores do mesmo povo» do Casteleiro, diz o cura da terra.
Pelo contrário, as respostas do Padre Olival deixam claro que há muita devoção por ali: «Tem a Senhora da Póvoa muita gente em romaria em todo o decurso do ano e o maior concurso é na segunda e terça do Espírito Santo».
Duas constatações interessantes:
– primeiro: no Casteleiro, a capela de São Francisco (que à data ficava mesmo no limite da terra, repito) estava «sujeita» ao convento de Santo António, em Penamacor. Faço notar a propósito que, hoje, a maior festa anual é a de Santo António;
– segundo: ora, no Vale, a maior festa já era a da Sra. da Póvoa, mas há anotação de outra devoção: Santo Antão. Registo isso só para recordar que Santo Antão é o padroeiro de Sortelha – a maior festa anual da terra. Coincidência ou influência?

Economia farta para a época
Tenho escrito que havia muita actividade económica na minha terra. Agora acrescento que também no Vale. Leia:
Pergunta do Marquês:
Se tem moinhos, lagares de azeite, pisões, noras, ou outro algum engenho?
Respostas:
1. ValeTem esta ribeira de onde principia até à Benquerença quatro lagares de azeite e quatro moinhos.
2. CasteleiroTem dentro do limite desta freguesia esta ribeira sete moinhos e três lagares de azeite, dois pizoins e algum dia teve também um tinte, porém hoje se acha demolido.
Mas há algo em que o Padre Leal, do Casteleiro, falha. Quando lhe perguntam (como aliás ao do Vale) «se em algum tempo, ou no presente, se tirou ouro das suas areias», respondem ambos: «Nada».
Ora, a verdade é que 35 anos antes da data dos documentos destes padres, mais exactamente em 1723, houve uma tentativa de explorar ouro no Casteleiro. Pode ler isso aqui. E era obrigação do Padre Leal dizer isso ao poder central. O Marquês teria mandado abrir minas – e hoje o Casteleiro seria o El Dorado de Portugal!

Notas especiais sobre o Casteleiro
Permitam agora que me dedique um bocadinho só à minha terra. Para duas chamadas: uma sobre o que chamaria o mistério da Serra da Preza e outra sobre a Mitra e a Comenda, que levavam parte dos rendimentos da terra.
1º – Na serra da Preza, havia uma preza. Nada de mais. Mas antigamente (muito antes pois do século XVIII), alguém teria pensado em canalizar a água desse reservatório pois «queriam em tempo antigo levar essa água por canos onde chamam a Torre dos Namorados, distante dela quatro ou cinco léguas».
Este é como que um projecto antecessor do canal de regadio actualmente existente da Meimoa para Sul, para a Cova da Beira…
2º – O Padre Leal regista que aí para sul, nos limites da freguesia, lá para os lados do Escarigo, os rendimentos da terra são assim divididos: «tem a Mitra duas partes em todos os frutos e a Comenda uma». Mas lá para Gralhais, «das Portellas para baixo, tem a mitra duas partes e a Comenda uma, e das Portellas para cima terá a Comenda duas partes e a Mitra uma, em todos os frutos».
Leio na Wikipedia que «uma comenda é um benefício que antigamente era concedido a eclesiásticos» e que a Mitra é afinal também uma «dignidade ou jurisdição de um prelado eclesiástico».
Por fim, uma nota de humor do Padre do Casteleiro: acho que ele estava a gozar com o Terreiro do Paço quando escreveu que na terra há à beira da ribeira oliveiras e amieiros. Mas que os «amieiros, porém, não dão frutos»… Só pode estar a brincar com os lisboetas da altura e a chamar-lhes ignorantes. Deve ter sido uma pequena vingança, pois é sabido que os padres não queriam responder ao Marquês, o que só fizeram depois de ameaçados.

Se pretende aceder ao texto integral das respostas destes dois curas (o do Casteleiro e o do Vale de Lobo), clique aqui – portal para onde levei um cotejo de ambas.

Finalmente, uma nota de agradecimento: o texto sobre o Casteleiro foi trabalhado e disponibilizado por António Marques aqui e o do Vale por Américo Valente aqui (3º tema).
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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Estava-se em 1758. O Marquês, no início desse ano, mandou perguntar a todos os Padres do País que tutelavam paróquias uma série de coisas sobre a organização local e as potencialidades das aldeias.

O Cura Manuel Pires Leal respondeu pelo Casteleiro a 25 de Abril de 1758. Já falei dessas «Memórias Paroquiais» em síntese global. Hoje trago dois pormenores muito interessantes para reflexão de quem se interessa por estas coisas.
Lendo com pormenor e muita atenção as perguntas do Marquês e as respostas do Cura, ficam algumas hesitações espalhadas pelo nosso cérebro fora…

Hoje, dedico umas linhas a duas dessas dúvidas.
Outras poderão vir mais tarde.
Porque acreditamos que o Padre Leal respondeu com verdade e respeitando a toponímia e a localização dos casarios da época, vem-me à cabeça desde o primeiro dia em que o li, que algo não bate certo com os dias de hoje e que há contradição entre a geografia do tempo do padre e a de hoje…
Se não, leia:

1º – O Casteleiro «mudou de sítio» durante o século XIX?
Isto é: será que o Casteleiro era mais estendido lá para os lados da Ribeira e quase nada cá para os lados da estrada nacional, onde está hoje a maior parte das casas, e será que esse crescimento para o que hoje é se deu durante o século XIX? E porquê?
Atenção: na altura (século XVIII) eram apenas 500 pessoas que aqui habitavam. É certo que hoje são um pouco menos, mas já chegaram a ser perto de 1 500, antes da emigração, segundo creio.
Tenho quase a certeza de que assim era. Mas mantenho a interrogação, para já.
Vamos então à minha dúvida.
Lendo uma das respostas do Cura da Freguesia, pode parecer que o Casteleiro no século XVIII não ficava no mesmo local onde hoje está. E pode de facto ter havido um crescimento para cima. Eu explico: hoje, sem dúvida, a aldeia está organizada sobretudo em relação à estrada. O domínio crescente do automóvel durante o século XX, sobretudo a partir da II Guerra Mundial, deve ter tido essa influência: a terra que estava virada mais para a Ribeira e para Sul, agora apresenta-se mais a Norte e alargou naturalmente ao longo da estrada nacional.
De facto, à pergunta do Terreiro do Paço «Se a paróquia está fora do lugar ou dentro delle», o Padre Leal respondeu assim, com a naturalidade de um espírito rural para quem nada mais havia do que a agricultura e por isso tomando a ribeira e Cantargalo como o centro da vida dos aldeões:
«A paróquia está feita no lugar e logo junto às casas, tem uma quinta que chamam Cantargalo tem um morador; e tem outra que chamam do Espirito Santo, tem outro morador».
Repare: Cantargalo tinha um morador, era uma quinta, está «logo junto às casas».
Por isso é que me ocorre que de duas uma:
a)- ou a aldeia se espalhava muito mais do que hoje acontece ao longo da ribeira (Cantargalo hoje fica a uns bons 1 500 metros do Alvarcão, últimos terrenos com uma casa); ou
b)- o Cura Leal chamou Cantargalo ao que hoje se chama Ribeira, depois, a seguir, Tinte – é que só depois é que vem aquilo a que hoje chamamos Cantargalo…
O que me parece verosímil é que a aldeia há 250 anos se localizasse mais lá para baixo para a Carreirinha e para a Ribeira e que só mais tarde, no século seguinte, tenha começado a estender-se para cima, na direcção da estrada romana – por onde depois acabaria por ser delineada a Estrada Nacional nº 345.
Mais e mais garantido: o Padre diz aí em baixo que há uma capela de «S. Francisco que está fora do lugar quase trinta passos». É isso, não posso ter qualquer dúvida. A aldeia desenvolvia-se para Sul, vinha de Cantargalo (deve ser exagero do Padre Leal) e chegava até ao Reduto ou um pouco mais acima. Disso não podemos ter dúvidas. Porque é o Padre Leal que o afirma peremptoriamente, quando diz que a capela de São Francisco (no Largo de São Francisco) fica fora do lugar quase 30 passos.
Ou seja: a aldeia terminava antes do Terreiro de São Francisco!
Mais propriamente: terminava 30 passos antes.
Mistérios insondáveis…

2º – Haveria a meia encosta da Serra d’Opa um pequeno povoado chamado Santa Ana?
Antes de mais, uma coisa importante e já várias vezes discutida aqui no «Capeia».
Note que o padre Leal escreve «Serra d’Opa» (ver abaixo), tal e qual como já uma vez aqui defendi que se devia dizer e não «Serra da Opa» nem nada que se pareça. Há que respeitar essa pronúncia popular – o Padre de certeza que não inventou essa grafia: antes pretendeu com ela reproduzir o linguajar do Povo da «sua» terra…

Voltando à minha hipótese: haveria a meia encosta da Serra d’Opa um pequeno povoado chamado Santa Ana?
Eu explico onde fui buscar essa ideia.
Num primeiro grupo de respostas, pareceu-me que a expressão «o mesmo povo» se referia ao Casteleiro propriamente dito e nem me passou pela cabeça que fosse outra coisa.
Mas mais tarde, ao ler com mais atenção, a ideia ficou presa cá dentro: será que havia ali a meia encosta um aldeamento?
Veja por si mesmo. Baseio a dúvida em dois grupos de respostas do Cura ao Marquês:

1º grupo de respostas do Padre Leal: «À ermida de Santa Ana costumam os moradores do mesmo povo fazer romagem». «Tem quatro ermidas. Uma de S. Sebastião, esta está fora do lugar quase cem passos, e outra do Divino Espírito Santo, esta está dentro do lugar, e outra de Santa Ana, esta está fora do lugar à distância de meia légua, e outra de S. Francisco que está fora do lugar quase trinta passos e nela está erecta a irmandade dos terceiros, sujeita ao convento de Santo António da vila de Penamacor e todas estam sujeitas à igreja matriz do dito lugar de Casteleiro».
«Mesmo povo», repare. É o que o Padre escreve, sem que eu possa garantir de que «povo» (aldeia) se trata.

2º grupo de respostas: «Quase no meio da serra chamada d’Opa está a Ermida da Sancta Anna, acima já declarada, e somente os moradores do mesmo povo costumam ir lá em romagem algumas vezes».

«Os moradores do mesmo povo» (povo aqui significa claramente também aldeia) serão então os moradores do Casteleiro ou os moradores de Santa Ana?
Não sei.
Não consigo afirmar. Só coloco na interrogativa: haveria a meia encosta da Serra d’Opa um pequeno povoado chamado Santa Ana, pertencente à Freguesia do Casteleiro e hoje totalmente desaparecido?
Custa-me a crer que não deixasse restos, mas a redacção do Padre permite-me pelo menos colocar-lhe a dúvida a si…
Se quiser seguir passo a passo as «Memórias», digo-lhe mais uma vez que basta seguir o link, ou seja: basta clicar aqui.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

«Memórias Paroquiais do Castelleyro», que já antes trouxe ao «Capeia Arraiana», são um texto riquíssimo em informação. António José Marques, actual presidente da Junta, fez bem que as plasmou no sítio da Junta de Freguesia da minha terra. Tenho passado bons momentos a penetrar mais fundo no que ali leio.

A vida é muito mais rica do que parece e quando nos parece que já nada havia para descobrir sobre o Casteleiro – não por não haver passados, mas por não haver quem fosse esgatanhar e descobrir documentos, vestígios, provas, indícios… –, quando julgávamos que nunca iríamos saber nada de concreto, eis que, mercê do esforço da actual Junta de Freguesia, nos «cai no prato» da nossa curiosidade este documento fabuloso, fascinante.
Trata-se, como já antes escrevi, de uma espécie de Relatório. São as respostas de um pároco às perguntas do Terreiro do Paço. Minto, por acaso nesse ano de 1758, o Palácio do Rei e os serviços do Marquês já não estavam no Terreiro do Paço mas sim, ao que julgo saber, em Belém, em consequência do terramoto de 1755. Consequências da terramoto no País, que são também um dos móbeis do Marquês: avaliar a situação global. Já agora, digo-lhe que o Padre Leal a isso responde de modo taxativo que o Casteleiro «não padeceu ruína alguma no terramoto de 1755».
O Cura Manuel Pires Leal responde ao inquérito no dia 25 de Abril de 1758. Premonição? – dá vontade de brincar…
O resultado são as «Memórias Paroquiais do Castelleyro», como haverá as do Sabugal ou de Aldeia Velha, já que o inquérito foi dirigido a todas as «paróquias». Registo que nesse tempo não havia freguesias, por um lado e, por outro, a divisão de base da organização territorial religiosa sempre foram as paróquias, como se sabe.
Quem puder ou gostar e tiver uns minutos, por favor não deixe de ler aqui o que o Padre Leal responde ao Marquês.
Colocada assim a introdução, resta-me recomendar que cada freguesia procure as suas Memórias dessa época, desejavelmente, com apoio da CM Sabugal / Pelouro da Cultura. Daí poderá resultar uma surpresa para muitas localidades…

Quatro grandes impressões
Quando li aquele documento no «Viver Casteleiro», fiquei vidrado. Por um lado, pela organização das respostas e pelo que me parece ser o rigor de alguém que, por um lado, conhece bem a realidade local e, por outro, parece levar a sério a importância das suas respostas quer para os objectivos do Reino quer para benefício eventual da localidade. Ao ler, tive mesmo a sensação de que ele, o Padre Leal, tinha a noção de que mais tarde estas respostas poderiam ser interessantes para quem como nós queira conhecer e perceber de onde vem, como se vivia antes no mesmo lugar e que riquezas já havia nessa terra.
Fiquei, a esse propósito, com quatro impressões centrais:
1ª – O Marquês: um homem sabido e bem rodeado, para ter engendrado esta estratégia de obrigar os párocos a debitarem o que sabiam para elaborar esta espécie de censos/1758.
2ª – O Pároco: homem certamente menos rude do que habitualmente nos vende a literatura do século XIX quando coloca nos enredos os padres dos séculos anteriores.
3ª – A economia: muito mais diversificada do que se pensaria – seguramente muito mais do que eu pensava.
4ª – O território: a sua organização diferenciada no que toca, por um lado, à gestão religiosa e, por outro, à gestão do Estado: justiça, poder local, administração.
Se quiser conhecer as perguntas do Marquês (as da sua terra devem ser as mesmas), pode ir aqui.

Algumas chamadas de atenção
Longe de mim querer trazer aqui grandes tiradas ou repetições do que o Padre Leal escreveu. Mas não deixo de salientar algumas notas que deduzo do que leio.
E começo pela que me parece mais importante: o Padre diz que esta terra «pertençe a El Rei». Como já antes escrevi, suponho que quer dizer que aqui não havia nenhum senhor «feudal» a dominar e que o Casteleiro dependia directamente da Coroa – o que era muito bom em termos de autonomia dos 525 residentes que ele refere. Por isso, escolhi para título: Casteleiro: terra livre? É que a regra em Portugal parece-me que não era essa.
Outra forte marca: o Casteleiro sempre viveu dividido entre a Beira Alta e a Beira Baixa – e está confluência das duas. O Padre Leal não deixa isso às escuras e é bem claro: «Está na província da Beira, Bispado da Guarda» (Beira Alta) e pertence à «Comarca de Castelo Branco» (Beira Baixa).
Um apontamentozinho: o Padre diz que do Casteleiro a Lisboa são 215 quilómetros nesse tempo – «43 léguas». Ou estava mal informado ou então a A23 anda às curvas por essa Beira e Estremadura. Pois se antes da A23, por Ponte de Sor, a distância era de 370 km e hoje será de 290, mais ou menos… que raio de cortes de caminho fariam naquele tempo para serem só 43 léguas?
Outro facto marcante: a água abundava no Casteleiro. O texto refere a ribeira e vários ribeiros, riachos, arroios e similares, lameiros, baixas de cultivo intenso etc., tudo agregado a várias indústrias artesanais ligadas à produção agrícola e até um tinte (tinturaria de roupa), equipamento este que se encontra no fim da fileira da fiação e da tecelagem – ver imagem que se publica. Uma surpresa para mim, que sempre falei do lugar chamado Tinte e nunca relacionei as coisas assim.
Ou seja: comparativamente, se calhar o Casteleiro dos meados do século XVIII era mais rico do que é hoje, pelo menos em termos de produção própria – isso, apesar dos modernos progressos da mecanização e fertilização.
Por fim: nunca desligo estas informações daquela outra que divulguei há tempos: a febre da corrida ao ouro no Casteleiro em 1723. Mistérios de antigamente…

Nota
Fica-me sempre aquele gosto amargo de continuar muito obscuro o passado mais longínquo do Casteleiro, por falta de investigação e de documentação que conheça.
Por exemplo: os castros e vestígios castrejos de há dois mil anos e mais o que significam de facto? Qual foi o papel do Casteleiro na rede de estradas romanas? Os senhores feudais que poder tiveram aqui? Quais deles?
Até nisto o Padre Leal me trama a curiosidade: à pergunta do Marquês sobre se a terra tem memórias passadas dignas de nota, o malandro responde apenas «Nada» – a esta pergunta como a mais 21 das 62…
Mas eu sinto outras necessidades de saber mais.
Os baldios, os morgadios, como se estruturaram por aqui? O que resta deles? O Morgadio de Santo Amaro resulta de quê? Os quase latifúndios do Dr. Guerra resultaram de quê?
E outras perguntas que por vezes me incomoda que não tenham (ainda) resposta…

«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Hoje o Casteleiro terá à volta de 400 e poucos habitantes. Há 10 anos tinha 504. Mas em meados do século XVIII tinha 525. Uma realidade no mínimo digna de nota. Essa e muitas outras informações constam de documentos de que tive conhecimento recentemente.

Estava-se em Abril de 1758. Os serviços da Monarquia orientados pelo Marquês de Pombal fizeram uma impressionante recolha de dados sobre as terras e as gentes de todo o País. As informações sobre o Casteleiro são muito interessantes. Constam das «Memórias Paroquiais do Castelleyro». Assina o Relatório o pároco da terra: «Manuel Pires Leal, Cura deste dito lugar».
Trago aqui alguns desses dados que considero de maior interesse para o leitor do «Capeia».
Demografia – Número de casas: 152. Habitantes: 525. Destes, 103 eram crianças muito pequenas «que ainda não se confessam» – presumo que isso significa: crianças com menos de 7 anos.
Geografia – O Casteleiro «está fundado num vale». As respostas do Cura dão imenso relevo a duas serras (Opa e Preza) – esquece a Serra da Vila, vá-se lá saber porquê – e, sobretudo, às linhas de água (uma ribeira calma e três ribeiros agitados: «A ribeira em si corre quieta mas os tais ribeiros que nela se metem correm algo tanto arrebatados»). Esta insistência nas linhas de água, quanto a mim, deve ser relacionada com a importância da água na alimentação e na produção agrícola. Outra questão relevante do ponto de vista do clima: eis uma frase que é um mimo e julgo digna de registo sobre as ditas serras: «O temperamento destas duas serras acima declaradas é frio mas saudável».
Economia – Deduzo das várias páginas de respostas do Padre Leal ao Marquês que o Casteleiro era um ninho de produtores de cereal / centeio. Nas encostas e nas baixas, longe e perto das casas: o autor das respostas refere repetidamente a produção de centeio. Pela alongada descrição das ribeiras e ribeiros, penso que toda a produção agrícola da época e da região seria muito importante: «Os frutos que nesta terra se colhem em maior abundância são centeio, vinho e azeite, castanha e linho» – afirma o Padre Leal. E mais adiante: «Criam-se nestas duas serras gado miúdo e caça de coelhos e perdizes». Há ali às tantas uma referência importante a «oliveiras» e até a ameeiros – o que ainda hoje é verdade. Uma nota: os serviços do Terreiro do Paço perguntavam «se há na serra minas de metais, ou canteiras de pedras, ou de outros materiaes de estimação». Resposta do padre: «Nada».
Mas em matéria de «indústria» o Padre Leal faz ainda uma importante referência às indústrias artesanais do Casteleiro daquela época: «Tem dentro do limite desta freguesia esta ribeira sete moinhos e três lagares de azeite, dois pizoins e algum dia teve também um tinte, porém hoje se acha demolido».
Organização religiosa – No Casteleiro havia uma igreja matriz e quatro ermidas. Havia ainda na Serra d’ Opa uma capela de Santa Ana, onde este povo fazia algumas romagens por ano. Em termos religiosos, esta terra é uma anexa da igreja de Sortelha, Bispado da Guarda.
Organização política e administrativa – Pertence ao concelho de Sortelha, Distrito de Castelo Branco, Província da Beira.
Organização judicial – O Casteleiro pertencia à comarca de Castelo Branco e «está sujeita aos juízes ordinários da vila de Sortelha». O que não admira, visto que, do ponto de vista administrativo, pertencia àquele Distrito e a este concelho. Só passou para o concelho do Sabugal e Distrito da Guarda com a Reforma Administrativa de Fontes Pereira de Melo de 1855.

Nota
Pode ler os textos escritos pelo Padre Manuel Pires Leal aqui, no sítio da Freguesia do Casteleiro.

«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Reinava D. José I, era Primeiro-Ministro o Marquês de Pombal: Secretário dos Negócios do Reino – era esse o cargo. Foi distribuído por todo o País um conjunto de perguntas para que os párocos respondessem. O Padre Manuel Pires Leal era o cura do Casteleiro e respondeu às perguntas vindas de Lisboa.

No fundo, trata-se de um levantamento da situação de cada terra, uma espécie de censos ao País todo e em grande pormenor – eram os «curas» quem tinha de responder.
As perguntas eram muito simples.
Exemplo:
– «Quantos vizinhos tem?» (Ou seja: moradores.)
Resposta do cura Pires Leal sobre o Castelleyro:
– «Tem cento e cinquenta e dois fogos, pessoas de confissão e comunhão trezentas e quarenta e oito; só de confissão setenta e quatro, crianças que ainda não se confessam cento e três, pessoas ao todo quinhentas e vinte cinco».
Chamo a atenção para a assinatura:
«Castelleyro, 25 de Abril de 1758 / Manuel Pires Leal / Cura deste dito lugar».

E agora alguns conteúdos.

1 – O Casteleiro tinha bastante actividade virada à indústria da época: 7 moinhos (sete, note: é muito); 3 lagares de azeite; uma tinturaria («tinte», à moda espanhola); dois pisões (espécie de fabriqueta em que os panos já tecidos eram bem calcados para ficarem mais compactos, mais tapados – digamos).

2 – No Casteleiro, uma parte da própria agricultura estava nessa altura virada para alimentar estas indústrias (a cultura do linho que o Padre Leal refere, por exemplo) – actividades que acredito fossem mais de sobrevivência, ou seja, para abastecer as pessoas da terra do que para fazer comércio para fora da terra com os produtos. Isso digo eu, mas não tenho nenhum fundamento – só o conhecimento da vida na minha terra há 60 anos e o que ouvia os meus avós contar – ou seja, o meu horizonte testemunhal já atinge os anos 20 (1920). E não acredito que as coisas fossem muito diferentes 100 anos antes.

3 – A importância central da Ribeira. E (que maravilha!) o facto de sobre ela já haver naquele tempo duas pontes que ainda há: uma ao pé do cemitério (o local das «relvas» que o Padre refere também: quando eu era miúdo era ali que lavavam e estendiam a roupa a corar e a secar ao sol…) e a outra ponte, na Estrada Nacional. As duas pontes de 1758 (sei lá se não vêm já do tempo dos romanos…) ainda se mantêm – apenas lhes foi acrescentada mais uma: exactamente aquela que dá para Gralhais – um destino que muito fascinava o Padre Leal que está sempre a repetir: «Gralhais».

4 – Finalmente, uma nota mais virada à organização territorial.
O pároco que responde aos serviços do Marquês parece estar mais preocupado com a organização religiosa do que com a organização do poder civil.
Mas lá refere a «Comarca de Castelo Branco», o que é importante. Diz ele:
«Está na província da Beira, Bispado da Guarda» – ou seja, do ponto de vista da organização religiosa pertence à Guarda. Mas a organização civil-judicial não é essa: o Casteleiro, nessa data (1758) pertence à «Comarca de Castelo Branco».
Mais adiante diz o Padre Leal: «Freguesia do Salvador, anexa de Santa Maria do Castelo da Vila de Sortelha e termo da mesma Vila». Coisa que o pároco de então repete na resposta seguinte: «É anexa da igreja de Santa Maria da dita vila de Sortelha».
Não se esqueça que o Casteleiro pertenceu ao Distrito de Castelo Branco e ao então Concelho de Sortelha até á reforma administrativa de 1855.
Uma frase importante do Relatório: «Pertençe a El Rei». Suponho que significa que aqui não havia nenhum senhor feudal a dominar e que o Casteleiro dependia directamente da Coroa – o que na época é bom em termos de autonomia dos 525 residentes que ele refere.

Faço notar que em boa hora o actual Presidente da Junta de Freguesia do Casteleiro, António Marques, publicou as perguntas e as respostas no blogue «Viver Casteleiro». Aqui.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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