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Em 10 de Maio de 1811, há rigorosamente 200 anos, ocorreu um dos grandes actos de valentia da história militar francesa, que foi a evasão da guarnição que ocupava a praça de Almeida. Os homens do general Brenier, seguindo as instruções do marechal Massena, romperam com argúcia e coragem o cerco das tropas aliadas, juntando-se ao seu exército em Espanha. Massena conseguiu com este glorioso feito mitigar o fracasso que foi a terceira invasão de Portugal.

AlmeidaDepois da Batalha do Sabugal, em 3 de Abril de 1811, as tropas de Massena abandonaram Portugal, concentrando-se entre Ciudad Rodrigo e Salamanca, onde descansaram das fadigas da campanha. Porém o isolamento de Almeida, onde se mantinha uma guarnição francesa, comandada pelo general Brenier, e a maior parte do parque de artilharia do exército, eram motivo de grande preocupação para o marechal. Afligia-o a possibilidade de Almeida ser bombardeada e tomada pela força, com a consequente humilhação francesa. Por isso decidiu marchar em valimento da fortaleza, o que o levou a enfrentar as tropas aliadas na linha da fronteira.
A terrível batalha de Fuentes de Oñoro, durou três dias, de 3 a 5 de Maio, tendo os anglo-portugueses conseguido repelir os sucessivos ataques dos franceses, assim evitando que voltassem a colocar o pé em Portugal.
Verificando a impossibilidade de passar a fronteira, Massena pediu voluntários para levarem ao general Brenier uma mensagem. Apresentaram-se três jovens, dispostos a cumprir a espinhosa missão de penetrarem nas linhas aliadas: o cabo Zaniboni, e os soldados Lami e Tillet. Os dois primeiros seguiram disfarçados de camponeses e o último teimou em avançar com o seu uniforme e armado com o seu sabre. André Tillet, foi precisamente o único a atingir o objectivo, conseguindo passar por ingleses e portugueses e entregar ao comandante francês a minúscula mensagem que, cumprindo à risca as instruções, levava na boca, pronto a engoli-la em caso de ser capturado.
A mensagem de Massena era clara: «Meu caro general, faça explodir Almeida por meio de fornilhos, retirando com a sua guarnição para Barba del Puerco. Faça tudo para que o inimigo não possa tirar proveito dos canhões e das munições que estão na praça, quer destruindo-os quer enterrando-os. Previna-me da recepção desta ordem com quatro salvas de 25 tiros de canhão do maior calibre que tem (…)».
Inicialmente Massena temeu o pior, pois o tempo passava sem que o sinal combinado surgisse. Porém às 10 horas da noite de 7 de Maio ouviu-se o som abafado de salvas de canhão, vindas dos lados de Almeida. Face ao alívio, o comandante francês deu instruções para a execução de manobras ameaçadoras, a fim de concentrar os aliados na linha avançada e assim facilitar a Brenier os trabalhos de minagem da praça e a evasão da guarnição.
Em Almeida, os preparativos para a fuga começaram imediatamente a seguir ao recebimento das ordens de Massena. Brenier mandou atirar os cartuchos e os projécteis para os poços, destruir as peças de artilharia disparando umas para a alma das outras, e carregar de pólvora os fornilhos que foram instalados nas muralhas para as derrubar. Tudo ficou pronto no final do dia 10, altura em que Brenier juntou a guarnição, formou duas colunas e saiu da praça pelo lado oeste, deixando para trás apenas alguns sapadores para pegarem fogo aos fornilhos de pólvora.
As duas colunas avançaram a coberto da noite, e conseguiram atacar de surpresa as tropas aliadas dos postos avançados. Entretanto um enorme estrondo perturbou a calma da noite, em resultado da explosão das minas. Coube aos portugueses, comandados pelo general Pack perseguir os franceses fugitivos, sem contudo conseguirem evitar que os sapadores, que haviam ficado para trás, se lhes juntassem e que todos alcançassem o rio Águeda, onde do outro lado o general Reynier os esperava em Barba del Puerco.
A perseguição apertada de Pack, a quem na fase final se juntou a cavalaria de Cotton, fez com que a coluna francesa seguisse para a ponte por um atalho, trepando as vertentes escarpadas do vale do Águeda, tendo muitos dos homens caído desamparados num precipício rochoso quando chegaram ao topo e lhes faltou o pé do outro lado, o mesmo sucedendo a alguns dos portugueses que os perseguiam. A protecção de atiradores franceses entretanto posicionados na outra margem do rio, garantiu que quase toda a coluna escapasse atravessando a ponte, mas dos que caíram no desfiladeiro, só se fizeram contas ao amanhecer, quando os franceses conseguiram repelir os perseguidores.
A grande parte dos que caíram haviam afinal escapado, tendo-se agarrado às rochas e escondendo-se entre elas, mas no fundo do precipício estavam 270 homens mortos ou terrivelmente mutilados, dos quais 230 eram franceses e 30 eram portugueses.
Retirados e encaminhados os feridos para o acampamento, fez-se a chamada dos 1200 elementos que constituíam a guarnição de Brenier em Almeida. O pessimismo deu lugar a uma alegria contida: apenas faltavam 350 homens.
Este feito heróico da fuga da guarnição de Almeida constituiu um bálsamo para a auto-estima de Massena, que via honra nesta última operação do exército de Portugal. Ela feria o orgulho de Wellington, que viu passar a coluna francesa por entre os dedos, sem que a conseguisse capturar.
Mas nesse mesmo dia a vaidade de Massena seria manchada ao receber das mãos do general Foy, chegado de Paris, a missiva de Napoleão Bonaparte que lhe retirava o comando do exército, entregando-o ao marechal Marmont.
Paulo Leitão Batista

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As invasões francesas, cujo bicentenário se evoca, deixaram variadas marcas, dentre as quais alguns lugares comuns na nossa linguagem popular, de que são exemplos as conhecidas expressões: «ficar a ver navios», «ir para o maneta» ou «Portugal é Lisboa e o resto é paisagem».

Soldados FrancesesO lugar comum «ficar a ver navios», que se utiliza quando alguém fica desiludido, ou não consegue alcançar aquilo com que contava, teve origem na primeira invasão francesa de Portugal. Foi o general Junot, comandante das tropas invasoras, que viu frustradas as suas expectativas de aprisionar a família real portuguesa, ao ter chegado tardiamente a Lisboa em Novembro de 1807. Restou-lhe observar, do alto de Santa Catarina, os navios da armada que haviam acabado de zarpar do Tejo rumo ao Brasil, para onde foi transferida a corte portuguesa. Junot ficou assim a «ver navios», e a expressão acabou enraizada no léxico popular.
Outro lugar comum muito em voga é «ir para o maneta», expressão usada em sinal de perda irrecuperável. A mesma ficou associada ao mais atroz dos generais de França, de nome Loison, o qual esteve em Portugal nas três invasões. Loison perdera uma mão num acidente e era conhecido entre os portugueses como o general «Maneta», tendo ficado célebre pelas suas acções punitivas sobre a população sublevada. «Ir para o Maneta» era ir parar às mãos, ou melhor, à mão, do fatídico general, assim ficando a expressão no nosso léxico.
Há ainda um terceiro lugar comum que provém do tempo das invasões: «Portugal é Lisboa e o resto é paisagem». A frase é atribuída ao general Foy, o conhecido portador das mensagens de Massena para Napoleão Bonaparte, que passou várias vezes no Sabugal. Massena tinha a maior confiança em Foy, que era um bom conhecedor de Portugal, pelo que contava com os seus conselhos. Instado a pronunciar-se sobre o que seria a terceira campanha do exército francês, Foy não hesitou em dizer-lhe que Portugal era Lisboa e o resto paisagem. A frase foi premonitória, pois a avançada francesa só foi verdadeiramente travada às portas de Lisboa, devido às famosas Linhas de Torres Vedras, pelo que Massena terá compreendido por que razão em Portugal tudo era paisagem á excepção de Lisboa. Aliás Massena não chegou a conhecer as paisagens de Lisboa.
plb

«Sei que assumo uma grande responsabilidade ao opor-me tão formalmente às suas intenções; mas, nem que seja destituído e nem que com isso perca a cabeça, não seguirei o movimento para Coria e Plasencia de que me fala a não ser, repito, que tal me seja ordenado pelo Imperador» – missiva que de Ney para Massena, recusando a ordem de encaminhar o seu corpo para o Sabugal, seguindo o caminho para a Estremadura espanhola.

O marechal Michel Ney era o comandante do sexto corpo de exército, e tinha no movimento retrógrado da terceira invasão de Portugal a espinhosa missão de seguir na retaguarda, contendo os ataques do exército aliado.
Ney, que era filho de um soldado veterano francês, e que subira na hierarquia militar até ao generalato devido aos seus elevados méritos em combate, tinha na altura 42 anos e acumulava com o posto de marechal o título de Duque de Elchingen. Muito popular entre os soldados, que o tinham como o melhor dos marechais de França, era chamado Le Rougeaud (O avermelhado) e Le Brave des Braves (O Bravo dos Bravos), tendo este último apodo sido conferido pelo próprio Napoleão.
Massena e Ney odiavam-se mutuamente. O «Bravo dos Bravos» nunca se conformou por ter sido colocado sob as ordens do «Filho Querido da Vitória» (nome dado por Napoleão a Massena) e a terceira invasão de Portugal foi uma sucessão de dissensões entre os dois marechais. Massena era o comandante-em-chefe, senhor de um prestígio enquanto estratega apenas superado pelo do próprio Napoleão Bonaparte, mas Ney era o mais resoluto e corajoso dos marechais do Império.
Em Paris, imediatamente antes de partir para a Península, Massena tentou demover o Imperador a colocar Ney entre os seus lugar-tenentes no Exército de Portugal, por lhe conhecer o mau carácter. Napoleão retorquiu-lhe: «Ney é um general de vanguarda: se as suas ideias no gabinete são fracas, ele resgata esse defeito no terreno; maneja tão bem a infantaria como a cavalaria; vai ser-lhe muito útil, não será preciso estimular-lhe o ardor».
Mas os problemas com Ney começaram logo quando Massena se juntou ao seu novo exército em Salamanca. Queria apressar o cerco a Ciudad Rodrigo e entrar em combate com os postos avançados ingleses, no que foi a custo contido por Massena. Já em plena marcha em Portugal, nas alturas do Buçaco, foi a impaciência de Ney que ditou a precipitação da batalha, que os franceses perderam. Na retirada Massena queria ter seguido para Coimbra, onde concentraria o exército, mas Ney não cumpriu por inteiro os itinerários, inviabilizando assim essa movimentação.
Porém o clímax da rivalidade entre os marechais estava marcado para Celorico, quando Massena deu ordens para a movimentação para o sul, a fim de entrar em Espanha por Alcântara e atingir o vale do Tejo, entre Coria e Plascencia, a partir de onde relançaria a invasão de Portugal. O fogoso Ney não concordava e afirmou-lhe que desobedeceria, se persistisse nesse clamoroso erro. Os ajudantes de campo de ambos os marechais levavam e traziam cartas com as ordens de Massena e as respostas de Ney. Este exigia saber se as disposições provinham do Imperador, pois caso contrário não as acataria, e aquele reafirmava as ordens, intimando de que era imperioso dar-lhe cumprimento. A um ponto, Ney decidiu esticar a corda e informou Massena que recuaria com o seu corpo para Almeida. Massena desesperou e escreveu-lhe: «Previno-o, senhor marechal, de que se torna responsável pelo mau exemplo que a sua desobediência dá ao exército e, talvez, pelas consequências, ainda mais deploráveis, que dela podem resultar. Queira responder-me se persiste na sua desobediência, desprezando a autoridade que o Imperador me confiou; nesse caso, saberei tomar disposições para mantê-la
As coisas já tinham ido longe de mais e não havia espaço para recuar. Ney informou que não deixaria que o seu corpo marchasse com o resto do exército para sul. Massena informou então formalmente os generais de divisão do sexto corpo que deixavam de obedecer a Ney, passando a receber instruções directas do estado-maior general, e ordenou ao marechal que seguisse imediatamente para Espanha, deixando o exército. O recalcitrante Ney ainda reagiu alegando a ilegitimidade da ordem: «Como foi o Imperador que me confiou o comando do sexto corpo, ninguém além de Sua Majestade tem o direito de mo retirar». Porém Massena manteve as disposições e confiou o comando do corpo ao general Loison, acabando Ney por se dirigir para Espanha.
As tropas do sexto corpo amavam Ney, que era o seu verdadeiro líder. À fome que passavam, pela falta de provisões, juntava-se agora a desmotivação e o sentimento de injustiça para com o seu marechal. O capitão Guingret, que servia nesse corpo, escreveria mais tarde: «O afastamento inesperado do duque de Elchingen tinha desmoralizado completamente o espírito das suas três divisões. Desde que nos constituíram em sexto corpo, nas épocas eternamente gloriosas de Austerlitz e de Friedland, adquirimos pouco a pouco o hábito de nos considerar como uma família de guerreiros, de que o marechal Ney fora sempre o guia
Bécet de Léocour, chefe do estado-maior de Ney, também deixou um testemunho similar: «A sua partida causou uma impressão muito deplorável no moral das tropas, que tinham por ele tanta confiança quanto apego e que estavam muito longe de conceder os mesmos sentimentos ao sucessor que lhes atribuíam».
O atraso do movimento provocado pela obstinação de Ney seria fatal para as tropas francesas que não conseguiram concretizar com sucesso o movimento em direcção ao sul. Ney foi afastado no dia 23 de Março de 1811 e, dentro de dias, a 3 de Abril, no Sabugal Wellington atacaria o corpo de Reynier, ditando assim o retorno dos franceses a Espanha, pondo fim à terceira invasão de Portugal.
Paulo Leitão Batista

O marechal André Massena, que comandou as tropas francesas na terceira invasão de Portugal fez-se acompanhar de uma amante, que esteve sempre a seu lado, e a quem os seus soldados chamavam jocosamente a «Galinha de Massena».

Era algo comum entre os oficiais generais de Napoleão fazerem-se acompanhar pelas respectivas mulheres durante as campanhas. Junot é disso exemplo, pois a esposa, Laura, veio com ele na terceira invasão, em parte para evitar o escândalo muito falado do tempo em que o marido estivera em Lisboa na primeira invasão, onde se deu a excessos com as mulheres portuguesas, nomeadamente com a condessa da Ega, a sua amante preferida.
Porém Massena trouxe consigo uma amante, de nome Henriette Lebreton, jovem mulher de um oficial de artilharia que servira Massena como ajudante-de-campo. A senhora tinha lugar nos aposentos do grande quartel-general, e era temida pelos restantes oficiais do estado-maior do marechal, pois tinha um enorme ascendente sobre ele.
Henriette, rapariga de apenas 18 anos, acompanhava o marechal para todo o lado, montando um fogoso cavalo e envergando um belo e sempre lustroso uniforme de dragão do exército imperial. Essa presença contínua da amante junto do marechal irritava sobremaneira os restantes oficiais generais, mormente os outros comandantes dos corpos. O marechal Ney, grande rival de Massena, que nunca aceitou bem o papel secundário que detinha no Exército de Portugal, ao estar submetido às ordem de outro marechal, reagia especialmente mal à presença da senhora.
Entre a tropa comentava-se a abusiva ingerência de Henriette nos assuntos militares, a pontos de começar a ser dada como a grande responsável pela fraca prestação de Massena. Conhecido por «Filho Querido da Vitória», apodo que lhe fora conferido pelo próprio Napoleão Bonaparte, que o tinha como o melhor dos seus lugar-tenentes, todos se questionavam acerca da real manutenção das suas capacidades de comando.
Ney considerava Massena uma sombra do passado. Com 52 anos, cego da vista esquerda, com uma perna estropiada e com fortes dores de coluna, Massena não era de facto o mesmo. Longe iam as campanhas gloriosas da Áustria e de Itália, onde se cobrira de glória. Em Portugal enfrentava Wellington, o mais astuto dos comandantes inimigos, que não dava combate sem ter garantias de que tudo jogava a seu favor. Porém, o fracasso dos movimentos das tropas francesas face ás linhas defensivas de Lisboa, a falta constante de mantimentos e a ausência de boas perspectivas de futuro, colocavam o exército apreensivo e a confiança no grande marechal Massena ia diminuindo, muito contribuindo para isso a presença da jovem francesa junto dele.
Paulo Leitão Batista

A retirada das tropas francesas por incapacidade para ultrapassarem as linhas fortificadas que defendiam Lisboa, iniciou-se em 7 de Março de 1811, deixando para trás uma região depauperada devido às constantes rapinas e destruições.

Durou cinco longos meses a permanência do exército invasor no triângulo compreendido entre as cidades de Santarém, Torres Novas e Tomar. Massena defrontou-se com a impossibilidade em ultrapassar as linhas de Torres Vedras, que praticamente nem sequer forçou, e decidiu esperar por reforços, à medida em que tentava lançar uma ponte de barcas sobre o rio Tejo, para progredir pela sua margem esquerda, onde esperava encontrar também melhores meios de subsistência.
Porém a ponte de barcas que chegou a ser construída, nunca foi lançada, porque Wellington, descobrindo essa intenção dos franceses, colocou tropas na outra margem do Tejo, vigiando todos os locais onde a ponte pudesse ser instalada.
Entretanto, a longa presença dos franceses foi especialmente penosa para a população. Parte dela cumprira as indicações de Wellington e da Regência, e acompanhara as tropas aliadas em retirada para lá das linhas, destruindo tudo o que pudesse servir aos invasores, seguindo a rigor o plano de «terra queimada» gizado pelo comandante inglês. Outros, porém, ficaram nas suas terras, ou porque pensaram que os franceses passavam longe e não os importunariam, ou porque resolveram pura e simplesmente desobedecer.
O facto é que o exército invasor teve de sobreviver e, nessa senda, atirou-se a tudo o que lhes poderia servir de alimento. A tropa estava também sequiosa por deitar a mão ao que tivesse valor, pelo que cidades, vilas e aldeias foram saqueadas até à exaustão. As pessoas foram maltratadas e muitas forçadas a colaborar indicando os esconderijos dos géneros e das riquezas, muitas vezes sob ameaças e através de sevícias. Foi um tempo terrível para aquelas populações, que viveram em situação de ocupação e usurpação permanentes.
Massena, sem esperança de receber os reforços que reclamara ao Imperador, e já sem condições de subsistência, por tudo já ter sido esbulhado, decidiu então retirar. O seu plano inicial era instalar-se em Coimbra, onde pensava encontrar meios para alimentação do exército. Restabeleceria as comunicações com Almeida e veria aí de uma vez garantido o recebimento de reforços. Porém a sistemática insubordinação do marechal Ney, que comandava o 6º corpo de exército, inviabilizou-lhe o plano, por não ter efectuado as manobras necessárias a atingir Coimbra.
Restou-lhe seguir com a retirada para Espanha, esboçando contudo o plano de relançar a invasão a partir do Sabugal. Dali avançaria para o Sul de Espanha, onde se juntaria ao exército do marechal Soult que aí operava. Mas mais uma vez a insubmissão de Ney, em Celorico da Beira, inviabilizou-lhe as intenções. A invasão teria fim com a decisiva batalha do Sabugal, travada a 3 de Abril de 1811.
Entretanto a tropa francesa deixava para trás terras completamente depauperadas. Grande parte das casas tinham sido queimadas ou demolidas, os animais abatidos para servirem de alimento e os que ainda viviam seguiram com o exército que retirava.
A terceira invasão francesa constituiu para as populações, especialmente as do Ribatejo e das Beiras um dos períodos mais negros da história. A miséria, a violência, a fome, o frio, e as constantes humilhações que passaram, não devem ficar envoltas na nuvem do puro esquecimento.
Paulo Leitão Batista

Fomos a Torres Vedras falar com o Coronel Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão, um dos autores do livro «Sabugal e as Invasões Francesas», que vai ser lançado no Sabugal no próximo dia 2 de Abril, por ocasião da evocação do bicentenário da Batalha do Sabugal. No livro o coronel Mourão descreve com grande minúcia essa última batalha com as tropas francesas em solo português, o que também serviu de mote para a animada conversa com o afável investigador.

– Foi o facto de ser militar a viver aqui em Torres Vedras, a cidade que deu o nome às linhas que defenderam Lisboa dos franceses, que o motivou a investigar e escrever acerca das invasões napoleónicas?
– Verdadeiramente eu nem sei bem como nasceu o meu gosto pela História mas, gostando deste ramo do conhecimento, é natural, pela minha profissão, que me interesse mais pela História Militar. Comecei por canalizar a minha atenção para o estudo da Primeira Guerra Mundial mas as comemorações do Bicentenário da Guerra Peninsular fizeram-me mudar de rumo. Esta é uma boa oportunidade para estudar este tema. Quanto à motivação para escrever sobre o assunto, essa é para mim uma consequência lógica da aquisição de conhecimentos. Estes terão de ser partilhados ou o trabalho de investigação (se é que o que eu tenho feito pode ser designado desta forma) torna-se inútil.
– Ao que sei trabalhou, enquanto oficial do exército, na área da História Militar, o que terá contribuído para aprofundar esse gosto pelo passado histórico.
– Isso é verdade. Em 1990 fui colocado na Escola de Sargentos do Exército onde exerci, entre outras funções, a de professor de História Militar. Antes disso, o meu contacto com a História Militar foi durante o Curso de Promoção a Oficial Superior, no IAEM, quando tive de apresentar um trabalho sobre as Linhas de Torres Vedras. Gostei de fazer o trabalho e a sua apresentação correu muito bem. Mais tarde, fui colocado na Direcção de História e Cultura Militar, onde terminei o serviço activo. Ali desempenhei várias funções e, a última, já na situação de reserva, tinha a ver com o estudo e divulgação da História e foi durante este tempo que decidi começar a publicar na Wikipédia os artigos sobre as batalhas em que participaram as forças portuguesas.
– E foi dessa forma que se deparou com a Batalha do Sabugal?
– Sim, o trabalho sobre a Batalha do Sabugal aparece no contexto de todo o trabalho que tenho desenvolvido. Esta batalha foi, na realidade, o último confronto importante, entre tropas anglo-lusas e tropas francesas, em território português. No entanto, quando Massena retirou deixou uma guarnição francesa em Almeida que só viria a abandonar Portugal alguns dias depois, numa fuga espectacular. Mas a Guerra Peninsular não termina com o fim das Invasões Francesas. Aliás, em 1812, Marmont entra em Portugal, embora por um curto período de tempo. Mas a Guerra Peninsular só termina em 1814, em França, e em todo este processo as tropas portuguesas são parte essencial do exército de Wellington. Mas, voltando à Batalha do Sabugal, procurei descrevê-la ao pormenor, a partir dos relatos que nos são apresentados pelos principais historiadores que escreveram sobre este tema: Napier, Oman e Fortscue. Nos trabalhos que tenho publicado sobre batalhas, para além dos antecedentes que nos permitem saber como se chegou aquela situação, tenho tido o cuidado de apresentar sempre dois elementos que me parecem fundamentais antes da descrição da batalha: o terreno onde se desenrola a batalha, e a composição das forças em presença. É muito difícil compreender qualquer descrição se não tivermos estes elementos presentes. Ao divulgar um texto sobre estes temas não estou a fazê-lo para quem conhece a organização militar, o que é uma divisão, uma brigada ou um batalhão.
– Descreveu e desenhou em croquis o próprio plano de Wellington para a batalha. Crê que ele pretendeu mesmo envolver e capturar o segundo corpo do exército francês, que estava na margem direita do Côa, um pouco acima do Sabugal?
– Como eu refiro no próprio texto (que irá ser publicado), não nos chega através dos autores que referi ou outros, uma clara definição do plano de Wellington. Fortescue e Charles Oman apresentam as intenções de Wellington de forma diferente. Li ambos os autores, verifiquei o terreno, através de mapas e croquis, vi a disposição inicial das forças e, perante isso, atendendo aos princípios doutrinários que se utilizavam (e utilizam) cheguei à conclusão que apresento. Se tudo fosse realizado de acordo com o que estava planeado, teria Reynier conseguido retirar? Se não conseguisse retirar, ofereceria resistência? E, se oferecesse resistência, teriam os outros corpos de exército, principalmente o oitavo, de Junot, oportunidade de intervir? São muitos «ses» que conduzem a raciocínios especulativos e esse não é, a meu ver, o trabalho do historiador.
– Mas Massena tinha outras forças muito perto, que podia enviar em socorro do segundo corpo. Será que Wellington não teve isso em conta?
– Repare que Wellington fixou o sexto corpo com a colocação de uma divisão na margem do Côa a sul do Sabugal. Por outro lado, utilizou as milícias de Trant e Wilson, a norte, ameaçando Almeida e fixando, desta forma, o nono corpo. O oitavo corpo estava recuado, em Alfaiates, muito maltratado. Fazer avançar essas forças em apoio do segundo corpo, de Reynier, significava para Massena aceitar outros riscos e ver a sua retirada cortada, não só para o segundo corpo mas para todo o Armée de Portugal. Wellington teve, certamente, isso em conta e, provavelmente, sabia que estava a correr riscos. Todas as operações militares envolvem riscos.
– À época, tendo em conta os meios de comunicação existentes, talvez fosse difícil ao comandante aliado ter conhecimento do real posicionamento de todas as forças inimigas…
– Existia um sistema de informações que funcionava. Forças de reconhecimento, os guerrilheiros ou a população, todos observavam e transmitiam o que viam. Existiam agentes no terreno em busca de dados que produzissem essas informações. Se olharmos para o dispositivo, não apenas das forças destinadas à batalha mas também que se destinaram a fixar os Sexto e Nono Corpos de Exército, vemos que Wellington tinha a noção clara da disposição das tropas francesas. De qualquer forma, os meios de comunicação poderiam facilitar, quando muito, o acompanhamento dos movimentos das suas próprias tropas. Mas, repare, a maior parte das fardas da época são bem coloridas. Os militares britânicos fardados de branco e vermelho são facilmente identificáveis no terreno. Na Roliça confundiram-se com as tropas suíças ao serviço dos franceses. As tropas ligeiras, como os Caçadores ou os «Rifles», utilizavam normalmente fardas com cor entre o castanho e o verde. Mas essas tinham, normalmente uma missão diferente e, para a cumprirem, deviam confundir-se o mais possível com o terreno.
– Tenho ideia de que Wellington era um general demasiado frio e calculista para se dar a uma aventura dessas, tendo por base o plano ousado que nos sugere.
– Wellington era de facto calculista, cauteloso, mas não deixava de mostrar audácia quando a oportunidade urgia. Sem essa audácia, Soult não teria sido expulso tão facilmente do Porto durante a segunda Invasão Francesa. Wellington soube sempre dar o devido valor ao terreno e aproveitar uma boa oportunidade para resolver a situação. Veja-se o desenrolar da Batalha de Salamanca, em que os exércitos inimigos observaram-se durante seis semanas e quando a oportunidade surgiu (também foi a necessidade de resolver a situação) Wellington atacou. Foi uma grande vitória. E actuava frequentemente com tropas numericamente inferiores às do inimigo. Em Fuentes de Oñoro, os aliados tinham menos 10 mil homens que os franceses. Wellington era um comandante que não fugia de se mostrar na linha da frente. Aliás, quando o seu prestígio era já muito maior que na época que estamos a tratar, Wellington utilizou a sua figura na linha da frente para influenciar as suas tropas e também as do inimigo. Foi assim em Sorauren, em Julho de 1813. Independentemente de tudo isto, Wellington terá cometido erros, como qualquer comandante. No campo da táctica, Napoleão é considerado um génio e cometeu erros…
– Ainda sobre a Batalha do Sabugal: concorda que foi porém o falhanço do plano de Wellington que ditou a vitória das forças anglo-lusas?
– Isso é especulação. Não o podemos afirmar dessa forma. O plano era plausível e pretendia alcançar um objectivo, porém algumas contrariedades, nomeadamente o nevoeiro cerrado e a consequente desorientação da força torneante, levaram à precipitação do combate. Na História, devemos procurar saber «como foi» e não «como seria se». Teria corrido bem se tudo se passasse como estava planeado? Não sabemos. Não se passou assim. Podemos, no máximo, procurar explicações para o que se passou. O que não se passou não existiu e o que não existiu não faz parte da História.
– Pelo que li da sua descrição da batalha, o desrespeito pelo plano deveu-se a erros de Erskine, o comandante interino da divisão ligeira, que fazia precisamente o tal movimento torneante a montante do rio Côa.
– Erskine comandava a divisão ligeira e a cavalaria. No comando da divisão ligeira substituía temporariamente Robert Craufurd. Erskine estava no exército de Wellington, não a pedido deste, pelo contrário. Charles Oman refere que a influência política de Erskine impediram Wellington de o enviar de volta para Inglaterra. Mas a verdade é que Erskine já tinha cometido erros, fez o que fez na Batalha do Sabugal e continuou no comando da divisão ligeira. O principal corpo de tropas sob o comando de Erskine era a divisão ligeira. Esta divisão tinha duas brigadas e isso significa que alguém tem que coordenar a acção das duas brigadas. Erskine, ao afastar-se com a cavalaria, deixou as brigadas por sua conta. Erskine foi uma figura muito polémica. Via mal e precisava que lhe indicassem a posição das tropas ao longe. O professor Charles Esdaile, autor de uma importante obra sobre a Guerra Peninsular, refere claramente o seu problema com a bebida. Outros referem a sua arrogância. É difícil saber o que há aqui de real ou de opinião mas é certo que foi uma figura polémica. Em resumo, na minha opinião, houve ausência de acção de comando por parte de Erskine.
– Massena terá dito mais tarde, em defesa da sua prestação em Portugal, que, tirando os canhões que deixou deliberadamente para trás durante a retirada, apenas perdeu para o inimigo uma peça de artilharia no Sabugal. Esse desejo de não deixar capturar peças e a inversa vontade de o conseguir, explicam essa disputa tão acirrada no Sabugal, por um simples obus?
– É sempre importante capturar artilharia ao inimigo. Impede-o de a utilizar contra a força que a capturou e isso é mais importante quando a artilharia não é numerosa. No entanto, o obus da Batalha do Sabugal, a sua captura, perda, recaptura, serve apenas para ilustrar melhor a forma como o combate se desenrolou, numa sucessão de ataques e contra-ataques, num terreno onde, no meio, tinha ficado um obus francês. Mais importante que perder um obus era deixar capturar o estandarte da unidade. O obus estava no local dos combates mas estes não se travaram por causa do obus.
– Voltamos a Massena, que elogiou Reynier pelo seu desempenho na Batalha do Sabugal, dado que conseguiu retirar em boa ordem, sem grandes perdas. Mas a verdade é que os franceses tiveram no Sabugal uma pesada derrota, não acha?
– Uma pesada derrota não significa necessariamente um mau desempenho do comandante ou das tropas derrotadas. Os franceses perderam a batalha, disso não há qualquer dúvida, porém temos de aceitar que Reynier teve o sangue frio suficiente para retirar de forma ordenada e de acordo com a doutrina táctica. Uma retirada perante um inimigo mais forte não é uma operação fácil nem do ponto de vista da execução táctica nem do ponto de vista do moral das tropas. Se não for executada com firmeza torna-se uma debandada o que significa, antes de mais, um número muito mais elevado de baixas. É normal darmos muita importância aos vencedores. Certamente será merecida e, neste caso, as tropas da divisão ligeira, foram merecedoras dos maiores elogios. Ficamos orgulhosos dos nossos batalhões de Caçadores, o 1 e o 3, que ali estiveram presentes. Com isto temos a tendência para ignorar ou depreciar o trabalho realizado pelos derrotados. Temos de ser cautelosos com este procedimento porque, ao estudarmos as retiradas de Soult ou de Massena no decorrer das segunda e terceira invasões francesas, temos de concluir que os soldados franceses eram bons soldados e os generais que os comandavam eram, em geral, grandes generais. O facto de terem sido aqui derrotados não lhes retira os méritos merecidos. Napoleão foi um grande general mas, por vezes, deu aos seus generais missões impossíveis.
plb

Loison foi um general e conde do Império Francês, que participou nas três invasões de Portugal. Ficou muito popular pelas piores razões, pois o povo, que o imortalizou como «Maneta», sofreu na pele os horrores do seu comportamento criminoso. Esteve acampado na Ruvina, no final da terceira Invasão.

Henri-Louis Loison nasceu a 13 de Maio de 1771, em Damvillers, filho de um deputado da Assembleia Constituinte. Alistou-se no exército aos 20 anos e passado um ano era tenente. Já capitão de hussardos, serviu na actual Bélgica, onde liderou o saque à célebre e riquíssima abadia de Orval, seu primeiro acto de grande atrocidade.
Promovido a general de brigada, participou na repressão da insurreição monárquica de 1795, sendo depois nomeado presidente do tribunal que condenou os cabecilhas da revolta.
Em 1799 serviu na Suiça, sob as ordens de Massena, que o promoveu a general de divisão. No ano seguinte participou na Campanha de Itália onde se bateu em batalha sob as ordens do marechal Ney.
Em 1806 perdeu o braço esquerdo num acidente de caça, o que o colocou fora do comando das tropas durante largos meses. Recuperado, participou no cerco de Colberg, na Alemanha, e foi nomeado governador de uma região do novo Reino da Vestefália.
Em finais de 1807, foi nomeado comandante da 2.ª divisão do Corpo de Observação da Gironda, que, sob o comando de Junot, invadiu Portugal. Foi o homem de mão de Junot para punir os actos de rebeldia dos portugueses. Isso é especialmente notório a partir de Maio de 1808, perante sinais de uma insurreição geral, o que levou Junot a encarregar Loison de expedições punitivas exemplares. Ocupou então diversas povoações portuguesas, de norte a sul, praticando todo o género de crueldades contra as populações, ferindo, açoitando e matando quem lhe surgisse pela frente. O povo chamava-o «Luisão» e «Maneta», ficando então a usar-se na linguagem popular o lugar comum «ir para o maneta», em analogia com o destino fatal de todos aqueles que o Maneta apanhava.
Finda a primeira invasão, Loison foi, em 1808, enviado para o corpo do marechal Soult, a quem Napoleão encarregou de uma segunda invasão, entrando pelo Norte. Bom conhecedor do País, Soult enviou-o por diversas vezes em campanha, a fim de pacificar zonas revoltosas ou para cobrir os movimentos do exército francês, continuando a praticar as suas malfeitorias sobre o povo.
Fracassada a segunda invasão, regressou a Espanha e, em 1810, esteve de novo ao comando de uma divisão, integrado agora no corpo de Ney, com o objectivo de entrar em Portugal, no exército de Massena. Loison combateu na batalha do Buçaco, ocupou diversas posições defronte das Linhas de Torres e evoluiu às ordens no movimento retrógrado. Massena vivia em conflito permanente com o fogoso Ney, que por sua vez detestava Loison. A rivalidade entre os marechais culminou na decisão de Massena destituir Ney do comando do 6º Corpo, em plena retirada, quando as tropas se encontravam em Celorico da Beira, tentando suster o avanço aliado.
Loison foi então escolhido para comandar o 6º Corpo, mas as tropas, que sempre tiveram Ney como herói, não se adaptaram ao novo comandante. Loison não tinha o carisma e a capacidade de comando do seu predecessor. O 6º Corpo, era a elite do exército invasor, que havia coberto toda a retirada desde Santarém, mas com Loison passou a ser uma estrutura pesada e difícil de movimentar.
Massena ordenou a Loison que ocupasse o vale do Côa, e a Junot e Reynier, os outros dois comandantes de corpo, que avançassem pelo Sabugal para sul, pretendendo relançar a invasão. Porém o atrito com Ney e a consequente demora na manobra do 6º Corpo fizeram fracassar este plano. Loison ocupa a margem direita do rio Côa, instalando-se na Ruvina, a partir de onde comandou os seus homens, com vista a garantir que as forças anglo-portuguesas não passassem o rio.
Entretanto Junot deixou Belmonte e Sortelha e recuou para Alfaiates, onde Massena estava instalado, e Reynier acampou no Sabugal, começando-se a desenhar um definitivo retrocesso dos franceses para Espanha. Wellington, à frente do exército anglo-luso, atacou Reynier no Sabugal, o qual esperou pelo socorro de Loison, que porém não foi capaz de lho prestar. Optou antes por levantar o acampamento e partir da Ruvina para Alfaiates, onde se juntou a Massena, daí recuando para Espanha.
A curta passagem de Loison pelo concelho do Sabuhgal, não deu azo a mais que os normais e puros actos de guerra, dentre os quais as acções de saque às populações a fim de garantir a subsistência do exército. Loison era um homem cansado da guerra, que transportava a fama terrível de general sanguinário e cruel. Porém não passava, nesse momento de uma sombra de si próprio.
Já acantonado em Espanha, pediu insistentemente uma licença, que acabou por lhe ser concedida, e abandonou o comando do corpo, regressando a França.
Em Maio de 1812 foi enviado por Napoleão para a campanha da Rússia, onde combateu abnegadamente.
Regressado a França em 1814, passou a comandante de uma região militar e, no ano seguinte, passou à disponibilidade. A queda de Napoleão fê-lo passar em definitivo à posição de reformado, indo viver em Liége, no recém-criado Reino dos Países Baixos, onde morreu em 30 de Dezembro de 1816, com apenas 45 anos.
Paulo Leitão Batista

Dissemos em crónica anterior que o general Foy esteve por quatro vezes no Sabugal por ocasião dos movimentos militares franceses ligados à terceira invasão. A primeira numa estada de 15 dias, integrado no corpo de Reynier, e outras três apenas de passagem, servindo de emissário entre Massena e Napoleão.

O general Foy acampou no Sabugal no início da terceira invasão, comandando uma brigada da divisão Heudelet, do 2.º corpo do exército francês, que ocupou os concelhos do Sabugal, Alfaiates e Vilar Maior, de 27 de Agosto a 11 de Setembro de 1810.
Esteve depois no Sabugal apenas de passagem, enquanto emissário de Massena para com o Imperador dos franceses. É pois das peripécias dessas perigosas missões que nos propomos falar.
Com o exército bloqueado pelas Linhas de Torres, Foy partiu de Santarém, a 1 de Novembro de 1810, portador de uma mensagem de Massena, à frente de um destacamento de 400 homens. Seguiu em marchas forçadas, tentando evitar os locais onde fosse facilmente atacado pelas milícias portuguesas que estavam muito activas nos territórios que não estavam ocupados pelos franceses. Os anteriores emissários de Massena, encarregados de comunicarem com os militares franceses que estavam na praça de Almeida e em Espanha, haviam sido mortos ou capturados, estando o exército invasor completamente isolado. Atravessar esses territórios, enxameados de milícias e de ordenanças, era pois aventura de altíssimo risco.
Em Abrantes tomaram o destacamento de Foy pela vanguarda dos franceses em retirada e fecharam-se na fortaleza. Dali seguiu na direcção de Castelo Branco e, já depois de passar junto a esta cidade, foi atacado por portugueses da ordenança, que lhe provocaram algumas baixas, e conseguiu livrar-se de um recontro com as milícias do general Silveira que tinham saído de Pinhel e seguiam para Abrantes.
Tomou o caminho de Penamacor e passou seguidamente no Sabugal, já com as tropas completamente extenuadas, pois seguira sempre em marchas forçadas, mal parando para descansar. Atingiu a fronteira no dia 7 de Novembro e entrou em contacto com militares franceses que o judaram a chegar a Ciudad Rodrigo e a prosseguir viagem para Paris.
O tenente Jean-Baptiste Barrés, que fez parte desse destacamento de Foy, descreveu a ousadia da missão: «Empreender uma expedição tão arriscada, com tão pouca gente, era muito ousado; mas o general era activo, empreendedor, e tinha ao seu lado um português que conhecia a região e um ajudante-de-campo que falava a língua, para interrogar os habitantes que encontrássemos ou os prisioneiros que fizéssemos.»
Voltou de França nos finais de Janeiro, em pleno Inverno, e fez o caminho inverso em direcção ao exército de Massena. Saiu de Ciudad Rodrigo com uma coluna de 500 homens, passou a fronteira e atingiu o Sabugal, passando depois por Sortelha, Belmonte, Pêraboa, Ferro, Alcaria, Freixial, procurando sempre caminhos secundários para evitar maus encontros. No dia 1 de Fevereiro, perto do Castelejo, foi impiedosamente atacado por ordenanças, o mesmo se passando no dia seguinte, perdendo aí uma boa parte dos seus homens. Porém conseguiu prosseguir viagem e no dia 5 de Fevereiro entrou em contacto com as linhas francesas junto à foz do Zêzere, perto de Punhete (agora Constância), entregando seguidamente os ofícios a Massena.
O jovem tenente Bauyn de Péreuse, que veio de França para integrar o exército de Massena, acompanhou o general Foy nesta perigosa aventura de regresso a Portugal e descreveu as jornadas nas suas memórias. Ao entrarem em Portugal pernoitaram numa pequena aldeia raiana abandonada pelos habitantes. O oficial não indica o nome da aldeia, mas era certamente uma povoação do actual concelho do Sabugal:
«Pernoitámos numa cabana de camponeses; encontrámos nas armações, colocadas sobre os barrotes que sustentavam o tecto, uma grande quantidade de castanhas secas, de que tirámos o melhor proveito e que substituíram frequentemente o pão durante a marcha.
As chaminés, nesta zona, são completamente desconhecidas. Faz-se uma fogueira e o fumo liberta-se através das telhas, contribuindo assim para secar as castanhas.
Por pouco não nos tornámos incendiários e não ficámos assados no nosso covil. Fazia frio. Lefranc encontrou uma arca velha, que desfez em pedaços; pusemos as tábuas no fogo, para o activar, num instante as chamas subiram até às aramações, incendiaram-nas e atingiram o tecto; felizmente a barraca estava isolada e o fogo não se comunicou às outras casas da aldeia.
»
O jovem tenente descreve depois as jornadas na Beira, debaixo de chuva e de neve e sob o frio intenso das terras serranas por onde a coluna deambulou, referindo ainda os ataques de que foram alvo por parte das ordenanças e dos camponeses, que os emboscavam a todo o instante. Foi assim até ao final da viagem, valendo a coragem e a tenacidade do general, que seguiu sempre em frente até cumprir a sua missão.
A 7 de Março, um mês após o seu regresso às linhas francesas, Foy parte de novo com a missão de ir a Paris com outra missiva de Massena para Napoleão Bonaparte anunciando-lhe a retirada francesa. Saiu de Tomar com apenas cinquenta cavaleiros por escolta, mas a experiência das outras expedições levaram-no a seguir de dia e de noite por caminhos pouco frequentados, evitando as povoações. Tendo pela quarta vez o Sabugal no seu percurso, consegue atingir a fronteiras sem encontros desagradáveis.
Paulo Leitão Batista

Foy serviu nas três invasões de Portugal, na primeira enquanto coronel e nas duas seguintes como general do exército imperial. Esteve no Sabugal no início da terceira invasão, integrado no corpo de Reynier e passou por três vezes nessa vila raiana enquanto mensageiro de Massena e de Napoleão Bonaparte.

Maximilien-Sébastien Foy (1775- 1825), entrou aos 15 anos para a escola de Artilharia, participando depois na campanha de Flandres com o posto de segundo tenente. Promovido a capitão, combateu em várias batalhas, mas em 1794, insurgiu-se contra os jacobinos e foi preso, devendo a sua salvação ao assassinato de Robespierre.
Foi gravemente ferido na batalha de Diersheim e na recuperação cursou direito público e história moderna.
Recomendado ao general Napoleão Bonaparte, recusou ser seu ajudante de campo e participar na campanha do Egipto. Sob as ordens de Massena foi promovido a coronel, em 1799, após se ter destacado no campo de batalha. Combateu depois nas campanhas de Marengo e do Tirol.
Opôs-se à ascensão de Napoleão Bonaparte ao poder supremo e depois ao seu consulado vitalício e à proclamação do Império, factos que o penalizaram vendo adiada a promoção ao generalato.
No início 1807 foi enviado para Constantinopla, e no final desse ano foi integrado no corpo do general Junot, participando na primeira invasão de Portugal. Na sequência da Convenção de Sintra regressou a França, onde foi finalmente promovido a general de brigada por Napoleão, sendo reenviado para Espanha, onde foi integrado no 2.º corpo, comandado por Soult e combate de novo em Portugal, na segunda invasão francesa. É ferido em Braga numa refrega com milícias portuguesas, e, ao entrar no Porto para exigir a rendição da cidade, é quase linchado pela população que o toma pelo general Loison, o célebre Maneta, salvando-se ao mostrar os dois braços à multidão. É preso, mas logo libertado com a conquista da cidade pelos franceses.
Em 1810 participa na terceira invasão de Portugal, integrado no 2.º corpo, agora comandado pelo general Reynier, que ocupou o Sabugal e Alfaiates de 27 de Agosto a 11 de Setembro, ainda na fase preparatória do movimento geral da invasão.
Já perante as inexpugnáveis Linhas de Torres Vedras, o general Foy foi o escolhido por Massena para ir a Paris levar uma missiva a Napoleão Bonaparte, para explicar a situação do «Exército de Portugal», da novidade que eram as Linhas de Torres e da necessidade de reforços.
Com um destacamento de 400 bons e corajosos caminheiros, Foy conseguiu atravessar o território que separava o exército da fronteira, completamente infestado por milícias portuguesas, que atacavam impiedosamente todos os movimentos militares dos franceses. Nessa manobra passou pelo Sabugal no movimento de ida e atinge Espanha, onde prosseguiu a sua rota para Paris. Recebido pelo Imperador, que lhe admirou a coragem e o mérito da missão, promoveu-o a general de divisão, e reenviou-o a Portugal com instruções para Massena.
Regressou pelo mesmo caminho e, acompanhado por tropas frescas que lhe admiravam a coragem e o seguiam fielmente, voltou a passar pelo Sabugal, e dali seguiu por caminhos pouco frequentados, procurando furtar-se a encontros com as guerrilhas.
Depois de mil peripécias, e com perdas consideráveis entre os seus homens, conseguiu chegar a Massena, a quem entregou a missiva.
Já no movimento retrógrado do exército invasor, Massena voltou a enviar Foy a Paris, dando conta a Napoleão da situação desesperada do exército e da sua firme decisão de não abandonar a empresa: recuará estrategicamente para bons acantonamentos e, contando com os reforços que suplica ao Imperador, voltará a avançar e ocupará Lisboa.
Foy, com uma escolta de apenas 50 cavaleiros, volta a embrenhar-se nos caminhos da Beira, com o Sabugal novamente no percurso, conseguindo atingir a fronteira. Já em Espanha é atacado num desfiladeiro, entre Burgos e Bilbau, por um forte destacamento espanhol. Foy perdeu a quase totalidade dos elementos da escolta mas conseguiu escapar completamente despido, colocando-se em fuga com os ofícios que também salvou. Prosseguiu viagem com roupas emprestadas, levando as mensagens ao seu destino.
Napoleão, irado com o conteúdo da mensagem de Massena, amarrotou os papéis e descarregou no general a sua fúria. Pouco tempo depois Foy era enviado de volta a Massena, levando-lhe uma carta do Imperador extremamente severa, manifestando-lhe o seu desagrado pelo fracasso da invasão. Foi já em Ciudad Rodrigo que Massena recebeu a missiva. Tivera sempre a maior confiança em Foy, mas verificou que os selos da carta haviam sido violados e carta fora lida antes de lhe ser entregue. Manifestou-lhe desagrado e desprezou-o a partir daí.
Porém Massena estava de partida e o general Foy reingressou no «Exército de Portugal», agora chefiado pelo marechal Marmont, comandando uma divisão. Combateu contra o exército anglo-luso, que se expandira por Espanha, sendo notado pela sua coragem e mérito. Já em plena retirada, foi gravemente ferido na batalha de Orthez, em 27 de Fevereiro de 1814, sendo esta a sua última prestação militar até ao fim do Império.
Com a França em convulsão política, Foy serviu como general durante mais alguns anos e depois aposentou-se, dedicando-se à política e à escrita, sendo autor de uma «História da Guerra da Península».
Paulo Leitão Batista

O general francês Gardanne viveu um autêntico pesadelo em Portugal, quando atravessou a fronteira com o objectivo de entrar em contacto com as tropas de Massena, que estava no Ribatejo. Enfrentando uma hostilidade sem limites, o general passou com as suas tropas pelo Sabugal, na rota de ida e na de regresso.

Há duzentos anos, por este tempo, em Dezembro de 1810, as tropas da terceira invasão francesa, comandadas por Massena, estavam agrupadas em redor de Santarém, esperando reforços. Os soldados viviam da pilhagem e cometiam toda a espécie de atrocidades contra os habitantes que procuravam esconder-se dos invasores, vivendo em constante sobressalto.
O Sabugal, que estivera no percurso da invasão, continuou a ser local de passagem de tropas. Massena decidira enviar ao Imperador o general Foy, para lhe dar conta dos acontecimentos e lhe pedir instruções. O Sabugal esteve na rota deste general (de que falaremos mais tarde).
Outro comandante francês que passou pelo Sabugal foi o general Gardanne, que consta ter ali dormido uma noite. É precisamente da desventura deste general na terceira invasão que iremos seguidamente falar.
Charles Mathieu Gardanne, nasceu em Marselha em 1766. Entrou muito novo para o exército, tendo sido promovido a tenente de cavalaria aos 26 anos e a capitão um ano depois. Comandou esquadrões e regimentos de cavalaria, tendo-se notabilizado em combate. O seu alto mérito militar levou-o a ser chamado para ajudante-de-campo de Napoleão Bonaparte.
Para além de militar distinguiu-se como diplomata, ao ser enviado por Napoleão ao Irão, em 1807, como ministro plenipotenciário, para pedir o apoio do Xá da Pérsia à causa da França contra a Rússia e a Inglaterra. Após a missão diplomática o general retornou a França, em 1809, e o Imperador concedeu-lhe o título de conde do Império. De seguida enviou-o, como general de Brigada, para Espanha. Aí integrou o 9º corpo do exército francês, comandado pelo General Drouet, conde d’Erlon, que, instalado em Salamanca, deu a Gardanne o comando de uma brigada que serviu de cabeça de coluna ao seu movimento em direcção a Portugal, a fim de apoiar o exército de Massena.
O general Foy, enviado por Massena a Paris, passou por Ciudad Rodrigo, onde se encontrou com Gardanne e lhe pediu que cumprisse quanto antes a missão de entrar em Portugal e se juntar às tropas franceses. Para tanto deixou-lhe como guia o capitão de engenharia Boucherat, que conhecia bem os caminhos de Portugal.
Gardanne entrou por Almeida, no dia 13 de Novembro, à frente de uma coluna com quatro mil homens, levando o general Silveira a levantar o cerco que as suas milícias faziam à praça, em poder dos franceses. Os invasores perseguiram as milícias e atacaram-nas perto de Pinhel, infligindo-lhe grandes baixas.
Mas como o propósito de Gardanne era ir ao encontro de Massena levando-lhe homens, cavalos e munições, procurou o caminho mais directo e seguiu a linha do Côa para montante, atingindo o Sabugal, onde se instalou. Arrancou desta vila raiana a 20 de Novembro, passando por Sortelha, Capinha, Fatela, Valverde, chegando ao Fundão no dia 22 de Novembro. Nas imediações do Fundão foi alvo de emboscadas por parte das milícias de Trant, que atacaram constantemente a coluna, provocando-lhe baixas. Gardanne continuou porém a sua rota para sul, seguindo em marchas rápidas por um território extremamente hostil, infestado de milícias e ordenanças portuguesas que o atacavam a todo o instante.
A 25 de Novembro, estava em Cardigos, a um dia de Punhete (Constância). A 26 avançou nessa direcção para entrar em contacto com os postos franceses que ocupavam a margem esquerda do rio Zêzere. Porém, já a pouca distância destes recebeu informações por parte de um alegado espião francês, que lhe indicou que a ponte sobre o Zêzere estava destruída e os franceses tinham retirado, sendo vigorosamente perseguidos pelos ingleses.
Estas informações, que eram totalmente falsas, provocaram o pânico em Gardanne, que pensou estar prestar a cair numa armadilha e retirou de forma precipitada e desorganizada, vivendo então uma aventura dramática, deixando para trás muitos soldados. A 29 de Novembro estava em Penamacor, de onde enviou emissários ao general Drouet, indicando-lhe que retirava. Foi com a sua brigada completamente extenuada e em estado deplorável que Gardanne voltou a passar no Sabugal e Alfaiates, com a pressa de atingir a fronteira e juntar-se às restantes tropas do 9º corpo.
Já em Espanha o general Drouet juntou a coluna recém-chegada à sua primeira divisão, cujo comando entregou a Gardanne, que voltou a avançar para Portugal por Celorico e ponte de Mucela, atingindo a 26 de Dezembro, o exército de Massena.
A reputação de Gardanne nunca mais seria a mesma, o fracasso da sua primeira manobra em Portugal e as circunstâncias caricatas da sua retirada, quando estava a poucos quilómetros das linhas franceses, foram motivo de troça por parte de franceses e aliados, assim se desprestigiando um general que já dera noutras ocasiões provas de valentia e de sabedoria.
Paulo Leitão Batista

A «política de terra queimada» posta em prática por Wellington, transformando Portugal num deserto, para que as tropas invasoras não encontrassem meios de subsistência, tornaram os esfomeados soldados franceses em verdadeiros animais ferozes, sofrendo as populações os consequentes actos de barbárie.

Fuzilamento em Madrid na Guerra Peninsular - quadro de GoyaÀ medida que o exército de Massena avançava os franceses davam-se conta de que em Portugal apenas encontrariam fome e miséria. O povo abandonara as aldeias, vilas e cidades, escondera os meios de subsistência que não pudera transportar, queimara as searas, destruíra fornos e moinhos, envenenara fontes e poços. Esta bem sucedida táctica, onde os portugueses de tudo se desprenderam por manifesto patriotismo, foi dois anos depois seguida na Rússia, onde as tropas de Napoleão Bonaparte voltaram a sentir os efeitos da fome, a que se juntaram os do frio extremo.
Nos dias de marcha o soldado comia a parca ração de biscoito que lhe era distribuída, mas quando a coluna parava e acampava, eram de imediato organizadas batidas, ou acções de saqueamento, procurando-se víveres pelos aglomerados populacionais em redor. Como não encontravam vivalma nem meios alimentícios à mão, procuravam adivinhar onde estavam escondidos. Cavavam onde houvesse terra remexida de fresco e, por vezes, eram premiados com a descoberta de uma arca cheia de cereal. Esbarrondavam as frágeis paredes das casas e encontravam nos vãos falsos arcas salgadeiras cheias de carne de porco. Entravam nas lojas e por vezes ficavam deslumbrados com pipas cheias de vinho que os seus proprietários, na pressa da fuga, não tiveram tempo de entornar. Atentos aos sons do campo detectavam o balir, o mugir e o grunhir dos animais domésticos que ficaram para trás ou que tresmalharam, apressando-se a conduzi-los ao acampamento, onde eram abatidos à medida das necessidades.
Na falta de outro alimento a soldadesca sacrificava os burros de carga que acompanhavam o exército. Nunca tanto asno foi comido nas terras portuguesas como nos dias da terceira invasão francesa. Das largas centenas de burros que as hostes napoleónicas trouxeram para transporte de carga e de feridos em combate, apenas parcas dezenas regressaram a Espanha no final.
Cada regimento organizava as suas pilhagens para buscar sustento. Chefiadas por sargentos, as colunas de saqueadores, que os generais designavam de «forrageadores», iam pelo campo seguindo direcções diferentes. Por vezes estas sortidas demoravam dias, só regressando quando tivessem deitado mão a algo capaz de matar a fome aos camaradas. As aldeias estavam desertas, e ai do desventurado que estes soldados encontrassem. Vinham-lhe ao de cima instintos de ferocidade e eram capazes de o torturarem até à morte para obterem a revelação de onde havia algo para pilhar.
Soldado francês com o resultado da pilhagemO capitão Jean-Baptiste Delafosse, que esteve integrado no corpo de Reynier, publicou as suas memórias sobre a campanha de Portugal, onde descreveu, com manifesta emoção, o que a tropa gaulesa passou, justificando assim os actos de barbárie praticados sobre a população portuguesa:
«Desgraçado do camponês que o destino fazia encontra-se com saqueadores! O pobre infeliz via-se, em primeiro lugar, despojado e, muitas vezes, cúmulo do horror, era morto… por homens a quem a fome, essa dura necessidade, tinha tornado cruéis e semelhantes a selvagens (…). Necessitavam de guias em localidades desconhecidas; apanhavam um, ordenavam-lhe que os conduzisse a uma aldeia, não era a sua, bem entendido, onde ele os levava; chegados lá, forçavam-no a indicar os esconderijos, mas, como fazer? O pobre diabo não os conhecia (…). Passavam-lhe uma corda pelo pescoço e o infeliz ouvia estas palavras: “Enforcado até que nos digas onde está o grão!”… Como não o sabia indicar, suspendiam-no até começar a ficar azulado; então punham-no em terra para que falasse! Infeliz! (…) O soldado, na sua ferocidade, dizia-lhe: “Ah, tu não queres dizer onde fica o grão? És um bandido, à forca!” E enforcado ficava.»
Mas vingança gera vingança e o mesmo capitão francês descreve um episódio atroz a que assistiu:
«Em frente de uma casa isolada encontrámos, na nossa marcha de retirada, quatro corpos enforcados numa árvore!… Entrando no rés-do-chão, um espectáculo medonho ofereceu-se aos nossos olhos: sobre a parede estava pregada a pele de um homem esfolado há pouco tempo e por baixo estava escrito em português: “Dragão francês, esfolado vivo, por ter enforcado os nossos homens!…”»
Era esta a resposta do povo português face ao saque, às sevícias, à morte por divertimento e ao abuso das mulheres constantemente praticados pelos soldados franceses.
A prática selvagem de esfolar franceses começou logo em Riba-Côa, nos primeiros dias desta infernal terceira invasão, quando em Nave de Haver foram detidos por populares dois oficiais franceses (um coronel e um tenente) e dois soldados que se haviam perdido da escuridão e ali tinham ido parar. O tenente d’Oraison, atingido com um tiro, foi de seguida esfolado pelas mulheres da aldeia, que assim exprimiram o ódio aos franceses que as violavam e lhe matavam os maridos e os filhos. O coronel Pavetti e os dois soldados foram violentamente torturados e enviados à tropa regular anglo-portuguesa, que estava do outro lado do Côa. Ao ter conhecimento do sucedido, Massena mandou cercar a aldeia e fuzilar os culpados, sendo conduzidos ao quartel francês um conjunto de camponeses, que pagariam com a vida a ousadia e a barbárie popular. Wellington, ao saber do caso, escreveu a Massena, intercedendo pelos infelizes, que eram, assegurava-o, homens da Ordenança portuguesa. Deveriam por isso ser tratados como prisioneiros, da mesma forma que ele tratava os soldados franceses capturados. Massena, agastado com a argumentação de Wellington, que na sua perspectiva apenas defendia assassinos, respondeu-lhe com azedume: «Não lhe fica nada bem falar da sua lealdade nos actos de guerra e no seu respeito pelos usos estabelecidos entre as nações civilizadas. Pois não é o senhor que obriga os portugueses, dos quais, no entanto se diz protector, a devastar as suas propriedades e a fugir quando chegam os franceses?». E os pobres camponeses de Nave de Haver foram de facto executados.
Foram tempos tenebrosos, onde a ira e a sede de vingança tomaram conta de tudo. Tempos que importa evocar na perspectiva de se tomar consciência da desumanidade que sempre acompanha os conflitos armados entre as nações e do sofrimento atroz que por essa via é imposto às populações atingidas.
Paulo leitão Batista

Jean-Louis Ebénézer Reynier nasceu a 14 de Janeiro de 1771 em Lausanne, na Suíça, tendo-se destacado enquanto militar ao serviço de Napoleão. Na terceira invasão de Portugal coube-lhe ocupar o Sabugal e Alfaiates, onde permaneceu no período preparatório do avanço para Lisboa. Na retirada voltou a acampar no Sabugal, onde enfrentou as tropas anglo-portuguesas comandadas directamente por lord Wellington.

Reynier foi um oficial talentoso, que porém era por vezes acusado de ser muito inseguro e de trato difícil.
Formado em engenharia civil, ofereceu-se para servir no exército francês em 1792, tornando-se oficial de artilharia. Serviu abnegadamente em combate, o que, aliado aos seus conhecimentos, lhe valeu ser promovido a general de brigada com apenas 24 anos.
Integrou a expedição ao Egipto, onde serviu na batalha das Pirâmides e foi nomeado governador de uma província. Tomou parte na expedição à Síria, e, de volta ao Cairo, desentendeu-se com o comandante-em-chefe, o general Menou, o que lhe valeu ser preso e acusado de traição.
Já em Paris, bateu-se em duelo com o general Destaing, a quem provocou a morte. Napoleão expulsou-o então da cidade. Mas o reconhecido talento de Reynier fez com que estivesse de volta pouco tempo depois.
Em 1804 integrou o Corpo de Observação de Nápoles, e, no ano seguinte, venceu os austríacos. Em 1806 serviu sob as ordens de Massena e, em 1807, assumiu o comando do exército francês na Calábria, cuja campanha o levou a Grande Oficial da Legião de Honra. Em 1808 foi nomeado Ministro da Guerra e da Marinha do Reino de Nápoles.
No decurso da importante Batalha de Wagram, o Imperador retirou o comando ao Marechal Bernadotte, chamando Reynier para o substituir à frente de um dos corpos.
No final de 1809 foi enviado para a Península Ibérica, onde tomou o comando do 2º corpo, que integrou o Exército de Portugal, sob as ordens de Massena. Apesar dos reveses desta campanha, Reynier tornou-se Conde do Império, em reconhecimento dos seus méritos.
Em Janeiro de 1812 retornou a França para preparar a campanha da Rússia, na qual participou. Na retirada, já na Alemanha, ficou prisioneiro dos russos, que, sabendo-o suíço de nascimento, lhe ofereceram uma comissão no seu exército. Reynier recusou, permanecendo fiel à França, e retornou a Paris, graças a uma troca de prisioneiros. Desgastado pelas campanhas adoeceu gravemente e morreu pouco depois, em 27 de Fevereiro de 1814.
No decurso da terceira invasão de Portugal foram diversos os momentos de tensão entre Massena e os seus comandantes dos corpos, incluindo Reynier. Massena considerava-o um general com muito talento, mas que era tímido e desesperava perante a menor dificuldade.
Antes da invasão se iniciar, coube-lhe cobrir a linha do Tejo, sustendo as tropas do general Hill. Depois o marechal comandante ordenou-lhe que viesse para norte, entrasse em Portugal pela Idanha e atingisse o Sabugal e Alfaiates, onde deveria instalar os seus 18 mil homens. Esteve no Sabugal de 27 de Agosto a 11 de Setembro de 1810. Seguiu depois para a Guarda e desceu o vale do Mondego, acompanhando os outros corpos no movimento geral.
Na batalha do Buçaco Reynier formou a esquerda do ataque francês, tendo sofrido pesadas baixas. Passando Coimbra e Leiria o exército invasor chegou às célebres linhas de Torres Vedras, também chamadas de Lisboa, que não conseguiu ultrapassar, espraiando-se em toda a sua extensão, cabendo a Reynier ocupar Vila Franca de Xira e Castanheira do Ribatejo. Recuou depois para Santarém, cidade que ocupou enquanto os franceses esperaram por reforços que nunca chegaram.
Reynier era admirado pelos seus soldados, dado o rigor com que manobrava as tropas e os estratagemas a que recorria para iludir o inimigo. Em Santarém, passando grandes privações, por falta de víveres, Reynier pensou numa incursão à margem esquerda do Tejo para recolher algum do gado. Wellington tinha soldados guardando toda essa margem, sem porém se conhecer o seu número. Reynier concretizou então um plano, que consistiu em fazer subir um balão de ar quente que mandou fazer com papéis, facto que despertou a curiosidade dos soldados portugueses e ingleses, que saíram dos seus refúgios para observarem o artefacto. Munido do seu binóculo o general contou então as tropas inimigas, planeando depois uma incursão que foi muito bem sucedida.
Aquando da retirada, Reynier voltou a surpreender ao montar um estratagema que iludiu as linhas luso-britânicas e lhe garantiu um avanço considerável. Mandou fazer manequins vestidos de soldados, colocou-os nos locais das sentinelas e abandonou os postos durante a noite. Só ao amanhecer os aliados deram conta de que as linhas francesas estavam desertas.
Na véspera da batalha do Sabugal Reynier fez mais uma vez desesperar Massena, que estava em Alfaiates. O Marechal ordenara-lhe que garantisse a ponte do Côa, dando tempo a Loison para recuar com o seu corpo. Porém Reynier mostrava-se nervoso e impaciente, face aos movimentos que os seus postos avançados observavam ao exército anglo-luso, que vinha de Vale Mourisco em direcção ao Sabugal. Os ajudantes de campo de um e outro oficial cruzavam-se incessantemente com missivas. Reynier dizia estar defronte de toda a vanguarda do exército aliado e queria retirar durante a noite, mas Massena ordenava-lhe que se mantivesse firme e escrevia-lhe: Não penso que o inimigo nos queira atacar; colocou-se na estrada de Penamacor para ver se queremos ir por ela. (…) o 6º corpo está à sua direita e o 8º atrás de si, e ou um ou o outro lhe dará apoio em caso de necessidade. (…) Para lhe dizer a verdade, não creio que lord Wellington esteja à sua frente. Mas estava, e em pessoa, preparando um ataque vigoroso às linhas francesas. Atacado, Reynier resistiu quanto pôde, até receber enfim autorização para retirar.
Massena elogiou porém o esforço do seu general: o combate do Sabugal honra Reynier, pois este general recuperou toda a sua energia logo que a acção começou, escreveu o general Koch nas «Memórias de Massena». Na verdade cumpriu a sua missão e conseguiu retirar em boa ordem, sem perdas consideráveis.
O nome de Reynier está escrito no lado sul do Arco de Triunfo.
Paulo Leitão Batista

A Batalha do Buçaco (ou Bussaco, de acordo com a grafia antiga), foi travada durante a Guerra Peninsular, próxima do Luso, na Mealhada, a 27 de Setembro de 1810, combatendo por um lado forças coligados portuguesas e britânicas, sob o comando de Arthur Wellesley, primeiro Duque de Wellington, e por outro as forças francesas lideradas pelo marechal André Massena.

Wellington retirara do Côa frente ao avanço imparável na máquina de guerra francesa, cujos soldados estavam ávidos por combater os ingleses e portugueses, que lhes fugiam sucessivamente, dando-lhes a entender que receavam qualquer recontro.
Mas, chegado à montanha do Buçaco, o comandante inglês decidiu ocupá-la com as suas forças (cerca de 50 mil homens, metade dos quais portugueses), esperando aí pelo exército invasor.
A posição ocupada no alto da montanha era formidável e meteu respeito aos franceses, fazendo com que Massena hesitasse. Bastar-lhe-ia contornar a serra para evitar um recontro generalizado, fazendo com que Wellington desmonta-se as suas linhas, mas o desejo de uma batalha era demasiado forte para soldados que se achavam os melhores do mundo, ainda mais perante um inimigo que assistira impávido à queda das praças de Ciudad Rodrigo e de Almeida e que se colocara em fuga face ao avanço do exército francês. A posição era difícil e claramente desfavorável, mas o comandante francês acreditava na vitória.
Do outro lado Wellington estava confiante na vantagem da sua posição, e esperava serenamente que os franceses o atacassem rompendo a pique pela serra e expondo-se ao fogo dos aliados. Foi atacado por cinco vezes sucessivas pelos homens de Massena, mas não cedeu a posição. O último assalto foi comandado pelas forças do Marechal Ney e do general Reynier, que foram incapazes de desalojar as forças anglo-lusas. Os franceses tiveram cerca de 4500 baixas, entre mortos e gravemente feridos, sendo que as perdas dos luso-britânicos ascenderam apenas a 1250 homens.
Esta foi a primeira batalha da Guerra Peninsular em que as forças do reconstituído e reorganizado exército português participaram (o exército havia sido desmobilizado por Junot em Dezembro de 1807 e parte dele enviado para servir Napoleão; só em 1809 havia sido restaurado e treinado pelo marechal inglês William Carr Beresford). Os soldados portugueses bateram-se aliás com grande coragem, o que lhes valeu fortes elogios por parte de Wellington.
A Batalha do Buçaco, vai ser recriada a 25 e 26 de Setembro numa iniciativa organizada pela Câmara Municipal da Mealhada, que reúne cerca de 200 figurantes de associações napoleónicas de vários países.
Ao princípio da tarde do dia 25 realiza-se um desfile pela Avenida Emídio Navarro, no Luso, ao qual se seguirá a recriação de uma escaramuça junto ao monumento evocativo da batalha.
No dia 26 recria-se a Batalha do Buçaco, pelas 11h00, junto às portas do Sul.
plb

A Lapa de Maria foi um dos refúgios naturais que os habitantes de Valongo do Côa usaram para se esconderem dos franceses, procurando evitar os abusos desmedidos da soldadesca, que percorria as aldeias em busca de sustento ou na perseguição das guerrilhas que os atacavam.

Há 200 anos, no tempo em que Napoleão espalhou a guerra por toda a Europa, os exércitos não tinham ainda capacidade logística para transportarem consigo os meios de abastecimento. Atrás das colunas de cavalaria e infantaria seguiam os pesados trens da artilharia e da engenharia, carroças com pólvora, balas de canhão e cartuchos de espingarda, caixões de biscoito, e algum material de intendência.
Bonaparte fixara a máxima: «A guerra deve alimentar a guerra.» Tal significava que cada um dos seus exércitos deveria subsistir com o que o país ocupado produzisse, cabendo aos comandantes providenciar no sentido de garantir esses recursos.
Ora, em certas regiões, os exércitos franceses andavam depauperados. Os soldados passavam fome, tinham as roupas e o calçado rotos, além de que os soldos estavam em atraso. A solução era mandar «forragear».
Constituíam-se destacamentos com carroças para transporte, que seguiam pelos territórios ocupados em busca de víveres. Onde havia algo a confiscar para a sobrevivência do exército, os forrageadores deitavam a luva, sem pedir licença. Embora procurassem sobretudo cereais, tudo lhes servia: vinho, aguardente, animais para abate, ovos, enchidos, fruta, e até feno e palha para os cavalos. Quem se lhes interpusesse, alegando defender o que era seu, arriscava-se à morte. Por isso era tremendo o medo dos franceses e os povos das zonas ocupadas procuravam locais de refúgio, para onde se escapuliam logo que os franceses se aproximassem das aldeias.
No concelho de Vilar Maior, junto a Valongo, na margem do Côa, havia um refúgio natural que foi sucessivamente usado durante o tempo em que os militares de Napoleão operaram na raia. Trata-se da Lapa de Maria, que é uma gruta natural, formada por grandes barrocos. A entrada é muito baixa e estreita, sita na base dos rochedos. Porém o interior da gruta contém uma nave ampla, onde cabem mais de três dezenas de pessoas. No topo contém uma pequena abertura, por onde entra luz natural.
Está localizada a pouco mais de um quilómetro da povoação, na margem direita do rio, em local aprazível. O isolamento da Lapa de Maria e a sua localização privilegiada, tornam-na num esconderijo perfeito, perante um invasor que possuía cartas das principais estradas e caminhos e sabia localizar facilmente as principais povoações, mas não podia conhecer os abrigos que o povo escolhia para se esconder.
Joaquim Manuel Correia, no seu livro «Celestina», fala na Lapa de Maria e conta alguns episódios que o povo não esqueceu.
«Durante o “tempo dos franceses” cerca de 30 pessoas estiveram escondidas na Lapa de Maria, junto ao rio Côa, na zona do Seixo. Estiveram três dias sem comer, até que um homem, Afonso Correia, “foi ao Seixo comprar uma bolacha, uma coisa dura a arremedar uma bola, por oito tostões, repartindo-a por todos”.
Muitas vezes ali estavam escondidos, quando viam o perigo assomar. Conta-se que duma vez ouviram gritar “Ó Maria, olha que já abalaram os franceses”, porém desconfiaram e não saíam porque quem gritava era um garoto a mando dos franceses que assim esperavam surpreender os escondidos. Como não saíam ameaçaram deitar fogo a toda a gente, pelo que saíram, fugindo cada um para seu lado.
Uma mulher, chamada Josefa, fugiu com todo o ouro do grupo para a Serra do Seixo, sendo perseguida por um francês que a tentou, sem êxito, balear.
No mesmo local consta que os invasores tentaram enforcar uma rapariga chamada Paula, de Vale das Éguas, deixando-a pendurada num carvalho, decerto depois dela terem abusado. Valeu-lhe ali passar um homem que lhe acudiu cortando a corda. “Ficou sã e escorreita, inda casou e teve filhos”.
Na Ruvina mataram um rapaz por defender a mãe que um francês queria acometer. Eles, desagradados com a acção do rapaz em defesa da mãe, “deitaram-no sobre um banco e obrigaram a mãe a aparar o sangue como se fosse um porco”.»
A Lapa de Maria deveria ser inserida numa «rota das invasões» a criar no concelho do Sabugal.
Paulo Leitão Batista

No dia 11 de Setembro de 1810, o corpo de tropas de Reynier abandonou os concelhos do Sabugal, Alfaiates e Vilar Maior, onde estavam instaladas há 14 dias, iniciando, sob o comando de Massena, a manobra da terceira invasão de Portugal. Para trás deixavam aldeias saqueadas, homens mutilados e assassinados e mulheres violadas. Portugal e os portugueses viviam um dos períodos mais pavorosos da sua história.
plb

A 27 de Agosto de 1810, há precisamente 200 anos, as tropas do 2.º corpo do exército francês, comandadas pelo general Reynier, vindas do sul para se juntarem ao grande exército de Massena, ocuparam em força as terras dos concelhos do Sabugal, Alfaiates e Vilar Maior, provocando a fuga desesperada das populações.

Enquanto o 6.º corpo, de Ney, manobrava em redor de Almeida, estabelecendo o cerco à fortaleza, e o 8.º corpo, de Junot, estava ainda em Espanha nas margens do rio Águeda, o 2.º corpo, de Reynier, operava em Cória e Placencia, na linha do Tejo. Massena montara o seu quartel-general no forte de La Conception, frente a Vale da Mula, de onde emanava as ordens do dia.
O marechal ainda não decidira como invadir Portugal e estava inclinado a fazê-lo em duas frentes, partindo uma coluna de Almeida, pela estrada da Beira, e penetrando a outra pelo vale do Tejo, em direcção a Abrantes. Porém acabaria por preferir juntar os três corpos e avançar em força por Celorico e Viseu, pois a postura de Wellington, que deixara cair Ciudad Rodrigo e não auxiliava Almeida, indiciava que podia dar-lhe perseguição e enfrentá-lo em qualquer posição.
Foi assim que na manhã do dia 25 de Agosto enviou ordens a Reynier para se deslocar para norte e tomar posição na margem direita do Côa, à esquerda do corpo do marechal Ney. Em cumprimento dessas instruções, o 2.º corpo avançou em marchas rápidas e no dia 27 ocupou em força os concelhos do Sabugal, Alfaiates e Vilar Maior, cujas aldeias ao redor foram também tomadas pelos destacamentos, tendo os soldados ocupado as casas abandonadas pelos habitantes receosos. Tal como o comandante em chefe lhe prescrevera, Reynier estabeleceu o seu quartel-general em Alfaiates e guarneceu fortemente a ponte do Sabugal, tendo em vista dissuadir qualquer tentativa do exército anglo-português de atravessar a linha do Côa.
Os concelhos raianos onde até então tinham forrageado os destacamentos do 6.º Corpo, ficavam agora literalmente ocupados pelas tropas do 2º corpo, as mesmas que com o marechal Soult haviam protagonizado a segunda invasão de Portugal. Estes soldados experientes e com amargas recordações dos portugueses teriam que ali subsistir até que fosse dada a ordem de avançar em direcção a Lisboa. Os povos das terras em redor sofreram então como nunca os excessos da soldadesca que, querendo alimentar-se e aprovisionar-se de viveres, lançavam mão a tudo o que servisse de alimento para os homens e para os animais do exército.
Esta forte e dura ocupação militar das nossas terras manter-se-ia até ao dia 11 de Setembro, data em que Massena transmitiu aos seus lugares tenentes as instruções para a execução dos movimentos preparatórios para o avanço da invasão. Nesse mesmo dia o 2.º corpo deixou as suas posições na margem direita do Côa e marchou para a Guarda, de onde depois prosseguiu num movimento combinado com os restantes corpos do exército.
Já em finais de Março de 1811, malograda a terceira invasão e em plena retirada, as tropas do 2.º corpo voltariam a ocupar as terras do Sabugal, com a ideia de aí conterem o avanço dos anglo-lusos, que lhes davam perseguição. As populações voltaram então a sofrer com as atrocidades dos soldados franceses que vinham ainda mais famintos e coléricos do que quando dali haviam estado há sete meses.
No dia 3 de Abril de 1811, teve lugar a batalha do Sabugal, onde os homens de Reynier foram batidos pelos portugueses e ingleses comandados por Wellington, livrando-se assim os sabugalenses das pilhagens e dos excessos da tropa francesa.
Paulo Leitão Batista

A 26 de Agosto de 1810 deu-se a terrível explosão do castelo medieval de Almeida, desastre que semeou a destruição e a morte em toda a fortaleza e que ditaria a capitulação da guarnição perante as tropas francesas sitiantes.

Recriação do Cerco de AlmeidaA praça, defendida por cerca de cinco mil bravos portugueses, comandados pelo governador William Cox, estava debaixo de uma poderosa flagelação. Desde as 5 da manhã que as dezenas de bocas de fogo dos sitiantes disparavam balas para abrir brechas na muralha e bombas com mechas incendiárias para lançar o terror no interior da praça.
Os artilheiros portugueses mantiveram-se firmes na defesa, respondendo com vivacidade e provocando baixas e sérios estragos nas baterias inimigas. Porém, ao cair da noite, uma das bombas incendiárias caiu junto ao castelo de Almeida, que servia de paiol, e o fogo seguiu um rasto de pólvora até fazer deflagrar as 75 toneladas de explosivo que estavam em armazém. Deu-se uma autêntica erupção vulcânica, indo o castelo e as casas da vila pelos ares. Muitos dos canhões e respectivos artilheiros foram projectados para os fossos, 500 pessoas ficaram sepultadas nos escombros das casas e muitos combatentes morreram com o sopro da explosão. Os destroços foram cair nas trincheiras francesas, matando muitos soldados. Para piorar o desastre deflagrou na praça um violento e horrendo incêndio.
O susto deixou surpresos sitiados e sitiantes, que pararam de combater. Mas em breve algumas das peças de canhão portuguesas eclodiram, dando a entender que, mau grado o acidente, a praça não desistia de se defender. Os franceses, responderam então com tiros de obus que duraram toda a noite, perturbando as operações de socorro aos feridos e a recomposição da força defensiva.
Só às 9 horas do dia seguinte houve um cessar-fogo ordenado por Massena, que enviou um representante ao interior da praça com uma carta para o governador, intimando-o a entregar-se à «generosidade do Imperador e Rei». Massena esperou todo o dia por uma resposta de William Cox, mas como esta não chegou decidiu, às 9 da noite, recomeçar a flagelação da praça. Isso provocou a revolta de alguns oficiais portugueses que fizeram ver ao governador a inutilidade da defesa perante o estado lastimoso em que se encontravam. O governador decidiu então capitular, assim caindo Almeida, que na manhã do dia seguinte recebeu as tropas francesas.
O chamado «desastre de Almeida» foi a causa de uma tão rápida queda da fortaleza, que tinha condições para se defender durante várias semanas ou meses. Os franceses viram assim aberto o caminho para a invasão de Portugal, podendo mandar prosseguir as movimentações militares.
O horror da explosão motivou várias descrições por parte de quem testemunhou este tremendo desastre.
O relatório do governador William Cox, é de um realismo extremo: «Tinha-me sentado, quando senti um choque violento, semelhante a um tremor de terra com um estrondoso som; uma coluna de ar entrou pela porta da galeria e logo depois juntou-se muita gente na abóbada, ao pé da porta do meu quarto. Levantei-me e perguntei qual a causa disto, mas era tal o temor geral e a consternação, que não pude obter uma resposta conclusiva. Saí e fui ao castelo trepando pelo montão de ruínas com que as ruas estavam entulhadas e assim que cheguei conheci que todo o edifício, que era uma imensa massa de cantaria, estava demolido. (…) Mandei tocar às armas, fui às muralhas e peguei num molho de bota-fogo e, ajudado por um único oficial de artilharia, fiz fogo com todas as peças que achei carregadas».
Marbot, ajudante de campo de Massena, que estava enfermo em Ciudad Rodrigo, sentiu ali o rebentamento: «Ao cair da noite ouviu-se uma formidável explosão. A terra tremeu. Julguei que a casa ia desmoronar-se. (…) Embora Ciudad Rodrigo fique a meio dia de viagem daquela praça fez-se sentir uma viva comoção.»
Também a duquesa de Abrantes, Laura Junot, mulher do general comandante do 8º corpo do exército napoleónico, que estava com o marido em San Felices, relatou o sucedido: «A minha casa experimentou um violento abalo – será um tremor de terra? exclamei aterrada – parecia-me que a casa desabava. (…) Junot foi o primeiro a correr para uma velha e desbaratada torre situada no cume de uma colina ao sair da povoação. É um espectáculo admirável, gritava ele, voltando quase no mesmo instante!… É mister que tu o vejas. Almeida está em chamas!… Levaram-me à torre e presenciei a uma horrenda maravilha. Era um horizonte todo de fogo, orlando um céu cor de ardósia e lançando às vezes sobre aquela sombria tapeçaria brilhantes girândolas.»
O capitão francês Guingret, que estava na trincheira, deixou também a sua perspectiva: «A explosão foi tão terrível que destruiu toda a cidade e respectiva população no mesmo segundo. Pedras enormes, rochedos, foram lançados até às nossas trincheiras onde mais de vinte soldados morreram esmagados pela sua queda; peças de grande calibre foram sugadas da cidadela e lançadas a mais de duzentas toesas, partidas em vários pedaços. Todos os que guarneciam as muralhas foram mortos pelos estilhaços, ou levados com as pedras.»
Cumprem-se hoje 200 anos sobre o «desastre de Almeida».
Paulo Leitão Batista

Tendo as populações da Raia abandonado as aldeias e os campos com as searas amadurecidas, Massena não teve outro remédio que ordenar aos seus soldados que fizessem a ceifa para assim fazer face à extrema penúria do seu exército.

Já o dissemos antes: há duzentos anos, nestes dias de Agosto, os campos de Riba Côa estavam pejados de soldados franceses, preparando-se para atravessarem o Côa e avançar decididamente em Portugal.
O exército anglo-luso aguardava a ofensiva na margem esquerda do rio, observando os movimentos dos franceses, mas não esboçando o mínimo movimento de auxílio à praça de Almeida, que estava cercada e era flagelada pelos canhões. As tropas de Wellington estavam nutridas, sendo abastecidas regularmente por comboios de víveres vindos do sul, porém o exército de Massena passava por enormes privações, subsistindo com dificuldade.
Quando os franceses entraram em Portugal para a terceira invasão, no final de Julho de 1810, estavam a meia ração de pão e biscoito e as doenças, motivadas pelo calor excessivo, dizimavam muitos soldados. Não se poderia prosseguir com a incursão sem ser resolvido o problema do abastecimento das tropas, pelo que o marechal francês decidiu reunir recursos, enquanto prosseguia com o cerco de Almeida.
Os campos estavam cobertos de searas doiradas, mas não havia quem fizesse a colheita, porque os portugueses levavam a preceito as instruções de Wellington e da Regência no sentido do abandono literal dos campos para dificultar a subsistência do exército invasor. O capitão Guingret, que comandava um batalhão do 6º corpo do exército de Massena, descreveu no livro «Campanhas do Exército de Portugal» as dificuldades resultantes dessa política de terra queimada: «Os habitantes fugiam constantemente quando nos aproximávamos; abandonavam as suas casas para se refugiarem no meio das montanhas ou no âmago das florestas. Levavam sempre consigo os seus pertences e provisões de toda a espécie; levavam também o gado e antes de fugir tinham todo o cuidado de esconder e enterrar, nos lugares mais difíceis, tudo aquilo que não podiam levar. Se a nossa marcha rápida ou imprevista não lhes deixava tempo para construir ou cavar os seus esconderijos, lançavam para os poços, nos charcos ou nos rios tudo o que podia servir para alimentar o nosso exército.»
Face à situação, Massena resolveu que os seus próprios soldados procederiam à ceifa, à malha, à moagem e à cozedura do pão para abastecimento do exército. Para tanto mandou vir das imediações de Salamanca todas as foices que foi possível reunir, distribuindo-as depois pelos soldados. «Cada regimento tinha os seus ceifeiros, os seus debulhadores, os seus moleiros e os seus padeiros», escreveu o General Koch nas «Memórias de Massena». E o empenho foi tal que os soldados gauleses se espalharam, em grupos, pelos campos da raia, em toda a margem direita do rio Côa, tornando-se em camponeses zelosos, de foices e de manguais em punho. Outros dedicaram-se a reparar os moinhos junto às ribeiras, que os portugueses haviam desactivado, e a construir fornos ou a recuperar os que tinha cada aldeia.
O coronel Nöel, chefe do estado-maior do 6º corpo do exército francês, contou também nas suas «Memórias Militares de Um Oficial do Primeiro Império», como se deram os trabalhos no seu sector: «Estando o trigo ainda por colher, tomo a decisão de o colher eu mesmo, bater, moer e confeccionar o biscoito. (…). Mando que recolham as foices junto dos camponeses e mando fabricar manguais aos operários de artilharia e aos correeiros do comboio militar. Apodero-me de um moinho e consigo fabricar um excelente biscoito. Os camponeses julgavam que ao recusarem-se às nossas requisições escapariam a isso. ».
A azáfama foi tal na angariação das provisões para a subsistência do exército que os trabalhos do cerco de Almeida, nomeadamente a construção da trincheira e a instalação das baterias de artilharia, não avançavam ao ritmo pretendido: «mais de metade dos regimentos estavam a ceifar as searas ou a trabalhar nos moinhos e nas padarias», revelou ainda o general Koch.
Paulo Leitão Batista

«Não desejo envolver-me em qualquer situação para lá do Côa… Não seria melhor que viésseis para o lado de cá, pelo menos com a vossa infantaria?» – Missiva de Lord Wellington ao general Craufurd, de Alverca (perto de Pinhel) em 22 de Julho de 1810.

Craufurd, o general inglês que comandava a divisão ligeira do exército aliado, com a missão de observar os movimentos do exército do marechal Massena, não satisfez o desejo de Wellington e, dois dias depois, sofreu as consequências. Batido pelos franceses, viu-se atirado para os barrancos do Côa, perdendo no combate 333 homens portugueses e britânicos.
O domínio do vale do Côa era considerado decisivo para qualquer manobra militar no tempo das Invasões Francesas. O major William Warre, ajudante de campo do marechal Beresford, explorou a região semanas antes da célebre Batalha do Côa, e deu conta da importância do rio na manobra militar.
«O curso do rio desde a sua confluência com o Douro até perto de Alfaiates em direcção à sua nascente, representa, devido aos grandes declives e ao solo rochoso das suas margens, uma barreira formidável para qualquer exército que procure avançar sobre Viseu, Celorico, Guarda ou Trancoso, a partir das imediações de Ciudad Rodrigo. Pode contudo ser contornado pelo Sabugal, e perante um exército numeroso a sua grande extensão constitui uma grande contrariedade, pois se qualquer parte da linha ceder o resto terá de retirar.»
O Côa teve de facto uma importância fundamental nas manobras militares da terceira invasão francesa, feita a partir de Almeida, com posterior retirada pelo Sabugal. Quando Massena avançou, Wellington protegeu-se por trás do Côa enquanto observava a movimentação dos franceses, que punham cerco à praça forte de Almeida.
Depois do fracasso da invasão, já na retirada, foi a vez de Massena se instalar na margem direita do rio, entre a Ruvina e o Sabugal, esperando aí conter o avanço do exército aliado.
Wellington, conhecedor da morfologia do terreno, escolheu o Sabugal para dar combate aos franceses, por saber que aí o rio não corre em vale escavado, podendo ser mais facilmente transposto a vau. Assim aconteceu a batalha do Sabugal, disputada na margem direita do Côa, no dia 3 de Abril de 1811, no lugar do Gravato. Essa importante e decisiva refrega com o 2º corpo do exército napoleónico, que ali não pode beneficiar no obstáculo que o rio constitui mais a jusante, levou à retirada dos franceses para Espanha.
Porém Massena deixara uma guarnição francesa em Almeida e, passado um mês, reorganizou o seu exército e decidiu voltar a marchar sobre Portugal em socorro da praça, fixando o objectivo de fazer recuar os anglo-portugueses para lá do vale do Côa. Em Ciudad Rodrigo dirigiu uma proclamação ao exército, a fim de lhe dar ânimo: «Soldados (…) dareis ao Côa, até hoje ignorado, uma celebridade igual à dos rios que na Alemanha e em Itália dizem e redizem osvossos triunfos».
Os franceses foram contudo travados na batalha de Fuentes de Oñoro, não conseguindo reentrar em Portugal.
Paulo Leitão Batista

Evoca-se agora o bicentenário da terceira Invasão Francesa, que se iniciou a 23 de Julho de 1810, com uma forte incursão da vanguarda do exército de Massena em terras portuguesas, junto a Almeida, e que terminou em 4 de Abril de 1811, após a decisiva Batalha do Sabugal. Por todo o País estão em curso, ou em preparação, iniciativas que evocam esse período terrível da nossa história.

Coube ao general Loison (o celebérrimo «Maneta»), à frente de 3000 homens de infantaria, apoiados por cavalaria e artilharia ligeira, comandar uma sortida de reconhecimento em território português, contornando o forte La Concepcion, parcialmente destruído pelos ingleses, e atravessando a fronteira em Vale da Mula.
No dia seguinte, 24 de Julho, o comandante do 6º Corpo, Marechal Ney, fez avançar mais soldados franceses para o território português e, passando ao largo da fortaleza de Almeida, deu combate às tropas do general Craufurd, que, contrariando as ordens de Wellington, se mantinha na margem direita do rio Côa, junto à ponte. A tropa inglesa tentou então a travessia para se concentrar na margem esquerda, em posição favorável, mas os franceses deram fogo e avançaram rapidamente, chegando-se a combater corpo a corpo.
Ney queria, num movimento rápido, impelir os anglo-portugueses para o escarpado onde o Côa corre, não lhes dando tempo para passarem a ponte. Mas Craufurd conseguiu colocar atiradores na margem esquerda do rio, que, bem posicionados, deram forte fuzilaria, assim cobrindo o movimento das colunas, que passaram o rio.
Com a Batalha do Côa o exército aliado recuou, desguarnecendo por completo a margem direita do rio, onde os franceses se movimentaram à vontade. Seguiram-se os trabalhos do bloqueio e do cerco a Almeida, com material pesado vindo de Ciudad Rodrigo. A praça defender-se acerrimamente, obrigando os franceses a cavarem fundas trincheiras e a instalarem baterias de artilharia para lhe abrirem brechas. Almeida capitularia a 28 de Agosto, após 12 dias de cerco e três de bombardeamento contínuo, que provocou a explosão do castelo, que servia de paiol, incidente tenebroso e fatal para os esforços de defesa.
Tomada Almeida, Massena ultimou os preparativos da a invasão, abastecendo o exército e concentrando todas as suas tropas na margem direita do rio Côa, entre o Sabugal e Almeida. O «Exército de Portugal», designação que Napoleão deu à força invasora comandada por Massena, apenas atravessou o rio Côa a 15 de Setembro, iniciando o movimento geral em direcção a Celorico com o intuito de atingir Lisboa pela estrada da Beira.
Durante o tempo em que os militares ocuparam a raia, o povo das nossas vilas e aldeias sofreu as atrocidades da soldadesca francesa. Face à absoluta falta de provisões, a população foi sucessivamente vítima de confiscos e rapinagens para abastecimento das tropas. Destacamentos de «forrageadores» percorriam as aldeias raianas em busca de cereais, carne, vinho, fruta, palha e feno. Surripiavam tudo o que encontravam e violentavam os que lhes fizessem a mínima oposição. Pelos campos da raia estava espalhado um exército de 60 mil homens e 15 mil cavalos, que tinha de ser alimentado todos os dias à custa da região.
Paulo Leitão Batista

Iniciamos aqui um novo «Arquivo Histórico» do Capeia Arraiana, dedicado às Invasões Francesas, com enfoque na terceira, que foi a que mais fez sofrer os povos da nossa região. Convidamos os leitores a enriquecerem este arquivo, enviando textos ou imagens relacionadas com as invasões.
plb

JOAQUIM SAPINHO

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