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Após a batalha do Sabugal, em 3 de Abril de 1811, o exército francês retirou para Espanha. Contudo Napoleão Bonaparte não desistira de submeter Portugal, continuando à espera de uma oportunidade, de que foi exemplo a perseguição ao exército anglo-luso que culminaria no combate de Aldeia da Ponte, acontecido em 27 de Setembro de 1811, há precisamente 200 anos.

Face ao fracasso da terceira invasão, Massena caiu no desfavor de Napoleão, que lhe retirou o comando do Exército de Portugal, entregando-o a August Marmont, um jovem marechal de 36 anos, que detinha o título de Duque de Ragusa. Oriundo de famílias nobres, coisa pouco comum entre a oficialidade francesa, Marmont não tinha o prestígio de Massena, mas o Imperador considerava-o um comandante talentoso e muito promissor.
Marmont começou por instalar o seu exército junto a Salamanca, para lhe dar descanso pois estava fortemente desgastado com a campanha em Portugal e a recente investida sobre Fuentes de Oñoro, nos dias 3 e 4 de Maio, que fora repelida pelos aliados. Extinguiu os corpos e reorganizou as divisões e as brigadas, mudando alguns comandantes, ao mesmo tempo que procurou arranjar subsistências, lançando no terreno destacamentos de forrageadores e constituindo depósitos de víveres e de armamento. Sabia que Napoleão queria reentrar em Portugal e assim tratava de colocar o exército pronto para a missão. A ideia de que o próprio Imperador viria em pessoa comandar a expedição vitoriosa, animava-o a prosseguir os preparativos para esse grande momento de glória.
Porém Bonaparte deu-lhe ordem para ir para sul, em socorro do marechal Soult, que tentava salvar a praça de Badajoz do cerco a que fora sujeita pelo exército anglo-português, comandado pelo duque de Wellington. A 6 de Junho o Exército de Portugal colocou-se em movimento e no dia 18 Marmont juntou-se a Soult. A simples união dos dois exércitos franceses, fez desistir Lord Wellington, que levantou o cerco a Badajoz, recuando para Elvas e Campo Maior.
Os dois marechais (Soult e Marmont) pensaram perseguir o exército anglo-luso, lançando uma nova ofensiva em Portugal, que facilmente chegaria a Lisboa atravessando as planícies do Alentejo. Contudo, as ordens formais de Bonaparte, que tudo comandava desde Paris, foram para que Marmont subisse para o vale do Tejo e Soult descesse para sul, retomando as posições anteriores.
Wellington, face ao fracasso da tentativa de tomada de Badajoz, decidiu partir com a maior parte do seu exército para Riba-Côa, a fim de tomar Ciudad Rodrigo, que igualmente permanecia nas mãos dos franceses. A partir da Freineda, onde instalou o quartel-general, enviou uma boa parte das suas tropas por Espanha adentro, até perto de Ciudad Rodrigo, para bloquear a praça-forte.
Em 23 de Setembro, o marechal Marmont, após reunir o grosso do seu exército, resolve desalojar os aliados das suas posições, atacando-os. Nos dias seguintes, os aliados, não aguentando as cargas sucessivas dos franceses, recuaram de posição em posição, usando a tácita de retirada por escalões, e aproximaram-se da fronteira.
A 27 de Setembro, já com o exército anglo-luso em Portugal, Marmont decide lançar um forte ataque à povoação de Aldeia da Ponte, onde uma boa parte dos aliados se haviam instalado. Coube aos generais Thiebault e Souham comandar as investidas, que encontraram nos portugueses e ingleses firme e determinada resistência. Porém ao final do dia, após uma renhida disputa, com dezenas de baixas de ambos os lados, os aliados abandonam a aldeia, que foi tomada pelos franceses.
No dia seguinte, 28 de Setembro, a tropa anglo-lusa ocupava firmemente as alturas do Soito, com a direita nos Fóios e a esquerda em Rendo, em posição de evitar a continuação da progressão. Nesse mesmo dia os Franceses, considerando arriscada uma nova manobra de ataque, decidem retirar para tomar posições que evitassem uma nova aproximação a Ciudad Rodrigo.
Veja Aqui a descrição do Combate de Aldeia da Ponte, da autoria de Manuel Peres Sanches.
Paulo Leitão Batista

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Continuando a leitura do livro de Arthur Thomas Quiller-Couch, verificamos como Marmont (duque de Ragusa) colocou as milícias portuguesas de Trant em retirada e como decidiu regressar com as suas tropas ao quartel-general do Sabugal, poupando a Guarda a um ataque que resultaria certamente no saque da cidade.

Marmont - Guerra Peninsular - SabugalFez-se noite cerrada e o propósito de Manuel era cavalgar para ultrapassar as colunas de Marmont e avisar Trant do perigo que corria na Guarda. A meio caminho uma escorregadela do cavalo atirou-o ao solo, tendo desmanchado um tornozelo. Bateu à porta de uma casa isolada, onde vivia um pastor que o ajudou e a quem encarregou de levar uma mensagem a Trant, informando-o da movimentação de Marmont, que em breve atacaria a cidade.
Não foi porém a sua mensagem que salvou Trant e a milícia, porque não chegou a tempo. Na verdade foi Marmont que errou ao avançar de forma desastrada. A cavalaria francesa chegou cedo às portas da cidade e o marechal, impaciente com o atraso das duas brigadas de infantaria, deu ordem aos cavaleiros para subirem a montanha. Uma sentinela da milícia, dando conta da movimentação tocou freneticamente o tambor, no que foi de imediato imitado por outros tamborileiros espalhados pelas portas da cidade. As milícias correram para os seus postos, «e o marechal francês, que poderia ter tomado a cidade com uma só investida e sem perder um único homem, retirou – são estes os absurdos da guerra.» Marmont convencera-se que a Guarda tinha alguma capacidade para resistir e resolveu esperar pela infantaria para avançar.
Isso deu tempo a Trant e a Bacelar, que já se lhe havia reunido, para abandonarem a cidade, saindo com as suas milícias pelo vale do Mondego. Marmont lançou então a sua cavalaria em perseguição dos portugueses, tendo alcançado a retaguarda da coluna a poucas milhas da cidade.
«Chovia e a milícia corria pela lama como um rebanho de ovelhas», tendo os franceses feito 200 prisioneiros. Manuel diz no seu relato que há que fazer justiça ao comandante francês, pois terá proibido os seus cavaleiros de cortarem a fuga aos portugueses e de os massacrarem.
Marmont desistiu de perseguir Trant e Bacelar, e decidiu voltar para o Sabugal sem sequer atacar a Guarda, onde Wilson ainda estava com algumas milícias preparando a explosão dos depósitos de mantimentos aí existentes. O espião foi até à cidade vestindo um casaco velho que lhe deu o pastor e falou com o general inglês, passando a compreender a alegada ira de Marmont e o seu apressado retorno ao Sabugal.
Por que razão estava Marmont zangado? Por isto:
«Em 30 de Março deixei o meu parente, o capitão Allan McNeill, com o seu criado José. Eles mantariam o exército francês sob observação e eu fui para sul a relatar o que sabia a Lord Wellington em Badajoz. Estávamos agora a 16 de Abril e muitas coisa haviam acontecido, mas dos movimentos do meu colega espião nada soubera. Estava seguro de que ele estaria algures na proximidade dos acampamentos de Marmont, mas mesmo no Sabugal nada ouvira acerca dele.
Na tarde do dia 16 o general Wilson foi até mim.
”Tenho notícias desagradáveis”, disse-me. “O seu homónimo foi preso”. “Onde?”. “No Sabugal, mas parece que foi levado para um acampamento em Penamacor. Trant disse-me que vocês, para além de homónimos, são parentes. Quer falar com o mensageiro?”
».
O mensageiro era um camponês de Penamacor que informou Manuel dos pormenores da captura do outro espião, na qual o seu criado José fora morto pelos franceses.
O relato acabou com Manuel McNeill contando a aventura do seu parente, capitão Alan McNeill, que acabara de ser feito prisioneiro pelos franceses.
Paulo Leitão Batista

Continuando a leitura do livro «The Laird’s Luck, and Other Fireside Tales» (A Sorte de Laird e Outros Contos à Lareira), de A. T. Quiller-Couch, verificamos que Manuel McNeill cumpre a rigor as indicações de Trant, procurando obter no Sabugal mais e melhores informações acerca da real força militar que o marechal Marmont tem junto a si.

O espião Manuel teria que se instalar no Sabugal para recolher informações sobre a presença dos franceses na vila. Foi primeiramente a Belmonte receber instruções do barbeiro, que conseguiu convencer a acompanhá-lo ao Sabugal para dar credibilidade ao disfarce. O irmão do barbeiro, que era vinhateiro, foi também e deu-lhes a história de cobertura perfeita, pois estava autorizado a fornecer vinho aos franceses.
Já no Sabugal o barbeiro fez uma petição ao comandante francês pedindo autorização para a reabertura da sua loja, que ficaria entregue a um amigo que conhecia a arte. Reabriram as portas da casa, que estava intacta, e o espião recebeu breves indicações quanto aos instrumentos, à forma de preparar medicamentos e de os aplicar.
Despachou o barbeiro – «pois se o plano falhasse o Sabugal não seria um bom lugar para ele» – que com o irmão abandonou a vila, ficando o espião entregue a si próprio.
Os vizinhos olharam-no algo desconfiados, mas Manuel sabia que a possibilidade de ser denunciado era pequena, pois os portugueses odiavam de tal modo os invasores franceses que dificilmente o trairiam.
Durante três dias o novo barbeiro cortou barbas e cabelos, vendeu unguentos, arrancou dentes e endireitou ossos, nomeadamente a alguns soldados e oficiais franceses que procuraram os seus serviços. «Consegui barbear razoavelmente e assim ganhei credibilidade como se fosse um autêntico barbeiro português. O mesmo sucedeu nos tratamentos aos meus doentes, que se não ficaram devidamente curados também não morreram – ou pelo menos os seus corpos não foram encontrados», escreveu o espião com ironia.
A sua maior dificuldade foi na aplicação da técnica no sangramento, ou flebotomia, muito habitual à época.
«A hipótese de ter de sangrar alguém não me tinha verdadeiramente ocorrido, e quando, na segunda manhã, um sargento que sofria das varizes se sentou na mesa de operações queixando-se de ter uma veia aberta, eu lamentei amargamente não ter ao meu lado um mestre a quem perguntar onde deveria cortar para fazer o sangramento. (…) Tomei-lhe o pulso e levantei-lhe as pálpebras com os dedos trementes. “No seu estado”, disse-lhe, “seria um crime sangrá-lo. Precisa é de sanguessugas”. “Acha?”, perguntou».
O relato contém outras peripécias passadas no exercício do ofício, incluindo o inesperado facto de barbear um hussardo que o reconheceu, pois já se haviam encontrado em Espanha, num outro momento em que se infiltrara. A solução foi colocar-lhe a navalha da barba ao pescoço e obriga-lo a jurar segredo.
Sabia que em breve seria descoberto. Colocou as portadas nas janelas, pegou
no boião das sanguessugas e saiu da vila para a margem do Côa, percorrendo as terras enlameadas pela chuva abundante, fingindo procurar «bichas». Já havia remetido um relatório a Trant com a descrição do dispositivo militar dos franceses, através do vinhateiro de Belmonte, que regressara ao Sabugal com outra carga de odres, mas agora sabia que corria perigo e tinha de tentar escapar dali sem ser notado.
Viu então duas fortes colunas de infantaria dirigirem-se para a estrada da Guarda, o que o deixou preocupado: «Estaria Marmont a executar contra Trant o mesmo golpe que este lhe preparava?». Tinha de avisar Trant do perigo que as suas milícias corriam.
Teve então um encontro inesperado com dois oficiais franceses, que numa casa abandonada se preparavam para se baterem em duelo. Um era oficial de intendência, do estado-maior do marechal Marmont, ao qual ouviu dizer que o comandante se preparava para uma movimentação militar. Do duelo resultou o ferimento grave do oficial de intendência, que o barbeiro se prontificou a tratar. Perante a saída do outro oficial que foi ao acampamento em busca de um cirurgião, o barbeiro-espião aproveitou para se apoderar do uniforme do ferido e montar o seu cavalo, assim escapando em direcção à Guarda, passando pelas sentinelas sem qualquer problema.
(Continua)
Paulo Leitão Batista

O espião que trabalhava para o exército britânico atinge a cidade da Guarda, onde tem uma curiosa conversa com Trant, que lhe dá a entender ter em mente um plano de acção para fazer frente ao marechal Marmont (duque de Ragusa), que se instalara no Sabugal.

Manuel, o espião, chegado à Guarda, encontrou-se com o general Trant a quem entregou um relatório. Descreveu o general inglês como um militar galante e inteligente, mas por vezes muito pouco perspicaz. Dias antes ajudara com as suas milicias o governador de Almeida a evitar a tomada da praça pelos franceses e estava convencido de que era capaz de ir mais longe.
Citemos esta passagem do livro com o curioso diálogo estabelecido (em tradução livre):
Trant questionou-me acerca do quartel-general francês instalado no Sabugal. Ele conhecia bem essa vila, talvez até melhor do que eu. Disse-lhe que os franceses estavam na margem do Côa e que Marmont tinha lá o seu quartel-general, mas desconhecia em que casa ou em que parte da vila.
“Mas não pode voltar lá e descobrir?”; perguntou-me.
“Como quiser”, respondi-lhe, “faço o que me ordenar”.
“Mas isso comporta riscos”, disse-me.
“Seguramente”, respondi-lhe, “mas o risco faz parte do meu dia-a-dia, pelo que procuro encontrar caminhos seguros”.
“Desculpe”, disse ele esboçando um sorriso, “mas eu não estava a pensar em si, ou pelo menos unicamente em si”. E notei pela sua expressão que planeava algo.
“Rogo-lhe que não pense em mim”, disse-lhe simplesmente. (…).
“Veja”, disse ele, “o duque de Ragusa é um homem galante”.
“Notoriamente”, disse-lhe, “toda a Europa sabe isso e ele próprio também o sabe”.
“Ouvi dizer que as suas tropas lhe admiram a auto-estima”
“Bem”, disse eu, “ele monta galhardamente e é corajoso. Começa porém agora a cometer os seus erros, e os soldados, tal como as mulheres, sabem bem o que um guerreiro deve parecer”.
“Na verdade,” disse o General Trant, “a sua perda faria toda a diferença.”
Pedira-me para ficar sentado e servia-me um copo de vinho. Mas as suas palavras fizeram-me pular de repente, o que fez tremer a mesa e derramar metade do conteúdo do copo.
“O que o diabo está errado?” perguntou o general, tirando um mapa do caminho do vinho. “Meu Deus, homem! Não pense que lhe pedia para assassinar Marmont!”
“Peço-lhe perdão”, disse eu, recuperando. “Claro que não disse isso, mas parecia…”
“Oh, parecia?” E enxugou o mapa com o lenço das mãos, olhando-me como quem diz: “Acho que parecia.”
Fiquei algo desconcertado. “Este homem não pode querer que o sequestre!” pensei.

Na verdade, Trant tinha em mente um plano para atacar Marmont no Sabugal, por saber que o grosso das suas tropas tinham seguido na direcção de Castelo Branco, mantendo junto de si apenas um pequeno contingente. Contava para isso com o reforço das milícias de Wilson e de Bacelar, aos quais tinha pedido para se lhe juntarem na Guarda.
Trant acabaria por enviar o espião ao Sabugal para que o mesmo lhe trouxesse informações mais precisas. Conhecia um barbeiro que tinha casa no Sabugal e que fugira para casa de um irmão em Belmonte. Manuel teria que ir ao Sabugal fazendo-se passar por esse barbeiro-cirurgião, simulando o seu regresso e o reinício da actividade.
(Continua)
Paulo Leitão Batista

O livro «The Laird’s Luck, and Other Fireside Tales» (que livremente traduzo por «A Sorte de Laird e Outros Contos à Lareira»), de Arthur Thomas Quiller-Couch, editado em 1901, reúne um conjunto de narrativas centradas no tempo de Napoleão, quando a Europa era avassalada pelas invasões francesas. O Sabugal também faz parte dos cenários de guerra que constam neste livro que não tem edição portuguesa.

O conto «Os Dois Batedores» (The Two Scouts) relata as memórias de um espião ao serviço do exército inglês na Guerra Peninsular (1808-1813). Trata-se de Manuel McNeill, um espanhol de origem inglesa, que se infiltrava nas linhas francesas para conhecer os propósitos dos exércitos de Napoleão, que depois transmitia aos comandantes ingleses.
Há dúvidas quanto à autenticidade destas memórias, embora se saiba da real existência deste espião, que Napier referiu chamar-se Grant. As descrições dos factos e dos lugares por onde passou parecem atestar a veracidade aos relatos, feitos na primeira pessoa.
Manuel esteve no Sabugal, em Abril de 1812, nos dias da quarta invasão francesa, quando o marechal Marmont, duque de Ragusa, ali instalou o seu quartel-general e fez penetrar pelo território nacional as suas colunas, que chegaram a Castelo Branco.
Mas tudo começa nas margens do rio Tormes, perto de Salamanca, onde Manuel, na sua função de espionagem teve um encontro inesperado com um outro espião inglês, o lendário capitão Alan McNeill, seu parente, que detestava disfarces e se movimentava nas linhas francesas envergando o uniforme escarlate do exército britânico, sempre acompanhado por José, o seu fiel criado espanhol. Separaram-se depois, seguindo cada qual o seu destino. Manuel atravessou a fronteira portuguesa e dirigiu-se ao Alentejo, onde avisou Wellington, que punha cerco a Badajoz, das movimentações das tropas do marechal Marmont, que tentavam forçar Ciudad Rodrigo, pretendendo porventura atacar igualmente Almeida.
Depois de entregar o seu relatório a Wellington o espião regressou ao norte. Passou por Castelo Branco, onde soube que os franceses haviam reentrado em Portugal e se aproximavam daquela cidade. Continuou o seu caminho, fazendo-se passar por tropeiro, com a intenção de bater a linha do Côa para colher informações e se dirigir à Guarda, onde o general Trant estava instalado ao comando das milícias portuguesas.
Em Penamacor teve que se desviar de alguns invasores que se dedicavam ao saque e foi encontrar as forças de Marmont ocupando em peso o Sabugal, na «curva do Côa». A 9 de Abril alcançou a Guarda onde Trant se fortificara com seis mil milicianos portugueses.
(Continua)
Paulo Leitão Batista

Auguste Frédéric Louis Viesse de Marmont (1774-1852) foi um prestigiado marechal de França que serviu Napoleão em várias frentes, nomeadamente na guerra peninsular, onde substituiu Massena no comando do Exército de Portugal. Foi Marmont que perpetrou a quase desconhecida quarta invasão, no decurso da qual se instalou no Sabugal.

Marechal MarmontOriundo de uma família nobre, aos 15 anos era subtenente de infantaria. Progredindo depressa na cadeia hierárquica, tornou-se em breve assessor do promissor general Bonaparte, acompanhando-o nas campanhas de Itália e do Egipto.
Voltou para a Europa já como general de brigada, em 1799, sendo então nomeado conselheiro de Estado e, pouco depois, comandante da artilharia da reserva do exército, altura em que se tornou general de divisão.
Em 1805 combateu na batalha de Ulm e, no ano seguinte, foi nomeado comandante geral da Dalmácia, tendo como missão desbloquear os franceses sitiados em Ragusa (actual Dubrovnik) pelos russos, o que cumpriu com êxito.
Em 1808 foi distinguido com o título duque de Ragusa e no ano seguinte participou na campanha austríaca. Foi no decurso dessa campanha que Napoleão o fez Marechal de França e governador-geral de todas as províncias da Ilíria.
Em Julho de 1811 o Imperador enviou-o para Espanha, onde substituiu Massena à frente dos cerca de 50.000 homens do exército de Portugal.
Militar prestigiado e reconhecido estratega, o marechal Marmont manobrou as suas tropas com mestria e, fazendo jus a um pedido formal de Napoleão, cooperou com os demais comandantes franceses que estavam na península. Foi assim que, descendo para sul, juntou as suas forças às do general Murat e obrigou Wellington a desistir da tomada de Badajoz.
O objectivo fixado ao seu exército era o da invasão de Portugal em tempo oportuno, quando tal lhe fosse indicado por Napoleão. Porém o Imperador preparava a guerra com a Rússia e desviara as atenções da Península Ibérica. Entretanto Marmont estendia a sua responsabilidade às Astúrias, Estremadura, Castela-a-Velha e Leão.
No início de 1812, Napoleão ordena-lhe que se fixe em Salamanca e no final de Março, face a nova e fortíssima ofensiva de Wellington sobre Badajoz, manda-o desencadear uma investida em Portugal, através da Beira Baixa.
No dia 3 de Abril de 1812 Marmont inicia a operação, entrando em Portugal e atacando Almeida, que porém resistiu. Avança depois por Alfaiates e instala o seu acampamento no Sabugal, a partir de onde lança colunas para Penamacor e Fundão. Castelo Branco é saqueada a 12 de Abril, o mesmo sucedendo a Pedrogão e Medelim no dia seguinte. A 14 um destacamento atacou a Guarda, onde as milícias portuguesas de Trant foram desbaratadas.
Entretanto, no dia 7 de Abril, Badajoz caiu nas mãos do exército anglo-luso e Wellington veio para norte, a fim de dar combate aos invasores. Marmont sente que não será capaz de enfrentar os ingleses e portugueses e a 24 de Abril de 1812 começa a retirada. Esta quase desconhecida quarta invasão de Portugal durou apenas 20 dias.
Wellington passou pelo Sabugal e Alfaiates e deu perseguição a Marmont em território espanhol. Uma força com cerca de 27.000 ingleses e 18.000 portugueses, atravessou o rio Águeda, e avançou sobre Salamanca. A 28 de Abril foram conquistados os fortes que defendiam a cidade, mas no dia 18 de Julho os franceses saíram vitoriosos dos combates na zona de Tordesilhas.
A derrota francesa só aconteceu no dia 22 de Julho, na batalha de Arapiles, onde Marmont foi gravemente ferido, perdendo um braço.
Face ao ferimento o marechal regressou a França para se recuperar. Em Abril de 1813, já recuperado, recebe de Napoleão um novo comando, passando a combater na Alemanha.
No ano seguinte, quando as tropas aliadas cercaram Paris, Marmont esteve entre os comandantes que defendiam a cidade. Face às dificuldades em manter as posições, foi escolhido pelo Imperador para negociar com os aliados. A capitulação foi assinada em 31 de Março e a 4 de Abril Marmont retira com as suas tropas para a Normandia, em total contradição com as ordens que recebera do Imperador e ignorando os protestos dos seus oficiais e soldados. Este acto ditou que passassem a chamar-lhe duque de «ragusade», para significar traição.
Paulo Leitão Batista

Embora pouco referida pelos historiadores, houve uma quarta invasão francesa de Portugal, a que se pode chamar incursão ou «manobra de diversão». A sortida, comandada por Marmont, passou pelo Sabugal, onde de resto ficou instalado o quartel-general, e foi marcada pela violência inusitada dos soldados franceses que, sedentos de vingança, exerceram terríveis atrocidades.

Após o fracasso da terceira invasão, Bonaparte, agastado com Massena, retirou-lhe o comando do Exército de Portugal, entregando-o ao marechal Marmont. O Imperador não desistira de invadir Portugal, aguardando contudo pelo melhor momento.
O Inverno de 1811, passou-se com a presença de Wellington na região de Riba Côa, instalado na Freineda. Foi aí que planeou, em grande secretismo, o cerco a Ciudad Rodrigo. Reconstruiu a fortaleza de Almeida, e apetrechou-a com artilharia pesada e material de cerco. A 1 de Janeiro de 1812, com um exército de 35 mil homens, munido do trem de artilharia que estava em Almeida, irrompeu de encontro à fortaleza espanhola, que foi bloqueada, cercada e bombardeada, sendo tomada a 19 de Janeiro, numa acção que custou a vida ao general Craufurd.
Após tomar Ciudad Rodrigo Wellington encaminhou-se para sul e pôs cerco a Badajoz, cuja praça foi tomada aos franceses num assalto muito caro para ambos os lados, no dia 7 de Abril, assim escancarando a porta da via directa para Madrid.
O forte ataque a Badajoz assustou Napoleão, que ordenou a Marmont a execução de uma manobra de diversão, investindo em Portugal pelo centro. Foi assim que a 3 de Abril, exactamente um ano após a batalha do Sabugal, os franceses lançaram uma forte e rápida ofensiva, tentando tomar Almeida de assalto, no que foram repelidos pela milícia portuguesa que guarnecia a praça. Marmont avançou então com 18 mil homens para o Sabugal, onde a 8 de Abril estabeleceu o seu quartel-general. Dali enviou sortidas a Penamacor, Belmonte, Covilhã e Fundão, chegando a sua vanguarda a Castelo Branco.
Entretanto o brigadeiro Trant, à frente da milícia portuguesa que ajudara o governador de Almeida, La Masurier, na defesa da fortaleza, verificando que os franceses tinham acampado no Sabugal, elaborou um ousado plano para o atacar de surpresa. Comunicou com o brigadeiro Wilson e com o general Bacelar, que igualmente comandavam milícias, e pediu-lhes para se reunirem a si na Guarda, a fim de executarem juntos o movimento de ataque aos franceses. Marmont, apercebendo-se porém da concentração das milícias, antecipou-se aos planos de Trant e enviou à Guarda uma sortida de cavalaria. O brigadeiro inglês retirou à pressa, indo instalar-se para lá do Mondego, mas na manhã do dia 14 de Abril a cavalaria francesa atacou o batalhão português que cobria a retirada, que foi rapidamente desbaratado, fazendo 150 prisioneiros.
Entretanto Wellington, face à movimentação francesa, subiu de Badajoz em marchas forçadas, o que fez Marmont abandonar as suas posições em Castelo Branco, recuando para evitar o confronto com o exército luso-britânico. No caminho da retirada Medelim e Pedrógão foram saqueadas e destruídas pelas tropas invasoras.
Trant escrevera ao comandante-chefe dando-lhe conta da retirada precipitada e do fracasso do plano de ataque ao quartel-general de Marmont no Sabugal. A 17 de Abril, Lord Wellington respondeu-lhe de Castelo Branco, censurando-o vivamente por se ter posicionado na Guarda, que considerava ser «a mais traiçoeira posição militar em Portugal», por não oferecer condições de retirada, louvando-o contudo por ter dado disso conta a tempo de salvar o grosso da milícia.
De Castelo Branco o exército continuou a sua marcha apressada, em perseguição a Marmont, porém este deixou o Sabugal e regressou a Espanha em 24 de Abril, sem que a vanguarda aliada o tivesse alcançado.
Após mais de 250 quilómetros, sem conseguir avistar o inimigo, que recuava com avanço, Wellington decidiu parar em Alfaiates, onde deu merecido descanso às tropas.
Esta fugaz invasão de Portugal, que apenas durou 20 dias, deixou um tremendo rasto de sangue e de morte. Nunca uma passagem de tropas napoleónicas pelas nossas terras raianas fora tão violenta e excessiva como a desta incursão fugaz.
O cenário nas aldeias era de pura destruição, com casas saqueadas e queimadas, igrejas pilhadas e profanadas e cadáveres abandonados no chão.
William Warre, jovem major britânico ao serviço do exército português, que veio com Wellington na perseguição aos invasores, escreveu uma carta à família a partir da aldeia da Nave, onde pernoitou:
«Meu querido pai,
É impossível dar-vos uma ideia da desgraça existente em todas as vilas por onde o inimigo passou, pois destruíram tudo aquilo que não puderam levar. Na minha presente habitação, o chão foi feito em pedaços e as janelas, portas e mobílias incendiadas, só escapando a arca e a cadeira que estou usando, que parecem ter desafiado as chamas. A fome e a penúria dos infelizes camponeses que nos cercam por toda a parte, e a caridade que fomos fazendo a alguns, já esgotou completamente os nossos meios. O dinheiro tem pouca utilidade onde nada pode ser comprado. Toda a forragem para os cavalos foi, nos dois últimos dias, aquela que conseguimos cortar nos campos, embora nem estes tenham escapado à rapacidade do inimigo.(…).
Nava (sic), na estrada entre Sabugal e Alfaiates, 24 de Abril de 1812.
»
Uma invasão quase desconhecida, mas que deixou marcas profundas na nossa região e que, por isso, não devemos deixar apagar da memória histórica.
Paulo Leitão Batista

JOAQUIM SAPINHO

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