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O meu estimado parente e confrade nesta irmandade dos cultores do Regionalismo Sabugalense , de que já seu pai foi denodado lutador, vem dando público testemunho do seu amor à Terra Patrum, de uma entranhada vivência da nossa vida comunitária e de um apurado sentido da História numa série de crónicas reveladoras dum domínio da dificil língua portuguesa a atestar a sua passagem por essas excelentes casas de formação intelectual que foram e continuam a ser os seminários.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNuma exaustiva análise do ciclo dos cereais panificáveis, um dos pilares da economia de subsistência que caracterizou a vida das famílias da zona antes do grande surto migratório, tratou exemplarmente e de forma absolutamente exaustiva como se aproveitavam até os campos mais sáfaros e difíceis de agricultar, pois só a enxada ali podia penetrar, por vezes até com precedência da picareta e do ferro pistolo, utilizado para remover pedregulhos.
Era a prefiguração do poema de Correia de Oliveira:
Quando a preguiça morrer
Até o monte maninho
Até as penhas da serra
Darão rosas, pão e vinho

As terras centeeiras, assim chamadas por não terem aptidão para qualquer outra cultura eram objecto de permanente atenção.
Até quando estavam de pousio.
Repare-se que era este que determinava a existência de folhas ou terras afolhadas
A fraca fertilidade natural da generalidade das tapadas – nome dado aos agros onde se cultivava o pão – vocábulo identificado com o centeio – levava a que se dividisse o limite das freguesias em zonas – normalmente três.
As terras integradas em cada uma dessas áreas – as folhas – só davam cereal de três em três anos. E, mesmo assim, com baixos índices de produção. A menos que o lavrador possuisse rebanho que as estrumasse. Ou lhes reforçasse o tónus de rentabilidade, através de químicos. Mas estes eram caros e o dinheiro pouco. Além de que nem sempre atingiam compensatório índice de produção.
E as pastorícias de gado sempre foram apanágio de poucos.
Remover o solo pelo arado com a decrua e uma ou duas estravessas, antes da sementeira e depois com a aricagem permitiam uma azotagem natural e quanto mais vezes a relha passasse mais o ar entraria.
E mais se converteriam em matéria orgânica os corpos parasitários.
Mas até nisto se tinha de ser comedido, que o ferro era caro e aguçar as pontas, mau grado a modicidade dos ferreiros, também pesava.
Ao esforço do lavrador e das reses de jugo não se faziam contas. De outro modo, bem caras ficariam palhas e paveias.
Nos anos de pousio, as courelas eram abertas aos rebanhos.
E das restolhadas subsequentes às ceifas até às sementeiras trinta e seis meses depois, cresciam pequenos arbustos, nomeadamente giestas e bela-luz que bom jeito davam para a cozinha, o forno, a cama dos gados, a tapetagem das ruas.
No entrementes, os moços de lavoura não esqueciam nem desdenhavam da rabiça, vaidosos da sua condição.
Alfaiates não são homens
Sapateiros também não
Homens sim são os ganhões
Que enchem as arcas de pão.

«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana«Poetando» é a coluna de Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, na qual a cada domingo vai publicando poemas inéditos, cada um dedicado a uma aldeia do concelho do Sabugal. Este Município raiano, um dos maiores do País em termos de extensão territorial, tem 40 freguesias, algumas delas com anexas, sendo no total exactamente 100 (cem) o número das localidades do concelho do Sabugal. Nesta edição o escritor e poeta bismulense dedica um soneto a Carvalhal do Côa, aldeia anexa de Badamalos. No próximo domingo será editado o poema relativo a outra freguesia: Baraçal.

CARVALHAL DO CÔA

Aos palmos não se medem as pessoas
Aos palmos não se medem os lugares
As Romas, os Parises, as Lisboas
Não vencem no cotejo com vilares

É outra a pureza dos seus ares
Bem mais lhanas e probas as pessoas
Vivendo juntas alegrias e pesares
Em união nas horas más e boas

Neste nosso Portugal cristão
Bem numerosos os carvalhais são
Das ilhas de Além Mar até ao Minho

Nenhum outro, porém, tem o encanto
De ser um tão poético recanto
Como este Carvalhal Carvalhalzinho

«Poetando», Manuel Leal Freire

Como já anteriormente deixámos exarado, o Portugal atlântico, imperial, evengelizador, que toma nessa hora de quinhentos o lugar do povo-chefe, de povo guia, mesmo, do universalismo ocidental, nasce graças à vontade infléxivel do Infante Dom Henrique…

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaComo escreveu João Ameal, impulsionados por ele, não mais parámos no seguimento da sua obra. Lembremo-nos de que, se Dom Duarte quer em vão Tânger e Dom Afonso V acaba por subjugar aquela cidade depois de Alcácer-Céguer e Arzila, as conquistas marroquinas não fazem esquecer o empenho, central e primordial do avanço pelo litoral africano. Os marinheiros de Sagres prosseguem esse avanço sob o comando directo de Dom Henrique, até 1460, ano da sua morte. E não mais se detém. Com Dom João, o ritmo acelera-se e Bartolomeu Dias alcança a extremidade meridional do Continente. Pouco mais de uma década será necessária para que, sob Dom Manuel, Vasco da Gama aporte a Calecute e Pedro Álvares Cabral a Vera Cruz. No entretanto, e quando já tudo era previsível, obtivera o Principe Perfeito, ao fim das negociações porfiadas e habilidossíssimas de Tordesilhas, que o Papa sancionasse a partilha das terras conhe¬cidas e desconhecidas entre Portugal e a Espanha. E na nossa metade compreendem-se a África inteira, a Ásia e o Brasil.
Ludibriada pela enorme ciência dos nossos sábios, que conheciam bem mais as terras situadas na nossa metade, ao contrário dos seus marinheiros que julgavam ter chegado à India pelo Ocidente e da América só se haviam dado conta da parte mais reentrante, a Espanha acabaria por vingar-se depois de Alcácer-Quibir e com o colapso da Invencível Armada, lançaria no seu e nosso império, a cobiça de ingleses, holandeses e franceses.
De qualquer modo, a Espanha foi a segunda das grandes potências marítimas.
E, se Camões, podia, na dedicatória de «Os Lusíadas», saudar Dom Sebastião, dizendo:
Vós, poderoso rei, cujo alto império
O sol, logo em nascendo, vê primeiro,
Vê-o também no meio do hemisfério
E quando desce o deixa derradeiro…

Filipe II de Espanha poderia, depois de ser também o Filipe I de Portugal, considerar-se rei de um território, onde nunca o Sol se punha.
Ao descobrimento da América por Cristóvão Colombo em 1492 (agora estamos a transcrever de Francisco Ligório Morcela, in «Apontamentos de Geografia Política», seguiram-se no reinado de Carlos I, as conquistas de Fernando Cortez (México), Almagro (Bolívia e Perú), Mendoza (Argentina) e Pizarro (Chile, Colombia e Perú) que, destruindo os poderosos indígenas dos astecas e dos incas, constituiram um imenso império colonial que abrangia parte da Ámerica do Norte, praticamente toda a Central e mesmo a do SuI, exceptuando o Brasil.
Como recordação da viagem de Fernão de Magalhães (no feito, com verdade, português, mas não na lealdade), ocuparam ainda as Filipinas, na Insulíndia.
Detendo grande parte do norte de Àfrica, instalaram-se por igual num extenso rosário de ilhas atlânticas, das Canárias a Fernando Pó e Ano Bom, com ocupação efectiva, já na costa ocidental, do chamado território do Rio Muni, núcleo da Guiné Espanhola, integrante também daquelas duas ultímas ilhas.
Com pés de barro, como todos os Impérios terreais, foi-se destruíndo. A administração ruinosa da Metrópole e o exemplo da independência dos Estados Unidos vieram, com outros factores, desenvolver um poderoso movirnento de emancipação nas colónias espanholas da América, devido principalmente à acção de Bolívar e San Martin. As ambições políticas de expansão externa dos Estados Unidos (continua Ligóno Morcela, obra citada) levaram o seu govemo a declarar-se paladino da independência das nações americanas e a tentar impedir, por todos os meios, a hegemonia europeia naquele continente. E, quando, em 1823, as colónias espanholas se agitavam para sacudir o jogo da metrópole, Monroe, então presidente dos Estados Unidos, enviou uma célebre mensagem aos seus congressistas, na qual preconizava a doutrina de «a América para os americanos».
E, nos fins do século passado, os Estados Unidos intervieram para assegurar a emancipação de Cuba e conquistarem Porto Rico. Aliás a sua acção antiespanhola não se circunscreveu ao Continente Americano.
Acabaram também por anexar as Filipinas a que mais tarde dariam a independência.
Maldição ou simples sina histórica, Cuba, como mais tarde o Vietnam, de que correram os franceses, tornou-se para os norte-americanos uma tremenda preocupação e um caso que ainda não conseguiram liquidar.
Voltando ao exemplo espanhol, assistimos já na década de sessenta do século passado, à emancipação dos territórios do Rio Muni, Fernando Pó e Ano Bom, que deram a chamada República da Guiné Equatorial (12/10/1968) e a devolução do Ifni a Marrocos em princípios do ano subsequente (4/1/1969).
De modo que hoje praticamente lhe restam apenas as ilhas Canárias, as afortunadas, na nossa linguagem da primeira dinastia e por onde, em tempos de D. Afonso IV, se ensaiou a nossa vocação expansionista.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Os dicionários dão ao vocábulo o sentido de utilidade ou proveito ou mais especificamente de ser animado ou inanimado, de que se possam extrair quaisquer benefícios.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaDe tudo o que serve para alguma coisa de útil se poderá, assim, esperar serviços.
E tão amplo é o conceito que os autores lhe conferem páginas e páginas para o especificar.

Depois, nascem as dissidências.

Há os que servem e os que se servem, esquecendo que o serviço não é só para eles, que, servindo-se, se esquecem de que também têm de servir.

Por isso, intervêm o poeta, assinalando:

Que vai de servir a servil
Distância que muito importa
Servir é vara direita
Que é servil quando se entorta.

Ou que:
A servir ninguém se oponha
Que é obrigação sagrada
Vergonha, três vezes, vergonha
É não servir para nada…

Ora,se o conceito já é assim tão extenso e confuso em si mesmo, o que não será aditando-lhe o atributo, que não é acessório, mas essencial, de público – que os mesmos dicionaristas, referenciando-lhe a etimologia (do latim publicus) sintetizam dizendo que público é o que pertence a todo um povo, ou seja o que é de todos.
Mas no caso ora em apreço, a não refreada extensão daquele dupla de conceito, ganha ainda do alargamento que lhe impõe o determinativo «de televisão», ou mesmo «de telefonia».
Daí a enorme extensão do conceito – ínsito e paradoxalmente também expresso – nas siglas de «Serviço Nacional de Televisão» ou «de Radiodifusão», que para além da imensidade ligada ao «Tele» vão para além do infinito.
E daí também o extremo cuidado com que os poderes – todos os poderes – têm de agir, ao lidar com o tema, seja para o que for.
E muito mais quando se trate de abordar uma experiência logicamente impossível, dado que público e privado sao expressões logomáquicas, isto é impossiveis de coexistir na mesma realidade.
Como não há rectas curvas ou pretos brancos também não pode haver serviços privados que sejam públicos, sendo por seu turno óbvio que um público, ao passar a privado perde ipso facto aquela qualificação.
Seria bom que assim não fosse…
O Diabo, diz povo, não é tão feio como o pintam.
Mas, mesmo com aquela limitação,não deixa de evocar e revocar o horrendo em todas as suas possiveis gradações.
A expressão atribuída ao pessimista Hobbes – homo hominis lupus – não significará, só por ela, que o mundo não é um mundo, mas um inferno, onde os homens ou são anjinhos atormentados ou demónios atormentadores.
Mas a verdade é que o combate pela vida nos torna a todos ou quase todos em adversários uns dos outros, ou quando muito em indiferentes pela sorte alheia, pondo a ênfase no nosso interesse, quase sempre mesquinho, mas a que tudo sacrificamos.
Queixamo-nos dos outros, os outros queixam-se nós, esquecendo-nos todos de que o nosso maior inimigo não são os outros, mas está dentro de nós.
A alma humana é um enorme campo de batalha onde a nossa metade boa é muitas vezes submersa, pela nossa metade má.
O poeta intuiu-o:
Pelo caminho que eu sigo
Quando eu quisesse matar
O meu maior inimigo
Tinha de me suicidar.

Para inimigos, bastamos nós.
O que não significa, que não deparemos no dia-a-dia com uma tremenda súcia da mais despudorada fauna. Na vida pública e privada
O poeta popular intuiu-o por igual:
A vida é filha da puta
A puta é filha da vida
Há tanto filho da puta
Na puta da minha vida.

E são efectivamente tantos que os encontramos em toda a parte, ou como se diz em linguagem popular, ao virar de cada esquina, na vida privada e na vida pública.
Com particular incidência, temos propensão a afirmar, na carreira política…
Mas não é que sejam quantitativamente ali mais abundantes, ou qualificativamente mais refinados.
O que estão é mais expostos, para a população em geral, que gostaria de os ter por modelos e por isso facilmente se escandaliza com os seus pecados e até simples pecadilhos, desculpaveis no homem comum.
Despertam também particular atenção perante os adversários de partido, o que se achará normal.
E, todavia, mesmo assim e apesar de tudo, são os camaradas de partido que mais lhe ratam na consideração.
O que seria paradoxal, se não fosse com estes que tivesse de disputar os lugares de acesso e ascenso e sobretudo as conesias…
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana«Poetando» é a coluna de Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, na qual a cada domingo vai publicando poemas inéditos, cada um dedicado a uma aldeia do concelho do Sabugal. Este Município raiano, um dos maiores do País em termos de extensão territorial, tem 40 freguesias, algumas delas com anexas, sendo no total exactamente 100 (cem) o número das localidades do concelho do Sabugal. Nesta edição o escritor e poeta bismulense dedica um soneto a Badamalos. No spróximo domingo será editado o poema relativo à aldeia anexa de Badamalos: Carvalhal do Coa.

BADAMALOS

Vocábulo de sonoras ressonâncias
Recorda vozes de alteroso sino
No éter não se medem as dustabuas
Mas os toques do bronze volvem hino

Serenas existências de sem ânsias
A paz é por ali um dom divino
O Coa quase sente relutâncias
Em ter de ser um peregrino

Ser lago e quedar-se eternamente
Entregue às boas mãos da boa gente
Seria o regalo entre os regalos

Qualquer entenderá todo este apego
Pensando no edénico sossego
Que marca o viver em Badamalos

«Poetando», Manuel Leal Freire

A Europa, têmo-lo repetido, vale como sinónirno de humanismo, cristandade, cavalaria (no mais nobre sentido do termo) e civilização.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNão admirará, em corolário, nem o ascendente que, desde os luminosos séculos da Hélada, vem mantendo sobre o resto do mundo, nem a missão de disseminador da cultura que se propôs.
O mais pesado fardo do homem branco, evocado nalguns cantos de epopeia, e que refere exactamente a obrigação que o europeu sempre sentiu de actuar como responsável pela promoção civilizacional dos aborígenes dos demais continentes, não representa efectivamente mero sentido de retórica e longe de constituir causa de recriminação ou motivo penitencial deve dar-nos inspiração para mais altos cometimentos em prol da humanização.
Para além das razões económicas com que muitas vezes se mascarou aquele propósito eminentemente digno, não deixando de condenar a exploração, os abusos e até os crimes de muitos colonizadores, a verdade é que, mesmo fora do campo estritamente religioso que normalmente foi o motor inicial (alargar a Santa Fé de Nosso Senhor Jesus Cristo e trazer a ela toda as almas que se queiram salvar, diria o lnfante Dom Henrique em carta ao Papa, então reinante), há sobejos motivos de consolaçãoo ou até de cristão desvanecimento pela obra de promoção que a Europa levou a cabo nas demais partes do mundo.
A nós, portugueses, coube o papel de iniciadores, como recorda o poeta:
Nascido dos combates pela Cruz
Portugal veio ao mundo já cristão
O melhor baptismo é o da luz
Que Deus deixou nas margens do Jordão

Somente os ungidos por Jesus,
São Pedro, São Tiago, São João…
Ao «ide e ensinai» fizeram jus
E nós que somos povos de missão
Deus é que fez o mundo e redimiu-o
O génio português redescobriu-o
Em nova criação a Deus o dando…

Todos os nossos poetas, de resto, se deixaram tocar pela sublimidade do tema.
Camões:
Assim fomos abrindo aqueles mares
Que geração alguma não abriu…

Vimos buscar do Indo o grão corrente
Por onde a lei divina se acrescente.

Guerra Junqueiro:
Astros do céu, povos da terra, ondas do mar
Viram passar como uma águia ovante
Meu pendão quimérico nos ares
Retumbaram maus feitos de gigante
Pelo universo em feitos seculares…

Fernando Pessoa:
Ao imenso e possível oceano
Ensinam estas quinas que aqui vês:
O mar com fim será grego ou romano
O mar sem fim é português.

Corrêa de Oliveira:
Mare nostrum dos antigos
Foi latim a breve modo
O português deu à vela
Nosso mar era o mar todo…

Afonso Lopes Vieira:
O que era dantes o mar?
Um quarto escuro
Onde os meninos tinham medo de ir.
Agora o mar é livre e é seguro
E foi um português que o foi abrir…

Com os poetas eruditos, ombreiam os cantadores ao desafio:
Portugal, senhor da terra
E senhor do mar também
Só não é senhor do céu
Que é de Deus e mais ninguém.

Áfricas, Índias, Brasil,
Tudo no mundo foi meu…
Proas de nau, nem eu sei
Como as não meti ao céu…

Enfim, todos repetiam com Camões:
… Entanto que cegos e sedentos
Andais do vosso sangue, ó gente insana
Não faltaram cristãos atrevimentos
Nesta pequena casa lusitana.
Tem da África os marítimos assentos
É na Ásia mais que todas soberana,
Na quarta parte nova os campos ara
E, se mais mundos houvera, lá chegara…

Sobreveio Alcácer-Quibir e o nosso esforço iria ser aproveitado por outros.
Logo pelos espanhóis, já émulos connosco. E daí a trova:
Áfricas, Índias, Brasil,
Tudo no mundo foi nosso
Portugal dizendo à Espanha
Toma lá que que eu já não posso…

Consumara-se aquilo a que os historiadores chamam o século português, de algum modo o do Infante Dom Henrique, a quem, na lapidar expressão de Oliveira Martins, nós, portugueses, devemos uma segunda pátria, mas que transcendeu em muito os limites de uma pátria, pois deu igualmente outra pátria a todos os europeus…
A personalidade e a acção do Príncipe de Sagres exige, por isso, que o coloquemos ao alto e ao centro da História da Civilização do Ocidente e mesmo do Mundo.
E que a exigencia não se revela descabida, acentuam-no vários autores:
Beazlei que o situa entre os que modificaram, vital e realmente, o curso da História Mundial e sem cuja obra toda a nossa sociedade moderna, e a civilização de que nos orgulhamos, seria profundamente diferente.
Elaine Sanceau, que disse: «0 Infante realizou a maior transformação que o mundo vira ou viu até hoje»…
Gilbert Renaud: «Dom Henrique voltou uma página decisiva da História do Homem»…
Até porque foi o precursor e primeiro realizador da Europa Imperial para além dos mares.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Na presente emergência nacional, se é certo que estão a ir os anéis, já não é assim tão seguro que se salvem os dedos, mesmo se reduzidos à falangeta, a última das excreções segundo se aprende – ou aprendia – na escola que hoje é dominada por um nem sequer doce far niente…

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaMas que os anéis, mesmo no sentido literal do termo se estão a ir, disso todo o mundo se dá conta, atento o ruído e agressividade das campanhas de aliciamento à venda, sem que ninguém, nomeadamente os poderes públicos que têm por obrigação estar atentos a todos os sintomas de anormalidade, se tenha interrogado sobre as causas e os fins…
E apesar do que por aí já não apenas se rosna, mas abertamente se diz, que a generalidade do ouro, prata, platina e demais preciosos, simples ou em jóias, assim comercializados, saem do País.
Objectar-me-ão que isso é ótimo, pois do que nós precisamos é de equilibrar a nossa balança de pagamentos e as divisas por aquela via entradas são um valiosíssimo aporte.
Para além duma sensata interrogação sobre o destino final das verbas obtidas pelas transacções que o mais certo é dirigirem-se para paraísos fiscais, ou no mínimo subtrair-se ao controlo nacional, há uma regra – essa sim áurea – de que só conta para o equilíbrio a exportaçao de riqueza produzida e não de riqueza acumulada.
A esta luz, irrefragável para os entendidos, vender bens não produzidos mas acumulados é factor unicamente de empobrecimento.
Portugal empobrece na medida em que se exporte ouro público ou privado.
Alguma coisa, pois, devem os poderes públicos fazer no sentido de se estancar aquela Sangria.
Estaline, mau grado o seu apoio a todas as internacionais, era um feroz nacionalista pelas Santas Rússias. Numa emergência semelhante, logo nos inícios da sua governação, ordenou o manifesto nacional obrigatório de tudo o que cheirasse a ouro e jóias. Os proprietários que fugissem ao registo não só perderiam o material não registado como ficavam sujeitos a sanções que iam da multa à pena de morte.
No Portugal de hoje não serão necessárias medidas assim extremas. Mas pode começar-se pelo manifesto, que não ofenderia nenhum direito que a quebra de sigilo bancário não tenha já posto em causa.
A proibição de venda podia também ser encarada, intervindo a Casa da Moeda, através de cautelas de penhor, quando o titular invocasse a necessidade iminente de venda.
Mas do que não há dúvidas é que se impõem medidas que travem a sangria e a especulação que são cancro e escândalo.
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

O manejo do forcão só pode ter êxito assente naquelas quatro virtudes que servem de epígrafe a este texto. A inteligência do rabejador, a destreza dos capinhas que puxam a rez para a lide, a valentia dos laterais e a heroicidade dos fronteiros.

Tourada com forcão

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaComo sabe qualquer iniciado na terminologia do toureio, o responsável pela corrida tem o titulo profissional de inteligente.
Do latim – raízes em inter e legere – é o que lê por sinais, nos dizemos o que é capaz de ler nas entrelinhas, como que discreteando o texto.
A inteligência é fonte de virtudes, até de força, a darmos crédito ao aforismo – nunca faltou força onde sobeja a inteligência, sendo, pelo contrário, a ignorância mãe de todas as derrotas, impotências e franquezas.
Numa corrida, o inteligente tem de saber ler, tanto a feridade o toiro, como a estrelinha do bandarileiro, ou a argúcia do par cavalo-cavaleiro ou ainda a temeridade dos moços de forcado. Para decidir a prossecução ou suspensão da lide, a natureza da pega ou denegar até que seja tentada.
Na capeia raiana, o verdadeiro inteligente é o rabejador, capaz de entrar na psique do touro, adivinhar-lhe os movimentos, perscrutar-lhe as hesitações.
E ao saber das suas leituras ou cognições fazer dançar toda a triangulação, impondo-lhe rota e compasso.
Lembro na Aldeia da Ponte dos meus verdes anos, a inegualável técnica de dois mestres.
Primeiro, o Senhor Quitério e, depois, o Senhor Pausidro, de ascendência espanhola… Albergaria de Arganhã, sendo o nome pelo qual era conhecido provavelmeme um crase sincopada de Paulo Isidro.
Mas que soberbas lições de rabejamento.
E que intuiçao não demonstravam os capinhas. Sem outras armas que uma boina e uma saca a desviarem a rez da sua crença natural e levando-a a investir contra o forcão, onde o esperava o garbo dos laterais e a força hercúlea dos fronteiros.
Destes seja-me permitido destacar os dois que em Aldeia da Ponte marcaram na minha meninice… o Manuel Marcos e o Zé Barreiras. Dois autênticos hércules que faziam afocinhar qualquer toiro.
Rogo também trinta segundos de atenção para dois que foram modelo de capinhas, igualmente em Aldeia da Ponte, o Zefo, que morreu no Brasil, onde se firmava como empresário, e o Manuel Gusmão, conhecido pelo Forcalheiro por o pai ter vivido nos Forcalhos, onde comandou a guarnição fiscal. Ele próprio foi também elemento aliás muito qualificado daquela polícia aduaneira, pois tratava-se pessoa muito inteligente, séria e de bom trato…
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana«Poetando» é a coluna de Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, na qual a cada domingo vai publicando poemas inéditos, cada um dedicado a uma aldeia do concelho do Sabugal. Este Município raiano, um dos maiores do País em termos de extensão territorial, tem 40 freguesias, algumas delas com anexas, sendo no total exactamente 100 (cem) o número das localidades do concelho do Sabugal. Nesta edição o escritor e poeta bismulense dedica um soneto a Alfaiates e ao seu herói histórico, o antigo governador da praça forte: Brás Garcia de Mascarenhas. No próximo domingo será editado o poema relativo a outra freguesia: Badamalos

ALFAIATES

Não é composta lenda mas história
A que da praça forte aqui ressuma
Quem ouvir uma gesta rememore-a
A fama varre ao longe toda a bruma

A Pátria Portuguesa merencória
Sofria as desgraças uma a uma
Esparsos os resquícios de glória
Armadas em destroços e verruma

A raça por indómita ressurge
Que haja chefe novo é o que urge
As ameaças vêm das Espanhas

Dos cumes dos Hermínios o reforço
Trará o chefe, capitão de esforço
O nome Brás Garcia de Mascarenhas

«Poetando», Manuel Leal Freire

O prestígio de Roma atingiu culminâncias tais, quer no plano espiritual, quer no tocante às coisas do mundo, que a Igreja escolheu a cidade para sua sede e todos os imperadores que têm reinado sobre o velho continente se pretendem sucessores dos que brilharam em Roma.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaAté pelo título, já que César, como os reis de França se intitulam desde Carlos Magno, Kaizer, como os de raça germânica desde Otão, ou Czar, nome ostentado pelos de raíz eslava, não são mais do que transcrição literal ou corruptela do cognome de Caio Júlio. Aliás, seria este ao escrever o Bellum Gallicum, por nós mais comummente conhecido por De Bello Gallico (o nome completo será Commentarii de Bello Gallico) quem lançaria as bases para os futuros impérios centro-europeus.
Recordemos o intróito da famosíssima obra:
Gallia est omnis divisa in partes tres, quraum unam incolunt belgae, aliam aquitani, tertiam qui, ipsorum lingua, celtae, nostra, galli apeelantur. Hi omnes, lingua, instituti, legibus, inter se differunt. Gallos ab aquitani Garumna flumen, a Belgis Matrona, et Sequana dividit.
Horum omnium fortissimi sunt belgae, propterea quod a cultu atque humanitate provin-ciae longissime absunt, atque ea animos effeminat, important. Proximique sunt germanis, qui trans Rhenum incolunt, quibuscum continenter belIum gerant.

A tentativa de unir esta série de povos, alguns dos quais em luta incessante, como recorda a expressão «Quisbuscum continenter bellum gerant», muitas vezes ensaiado, tem, repetidamente também, falhado.
Carlos Magno foi mesmo o único que teve algum êxito neste pormenor, já que, depois do Imperador da Barba Florida, a França sempre se revelou insusceptível de fusão com a parte oriental do império carolíngio, que, de resto, não sobreviveu ao seu fundador.
Depois, de Otão aos nossos dias, com a sede em Viena, em Berlim ou qualquer outra cidade, sob hegemonia austríaca ou prussiana, centralizando à maneira bismarquiana toda a administração ou permitindo a coexistência de quatrocentas casas reinantes, todas elas, aparte um ou outro reino ou principiado de maior dimensão, bem pequenos feudos, os antigos galos, celtas ou francos eximiram-se à unificação, não relevando as tentativas de Napoleão (que seriam de sinal contrário), ou as de Guilherme II ou Hitler.
Principiados, condados, ducados, arquiducados, marcas ou marquesados (não esque-cendo que marquês ou pargrave era mesmo o governador militar duma província fronteiriça, a marca), baronias, bispados, até hansas de raíz corporativa, eis os ingredientes sobre que se exercia a autoridade imperial.
De resto, também o sentido expansionista ou concentracionista deste Império sofreu acentuados desvios.
A sua ideia-força resistiu no pangermanismo, mitigado é certo, pois nunca tentou atingir os britânicos, também germânicos, ou os escandinavos, que igualmente o são.
E, mesmo em relação propriamente ao chamado mundo alemão, houve, por igual opções várias. Quando, por volta de 1860, Bismark deu por terminada a unificação da Alemanha, excluíu deliberadamente os alemães que eram, ao tempo, súbditos dos Habsburgos.
E o próprio Hitler, mau grado o furor extremo do seu pangermanismo, deixava de fora a população alemã do Norte de Itália, possivelmente como concessão a Mussolini, seu futuro aliado (futuro, porque esta ideia consta do Mein Kampf, escrito, como se sabe, antes da tomada do poder).
Outros pretendiam que o Império avançasse para Leste, o que significaria a retomada do antigo ódio aos eslavos, que esteve na base da fundação na Áustria, da Ostmark e conduziu os cavaleiros teutónicos até ao Báltico e para além dele.
Era esta a tese dos militaristas prussianos, como se extrai dum exeerto de Ludendorf:
Kovno (nome da capital da Lituânia) ostenta ainda um castelo construído pelos Cavaleiros Teutónicos, um símbolo da civilização alemã no Leste Europeu… Ao contemplá-lo, o meu espírito ficou inundado de poderosas recordações históricas e mentalmente decidi retomar nesses territórios a obra civilizadora que os nossos antepassados ali levaram a cabo, durante séculos. A população, estranha mistura de raças, bem precisará da nossa ajuda, sem a qual cairá sob qualquer dominação, sem dignidade ou elevação…
Para estimular os desejos de conquista, faz-se renascer o tema por um novo Tchinggis Knan – o que nós conhecemos sob o nome de Gengiscão e que no século XIII semeou a ruína desde o Vietname ao Adriático e ao Iemen…
Abastardava-se, assim, uma ideia cheia de significado e heroicidade na sua origem.
O Sacro-Império, como os que o precederam e se lhes seguiram detiveram efectivamente a missão de enfrentar o perigo asiático.
Mas não se limitavam à acção militar.
Civilizavam e cristianizavam, transformando o inimigo de ontem, depois de convertido, em indefectível aliado.
Foi o caso, entre outros, dos húngaros, povo cristão só a partir do século XI, mas que segundo o historiador Sayons, bem pode ser comparado a defensor intemerato da sua nova crença contra os seus irmãos de outrora. Povo ultra-altaico, estranho à origem ari-ana, conquistador imposto à Europa como novo flagêlo de Deus, voltou-se pelas conversões do Rei Geda e seus principais nobres, e, sobretudo pela acção de reis como Santo Estêvão e Ladislau I, contra as imensas aglornerações de tribos altaicas lançadas à conquista dos países eslavos, germânicos e até latinos.
Amálgama de feudos, o Império revelou-se também cadinho de raças…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Na má comunicação ao Partido, de que é chefe, e indirectamente ao País, Passos Coelho blasonou com os elogios que a sua acção governativa vem merecendo da Troika.

Pedro Passos Coelho

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaEstabelecendo uma nova trindade, cujos vértices situa respectivamente um naquela entidade supranacional, outro no Governo e o terceiro no Povo Português, Sua Excelência formula um silogismo, baseado na premissa de que tudo o que é bom para a TROIKA, é, por essência, bom para Portugal, esquecendo, no entanto, ser aquele simultaneamente um organismo de tutela e de representação dos nossos credores internacionais.
Ora, se pode ter-se como genericamente certo que o tutor quer sempre o melhor para o tutelado, já a mesma identificação de interesses não interliga credor e devedor, sobretudo quando aquele é o capital anónimo e vagabundo interessado em explorar o devedor, quaisquer que sejam os sacrifícios a este impostos.
E mesmo para os credores dominados por sentimentos de filantropia e benemerência, normalmente inexistentes nos senhores do dinheiro, há dois factores onde a divergência é fatal – taxas de juros e prazos de vencimento.
A Igreja Católica, humaníssima em todas as suas cambiantes, sempre ensinou que a usura traz peso de consciência aos que a praticam e avilta aqueles que a sofrem.
Como sempre proclamou também contra a imposição de prazos que implique sacrifícios que a sua live negociação possa evitar.
E esta luz, o que é bom para a Troika é inelutavelmente mau para o Povo.
E, de qualquer modo, o Governo, que é governo, tem obrigação de buscar e encontrar o ponto de equilíbrio entre os interesses da Troika e os do Povo Português, dando, em caso de conflito, prevalência a estes últimos que têm de ser os primeiros.
De acordo até com um princípio de direito natural: Salus populi summa lex est.
E neste momento, há dois desígnios nacionais que a todos se têm de sobrepor – dar uma enxada a cada braço e fazer crescer a economia nacional. Sem a plena realização do primeiro, está posta em causa a paz social. Sem o segundo, quaisquer que sejam os sacrifícios impostos á grei, não podemos sequer pagar os juros, quanto mais a dívida.
Pelo que falharemos também ante a Troika.
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana«Poetando» é a coluna de Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, na qual a cada domingo vai publicando poemas inéditos, cada um dedicado a uma aldeia do concelho do Sabugal. Este Município raiano, um dos maiores do País em termos de extensão territorial, tem 40 freguesias, algumas delas com anexas, sendo no total exactamente 100 (cem) o número das localidades do concelho do Sabugal. Nesta edição o escritor e poeta bismulense dedica um soneto a Aldeia Velha, freguesia da orla raiana do concelho. No próximo domingo será editado o poema relativo a outra freguesia: Alfaiates.

ALDEIA VELHA

A toponímia, madre de batismos,
Também perene fonte de mistérios
Revoca do mais fundo dos abismos
As regras que definem os critérios,

São poços de saber os aforismos
O sábio, porque sábio, prefere-os
A vetustez é fonte de lirismos
Negá-lo equivale a despautérios

O nome vale assim por nobre título
Que os povos reconhecem em capítulo
Não cabe uma avenida numa quelha

Se na vida é um posto a antiguidade
Brasão é da mais alta dignidade
Chamar-se uma aldeia Aldeia Velha…

«Poetando», Manuel Leal Freire

A terceira guerra púnica, arrastando as legiões para o oriente, aonde se havia refugiado Aníba1 e a perseguição que teve de ser feita a este e aos seus aliados acabou por deslocar o eixo do Império, cada vez a tender mais para a orientalização.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaRoma, capital unida e incontestada, começou a ter de dividir com outras cidades a sua eminente dignidade de cabeça do mundo antigo.
A tetrarquia, com os dois césares e os dois augustos, cada um dos quatro instalados em diferente parcela do Império.
E, mesmo antes, quando Roma atinge o auge territorial, que coincide com a época de Trajano, a orientalização ensaiava-se já.
Como todas as coisas deste mundo, com vantagens e desvantagens. Daquelas, a mais importante consistiu certamente na sobrevivência da Império Romano do Oriente, por cerca de mil anos, à deposição de Augustulo.
A sua capital, a Bizâncio pré-romana, nome aliás mantido até Constantino que a crismou com o seu nome, a Istambul, segundo o recrisma dos turcos seljucidas, até pareceria criada para fazer a união entre dois mundos, que, todavia, até hoje ninguém conseguiu fundir ou manter aparentemente unidos a não ser por períodos curtos e com a hegemonia, em regra tirânica, de um deles.
O desatino começou logo com o cerco de Tróia querepresenta mais do que lendária antecâmara das más relações entre os povos de aquém e além do Bósforo, em todo o devir histórico.
Aos aedos que construiram ou carrearam o material para a Ilíada e a Odisseia, a Virgílio que na Eneida nos faz remontar ao mais fragoroso do cerco ilíaco, podemos já juntar trechos históricos ou quase históricos, como o «De rebus gestis Alexandri Magni», de Quinto Cúrcio Rufo; a «Retirada dos dez mil», de Xenofonte; os trabalhos de Tucidides…
As guerras médicas, sob outro nome, e tendo como contendores outros povos, ou mais precisamente os actuais representantes (melhor os que em cada época ostentam tal qualidade) vêm-se revelando uma constante.
A Europa, minúsculo apêndice superpovoado das imensidades asiáticas tem, salvo em períodos especiais, conseguido triunfar.
Muitas vezes, pelo engenho ou pela astúcia.
Desde, aliás, o Cavalo de Tróia, de cujo bojo saíram os incendiários para a noite terrível:
Quis cladem illius noctis, quis funera fando Esplicet aut possite lacrimis aequare laboris?…. Crudelis ubique.
Luctus, ubique pavor et plurima mortis imago.

Assim relata Eneias, tebano salvo por sua mãe Vénus (pois era apenas semi-deus, porque filho de homem, Anquises) o que foi a noite de Tróia, quando o enorme paláicio de Deifobos se transformara em ainda mais enorme braseal.
Simbólico, o cavalo prenuncia novos e bem mais vastos incêndios.
A tomada de ConstantinopIa, pelos janizaros de Maomet II, quando em 1453 acaba o Império Romano do Oriente.
A História tinha sinistras falhas,
Uma das quais se chama Kerkaporta…
Grasnam corvos, recrocitam gralhas
Bizâncio é já cidade morta…

União contra-natura de tantos e tão desencorados povos, em qualquer das suas versões, continha em si mesmo o fermento para todas as guerras e todos os ataques vindos do exterior.
Para cristãos e mouros, cada comunidade em socorro dos seus membros sujeitos a poder religiosamente oposto, dava incentivos de guerra santa.
Camões revelou-se arauto de uma intervenção:
Gregos, traces, arménios, georgianos,
Bradando-vos estão que o povo bruto
Lhe obriga os caros filhos aos profanos
Preceitos do Alcorão, duro tributo…

Com fronteiras que para o lado europeu chegavam a pôr em perigo a cidade de Viena (e daí o marquesado dos Habsburgos) e do lado asiático dominavam até aos plainos iranianos, ocupando ainda a maior parte da África rnediterrânea, só um governo tirani-zante lhe podia assegurar paz, de resto sempre efémera e a estilhaçar-se aos primeiros sinais de fraqueza.
O papel de Serajevo na Primeira Grande Guerra, os sangrentos conflitos jugoslavos no pré e post-titismo, os conflitos israelo-árabes e iracoiranianos, as questões dos curdos, dos arménios e até dos chechenos, bem podem fazer-se radicar na heterogeneidade de um império que contranatura se manteve por cerca de mil anos e de um outro, ainda mais anti-natural, o otomano, que durou quatro séculos…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

O termo Charro aparece-nos com vários significados.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaUmas vezes, para designar uma das várias regiões naturais por que se divide a província de Salamanca – o Campo Charro – uma extensíssima chapada de cereais e montado, contraposta às alcantiladas arribas do Douro, às serras de Gata e de Francia, aos condados de Penharanda ou ducados de Tormes, a famosíssima Casa de Alba.
Não falta também quem, generalizando, use a palavra como sinónimo de camponês salamantino na sua autêntica pureza e genuinidade.
Desprimorando mais o vocábulo alguns dizem-no sinónimo de rude, grosseiro, inculto.
E é neste sentido que genericamente se fixam os dicionaristas… por todos Domingos Vieira no seu celebérrimo tratado Tesouros da Língua Portuguesa.
E constata-se aqui uma desfocagem que de algum modo faz deslissar o tema para um ângulo de observação que é aquele que aqui se pretende imprimir-lhe.
O termo – admitem os investigadores, radicará no vasconso, idioma muito rude e, fiel às origens – significa linguajar rude, próprio de gente iletrada e isolada do mundo, contrapondo- se ao falar fidalgo, grave, ou de acordo com as regras da escola.
Na Aldeia da Ponte ou nas Batocas da minha meninice, ainda me diziam que eu, por frequentar o ensino primário na cidade da Guarda, falava à grabe e o Gregório Nave, meu contraparente por afinidade, por viver na Nave Longa, fazenda raiana, onde lidava muito com albergarios e alamedilhos, falava charro.
Ora, o charro é mesmo um dialecto, um português ainda carregado de leonismos e já mesclado de castelhano, que se falava até há pouco, e ainda há quem o use, nas terras de Xalma.
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana«Poetando» é a coluna de Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, na qual a cada domingo vai publicando poemas inéditos, cada um dedicado a uma aldeia do concelho do Sabugal. Este Município raiano, um dos maiores do País em termos de extensão territorial, tem 40 freguesias, algumas delas com anexas, sendo no total exactamente 100 (cem) o número das localidades do concelho do Sabugal. Nesta edição o escritor e poeta bismulense dedica um soneto a Aldeia do Bispo, freguesia da orla raiana do concelho. No próximo domingo será editado o poema relativo a outra freguesia: Aldeia Velha.

ALDEIA DO BISPO

O ser reguengo episcopal impunha
Obrigações mas outorgava títulos
A fé o certifica e testemunha
São laudas nobres ditas em capítulos

Pedia a liturgia novos rótulos
O corpo dos deões é que os propunha
Queimasse-se o incenso nos turibulos
A mordomia em ápice os repunha

Vulgar na toponímia lusitana
O nome, mesmo assim, exalta e ufana
E a fé, de fervente ferve em crispo

Porém, o ser do bispo e ser da raia
Conduz a que se extreme e sobressaia
E seja ela a Aldeia do Bispo

«Poetando», Manuel Leal Freire

Voltamos a Frederico Garcia Lorca para de novo dissertarmos sobre a magia do toureio e suas cores. Agora,fazemos apelo a uma charla sobre SOL Y SOMBRA.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaTranscrevamos, traduzindo:
Basta escrever aquelas duas palavras, assim, sol com letra amarela e sombra com letra escura para caracterizar a estética do toureio.
E assim teria que ser quando se jogasse com o sol e a sombra, quando daquelas palavras se queira fazer metáfora e conceito.
E isto não depende de nuvem, espelho ou muro, mas apenas do toureiro, pois é dele que brotam na arena o sol e a sombra.
Lagartijo, por exemplo, conseguiu corridas, em que não houve senão sol – gloriosa experiência de uma estética de estátuas, como a do touro, antes das banderilhas.
A sombra, em Lagartijo, era pura especulação, ou mera simulação.
Ele amava a nudez e a linha concreta, amava a roda do sol e suprimia o ângulo infinito da sombra.
Mas para muitos outros toureiros continuou a haver sol e sombra.
Bombito, esse aprendeu a lidar, sem riscos, com o sol e a sombra.
El Gallo levou a um alto expoente esse jogo de luzes.
Mas só a capeia raiana tem o condão de fazer apelo a um terceiro elemento – o arbóreo, personificado no forcão.
É a imagem protectora do carvalho-roble, é a floresta intrometendo-se neste duelo homem-touro.
Todos os contendores se sentem atraídos e protegidos por aquele nume.
O touro avança buscando na sombra projectada pelos troncos e ramos da floresta perdida.
Os bravos e possantes moços que guarnecem as alas, sentem o alívio de asas e o próprio rabejador na sua essência de timoneiro, não deixa de pressentir o hálito benfazejo da árvore mesmo desnudada.
As divindades que se acoitam no bosque transferem-se meteoricamente para a arena.
A dança do forcão é um baile mandado em que, fantagórica, mas harmoniosamente se agitam todas as divas da pradaria…
Até os freixos para que os vaqueiros sobem quando o espírito do mal açula os toiros.
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana«Poetando» é a coluna de Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, na qual a cada domingo vai publicando poemas inéditos, cada um dedicado a uma aldeia do concelho do Sabugal. Este Município raiano, um dos maiores do País em termos de extensão territorial, tem 40 freguesias, algumas delas com anexas, sendo no total exactamente 100 (cem) o número das localidades do concelho do Sabugal. Nesta edição o escritor e poeta bismulense dedica um soneto à Urgueira, aldeia anexa da freguesia de Aldeia de Santo António. No próximo domingo será editado o poema relativo a outra freguesia: Aldeia do Bispo.

URGUEIRA

Não há de entre os arbustos montesinhos
Algum que o iguale em fonte de calor
E rei tal como são reis os rosmaninhos
Quando se trata de aromas em odor

Criado ao deus-dará pelos maninhos
Não nega a ninguém o seu favor
O que só tem de seu pó dos caminhos
Incenseia na urze o criador

Nas bênçãos, trova hinário que um poeta
Tomando posição quase de asceta
Levou ás sumidades de bandeira

E como na filha é que se vê a mãe
Daqui entoaremos nós também
Glória et Laos a esta Urgueira

«Poetando», Manuel Leal Freire

Não nos ocupámos, como poderia supor-se dos estados minúsculos, que também os há, na enorme panóplia deste Velho Continente, repartido até demais atenta a sua escassa superfície, comparada, por exemplo, com a do colosso asiático, seu vizinho.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNão é de Andorra (com apenas 465 quilómetros quadrados), do Mónaco (só com dois), de São Marinho (com sessenta e um), do Vaticano (com quatro), de Vaduz (cento e cinquenta) ou do Luxemburgo (o maior entre os mais pequenos, com dois mil e seiscentos) que, efectivamente, falámos, mas das numerosas nações europeias saídas em regra do retalhamento de impérios e que apareceram, salvo uma ou outra excepção, na cena política, só no século passado ou mesmo neste, inclusive nos dias de agora.
O desmembramento dos impérios austro-húngaro e otomano, os restos até dos impérios nórdicos, ou os ajustamentos de fronteiras, geraram novos estados que cabem quase todos no conceito de pequenos.
Na Europa, a regra tem sido a cissiparização.
O único caso em que se verificou, ao invés uma fusão, é representado pela Itália que praticamente absorveu toda a Península, uma vez que a Vaticano e São Marinho, como já referimos, não tem expressão territorial.
De resto, é de crer que aos países saídos da divisão da Checoslováquia e da fragmentação da Jugoslávia, ocorridos nos nossos dias, juntaram-se muitos outros, gerados pelo inevitável estilhaçar da URSS, autêntica manta de nacionaIidades, cerzida bem contra a mãe natureza.
Fazendo um pouco de rememoração histórica e de peregrinação geográfica, seguindo, neste particular, o sol, no seu movimento diurno aparente, encontraremos a Grécia, a Bulgária, a Roménia, e a Albânia, saídas, no século passado, da decomposição da Sublime Porta, fenómeno de causas intrínsecas e potenciado do exterior, como o atesta, por exemplo, a campanha de Lord Byron.
Aliás, tratava-se de nações com forte individualidade histórico-étnica. A Grécia, por uma cultura única no mundo. A Roménia, como até o nome recorda, pelo grau de latinização a que ascendera no mundo antigo. A Bulgária, por ter chegado a ser émula de Bizâncio. A Albânia, com largas tradições no embate contra o turco, como quando, em 1451, a dois anos da fatídica queda de Constantinopla, o seu chefe Seanzer-Berg vence o sultão Amurade.
Para o norte, Finlândia e Noruega, os balto-russos estónios, letões e lituanos, a Dinamarca e a Islândia, excepção feita à penúltima, que já teve ambicões imperiais, são de data recente e de intermitentes independências.
Para Ocidente, Bélgica e Holanda ora unidas, ora separadas, ora independentes, ora subjugadas por vizinho poderoso, vêm cumprindo a sua litânia.
Portugal com quase nove séculos de independência é caso raro, senão único, sendo nas suas fronteiras, o estado mais fixo e antigo de todo o Continente, ou mesmo de todo o mundo. Tal como a Suíça, por força dos Alpes.
Na Europa marítima, deparamos no Atlântico, com dois estados integráveis no grupo:
Islânlia e Irlanda. E, no Mediterrâneo, com outros dois: Malta e Chipre, também saídos, como outros já atrás referidos, do turbilhão otomano.
No centro, há a Áustria e a Hungria, os checos e os eslovacos, a Sérvia, a Croácia, a Eslovénia, a Bósnia-Herzegovina, o Montenegro.
Por que sumúla de razões estes povos geraram países que resistem e subsistem?
João Amaral, versando particulannente o caso húngaro, deixou exarado:
«Independentemente dos inegáveis dons que um observador honesto tem o dever de atribuir a certos grandes povos, é claro que o simples facto de serem grandes – o representarem importantes massas populacionais – lhes assegura, só de per si, meios consideráveis de expansão, de poder, até de predomínio. Aos povos mais pequenos, de massa populacional reduzida cumpre tomarem-se grandes pela energia íntima, pela consciência de missão, pela vontade de resistência a quaisquer golpes de fortuna, de riscar um caminho através das provações e dos obstáculos…»
Volto, portanto à imagem de que são povos de qualidade.
Por seu turno, Milan Kundera, ele próprio filho duma pequena nação, pois é checo, escreveu:
«As pequenas nações. Não se trata de um conceito quantitativo. Designa uma situação, um destino. As pequenas nações não conhecem a sensação feliz de existirem desde sempre e para sempre. Todas elas passaram, num momento ou outra da sua história, pela antecâmara da morte. Sempre confrontadas com a arrogância ignorante dos grandes, vêem a sua existência perpetuamente ameaçada ou posta em questão; porque a sua existência é questão.»
Na sua maioria, as pequenas nações europeias emanciparam-se e alcançaram a independência ao longo dos séculos dezanove e vinte.
O seu ritmo de expansão é portanto específico… formando uma outra Europa que pode ser definida em contraponto por referência às grandes… Uma pequena nação pode chamar-se uma grande famí1ia e gosta de se apresentar como tal… Na língua do mais pequeno dos povos europeus, em islandês, família quer dizer obrigação múltipla e os 1aços familiares fios de múltiplas obrigações.
A noção de solidariedade revela-se, em corolário, muito mais actuante e viva nos pequenos estados, mesmo até para as grandes cruzadas.
E daí que o avanço turco sobre a Europa, depois da queda de Constantinopola tenha sido travado por pequenos povos: os hungaros, e albaneses, na frente europeia; nós, portugueses pelas navegações.
Retornamos a João Amaral:
«Assim enquanto magiares e albaneses enfrentam com memorável heroicidade o choque terrestre das hordas islâmicas e barram o caminho à invasão bárbara, nós concebemos e executamos o vasto plano marítimo que permitirá ferir o adversário no seu centro vital e reduzi-lo, por fim à impotência.»
A onda que avassalara impérios desfez-se face ao muro erguido por pequenas comunidades nacionais…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Se existe grupo profissional onde as diferenças de estatuto economico são abissais é certamente no dos advogados.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaEfectivamente contrastando com a nababóquica opulência de uma escassa dezenas de escritórios multimilionários, vegetam, país em fora, uns milhares de licenciados em direito, que for fãs ou nefas, se inscreveram na Ordem e arrastam uma existência a raiar o miserabilismo.
Dois colegas de curso, de idênticas carreiras académicas, podem encontrar-se no polo daquelas duas situações.
A aptidão intelectual testada pela Universidade, bem como a competência técnica por um e outro adquirida não se extremam minimamente.
Só a influência política, própria ou dos seus protectores, os distingue.
Um pelo paraninfado, o socerismo, o cunhadismo, ou até a decisão pessoal pelo carreirismo nas jotas, viu abertas todas as portas do êxito.
O outro, por falta de apoios da familia ou por natural aversão ao enfeudamento político, fiou de si mesmo o sucesso da sua carreira, devotando-se ao estudo.
Mas essa é, hoje, a via errada, pela qual ninguém chegará ao sucesso.
Os grandes escritórios não se distinguem dos outros pela craveira mental ou a preparação técnico-jurídica dos seus próceres.
Estes têm é que saber manobrar no mundo das influências.
O Estado, quer ao nível central, quer nas suas ramificações, mesmo as mais periféricas, tem ao seu serviço permanente excelentíssimos juristas, que, todavia, nem sequer consulta, que isso beliscaria com as ordens de quem tudo manda e se apoia em quem tem interesse em apoiar-se.
E escolhido o privilegiado, este só tem que honrar a escolha apresentando conta condigna ou seja condizente com a grandeza da benesse e a majestática dignidade da entidade a servir.
Os relatórios não serão escassos nem em laudas nem no número de autores.
Embora muitos destes sejam retribuidos ao mais baixo nível do mercado, de um mercado onde os descamisados têm cada vez menos poder de reivindicar.
O legislador, sempre tão pródigo em controlar o apoio judicário aos mendicantes, bem poderia também ordenar escalas para as consultadorias majestáticas.
Ou no mínimo, propiciar uma distribuição, com algo de equitativo, entre quem é o senhor de um grande escritório e os que com ele colaboram.
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana«Poetando» é a coluna de Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, na qual a cada domingo vai publicando poemas inéditos, cada um dedicado a uma aldeia do concelho do Sabugal. Este Município raiano, um dos maiores do País em termos de extensão territorial, tem 40 freguesias, algumas delas com anexas, sendo no total exactamente 100 (cem) o número das localidades do concelho do Sabugal. Nesta edição o escritor e poeta bismulense dedica um soneto aos Amiais, pequena aldeia anexa da freguesia de Aldeia de Santo António. No próximo domingo será editado o poema relativo a outra anexa: a Urgueira.

AMIAIS

Bifronte o amieiro em seu destino
Mil vezes entre a lama enlameado
Mas outros talhando o desatino
Ao cimo dos altares alçapremado

O férreo tamanco agrilhoado
O povo o recorda e em seu ensino
Aos Santos aparece religado
Gémeos irmãos quais o bronze e o sino

A dura pedra o escultor amolda
Do inerme bloco sai formosa Isolda
A derreter Tristão por derradeiro

Por sobre os troncos obra igual milagre
O vero artesão que se consagre
A tornar sacro o pau do amieiro

«Poetando», Manuel Leal Freire

A vizinhança dum estado poderoso constitui históricamente um factor de risco, agra-vado enormemente se ao poderio se juntam ambicões expansionislas.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaA hegemonia sofre-se sempre; e, mesmo quando se fazem solenes e bem intencionadas declaracões de não intervenção, há o domínio económico, a exploração da matéria-prima, a atracção sobre a mão-de-obra mais qualificada e a tendência para a colocação dos excedentes de menor qualidade.
Pode enjeitar-se ou repudiar-se o absorcionismo politico-administrativo mas não deixarão de sobrevir as formas larvadas ou até invisíveis de dominação.
O que normalmente salva os pequenos países, rodeados de grandes potências. ou confinando com elas, são os jogos de equilíbrio de poderes entre aquelas.
Nós, portugueses, tanto como ao nosso temperamento, na verdade indomável, devemos a sobrevivência como nação independente, já lá vão quase nove séculos, ao receio de a Inglaterra, potência marítima, se ver desprovida de bases de apoio no Continente, e de a França, inimiga desde a divisão do império de Carlos Magno da parte germânica daquele colosso, temer o peso da Ibéria, se unificada, na balança dos Áustrias.
Mas, quando em vez dum vizinho poderoso, a história encurrala qualquer povo entre várias potências, o mais natural é que passe obrigatóriamente a ser parte do momentaneamente mais forte ou entao seja esquarecjada a benefício de todos.
As sucessivas partilhas da Polónia, os colapsos da Boémia, da Morávia, da Eslováquia, da Sérvia, do Montenegro, da Croácia, da Bósnia, a incerta sorte da Catalunha, do Milanado, da Alsácia-Lorena, em dados períodos históricos, não apresentam outra génese.
A Finlândia, situada entre a Rússia e a Suécia, vem intercalando as fases de independência com as de parcelas daqueles impérios.
A partir da guerra dos trinta anos, ou mais concretamente da sua fase nórdica, passou a Rússia a ser praticamente a única responsável pelos infortúnios do país das renas.
Da Finlândia preparou Lenine a Revolução, o que não o impediu de utilizar o País como moeda de troea na paz de Brest-Litowsque.
Como se sabe, ao dealbar da insurreição, vivia ele no exílio suiço.
Kroupskaia, a sua companheira, relata assim o que aconteeeu nesse dia 3/16 de Março (a dupla datação põe em confronto o calendario russo com o gregoriano) de 1917:
«Depois do almoço, no momento em que Ilicht (Lenine chamava-se Vladilir Ilicht Oulianov) se preparava para ir para a biblioteca, enquanto que eu acabava de arrumar a louça, Bronksi apareceu sobressaltado:
– Vocês não sabem nada? A revolução está em marcha na Rússia.»
Atabalhoadamente deu-lhes conta dos telegramas que acabavam de chegar em edição especial. Quando Bronksi se calou, foram à Praça ver os textos afixados.
Impõe-se a partida. Mas só os alemães lhe podem permitir o regresso à Rússia. Pois bem, pactuará com o verdadeiro inimigo, na circunstância, da sua Pátria.
Através dos socialistas alemães, é posto em contacto com o quartel-general do Kaiser, onde tudo se prepara com vista ao imediato regresso de Lenine e o seu corpo de agita-dores para a decomposição do espírito de resistência.
Pela Alemanha, depois pela Suécia, os proscritos na Helvécia chegam à Finlândia.
Dali e depois duma breve incursão a São Petersburgo é que dirige o ataque final.
Para além do mais, vai atacar o problema dos alígenos – polacos, estónios, letões e lituanos – que querem ver-se independentes; dos ucranianos, que exigem reformas, e até dos arménios que, apesar de viverem ainda aterrorizados pelo medo dos turcos, de que pouco antes haviam saído, não esquecem que são uma nação.
Mas a Finlândia é que seria a verdadeira moeda de troca.
Ali ficaria até à I Revolução de Outubro, até à conquista do poder.
Ouçamos o testemunho de Estaline:
«Então fomos acusados de espiões a saldo da Alemanha Imperialista.
As autoridades requereram a presença de Lenine e Zinoviev para serem julgados. Alguns, entre os quais Kanenev. aconselharam a obediência. Mas eu que conhecia o estado de espírito da reacção e sabia, por isso, os perigos que corriam os dois responsaveis bolchevistas se se apresentassem, convenci-os do contrário.
Fui eu quem tratou do disfarce de Lenine, colando-lhe a barba e o bigode e fazendo-lhe um penteado que o tornava irreconhecivel. Depois, ajudado por Sergio Aliliev, em casa de quem a cena se passou, acompanhei Lenine, através de ruas pouco frequentadas, até à gare marítima. O nosso dirigente, dali a pouco estava na Finlândia, onde ficou até à Revolução de Outubro, donde nos enviava conselhos, instruções e textos teóricos que nos projectaram para a vitória.»
Depois, apesar da grande indignação da França e da Inglaterra, assina separadamente a paz com a Alemanha, sua protectora como já vimos e que lhe forneceu os meios financeiros para manter a agitação.
O tratado foi assinado em Brest-Litovsk, em cinco de Março de 1918 e as condções impostas pelos alemães ao governo dos sovietes, as mais humilhantes e draconianas da história russa: instalação de forças de polícia alemã nos Países Bálticos, submissão da Polónia russa aos alemães, cessão de territórios à Turquia então aliada da Alemanha, um enorme tributo de guerra, evacuação da Ucrânia e da Finlândia.
Enfim, mais uma vez a Finlândia era usada ao sabor dos interesses das potências vizinhas.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Quando a Pátria Portuguesa tinha uma dimensão pluricontinental coexistiam nela várias moedas.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaEfectivamente,ao lado do escudo, moeda e símbolo imperial, e, por isso, em curso do Continente a Timor, havia o angolar, a rupia, a pataca… específicas, uma a uma às diferentes parcelas do então consignado espaço nacional.
A União Europeia, goste-se ou não do adjectivo, tem uma dimensão católica, porque tendente a refazer os ciclos de Roma, do Carolíngico, do Otânico, e sobretudo da Orbe Cristã, quando o Papa, mesmo no plano temporal, se situava acima dos reis e dos povos.
Compreende-se, assim, a existência simultânea de um euro, autenticamente supranacional, com curso em todas a nações da União e por todas utilizado no pagamento a terceiros, com uma moeda específica de cada uma das parcelas e por isso de curso a essa mesma parcela restringido.
O facto não seria, pois, sequer uma inovação e só ainda não foi ensaiado, por não interessar ao capital anónimo e vagabundo, gerido nas alfurjas por indivíduos sem coração e sem inteligência, capazes de deixar morrer à fome largos extractos populacionais se disso resultar para eles qualquer amealhamento.
Se houvesse um euro português, válido unicamente no plano interno, o argumento de que não haveria dinheiro para pagar salários ou pensões, adquirir bens ou pagar serviços, soaria a falácia.
Precludir-se-ia, assim, a intervenção estrangeira e a vagabundagem da banca não encontraria motivo para nos forçar a empréstimos de juro incomportável.
Dentro da sua esfera de acção, cada governo emitiria os euros nacionais que entendesse.
Quanto aos supranaciomais, que agora são todos, haveria rateio.
O Banco Central, regendo-o e controlando-o, evitaria excessos de endividamento e de saídas para os demais mercados monetários.
Todos ganhariam,excepto o capital vagabundo e anónimo. Mas esse não merece protecção, pois visa apenas o seu próprio lucro.
Suga até á ultima gota e cata até ao último pêlo.
Senhor dos grandes meios de comunicaçao, sustenta caríssimas campanhas de intoxicação da opinião pública.
Explora-nos. Mas afirma proteger-nos.
A nossa salvação reside – apregoam permanentemente – no respeito pelas instruções que das alfurjas pinhoratícias são postas a correr mundo.
Ontem,faziam-nos acreditar que o futuro de Portugal estava nos estádios de futebol – estádios de luxo – com que se inundou o País.
Hoje, é outra a intoxicação.
A salvação vem da Troika. Cumprindo as suas ordens, cegamente aceites, mudar-se-á a face da economia.
A falácia é evidente.
Não é a pagar juros altos de capital apenas afecto a solvência de dívidas que virá a melhoria.
Pagar dívidas é uma obrigação, que, todavia tem de ser concatenada com outras regras.
A pagar dívidas, oneradas com juros autenticamente de onzena, nenhum País enriquece.
Só uma parte do que se vai juntando pode ser afectado a pagar dívidas.
Uma outra parte – e necessariamente a maior – tem de servir para revitalizar a economia, aumentando a produção e o consumo – factores que tem de correlativizar-se.
A Igreja Católica – Mater et Magistra – sempre ensinou que a usura é pecado social e a sua prática devia causar peso de consciência.
Mas os agiotas não têm consciência.
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana«Poetando» é a coluna de Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, na qual a cada domingo vai publicando poemas inéditos, cada um dedicado a uma aldeia do concelho do Sabugal. Este Município raiano, um dos maiores do País em termos de extensão territorial, tem 40 freguesias, algumas delas com anexas, sendo no total exactamente 100 (cem) o número das localidades do concelho do Sabugal. Nesta edição o escritor e poeta bismulense dedica um soneto às Alagoas, pequena aldeia anexa da freguesia de Aldeia de Santo António. No próximo domingo será editado o poema relativo a outra anexa: Amiais.

ALAGOAS

Do tempo em que a vara de Abraão
Fendendo a dura rocha a volveu fonte
A luta pela água é redenção
Que tem de se exaltar para que conste

Aquilo que já foi um calvo monte
Estéril que lembrava maldição
Não tem em sua linha de horizonte
Quem lhe não preste as honras de rincão

Milagres faz a água da barragem
Disposta a quando chega a estiagem
Horas de laudes de sextas ou noas

A esparzir-se aonde a sede aperta
Aos regos chegará à hora certa
Benditas sejam, pois, as Alagoas

«Poetando», Manuel Leal Freire

Periodicamente surge ali uma esperança de independência quase sempre afogada em tragédia. Recordemos uma das mais tristes.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNaquele ano de 1830, a Polónia parece forte: exércitos bem treinados, finanças robustas, agricultura próspera.
A opinião pública europeia aprova as ambições de independencia e a coragem dos polacos roçava já pela lenda.
Infelizmente, falta-lhes um lider. O general Klopicki e o seu colaborador Krukowiecsi, que mais tarde o substitui, são antigos oficiais de Napoleão, esgotados pelas arrasantes campanhas do grande corso.
E, em 1831, enquanto que a Bélgica, definitivamente libertada passa, com o apoio da Inglaterra e da França, a reino independente, a Polónia é esmagada pela Rússia, após uma resistencia épica.
Em sete de Setembro, os exércitos do Czar apoderam-se de Varsóvia.
C’est la curée, la nouvelle (et non derniére) curée sur l’infortuné pays qui ne sait ni trembler ni ceder.
Mantemos no original a narrativa dum especialista.
E mais uma vez, a Polónia será submetida a uma repressão terrivelmente bárbara e os soldados russos vont déchirer à belles dents le pays vaincu, comme un quartier de chevreuil, sous les yeus indiferents de l’Europe. Et tandis qu’ils brulent des maisons, qu’ils fusillent des otages, le maréchel francais Sebastiani, a ce mot tristement célebre que resume la cruauté des temps: L’ordre regne à Varsovie (Mais urna vez utilizámos em directo a linguagem de Michel de Saint Pierre).
Depois em 1867, Alexandre II, ao tempo Czar de todas as Rússias, visitava a corte francesa, convidado por Napoleão III.
A visita suscitaria reparos nas bancadas do parlamento gaulês, indignado (e diga-se que com razão) já pela quarta partiIha da Polónia, decretada pelo Congresso de Viena, já pela opressão que se lhe seguiu.
Em consequência, o deputado Mr. Charles Fauquet, futuro presidente da Câmara e, mais tarde, do Conselho de Ministros, saudou, com estas palavras de reprimento, o visitante:
– Majestade, viva a Polónia!
Periodicamente, esquartejada pelo vizinho, de Leste, Sul e Oeste, aquele país é, por certo, o que, não só na Europa, mas por todo o Mundo, tem suscitado maior número de frases históricas. Quem se não lembra, por exemplo, da frase dirigida por Frederico II, da Prussia, à grande Catarina, da Russia:
– Quando Augusto bebe (referia-se a Frederico Augusto), toda a Polónia se embebeda.
Ou do finis Poloniae, dedicado ao herói nacional, Thadée Kosciusko, dado como morto em batalha, em 10 de Outubro de 1704; de «a ordem reina em Varsóia», pronunciada no Palais-Bourbon, a 16 de Setembro de 1913, pelo Marechal Sebastiani, ministro dos Negócios Estrangeiros; ou o Polónia Restituta, nome dado pelo Marechal Pilsudski, na véspera da ressurreição do estado mártir, em 1919, segundo as cláusulas do tratado de Versalhes.
Já neste século a Polónia de Casimiro, de Segismtndo, de Sobieski, de Estarislau Leszczynski, de Pilsudski, de Paderewski, sofreu o jugo dos soviéticos, mais duro do que o de todos os czáres e antigos dominadores, russos, alemães, austríacos ou suecos.
Mas não é menos verdade que a histórica resistência dos polacos a todos os tiranos se mantém indefectível.
Nos últimas décadas, apesar de a Igreja não ser deste Mundo, a eleição de Joao PauIo II e a sua peregrinação à terra patrum fortificaram ainda mais aquela fé que derruba montanhas. Tal como a nomeação, para Cardeal-Arcebispo de Paris, de um polaco de ascendencia judaica, Monsenhor Lustiger, filho de um mártir de Auschwitz.
Nao foi a Igreja que suscitou o aparecimento do Solidariedade e de Lech Walesa. Mas sem a sua benção silenciosa e longínqua, Varsóvia teria então sofrido golpes tão rudes como os de Praga e Budapeste.
A prudência russa teve as suas razões. A heresia polaca, relativamente à filosofia económica e social do bloco comunista, só foi tolerada porque os senhores do Kremlin temeram uma reacção espiritual que podia alastrar de Berlim às fronteiras do Cambodja.
Não é necessário recordar o massacre de Katin, a exterminação do ghetto de Varsóvia, ou a inssurreição popular de 1944, para se saber que o povo polaco é indomável: que prefere a miséria ou a morte à escravidão e que nada inveja da ocidental sociedade de consumo.
Os polacos sabiam que o Ocidente de então se assemelhava aos persas vencidos pelos gregos, aos gregos vencidos por Roma, ao desaparecimento do Império Romano do Ocidente, e, mil anos depois, ao de Bizâncio; ao da França em 1789, ou da Rússia, em 1917.
Aqui como na Roma de Juvenal, a única preocupação de governantes e governados eram panem et circenses.
Na Po1ónia havia outro espírito.
Em consequência dele e só por ele, foi o primeiro dos países de leste a libertar-se da tutela russa e das imposições do marxismo.
A fé católica e a influência do maior papa dos últimos séculos assumiram-se como elemcntos determinados, cadinhando a coragem de um povo ciclicamente submetido às mais duras provas.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Dissemos já, em anterior croniqueta, que, por recente, os leitores ainda recordarão, que nos dezasseis anos da nossa Primeira República houve quarenta e tantos governos, o que dá uma média de três governos por ano – quatro meses, pois, por gabinete.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaMas a verdade é que alguns nem tanto duraram. Houve, efectivamente, um que durou apenas três dias e, por isso, ficou até conhecido por Ministério do Entrudo.
Mesmo assim, teve mais sorte que outros que não chegaram sequer a funcionar.
Estava tudo pronto para a cerimónia, quando o Pintor, o Pencudo,o Ai-ó-Menina e mais dois ou tres influentes da Formiga Branca, entraram de chapéu na cabeça palácio em fora e, à chapada ou à chapelada obstaram ao acto, auto e acta…
Com tantos gabinetes não admira que houvesse lugar para muitos nomes de primeiro-ministro.
Um deles chamou-se Vítor Hugo, Vítor Hugo de Azevedo Coutinho.
E, pelo nome, não perderia. Mas a crítica, ante a pobreza do elenco, apostou-lhe o termo Miseráveis, recordando o nome do mais famoso dos romances do mais famoso vulto mundial do romantismo.
Brincou-se também com o Uga, termo da linguagem burrical.
E enquanto uns diziam «Ó Vítor, uga», isto é põe-te a jeito para nós te cavalgarmos, outros corriam já com ele, gritando «Ó Vítor arra», arre que é bruto!.
Era assim a comédia política.
Os ministros não tinham um mínimo de qualidade.
Um aprendiz de guitarrista estava desocupado. O tio, político afonsista recomendou-o ao Mayer, o do Parque de Diversões. Mas quando este o mandou chamar para tocar duas rábulas o tio disse: «Já não é preciso, o rapaz é já ministro».
Choveram as chufas:
Ouvi o que já se diz
Deste país desgraçado
Um guitarrista aprendiz
Chega a Ministro de Estado.

Assim foi agonizando o regime, de nada valendo o grito e o sacrifício de Sidónio Pais.
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

Antes da difusão generalizada dos chamados lares académicos, um dos problemas mais complicados que se punham às famílias que pretendiam matricular filhos no ensino secundário e residiam fora dos centros populacionais onde não existiam liceus ou colégios, era o do alojamento.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaOs hotéis e até as pensões, mesmo humildes, eram manifestamente inacessíveis para a quase totalidade das bolsas, além de não condizentes com o ambiente pretendido.
A solução foi propiciada por muitos particulares que, recebendo estudantes, obtinham reforço para os seus orçamentos, por via de regra magros.
E havia até pessoas, muitas vezes viúvas ou filhas-família, que, por qualquer razão, não haviam casado, para as quais esta actividade era a única fonte de rendimentos.
Os candidatos a hóspedes eram na generalidade descendentes de lavradores meãos que, tendo embora abundância do que a terra lato sensu ia dando, padeciam já de uma endémica falta de dinheiro. Daí que o alojamento fosse em parte sustentado pelo fornecimento de determinados víveres. Aliás, em casos extremos, o pagamento poderia ser feito unicamente com géneros.
Era o regime do farnel, que habitualmente se compunha de batatas, feijões, chicharos, gravanços, toucinho, enchidos, queijos, ovos, aves de capoeira e até caça.
As hospedeiras controlavam os regimes de modo a equilibrar os gastos.
Genericamente, vigorava uma divisão equitativa entre as duas formas de pagamento. Mas eram raros, raríssimos mesmo, os casos em que o dinheiro era o único meio.
Nisto se distinguiam os filhos dos contrabandistas, ou mais precisamente dos empresários de contrabando, que mesmo de pequenos negócios – e os grandes eram raridade – dispunham de dinheiro fresco e vivo. E que, para além de pagarem ao contado, por vezes até adiantadamente, deixavam nos bolsos dos estudantes mesadas que os distinguiam do comum.
Sob este duplo aspecto, os filhos dos contrabandistas eram um escol.
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana«Poetando» é a coluna de Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, na qual a cada domingo vai publicando poemas inéditos, cada um dedicado a uma aldeia do concelho do Sabugal. Este Município raiano, um dos maiores do País em termos de extensão territorial, tem 40 freguesias, algumas delas com anexas, sendo no total exactamente 100 (cem) o número das localidades do concelho do Sabugal. Nesta edição o escritor e poeta bismulense dedica um soneto a Aldeia de Santo António, freguesia vizinha à ciadade do SabugaL. No próximo domingo será editado o poema relativo à anexa Alagoas, outra terra sita do lado sul do concelho e na banda esquerda do rio Côa.

ALDEIA DE SANTO ANTÓNIO

A Flos Sanctorum não regista nome
Com tais ressaibos á linguagem lusa
E que embora mero cognome
Corresse mundo em forma tão profusa

Fernando de Bulhões ganhou renome
Que aos séculos se impôs de sem recusa
O tempo o enriquece, e não consome
Por mais destroços que o mal produza

De Pádua, de Pavia ou de Lisboa
A fama tanto ecoa que ressoa
E é do orbe todo património

Em sés de oiro e mármore aeropago
Ou de rurais igrejas mero orago
É sempre o mesmo o nosso Santo António

«Poetando», Manuel Leal Freire

Região onde o embate Oriente/Ocidente mais cedo e duradouramente se revelou, por ali, embora com frequentes oscilações se estabeleceu a fronteira entre impérios: primeiro os dois romanos; depois o bizantino e o sacro; finalmente, o austro-hungaro e o otomano.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNa sua função de Kraina (que significa exactamente limes ou raia) se manteve até ao fim da primeira grande guerra, terminada, como se sabe, em 1918, pela derrota dos impérios centrais (Alemanha, Austria-Hungria e Turquia) e perda de territórios, ou mesmo desmembramento, como sucedeu aos dois últimos.
O fluxo e refluxo das armas provocou a convergência dum autêntico mosaico étnico que, desde logo, torna o vocábulo (Jugoslavia, ou à letra, terra dos eslavos do sul) bastante falacioso.
Com efeito, ao lado dos sérvios, que efectivamente se podem reclamar de eslavos (título que também servirá aos montenegrinos e eslovenos), há que ter em linha de conta os croatas (de raiz germânica), os bósnios (de ascendência turca), os macedónios (naturalrnente bizantinos de filiação grega).
Como se vê, não havia correspondência entre as realidades estado e nação, já que a um estado se contrapunham, no mínimo, seis nacionalidades, sem falar noutros grupos de menor expressão.
A manta de retalhos étnica complicava-se ainda pela diferença de línguas, a oposição de credos religiosos, até a diferenciação de alfabetos.
Nascido como monarquia, ainda forma de governo mais capaz de aglutinar diferentes ou mesmo contrários, passou, após a segunda grande guerra e pela traição dos britânicos que abandonaram o general Mialovitch, para o regime da democracia popular.
Tito que fora sargento nos exércitos imperiais, caíra prisioneiro e fora catequizado pelos russos, que o protegeram na guerrilha antigermânica e antes se celebrizara como recrutador das brigadas intenacionais para a guerra civil de Espanha, tendo abatido os monárquicos daquele general passou a governar como satrapa o reino, como vimos já de efémera duração.
Mas era um pragmático. Embora comunista, cedo rompeu com Moscovo, havendo assinado, sob as benções de Washington, um tratado anti-soviético que conglobava também a Turquia e a Grécia.
Permitiu e estimulou até um tipo de economia mista, que, aliada aos proventos vindos do turismo e as remessas dos emigrantes que fomentou, e aproveitando ainda os meios financeiros propiciados pela América, conseguiu naquela Babel para além de um aceitavel nível de vida, uma convivência que, por ferreamente vigiada e disciplinada, obstou a qualquer conflito.
Mas, apesar de tudo, não havia homogeneidade em termos humanos ou de riqueza, já que o norte, por mais germânico e estar mais em contacto com o mundo não comunista, sempre se revelou mais desenvolvido.
A heterogeneidade vinca-se tambem ao nivel demográfico, já que não é raro encontrar-se uma bolsa rácica em zona tradicionalmente de outra etnia.
Mas ia-se vivendo em paz. Com a morte de Tito, as sementes de violência que se encontravam espalhadas por toda a àrea (apesar do ditado, não foi Deus quem separou as raças e as religiões mas os homens) irromperam abrupta e fortemente.
Ern 1990, a unidade jugoslava termina e começam os processos de independência.
No ano seguinte é a guerra.
O exército regular compunha-se praticamente só de sérvios que assim poderiam, à primeira vista, dominar os outros povos.
Mas não pode esquecer-se que Tito, em obediência ao seu passado de guerrilheiro na própria terra e de organizador do caminho secreto para a Espanha vermelha defendia o princípio do povo em armas, pela qual em todas as regiões existiam milícias, relativamente bem treinadas e até municiadas.
Em corolario, as condições de êxito relativizavam-se.
Mas, acima de tudo foram as simpatias de base rácica que determinaram os apoios internacionais e o desfecho (se é que o houve ou haverá alguma vez) do conflito.
Os croatas colheram as benções dos alemães, enquanto que a Rússia nao esqueceu o seu papel de protectora oficial dos servios.
Só que os gravíssimos problemas internos com que Ieltsin se debateu e a perda de protagonismo de Moscovo, a nivel mundial e particularmente europeu, tornaram a atitude deste pouco mais do que platónica, transparecendo apenas na solenidade de algumas declarações, logo esquecidas.
O nome de Serajevo assume-se, de resto, como fatídico, e gerador de conflitos de grande dimensão.
Talvez por isso no livro Vite et mort de la Yougoslavie, de Paul Garde, professor de linguística eslava em Aix-Ia-Provence, se escreva: «Este conflito faz-nos possivelmente entrar para sempre na nova desordem mundial». Para sempre…
A atribuição de carácter eterno num mundo, onde tudo, até o nosso planeta desaparecerá como tenda de uma só noite, mostrar-se-á certamente excessiva.
E pelo muito que, pelos séculos, têm sofrido os povos na Kraina aglomerados e pela tragédia que no nosso tempo sobre eles desabou, bem mereceriam que a paz se instalasse perenemente, ou ao menos até uma virgem voltar a ser mãe, para nos servirmos da revelação do oráculo de Capri.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

«Fui o que fui, sou o que sou e serei o que Deus quiser. Eu não mudo, o que muda são os governos e as modas.»

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaTornou-se famosa como símbolo de incoerência política a afirmação em epígrafe, proferida por velho cacique local das Terras de Riba-Coa, que havia saltitado das hostes dos regeneradores para as dos progressistas, e com incursões também pelo Centro Liberal ou inversamente pelos seguidores de João Franco e que ainda no mercado do terceiro sábado de mil novecentos e dez assim justificava a sua adesão ao republicanismo triunfante.

O exemplo frutificou.
Com a mácula de, onde antes só havia um pouco de vaidade e de apego a influências que monetariamente nada rendiam – bem pelo contrário, pois o caciquismo implicava despesas de vulto e sempre proporcionais, no mínimo, ao grau de influência, hoje as deserções costumam ser motivadas por razões menos nobres e, por via de regra, nada altruístas.
Mas que o exemplo frutificou pelo lado negativo, qualquer observador, ainda que pouco ou nada atento, poderá testificar.
Basta atentar nas tergiversações e tenteios, quando não mesmo no cambalhotismo político dos nossos deputados, que, para honra e lustre do partidarismo político que nos rege, deveriam ser um alto exemplo de coerência.
Mas que o não são, tendo alguns deles percorrido, pelo menos, metade do quadrante ideologicamente reconhecido.
Caso tipico é o de Basílio Horta, actualmente quase porta-voz do Partido Socialista, que logo no imediato post-Revolução de Abril foi destacado militante centrista e que, a meio do percurso, foi mesmo o candidato das Direitas à suprema chefia do Estado.
E o que muitos não saberão é que Sua Excelência foi figura de topo no aparelho do Corporativismo Marceliano.
Homem de mão de Silva Pinto foi secretário, exactamente na era Marcelo Caetano, da Corporação da Indústria, autenticamente o baluarte do Regime.
E ali tinha por função essencial representar o lado patronal na negociação das convenções colectivas de trabalho.
Cargo que exereceu despoticamente, desagradando a sindicatos e grémios.
Áqueles pela pobreza das suas propostas.
A estes pela rigidez e acrimonia das imposições de que era corrente de transmissão.
Silva Pinto foi o mais odiado por todo o sistema – associações patronais e sindicais e sobretudo pelos quadros superiores do Ministerio.
Pela sua grosseira sobranceria. Por uma execranda falta de civilidade contrastava com a personalidade dos anteriores titulares da Pasta – a firmeza de Soares da Fonseca, a lhaneza de Veiga de Macedo, a elegância de Gonçalves de Proença, a superior fidalguia de Baltazar de Sousa.
Discípulo de Silva Pinto, Basilio Horta mimetizou-se com ele e de corporativista à outrance, de degrau em degrau chegou a assanhado socialista.
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana«Poetando» é a coluna de Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, na qual a cada domingo vai publicando poemas inéditos, cada um dedicado a uma aldeia do concelho do Sabugal. Este Município raiano, um dos maiores do País em termos de extensão territorial, tem 40 freguesias, algumas delas com anexas, sendo no total exactamente 100 (cem) o número das localidades do concelho do Sabugal. Nesta edição o escritor e poeta bismulense dedica um soneto à Quinta das Batoquinhas, anexa da freguesia raiana de Aldeia da Ribeira. No próximo domingo será editado o poema relativo à freguesia de Aldeia de Santo António.

QUINTA DAS BATOQUINHAS

Na minha saudade as Batoquinhas
Não são uma quinta, mas a Quinta
Memórias soberanas quais rainhas
Que o mugre temporal a ouro pinta

Espadas postas fora das bainhas
Quixotes que o Cid em mim requinta
Carrascos entoando ladainhas
A noite dos cargueiros as pressinta

Quando os verdes anos dão o mote
Qualquer um verseja sem que note
Que o estro fica aquém da ambição

Rodeira não das cinzas lume vivo
Os verdes anos no carril revivo
Qual César indo além do rubicão

«Poetando», Manuel Leal Freire

A Europa nasceu sob o signo imperial.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaCom pés de barro, como na visão do chamado festim de Baltasar, foram-se, mesmo assim, os impérios que neste velho Continente se começaram a erigir no tempo de César, mantendo, na generalidede até fim da Primeira Grande Guerra, tendo-lhe alguns até sobrevivido.
A queda de Roma, no último quartel do século V deixou logo o fermento para três novas sedes imperiais: o bizantino (que, de resto, desde a tetrarquia já rivalizava com aquela), o franco (que terá atingido o seu zénite europeu com Carlos Magno, o Imperador da Barba Florida, de resto também precursor do terceiro) e o germânico que remontará no mínimo a Otão, o Grande, pai de um amplexo que tentou a fusão de dois mundos culturais através da instituição do Sacro Imério Romano-Germânico.
Mais tarde, viriam ainda a afirmar-se com apetência imperial a Prússia e a Suécia, com pretensões apenas em relação ao Continente; a Rússia, mais voltada para a Ásia; e as potências marítimas – Portugal, a Holanda, a Espanha, a Inglaterra, a França, a Bélgica e até a Dinamarca.
Outros impérios, não de raiz europeia, mas asiática, exerceram grande influênda no nosso continente.
Para além de hunos, mongóis, e tártaros, que passaram como relâmpagos, há a referir os califados Bagdad e Damasco, ou, acima de todos, o turco, a Sublime Porta do Grão-Turco.
Bizâncio, que depois se chamou Constantinopla, e, mais tarde ainda, Istambul, nasceu mesmo fadada para urn destino imperial, tendo sido por mil anos nó fulcral duma civilização, e, por mais quinhentos, da que lhe sucedeu.
Na Europa, a irrupção de nacionalidades operou a secessão, dando origem aos actuais estados da Grécia, da Bulgária, da Roménia, da Albânia e das repúblicas por que se cissiparizou a Jugoslávia…
Os czares russos e seus sucessores, sempre apostados na dilatação das fronteiras ocuparam-lhe extensos territórios na regiãoo caucásica, enquanto que os austríacos os haviam repelido de todo o cisdanúbio.
A Inglaterra e a França, empenhadas na expansão para além dos mares, apoderaram-se, a primeira da i1has mediterraânicas de Malta e Chipre (embriões de futuros estados), Palestina, Egipto e vastas parcelas das Arábias; enquanto que a segunda estabelecia zonas de influência ou impunha mesmo a sua soberania em zonas imperiais sobrantes do Norte de África e Próximo Oriente.
E até a Itália, país de recentíssima implantação (só em 1861, o Rei do Piemonte se faz aclamar monarca de todo o actual território, aliás depois de, no ano anterior, Garibaldi, com um exército de apenas mil homens, ter arrebatado Nápoles e Sicília aos Bourbons), ainda apareceu a tempo de ficar com uma parte dos despojos; os arquipélagos de Rodes e Dodecaneso nos extremos do mare nostrum; a Tripolitânia e a Cirenaica, que, fundindo-se, geraram a actual Líbia.
Aliado da Áustria e da Alemanha na Primeira Grande Guerra, havia de pagar, quando sobreveio a derrota, a factura sempre exigida aos vencidos, que, na circuntância se cifrou essencialmente na perda de terras.
Dos impérios continentais, só a Rússia, tendo embora sofrido pequenas desanexações, se não viu excluída dos grandes dominios territoriais na Europa e seus limes.
No intervalo entre dois grandes conflitos de dimensao mundial, as potências europeias consolidaram as suas posições para além dos mares.
Mas também esta dominação se revelou éfemera…
Em Ialta e Potdsam.,Estaline e Roosevelt tratavam de revoltar contra a Europa os territórios dos demais continentes onde a colonização estava em marcha, impondo aos povos que as não desejavam, nem para elas estavam preparados, ilusórias e precoces independências, que haviam de levar todos os flagelos aos povos supostamente emancipados.
O homem europeu que, genericamente, acreditava em vantagens recíprocas da sua acção junto dos pretos, amarelos e índios, viu-se contra vontade, liberto de ónus de civilizador.
Esquecia-se, assim, um dos mandatos do Evangelho: Ite et docent omnes gentes.
Esquecia-se também que a génese imperial da Europa nascera com a autoridade papal que se situava acima dos reis e dos povos e esteve na base do nascimento e consolidação de muitos reinos.
O papa encontrava-se efectivamente chefiando uma federação de estados, uma sociedade das nações, a que ele imporia a obrigação de estabelecerem por toda a parte o reino de Cristo, combatendo também pelo aumento da Cristandade.
Monarcas, principes, grãosduques, bem como outros poderosos senhores, embora de menor grau em soberania, buscaram a protecção da Santa Sé.
Uns procuravam protecção contra aspirarações hegemónicas de estados vizinhos (casos de Aragão e da Hungria), dos monarcas normandos das Duas Sicílias ou de Quieve. Outros pretendiam ver-se reconhecidos eomo reis por um poder superior, como Portugal ou a Boémia, as realezas da Sérvia e da Dinarmarca, os reinos cristãos que as cruzadas fizeram nascer no Próximo Oriente.
Outros ainda, como João-Sem-Terra pretendiam também controlar os desmandos dos seus barões. Aquele pobre rei da Inglaterra, em luta contra a França declarou-se vassalo da Santa Sé a quem pagaria anualmente mil libras esterlinas de censo, possivelmente por ver ali uma última esperança de sobrevivência.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

O fracasso do partidarismo – ou o corvo branco e o cisne preto.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNão analisaremos, ao menos por agora, se no conflito Relvas-jornais a razão era de um ou de outro dos contendores, se repartida mais ou menos equitativamente por qualquer deles, ou se, por respeito de quem não gosta destas tricas e tem o direito de viver fora delas, todos devessem estar calados.
O que pretendemos realçar, até porque a ninguém pode ter passado desapercebido, foi o tristíssimo espectáculo protagonizado pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (a ERC) a propósito do conflito.
Três dos ilustríssimos conselheiros ilibaram Sua Excelência o Ministro.
Os outros dois, se não disseram daquele conspícuo estadista o que Mafoma disse do toucinho andaram perto.
Poderão objectar-me que a discrepância de opiniões é própria do limitado do nosso campo de observação.
A prevenção vem de há muito e tem-se perenizado. De Platão a Gassett,
Se neste mundo não há
Nem verdade nem mentira
Tudo depende da cor
Do vidro com que se mira

Pois,
Intervém logo um cristal
Chamado caleidoscópio
Que á visão que é a real
Dá logo a versão do próprio

Ora,
O mais preclaro varão
E o Santo a Deus mais temente
Sofrem a limitação
De o homem ser contingente

E daí a conclusão,
É louco aquele que intenta
Deter certezas a rodo

Já que,
Do lugar onde um se senta
Não se vê o mundo todo

Assim, parece ficar coonestado o comportamento de todos e cada um dos cinco membros daquele ilustrissimo conciliábulo…
E assim seria se cada um tivesse decidido pela sua cabeça e não cumprindo como foi o caso ordens de mandantes.
Os membros progovernamentais teriam de decidir a favor do ministro, fosse qual fosse a gravidade ou a inocência dos actos em exame.
Os outros teriam de ajuizar contra.
São assim na nossa democracia parlamento-partidária as regras.
Foi assim desde mil oitocentos e vinte a mil novecentos e dez.
Foi assim na Primeira República.
Está sendo assim na Terceira.
Daí o que foi e continuará a ser a nossa instabilidade.
Jorge Campinos, que ninguém pode acusar de antidemocrata deixou exarado numa nota do seu monumental trabalho O Presidencialismo do Estado Novo que «a nossa Primeira República perpetuou a instabilidade herdada da Monarquia Parlamentar, multiplicando-a até ao absurdo».
E continua:
«A Quarta República Francesa oferece em comparação uma bem pálida imagem.
Na França em desordem houve dezoito ministérios.
Em Portugal, entre mil novecentos e dez e mil novecentos e vinte e seis, houve quarenta e quatro.»
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

Necessidades de povoamento ou políticas de fomento fizeram que frente a cada uma das aldeias portuguesas da orla raiana se erguesse uma outra de bandeira espanhola.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaRestringiremos, obviamente a nossa indagação, ao limes sabugalense na sua actual formulação ou seja à língua de terra que do nosso lado vai de Batocas, pequeníssimo burgo anexo da também pequena freguesia de Aldeia da Ribeira, até Malcata.
E por Espanha, da salamantina Alamedilha à já carcerenha Vilamiel, a primeira encontra-se praticamente colada à Raia e das Batocas não distará mais do que meia légua.
Os casamentos mistos eram frequentíssimos e apoiados pela Igreja Católica que, gozando de grande autoridade moral e de não menor influência política, removia os possíveis óbices de ordem legal que se viessem a suscitar.
Aliás era na igreja paroquial de Alamedilha que os batoqueiros cumpriam os preceitos da Madre, que, segundo a doutrina, nos Céus está em essência, nomeadamente ouvindo missa inteira aos domingos e festas de guarda, confessando-se pela Quaresma, comungando pela Páscoa da Ressureição, mandando celebrar exéquias e ritos pelos defuntos e ausentes.
Era no seu manúblio que os mais senhoritos passavam as horas de sesta e os tempos de lazer. Era junto das modistas e bordadeiras locais que as batoqueiras se iniciavam nas práticas da costura. Como era aos peluqueros alamedilhos que sécias e peraltas recorriam para operações de alindamento que, em Portugal, só achariam lá para as bandas da Guarda. Era ainda ali que as donas de casa se dirigiam ou mandavam molinetes para artigos de primeira necessidade.
Comprar cerilhas se entretanto se haviam esgotado os fósforos, azeite, sal, umas mandrujas de escabeche, uma almotolia de azeite era o trivial e habitual.
Rumando para Sul, segue-se do lado português Aldeia da Ponte, e do espanhol Albergaria de Arganhã.
Uma e outra ficarão a cerca de meia légua da Raia. São duas povoações importantes. Ligava-as através do Vale de Todo o Lugar e da sua continuação um troço do Caminho de Santiago. Os espanhóis aproveitaram-no construindo, há mais de cem anos, uma magnífica estrada que do nosso lado não teve continuaçao. Também, a ferrovia da Beira Alta, início da Grande Linha que chega a Vladivostoque, devia passar por ali, muito melhor traçado do que o que deu Vilar Formoso-Fuentes de Oñoro – o que foi impedido pelo Padre Paulo Chorão, rico terratenente e poderoso político, que temendo pelo corte de suas propriedades e a perdição de suas paroquianas, fez desviar o traçado inicial.
Aqui, tanto num povoado como no outro já havia comerciantes de alguma robustez.
Trata-se de freguesias com forte marca de monumentalidade religiosa, expressa no caso de Aldeia da Ponte por dois antigos conventos e uma densa teia de oradas.
O emparelhamento que se segue é Forcalhos-Casilhas de Flores, distando entre si cerca de duas léguas. Mas porque Casilhas está muito para dentro de Espanha, oito quilómetros sensivelmente de caminhos enlameados ou encharcados, os forcalheiros ou chocalheiros, como tamnédm se lhes chama, sentem-se mais atraídos por Albergaria ou Fuenteguinaldo, quando não Navasfrias, embora este burgo ainda salamantino seja par da Lageosa da Raia, distando-se também à volta de duas léguas
Aldeia do Bispo dista dois quilómretros da Fronteira e faz vida mercantil tanto com Navasfrias, povoado de que dista uma légua, como com Valverde del Fresno, que ficando três vezes mais longe goza da vantagem de se encontrar muito melhor provisionada.
Este Valverde é, por igual, o entreposto de Fóios, distando-se os dois burgos sensivelmente duas léguas. A povoação espanhola que lhe fica mais próxima é, todavia, Eljas, já carcerenha.
Mas o entreposto de Valverde domina como sucede ainda com Malcata.
Em toda aquela corda de povos, as relações vão muitas vezes para além da primeira linha, até para entrar em áreas de muito menor vigilância ou até já presunção de legalidade.
É o que sucede com Espeja, Puebla, Carpio, Pena Parda e Payo ou até Trevejo, San Martin, Vilamiel, Santo Estevao de Bejar.
O contrabando fazia-se por veredas e a corta-mato, mas mesmo à vista de Deus e do Mundo persistiram los caminos de herradura. E, como refere Clarinda de Azevedo Maia, in Os Falares Fronteiriços do Concelho do Sabugal e da Vizinha Região de Alamedilha e Xalma, o isolamento, o caracter montanhoso da região, aliados à pobreza do solo e à rudeza do clima, de nítida influência continental de Castela-Velha – inverno muitíssimo rigoroso, verão excessivamente seco e quente e grandes desvios de temperatura – ajudam a explicar toda uma vasta gama de entretecidas contratações…
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana«Poetando» é a coluna de Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, na qual a cada domingo vai publicando poemas inéditos, cada um dedicado a uma aldeia do concelho do Sabugal. Este Município raiano, um dos maiores do País em termos de extensão territorial, tem 40 freguesias, algumas delas com anexas, sendo no total exactamente 100 (cem) o número das localidades do concelho do Sabugal. Nesta edição o escritor e poeta bismulense dedica um soneto ao Escabralhado, anexa da freguesia raiana de Aldeia da Ribeira. No próximo domingo será editado o poema relativo à anexa Quinta das Batoquinhas, outra terra do nordeste do concelho.

ESCABRALHADO

Caber em pouco chão tanta abundância
Não é milagre ou coisa que o valha
Divina bênção, prémio é da constância
Do povo que muito reza e mais trabalha

Labor continuado mas sem ânsia
Que a pressa não ajuda, mas encalha
De passo a passo se cobre a distância
Do tempo da decrua até á malha

O cem por um promessa do Evangelho
Do Novo Testamento já no Velho
Estavam no timão e no arado

Ser dextro no domínio do timão
Na foice e na gadanha eis o brasão
Do homem que nasceu no Escabralhado

«Poetando», Manuel Leal Freire

Em Fevereiro de 1948, o dirigente comunista Klement Gottwald subiu à varanda de um palácio barroco de Praga para falar às centenas de milhar de cidadãos aglomerados na praça principal da velha cidade. Foi uma grande viragem na história da Boémia. Um momento fatídico, como acontece uma ou duas vezes por milénio.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaGottwald fazia-se acompanhar pelos camaradas; e ao lado, muito perto, estava Clementis. Nevava, fazia muito frio, e Gottwald vinha de cabeça descoberta. Clementis, muito solícito, tirou o gorro em pele que usava na circunstância, e colocou-o na cabeça de Gottwald. A secção de propaganda fez centenas de milhares de fotografias da cena…
Nesta varanda, começou a história da Boémia comunista. Todas as crianças passaram a conhecer a fotografia, por ela passar a figurar nos cartazes, nos livros escolares, nos museus.
Quatro anos mais tarde, Clementis foi acusado de traição e enforcado. A secção de propaganda fez com que ele desaparecesse imediatamente da Hist6ria e, em corolário, de todas as fotografias…
Temos estado a transcrever as primeiras palavras de Le livre du rire et de l’oubli, do autor Milan Kundera, nascido em Brno, na Checolosvaquia, em 1929.
Livro escrito em 1979, quando o autor é tornado apátrida por decisão do governo do seu País que lhe retira a nacionalidade (a situação de Heimathossen não se revelaria duradoura, porque a França lhe concederá nova cidadania logo em 1981) circula em Portugal em edição, nomeadamente do CircuIo de Leitores.
Ali se retrata uma história sem tempo.
O drama da Checoslováquia sob o regime comunista, ou antes sob o império moscovita não diferia do então vivido pelos chamados países satélites.
Só que para os checos a situação repetia-se, não milénio a milénio, ou à razão de duas vezes por dez séculos, como na obra se refere, mas praticamente todos os dias.
Situada no centro da Europa, e em corolário, no limite dos impérios asiáticos que sempre sonharam com o domínio desta velha alma mater de civilizacões, ou daqueles que, para os enfrentar, se constituiram herdeiros de Roma, acabariam por sofrer o fluxo e refluxo das conquistas oscilando entre a barbaria eslava e o autoritarismo germânico.
O nome de Checoslováquia, usado até aos nossos dias, quando se opera a natural secessão entre duas comunidades que nada tinham a aproxima-las, senão a desgraça e a situação geográfica, revela bem a dicotornia, mais evidente ainda na antítese de culturas.
Desde a cristianização por São Cirilo e São Metodio, desde a accão de reis e rainhas, coma Santa Ludmila e São Venceslau, que se tentara a miscegenação.
Provavelmente, o eslavo e o germânico, por natural contraposição nunca permitiriam a sintese.
Prevaleceria, bem pelo contrário, a impossibilidade lógica que havia de levar a sucessivas intervenções dos poderes da Europa e Anti/Europa, muito mais interessados em manter dependente o território do que em outorgar-lhe, consentir-lhe ou assegurar-lhe uma verdadeira autonomia.
Mesmo quando, como Frederico Barba-Ruiva declaravam a Boémia um reino e lhe concediam um rei, a situação não mudava. O duque Ladislau, com a sua coroa, embora áurea, não passava, efectivamente, de súbito do grande inperador.
E, se o poder real não vinha de um senhor temporal, mas do papa, colocado por Deus acima dos imperadores e dos povas, nem assim o ceptro se considerava soberano e o reino se julgava estabilizado. Foi o caso de Otokar, apesar de ter recebido a coroa através do legado pontifício. Ou da acção da ordem dos Stelifer, humildes servos de Cristo e, todavia, imponentes, com a sua cruz vermelha e a estrela sexpoteada da mesma cor.
A cristianização deste povo de raiz celta, os boios, encurralados entre germanos, não lhes asseguraria um estatuto de independência e os boémios haviam de continuar a sofrer com a vulnerabilidade de fronteiras e o choque de civilizações.
O Sacro Império chegava ao curso inferior do Elba, ao curso médio do Oder, ao Reisengebirge e aos Sudetas.
Por isso, tradicionalmente a Boémia, apesar de povoada por checos, figurava com a sua parcela. E a seu monarca não passava normalrnente de um eleitor, embora grande, mas com o estatuto dos demais.
No plano cultural, já a região se eleva a grande plano. E é no seu coração, em Praga, aliás sua tradicianal cabeça, que nasce a primeira universidade do Império, já célebre quando surgem as de Viena (1366) e vinte anos após (l366) a de Heidelberg…
É este ascendente cultural que vai tornar a Boémia ponto fulcral na reforma protestante, com o cortejo de consequências, a maior parte nefastas para o povo checo.
A independência só lhes chegaria com os tratados que puseram fim à primeira grande guerra, criando-se, assirn, a Checoslováquia que, para além do núc1eo central, abrangeria rambém a Moldávia e a Eslováquia, sem tradições de autonomia, mesmo no plano cultural.
O pangermanismo de Hitler tornaria éfemera a vida da nova repíblica, que privada de parte do território em 1938, com a charnada anexação dos sudetas, viria a ser totalmente ocupada logo no ano seguinte.
A invasão russa apenas fez mudar o nome do opressor e só nos nossos dias houve retoma da independência, seguida aliás da divisão em dois estados: a República Checa e a Eslováquia…
Permita Deus que acabe assim o dilacerante drama que ali ciclicamente se vive.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

JOAQUIM SAPINHO

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