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Mestre na arte de versejar, senhor de virtualidades técnicas notáveis, Manuel Leal Freire é um dos maiores poetas da nossa terra.

Manuel Leal Freire

João Valente - Arroz com Todos - Capeia Arraiana5. Da Natureza à Alma
«O povo Inglês é um povo mudo; podem praticar grandes façanhas, mas não de escrevê-las», disse Carlyle, dos ingleses.
E acrescentava, com vaidade, no seu poema épico, que os feitos dos ingless está descrito na superfície da terra.
Contrapunha, humilde, Unamuno, que mais modestamente, e mais silencioso ainda, o povo Basco escreveu na superfície da terra e nos caminhos do mar seu poema; um poema de trabalho paciente, na América latina, mais que em qualquer outra. Mas durante séculos viveu no silêncio histórico, nas profundidades da vida, falando a sua língua milenária; viveu nas suas montanhas de carvalhos, faias, olmos, freixos e nogueiras, matizadas de ervas, bouças e prados, ouvindo chamar o oceano que contra elas rompe, e vendo sorrir o sol atrás da chuva suave e lenta, entre castelos de nuvens.
E concluía: «As montanhas verdes e o encrespado Cantábrico são o que nos fez.»
De facto, como tão bem observou Unamuno, é a Natureza e o meio que fazem os povos.
O homem encontra-se determinado pela natureza, a qual engloba tanto o seu próprio corpo, como o mundo exterior. E justamente a efectividade do próprio corpo, os poderosos impulsos animais que o governam, a fome, o impulso sexual, a velhice, a morte, determinam o seu sentimento vital e sua relação com o meio.
Esta constituição vital, que Platão já descrevia na vida presenteira dos terratenentes e sua doutrina hedonista, combatida por Heráclito, encontra expressão na filosofia epicurista, que S. Paulo desdenhou, está presente numa grande parte de literatura de todos os povos, e ressuou nas canções provençais, na poesia cortesã alemã, na epopeia francesa e alemã de Tristão, nas éclogas e pastorais do nosso Bernardim, depara-se-nos igualmente, na filosofia do século XVIII.
Nesta concepção do mundo, a vontade subordina-se à vida impulsiva que rege o corpo e às suas relações com o mundo externo: o pensar e a actividade finalista por ele dirigida encontram-se aqui ao serviço desta animalidade, reduzem-se a proporcionar-lhe satisfação.
Quando tal constituição vital se transforma em filosofia, surge o naturalismo, que, de forma uniforme, desde Demócrito, Protágoras, Epicuro e Lucrécio, a Hobbes, afirma ser o processo da natureza a única e integral realidade; fora dela, nada havendo; a vida espiritual distingue-se da natureza física só formalmente como consciência, de acordo com as propriedades nesta contidas, e a determinidade conteudalmente vazia da consciência brota da realidade física, segundo a causalidade natural.
As experiências do impulso vital, independentemente das construções filosóficas, ebabulações poéticas, levavaram sempre, e isso é que nos interessa, ao mesmo: ao sossego de ânimo, à paz de espírito, que surge em quem acolhe em si a conexão permanente e duradoira do universo.
No poema de Leal Freire, encontramos também a expressão desta constituição anímica. Ele vive em si a força libertadora da grande mundividência cósmica, astronómica e geográfica, que a paisagem particular e a Terra de Riba-Côa criaram.
O universo geográfico, as suas leis gerais, o nascimento de um sistema cósmico próprio, a história da Terra que sustenta animais e homens, por último, produz um homem particular, emergente de um universo cósmico:

«vem á ceia as courelas(10)/ cada uma traz seus mimos/ dá o quintal bagatelas
a veiga fartos arrimos// Das bouças vêm canhotos(11)/ Que um bento calor evolam
E até os manigotos/ Mandam cheiros que consolam// Vinhedos, chões e vergéis(12)/ Primasias se disputam/ Nem as rochas são revéis/ Em dura freima labutam.// As do monte mandam coelhos(13)/ As da ribeira bordalos/ Pirilampos são espelhos/ A cegarrega é dos ralos.»

E o homem que resulta, em Leal Freire, desta cosmogonia é piedoso; um bom pai, há semelhança de Lucrécio, que dizia «ser piedoso quem com ânimo sereno contempla o universo»:

«O lavrador, que é bom pai,/ A ver se a ceia é pra todos/ Não manda, que ele proprio vai.»

Um homem livre que, superando o fundamento mecaniscista do naturalismo, reconhece, como o ideal natrualista de Fuerbach, Deus, na imortalidade e na ordem invisível das coisas:

«Na mesa, que é um altarzinho(9)/ Que branca toalha cobre/
[…]
As Almas Santas dos Céus(14)/ Também descem para a mesa/ A noite, negra de breu,/ Resplandesce com a reza.»

Uma natureza provida de alma, impregnada da interioridade, que nela interpolaram a religião e a poesia.
Uma natureza que covida a uma atitude contemplativa, intuitiva, estética ou artística, quando o sujeito repousa, por assim dizer, nela do trabalho do conhecimento científico-natural e da acção que decorre no contexto das nossas necessidades, dos fins assim originados e da sua realização exterior.
Nesta atitude contemplativa alarga-se o seu sentimento vital, em que se experimentam pessoalmente a riqueza da vida, o valor e a felicidade da existência, numa espécie de simpatía universal.
Graças a tal estado anímico que a realidade suscita, voltamos nela a encontrá-los. E na medida em que alargamos o nosso próprio sentimento vital à simpatía com o todo cósmico e experimentamos este parentesco com todos os fenómenos do real, intensifica-se a alegria da vida e cresce a consciência da própria força vital, tal é a complexão anímica em que o indivíduo se sente um só com o nexo divino das coisas e aparentado assim a todos os outros membros deste vínculo.
Ninguém expressou com maior beleza do que Goethe esta constituição anímica:
Celebra a ventura de «sentir e saborear» a natureza». «Não só permites a fria visita de surpresa, mas deixas-me perscrutar o seu seio profundo, como no peito de um amigo». «Fazes passar diante de mim a série do vivente e ensinas-me a conhecer os meus irmãos no silencioso bosque, no ar e na água».
Esta constituição anímica encontra a resolução de todas as dissonâncias da vida numa harmonia universal de todas as coisas, que tão bem, como Goethe, soube resumir Leal Freire:

«A prece que ceia encerra/Manda pra longe a cizânia/A paz reina sobre a Terra.»

6. Alma enérgica e sensível
Conclui Leal Freire o seu poema com aquela magnífica saudação, que resume todo o carácter da minha raça:

«Dia um da criação (16)/A quantos na tasca estão.»

Uma saudação, curta em palavras, rude, como o que vem da força expontânea da natureza envolvente.
Não é por acaso, que o nosso folguêdo mais apreciado seja a capeia; um passatempo, em que se adestram colectivamente as forças dos homens, em confronto com a força bruta de um boi.
Um divertimento rude, para um carácter simples.
Como dizia Unamuno, a respeito povo Basco, a inteligência da minha raça também é activa, prática, enérgica. Sobreviver numa terra inóspita, de fronteira, exige mais um estética de acção, que de contemplação.
«E para quê poetas em tempos de penúria?», preguntava na 248 elegía, Pão e Vinho, o poeta alemão Hölderlin.
Por isso, em séculos, não produziu nenhum poeta, nenhum filósofo, nenhum santo; mas venceu muitos exércitos invasores, munido apenas de chuços e foices.
Não que o meu povo não seja capaz de pensar, sentir.
A aridez dos cabeços, a dureza da rocha granítica, o contínuo rebentar dos bracejos entre os barrocos, a florição das giestas em Maio, o verdejar dos prados, a sombra fresca dos freixos, o murmúrio dos ribeiros a galgar as fragas, a courela, os quintais, os chãos, os vergéis com os seus mimos, um lenhador carregando ao anoitecer o seu feixe de lenha, o carro de bois carregado balançando-se nos sulcos do caminho, a geada branca sobre o campo, tudo isto se apinha, se agrupa e vibra através da nossa existência diária.
Esta fica tão perto do passo no caminho do poeta e do filósofo que se recreia, como do pastôr, que pela orvalhada sai com o seu rebanho.
Um carvalho no caminho, um freixo num lameiro, induzem todos à lembrança dos primeiros jogos e e das primeiras escolhas da infância. Quando às vezes caía as golpes do machado uma árvore no meio de um bosque, o pai de família procurava na floresta, a madeira seleccionada para as tábuas do soalho, para a cumeeira da casa, o jugo das vacas, a rabiça do arado; o homem mais experiente escolhia a galha mais afeiçoada para o forcão, os moços colhem o madeiro do Natal.
A rudez, o perfume da madeira do carvalho, do castanheiro e do freixo, falam sempre da lentidão e da constância com que uma árvore cresce, floresce e frotifica, abrindo a sua copa ao céu, enquanto a sua raíz mergulha na terra sustentadora.
O caminho do campo recolhe tudo o que tem substância em seu redor, o enigma do perene e do grande, do céu e da terra, penetrando o homem e convidando-o a uma longa e serena reflexão sobre a criação.
Mas esse caminho do campo, como diz Heidegger, «fala sómente enquanto haja homens que, nascidos no seu âmbito, possam ouvi-lo.»
Enquanto o ritmo da vida, o trabalho, as pausas do trabalho, se façam ainda ao ritmo do relógio da torre e dos sinos, que, ainda segundo Heidegger, «sustentam a sua própria relação com o tempo e a temporalidade».
Enquanto «Derem os sinos trindades/ Por sobre as casas da aldeia/ Toques de suavidades/ Que prenunciem a ceia», nas palavras de Leal Freire.
Pena é que só agora, quando o sino das trindades já não marca o tempo dos trabalhos do campo, o meu povo tenha aprendido a falar num idioma de cultura, que revela ao mundo o seu ethos de um profundo sentido do transendente, um saber amável, uma serenidade espiritual, generosidade e fraternidade universais, sob uma aparente rusticidade.
Um ethos de boi valente a investir no forcão, dócil a puxar o arado; generoso sempre, ao pico do garrochão ou da aguilhada. Um povo ao mesmo tempo nervo e sentimento.
Leal Freire, Manuel Pina, Pinharanda Gomes, Eduardo Lourenço, interpretes deste ethos, são poetas e pensadores, que ainda ouvem o caminho do campo, numa Riba-Côa onde rareiam cada vez mais os homens que, nascidos no seu âmbito, ainda conseguem ouvi-lo.
A saudação do final do poema, é o murmúrio que Leal Freire escutou, do vento acariciando as copas dos carvalhos, dos castanheiros e freixos, por esses caminhos de Riba-Côa:

«Dia um da criação, para todos os que na tasca estão!»

Para todos os que ainda consigam ouvir os sinos das trindades e o vento, da terra dos nossos pais!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

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Mestre na arte de versejar, senhor de virtualidades técnicas notáveis, Manuel Leal Freire é um dos maiores poetas da nossa terra.

João Valente - Arroz com Todos - Capeia Arraiana3. Estrutura
Como é usual nos poemas de Leal Freire, a estrutura é simples e dominada por uma rede de correspondências externas: A – B -A- B. C-D-C-D E-F-E-F, etc.
A – Introdução (estrofe 1 e 2).
A estrofe 1 introduz o tema ( a ceia) e o tempo (à hora das trindades).
A estrofe 2 introduz a personagem (o lavrador, que é bom pai, homem bom) e justifica, ao mesmo tempo, a narração que decorre nas estrofes seguintes.
Dir-se-ia, assim, que o tempo real do poema é o que vai das trindades à oração final da ceia do lavrador, mas com um registo temporal diferente, anterior ao da sua própria cronologia, já que â manjedoura e à mesa, vem tudo o que anteriormente o campo generoso deu. Ceiam os animais e lavrador tudo o que da natureza veio.
B – Narração (da estrofe 3 à 13). Descrição do que a natureza fornece, através do alimento dos vários animais e do lavrador.
C – Conclusão (14 e 15). São duas estrofes que emergem do que se diz de 3 a 14, estabelecendo um paralelo entre a ceia dos animais e do lavrador. A sua unidade, de resto, é reforçada pela projecção, ou enjambement, da estrofe 9 (a mesa, que é um altarzinho) para a estrofe 14 (aonde descem as almas santas do céu), 15 (e acaba a ceia com uma prece) e o remeate do poema na 16 (com uma espécie de libação).

4. Tema
Este é mais um belo poema de Leal Freire, no qual, uma notável rede de correspondências entre a ceia dos animais e do lavrador confere unidade ao poema, faz da ligação entre o primeiro e ante-penúltimo versos, o resumo da ideia e do tema:
«Deram os sinos trindades […] A paz reina sobre a Terra.»
São estes os versos que resumem o poema: A vida simples e tranquila do campo, ao ritmo das trindades. Uma vida espiritual no seio da natureza que a vida moderna suprimiu com a necessidade do indivíduo em prover às sua cada vez mais exigente existência corpórea.
Uma «beatus ille», muito semelhante à áurea mediania (aurea mediocritas) já glosada na antiguidade clássica por Homero, Heráclito, Esopo na fábula do rato do Campo e do rato da cidade, e, na sequência dos estóicos, Virgílio, Horácio, também defensor de um ideal de vida calmo e sem grandes exigências, capaz de dar ao Homem a felicidade que não encontra no meio do ambiente perturbado da cidade, na glória das batalhas ou mesmo «no exercício decoroso das magistraturas» e lá fora, por Frei Luís de León, Carlyle, Tolstoy e outros, e entre nós, por Francisco Manuel de Melo, António Ferreira nalgumas das suas odes, Sá de Miranda na Carta a Mem de Sá, através do recurso também à fabula do rato do campo e do rato da cidade, e posteriormente pelos arcádicos.
Neste poema, em que Leal Freire trata o seu tema recorrente das virtudes da vida no campo, da sua «pátria chica», como costuma dizer, é o ritual da ceia, dos animais e dos homens, cuja hora é anunciada pelo toque das trindades, e culmina na prece final da ceia do lavrador, que traz a paz à terra.
E esta paz a que conduz esta bela vida, é magistralmente resumida na última estrofe, pela fraternidade e igualdade entre todos os homens reunidos na tasca, a qual dá à vida simples do campo um carácter espiritualidade e sagrado mais puros, mais próximos de Deus, porque mais próxima do criador e da sua criação:
«Dia um da criação (16)/A quantos na tasca estão.»
Sorrimos ao remate síngular do poema. Quem conhece o poeta, como nós,vê-o no seu geito bem Ribacudano, chapéu de abas, a entrar numa desas tascas das nossas aldeias e a oferecer uma rodada de bom graminês…
«A todos os que na tasca estão.»
Porque esta, é a natureza de Leal Freire, porque é um homem de Riba-Côa.
(Continua.)
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

O II Capítulo da Confraria do Bucho Raiano repartiu-se entre o Sabugal e o Soito no sábado, 5 de Março de 2011. Reportagem da jornalista Paula Pinto com imagens de Pedro Taborda da Redacção da LocalVisãoTv (Guarda).

Local Visão Tv - Guarda
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No Auditório Municipal do Sabugal decorreram as cerimónias com a presença das confrarias madrinhas (Queijo Serra da Estrela e Chanfana) e uma dúzia de outras confrarias. Foram entronizados 21 novos confrades e condecorados com a Ordem de Cavaleiro o Governador Civil da Guarda, Santinho Pacheco, o escritor Leal Freire e o empresário Manuel Joaquim Rito. Com o diploma de honra foram distinguidas a Casa do Concelho do Sabugal e a redacção da Guarda da LocalVisãoTv.
Após uma viagem em caravana pela nova estrada que faz a ligação entre os cruzamentos do Cardeal e do Ozendo as confrarias desfilaram em cortejo, no Soito, entre o Largo das Festas e o salão da igreja paroquial onde foram recebidas para um porto de honra pela Junta de Freguesia local.
O almoço com bucho raiano e vinho doispontocinco teve lugar no Restaurante «O Martins» com um serviço de excelente qualidade.
jcl

Mestre na arte de versejar, senhor de virtualidades técnicas notáveis, Manuel Leal Freire é um dos maiores poetas da nossa terra.

João Valente - Arroz com Todos - Capeia Arraiana1. Observação preliminar
A simplicidade dos temas, imagens, ideias, aliada, de facto, a uma perfeição formal ímpar, concorre na sua poesia para a construção de um universo lírico de rara beleza e que fez de Leal Freire um dos poetas que mais aprecio.
A sua poesia, é, do ponto de vista técnico, um exemplo de rigor métrico, de simetria, de perfeição. O lugar de cada palavra, obedece a um desígnio sabiamente amadurecido; o mesmo se diga da escolha da forma estrófica, em quadras tão ao gosto popular; a estrutura interna dos poemas, nem curtos nem longos, revela um elevado sentido de equilíbrio, numa construção arquitectónica cuidada e minuciosa que a sabedoria de uma longa vida de escrita trazem. Há uma subtil malha de correspondências no seu interior, a deixar perceber uma verdadeira teia, onde todos os pontos se interligam por um fio condutor habilmente desenhado que desenvolve uma ideia simples subjacente a cada um dos seus poemas.
Mas Leal Freire é mais do que tecnicismo. Quer busque no quotidiano as suas imagens (os campos, a lavoura, os animais, os rituais da aldeia), quer as recolha no tempo cósmico, quer, enfim, as molde no universo rural, os seus textos são fiéis retratos da vida simples, com palavras simples, como convém à boa poesia.
As quadras são, como se disse, um exemplo de organização, ao mesmo tempo que uma manifestação de um espírito lírico sem par.
Esta conjugação da beleza poética e da riqueza lírica com o preciosismo técnico e inegáveis virtualidades linguísticas fazem dos seus poemas excelentes instrumentos de trabalho, tanto para a aprendizagem da língua, como para o do estudo da etnografia, e dos costumes de Riba-Côa, mas que pelos valores de humanismo que confere à sua poesia, tem uma dimensão universal digna de estudo.
Aqui se faz, por isso, um exercício despretensioso que visa partilhar com os leitores algumas dessas reflexões sobre a poesia de Leal Freire.
Este post é uma primeira parte de uma reflexão sobre naturalismo e idealismo, que suscita a dimensão humana e universal da sua poesia, mas que, pela extensão e complexidade de raciocínio, não é publicável num blogue. Fica, aqui, no entanto, o desejo de, com o pequeno esforço de análise do poema «A Ceia Do Lavrador», servir e aumentar a já grande comunidade dos apreciadores da magnifica escrita de Leal Freire.

2. Texto
A CEIA DO LAVRADOR
Deram os sinos trindades (1)
Por sobre as casas da aldeia
Toques de suavidades
Que prenunciam a ceia

Mas mesmo que ande de zorros (2)
O lavrador, que é bom pai,
A ver se a ceia é pra todos
Não manda, que ele proprio vai.

Começa a sua inspecção (3)
Plas vacas, gado mais nobre
Também cabonde ração
Prás cabras, vacas dos pobres.

À égua, luxo da casa, (4)
Á burra, sua cestinha,
Mangedora a feno rasa
Mais até do que convinha.

Pois na pia do cevado, (5)
Que só pra comer nasceu,
É o farelo um pecado,
De fartura brada ao céu.

O gado de bico dorme (6)
Ao fusco se regalara
Os cães aguardam que enforme
O caldo que nutre e sara

Aos animais sem razão (7)
Aconchego já não falta
A seguir vem o pregão
Chamando pra mesa a malta.

Filhos, netos, jornaleiros (8)
O conhecem e de cor
Mendigos e passageiros
Também cabem em redor.

Na mesa, que é um altarzinho (9)
Que branca toalha cobre
Não falta caldo nem vinho
Nem pão. regalo do pobre.

vem à ceia as courelas (10)
cada uma traz seus mimos
dá o quintal bagatelas
a veiga fartos arrimos

Das bouças vêm canhotos (11)
Que um bento calor evolam
E até os manigotos
Mandam cheiros que consolam

Vinhedos, chões e vergéis (12)
Primasias se disputam…
Nem as rochas são revéis
Em dura freima labutam.

As do monte mandam coelhos (13)
As da ribeira bordalos
Pirilampos são espelhos
A cegarrega é dos ralos.

As Almas Santas dos Céus (14)
Também descem para a mesa
A noite, negra de breu,
Resplandesce com a reza.

E quando acaba a litânia (15)
A prece que ceia encerra
Manda pra longe a cizânia
A paz reina sobre a Terra,

Dia um da criação (16)
A quantos na tasca estão.
(Leal Freire)

(Continua na próxima semana.)
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

Teresa Duarte Reis - O Cheiro das Palavras - Capeia ArraianaAcordámos com a Rebolosa, bem cedo, pela manhã. A geada quase mágica que caiu sobre o povoado não podia privar-nos dum convívio são e caloroso, onde os sorrisos frescos da alvorada nos recebiam, em festa. «É a festa da Padroeira Catarina, grande Senhora. E pelo que conta a história este povo e suas gentes elegem-na protectora.» Ali respirava um pedacinho de Portugal em que a partilha torna sempre felizes os corações.

SANTA CATARINA NA REBOLOSA

Rebolosa acordou
De manto branco vestida
Mais tarde rompeu o sol
Os sinos chamam à festa
Ali respira-se vida!

Enquanto sai a procissão
Os sinos vão repicando
E os foguetes com tal força
Esquecem o frio aos fiéis
Que vão cantando, rezando!

É a festa da Padroeira
Catarina, grande Senhora
E pelo que conta a história
Este povo e suas gentes
Elegem-na protectora.

Crianças estão na escola
Mas não ficam ali perto
Fecharam-se portas, janelas
E quem quiser estudar
Fá-lo-á longe, por certo.

Só o Tomás ali anda
De sorriso leve e maroto
Feliz por comprar umas calças,
É porque ainda é pequeno…
Alegrias de garoto.

Carina, trabalha na feira
Uma jovem bem bonita!
«Vendemos fruta, castanhas
Depois é comer e beber»
Responde com ar catita.

E lá no alto da Laje
Em mesa posta à maneira
Torresmos, que bons que estão
Reúne todos à volta
Admirando a aldeia inteira.

Novas mesas, mais fogueiras
Onde grupos vão surgindo
Em vários pontos do adro
Aquecem o coração
Todos comendo e sorrindo.

O cheiro é uma loucura
Torradinhos, ai que mimos
E o poeta Leal Freire
Com o seu porte mui distinto
Um raminho dois raminhos…

Pois vamos de mesa em mesa
E petiscos, petiscando
Tudo gira, tudo roda
Até a música dá vida
Come-se o bucho raiano.

Passamos então à «Peña»
Aberta em dias de festa
Mais um ponto de convívio
Para dançar e beber
Jeropiga? Não há como esta!

É uma vez no ano
Santa Catarina a festejar!
«Depois de tudo fechado
Não vamos para a estrada…
É comer, beber, dançar…»

«Malta nova, amiga e unida
Não se arrisca a sair»
Convive ali nas penhas
De bom gosto e de bom grado
Tudo é p’ra dividir.

É o Paulo quem nos diz
«Abrimos em dias de festa
No Senhor dos Aflitos
Santo António e na Capeia»
Festividades tais como esta!

Festas únicas, diz Paula Pinto
Defendendo a tradição
«A cultura popular
Mostra a alma lusitana»
Fala para localvisão.

«Mostrando a alma das gentes»
Sabugal é todo o ano
Desde a capeia raiana
Revela viva a cultura
Mantendo-se vivo, ufano!

O centro do convívio
É a Junta de Freguesia
Onde o nosso amigo «alcalde»
Disse sentir-se honrado
Por receber a Confraria.

«Gostámos de os ter connosco
Nesta festa de tradição»
A comer, a conviver
Afirmou Manuel Reis Barros
Mostrando alguma emoção.

«Quem nunca veio à Rebolosa
Foi bom para nós receber
Quando começou? Não sabemos
Do seu começo ao final
Foi sempre festa a valer!

Todos levam a ordem devida
Para seu porco matar
O simbolismo é bem forte
Reportando-se ao passado
A festa vai continuar.

E quem manda cá no «sítio»?
O Zé Carlos, já sabemos
«Estivemos a conviver
A recordar tradições
A esta Junta o devemos».

Quero rematar afinal
O que senti, digo então
Pois que esta gente boa
Recebe com alegria
Partilha do coração.

«O Cheiro das Palavras», poesia de Teresa Duarte Reis
netitas19@gmail.com

Esta quinta-feira, 11 de Março, no programa «Você na Tv!» da TVI marcam presença alguns quadrazenhos para falar da gíria e do contrabando. A não perder!

«Carregos» de António Cabanas«Se perguntas onde eu moro
Vivo ao fundo da serra
Sou de ao pé de Vale de Espinho
Quadrazais é a minha terra»

(Manuel Leal Freire, in «Por Terras do Sabugal»)

«E aí começam ambos a trabalhar, ele em armas de fogo, que vai buscar a Vigo, e ela em cortes de seda, que esconde debaixo da camisa, enrolados à cinta, de tal maneira que já ninguém sabe ao certo quando atravessa o ribeiro grávida a valer ou prenha de mercadoria.»
(Miguel Torga, in «Novos Contos da Montanha»).

«Todas as aldeias raianas sentem orgulho na vida do contrabando, mas nenhuma o sente tão fortemente como Quadrazais. As aldeias disputam entre si o título de bastião do contrabando. Algumas arvoram-se de terem possuido as maiores sociedades de contrabando e de terem sido palco das maiores transacções das últimas décadas. Penha Garcia no concelho de Idanha-a-Nova e o Soito no concelho do Sabugal, foram talvez aquelas onde a actividade atingiu maiores dimensões nos últimos tempos, mas foi Quadrazais, também no concelho do Sabugal, que mais fama granjeou ao longo dos anos.»
(António Cabanas, in «Carregos»)

O património cultural de Quadrazais (e de todos os sabugalenses) – a gíria dos contrabandistas quadrazenhos – vai estar esta quinta-feira, 11 de Março, entre as 10 e as 13 horas, no programa «Você na TV!» transmitido nas manhãs da TVI. Em directo, com Cristina Ferreira e Manuel Luís Goucha, vão estar presentes alguns irredutíveis quadrazenhos, para mais uma vez dar um ar da sua graça, com histórias e linguajares do contrabando na primeira pessoa.
As singularidades da dureza das terras raianas onde «Galo» era «Cantante», «Carro de Bois» um «Charriante», a «Noite» se transformava em «Choina», «Guarda Fiscal» era «Fusco», os «Sapatos» se transformavam em «Calcos» e a «Perna» em «Gambia».
Aqui ficam, por curiosidade, mais alguns exemplos de vocábulos da gíria quadrazenha: Alâmpio, azeite; amatriz, amanhã; assuquir, comer; briol, vinho; porco, grunhante; cambalache, negócio; cosco, tostão; esgueirante, ladrão; esquilona, hora; facho, guarda; fuganta, pistola; galhal, muito dinheiro; moienes, eu; paivante, fumador; e vunhir, vir».
jcl (com António Moura)

Depois da poeira da batalha eleitoral, é preciso que cada um, entre vencedores e vencidos, saiba encontrar o seu papel, na tradução exacta do mandato que lhe foi confiado pelos votos dos eleitores. Uns e outros, embora de forma diversa, assumiram compromissos e responsabilidades perante os sabugalenses e estes esperam que os seus eleitos estejam à altura de tais desafios.

Câmara Municipal do Sabugal

António Cabanas - «Terras do Lince»Desde o meu ingresso no Instituto de Conservação da Natureza e na Reserva da Malcata, já lá vão mais de 20 anos, tornei-me um amante do Sabugal, da sua riqueza histórica e cultural, das suas especificidades, das suas belezas naturais e, obviamente, das suas gentes. Fui descobrindo, confesso até com alguma inveja, as imensas potencialidades deste enorme município raiano. Alguém, nessa altura, já nem me lembro quem, ofereceu-me uma cópia do «Maria Mim», que estava esgotado, e li um dos exemplares das «Caçadas aos Javalis na Serra da Malcata» que havia na pequena biblioteca da Reserva. Daí para cá descobri, entre outros interessantes comunicadores, esse fascinante escritor, que dá pelo nome de Leal Freire. Tenho adquirido, lido e coleccionado todos os livros do Sabugal, as suas monografias, os estudos, os livros de poesia e romance. E que Rica surpresa ao ler «Celestina», onde encontrei referências ao carlo-miguelista penamacorense Francisco Pina Ferraz!
Apesar do meu feitio, ríspido, tenho granjeado bons amigos nas terras de Riba Côa, na actividade política e profissional, nos convívios gastronómicos, nas actividades de lazer, e, claro, nas inevitáveis capeias. Conheço e sou amigo dos presidentes de câmara e vereadores, permanentes e da «senha», que têm passado pelo Município. Tenho amigos na esquerda e na direita, numa e na outra margem desse belo rio Cuda, acerca do qual o professor Zé Manel lembrava, cheio de oportunidade, que nenhum rio teria foz se não tivesse nascente.
Remato, afirmando que se não fosse natural de onde sou, da Princesa da Cova da Beira, só gostaria de ser de Riba Côa. E dito isto, já se entende onde quero chegar. É que tinha prometido a mim mesmo não escrever uma linha que fosse sobre a política local sabugalense. E se não resisto à tentação de transigir nesta minha promessa, há apenas dois motivos: a actual situação política sem paralelo nas terras transcudanas e a estima que me merecem os seus protagonistas.
Tenho acompanhado o aceso debate político sobre a gestão dos assuntos autárquicos sabugalenses e as recentes posturas dos grupos eleitos, como acompanhei, com interesse a campanha eleitoral, desde o anúncio dos primeiros nomes e a feitura de listas, até ao rescaldo eleitoral. Pelas razões que se entendem, sempre recusei os vários convites dos contendores para intervir neste ou naquele evento que pusesse em causa o meu distanciamento. Mas só nesses.
Na última «Capeia das Capeias», em Aldeia da Ponte, lá estive, entre amigos, ao sol tórrido do Verão, misturado nas conversas tauromáquicas de emigrantes e espanhóis, alguns deles também amigos. Mas a conversa mais absorvente não era sequer em redor dos toiros, mas sim das eleições. Noutros territórios vizinhos, fizera-se uma pausa, uma trégua, foi-se a banhos e esperou-se pela rentrée para se voltar à luta pura e dura da política. No Sabugal, não! Ninguém quis tirar férias, a luta ficou até mais encarniçada, havia um ar pesado que ameaçava borrasca, marcava-se à zona, homem ao homem, taco a taco. No apinhado bar da praça, espaço de homens, juntavam-se os candidatos, sempre rodeados pelos seus mais próximos colaboradores e por candidatos às Juntas de Freguesia. Pagavam-se rodadas e mais rodadas de cerveja. Mas a espuma que pairava no ar, não era a da cerveja dos muitos copos que se bebiam ou dos que ficavam cheios, rejeitados em cima do balcão, era outra a espuma, era outro o éter que as conversas destilavam, entre meias palavras e entre grupos que se faziam e desfaziam, no leva e traz de quem vai despejar a bexiga. Sentia-se que a coisa estava dividida! No meio da confusão de quem apoia a quem, pressentia-se que o PSD estava mais fragilizado do que habitualmente e que o Partido da Terra viera baralhar as contas a uns e outros. Uma incógnita das grandes!
Contados os votos, o povo, mais esclarecido, ou mais alienado, disse o que queria. Se não o disse claramente, foi porque não o quis dizer, o que também quer dizer alguma coisa. Expressou a sua vontade e cada um ficou com um pedaço da manta que, como sempre, não estica: ou tapa os pés ou a cabeça.
Terão agora os eleitos que entender o que o eleitorado disse nas entrelinhas.
Confesso que tenho assistido com alguma expectativa à catadupa de acontecimentos em redor da acomodação no poder. Tranquiliza-me a convicção que tenho de que, apesar da poeira que ainda paira no ar, das feridas por sarar e das diatribes da campanha que alguns tardarão em esquecer, «maioria» e oposição saberão ultrapassá-las com elevação, com sentido da causa pública e do interesse municipal. É assim que sempre procedem as sociedades civicamente evoluídas.
Bem sei que já há quem se posicione para daqui a 4 anos, mas ninguém pense que ganhará o que quer que seja com jogadas precipitadas ou irreflectidas, a tanto tempo de distância. Ganhará, isso sim, quem for mais forte e mais inteligente, atributos que se demonstram na prática da acção política, nas opções e posições assumidas e quantas vezes na recusa da pressão dos aparelhos partidários e dos interesses particulares.
Quem ganha sem maioria terá que ter a humildade de dialogar, chegar a entendimentos duradouros, sob pena de não conseguir garantir a governabilidade e se fragilizar ainda mais. Mesmo quando se ganha com maioria há que ser magnânimo e respeitar as oposições.
Quem perde tem também que assumir as suas responsabilidades. Não há vitórias morais: ganha-se ou perde-se. E quem perde não pode querer o poder para si.
Quem ganha sem maioria sabe o que o espera: que a oposição, se quiser, pode emperrar o exercício do poder. E uma situação pantanosa que perdure será prejudicial ao Sabugal, numa altura do quadro comunitário em que todas as energias devem estar concentradas no desenvolvimento de novos projectos. Um presidente e uma câmara que desperdicem o tempo e as energias a resolver os litígios do poder, dificilmente poderão ter um bom desempenho. Por certo que os sabugalenses não querem que isso aconteça, desejarão antes que a sua câmara os governe com justiça e saber e esteja na primeira linha do combate aos muitos problemas com que o Sabugal, como todo o interior, se debatem.
Não haverá outro caminho, e braços de ferro dão quase sempre mau resultado, designadamente para quem os levanta.
Sempre admirei a forma raçuda como o raiano sabugalense encara a vida do dia e dia e as suas dificuldades. Mais admiro o seu orgulho e a defesa que faz das tais especificidades. Como dizia há dias o Antoine das trutas: isto é como ao forcão, temos que lhe pegar todos juntos!
Ao forcão rapazes!
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

kabanasa@sapo.pt

Manuel Leal Freire publicou um novo livro, intitulado «Trovas de Escárnio em Vernáculo», que contém um conjunto de poesias populares reveladoras do espírito reinadio do nosso povo.

«Trovas de Escárnio em Vernáculo - Manuel Leal FreireO povo, no seu linguajar prático e directo, usa o vernáculo. Significa isso que recorre a uma linguagem rude, pejada de expressões genuínas e incisivas, próprias de quem comunica no seio do seu grupo, ciente que é bem percebido por todos.
Ora o povo, nesse seu comunicar de uso corrente, quer ser claro e directo, sem evasivas nem preocupações de estilo. No falar vernáculo impera o palavrão e a asneira, que noutro contexto de comunicar faria corar o maior dos vilões.
Manuel Leal Freire, natural da Bismula, é o maior conhecedor das tradições populares das gentes raianas.
Embebido no saber antigo e nas vivências aldeãs, tem dado preciosos contributos para a divulgação da cultura popular, o que mais uma vez sucede com a recolha e publicação destas trovas de escárnio e maledicência.
O autor diz-nos que hesitou na decisão de publicar estas versalhadas hilariantes, mas decidiu confiá-las «ao exame de um comité de sábios», que afinal eram homens bons e seus verdadeiros amigos. «O juízo final, que não será tão isento como o do Vale de Josafá, pronunciou-se pela publicação, depois de se haver certificado em demorada leitura, entrecortada por momentos de hilariedade, de que nada havia de ofensivo para as convicções de qualquer pessoa, nos chorrilhos de disparates que atravessam a colectânea» – é desta forma que o autor da recolha se justifica perante o leitor, preparando-o para a leitura de muitas palavras de genuína expressão popular, que estão banidas da linguagem educada.
Cremos, tal como o autor, que o livro não ofende, porque não é esse o seu propósito, porquanto aqui deixamos dois pequenos poemas da colectânea, à laia de aperitivo:

Nem contrição nem atrição
(mas simples tristura pela falta de tesura)

No tempo em que eu comia e bebia e fumava e fodia
Toda a gente dizia que eu me perdia
Agora que não como, nem bebo, nem fumo, nem fodo
É que ando perdido de todo
Por isso
Hei-de voltar a comer e a beber a fumar e a foder
Pra toda a gente saber
Que quem come e bebe e fuma e fode é porque pode.

Quando

Quando os olhos cansam
E as pernas dançam

Quando as peles crescem
E os colhões descem

Quando o nariz pinga
E a piça minga

Não volte a dizer ainda
Que a missão é finda e bem finda.

O livrinho é edição da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto.
Pode ser adquirido na Casa do Castelo, no Sabugal.

plb

Há dias lançaram-me um desafio para uma crónica sobre as opiniões do Dr. Leal Freire a respeito do Estado Novo; o qual, sendo novo, não tinha novidade alguma, porque era salazarento e bolorento.

João ValenteNão discuto o valor das opiniões do Dr. Leal Freire (de quem curiosamente tive idêntico percurso académico – escola, seminário do Fundão e Direito), porque daria muito pano para mangas e para não sujeitar os leitores à brilhante e previsível contestação, à correspondente réplica e sucessivas tréplicas de ambos.
O que aqui está em causa não é tanto o demérito das convicções do Dr. Leal Freire, mas a razão de ser das mesmas, porque o que motivou o repto é o absurdo delas num homem tão inteligente e culto. Este é pois o objecto deste breve post; não outro.
Mutatis mutantis, a boa impressão que tem o Dr. Leal Freire do regime Salazarista no período longínquo da segunda guerra, lembra-me a analepse temporal que o meu avô Lourenço Martins, nos seus 92 anos de cãs alvíssimas, fez a partir de certa altura da sua vida, regressando às memórias da meia-idade, que foi o período da segunda grande guerra e da exploração do volfrâmio.
A diferença entre Dr. Leal Freire e o meu avô analfabeto sobre a segunda grande guerra diverge apenas pelo grau de instrução de cada um; o Dr. Leal faz uma elaborada análise política, o meu avô reduzia-a aos efeitos na economia familiar.
Esclareço que aquele estádio de regressão do meu avô no tempo foi cada vez mais longe, à medida que envelhecia, a ponto de se alienar completamente do presente.
Na verdura dos meus anos, atribuiu aquela obsessão do meu avô pela segunda grande guerra à senilidade dos seus 92 anos, mas hoje que penso maduramente, vejo que tinha uma causa mais profunda: todos nós à medida que envelhecemos e sentimos aproximar o desenlace natural da vida, somos tomados por uma cada vez maior nostalgia do passado. «Que há saudades nos homens, é evidente; que há homens saudosos não pode negar-se», já o afirmava José Marinho na sua Teoria do Ser e Da Verdade.
Toda a Saudade parte da morte que é por antonomásia a suma ausência. E a partir dela diferenciam-se dois caminhos: Uma promoção que a ultrapasse pela negação do espaço e do tempo futuro; ou retorno, que supere a morte pela fuga ao espaço e ao tempo presente.
O primeiro caminho é o da generalidade da ficção literária e foi seguido por Bernardim Ribeiro, Francisco Manuel de Melo e António Patrício, entre outros.
A Saudade do fim da vida é um exemplo do segundo caminho; um desejo de superação da morte pelo regresso ao passado, dominando o tempo com estados de ausência ao presente em que as lembranças agradáveis do passado dão sentido e consistência aos passos que a Saudade foi gravando sobre a vida.
Foi também este segundo caminho o seguido na Mensagem de Pessoa e obra de Pascoais, os poetas mais genuínos da portugalidade.
É este binómio Lembrança/desejo que caracterizando a Saudade, provoca prazer/dor numa sucessão de momentos diferentes, «um estado de saudade»(Marnos) permanente, nas palavras de Teixeira de Pascoais, que também é válido para as nações antigas e por isso serve para caracterizar a alma portuguesa, como tão bem fez Cunha Leão em O Enigma Português.
A alienação do tempo presente deu-se precisamente, parafraseando o Leal Conselheiro de D. Duarte (o nosso rei – filósofo que estudou a saudade), quando a razão do meu avô se deixou afectar pelo «rijo desejo de voltar ao estado de ausente». Foi também a época mais dolorosa e insensata da vida dele.
Por isso a Saudade, é um fenómeno de sensibilidade; parte do coração e nada tem a ver com a razão; nasce da lembrança do tempo feliz que se viveu e do desejo de regresso a ele, são fenómenos psicológicos e de estado de alma.
«A suydade nom descende de cada uma destas partes (nojo, pezar, desprazer e aborrecimento) mas é um sentido que vem da sensibilidade e não da razão», ainda D. Duarte no Leal Conselheiro.
Ou como dizia Leonardo Coimbra, as saudades «são como pombas de sonho que povoam o nosso entendimento», bastará procurá-las, mesmo que subtilmente, para elas levantarem voo perdendo-se daquele pombal, tão firme no seu ser, como disponível e vazio na sua realidade.
A opinião do Dr. Leal Freire sobre o Estado Novo, explica-se pela mesma Saudade que tinha o meu avô, comum aos homens no fim de vida e que seguem o caminho da fuga ao presente. Possivelmente nem corresponde ao sentimento verdadeiro do Dr. Leal Freire, mas ele nem se apercebe!
É que, segundo Francisco Manuel de Melo, às vezes «a Saudade lembra-nos coisas que antes de ela aparecer nunca amaríamos».
Provindo da Saudade que pertence ao coração, a opinião do Dr. Leal Freire não pode contradizer-se pela lógica. Sentimento e Razão não se tocam…
«E para entender esto não cumpre ler per outros livros, mas cada um considere o seu coração o que já por feitos desvairados tem sentido», ainda D. Duarte no Leal Conselheiro.
Assim, a opinião do Dr. Leal Freire sobre o Estado Novo, é uma extravagância da Saudade que dá aos homens naquela idade. Um derradeiro bater de asas do sonho que lhe povoa o entendimento…
E que podemos nós, contra o infinito intangível do sonho?
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

Homem de cultura e etnógrafo, jurista de profissão, Joaquim Manuel Correia nasceu em 1858, na Ruvina, concelho do Sabugal. No dia 5 de Abril terão início as comemorações dos 150 anos do seu nascimento com diversas iniciativas no Museu e Auditório Municipal do Sabugal.

Joaquim Manuel CorreiaAs comemorações da passagem dos 150 anos do nascimento de Joaquim Manuel Correia arrancam no sábado, 5 de Abril, organizadas pela empresa municipal «Sabugal+», Museu Municipal e Câmara Municipal do Sabugal.
A sessão de abertura (nove horas da manhã) está marcada para o Auditório Municipal, com as intervenções do presidente do município sabugalense, do presidente do conselho de administração da «Sabugal+» e de Natália Correia Guedes, neta do homenageado.
As palestras da manhã, com a participação de ilustres intervenientes, serão preenchidas com a sapiência de João Serra (Os trabalhos de Joaquim Manuel Correia), mestre Pinharanda Gomes (Aspectos da vida e obra de Joaquim Manuel Correia), Manuel Leal Freire (A vida de uma família na Ruvina nos meados do século XIX), Adérito Tavares (O país e o Sabugal – Enquadramento Histórico – 1858-1974) e Manuel Meirinho Martins (O Sabugal de Hoje).
Da parte da tarde, pelas 16 horas, será inaugurado no Museu do Sabugal uma exposição comemorativa e terá lugar uma sessão de lançamento do livro «Celestina» de Joaquim Manuel Correia.

Joaquim Manuel Correia nasceu a 21 de Março de 1858 na freguesia da Ruvina, concelho do Sabugal. Formou-se em Direito no ano de 1888 na Universidade de Coimbra e veio a falecer nas Caldas da Rainha no dia 10 de Outubro de 1945.
Exerceu como advogado no Sabugal e nas Caldas da Rainha, foi conservador do Registo Civil de Leiria e presidente da Câmara Municipal das Caldas da Rainha.
Homem de cultura é autor de vários livros sobre as gentes e as terras raianas com destaque para «Terras de Ribacôa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal». Alguns dos mais importantes achados arqueológicos do Sabugal foram por si recolhidos, catalogados e enviados para o Museu Nacional de Arqueologia.
Aqui deixamos aos nossos leitores um excerto do livro «Celestina»:
«O dia estava belo e tudo preparado para a romaria. Todos os casados desse ano, da aldeia de Ruvina, no concelho do Sabugal, estavam já prontos para a partida, uns a pé, outros a cavalo. A família Calamote resolveu ir de carro (de bois), que ficara armado na véspera com alvos lençóis de linho, ligados fortemente aos estadulhos. Faltava só cobri-los com colchas. Sobre isso houvera divergências em casa. A Brízida queria que se enfeitasse o carro com uma colcha amarela, as filhas com uma linda colcha bordada a frouxo, em pano de alvíssimo linho, embora grosseiro, na qual, entre ramos caprichosos, havia correctas figuras em posições extravagantes.
Venceu a Brízida, alegando, e com razão, ser mais vistosa a colcha amarela e que, ainda que se estragasse, havia muitas iguais à venda.
Resolvida desse modo tal contenda, teve o ganhão ordem de cobrir o carro com a coberta amarela, logo que nascesse o sol, e de lhe estender dentro os melhores cobertores para atenuar o choque e a trepidação na
marcha. Eram sete horas da manhã quando a Domingas e o marido foram saber se já estavam prontos.
– Vou já vestir as meninas e encher as cuncas de merenda, enquanto o ganhão põe os bois no carro e o meu homem enche a borracha de vinho e albarda a égua nova.
– Não sabia que tinham uma égua nova!
– Pois temos, trocámos pela russa e vamos hoje experimentá-la à Senhora da Póvoa.»

Excelente iniciativa com ilustres intervenientes. Um momento superior de cultura e de defesa da nossa história.
jcl

JOAQUIM SAPINHO

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