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Foi meio a brincar meio a sério que há tempos escrevi que o elefante Salomão (o tal do livro de Saramago) passou no Casteleiro.
Para mim, isso é indiscutível e não pode ter passado de Caria para Sortelha sem passar na Ribeira da Cal, no Casteleiro, na Serra da Vila: é a calçada «romana» (ou medieval? – e aqui começam as dúvidas).

A verdade é que desde esse dia o problema não me tem largado.
E lancei-me numa micro-investigação.
Li bastante.
Reflecti.
Concluí algumas coisas que quero partilhar com o leitor do «Capeia». Fiquei com muitas dúvidas.

Primeiro.
Há factos que provam que os romanos estiveram no Casteleiro?
Há.
Exemplos: foram encontrados em escavações e registados oficialmente pesos de tear e pedaços de loiça fina de tempos recuados – seguramente da era romana –, como os referidos por Pedro Carvalho («Por terras do Sabugal na Época Romana»), e essas descobertas provam-me duas coisas: que os romanos passaram aqui, que se estabeleceram aqui – e que construíram aqui as suas «indústrias» de artefactos úteis, como era seu timbre por toda a parte onde chegaram. Ver Aqui.

Segundo.
Estiveram aqui. Mas: onde? Em que locais?
A acreditar nas investigações deste arqueólogo, que coloca a questão no condicional («haveria»), a verdade é que parece provável que nos limites dos actuais concelhos de Belmonte e do Sabugal houvesse um importante vicus (povoado) mesmo ao fundo das terras do Casteleiro, na fronteira com as Inguias, parece.
Outras provas da presença romana por estas bandas foram encontradas em locais como a Quinta do Espírito Santo, Gralhais e a Quinta de Santo Amaro. Esses são os locais da Freguesia do Casteleiro referidos nos registos do Museu do Sabugal. Ver Aqui.

Terceiro.
Parece pacífico e por muitos investigadores aceite que a grande via romana que ligou a Idanha a Castelo Branco, Caria, Sabugal e daí até Ciudad Rodrigo e até Salamanca passou pelo Casteleiro.
O circuito, desde Caria, seria mais ou menos este: Caria, Inguias, Santo Amaro, Ribeira da Cal, Casteleiro, Serra do Mosteiro (Santo Estêvão), Aldeia de Santo António, Sabugal.
Terá sido assim?

Quarto.
Mas aqui cumpre acrescentar uma nota muito importante.
É que para lá desta via eventualmente principal, havia outra: a via secundária que, do Casteleiro (ali por volta da Escola Feminina) arrancava em direcção a Sortelha. Isso é indiscutível.
Ainda lá está, e não tão mal definida como isso: é a Calçada Romana que vai do Casteleiro à Serra da Vila, pelos campos do Marineto e pelas encostas em direcção à Serra da Vila.
No Casteleiro pode pois ter havido um importante entroncamento de vias romanas: uma que vinha do Sul e seguia para a Hispânia; outra que se iniciava nesta, no local em que hoje fica o Casteleiro e seguia para Sortelha.

Quinto.
Ora a viagem do elefante Salomão, na versão de José Saramago, seguiu, quanto a mim, pela via principal até ao Casteleiro e daí subiu a Sortelha por essa outra via secundária.

Gostaria de saber mais sobre o assunto. Mas as fontes são muito vagas. Como disse, alguns investigadores chegam a colocar as questões no condicional – o que retira as certezas da matéria.
Fiquemos pois por aqui neste momento, e continuemos a ler e a reflectir.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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O elefante Salomão, o do livro de Saramago «A Viagem do Elefante», tinha vindo da Índia para ser mostrado em Lisboa. Mas o nosso rei D. João III resolveu oferecê-lo ao primo, o sacro imperador Maximiliano II da Áustria.

Notícia de última hora:
«O elefante indiano Salomão, o real (porque ele existiu mesmo e fez esta viagem romanceada «agora» por José) passou pelo Casteleiro em 1551 ou 52.
A minha teoria é simples: inevitavelmente, neste troço da viagem, entre Castelo Novo e Sortelha, naqueles anos de antanho, o Salomão foi conduzido por ali: pela Ribeira da Cal e pelo Casteleiro (parece que era esse o traçado da Calçada), passando na Calçada Romana que está assinalada pelo Mar(i)neto acima, Serra da Vila acima, até Sortelha.
Aliás: alguém me explica como passaria na Calçada Romana (ou calçada medieval, sabe-se lá), que vinha desde a Beira Baixa até à fronteira a Norte… sem passar no Casteleiro?
Claro que Saramago nunca diz que passou aqui ou ali: preferiu dizer sempre que «o elefante poderia ter passado por aqui». É que ele não estava a fazer um livro de História mas sim um livro de ficção literária».
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

A Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo está a liderar o projecto de definição de uma rota turístico-cultural, baseada no livro de José Saramago «A viagem do elefante», a qual poderá incluir Sortelha e Sabugal.

Quando se completa um ano da morte do escritor, a 18 de Junho de 2010, o presidente da Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo, António Edmundo, disse à Lusa que o projecto, que ligará Lisboa e aquele concelho raiano, poderá ser concretizada «ainda este ano».
«Estamos a preparar o caderno de encargos para a sinalética e para o que fruir em cada um dos territórios», indicou, salientando que a iniciativa também envolve as Câmaras Municipais de Lisboa, Constância, Sabugal, Belmonte, Fundão e Pinhel e a Fundação Saramago.
O livro de José Saramago «A viagem do elefante», editado em 2008, narra a jornada de um paquiderme asiático, que estava em Lisboa e que foi oferecido pelo nosso rei D. João III ao arquiduque da Áustria Maximiliano II (seu primo). A acção decorre no século XVI, em 1550, 1551 e 1552, quando o elefante tem de fazer a penosa caminhada, desde Lisboa até Viena, escoltado por um destacamento de soldados portugueses, a quem, em Castelo Rodrigo, se juntaram alguns soldados do arquiduque, o que gerou uma forte tensão entre as duas hostes militares.
Em Junho de 2009 o próprio Saramago fez com a mulher, Pilar del Rio, e outros amigos, o suporto percurso em Portugal que o elefante Salomão terá feito na sua viagem, tendo em vista lançar uma rota cultural, ideia que agora António Edmundo agarra com ambas as mãos.
plb

José Saramago passou pelo Sabugal nos finais da década de 1970, tomando as notas que dariam origem ao seu livro Viagem a Portugal. Junto à capela da Senhora da Graça tentou ver os afamados ex-votos que ali existem, mas prosseguiu o seu roteiro sem que lhes tenha colocado a vista em cima.

Quando chegou às «brandas Beiras», pernoitou na Guarda, e de lá rumou a Belmonte, depois a Sortelha, chegando ao Sabugal ao fim da manhã. Veio, como ele mesmo afirma, na mira dos ex-votos populares do Século XVIII, buscando-os na ermida de Nossa Senhora da Graça. Contudo o Ti Simão, de todos conhecido por Ratinho, guarda do santuário, não lhe soube dizer onde estavam, contentando-se o viajante com uma breve visita à capela nova, que achou de «espectacular mau gosto».
Os gostos não se discutem, que cada um tem seu quadro de sainetes, que devemos respeitar. Ainda assim se lamenta que o nosso Nobel não tenha reparado na planta pentagonal da igreja, com forte simbolismo, ao imitar a forma da torre de menagem do castelo. O viajante almoçou no Sabugal, não referindo em que restaurante, Contudo foi em local central, porque deixou a nota de reparo: «nada mais viu que o geral aspecto duma vila ruidosa que vai para a feira ou vem de feirar». Desiludido com o Sabugal retornou à Guarda, e dali foi a Cidadelhe, no concelho de Pinhel, onde andou muito animoso e mais demorado.
Dos afamados ex-votos que José Saramago procurou e não viu, nos apraz agora escrever. De facto, a capela da Senhora da Graça, tem depositadas essas esplêndidas ofertas à Virgem. Quando Saramago veio ao santuário, não revelando a conselho de quem, as peças de arte que procurava estariam depositadas na sacristia da capela velha, degradadas e amontoadas a um canto. De pouco lhe valeria tê-las examinado, e talvez fosse isso que levou o guardião a dizer que desconhecia o seu paradeiro.
Os painéis dedicados à Senhora da Graça, existentes no Sabugal, hoje recuperados e restaurados, foram elaborados com perícia e aptidão, sendo autênticas obras-primas. Encontram-se devidamente catalogados e são considerados da maior importância no campo da arte sacra.
Analisemos um deles, que no presente se encontra exposto na capela do santuário. Trata-se de uma tela pintada a óleo, datada de 25 de Maio de 1760. Por ela se agradece o milagre que Nossa Senhora da Graça concedeu a uma religiosa, afectada com um cancro num peito, despedida pelos médicos, mas que foi salva pela intervenção divina.
A representação é obra de artista, desenhada com primor, contendo, em pormenor, todos os elementos que devem constituir este tipo de obras de arte. Em baixo representa-se a paciente, amparada e consolada pelas enfermeiras que dela cuidam. Ao lado os médicos com ar de desalento, seguros de que nada mais pode fazer a ciência para salvar a doente. Numa mesa coberta com vistosa toalha, repousam os frascos de remédios e demais instrumentos da medicina. Fixadas na parede do quarto estão representações da Virgem e do Sagrado Coração, um espelho e um ramo de flores. Em cima, do lado esquerdo, sob um claustro gradeado representa-se um grupo de sete religiosas rezando à Virgem pela salvação da irmã doente. No canto superior direito está uma nuvem contendo no interior uma comovente representação de Nossa Senhora da Graça, de túnica branca e manto azul ferrete, com o Menino Deus no regaço. À sua volta seis querubins fazem-lhe escolta, concedendo-lhe especial encanto. Em rodapé a legenda em português vernáculo, explicando o milagre que Nossa Senhora concedeu à religiosa. A moldura de madeira, dum vivo azul celeste, dá ao quadro um magnífico efeito, ajudando a tecer o jogo das tonalidades que o compõem.
Os ex-votos de Nossa Senhora da Graça estão agora expostos na capela do santuário, graças à acção de uma mordomia, que decidiu recuperar estes importantes testemunhos da fé popular, autênticas obras-mestras da arte sacra.
Paulo Leitão Batista

Morreu esta semana o escritor que eu mais admirava e apreciava.

José Manuel Monteiro - Largo de Alcanizes - Capeia ArraianaLi «Levantado do Chão» no inicio dos anos 80 e essa leitura levou-me à leitura de todos os livros da obra de Saramago. Alguns, para ai dois, comprei e não terminei a sua leitura. Foi a fase de não conseguir ler Saramago, como já me tinha acontecido, e ainda acontece, com Lobo Antunes.
De todos os seus livros gostaria de destacar aqueles que maior prazer me deram a ler e aqueles que após cada leitura recomendava a todos os amigos.
Em «Levantado do Chão» descobri um povo que luta contra a opressão num ambiente de miséria rural. Da luta dos trabalhadores agrícolas alentejanos contra os latifundiários, as forças da ordem e a igreja descobri um povo antifascista e um autor que não tem medo de revelar as suas opções políticas.
No «Memorial do Convento», com a criação de personagens fantásticas: Baltazar, sete-sóis e Blismunda, sete-luas, o padre Bartolomeu Dias e a sua passarola, o rei e a rainha, o povo anónimo, através da construção do convento de Mafra, Saramago volta a ter na sua acção a História de um Povo.
Nos anos 90 são publicados «O Evangelho segundo Jesus Cristo» e «Ensaio sobre a Cegueira».
Com o Evangelho nasce a primeira polémica. Depois de Abril um governo censura um livro ao proibir a sua participação num prémio europeu de literatura. Saramago parte para as Canárias.
José Saramago - Foto de Sebastião SalgadoEm o evangelho Cristo é homem. Vive as angústias de um homem, os amores e as paixões, a revolta e a crucifixação, como todos aqueles que sem medos se revoltam num mundo de misérias e injustiças.
As angústias de quem não vê ou não quer ver, na cegueira colectiva de um povo e quase a apontar para a ficção científica foram sentidas no final da leitura do «Ensaio sobre a Cegueira».
«Caim» a ultima obra lida de Saramago, volta a por em destaque o sagrado e gera novas polémicas, sendo já tema de uma das primeiras crónicas escritas e publicadas aqui por mim.
Deixei para último o livro que por estes dias mais me fez recordar Saramago. «Intermitências da Morte». É o livro que nos deixa sem resposta. Apenas sabemos que na morte e no seu compromisso para com a humanidade reside o medo do desconhecido, do vazio, algures numa hora e num lugar deste planeta.
No escritor descobri o homem, coerente com os seus pensamentos, fiel aos seus valores.
Hoje, no desconhecido da morte, restam os livros.
A todos aqueles que nunca tiveram coragem ou interesse em ler José Saramago desejo que o descubram e retirem da leitura dos seus livros prazer mas também a coragem para que sem medos se afirmem os pensamentos e as ideias, mesmo que incómodas ou não maioritárias na sociedade.
Por tudo, Obrigado José Saramago.
«Largo de Alcanizes», opinião de José Manuel Monteiro

jose.m.monteiro@netcabo.pt

Para quem não conhece o Festival Sete Sóis Sete Luas (FSSSL), o mesmo nasceu de um grupo de jovens idealistas, residentes e naturais do norte de Itália,” apaixonados pelo diálogo de culturas entre cidades que falassem a linguagem universal a música.

Festival Sete Sóis Sete Luas - FSSSLPediram apoio ao Nobel da Literatura José Saramago, que gostou da ideia, apoio-os e até ao seu recente falecimento, foi presidente honorário, tendo Portugal aderido desde a primeira hora. O Festival cresceu junto de cidades/vilas mediterrâneas de países lusófonos.
A origem do nome tem a ver com algumas personagens do livro de José Saramago «Memorial do Convento» como Baltazar Mateus, o Sete Sóis e Blimunda, a Sete Luas.
Abrange uma rede cultural de trinta cidades/vilas de dez países mediterrâneos e do Atlântico (Brasil, Cabo Verde, Croácia, Espanha, França, Grécia, Israel, Itália, Marrocos e Portugal.
Desde 2000 que a reabilitada Fábrica da Pólvora na freguesia de Barcarena de Oeiras, acolhe nos seus palcos este Festival.
O programa deste ano, de 25 de Junho a 3 de Setembro, ás sextas-feiras, consta de onze concertos em estreia, a saber:
No dia 2 de Julho, Mercedes Peón (Galiza); 9 de Julho, Eugenio Bennato (Itália); 16 de Julho, Mário Lúcio (Cabo Verde); 23 de Julho, Massimo Laguardia (Sicília); 30 de Julho, Banda Del Pepo (Múrcia); 6 de Agosto, Orchestra Pololare Italiana (Itália); 13 de Agosto, Les Voix du 7Sóis (Mediterrâneo); 20 de Agosto, Maria Del Mar (Andaluzia-Cádiz); 27 de Agosto, Rocío Marquez (Andaluzia-Huelva); e no dia 3 de Setembro, Kristi Stassinopoulou (Grécia).
A entrada é livre, limitada aos lugares disponíveis.
José Morgado (Baseado no texto de Carla Rocha)

A morte de José Saramago, o único Prémio Nobel da Literatura da língua portuguesa, deixou a Cultura um pouco mais pobre. Por quatro vezes a sua obra foi transposta para o grande ecrã.

Pedro Miguel Fernandes - Série B - Capeia ArraianaDas quatro obras baseadas em livros de José Saramago que foram alvo das objectivas da Sétima Arte, «Ensaio Sobre a Cegueira» é a mais célebre. Realizada em 2008 pelo brasileiro Fernando Meirelles, autor de «Cidade de Deus» e «O Fiel Jardineiro», a adaptação desta visão catastrófica da Humanidade, em que uma misteriosa epidemia torna a população mundial cega e acaba por nos mostrar a natureza do Homem quando perde um dos seus sentidos fundamentais através do olhar da única personagem que vê, conta com um elenco de luxo e de várias nacionalidades (Julianne Moore, Danny Glover, Gale Garcia Bernal ou Alice Braga). Apesar de o tema ser bastante difícil de filmar, senão mesmo impossível devido à própria natureza da obra (no fundo estamos perante um mundo onde as personagens são cegas), Meirelles conseguiu dar uma nova visão da obra de Saramago, uma das mais conhecidas do escritor.
Já antes, em 2000, tinha sido a vez do holandês George Sluizer ter feito uma versão de «Jangada de Pedra», filme que conquistou alguns prémios em festivais de cinema. Nesta história da separação da Península Ibérica do território europeu, rumo aos Açores, uma vez mais surge um elenco internacional, onde se encontram os portugueses Diogo Infante e Ana Padrão.
José SaramagoA mais recente adaptação de uma obra de Saramago ao Cinema ainda está por estrear e baseia-se num conto publicado pelo Nobel em 1978 na colectânea «Objecto Quase». Passado durante uma crise petrolífera, o filme é assinado pelo português António Ferreira («Esquece Tudo o que te Disse») e conta a história do inventor de um digitalizador de pés que perde a oportunidade de comercializar a sua tecnologia por não ter gasolina no carro. Esta obra tem estreia prevista para os próximos meses.
Por fim, há ainda uma curta-metragem de animação feita em 2006 pelo galego Juan Pablo Etcheverry, «A Maior Flor do Mundo», onde o próprio José Saramago é uma das personagens que conta a ideia de um livro infantil, contando uma história de um rapaz que fez nascer a maior flor do mundo.
Todos estes filmes são um exemplo de que a obra de Saramago continua para além dos livros, chegando a outras artes. Para recordar o Homem fica esta última curta-metragem.

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«Série B», opinião de Pedro Miguel Fernandes
pedrompfernandes@sapo.pt

Saramago percorreu Portugal de olhar atento, seguindo quase sempre roteiros pré-definidos, tomando notas para depois escrever as impressões da digressão. Não podia ali faltar uma passagem pelo Sabugal e por Sortelha, bem como a outros lugares da Beira, onde se destacou Cidadelhe, o «calcanhar do mundo», onde comeu pão e queijo.

José SaramagoO livro «Viagem a Portugal», teve a primeira edição em 1981, quando José Saramago ainda não estava no seu esplendor. Escrevera já o «Manual de Pintura e Caligrafia», por muitos considerado o seu melhor livro, e já estava também editado o «Levantado do Chão», a grande epopeia do Alentejo e do seu povo lutador. Só depois viriam os livros de referência, como «Ano da Morte de Ricardo Reis» ou o «Memorial do Convento», que rapidamente o atiraram para a ribalta.
Esse livro de viagens pelo país, de que aqui damos nota, é, antes de mais, o resultado de uma jornada que tinha por intuito descobrir caminhos diferentes daqueles que todos conhecem e indicam. Descreve originalidades, observando e notando o que achou digno, saindo do esboço a que estamos habituados.
Mas a descrição da viagem deu numa interessante narrativa. A narrativa de um viajante que vive interiormente do percurso que faz. Descobre caminhos e lugares, confirma expectativas, esbarra com surpresas, como que viajando dentro de si próprio, reflectindo os sentimentos e as impressões que a viagem lhe coloca. «Viagem a Portugal» não é um simples livro de viagens, na convencional classificação do género literário. É afinal um livro de reflexões e de sensações estampadas na mente de um viajante que anda na missão de descobrir.
O viajante aportou na Guarda, em fim-de-semana, a altas horas, bateu à porta do Hotel de Turismo, mas não achou quarto disponível, o que o levou a passar a noite no automóvel, sentindo aí o frio tenso destas paragens. Tomaria depois por base esse hotel e partiu da cidade, que primeiro visitou, em exploração.
Parcas são as referências ao comer deste original viandante, coisa pouco comum em relatos de viagens. Na verdade o viajante alimentou-se, degustou alguns dos nossos pratos típicos, mas estava mais voltado para descrever o que via do aquilo que lhe sabia.
Logo quando ficou no carro, naquela primeira e gélida noite, refere que passou a noite «trincando bolachas para enganar o apetite nocturno e aquecer ao menos os dentes». E também nos diz que, depois de obter quarto e dormitar um pouco, almoçou no hotel e só então foi ver a cidade. À noite jantou em maior sossego, de novo no hotel, onde achou a comida divinal, e descobriu a simpatia do Sr. Guerra, chefe de cozinha, natural de Cidadelhe. A inesperada amizade levou-o no dia seguinte ao «calcanhar do mundo», de onde retiraria as melhores impressões da passagem pelas nossas terras.
Encontrou em Cidadelhe uma terra surpreendente onde, para além das pedras, do precioso palio e do original «cidadão», descobre o verdadeiro prazer da gastronomia popular:
«”São horas de merendar”, diz Guerra. “Vamos a casa de minha irmã.” Descem pelo caminho que trouxeram, lá está o Cidadão de sentinela, e vão primeiro a uma adega beber um copo de tinto-claro, ácido, mas de uva franca, e depois sobem os degraus da casa, vem Laura ao limiar: “Entre, esteja na sua casa.” A voz é branda, o rosto sossegado e não é possível que haja no mundo mais límpidos olhos. Está na mesa o pão, o vinho e o queijo. O pão é grande, redondo, para o cortar é preciso apertá-lo contra o peito, e nesse gesto fica a farinha agarrada à roupa, à blusa escura da dona da casa, e ela sacode-a, sem pensar nisso. O viajante repara em tudo, é a sua obrigação, mesmo quando não entender tem de reparar e dizer. Pergunta Guerra. “Conhece o ditado do pão, do queijo e do vinho?” “Não conheço.” “É Assim: pão com olhos, queijo sem olhos, vinho que salte aos olhos. É o gosto da terra.” O viajante não crê que as três condições sejam universais, mas em Cidadelhe aceita-as, nem é capaz de conceber que possam ser diferentes.»
«Sabores Literários», crónica de Paulo Leitão Batista

leitaobatista@gmail.com

O ano que agora finda foi fértil em acontecimentos dignos de realce no concelho do Sabugal e a que o Capeia Arraiana deu expressão. O facto de ser ano de eleições autárquicas contribuiu muito para isso, mas também se verificaram outros eventos de realce, como as caminhadas, que pegaram moda e aconteceram nas diversas terras. O Capeia Arraiana publicou mais de 1250 artigos, com notícias, entrevistas, colunas de opinião e outros artigos de interesse para o nosso concelho.

Candidatos à Câmara Municipal do SabugalEm Janeiro as eleições autárquicas já estavam lançadas com os principais candidatos à Câmara do Sabugal assumidos e a tentarem ganhar expressão perante o eleitorado. De resto 2009 foi o ano de todas as escolhas políticas, com eleições europeias em Junho, legislativas em Setembro e autárquicas em Outubro. E foi logo no início do ano que o Capeia Arraiana acolheu a primeira polémica do ano: a ausência da Câmara do Sabugal na Bolsa de Turismo de Lisboa. Joaquim Ricardo e António Dionísio assinaram artigos muito críticos dessa opção, o que gerou um vivo e interessante debate entre os leitores.
Uma inabitual vaga de frio e de neve afectou o concelho nas primeiras semanas do ano, com os termómetros a registarem temperaturas negativas em dias sucessivos.
Fevereiro foi o mês em que o Capeia Arraiana atingiu o meio milhão de visitantes e em que se realizou, no Sabugal o IV almoço da Confraria do Bucho Raiano, integrado na semana gastronómica concelhia. As comemorações carnavalescas geram controvérsia entre Aldeia do Bispo e o Sabugal devido à ocorrência dos cortejos na mesma data. Esse mês começou porém com a triste notícia da morte de José Diamantino dos Santos, provedor da Santa Casa da Misericórdia do Sabugal e fundador do Externato Secundário. O seu funeral, num dia chuvoso e frio, juntou largas centenas de pessoas, vindas dos quatro cantos do país, para lhe prestarem a última homenagem.
Em Março a notícia de uma possível capeia arraiana na ilha Terceira, nos Açores, inserida nas festas são-joaninas lançaram mais uma longa polémica, que perduraria durante semanas a fio e que motivaria inclusivamente um abaixo-assinado de gente arraiana, que parecia temer perder a sua tradição taurina.
Manuel António PinaA singela e muito digna homenagem que a Junta de Freguesia do Sabugal fez ao escritor e jornalista sabugalense Manuel António Pina, marcou o mês de Abril, e inspirou outras homenagens ao poeta que depois se sucederam. Descerrou-se uma placa na casa onde o escritor nasceu, falou-se da sua vida e obra e assistiu-se a uma representação teatral da sua autoria. A 26 de Abril o Papa Bento XVI proclamou a canonização do português São Nuno de Santa Maria que o povo conhece como Santo Condestável e o Capeia Arraiana deu a conhecer que o quadrazenho Jesué Pinharanda Gomes foi um dos quatro magníficos peritos da Comissão Histórica que investigou, estudou, decifrou e compilou as centenas de documentos que constituíram o processo.
Em Maio a entrevista do novo provedor da Santa Casa da Misericórdia do Sabugal, Romeu Bispo, afirmando que António Dionísio, candidato do PS, o ajudara a garantir que o Sabugal teria uma Unidade de Cuidados Continuados gerou nova polémica, com resposta pronta do presidente do Município, Manuel Rito, afirmando que se preferiu a «cunha partidária» em vez da via institucional. Dia 30 iniciaram-se as polémicas crónicas do saudosista sabugalense Ventura Reis, cujas criticas geradas o levariam mais tarde a desistir de escrever, remetendo-se ao silêncio.
Em Junho José Saramago recriou a rota do elefante Salomão e passou em Sortelha. Os motards fizeram o percurso «Portugal de lés-a-lés», passando por Alfaiates, cujo castelo ameaça ruína. O presidente da Junta de Freguesia da Bismula, José Vaz, afirma ter sido vítima de uma represália política por parte da Câmara e nasceu uma nova controvérsia, alimentada por artigos e comentários sucessivos.
Julho trouxe outra polémica: a ausência da Câmara da Feira Internacional de Artesanato, onde porém um peça de renda feita por uma artesã do Sabugal foi premiada. Textos de candidatos e comentários dos leitores apimentaram mais um dilema que durou largo tempo num ambiente já muito tocado pelas eleições que eram chegadas. Ainda em Julho o Capeia fez grandes entrevistas aos candidatos à Câmara Municipal.
Agosto foi, como sempre sucede, o mês das capeias arraianas, que se sucederam por toda a raia, desta vez estimuladas pela campanha política que estava ao rubro. No festival do forcão, em Aldeia da Ponte, o repórter tirou a fotografia do ano: António Morgado, ex-presidente do PSP, ao lado de António Dionísio, candidato do PS, dando sinais de um apoio que a campanha oficial confirmaria. Aqui nasceu uma nova polémica (o post com a edição da foto recebeu 53 comentários).
Os primeiros dias de Setembro são de drama, devido à grande calamidade que assolou o lado ocidental do concelho desde os últimos dias de Agosto: um incêndio devastador que arrasou floresta e pastagens, pondo em perigo muitas aldeias. Esta fatalidade abrasou a campanha politica dada a aproximação das eleições. O Presidente da República visitou de surpresa a área ardida, e a polémica ganhou novo fôlego, com criticas à actuações dos bombeiros, da Protecção Civil e do Município. Num momento de maior tensão a Câmara vê-se obrigada a suspender uma inauguração polémica quando caiu a informação de que a Comissão Nacional de Eleições proibira uma acção similar em Braga. No penúltimo fim-de-semana as principais candidaturas autárquicas fizeram as suas apresentações públicas e a partir daí a campanha autárquica ficou decididamente lançada.
Outubro foi o mês eleitoral, com António Robalo a garantir a manutenção da Câmara nas mãos do PSD, perdendo porém a maioria absoluta. Os últimos dias de campanha estiveram ao rubro, especialmente após termos informado que António Morgado mergulhara na campanha socialista. Mas Outubro foi o mês das surpresas e depois de se assistir à vitória social-democrata eis que o candidato socialista Ramiro Matos foi eleito presidente da Assembleia Municipal.
Pinto Monteiro e Adérito TavaresNovembro voltou a ser o mês do bucho e a Confraria garantiu a presença do Procurador Geral da República no almoço de Lisboa, que aconteceu no palácio da antiga Cooperativa Militar. A nova composição do Executivo Municipal, sem a habitual maioria do lado do presidente eleito criou dificuldades que pouco a pouco os membros do executivo aprenderam a ultrapassar.
Em Dezembro a expectativa de dificuldades na aprovação do orçamento camarário ficaram goradas e o mesmo passou com a abstenção da oposição, assim se garantindo a normalidade na gestão da Câmara no próximo ano. António Robalo acaba o ano a queixar-se do traçado da A23, que queria que passasse entre o Sabugal e a Guarda, posição que porém a Câmara do Sabugal nunca defendeu publicamente.
«Contraponto», opinião de Paulo Leitão Batista

leitaobatista@gmail.com

A última polémica lançada por José Saramago aquando do lançamento do seu novo livro «Caim» transportou-me para os bancos da catequese, ou da doutrina como na altura também era conhecida. São muitos anos e, para o bem ou para o mal, desses tempos não tenho recordações de maior, aliás nem do nome ou da imagem das catequistas me lembro.

José Manuel Monteiro - «Largo de Alcanizes»Desses tempos imagens claras tenho da primeira confissão que me levaria no dia seguinte à primeira comunhão e passar a partir daí a poder participar em pleno da eucaristia, recebendo o corpo de Cristo. A confissão representava o assumir pela primeira vez ser pecador (pobre criança inocente) e perante o representante de deus na terra relatar um a um aqueles pecados, que em conjunto todos os putos iam inventariando e inventando: menti, não obedeci, bati, esqueci de rezar, disse palavras feias (actos e omissões) porque os pecados por pensamento, ou ainda não eram sentidos ou simplesmente eram omitidos.
Aquela tarde, qual ritual iniciático, a excitação e a ansiedade eram maiores que a entrega ao divino e ao sagrado e nada permitia viver qualquer tipo de espiritualidade. Sempre que um de nós saía da confissão, todos corríamos não só para sabermos se tinha dito todos os pecados mas, essencialmente, para ouvir qual a penitência recebida, e assim, valorar numa escala, somente nossa, o grau de pecador do nosso amigo. Não era muito diferente a forma de estar naquela tarde da forma vivida, anos mais tarde, à saída de um exame ou quando a nota desse exame era afixada, pelo que, digo eu agora, a catequese não era sentida por nós, por mim pelo menos não o era, diferente das aulas dadas no banco da escola. Fazia parte do aprender e da vivência em comunidade e jamais em momento algum equacionaria a validade e o porquê da minha participação.
A noite seguinte foi de insónia e de alguns pesadelos. Sabia que a hóstia que iria receber no dia seguinte não poderia tocar, em caso algum, nem que ao de leve fosse, nos dentes. E, esse sim, seria para mim e provavelmente para todos o oitavo pecado capital. Não sei se este aspecto foi muito marcado na preparação da comunhão, ou se fui eu que assimilei essa proibição como pecado imperdoável. Porém, o não poder tocar com a hóstia nos dentes sempre me deixou intrigado e ainda hoje não descobri o porquê.
Do dia da cerimónia nada me lembro, pelo que pressuponho que o dia tenha corrido como previsto – fita no braço e compenetrado na tarefa, não devo ter cometido qualquer pecado assinalável.
Fui crescendo, tornei-me adulto e as discussões sobre deus e sobre a Bíblia foram acontecendo, umas vezes mais acaloradas outras vezes mais indiferentes, pelo que deus nunca deixou de estar presente, mesmo incluindo-me eu no grupo dos ateus. A presença do divino, mesmo para um ateu com formação religiosa é constante, nem que seja para o contradizer.
A Bíblia só a desfolhei, para além das passagens lidas e ouvidas na missa ou nos bancos da catequese, já adulto e na faculdade. Reconheço ser um livro fascinante e de uma riqueza literária e histórica enorme. Um livro que pertence à literatura mundial, e vejo-o como fonte de estudos históricos para além de fonte de inspiração espiritual. Alguns dos conflitos ainda hoje existentes têm eco nas suas páginas – não podemos esquecer «a terra prometida» a Abraão e as suas consequências e condicionalismos no comportamento de Israel ao longo dos tempos. Não sendo crente não partilho do ponto de vista cristão de que os seus livros foram escritos sob a inspiração directa de deus, não podendo por isso fazer uma leitura literal mas sim simbólica dos mesmos, na forma de relatar e explicar acontecimentos e factos históricos, ou de transmitir normas, valores e comportamentos sociais para aquela época.
Não tenho dúvida alguma, no seguimento do que diz Saramago, que a bíblia nos apresenta um deus violento e injusto, que provoca a ira e faz irmão matar irmão, deus este descrito essencialmente no velho testamento, mas também nos apresenta um deus do bem, um deus misericordioso e do perdão que dá a outra face quando lhe batem, descrito no novo testamento. No fundo a Bíblia dá-nos:
– Um Deus feito à semelhança do Homem – por isso tão complexo e fascinante.
E, é por ser complexo e fascinante que ainda hoje crentes e não crentes o discutem e surgem polémicas iguais às que actualmente temos vivido
Sobre esta problemática acho interessante ler o livro escrito por Jack Miles (ex-jesuíta) – «Deus Uma Biografia» editado pela Editorial Presença, cujo tema principal é «acerca do senhor deus enquanto protagonista de uma obra clássica da literatura universal». Esta personagem literária baseada no antigo testamento que Miles leu sem a mediação da igreja, revela-nos deus como uma amálgama de personalidades variadas, concentradas numa única personagem.
Para quem o desejar fazer – boa leitura.
«Largo de Alcanizes», opinião de José Manuel Monteiro

jose.m.monteiro@netcabo.pt

É por uma estrada sinuosa, por entre montes e vales, que se chega às portas da aldeia-fortaleza medieval de nome Castelo Mendo. Estamos no distrito da Guarda e mais concretamente, no concelho de Almeida.

José MorgadoCASTELO MENDO – Chegando ao portal da muralha, somos recebidos por dois berrões que ladeiam a entrada, figuras monolíticas originárias da cultura celta. E há séculos que ali repousam, testemunhando o lento passo do tempo, numa terra, hoje, quase abandonada. Realmente, pouco mais de uma centena de pessoas ainda vive em Castelo de Mendo. Por triste que isso pareça, talvez o seu isolamento e desertificação tenham mantido este lugar igual a si próprio. Uma jóia perdida na montanha. As ruas desertas e as casas abandonadas dão-nos uma estranha sensação de intemporalidade.
A freguesia de Castelo de Mendo situa-se na margem esquerda do rio Côa, a cerca de 20 quilómetros da sede do concelho e é constituída pelas povoações de Castelo de Mendo e Paraizal, onde existe um velho e antigo relógio de sol.
A sua história é riquíssima, tendo sido cabeça de um concelho de grande importância, que dominava uma vasta área. O poder de outrora é ainda visível na actual povoação. É hoje uma fortaleza-museu. Vestígios de antigas estradas, cerâmicas e moedas provam a antiga importância da região, mesmo antes da chegada dos romanos, que encontraram aqui um antigo castro bem fortificado.
Castelo MendoNa Reconquista Cristã, Castelo de Mendo foi de crucial importância para a defesa das terras da margem esquerda do Côa. Daí à reconstrução do castelo foi um pequeno passo. D. Sancho II daria carta de foral a Castelo de Mendo em 15 de Março de 1229. Na mesma altura é criada uma feira franca, a realizar três vezes por ano. Foi a primeira feira medieval documentada do país.
Ponto de interesse nesta visita cultural é, o pelourinho manuelino de gaiola e colunelos e a mutilada Igreja Matriz.
A descrição feita por José Saramago em «Viagem a Portugal» não poderia ser mais fiel: «A primeira paragem do dia é em Castelo Mendo. Vista de lado é uma fortaleza, vila toda rodeada de muralhas, com dois torreões na entrada principal. Vista de perto é tudo isto ainda, mais um grande abandono, uma melancolia de cidade morta.
Vila, cidade, aldeia. Não se sabe bem como classificar uma povoação que tudo isto tem e conserva.
O viajante deu uma rápida volta, foi ao antigo tribunal, que na altura estava em restauro e só para mostrar as barrigudas colunas do alpendre, entrou na igreja e saiu, viu o alto pelourinho, e desta vez não foi capaz de dirigir palavra a alguém. Havia velhas sentadas às portas, mas em tão grande tristeza que o viajante deu em sentir embaraços de consciência. Retirou-se, olhou os arruinados berrões que guardam a entrada grande da muralha, e seguiu caminho.»
«Terras entre Côa e Raia», opinião de José Morgado

morgadio46@gmail.com

O escritor José Saramago vai iniciar esta quinta-feira, 18 de Junho, a partir de Lisboa o percurso de Salomão, no seu mais recente livro «Viagem do Elefante», rumo à fronteira luso-espanhola. O convite partiu da Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo que viu o nome da localidade destacado na obra do Prémio Nobel. O trajecto do elefante Salomão incluiu, também, Sortelha e Sabugal na sua longa viagem até à corte austríaca.

A leitura atenta do livro «A viagem do elefante», onde Figueira de Castelo Rodrigo ocupava lugar de destaque, levou a Câmara Municipal local a convidar o Prémio Nobel da Literatura, José Saramago, para uma visita à aldeia histórica.
De acordo com informações do município de Castelo Rodrigo à Agência Lusa, José Saramago aceitou o repto e deverá chegar a Castelo Rodrigo, ruínas do Palácio Cristóvão de Moura, cerca das 17.30 horas desta quinta-feira, para aí pernoitar. No dia seguinte o escritor seguirá a rota da «A Viagem do Elefante» com destino a Valladolid.
Segundo a Fundação José Saramago, o autor elaborou um itinerário pela «rota portuguesa de Salomão», que parte de Lisboa (Belém) no dia 18 de Junho, e passa por Constância, Castelo Novo, Fundão, Sortelha, Sabugal, Cidadelhe e Figueira de Castelo Rodrigo.
A ideia para o romance, ou conto como lhe prefere chamar o autor, surgiu de um acaso. Quando estava num restaurante em Salzburgo, chamado «O Elefante», José Saramago reparou numa pequena escultura em madeira da Torre de Belém e é informado que tal se deve ao registo de um itinerário feito por um elefante, que em 1551 foi de Lisboa a Viena como oferta do rei D. João III ao seu primo, o arquiduque Maximiliano da Áustria, genro do imperador Carlos V. O animal vindo da Índia estava há dois anos em Lisboa, mais propriamente em Belém, e era desconhecido da maior parte dos europeus.
E é com base nesses escassos elementos e na sua poderosa imaginação que José Saramago desenvolve a sua mais recente obra «A Viagem do Elefante», escrita em condições de saúde muito precárias.
«[Contei esta história] em primeiro lugar, porque me apeteceu, e em segundo lugar, porque, no fundo (se quisermos entendê-la assim, e é assim que a entendo) é uma metáfora da vida humana», disse Saramago à agência Lusa. «Este elefante que tem de andar milhares de quilómetros para chegar de Lisboa a Viena morreu um ano depois da chegada e, além de o terem esfolado, cortaram-lhe as patas dianteiras e com elas fizeram uns recipientes para pôr os guarda-chuvas, as bengalas, essas coisas», referiu.
Em epígrafe, Saramago escreve: «Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam.» Esse sítio é a morte, explicaria mais tarde.
jcl

José Saramago passou pelo Sabugal nos finais da década de 1970, como já o referiu neste blogue o cronista José Robalo, numa das suas sublimes crónicas semanais. O escritor calcorreava o País, tomando as notas que dariam origem ao seu livro «Viagem a Portugal», e o que verdadeiramente o fez vir ao Sabugal foi o propósito de admirar os ex-votos depositados na capela da Senhora da Graça.

Saramago chegou ao Sabugal ao fim de uma manhã. Como ele mesmo escreveu, vinha na mira dos ex-votos populares do Século XVIII, buscando-os na ermida de Nossa Senhora da Graça, onde era suposto estarem. Contudo o Ti Simão, mais conhecido por Ti Ratinho, guarda do santuário, não lhe soube dizer onde estavam, contentando-se o viajante com uma breve visita à capela nova, que achou de «espectacular mau gosto». O viajante almoçou no Sabugal. Não se sabe o restaurante que o acolheu, contudo, foi em local central, porque deixou nova nota de reparo: «nada mais viu que o geral aspecto duma vila ruidosa que vai para a feira ou vem de feirar». Desiludido com o Sabugal rumou à Guarda, onde tinha alojamento.
Os afamados ex-votos que José Saramago procurou e não encontrou, existem de facto, e são verdadeiras obras-primas. Quando Saramago veio ao santuário, não revelando a conselho de quem, as peças estariam depositadas na sacristia da capela velha, degradadas e amontoadas a um canto. De pouco lhe valeria tê-las examinado, e talvez fosse isso que levou o guardião a dizer que desconhecia o seu paradeiro.
Dos painéis dedicados à Senhora da Graça, analisemos um deles, que no presente se encontra exposto na capela do santuário. Trata-se de uma tela pintada a óleo, datada de 25 de Maio de 1760, pela qual se agradece o milagre que Nossa Senhora da Graça concedeu a uma religiosa, afectada com um cancro num peito, despedida pelos médicos, mas que foi salva pela intervenção divina.
O quadro é obra de artista. Em baixo representa-se a paciente, amparada e consolada pelas enfermeiras que dela cuidam. Ao lado os médicos com ar de desalento, seguros de que a ciência já nada pode fazer para salvar a doente. Numa mesa coberta com vistosa toalha, repousam os frascos de remédios e demais instrumentos da medicina. Fixadas na parede do quarto estão representações da Virgem e do Sagrado Coração, um espelho e um ramo de flores. Em cima, do lado esquerdo, sob um claustro gradeado representa-se um grupo de sete religiosas rezando à Virgem pela salvação da irmã doente. No canto superior direito está uma nuvem contendo no interior uma comovente representação de Nossa Senhora da Graça, de túnica branca e manto azul ferrete, com o Menino Deus no regaço. À sua volta seis querubins fazem-lhe escolta, concedendo-lhe especial encanto. Em rodapé a legenda em português vernáculo, explicando o milagre que Nossa Senhora concedeu à religiosa. A moldura de madeira, dum vivo azul celeste, dá ao quadro um magnífico efeito, ajudando a tecer o jogo das tonalidades que o compõem.
Os ex-votos de Nossa Senhora da Graça estão agora devidamente restaurados e expostos na capela do santuário graças à acção de uma mordomia, que decidiu recuperar estes importantes testemunhos da fé popular, autênticas obras-mestras da arte sacra. Pode agora vir o nosso Nobel visitar o santuário, que sem dúvida avistará o que na altura pretendeu ver mas que não lhe foi apresentado.
plb

JOAQUIM SAPINHO

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