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Teresa Duarte Reis - O Cheiro das Palavras - Capeia ArraianaMais uma vez, a Casa do Castelo nos surge como uma guardiã dos sussurros, da vida latente e da história de um povo como é o Povo Judeu, com a Apresentação de um livro «A República e os Judeus», do Professor Doutor Jorge Martins.

Pouco conhecedora da memória Sefardita, comecei por adquirir Breve história dos Judeus em Portugal, também do mesmo douto Professor, a fim de tomar alguns conhecimentos da história deste Povo que, todos sabemos quanto sofreu às mãos das correntes hitlerianas.
Os estudos do Professor Jorge Martins vão dar-nos s conhecer a história dos judeus e a maneira como ela faz parte da história de Portugal. Talvez nos surpreendamos os que, como eu pouco sabemos desta matéria, como também em Portugal não foi fácil ser judeu, tal como nos mostrou, de modo interessante, o actor Jorge Sequerra dramatizando a leitura dos textos do Professor.
Falando de judaísmo, não consigo fazê-lo sem pensar em Israel, um povo que sempre admirei, não só pela ligação à vida de Jesus mas também pelo sofrimento de tantos inocentes dessa região, em guerras constantes, longe da doutrina deixada pelo Mestre.
E lá vou eu à procura de algo que mostre como também gosto de pensar e abordar temas que tanto me surpreendem como me encantam.

ISRAEL

Alguém dizia… e escrevia
«Muita história
Tão pouca geografia»
E investigo sobre o Torah
O rabi, lugares onde há
Passagens de Jesus
Terra Santa
Em guerra constante.

Torah – livro Sagrado
Nos traz o que está contado
No Menorah candelabro
Como de sete semanas falasse
De pastor Jacob servia
E lembrar-nos de Maria
No seu sim sem hesitar
Abriu caminhos para a história
Duma igreja a se abrir
Como se o Shabbad apagasse
Para o Domingo surgir
Mas o Pessach não passou
Assim sempre nos lembrou
Que tudo é uma passagem
Tudo vem e tudo vai
E rezo ao Senhor Adonai.

«O Cheiro das Palavras», poesia de Teresa Duarte Reis
netitas19@gmail.com

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O historiador Jorge Martins esteve presente na Casa do Castelo, no Sabugal, no dia 7 de Novembro, para uma sessão de apresentação do seu mais recente livro « A República e os Judeus».

Jorge Martins - Natália Bispo - Casa do Castelo - Sabugal

A sessão de lançamento da obra «A República e os Judeus», do historiador Jorge Martins, teve lugar na Câmara Municipal de Lisboa, no dia 9 de Outubro e foi apresentado pelo pensador e filósofo Miguel Real, autor do prefácio.
No dia 7 de Novembro o escritor deslocou-se propositadamente ao Sabugal para fazer a apresentação do livro na Casa do Castelo. Jorge Martins considera-se «filho adoptivo do Sabugal» porque aquando da apresentação de outro dos seus livros, também na Casa do Castelo, desabafou que «era de Lisboa e por isso não podia dizer que tinha terra» foi presenteado por Natália Bispo com um saco de batatas e cebolas para levar para a capital. Também agora voltou para casa com dois lindos sacos – de batatas e de cebolas – ofertados pela dona da Casa do Castelo mantendo, assim, esta relação de amor às terras raianas do Sabugal.
A apresentação do livro – onde estiveram presentes muitos amigos da Casa do Castelo e personalidades ligadas à cultura e às artes – contou com a dramatização de alguns textos pelo actor Jorge Sequerra.
No dia 11 de Novembro, Jorge Martins deslocou-se ao Parlamento para mais uma sessão de lançamento do livro «A República e os Judeus», na Biblioteca da Assembleia da República. «Não podia deixar de realizar na Assembleia da República o lançamento de “A República e os Judeus”, pois aqui se proferiram discursos importantes a favor dos judeus, aquando da discussão do projecto de Lar Judaico em Angola», disse na ocasião.
Recorde-se, ainda, que Jorge Martins foi o moderador (3.º painel) e orador (4.º painel) no Congresso do 1.º Festival da Memória Sefardita que decorreu no início do mês de Novembro no TMG-Teatro Municipal da Guarda organizado pela Turismo Serra da Estrela. A sua intervenção sob o título «Os Judeus da Serra da Estrela nos processos da Inquisição» versou, especialmente, os judeus do Sabugal desde o século XVI até aos nossos dias.

Parabéns ao escritor Jorge Martins e à Casa do Castelo por mais esta oportunidade cultural.
jcl

O historiador Jorge Martins esteve presente na Casa do Castelo, no Sabugal, no dia 7 de Novembro, para uma sessão de apresentação do seu mais recente livro « A República e os Judeus».

GALERIA DE IMAGENS – «A REPÚBLICA E OS JUDEUS»  –  CASA DO CASTELO – 7-11-2010
Fotos Capeia Arraiana  –  Clique nas imagens para ampliar

jcl

Os congressistas da área do turismo do 1.º Festival Internacional da Memória Sefardita que decorreu na Guarda defenderam a criação de uma rede nacional de judiarias. A iniciativa, onde participou o historiador Jorge Martins, foi promovida pela entidade regional de Turismo Serra da Estrela juntou no TMG judeus e especialistas nacionais e estrangeiros.

Jorge Martins - TMG - Festival Sefardita

Os especialistas e operadores turísticos que participaram no painel «O impacto da herança judaica no turismo», reconheceram que Portugal poderá tirar partido das potencialidades de uma futura rede nacional de judiarias poderá atrair turistas no âmbito do denominado turismo religioso.
«A criação de uma rede de judiarias em Portugal é, sem dúvida, uma mola dinamizadora para o turismo, a economia e a investigação, e para a valorização da memória de Portugal», defendeu Isaac Assor, da Alegretur-Viagens e Turismo.
O operador turístico referiu que «o turismo é, nos dias de hoje, uma das molas impulsionadoras do desenvolvimento económico do país», reconhecendo que uma rede de judiarias criará um novo atrativo turístico para o país.
O historiador Jorge Martins, investigador do Instituto Universitário de Lisboa, foi moderador (3.º painel) e orador (4.º painel) onde apresentou dados que indicam a presença judaica em «todos os concelhos» da região que integram a TSE e considerou que «as Beiras são um altíssimo laboratório para os estudos judaicos». O estudo apresentado sobre a presença de judeus no concelho do Sabugal entre o século XVI e os nossos dias surpreendeu a plateia que acompanhou com muito interesse toda a exposição. Jorge Martins é autor de vários livros sobre a temática judaica e colaborador do «Capeia Arraiana».
«A rede de judiarias de Portugal vai ser muito importante para os turistas poderem conhecer o património judaico existente nas várias localidades», reconheceu o espanhol Antonio Amil, da rede nacional de judiarias de Espanha.
Carolino Tapadejo, coordenador da rede de turismo social da União das Misericórdias, exortou os autarcas e entidades com responsabilidade na área para que «apostem» neste segmento turístico.
O consultor internacional Jack Soifer anotou que o país possui «um grande potencial e uma riqueza cultural fantástica» e afirmou que só a região da Serra da Estrela poderá ganhar «300 milhões de euros a curto prazo», apostando, em força, no turismo dirigido aos judeus.
António Padeira, do Instituto de Turismo de Portugal, a herança judaica «é um produto que tem um público-alvo mas também pode interessar a outras pessoas, não como motivação principal da viagem mas como motivação complementar e que deve ser ainda mais desenvolvido em Portugal», admitiu, reconhecendo como aspecto positivo, a preparação da rede de judiarias.
Jorge Patrão, presidente da Turismo Serra da Estrela assumiu que o turismo judaico representa «um nicho de mercado que envolve 13 milhões de pessoas e pode ser uma ajuda para a saída da crise de muitos países”, defendendo ainda a necessidade da criação de «mais equipamentos para atingir esse nicho de mercado».
jcl (com agência Lusa)

Os congressistas da área do turismo do 1.º Festival Internacional da Memória Sefardita que decorreu na Guarda defenderam a criação de uma rede nacional de judiarias. A iniciativa, onde participou o historiador Jorge Martins, foi promovida pela entidade regional de Turismo Serra da Estrela juntou no TMG judeus e especialistas nacionais e estrangeiros.

GALERIA DE IMAGENS – FESTIVAL SEFARDITA –  1 A 7-11-2010
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jcl

«A República e os Judeus» é o mais recente livro do historiador Jorge Martins. Após o lançamento na Câmara Municipal de Lisboa o autor desloca-se ao Sabugal no dia 7 de Novembro para apresentar o livro na Casa do Castelo.

Jorge Martins - Casa do Castelo - Sabugal

«A República e os Judeus» é o mais recente livro editado pelo historiador Jorge Martins. A cerimónia de lançamento teve lugar na Câmara Municipal de Lisboa, no dia 17 de Outubro, com a apresentação a cargo de Miguel Real, autor do prefácio do livro e do actor Jorge Sequerra que fez a leitura dramatizada de textos da época da implantação da República.
«A capa de «A República e os Judeus» teve um percurso curioso» recorda Jorge Martins no seu blogue «Portugal e os Judeus» acrescentando que «o talentoso artista, Jorge Machado-Dias, que tem feito as capas dos meus livros editados na Vega, resolveu criar um blogue onde expõe o seu processo de criação, exibindo os projectos exploratórios até chegar à capa final». Como a ideia era associar os judeus à República a foto escolhida, publicada na revista Ilustração Portuguesa em 1915, mostra o presidente da República, Teófilo Braga e o seu secretário particular, o judeu Levy Bensabat (primeiro à direita).
O filósofo Miguel Real considerou no prefácio da obra: «Pelos seus livros publicados nomeadamente os 3 volumes de Portugal e os Judeus (2006) e a Breve História dos Judeus em Portugal (2009), Jorge Martins é hoje, indubitavelmente, o maior historiador português vivo do judaísmo. Não é de admirar, assim, que, em harmonia com as Comemorações do I Centenário da República, ora seja publicado o seu estudo A República e os Judeus (…)
No século XX, especialmente no tempo da I República, são exemplarmente estudados e realçados os casos dos projectos de colonização judaica de Moçambique e de Angola, que teriam mudado radicalmente a face económica e religiosa destas colónias portuguesas, elevando em muito o seu peso estratégico internacional, alterando porventura a totalidade subsequente da história portuguesa deste século (…)
Se, por via da política do confronto directo com as instituições católicas, existe claramente uma “questão religiosa” na I República, não existe, como o estudo de Jorge Martins o prova com clareza, uma “questão religiosa” com as comunidades judaicas portuguesas. Não existe, portanto, uma “questão judaica” na I República.
Um livro de aconselhável leitura no ano do 100º aniversário da implantação da República.»
Cerca de um ano depois, no dia 7 de Novembro, o autor desloca-se ao Sabugal para apresentar mais um livro na livro na Casa do Castelo. Recorde-se que a 17 de Outubro de 2009 apresentou em sessão pública, também na Casa do Castelo, o livro «Breve História dos Judeus em Portugal» e lançou o desejo de juntar vontades para proporcionar o estudo e divulgação dos vestígios judaicos no Sabugal assim como o lançamento das bases de um roteiro judaico para o território raiano.
O historiador Jorge Martins é um dos congressistas do I Festival Internacional da Memória Sefardita organizado pela Turismo Serra da Estrela entre os dias 1 e 7 de Novembro. Na manhã de quinta-feira, dia 4, no TMG-Teatro Municipal da Guarda o especialista em história judaica será o moderador do 3.º painel intitulado «A fronteira da vida de Aristides de Sousa Mendes» e participará como orador no 4.º painel «O Impacto da herança Judaica no Turismo» onde falará dos Judeus do Sabugal.
jcl

O historiador Jorge Martins publicou em tempos de comemorações centenárias mais um livro intitulado «A República e os Judeus». O autor recorda no jornal «Público» que com a República «os judeus tinham vida pública e não se escondiam na sinagoga como seres exóticos e marginais».

«A República e os Judeus» - Jorge Martins

O historiador Jorge Martins dispensa apresentações. Escritor e cronista no Capeia Arraiana fez coincidir o lançamento de mais um livro sobre a história dos judeus com as comemorações do Centenário da República que vão acontecendo um pouco por todo o País.
No jornal «Público» escreveu, recentemente, um artigo intitulado «A 1.ª República – A conquista da cidadania» do qual publicamos um excerto:
«A Comunidade Israelita de Lisboa (CIL) obteria a sua legalização a 9 de Maio de 1912, através de um alvará do Governo Civil de Lisboa. Como o regime republicano facilitava a reorganização da CIL, foram criadas várias instituições: o Boletim (1912); a Associação de Estudos Hebraicos Ubá-le-Sion (1912), organização cultural sionista; a Biblioteca Israelita (1914); o Albergue Israelita (1916), antecessor do Hospital Israelita; a Federação Sionista de Portugal (1920); a associação Malakah Sionith (1915), fundada por Barros Basto no Porto; a Escola Israelita (1922), obra de Adolfo Benarus; o Hehaver (1925), organização juvenil sionista, que desempenharia importante acção de apoio aos refugiados durante a 2.ª Guerra Mundial.
A República também veio criar condições favoráveis à descoberta do fenómeno criptojudaico nas Beiras e Trás-os-Montes. Foi o judeu polaco e engenheiro de minas Samuel Schwarz, contratado em 1915 para vir trabalhar em Portugal, quem desencadeou a chamada «Obra do Resgate», dirigida, a partir de 1926, pelo capitão Barros Basto, republicano “dos quatro costados”, o responsável pelo ressurgimento e legalização da Comunidade Israelita do Porto em 1923, a construção da sinagoga Mekor Haim («Fonte da Vida»), inaugurada em 1938 e a fundação de várias comunidades judaicas (27 entre 1924 e 1934).» (excerto do artigo de Jorge Martins no jornal «Público».)
O excelente prefácio do livro, assinado por Miguel Real, aconselha à leitura da obra pela importância das suas investigações históricas:
«Pelos seus livros publicados, nomeadamente os três volumes de «Portugal e os Judeus» (2006) e a «Breve História dos Judeus em Portugal» (2009), Jorge Martins é hoje, indubitavelmente, o maior historiador português vivo do judaísmo. Não é de admirar, assim, que, em harmonia com as Comemorações do I Centenário da República, ora seja publicado o seu estudo «A República e os Judeus» (…)
No século XX, especialmente no tempo da I República, são exemplarmente estudados e realçados os casos dos projectos de colonização judaica de Moçambique e de Angola, que teriam mudado radicalmente a face económica e religiosa destas colónias portuguesas, elevando em muito o seu peso estratégico internacional, alterando porventura a totalidade subsequente da história portuguesa deste século (…)
Se, por via da política do confronto directo com as instituições católicas, existe claramente uma questão religiosa na I República, não existe, como o estudo de Jorge Martins o prova com clareza, uma questão religiosa com as comunidades judaicas portuguesas. Não existe, portanto, uma questão judaica na I República.
Um livro de aconselhável leitura nos 100 anos do aniversário da implantação da República.» (Prefácio de Miguel Real.)

Jorge Martins é professor, investigador do Centro de Estudos de História Contemporânea Portuguesa do ISCTE e cronista no Capeia Arraiana.

O Capeia Arraiana dá os parabéns a Jorge Martins por mais uma obra indispensável na História de Portugal.
jcl

Os «Serões da Beira» que decorreram no dia 20 de Fevereiro no Hotel de Turismo de Trancoso tiveram como tema: «Os Judeus nas Beiras através dos Tempos».

GALERIA DE IMAGENS – 20-2-2010
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A Casa do Castelo foi honrosamente convidada pela Câmara Municipal de Trancoso para participar nos «Serões da Beira» cujo tema foi «A presença da comunidade Judaica nas Beiras».

Serões da Beira - Trancoso - Beira AltaO facto de na Casa do Castelo existir um importante vestígio arqueológico que atesta a importância da comunidade judaica que existiu no Sabugal na Idade Média, foi razão para esta participação.
Foi uma oportunidade para trocar impressões e aprender com individualidades e entidades públicas que nas áreas da História, Religião e Gestão do Património intervêm. Todos reconhecem o importantíssimo património que esta nossa região possui e a necessidade de aprofundar os estudos no que a esta matéria diz respeito.
A Casa do Castelo entregou a alguns dos presentes um dossier que continha uma compilação de documentos e estudos realizados no Sabugal, onde se incluía a importantíssima colaboração do Professor Jorge Martins.
O Professor Jorge Martins tem contribuído com estudos sobre a comunidade Judaica do Sabugal e, tem disponibilizado com metodologia cientifica no Capeia Arraiana, conteúdos que sem duvida acrescentam valor ao nosso património, que importa preservar, estudar e divulgar.
Para alguns dos presentes, que já conheciam a Casa do Castelo foi o reencontrar de amigos que reconhecem o valor do vestígio arqueológico existente na Casa do Castelo no Sabugal, para outros estudiosos da matéria foi uma oportunidade de dar a conhecer o Sabugal, alguma da sua história e despertar o interesse para que haja mais cientistas a dedicar algum do seu tempo a estudar o nosso património.
Durante a tarde e noite do primeiro dia, foi possível assistir a diversas conferencias proferidas por ilustres oradores, que constituíram para os presentes a oportunidade de aprender e ou consolidar conhecimentos sobre as comunidades Judaicas na nossa região. Foi sem duvida uma excelente introdução para as actividades propostas pela organização para o dia seguinte.
Foi ainda com as palavras proferidas nas conferencias e tertúlias do dia anterior nos ouvidos, que no segundo dia nos foi proporcionada uma visita guiada por Trancoso onde podemos observar e interpretar com a preciosa ajuda de especialistas, muitos dos vestígios que Trancoso orgulhosamente exibe a quem os visita.
Foi possível constatar que muitos dos vestígios observados são idênticos aos que podemos encontrar no Sabugal, em Sortelha, em Vilar Maior e em muitos outros locais do concelho do Sabugal.
Durante a visita houve ainda a oportunidade de ver a Capela erigida em homenagem ao casamento do Rei D. Diniz com a Rainha Santa Isabel, tendo na altura sido aventada a possibilidade de estabelecer parcerias entre Trancoso e o Sabugal, uma vez que se foi em Trancoso que estes nossos Reis casaram, foi no Sabugal que o milagre que faria da Rainha Santa, aconteceu.
Ao longo de dois dias foi possível participar num evento que sem duvida foi enriquecedor do ponto de vista histórico e cultural, mas foi tambem possivel dar a conhecer algum do património que o Sabugal possui a individualidades e investigadores que se dedicam a estudar a história da nossa região. Para alguns foi o despertar para a surpreendentemente rica história que o património do Sabugal encerra.
Esta participação da Casa do Castelo veio consolidar a certeza de que temos muito caminho para desbravar, acreditamos que após esta participação e a divulgação que foi feita, mais cientistas terão no Sabugal razões como as do Professor Jorge Martins para se debruçarem sobre a história que o nosso importante património encerra.
A Casa do Castelo será sempre uma porta aberta e, à boa maneira Arraiana, uma mesa posta para quem tem a gentileza de nos enriquecer com o seu contributo e saber.
A todos os organizadores e participantes dos «Serões da Beira» em Trancoso, em nome da Casa do Castelo, quero agradecer estes dois dias tão enriquecedores e a oportunidade de conhecer ou rever pessoas que se interessam pela história e património do nosso povo.
Natália Bispo

Jorge MartinsConcluído que está o primeiro estudo estatístico a partir das fichas dos processos inquisitoriais dos réus naturais ou residentes no Sabugal, vamos agora entrar numa fase mais morosa, mas mais elucidativa da leitura do conteúdo dos processos.

Estamos convictos de que a leitura dos processos nos poderá ajudar, entre outras informações, a localizar a judiaria do Sabugal e confirmar a existência de uma Arca Sagrada – Aron Hakodesh ou Ekhal (designação ibérica) – na Casa do Castelo, corroborada por vários investigadores, designadamente por uma delegação israelita que a visitou recentemente.

Arca Sagrada - Aron Hakodesh - Casa do Castelo - Sabugal

De facto, seria da maior importância para a criação de um Roteiro dos Judeus do Sabugal – integrado num Roteiro dos Judeus das Beiras – a validação, pela via documental, da Arca Sagrada da Casa do Castelo. Desse modo, teríamos um importantíssimo ponto de apoio para o Roteiro dos Judeus do Sabugal e uma belíssima peça, conservada pela Casa do Castelo, como pólo de referência, caso se confirme também que aquela habitação era um local de culto, privado ou comunitário. Isto poderia querer significar que a Casa do Castelo faria parte da judiaria do Sabugal.
Convém ter em conta que, após a expulsão / baptismo forçado dos judeus (1496/1497), as comunidades judaicas portuguesas se extinguiram, dispersaram ou reorganizaram noutros locais mais próximos, agora na forma criptojudaica. Já sabemos que os réus sabugalenses da Inquisição se dispersaram pelas Beiras, praticamente por concelhos próximos do Sabugal. Em consequência, é possível que tenham mantido locais secretos de culto no próprio Sabugal.
A escolha dos processos inquisitoriais incidirá, pois, numa primeira fase, nos que se referem aos réus residentes na vila do Sabugal quando da sua prisão. Deste modo, pretendemos encontrar moradas e, a partir delas, conhecer os locais das práticas judaicas. Assim, deixamos para outra fase os processos referentes a réus residentes noutras localidades do concelho. De seguida, serão estudados os processos dos réus naturais do Sabugal, mas residentes noutros concelhos.
Dos 37 processos referentes a réus identificados como residentes na vila do Sabugal, vamos estudar 12, que estão digitalizados pela Torre do Tombo. Todos eles estão acusados de judaísmo.

Quadro

Como facilmente se depreende, esta fase irá demorar meses e implicará a interrupção desta primeira série de artigos no Capeia Arraiana. Regressaremos quando tivermos dados concludentes sobre os objectivos pretendidos e acima enunciados.
Até breve!
«Na Rota dos Judeus do Sabugal», opinião de Jorge Martins

martinscjorge@gmail.com

Jorge MartinsNUNES – LIGAÇÕES A OUTRAS FAMÍLIAS – Os Nunes são o terceiro apelido mais representado entre os réus sabugalenses. Se, como vimos, os outros dois apelidos mais numerosos – os Rodrigues e os Henriques – se cruzaram entre eles, verificamos que os Nunes também se misturaram com aquelas duas grandes famílias judaicas do Sabugal.

Contudo, ao contrário dos Rodrigues e dos Henriques, mais cedo os Nunes começam a ser presos no Sabugal. Se entre 1560 e 1665, os réus nascidos no Sabugal acabaram presos noutros concelhos: Guarda (4), Fundão (2), Sabugal (2), Trancoso (1), Penamacor (1), Seia (1), Lisboa (1). A partir de 1670 e até 1745, os réus começam a ser presos no Sabugal, 6 dos quais nascidos no próprio concelho, o que revela a aposta no regresso às origens. Eis a listagem dos concelhos onde foram presos nesse período, com um destaque significativamente desmesurado par o Sabugal, com 21 réus, seguidos do Rio de Janeiro (4), Guarda (1) e Pinhel (1).

Quadro 1 - Família Nunes - Sabugal - Jorge Martins

Quadro 1 - Família Nunes - Sabugal - Jorge Martins

De sublinhar a diáspora dos Nunes para o Brasil, caso singular entre os réus sabugalenses. É um caso a estudar. Também vale a pena referir o elevado número de réus naturais da Guarda (6) e de Pinhel (4), pois são concelhos da região beirã bem identificados nas deslocações dos judeus sabugalenses.


CONCELHOS BEIRÕES DAS PRISÕES DOS NUNES
MAPA 1 – ENTRE 1560 E 1665 MAPA 2 – ENTRE 1670 E 1745

Como se vê, as Beiras também são a região preferida das deslocações dos réus sabugalenses. De facto, não se afastam muito e regressam ao Sabugal com o decorrer do tempo. Por outras palavras, os primeiros réus presos não haviam nascido no Sabugal, mas, um século depois, começariam a ser presos nesse concelho.
Através dos processos inquisitoriais podemos constatar que, pelo menos desde os finais do século XVI, os Henriques se misturaram com os Nunes: a ré Leonor Henriques, presa em 1616, era filha de Duarte Henrique e Beatriz Nunes. Quanto aos Rodrigues, cruzaram-se com os Nunes pelo menos desde meados do século XVII, pois o réu Diogo Rodrigues da Costa, preso em 1660, era, nessa data, viúvo de Serafina Nunes. Nesse mesmo ano, encontramos o primeiro cruzamento dos Rodrigues com os Henriques: o réu Jorge Rodrigues Dias era casado com Ana Simoa Henriques e era filho de António Rodrigues Dias e Brites Henriques. As três famílias fundem os laços matrimoniais – de acordo com os dados dos processos – em 1661: a ré Maria Henriques era casada com Simão Rodrigues Aires e era filha de Jerónimo Henriques e Filipa Nunes.
Em conclusão, pelo menos cerca de um século após a introdução da Inquisição em Portugal, as principais famílias judaicas nascidas ou/e residentes no Sabugal já estavam ligadas por laços matrimoniais. Esta situação persistiu até meados do século XVIII, data de que possuímos dados sobre processos inquisitoriais. Contudo, esta realidade certamente entrou pelo século XIX e, quiçá, ainda hoje se encontrarão, no Sabugal e em outros concelhos beirões, essa mistura de ancestrais famílias judaicas. Acresce recordar que a partir de 1765 deixou de haver processos inquisitoriais com acusações de práticas judaizantes. A isso não foi alheia a acção da legislação pombalina, que referimos anteriormente.
«Na Rota dos Judeus do Sabugal», opinião de Jorge Martins

martinscjorge@gmail.com

Jorge MartinsRODRIGUES – A MAIOR FAMÍLIA SABUGALENSE – Tal como para os Henriques, podemos estabelecer dois períodos para os Rodrigues. O primeiro, entre 1544 e 1704, em que os réus naturais do Sabugal acabariam presos fora do concelho de nascimento. E o segundo, entre 1704 e 1752, em que os réus presos no Sabugal nasceram sobretudo noutros concelhos, mas alguns deles já haviam nascido no concelho, o que revela algum regresso dos Rodrigues ao Sabugal.

Com efeito, entre 1544 e 1704, os Rodrigues nascidos fora do Sabugal foram presos em Pinhel (3), Penamacor (2), Almeida (1), Guarda (1). Entre 1704 e 1752, os Rodrigues naturais do Sabugal foram presos no próprio concelho (6), na Guarda (7), na Covilhã (2), em Viseu (2), no Rio de Janeiro (1), em Seia (1), no Fundão (1), em Miranda (1), em Beja (1), em Lisboa (1), em Tavira (1), em Valladolid (1), na Galiza (1).

Quadro 1

Quadro 2

No primeiro período (até início do século XVIII), as prisões dos descendentes do Sabugal ocorreram apenas em concelhos das Beiras, mas nenhum deles foi preso no próprio Sabugal. Já na primeira a metade do século XVIII, a maioria dos Rodrigues nascidos fora do Sabugal acabariam presos nas Beiras, particularmente na Guarda e no próprio Sabugal. Confirma-se, como para os Henriques, o regresso dos judeus de apelido Rodrigues ao Sabugal.

CONCELHOS BEIRÕES DAS PRISÕES DOS RODRIGUES
MAPA 1 – ENTRE 1544 E 1704 MAPA 2 – ENTRE 1704 E 1752

Também aqui se verifica que as Beiras são o local predilecto de acolhimento dos Rodrigues. Os mapas permitem observar a importância dos (actuais) concelhos das Beiras para aquelas famílias, do mesmo modo que para os Henriques, como vimos na crónica anterior. Em conclusão, os réus da Inquisição portadores dos apelidos Rodrigues e Henriques não se afastaram das Beiras.
Já tínhamos visto que o cruzamento mais frequente dos Henriques tinha sido com os Rodrigues. Para além daqueles, os Rodrigues, tal como os Henriques, misturaram-se em segundo lugar com as famílias de apelido Nunes (9), seguidos dos Lopes (6), Vaz (3), Álvares, Mendes, Dias e vários outros, episodicamente. Confirma-se, portanto, que não só as famílias Rodrigues, Henriques e Nunes são as mais numerosas entre os réus sabugalenses, como se cruzaram entre elas ao longo dos séculos, criando uma grande família judaica de criptojudeus do Sabugal.
Também foi possível traçar uma genealogia provisória de um dos ramos da família Rodrigues, como se pode constatar abaixo.

GRÁFICO – GENEALOGIA PROVISÓRIA DE UM RAMO DOS RODRIGUES

Nota: Entre parêntesis os anos das prisões e as idades nessas datas

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«Na Rota dos Judeus do Sabugal», opinião de Jorge Martins
martinscjorge@gmail.com

Jorge MartinsA SAGA BEIRÃ DOS HENRIQUES – Apesar da insuficiência dos dados de que dispomos neste momento percebe-se já que as famílias judaicas do concelho do Sabugal se cruzaram. Na verdade, a conhecida prática endogâmica das comunidades judaicas ajuda-nos a perceber melhor como se organizaram, movimentaram e resistiram os2 judeus às perseguições inquisitoriais. No Sabugal não terá sido diferente do resto do país.

Com efeito, as Beiras e Trás-os-Montes são autênticos laboratórios de investigação da história do criptojudaísmo. Aliás, é muito provável que as Beiras constituam a principal referência para os estudos judaicos durante o período de vigência dos tribunais do Santo Ofício (Lisboa, Coimbra, Évora), entre 1536 e 1821.
Atendendo às referidas insuficiências de dados, escolhemos as duas grandes famílias judaicas do Sabugal: os Henriques e os Rodrigues, como vimos anteriormente. Obviamente, há que ter em conta que estamos a falar apenas daqueles que caíram nas malhas da Inquisição, o que deixa de fora os que podem ter saído incólumes, ou os que tenham emigrado.
Começamos com os Henriques. Cruzando os locais de nascimento desta grande família judaica do Sabugal com os locais de residência quando foram presos, veremos melhor os seus percursos, quer por fuga à Inquisição, quer por alastramento da sua presença na região das Beiras, por razões familiares (casamentos) ou profissionais (actividades comerciais).

Quadro 1

Quadro 2

Ao observar o quadro, constatamos que podemos estabelecer dois grandes períodos para os Henriques. O primeiro, entre 1565 e 1725, em que os portadores daquele apelido nascidos no Sabugal acabaram presos pela Inquisição no próprio Sabugal (5), na Guarda (4), no Fundão (2), em Almeida (1), em Seia (1), em Santarém (1), nos Açores (1), na Galiza (1), no Brasil (1). Podemos concluir que os judeus, depois de algumas prisões de sabugalenses no próprio Sabugal, fugiram da sua terra natal para se fixarem noutros concelhos, principalmente na região das Beiras.
No período seguinte, entre 1725 e 1752, os Henriques nascidos noutros concelhos viriam a ser presos no Sabugal, naturais de Almeida (7), de Pinhel (6), de Penamacor (3), do Sabugal (2), Guarda (1), de Idanha-a-Nova (1), do Fundão (1), de Faro (1).
De facto, observa-se o percurso inverso, ou seja, um certo regresso ao Sabugal. Em todo o caso, foram menos os Henriques naturais do Sabugal a serem presos no seu próprio concelho (2) do que no período anterior (5).

CONCELHOS BEIRÕES DAS PRISÕES DOS HENRIQUES
MAPA 1 – ENTRE 1565 E 1725 MAPA 2 – ENTRE 1725 E 1752

Em suma, as deslocações dos Henriques – todos eles acusados de judaísmo – quase que se circunscreveram às Beiras ao longo de quase dois séculos de perseguições inquisitoriais (1565-1752), como se pode verificar nos mapas seguintes.
Quanto aos cruzamentos, por casamentos, dos Henriques com outras famílias judaicas, destacam-se os Rodrigues, com 13 ligações familiares, seguida dos Nunes, com 11 e de uma diversidade enorme de outras famílias, embora com diminuta representatividade, tais como: Almeida, Magalhães, Costa, Gonçalves, Mercado, Cunha, Solla. Com estas ligações, temos um alargamento da grande família judaica das Beiras em geral e do Sabugal em particular.
Para investigação futura, aqui fica uma genealogia provisória, muito incompleta certamente, de um dos ramos da família Henriques, com os anos de prisão dos réus identificados.


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«Na Rota dos Judeus do Sabugal», opinião de Jorge Martins
martinscjorge@gmail.com

Jorge MartinsAS SENTENÇAS INQUISITORIAIS – A apreciação das sentenças proferidas pelos tribunais da Inquisição pode ajudar-nos a traçar o panorama da acção do Santo Ofício no concelho do Sabugal.

Recordem-se, no entanto, duas contingências com que confrontavam os réus nesta matéria:
1) o advogado de defesa era escolhido pela própria Inquisição e, em consequência, era mais um denunciante dos indefesos réus;
2) o confisco dos bens dos réus era uma fonte de rendimento fundamental para aquele tribunal, pelo que importaria menos que as penas aplicadas fossem muito violentas, do que a apropriação de bens.

SENTENÇAS
SENTENÇAS H M AJ OA TOTAIS
Absolvição 1 1 1
Admoestação 1 1 1 1 2
Cárcere e Hábito 14 26 40 40
Degredo 9 3 6 9
Falecimentos no cárcere 6 6

6
Falecimentos no hospital 1 1 1
Penitências espirituais 4 3 7 7
Perdão Geral 1 1 1
Proibição de Ordens 1 1 1
Reconciliados 1 1 1
Relaxados 1 1 2 2
Residência Fixa 1 1 1
Segredo 2 1 1 2
Soltura 17 15 25 7 32
Sentença Desconhecida 19 19 29 9 38

No actual estado de investigação não estamos em condições de analisar as sentenças de cerca de um quarto dos processos (38). Para os restantes três quartos de processos, sabemos que há um elevado número (40) de condenações ao cárcere e hábito, as mais das vezes perpétuo, seguido de perto pela sentença de soltura (32). Libertar muitos réus sem condenação a uma pena grave, que poderia ser a de simbólicas penitências espirituais, não se configura muito relevante, porque, entretanto, os seus bens haviam sido confiscados no momento da prisão e, por norma, já não seriam devolvidos, independentemente da sentença proferida.
Mesmo assim, ainda se verifica um número significativo de degredados, as mais das vezes para as inóspitas condições das colónias. Também se registaram 7 falecimentos (6 no cárcere e 1 no hospital) no decorrer dos processos. Isto deve-se, seguramente, às violentíssimas torturas de a que os presos eram sujeitos. Sabe-se que, durante a tortura, havia um médico a observar os réus, não para os proteger da violência e os tratar, mas para que não morressem em plena tortura, mas para que pudessem continuar a ser torturados.
A sentença mais grave era a de relaxados, que condenava os réus a morrer nas fogueiras, ateadas em locais públicos ventosos, atados a um poste alto, para que fossem lentamente consumidos pelas chamas. Geralmente, era perguntado aos condenados à fogueira, já atados ao poste, se preferiam morrer na fé judaica (ou outra não cristã) ou se convertiam, à hora da morte, ao cristianismo. Os que escolhiam a conversão eram garrotados (enforcados) primeiro e queimados depois. Os que não conseguiam abandonar o judaísmo, mesmo nesse terrível momento em que sabiam que iam morrer, eram queimados vivos, sofrendo durante horas, pois os órgãos vitais não eram logo atingidos, perante a população ululante.
Se agruparmos as sentenças em três níveis de dureza, verificamos as penas mais duras são em menor quantidade (18) e as mais leves em maior quantidade (48), ficando as restantes num nível intermédio (40). Para o nível mais duro, juntámos o degredo, o falecimento no hospital ou no cárcere e a sentença de relaxado. Para o nível intermédio, considerámos apenas o cárcere e hábito, que era muito usual nas sentenças, sendo muitas vezes considerado perpétuo e noutras reduzidas a um pequeno período. As restantes sentenças foram consideradas penas leves.
«Na Rota dos Judeus do Sabugal», opinião de Jorge Martins

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Jorge MartinsOS ANOS DAS PRISÕES INQUISITORIAIS – Os judeus sabugalenses desde cedo começaram a ser atormentados pela Inquisição. O primeiro processo data de 1544, oito anos após a introdução do Santo Ofício em Portugal e o último de 1795, numa altura em que aqueles tribunais religiosos já estavam em declínio.

Com efeito, se a Inquisição foi autorizada pelo Papa em 1536, o primeiro auto-de-fé realizou-se em Lisboa em 1540, para apenas quatro anos depois serem suspensos (1544-1548) pela Santa Sé, assim como o confisco de bens seria suspenso entre 1546 e 1558. Compreende-se assim a não existência de prisões no Sabugal durante 16 anos (1544-1560), pois, para a Inquisição, o mais importante era a fonte de rendimento que esses confiscos constituíam. Também se percebem os 21 anos sem prisões (1675-1696), pois a própria Inquisição foi suspensa pelo Papa entre 1674 e 1681.
Provavelmente, o maior período sem prisões (1634-1660) prender-se-á com a União Ibérica (1580-1640), período em que a Inquisição portuguesa terá sofrido a influência da Inquisição espanhola em decadência, aligeirando a sua acção em Portugal e muitos cristãos-novos se instalaram em terras do império espanhol e com mais facilidade no Brasil, designadamente em consequência da invasão e administração de territórios brasileiros pela Holanda entre 1624 e 1654, facultando aos judeus o livre culto.
A última prisão de um réu do Sabugal acusado de judaísmo ocorreu em 1773, justamente o ano da lei do Marquês de Pombal que pôs fim à distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos. Outro fenómeno curioso foi o da constatação de que nos primeiros cem anos de actividade da Inquisição as prisões terem ocorrido à baixa média de uma em cada três anos, mas nos cem anos seguintes terem triplicado para a média de um processo por ano.

Quadro 1-A

Quadro 1-B

Quadro 1-C

Quadro 1-D

Se fragmentarmos esse longo martírio da acção inquisitorial no concelho do Sabugal (1544-1795) em períodos de 50 anos, podemos ver melhor quais foram aqueles em que se concentraram as prisões. Entre 1544 e 1600 registaram-se 22 processos; entre 1601 e 1650, apenas 14; entre 1651 e 1700 subiram para 34; entre 1701 e 1750 registou-se o maior número: 65 e entre 1751 e 1795 o menor número: 6. Em suma, as prisões foram em maior número na segunda metade do século XVII e na primeira metade do século XVIII.

Quadro 2

Dos anos em que houve mais prisões no Sabugal, destacam-se o de 1745 (13), 1703 (12), 1670 (8) e 1726 (7). A segunda metade do século XVIII, ou seja, o período final da acção inquisitorial revelou-se o mais violento para os sabugalenses, o que já se sabia para a generalidade do país. Com efeito, enquanto a inquisição espanhola estava em declínio, a inquisição portuguesa ressurgiu com mais violência após a restauração da independência portuguesa (1640).

Quadro 3

Se atentarmos nos gráficos abaixo, verificamos que o pico mais alto de processos se situa na primeira metade do século XVIII, com a esmagadora maioria de acusações de judaísmo, que acompanha a curva do total de processos, à excepção do período de 1544-1600.

Gráfico 1

Gráfico 1

Quanto à distinção entre homens e mulheres, sobretudo os acusados de judaísmo, elas foram em maioria no pior período para os judeus sabugalenses – na referida primeira metade do século XVIII –, demonstrando, uma vez mais, que por serem as mulheres as principais responsáveis pela transmissão das práticas judaicas aos filhos, estavam mais sujeitas a denúncias e consequentes prisões.

Gráfico 2

Gráfico 2

«Na Rota dos Judeus do Sabugal», opinião de Jorge Martins
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Jorge MartinsNATURALIDADE E MORADA DOS RÉUS – Para conhecer o percurso geográfico dos réus do Sabugal, designadamente a mudança de residência em consequência das perseguições inquisitoriais, vamos analisar a sua naturalidade e morada, por freguesia, tanto quanto nos é possível neste momento.

Temos 131 processos (91,6% do total) com identificação da naturalidade e/ou morada quando da sua prisão, dos quais, 104 (79,4%) se referem a réus acusados de judaísmo. Podemos verificar, portanto, que a elevada percentagem de judaizantes se mantém, pelo que nem seria necessário discriminá-los por freguesia.

Quadro 1

Das 40 freguesias actualmente existentes no concelho do Sabugal só conseguimos apurar processos da Inquisição para 18. Convém, desde já, assinalar duas condicionantes para os resultados obtidos. A primeira é que só depois de lidos os processos na íntegra é que poderemos confirmar se todos eles se referem efectivamente a naturais ou moradores na freguesia do Sabugal, dada a enorme diferença verificada em relação às restantes freguesias. A segunda condicionante para compreendermos os valores com que vamos trabalhar, prende-se com o facto de não haver coincidência entre o número de processos para cada freguesia e a soma dos naturais e moradores, em virtude de alguns deles serem simultaneamente naturais e moradores.
Refira-se também que a morada diz respeito, em alguns (poucos) casos a réus que foram presos em locais onde exerciam a sua actividade profissional ou podiam mesmo estar apenas de passagem ou escondidos. Finalmente, registe-se que estamos a analisar processos e não réus, alguns dos quais foram presos mais de uma vez e até com uma grande diferença de anos, pelo que surgem repetidos, acontecendo mudar de morada entre as duas prisões.
Se hierarquizarmos as freguesias pelo número de processos existentes, temos quatro que se destacam das restantes 14, a saber: o Sabugal a grande distância com 71 (54,2%), seguida do Soito com 13 (9,9%), de Alfaiates com 11 (8,4%) e da Aldeia da Ponte com 10 (7,6%).

Quadro 2

Mapa 1
Mapa 1
Mapa 1

O mapa da distribuição dos processos pelas freguesias do concelho do Sabugal mostra-nos uma presença de judaizantes por quase todo o concelho, apesar da diferente dimensão e de não contemplarem 22 das suas 40 freguesias.
Mas, o mais importante para o presente estudo é conhecer a quantidade relativa de processos com acusações de judaísmo e de outras acusações nestas quatro freguesias. Para o Sabugal temos 66 processos (93%) com acusação de judaísmo e 5 (7%) com outras acusações; para o Soito, 12 judaizantes (92%) e apenas 1 (8%) não acusado de judaísmo; para Alfaiates, 10 judaizantes (91%) e 1 (9%) com outra acusação; e para a Aldeia da Ponte temos 8 acusações de judaísmo (80%) e 2 (20%) com outras acusações. São números que revelam os locais mais associados à persistência da prática judaica.
Acrescente-se a curiosidade de o Soito ter 12 processos referentes a mulheres e apenas 1 homem. Como é sabido, eram geralmente as mulheres judias que se encarregavam da transmissão da prática secreta do judaísmo aos filhos. Ora, aí está uma freguesia onde será deveras interessante estudar o fenómeno.
Na próxima crónica abordaremos as deslocações dos réus, quer dizer as terras de origem dos que vieram viver para o Sabugal e as terras de destino dos que nasceram no Sabugal.
«Na Rota dos Judeus do Sabugal», opinião de Jorge Martins

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Jorge MartinsOS APELIDOS DOS RÉUS SABUGALENSES – Há um mito muito divulgado acerca dos nomes de origem judaica, que consiste em considerar os apelidos com nomes de árvores como prova da ascendência judaica.

Na verdade, a generalidade dos estudos e dos estudiosos da questão têm concluído que isso não corresponde aos casos conhecidos. Os apelidos dos réus do Sabugal (naturais ou/e residentes) vêm confirmar esta desmistificação.

Quadro 1

O estudo dos apelidos dos processos inquisitoriais dos réus naturais ou residentes no concelho do Sabugal desmistificam cabalmente esta ideia generalizada entre nós.
Os nomes de plantas ou árvores dos réus sabugalenses com processo aberto são apenas oito no conjunto dos 143: Carvalho: 2, Pereira: 2, Sabugueiro: 1, Silva: 2, Silveira: 1.
Coisa pouca, se compararmos com os apelidos com mais referências que encontrámos nos processos em análise.

Quadro 2

A situação ficará melhor esclarecida se nos concentrarmos nos doze apelidos predominantes, com destaque para os 4 primeiros, que, em conjunto, representam 65 réus acusados de judaísmo: Rodrigues (24), Henriques (21), Mendes (10) e Nunes (10).
Se observarmos a situação social desses réus, dos 26 Rodrigues, 20 são homens e 6 são mulheres, dos quais 23 são cristãos-novos e 3 são de estatuto social desconhecido; dos 21 Henriques, 6 são homens e 15 são mulheres, dos quais 16 são cristãos-novos, 1 cristão-velho e 4 desconhecidos; dos 10 Mendes, 3 são homens e 7 são mulheres, todos cristãos-novos; e dos 11 Nunes, 7 são homens e 4 são mulheres, sendo 9 cristãos-novos e 2 de estatuto social desconhecido.
Finalmente, dos 68 processos referentes aos réus com esses quatro apelidos, 85% eram cristãos-novos e 96% estavam acusados de judaísmo. Não há dúvidas, portanto, quanto à ascendência judaica destas famílias sabugalenses.

Quadro 3

Os apelidos constituem mais um contributo para a construção do perfil do judeu sabugalense, a juntar aos anteriores, a saber: homem ou mulher com uma média de 37 anos de idade, com o estatuto social de cristão-novo, o estatuto profissional de mercador ou similar e o apelido de Rodrigues para os homens e de Henriques para as mulheres.
Contudo, é preciso ter em conta que nos estamos a referir apenas aos apelidos dos réus e não aos dos seus pais e até dos avós. Através dos processos inquisitoriais que estamos a analisar, conhecemos a quase totalidade dos pais dos réus e apenas alguns avós, mas será o suficiente para estabelecermos as redes familiares dos cristãos-novos sabugalenses e poder, em consequência, conhecer melhor a genealogia do judaísmo sabugalense ao longo de mais de dois séculos de persistência criptojudaica, quer dizer, do judaísmo praticado no segredo das famílias perseguidas pelos tribunais das Inquisições de Lisboa, Coimbra e Évora.
«Na Rota dos Judeus do Sabugal», opinião de Jorge Martins

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Jorge MartinsESTATUTO PROFISSIONAL DOS RÉUS – O estatuto profissional dos réus dos 143 processos da Inquisição referentes ao actual concelho do Sabugal não é conhecido para cerca de metade deles.

Com efeito, 72 processos identificam a actividade profissional dos réus e 71 não identificam. Sublinhe-se que estamos a falar apenas das descrições divulgadas pela Torre do Tombo, situação que pode alterar-se após a consulta detalhada dos processos. Contudo, já temos dados suficientes para caracterizar as profissões dos réus acusados de judaísmo, que é a questão mais importante para o presente estudo.

Quadro 1

Dos 72 processos com identificação das actividades profissionais dos réus, 69 referem-se a homens e apenas 3 a mulheres. Estas últimas estavam todas acusadas de práticas judaicas e uma era tendeira, outra vendedora e a última sem ofício. Quanto ao estatuto social dos réus desses 72 processos, 51 (70,8%) eram cristãos-novos, 9 (12,5%) eram cristãos-velhos e 12 (16,7%) eram de estatuto desconhecido. Dos réus com estatuto profissional conhecido, 56 (78%) estavam acusados de judaísmo. Estes valores permitem-nos ter uma ideia aproximada das profissões dos réus sabugalenses acusados de práticas judaicas. É disso que trataremos de seguida.
Das actividades profissionais destaca-se a de mercador com 18 réus (25%), seguida da de tendeiro com 5 réus, das de clérigo e lavrador com 4 cada e da de almocreve com 3. Todas as restantes profissões têm apenas 1 ou 2 réus a exercê-las.

QUADRO 2 – ACTIVIDADES PROFISSIONAIS PREDOMINANTES
MERCADOR TENDEIRO CLÉRIGO LAVRADOR ALMOCREVE
18 5 4 4 3

A primeira conclusão que pode tirar é que se confirma aqui a actividade mais praticada pelos judeus. Se agruparmos algumas actividades similares dos acusados de judaísmo teremos uma perspectiva mais detalhada da sua realidade profissional: 31 dedicavam-se a actividades comerciais e 6 a actividades artesanais.

QUADRO 3 – ACTIVIDADES COMERCIAIS
ALMOCREVE CONTRATADOR MERCADOR TENDEIRO TRATANTE VENDEDOR TOTAL
3 1 17 5 4 1 31
QUADRO 4 – ACTIVIDADES ARTESANAIS
CONFEITEIRO CURTIDOR FERRADOR SAPATEIRO TOSADOR TOTAL
1 1 1 2 1 6

Ainda assim, temos quatro lavradores, actividade pouco habitual nos judeus, por imposição legal desde a Idade Média. Quanto a profissões socialmente mais conceituadas temos: estudante de leis, farmacêutico, feitor de alfândega, juiz de órfãos, mordomo, ourives, e rendeiro. Repare-se no facto de haver um único ourives, uma profissão associada ao estigma do judeu rico e poderoso.
Se tivermos em conta que os réus acusados de judaísmo têm habitualmente um elevado grau de probabilidade de se tratar, de facto, de praticantes da religião judaica (apesar de todos os perigos que isso implicava), através dos dados já obtidos, podemos definir o perfil do judeu sabugalense vítima da Inquisição: era um homem ou uma mulher, com 37 anos de idade, estatuto social de cristão-novo e estatuto profissional de comerciante.
«Na Rota dos Judeus do Sabugal», opinião de Jorge Martins

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Jorge MartinsIDADE E SEXO DOS RÉUS SABUGALENSESDe um total de 143 processos das Inquisições de Lisboa, Coimbra e Évora referentes a naturais ou/e residentes no actual território do concelho do Sabugal entre os séculos XVI e XVIII, apenas 81 (57%) exibem a idade dos réus na descrição elaborada pela Torre do Tombo.

É com aqueles em que estão identificadas as idades que vamos trabalhar estatisticamente. Dos 81 processos, 72 (88,9%) referem-se a réus acusados de judaísmo e 9 (11,1%) a outras acusações. É uma proporção compatível com a percentagem de processos de acusação de judaísmo (81,1%) no total dos 143 processos em estudo, como mostrámos na crónica anterior.

QUADRO 1 – PROCESSOS COM A IDADE DOS RÉUS
N.º DE PROCESSOS N.º DE PROCESSOS COM AS IDADES DOS RÉUS
143 81 (57%)
QUADRO 2 – PROCESSOS COM AS IDADE DOS RÉUS ACUSADOS DE JUDAÍSMO
COM AS IDADES ACUSADOS DE JUDAÍSMO OUTRAS ACUSAÇÕES
81 72 (88,9%) 9 (11,1%)

Quanto às idades dos réus, o mais novo tinha 14 anos quando foi preso nos cárceres da Inquisição e o mais velho tinha 80 anos (ambos estavam acusados de judaísmo). Eis a lista completa das idades: 14 anos: 1 processo; 15A: 2P; 17A: 1P; 18A: 3P; 19A: 4P; 20A: 1P; 21A: 1P; 22A: 1P; 23A: 2P; 24A: 2P; 25A: 2P; 28A: 5P; 30A: 7P; 31A: 3P; 32A: 1P; 33A: 6P; 34A: 1P; 35A: 3P; 37A: 1P; 38A: 2P; 40A: 5P; 41A: 1P; 42A: 1P; 43A: 1P; 44A: 1P; 45A: 1P; 46A: 1P; 47A: 2P; 50A: 3P; 55A: 1P; 56A: 3P; 60A: 6P; 64A: 1P; 65A: 1P; 68A: 1P; 70A: 1P; 75A: 1P; 80A: 1P.
Se hierarquizarmos as idades mais frequentes, obtemos a seguinte lista:

QUADRO 3 – IDADES MAIS FREQUENTES DOS RÉUS
IDADES 30 33 60 28 40 19 18 31 35 50 56
N.º DE RÉUS 7 6 6 5 5 4 3 3 3 3 3

Para se tornarem mais claras as faixas etárias com maior incidência, atentemos no seguinte gráfico:

Deste gráfico, ressaltam à vista as faixas etárias dos 31 aos 40 anos (22 processos) e dos 21 aos 30 anos (20 processos). Juntas, estas duas faixas etárias representam mais de metade (52%) dos processos com referência às idades dos réus. Assim, e em conclusão, os sabugalenses mais assolados pela Inquisição viviam na idade adulta (21-40 anos). Não deixa de ser significativo que a terceira faixa etária mais encarcerada estivesse abaixo dos 21 anos, como se pode verificar pelo quadro abaixo:

QUADRO 4 – HIERARQUIZAÇÃO DAS FAIXAS ETÁRIAS DOS RÉUS
FAIXA ETÁRIA 31-40 21-30 14-20 41-50 51-60 61-70 71-80
N.º DE
PROCESSOS
22
(
27,16%)
20
(24,69%)
12
(14,81%)
11
(13,58%)
10
(12,34%)
4
(4,93%)
2
(2,46%)

Quanto às idades dos réus, resta acrescentar os 9 processos de não acusados de judaísmo: 2 processos de 28 anos; 2 de 30 anos; 1 de 33 anos; 1 de 43 anos; 1 de 55 anos; 1 de 56 anos e 1 de 70 anos, ou seja, 4 da faixa dos 21-30 anos; 1 da faixa dos 31-40 anos; 1 da faixa dos 41-50 anos; 2 da faixa dos 51-60 e 1 da faixa dos 61-70 anos. Nada que contrarie a tendência geral das idades dos encarcerados pelas Inquisições.
Estes dados permitem-nos constatar que o judaísmo resistiu no concelho do Sabugal ao longo dos mais de dois séculos de investidas do Santo Ofício, pois os adultos e os jovens, que teriam mais a perder do que os idosos, não abandonaram a prática da sua religião ancestral, apesar das conhecidas sevícias a que eram submetidos nos cárceres da Inquisição. Não eram os velhos descuidados que caíam nas malhas do “fero monstro”, nome por que foi designada a Inquisição por um judeu português exilado, chamado Samuel Usque, que publicou, em Ferrara (Itália), uma notável obra em língua portuguesa, intitulada “Consolação às Tribulações de Israel”. Pelo contrário, eram os homens e as mulheres mais maduros e activos que persistiam em desafiar os inquisidores
E, por falar em mulheres, elas foram quase tantas como os homens a sofrer as agruras da sua coragem religiosa. Com efeito, os 143 processos estavam assim repartidos por sexo: 77 homens, ou seja 53,85% e 66 mulheres, ou seja 46,15%.
Para se poderem comparar os números de processos por sexo, referentes a cristãos-novos, cristãos-velhos e de situação social desconhecida, observe-se o quadro que segue:

QUADRO 4 – HIERARQUIZAÇÃO DAS FAIXAS ETÁRIAS DOS RÉUS
FAIXA ETÁRIA 31-40 21-30 14-20 41-50 51-60 61-70 71-80
N.º DE
PROCESSOS
22
(27,1%)
20
(24,6%)
12
(14,8%)
11
(13,5%)
10
(12,3%)
4
(4,9%)
2
(2,4%)

Quanto às idades dos réus, resta acrescentar os 9 processos de não acusados de judaísmo: 2 processos de 28 anos; 2 de 30 anos; 1 de 33 anos; 1 de 43 anos; 1 de 55 anos; 1 de 56 anos e 1 de 70 anos, ou seja, 4 da faixa dos 21-30 anos; 1 da faixa dos 31-40 anos; 1 da faixa dos 41-50 anos; 2 da faixa dos 51-60 e 1 da faixa dos 61-70 anos. Nada que contrarie a tendência geral das idades dos encarcerados pelas Inquisições.
Estes dados permitem-nos constatar que o judaísmo resistiu no concelho do Sabugal ao longo dos mais de dois séculos de investidas do Santo Ofício, pois os adultos e os jovens, que teriam mais a perder do que os idosos, não abandonaram a prática da sua religião ancestral, apesar das conhecidas sevícias a que eram submetidos nos cárceres da Inquisição. Não eram os velhos descuidados que caíam nas malhas do “fero monstro”, nome por que foi designada a Inquisição por um judeu português exilado, chamado Samuel Usque, que publicou, em Ferrara (Itália), uma notável obra em língua portuguesa, intitulada “Consolação às Tribulações de Israel”. Pelo contrário, eram os homens e as mulheres mais maduros e activos que persistiam em desafiar os inquisidores
E, por falar em mulheres, elas foram quase tantas como os homens a sofrer as agruras da sua coragem religiosa. Com efeito, os 143 processos estavam assim repartidos por sexo: 77 homens, ou seja 53,85% e 66 mulheres, ou seja 46,15%.
Para se poderem comparar os números de processos por sexo, referentes a cristãos-novos, cristãos-velhos e de situação social desconhecida, observe-se o quadro que segue:

QUADRO 5 – SEXO DOS RÉUS
SEXO CRISTÃOS-NOVOS CRISTÃOS-VELHOS DESCONHECIDOS TOTAIS
HOMENS 52 (67,5%) 10 (13,0%) 15 (19,5%) 77 (53,8%)
MULHERES 50 (75,7%) 5 (7,6%) 11 (16,7%) 66 (46,1%)

«Na Rota dos Judeus do Sabugal», opinião de Jorge Martins
martinscjorge@gmail.com

A presença de uma comunidade judaica no Sabugal está documentada (pelo menos) desde o início do século XIV. Os reconhecidos estudos medievais da historiadora Maria José Ferro Tavares incluem a comuna judaica do Sabugal entre as três dezenas que identificou para o período de 1279-1383, tendo confirmado documentalmente a sua existência em 1316, através de uma dívida dos judeus do Sabugal ao rei D. Dinis em 16 de Agosto desse ano.

QUADRO 1  –  CRISTÃOS-NOVOS E CRISTÃO-VELHOS
N.º DE PROCESSOS CRISTÃOS-NOVOS CRISTÃOS-VELHOS DESCONHECIDOS
143 102 (71,3%) 15 (10,4%) 26 (18,3%)
QUADRO 2  –  TOTAL DE ACUSAÇÕES  –  143 PROCESSOS
JUDAÍSMO BLASFÉMIA HERESIA BIGAMIA VISÕES OUTRAS
116 (81,1%) 5 (3,4%) 5 (3,4%) 4 (2,7%) 2 (1,3%) 11 (8,1%)
QUADRO 3 – ACUSAÇÕES DE CRISTÃOS-NOVOS
N.º DE PROCESSOS JUDAÍSMO OUTRAS
102 97 (95%) 5 (5%)

Jorge MartinsMas a comunidade judaica do Sabugal manteve-se até ao final do século XV. Com efeito, a menos de um ano da expulsão dos judeus, que D. Manuel I decretou em Dezembro de 1496, também há prova documental da persistência da judiaria do Sabugal, como o atesta uma carta de D. Manuel datada de 12 de Janeiro de 1496. O resto da infeliz história dos judeus portugueses dessa época é conhecido: depois do decreto de expulsão de 1496, seguiu-se o baptismo forçado de 1497, com a consequente proibição do judaísmo e a destruição das comunidades judaicas de todo o reino, sobretudo a partir da introdução da Inquisição, que existiu legalmente entre 1536 e 1821.
Mas, se desapareceram as comunidades judaicas, não aconteceu o mesmo ao judaísmo que, de forma secreta ou disfarçada, sobreviveu a quase três séculos de acção criminosa dos tribunais da Inquisição de Lisboa, Évora e Coimbra (e Goa, na Índia). De entre os cerca de 45.000 processos das Inquisições, existentes na Torre do Tombo, alguns narram a resistência dos judeus do Sabugal. Por isso, fomos à procura deles e encontrámos 143 processos relativos a pessoas que viviam ou/e haviam nascido no actual território do concelho do Sabugal quando foram parar aos cárceres do Santo Ofício.
A partir de hoje, daremos aqui, no Capeia Arraiana, conta dos resultados preliminares da análise desses processos. A primeira conclusão que podemos tirar é que, dos 143 processos, 102 foram identificados como cristãos-novos (descendentes de judeus), representando 71,3%, enquanto apenas 15 se referem a cristãos-velhos (descendentes de cristãos) e representam 10,4%. Se tivermos em conta que 26 processos (18,3%) não identificam o estatuto social dos réus, restam-nos 127 processos com estatuto social conhecido, aumentando para 80% a percentagem de cristãos-novos contra 20% de cristãos-velhos. Em consequência, podemos concluir que os judeus eram a vítima predilecta dos inquisidores.
Continuando a analisar os processos do Sabugal, temos 116 (81,1%) acusados de judaísmo, 5 (3,4%) acusados de blasfémia, 5 acusados de heresia (3,4%), 4 acusados de bigamia (2,7%), 2 acusados de visões (1,3%) e 11 (8,1%) julgados por várias acusações, com 1 processo cada um: sacrilégio, luteranismo, sodomia, perjúrio, pacto com o demónio, impedimento do ministério do Santo Ofício, violação de Ordens religiosas, abuso da função de padre, feitiçaria, intitular-se abusivamente oficial da Inquisição e molinismo (seita religiosa).
Finalmente, dos 102 processos a cristãos-novos, 97 (95%) foram acusados da prática da religião judaica. Os restantes 5 (5%) foram acusados de blasfémia, bigamia, heresia, de impedir o ministério do Santo Ofício e violação de Ordens religiosas. Também se pode concluir que a acusação de judaísmo era esmagadoramente maioritária. Em suma: a Inquisição foi, efectivamente, introduzida em Portugal para perseguir os judeus e o judaísmo e o caso do Sabugal confirma plenamente essa tese.
«Na Rota dos Judeus do Sabugal», opinião de Jorge Martins

martinscjorge@gmail.com

O sabugalense por adopção, professor Jorge Martins, dá início este sábado, às 18 horas, às suas crónicas semanais «Na Rota dos Judeus do Sabugal» sobre as investigações que tem feito em arquivos como, por exemplo, a Torre do Tombo, sobre a comunidade judaica da região raiana do Sabugal. Bem-vindo e bem-haja pela sua disponibilidade.
jcl e plb

Estes três desenhos do castelo do Sabugal, da autoria de Duarte d’Armas, fazem parte da obra «Livro das Fortalezas que são situadas no extremo de Portugal e Castela» (c. 1509), editada a pedido de D. Manuel I. O rei encarregou o autor de fazer o levantamento de todas as fortificações que faziam fronteira com Castela, desde Caminha a Castro Marim.

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Jorge MartinsO cartógrafo Duarte d’Armas, nascido cerca de 1465 em Lisboa, escudeiro da Casa Real, desenhou os castelos solicitados em duas panorâmicas e uma planta. As suas anotações, onde se pode ver a localização da vila do Sabugal, constituem um precioso contributo para o estudo da vila medieval e da sua evolução. Este exemplar, tratado pelo historiador António Baião, encontra-se depositado no Instituto dos Arquivos Nacionais / Torre do Tombo.
A publicação pelo Capeia Arraiana destes três desenhos do Castelo do Sabugal, pouco conhecidos dos sabugalenses, é um modesto contributo para a história do concelho e um primeiro passo para futuras investigações sobre a história da comunidade judaica local que, já se pode afirmar hoje, sobreviveu à expulsão dos judeus de Portugal em 1496 e ao estabelecimento da Inquisição em 1536. Há provas documentais de que os judeus do Sabugal resistiram à Inquisição até meados do século XVIII, ou seja, até ao seu funcionamento efectivo, em boa hora interrompido pelo Marquês de Pombal.
Proximamente, daremos a conhecer no Capeia Arraiana os resultados preliminares desses estudos em curso.
Jorge Martins

A minha visita ao Sabugal aconteceu na sequência do convite que enviei para a sessão de lançamento em Lisboa do meu último livro «Breve História dos Judeus em Portugal». Entre as respostas recebidas uma ex-aluna lamentava não poder estar presente por razões profissionais, mas enviava-me o link de uma página electrónica onde alguém se tinha referido a um dos meus anteriores livros da trilogia «Portugal e os Judeus». Cliquei e deparei com o Capeia Arraiana. Tratava-se de um post do Kim Tomé sobre a descoberta de uma alegada Arca Sagrada (Aron HaCodesh) na Casa do Castelo.

Jorge Martins - Casa do Castelo - Sabugal

Tendo ficado admirado por não ver os poderes locais divulgarem e integrarem o achado nos seus roteiros turísticos e/ou culturais, resolvi fazer um comentário e oferecer-me para ajudar quem estava a tentar divulgar o achado e a bela ideia defendida pelo Kim Tomé da criação de um Roteiro Judaico do Sabugal. É uma ideia que muito me agrada, pois tenho trabalhado em Roteiros da Lisboa Judaica. Foi o meu primeiro contacto com o Sabugal.
Já nem me recordo de como começou o contacto entre mim e a Natália Bispo, a proprietária da Casa do Castelo, mas, e-mail para lá e e-mail para cá, ficou agendada uma sessão de lançamento do meu livro no Sabugal para dia 17 do corrente mês de Outubro. Pensei: serão uns duzentos e tal quilómetros, não há problema!
Entretanto, as maiores surpresas estavam para vir. Recebo um e-mail da Natália a dizer-me que o mundo é pequeno e que nada acontece por acaso. Pois é, um dos amigos da Casa do Castelo era um colega e amigo Carlos Alberto, que tinha umas lojas na Pontinha, onde vivo. À primeira tentativa não vislumbrei tal colega. Mas, logo de seguida, recordei-me do Carlos Gomes. Ficaria acordado que seria ele a apresentar o meu trabalho.
Mas, a coisa não ficou por aqui. Uns dias após a divulgação dessa sessão no meu blogue, recebo um e-mail do meu amigo Albino Silva a perguntar se sabia onde era o Sabugal. Respondi-lhe que fora ver ao mapa e que teria muito gosto em levá-lo comigo. Aceitou o desafio, porque tinha uma casa em Penamacor, na freguesia de Aranhas. E assim lá fui eu com o Albino Silva e a Maria Helena, a sua esposa, a caminho do Sabugal. Eu, que sou um fervoroso admirador do Interior do país, exultei com esta série de circunstâncias e juntei o útil ao agradável.
Para além da deliciosa e intimista sessão na Casa do Castelo, onde me senti em casa, pude banquetear-me, na companhia de uma série de amigos da Natália Bispo, que se esmerou para oferecer o que de melhor têm os sabugalenses: a hospitalidade e o orgulho pela sua terra… e um manjar irrepreensível. Claro que, feitas as apresentações, numa mesa de arqueólogos, escritores, professores, figuras locais e os meus amigos Albino e Helena, logo após o almoço fomos ao Bardo do Kim Tomé beber um jazz de todo inimaginável e, já agora, uma cafezinho para rematar. Depois de tudo isto, pensei se seria indispensável fazer a apresentação do meu livro. Obviamente, o Carlos não perdeu tempo e pôs a cereja em cima do bolo: levou-me ao Castelo de Cinco Quinas, orgulho maior dos sabugalenses. Simplesmente inesquecível!
Para os forasteiros, devo informar que, ao sair da Casa do Castelo, viramos à esquerda e estamos no Bardo, que tem um ambiente de fazer inveja a muitos bares de Lisboa. Uns poucos metros à frente fica o imponente castelo. Já imaginaram um largo como este – o Largo de St.ª Maria do Castelo –, onde se realiza uma imperdível Feira Franca? Na próxima escapadinha, ou nas próximas férias, não deixem de dar uma saltada ao Sabugal, com paragem obrigatória na Casa do Castelo, para adquirir lembranças regionais e no Bardo, para se refrescarem, a olhar para o castelo. Conseguem mesmo imaginar? Não? Então, vão lá confirmar.
E ainda havia a sessão de apresentação do livro, que correu muito bem. No pequeno espaço, da maior dimensão humana possível, amontoavam-se algumas dezenas de pessoas. Há sessões que têm mesmo que ser assim: conferencista e assistência face a face. Ainda por cima, tínhamos a celebrada Arca Sagrada a um palmo de distância. No fim da sessão era indisfarçável a satisfação de todos os presentes. Um judeu de Belmonte orou frente à Arca, fechando com chave de ouro a cerimónia.
Faço aqui uma interrupção na narração, para criar ainda mais a água na boca daqueles que estarão a cogitar uma visita ao Sabugal. Não é que os meus amigos Albino e Helena andaram a fazer de cicerones por terras das Beiras? Levaram-me a Penamacor, a Penha Garcia, a Monsanto, às Termas de Monfortinho, a Idanha-a-Nova, a Idanha-a-Velha e a Constância, em cujas redondezas comi uns bolinhos de «queijo» (uma partida em que caí redondo), gulosos até mais não. Fiquei a saber que, no primeiro fim-de-semana de Novembro há uma festa em Idanha-a-Velha. E, não sei não, mas talvez me vejam por lá, se a vida profissional mo permitir.
Regressemos às despedidas da Casa do Castelo. Propositadamente, não vos contei que costumo repetir a todos os amigos que não nasceram em Lisboa que tenho desgosto de não ter terra e uma inveja de todos os que a têm para visitar na Páscoa e trazer a bagageira do carro cheia de cebolas e batatas. Lisboa, onde nasci, é bonita, mas não cumpre este desiderato. Disse isso mesmo à Natália Bispo e ela desafiou-me a ser adoptado pelo Sabugal. Aceitei o desafio. Na despedida da Casa do Castelo, a Natália pegou em dois sacos e disse-me: «Aqui tem as batatas e as cebolas! Agora, já tem terra.»
Fiquei desarmado e convencido: tornei-me sabugalense. Subi ao piso de cima e assinei o livro dos Amigos da Casa do Castelo. A partir do dia 17 de Outubro de 2009 passei a ter uma terra adoptiva: o Sabugal. E por lá me continuarão a ver. Até porque me comprometi a ajudar a Casa do Castelo a divulgar o património que possui e a colaborar na feitura de um Roteiro Judaico do Sabugal.
Não quero terminar sem um detalhe. Uns dias antes de ir ao Sabugal fui entrevistado pelo José Carlos Lages para o Capeia Arraiana. A empatia com os sabugalenses, que já existia à distância, cimentou-se logo ali, tal foi a conversa animada em que se transformou a entrevista. O meu entrevistador só dizia: «E eu que não trouxe o gravador!»
Haverá maiores motivos para me sentir adoptado como sabugalense?
Pontinha, 22 de Outubro de 2009
Jorge Martins

Aqui deixamos um grande abraço raiano a Jorge Martins. E uma certeza: ainda tem muito para descobrir no concelho do Sabugal. O nosso bem-haja por aceitar ser embaixador de uma terra que, apesar de adoptiva, também já considera sua.
jcl

Imagens do lançamento na Casa do Castelo do livro «Breve História dos Judeus em Portugal» de Jorge Martins.

jcl

Fomos ao encontro do historiador Jorge Emanuel Duarte de Carvalho Martins a poucos dias da apresentação, no Sabugal, do seu último livro «Breve História dos Judeus em Portugal». «As expectativas para esta sessão no Sabugal – onde nunca estive – são grandes. Maiores do que uma apresentação na FNAC. A Casa do Castelo, de Natália Bispo, que ainda não tenho o prazer de conhecer pessoalmente, está a fazer um grande serviço à cultura do vosso concelho», acentua este ilustre historiador que reconhece apenas ter estado uma vez em Sortelha e nunca ter visitado o Sabugal. A sessão de apresentação da obra está marcada para sábado, 17 de Outubro, na Casa do Castelo no Largo do Castelo do Sabugal.

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Jorge Martins, nasceu em Lisboa em 1953, é licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mestre (tese sobre António Patrício, escritor e diplomata) e doutor (tese em três volumes «Portugal e os Judeus») em História Contemporânea. É professor de história dos ensinos básico e secundário desde 1978 e pertence aos quadro da Escola Secundária Braamcamp Freire, na Pontinha. É autor de manuais escolares e de obras de ficção e ensaio sobre história contemporânea, local e sobre estudos judaicos tendo publicado dezenas de artigos em jornais, revistas e actas de conferências. É, actualmente, investigador do Centro de Estudos de História Contemporânea Portuguesa do ISCTE.
A propósito da sessão de apresentação no Sabugal do livro « Breve História dos Judeus em Portugal» (Editora Nova Vega, 2009), o Capeia Arraiana aproveitou, uma destas noites, para ir ao encontro do historiador.
O seu discurso, cronologicamente ordenado, é veloz e obriga as palavras a acelerarem o passo para acompanhar as ideias do pensamento enquanto nos fala da presença judaica em Portugal.
– Como surgiu o doutoramento sobre os judeus em Portugal?
– O meu orientador foi João Medina. E, entre os vários temas propostos, surgiu o judaísmo. A minha tese de doutoramento intitulada «O Judaísmo e o Antisemitismo em Portugal nos séculos XIX e XX» foi compilada em três volumes num total de 900 páginas e transformada em «Os Judeus em Portugal». As comunidades judaicas desapareceram de Portugal na sequência do Édito de Expulsão de 1496 mas há registos da sua participação nos Descobrimentos. Baptizados à força viveram a dupla identidade cristã e criptojudaica tendo resistido à perseguição da Inquisição e às tentativas de expulsão. Ressurgiram no início do séc. XIX nas Beiras e Trás-os-Montes (os marranos), em Lisboa, Faro, Madeira e Açores. Muito judeus europeus, protegidos por diplomatas filo-semitas, salvaram-se do Holocausto utilizando Portugal como porta de saída da Europa durante a perseguição nazi. Actualmente há quatro núcleos – Lisboa, Belmonte, Porto e Algarve – com cerca de 1000 residentes. Durante a pesquisa para uma tese sentimos muita insegurança mas, no final, acreditamos que sabemos um pouco mais e é isso que nos dá o equilíbrio. Há muitos assuntos para investigar e ficamos com a certeza que há ainda mais por estudar.
– E, entretanto, o Sabugal atravessa-se no seu caminho…
– O Sabugal aparece como mais uma experiência giríssima só possível na Internet. Troco informações com historiadores judeus em todo o Mundo e, em especial, em Israel e no Brasil. Tenho muitos pedidos brasileiros para troca de dados sobre a história dos judeus em Portugal. Entretanto no lançamento do livro uma aluna minha diz-me – tenho aqui um blogue que fala do seu livro – e deu-me um texto assinado por Joaquim Tomé [opinião de Kim Tomé no Capeia Arraiana] com comentários e citações das minhas frases. E foi assim que tudo começou…
– Sendo assim só conhece o Sabugal virtualmente?
– Em Julho passado estive em Belmonte para ver o Museu Judaico e visitei Sortelha mas não fui ao Sabugal. Entretanto da troca de informações que fui mantendo não consigo perceber como é que havendo a possibilidade de estarmos perante uma estrutura arquitectónica judaica na Casa do Castelo não se faça um trabalho sério para determinar da sua legitimidade. É vital que os portugueses preservem a sua identidade. A força da identidade mede-se pelo cuidado e pela intensidade com que se defendem e promovem os valores de cada localidade. Eu, infelizmente, sou de Lisboa. E Lisboa é uma terra mesclada sem identidade. É a terra do fado e das sardinhas que não são suficientes para identificar os lisboetas. A Internet deu-nos a oportunidade de nos aproximarmos. Há regiões mais interiores que podem valer-se das novas tecnologias para promover os seus produtos.
– Quais são as suas expectativas para sábado?
– Estou impaciente por ir ao Sabugal. Mais do que na apresentação da minha tese de doutoramento que ultrapassou tudo o que se estava à espera. Sinto que vai ser uma sessão muito especial para mim. Até mais do que se fosse realizada numa loja FNAC porque não é uma questão do número de pessoas que possam estar presentes. Ao longo das conversas telefónicas que mantive com Natália Bispo percebi que a Casa do Castelo está a fazer um grande serviço à cultura do vosso concelho. Há potencialidades judaicas (arcas do sagrado) que têm de ser estudadas. Há, museologicamente falando, um «Espaço de Memória» sobre o judaísmo no concelho do Sabugal até porque Maria José Ferro Tavares refere que está registada em 1316 uma dívida dos judeus do Sabugal ao rei D. Dinis. Aproveito esta conversa com o Capeia Arraiana para adiantar uma ideia que vou defender no sábado. Há na Torre do Tombo disponíveis para consulta e investigação 110 processos da Inquisição sobre a comunidade judaica no Sabugal. Vou propor a criação de uma bolsa de estudo dirigida a estudantes universitários do vosso concelho para analisarem os processos. Posso, inclusivamente, indicar nomes de orientadores para o estudo. Até sábado!

Alguns comentários à obra
«A publicação de Portugal e os Judeus, de Jorge Martins, em três volumes, editados ao longo de 2006, constitui um verdadeiro acontecimento editorial, já que desde 1895, ano da publicação de Os Judeus em Portugal, de Mendes dos Remédios, não se editava no nosso país uma história geral da comunidade judaica (…) Obra de obrigatória consulta histórica», Miguel Real, Jornal de Letras, Artes e Ideias.

«(…) Portugal e os Judeus, uma obra vasta onde percorre os caminhos da gente de nação, desde as toleradas judiarias medievais, até à quase extinção dessas comunidades no mundo contemporâneo, depois dos três séculos de perseguição e de lutos forçados a que foram sujeitas pelo poder político-religioso dominante», Luís Farinha, revista História.

«Desde Mendes dos Remédios (Os Judeus em Portugal, 1895) que não tínhamos uma obra com esta ambição contar uma História esquecida ou voluntariamente enterrada no labirinto dos arquivos. Portugal e os Judeus cumpre o projecto que Mendes dos Remédios não chegou a concluir e vai bem mais além, detendo-se na historiografia e no ensino da História nestes nossos dias de confusão e desorientação», António Carlos Carvalho, prefácio ao 1.º volume.

«Não é a primeira publicação do autor – há muitos anos que Jorge Martins vem estudando, investigando, ensinando e escrevendo sobre a temática judaica. A sua tese reflecte, pois, essa investigação aturada: nela sentimos uma atenção sustentada, um conhecimento aprofundado por anos de estudo e acima de tudo, uma real empatia com o objecto de estudo, indispensável a qualquer investigação séria. Analisando o seu trabalho ficamos com a clara noção de que não se trata de uma súbita e passageira paixão, mas de uma relação fecunda e duradoura. (…) Não quero deixar de saudar o autor por este magnífico trabalho que permite trazer ao conhecimento do público interessado, um período muito rico, mas ainda pouco investigado e divulgado, da história de Portugal e dos Judeus», Esther Mucznik, prefácio ao 2.º volume.

«Passado um século e meio após a aparição da mais completa obra sobre a história dos judeus em Portugal, de autoria de Meyer Kayserling, nos presenteia Jorge Martins com uma nova história sobre judeus portugueses, que amplia largamente o livro pioneiro do rabino húngaro. (…) Jorge Martins vem agora nos três volumes de Portugal e os Judeus resgatar uma história dos Judeus e uma história de Portugal, e oferece aos estudiosos do assunto um material inestimável para novas reflexões», Anita Novinsky, prefácio ao 3.º volume.
jcl

Ao ler o livro «Portugal e os judeus» cedido por uma amiga, lembrei-me do Sabugal e do facto cada vez mais evidente, de estarmos a desperdiçar uma parte importantíssima da nossa História. Os judeus já por cá andavam antes da fundação da nacionalidade, formavam comunidades importantíssimas e a do Sabugal era uma delas.

Kim Tomé (Tutatux)«…a questão judaica em Portugal tem permanecido numa acentuada penumbra, sem que se consiga explicar cabalmente como é possível fazer-se a História de Portugal, obliterando os judeus e o judaísmo da nossa memória colectiva.»
(Jorge Martins, Portugal e os Judeus, vol. 1, p. 19)

Ao percorrer as ruas da «Vila» – nome ainda hoje dado pelos locais à zona histórica do Sabugal – são inúmeros os sinais da presença dos judeus.
Se tivermos em consideração que os judeus foram perseguidos, os seus objectos destruídos e a sua cultura condenada durante mais de 300 anos, poderíamos pensar que nada iria restar como testemunho dessa importante comunidade.
Contudo não é assim.
São muitos os sinais que ainda hoje se podem sentir naquela que poderá ter sido uma das mais importantes comunidades judaicas desta região da Ibéria.
JudeusO valor da Judiaria do Sabugal tem sido menosprezado por quem devia ter mais atenção relativamente a este assunto, atendendo aos sinais observáveis no exterior das edificações ainda hoje (cruzes e outros), mas também a muitos sinais existentes no interior destas (como exemplo o imponente aron ha codesh da «Casa do Castelo»), poderemos admitir que não são apenas restos de uma cultura que foi reprimida e destruída ao longo de séculos, o que hoje nos é dado observar são vestígios que apesar de toda a destruição nos chegaram, representando a ponta de um enorme Iceberg que foi a importante Judiaria do Sabugal.
Para alguns isto poderá parecer um absurdo, contudo os documentos que se vão descobrindo vêm-nos obrigar a reconhecer que a «Vila do Sabugal» foi em determinado momento uma das mais importantes judiarias da Ibéria.
Para nós Sabugalenses, esta certeza reveste-se da maior importância, pois este facto permite um enriquecimento em termos históricos e culturais capaz de gerar conteúdos que atrairão à Judiaria do Sabugal milhões de turistas, turistas que aqui poderão aprender a enorme importância que a comunidade judaica teve na história desta cidade e na da Ibéria.
Recusar esta realidade é desvalorizar o diamante em bruto que temos nas mãos.
É tempo de olhar para a Judiaria do Sabugal como um factor histórico e Cultural capaz de gerar um enorme valor acrescentado em termos de turismo cultural, ou corremos o risco de deitar fora um diamante valiosíssimo apenas porque a ignorância ou o preconceito impedem de reconhecer o seu valor.
«O Bardo», opinião de Kim Tomé

kimtome@gmail.com

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