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Dizia-me um amigo meu que as melhores histórias são as histórias de vida, as histórias contadas na primeira pessoa.

O livro que acaba de publicar a editora Verso da Kapa, de Patricia Lopes, tem por título Missão – diário de uma médica em Moçambique. É um livro enternecedor e apaixonante. Lê-se de um fôlego. Quando se começa, dificilmente se larga. Está salpicado de histórias comoventes e coloridas, eivadas de um verdadeiro ambiente africano, e estou convencido que cada um dos leitores não se importaria de ter acompanhado a Dra. Patrícia Lopes nas suas viagens de voluntariado ao norte de Moçambique, para partilhar o entusiasmo desta jovem pediatra que se empenhava de tal modo no tratamento das crianças e jovens doentes, a ponto de ter feito uma transfusão de sangue de si próprio para salvar a vida de um menino que estava condenado a morrer. Nota-se uma grande paixão pelo povo macua, tão cheio de tradições ancestrais que o protegem, mas que também o subjugam.
Na sua redoma lisboeta, sentia-se sufocada pelo ram-ram de um curso de medicina demasiado distante das pessoas doentes. Jovem e intuitiva, pressentia ser a África o melhor terreno para pôr em prática o saber acumulado dos estudos de pediatria. A medicina tropical iria estudá-la no terreno, com o seu olhar clínico sempre atento, corroborado com o saber acumulado das irmãs da congregação religiosa de S. João de Deus, em cujo convento a Dra. Patrícia se alojou durante o seu trabalho de voluntária num hospital pediátrico em Iapala.
Entre ir para a prestigiada universidade de Harvard, onde tinha sido selecionada e anuir a um apelo humanitário em África, que a atraía num desejo de servir e de curar crianças necessitadas e, ao mesmo tempo a repelia pelo seu imaginário de florestas atravancadas de animais selvagens, de insetos repelentes, de cobras venenosas, em cima dos cajueiros, e de perigos em todos os cantos, preferiu lançar-se generosa e abertamente à escuta de uma outra cultura, dar do seu melhor a um país que quase a enfeitiçou, aprendendo mais nas suas estadas de voluntariado do que em qualquer curso da melhor universidade americana.
É que o diagnóstico médico na África, e mais concretamente na civilização macua, não é apenas ciência médica, é também antropologia, semântica, sociologia, psicologia, uma autêntica abordagem multidisciplinar. E a Dra. Patrícia não iria aprender isso em Harvard. Inteligente como é, depressa percebeu que o diagnóstico não é só olho clínico, baseado no saber da medicina. É também antropologia, conhecimento das tradições. E nesta civilização têm um peso tremendo. Felizmente que lá estava a irmã Lurdes, com a experiência de largos anos em África – um autêntico livro aberto junto de quem a Dra. Patrícia tentava obter as explicações para compreender os comportamentos menos inteligíveis das pessoas que a vinham consultar. Claude Levi Strauss não saberia mais que aquela competente e boa irmã.
Com este livro, Patrícia Lopes recria um estilo literário muito intimista – o do Diário, que nos atrai e nos empolga, sem conseguirmos retirar os olhos de uma leitura apressada e viva, a fervilhar de imagens. Estamos ao lado da Patrícia, no hospital de Iapala, no norte de Moçambique, em plena savana, a muitas horas de viagem de Nampula, e não queremos sair de lá. Terminando o tratamento de um doente, temos logo vontade de acompanhá-la para partilhamos os sentimentos, as angústias em frente de outros doentes que só vêm ao hospital em último recurso.
São textos saborosos onde se ri ás gargalhadas, como aquele sobre uma jovem mamã que foi a Nampula fazer o registo de um filho recém-nascido e que não lhe aceitaram o nome. Disseram-lhe que não era um nome normal. Veio lamuriar-se às irmãs que a ouviam um pouco distraidamente. Curiosa, a Patrícia perguntou-lhe.
– Mas, afinal, qual era o nome que lhe queria dar?
– Padre Arlindo

Com esta, também nós nos escancarámos às gargalhadas com a Patrícia que, morta de riso, para não chocar a jovem mamã, deixou cair um brinco no chão para esconder a cara debaixo da mesa. Depois compreendera que o padre Arlindo tinha sido um missionário – categoria de pessoas muito importantes – que tinha ficado amigo do papá do bebé, quando trabalhava em Nampula.
Ou aquele em que descreve o calvário para reparar a prótese dentária que uma irmã tinha partido. Habituada ao desenrasque africano, a irmã acreditou que alguém lhe poderia valer, mesmo se o velho estomatologista indiano, a viver em Nampula há trinta anos, não dispunha do equipamento adequado. Por conselhos de uns e de outros, as irmãs e a Patrícia dirigiram-se em vão à garagem em frente do mercado, que dispunha de material para soldar e ao latoeiro que executava trabalhos minuciosos. Por fim, e em desespero de causa, aceitaram ir ao reparador de bicicletas e das câmaras-de-ar, ao senhor Castelo Branco, que a consertou com uma cola milagreira e a poliu de seguida com um pano de flanela mais negro que um tição ardido.
– Já está. Experimentar, irmã.
Gostava mesmo de lá estar para ver a cara da irmã que, depois de a ter limpo com a ponta dos dedos, sujeitou-se a metê-la na boca, mesmo em frente do senhor Castelo Branco. Trabalho perfeito pelas mãos de artista moçambicano que Deus dotou com tanto engenho, aprovado e elogiado pelo velho estomatologista indiano.
Neste livro, ri-se às gargalhadas, mas também se chora ao lado das mães desconsoladas que fazem quilómetros a pé com os filhos doentes embrulhados nas capulanas sobre as costas, depositando toda a esperança nesta jovem voluntária e dedicada que de vez em quando decidia interromper os estudos de pediatria, em Lisboa, para acudir à miséria infantil moçambicana.
Está de parabéns a Dra. Patrícia Lopes por este lindo livro onde se espelha a sua inteligência e dedicação pelos outros e a sua generosidade, a tal ponto de ter decidido entregar todo o produto dos direitos de autor à APARF – Associação Portuguesa Amigos de Raoul Follereau, que tem lutado contra a erradicação da lepra – flagelo de mutilação física e sobretudo moral, pois as pessoas afetadas por esta doença são degradadas da família e da comunidade em que vivem, consideradas como autênticas párias da sociedade.
Por isso e por tudo o mais, vale a pena ler e comprar o livro da Patrícia Lopes: Missão – diário de uma médica em Moçambique.
Joaquim Tenreira Martins

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Se houve pessoas que marcaram gerações no distrito da Guarda, uma delas foi sem duvida o Professor Henrique Varandas. Desde muito cedo, mostrou inclinação para as matemáticas, influenciado talvez pelo seu tio José Maria que, em Vale de Espinho, era um sábio conhecedor dos meandros da argúcia que não temia os indecifráveis e áridos problemas ou as sofisticadas adivinhas em que por vezes tropeçavam lentes e doutores que passavam pela sua oficina de sapateiro.

Filho da encruzilhada das famílias com grande história na aldeia, que foram os Varandas, os Tenreiras e os Esteves, os quais se espalharam um pouco por toda a parte e até pela Argentina, Brasil e por outros mundos fora, o Dr. Henrique Varandas não quis enterrar os seus talentos. Foi um dos primeiros a mostrar-nos o caminho dos estudos e da universidade, considerado como uma das quase únicas formas de ascensão social e de luta renhida contra aquelas serranias agrestes que nos rodeavam.
Pelo Liceu da Guarda passaram gerações de alunos e o pelo professor de matemática que era o Dr. Varandas tinham necessariamente de passar todos os alunos que frequentavam aquela lendária escola. Tinha a lógica matemática nas entranhas, mas também a palavra amiga na ponta da língua e com ele todos aprendiam aquilo que era para todos nós um bicho-de-sete-cabeças. Usava o método directo para cativar a atenção e o interesse dos alunos. Não falava em abstracto, para as paredes. Ao fazer a demonstração de um teorema, de uma equação ou de um outro qualquer bicho-careto da matemática, dirigia-se directamente para um aluno em particular, talvez para aquele que teria mais dificuldade em compreender, e, do principio até ao fim, auscultava, intuitivamente, a compreensão do aluno. Repetia, voltava a explicar por outras palavras até ver na cara do aluno o brilho dos seus olhos e a satisfação de ter apreendido aquilo que de outra maneira teria ficado nos limbos da incompreensão. Quantos valores não teria revelado este grande pedagogo? Não admira por isso que ao seu enterro tenham acorrido tantas testemunhas que, com a sua presença, quiseram prestar uma última homenagem a este homem que dedicou a sua vida ao ensino.
Também na sua terra de adopção – a Guarda – o Dr. Henrique Varandas não passava despercebido. Depois do jantar, deambulava por entre as ruas da cidade para oxigenar o espírito, contactar com os amigos, saborear o ar puro desta Guarda que tanto amava, e fazer a manutenção de um físico que tinha de estar convenientemente preparado para o jogo do ténis ou do golfo, e assim aguentar melhor os torneios que disputava com os seus próprios alunos, necessariamente mais novos que ele.
A alguns quilómetros de Vale de Espinho, onde o Dr. Henriques ia ser enterrado, precisamente no convívio do terceiro Capítulo do Bucho Raiano, e no momento em que decorriam as suas exéquias, vários amigos recordavam-no também com saudade. Todos, professores, alunos e amigos contavam um episódio, uma graça, uma atenção. O Dr. Joaquim Fernandes fazia-nos notar que já havia algum tempo que o não via na missa vespertina da igreja da Misericórdia. O Professor Santos Silva, antigo reitor da UBI, lembrava o seu excelente desempenho no lugar de professor naquela Universidade. Outros trouxeram à memória o tempo em que regeu as disciplinas de matemática no Politécnico da Guarda. Também eu não quis deixar de recordar o que tinha visto com os meus próprios olhos em Moçambique, quando visitei o Pe. Jacob, da Congregação de Cristo Rei, de Gouveia. Ao percorrermos as várias valências do seu apostolado, fez questão de me mostrar o tractor que o Dr. Henrique Varandas tinha oferecido para a sua missão, em Nampula.
Estávamos todos tristes por não ter podido estar presentes no enterro deste matemático, pedagogo, conterrâneo e parente, que nos deixa tantas saudades.
Joaquim Tenreira Martins

João Valente vai prendar-nos com um excelente livro de poesias intitulado Cancioneiro da Raia Morena, a ser apresentado no próximo dia 17 de Fevereiro, pelas 18 horas, no Restaurante O Robalo, Sabugal.

A águia da bonita foto da capa do livro, da autoria do Kim Tomé, com a diáfana luminosidade das seis horas da manhã, num dia de primavera, nas alturas da Serra da Malcata, vagueia ao sabor da suave brisa, tal como o João Valente deambula de terra em terra, na sua escrita e imaginação, à cata da sua raia morena.
Apesar de exercer há alguns anos a adovacia em Leiria, o autor tem as suas raízes na raia, em terras de Riba Côa, concelho de Sabugal .
João Valente, ao longo deste livro, não se cansa de as percorrer e recordar, a ponto de eu desejar ter como cicerone não qualquer outro guia turístico para as visitar, mas o João Valente em pessoa. Porém, na falta deste jovem poeta, vou levar comigo o Cancioneiro da Raia Morena do nosso amigo João Valente, quando pretender deambular também pelas sendas da raia beirã. E digo nosso porque os poetas fazem parte de nós próprios. São como os entes queridos que vivem em nossa casa. Diria que são os nossos netos, a ternura, o olhar virgem e puro de uma criança. Manifestam os nossos sentimentos, reavivam-nos a memória, sacodem-nos para novos desafios. Os poetas não nos deixam tranquilos.
A emoção que já sentia ao ver os horizontes coloridos, cheios de matizes nas tardes de verão, é agora reforçada com a leitura do Cancioneiro da Raia Morena que farei antes de adormecer. Será um bálsamo tranquilo que me apaziguará, qual santo remédio para as minhas insónias de velho caminheiro nas terras beirãs. As suas poesias emprestam-me um olhar novo para quebrar a rotina que já não me deixa ver as pedras, os carvalhos, os castanheiros, os álamos, as montanhas, os rios e riachos, porque a paisagem que os meus olhos vêm está coberta por camadas de poeira acumulada ao longo dos anos, a observar sempre as mesmas coisas.
A incursão em terras de Riba-Côa do Cancioneiro da Raia Morena de João Valente não é uma conquista guerreira de um El-Rei de há 800 anos. É um rosário de lembranças e de apelos, de afectos e de emoções, de maravilhas e deslumbramentos, de alertas e desesperos, de diversões e avisos, de saudades e canções.
Com o João Valente também me sinto campestre e bucólico, a vaguear por Badamalos, Ruvina, Cerdeira ou Vilar Maior, a perguntar pelo Zé Romão, a Maria Monteiro e o Alexandra Badana. É com ele que quero ir para ver se ainda vejo os namoricos na fonte, ou o desabrochar dos primeiros amores, sob o sol ardente, debaixo dos salgueiros que bordam o rio Côa, com os juncos a servirem de cama, ou o sentir do sangue a fervilhar por uma alma gémia.
Já me disseste que não podias esticar o tempo entre os tribunais e o imperativo da inspiração poética. Deixa-te de ilusões! Visitar a raia beirã é em si mesmo uma autêntica poesia, um verdadeiro cancioneiro. Com o teu livro deste um tom mais colorido a esta raia que parecia ficar um pouco esbatida pelo gasto dos anos e o abandono das gentes. Reavivaste os ânimos com esta linda obra poética. Sendo assim, não me admira que com a tua nobre e cadenciada poesia deste cancioneiro, a raia tivesse ficado ainda mais bela e, evidentemente, morena.
Joaquim Tenreira Martins

Pessoa amiga colocou-me entre as mãos um excelente livro de aventuras de meados do século dezanove e que eu não descobriria certamente por mim próprio – «Les Naufragés de Auckland», de François Edouard Raynal*.

A leitura deste livro reportou-me aos meus bons tempos de jovem escuteiro, irmanado num ambiente de constante contacto com a natureza, onde tinha que se fazer apelo ao manancial de astúcias para viver um ideal fora da civilização e resistir ao conforto material envolvente.
Sem querer denegrir a imaginação inesgotável de Jules Verne, consta-se que este mesmo autor se teria inspirado neste livro para escrever a Ilha Misteriosa que data de 1875, isto é cinco anos depois.
O autor conta-nos uma robinsanada que durou vinte meses nas inóspitas ilhas de Auckland, ao sul da Nova Zelândia, no seguimento do naufrágio do navio Grafton, na noite de dia 3 de Janeiro de 1864. Cinco homens, todos de nacionalidades diferentes, e entre os quais se encontrava um português, originário dos Açores, tinham partido na Austrália (Sidney) à procura de minas de ouro na ilha de Campbell. De regresso, após missão infrutuosa, o navio encalhou e ficou destruído num fiorde das ilhas de Auckland, fustigado pelos ventos ciclópicos e pelo rigor do tempo austral.
Nestas pequenas ilhas, perto da Antártida, longe da estrada marítima que liga a Austrália à Europa através do Cabo Horn, a primeira questão, brutalmente elementar, que se coloca a estes homens, quase todos com menos de trinta anos, é como sobreviver? Se através da caça de focas e lobos marinhos poderiam assegurar razoavelmente o sustento quotidiano, outra questão se colocaria dentro em breve: como escapar a esta horrível prisão natural?
Num estado de completa miséria, será a confiança e o aproveitamento das qualidades de uns e dos outros que os irão salvar, ao formarem entre si uma pequena mas verdadeira comunidade.
O autor do livro, François Reynal, impõe-se pouco a pouco como o líder do grupo, não só pelas suas qualidades humanas, mas também pelos seus conhecimentos que adquiriu ao longo da vida.
Sem fósforos nem isqueiros, tiveram de proceder como os primitivos à difícil criação do lume e, quais vestais da antiga Roma, tinham de vigiar de dia e de noite para o não deixarem apagar.
A sua primeira realização foi ter conseguido convencer o grupo a construir uma ampla cabana de madeira de pinhos austrais, todos encarquilhados, mas solidamente amarrada ao chão para afrontar as horrendas tempestades que sopravam frequentemente da Antártida. A construção de uma sólida chaminé no interior da cabana só foi possível devido aos conhecimentos de química do autor do livro, François Reynal, que conseguiu fazer cimento, misturando a cal, obtida através da queima de conchas com areia fina que encontrava à beira do mar. A necessidade e a engenhosidade também o levaram a fabricar sabão para não perderem a auto-estima e respeito pelas suas próprias imagens. A água obtida da filtragem das cinzas de ervas marinhas e conchas era uma mistura de soda, potássio e cal, que misturada com a gordura de foca obtinha um razoável sabão bem apreciado pelos prisioneiros da ilhas de Auckland. As peles de lobos e de focas tiveram de substituir as roupas apodrecidas que lhes caiam aos bocados. Também aqui François Reynal foi inventivo ao testar o tanino de certas árvores que lhe serviu para fabricar roupas, cobertores e até sapatos com pele de focas. Um exemplar de sapatos encontra-se na Biblioteca do Estado de Vitória, em Melburno. Até cerveja com uma elevada taxa de álcool conseguiu fazer, mas cedo percebeu que não era esta a bebida indicada para pessoas desesperadas e angustiadas ao extremo. O álcool era mau companheiro e vinha perturbar o ambiente de chumbo em que pareciam estar condenados. Decidiram também queimar um baralho de cartas porque em vez de se distraírem com o jogo, perder ou ganhar era levado muito a sério, o que provocava constantes rixas entre eles.
A este grupo de homens não lhe restava outra esperança senão colocarem-se nas mãos de Deus que imploravam todas as noites, através da leitura da Bíblia que conseguiram salvar do navio Grafton.
Depois de tantas noites de desespero, o habilidoso Reynal propôs uma solução de salvação aos seus colegas: ampliar o pequeno bote de salvação recuperado aquando do naufrágio. Foi um trabalho de vários meses. Aqui a imaginação foi rainha. Reynal concebeu uma forja com um fole de peles de focas, fabricou uma bigorna para poder bater o ferro com o metal que recuperaram do Grafton, e os companheiros faziam carvão de noite e de dia. Foi necessário fazer centenas de pregos, barras de metal, machados, serras e um sem número de instrumentos para colocar a parte nova ao bote existente.
Depois do barco construído, só havia lotação para três. Os outros dois ficariam à espera de serem socorridos. Movidos a velas e a remos, a muito custo conseguiram chegar ao sul da Nova Zelândia onde foram acolhidos quase como heróis. Trataram logo de resgatar os dois companheiros que tinham ficado na ilha.
O português, que o autor designa como sendo Henry Forgès, (certamente que o seu nome teria sido adaptado) desempenhou um papel muito importante para levantar o moral deste grupo. Embarcou como cozinheiro e nesta ilha de homens desesperados assumiu a sua profissão até ao fim. Enquanto os outros iam à procura de lenha, de ervas, de crustáceos ou até de navios que poderiam avistar, o português ficava sempre à volta do lume, tentando variar a ementa de foca com carne e de carne com foca. Foi um elemento essencial no sustento quotidiano destes homens. Conseguiu fazer maravilhas na cozinha não consentindo que este grupo morresse de fome.
Henry Forgès saiu dos Açores aos 13 anos de idade, tendo trabalhado como grumete num baleeiro americano durante vários anos. Mas quando caiu doente, uma doença que lhe deformava o corpo, talvez uma espécie de lepra, os companheiros de trabalho maltrataram-no e repudiaram-no, horrorizados com o seu aspecto. Pediu então ao capitão do navio para deixá-lo numa das ilhas da Polinésia onde viveu com os nativos que praticavam ainda a antropofagia. Cansado desta vida, conseguiu embarcar num navio que por ali atracou e no qual serviu como ajudante de cozinha. Algum tempo depois, fixou-se em Sidney onde foi contratado para esta malograda expedição.

* Éditions de la Table Ronde, Paris, 2011. Este livro foi publicado pela primeira vez em 1870.
«Leituras», crónica literária de Joaquim Tenreira Martins

As aldeias do interior de Portugal, agora desertas, são objecto de uma intensa actividade literária.

Pessoas que as deixaram a aldeia há trinta ou quarenta anos, no fervilhar de uma intensa actividade, onde todos se debatiam na busca de melhores condições, procurando caminhos que se iam abrindo quer pela deslocação para as cidades do litoral, quer para terras estrangeiras, não as esqueceram. As ruas, as pessoas, os horizontes, até as pedras da calçada continuam presentes na nossa memória e acompanham-nos toda a nossa vida.
Alguns não conseguem calar mais este apelo da aldeia onde nasceram. E com um misto de memória, fantasia, imaginação conseguem recriar-nos um universo que é uma delícia para os mais velhos que também o viveram, mas ainda para os mais novos a quem os pais talvez ainda não tenham conseguido transmitir este ambiente, quer por falta de tempo, talvez de habilidade e, quem sabe, por ausência de memória.
Foi certamente esta a tarefa que se propôs o nosso amigo e conterrâneo Dr. Manuel Martins Fernandes, com o seu livro Memórias de Infância – Raízes do coração.
É um bonito livro. Lê-se com agrado. Percorre as ruas, os caminhos, os fontanários da aldeia. Lembra-nos pessoas, umas reais, outras fictícias. Mostra-nos hábitos, tradições… Uma aldeia assim volta a viver. Uma aldeia assim torna-se célebre porque o que está descrito já não morre. Perdura nos nossos corações. Cria raízes e daí o subtítulo bem apropriado: raízes do coração.
Na capa lá está a fotografia da casa dos pais onde Manuel Fernandes viveu a infância. Embora um pouco esfumada pelo tempo que já se encarregou de a substituir, ela continua sempre na memória do autor e na dos conterrâneos que também a conheceram. Foi lá que nasceu, que deu os primeiros passos, que recebeu todo o carinho da mãe e do pai e que cresceu juntamente com os outros irmãos.
Um escritor meu amigo do Porto disse-me um dia que todos nós temos que escrever as nossas memórias. O Manuel Fernandes já cumpriu o seu dever. Eu diria o seu prazer. Pois é sempre um prazer recordar a infância. Este é um tema universal que une todo o ser humano. Todos nós tivemos uma infância. E a infância é a ternura, a emoção, a pureza, um estado de graça onde todos gostaríamos de permanecer. É por isso que nos enternecemos tanto ao parar diante de uma criança.
Manuel Fernandes viveu a sua vida adulta no Porto onde é psicólogo clínico. Ocupou-se sempre da saúde dos adultos. Agora pretende dar saúde à nossa aldeia. Oxalá que com este livro lhe dê mais saúde, mais vida e, deste modo, a faça reviver.
Joaquim Tenreira Martins

O Sabugal e as Invasões Francesas anda agora de terra em terra. Depois de ter estado no Auditório Municipal do Sabugal, a quando das comemorações da Batalha do Sabugal, no dia 2 de Abril, passou pela Casa do Concelho do Sabugal, em Lisboa, no dia 19 Maio, onde estiveram os três autores e, no dia 31 de Maio, foi apresentado na Livraria Orfeu, em Bruxelas.

Para a apresentação deste livro, a Orfeu, na pessoa do seu director, Dr. Joaquim Pinto da Silva, escolheu duas altas personalidades que vivem em Bruxelas: o General Artur Pina Monteiro e o cientista, bem conhecido do povo português, o Professor Fernando Carvalho Rodrigues.
Tanto um como o outro se entusiasmaram pela leitura deste livro, reconhecendo o seu valor no domínio da história militar e sobretudo afirmando que vem preencher uma lacuna nestas disciplinas, tanto mais que os três autores apresentam três sensibilidades da mesma realidade, o que é raro e altamente enriquecedor.
Esteve presente apenas um dos co-autores – o Joaquim Tenreira Martins – que vive em Bruxelas, o qual se sentiu deveras honrado com as palavras elogiosas (reencaminha-as também para os outros escritores) que foram ditas a propósito desta obra escrita a três mãos.
Caso quase inédito no lançamento de um livro foi o facto de ter sido apresentado por duas eminentes personalidades que conhecem muito bem o Sabugal, o tema das invasões francesas e a importância estratégica que representava nessa altura o rio Côa.
Após a apresentação, Joaquim Tenreira Martins quis transmitir ao público aquilo que normalmente não se sabe quando se lê um livro, isto é, a história do seu nascimento ou aquilo que motivou a sua feitura.
«Se me permitem, gostaria de vos dar algumas informações sobre as razões desta aventura e sobretudo acerca da maneira como é que três pessoas, três autores, sem se conhecerem, e podem acreditar que foi mesmo assim, sem se conhecerem, e ainda por cima, longe uns dos outros, como é que puderam escrever este livro?
Através das várias leituras sobre este período das invasões francesas, um dia descobri que a batalha do Sabugal, Sabugal’s Battle, como dizem os ingleses, tinha sido a última batalha travada em território português. Foi com esta batalha que os portugueses e os ingleses enxotaram de uma vez para sempre os franceses do nosso país.
E eu comecei a escrever sobre este tempo nos jornais da região – o Cinco Quinas, A Guarda e outros.
À medida que ia lendo e escrevendo começava a ter ideia que as terras de Ribacoa tinham sido palco de batalhas, combates, escaramuças e de encontros guerreiros, de que ainda quase ninguém tinha falado. Sobre Almeida, Buçaco, Torres Vedras já muito se tinha escrito, mas sobre o Sabugal, quase nada.
Lembro-me que esta preocupação era partilhada também por um dos autores do Livro – o Paulo Leitao Batista – que nessa altura ainda não conhecia – e ia lendo também os seus artigos que inseria no blogue Capeia Arraiana. Aquele que mais me alertou foi o que escreveu há uns três anos, intitulado: falta comemorar a batalha do Sabugal, indignando-se por nem sequer haver um monumento a assinalar a última batalha que ali se tinha travado havia quase 200 anos.
Para mim foi quase um apelo. Já tinha muita coisa escrita sobre as batalhas travadas naquela região e um dia ao dar uma conferência nos Fóios, que tinha por título as batalhas de Ribacoa na 3ª invasão francesa, os meus colegas e amigos escritores do concelho de Sabugal abriram os olhos, ou como diria o autor do prefácio deste livro – o J. Pinharanda Gomes – ficaram arrelampados, ao tomarem conhecimento destes acontecimentos ocorridos tão perto de nós, realidade desconhecida ou esquecida durante várias gerações.
Pesava-me na consciência ver aproximar-se a data do bicentenário e não celebrar a memória deste tão importante acontecimento. Contactada a Câmara parecia não haver vontade de nada, apesar de se saber que o exército tinha verbas para este género de acontecimentos.
A certa altura já não havia tempo a perder. E aquela ideia que deve ser sempre o estado, as câmaras a fazerem tudo, poderia também ser substituída por uma iniciativa cívica de cidadãos que, venha o que vier, poderiam contribuir com aquilo que têm e de que são capazes, a fim de celebrarem tão importantes acontecimentos.
Lembro-me que acordei um dia, precisamente no dia 17 de Janeiro de 2011 e tive vontade de enviar um mail ao Coronel Manuel Mourão, também co-autor, que conhecia apenas através das leituras que fazia dos seus bons artigos na Wikipédia, e a quem enviava de vez em quando também os meus escritos para corrigir, dada a minha deficiência em organização militar. Nesse mail convidava-o a escrevermos um livro, que era possível que tivesse de ser pago por nós, sobre a Batalha do Sabugal. Ele tinha precisamente um artigo na Wikipédia sobre a Batalha do Sabugal, e remodelando-o e aprofundando-o um pouco, poderia trazer ao livro a descrição da parte técnica da batalha. Respondeu-me logo a dizer que sim, mas que não queria gastar dinheiro. Já tinha o seu acordo, já não estava mal. Telefonei no dia seguinte ao Paulo Leitão Batista encorajando-o para a mesma tarefa, pois com aquilo que já tinha escrito sobre as invasões francesas no blogue Capeia Arraiana, poderia dar um bom contributo para o livro. Sobre os custos veríamos depois. Na posse das duas confirmações, convidei o editor Joaquim Pinto da Silva que se entusiasmou ainda mais do que eu com a ideia e devo dizê-lo sem rodeios que nos prestou, desde a primeira hora, todo o seu apoio, dedicação e saber, tendo custeado a edição que tem a chancela da Orfeu.
De fins de Janeiro a 3 de Abril o livro tinha de estar pronto. Os textos mais acabados eram os do Paulo Leitão Bastista, pois já os tinha publicado no blogue de que ele é director. Era necessário dar-lhe uma unidade e um título aglutinador e sugestivo. O Coronel Manuel Mourão tinha de trabalhar o seu texto do Wikipédia, consultar a bibliografia e refazer os croquis. E eu tinha de trabalhar os meus escritos que tinham sido redigidos numa outra óptica, a pensar num livro que se pretendia designar as batalhas de Ribacoa na 3ª. invasão francesa.
O tempo que restava do mês de Janeiro e de Fevereiro foi trabalhar de dia e de noite com os nossos textos, com o editor, com o grafista, com as correcções de cada um. Foi um mês de árduo labor. Mails, telefonemas todos os dias. Tudo devia ser visto ao pormenor. Foi uma autêntica epopeia.
Devo dizer que um livro de batalhas sem um militar, não poderia ser um livro sério. Foi precisamente através do contributo do nosso amigo coronel Manuel Mourão que este livro poderá ser considerado uma referência nesta importante batalha. Com ele adquirimos mais confiança. Ele confortou a nossa visão inicial. Proveniente das altas escolas militares de Portugal, continua ainda a dar o seu contributo no domínio histórico militar, escrevendo para a Wikipédia (e foi por aqui que eu o encontrei). É também no seu blogue (A Guerra Peninsular para além das Invasões Francesas) bem documentado e cheio de referências que nos continua a transmitir o seu saber sobre este tão importante tema.
Por fim, devo ainda referir o primeiro encontro com os autores, que ocorreu apenas no próprio dia das comemorações da Batalha do Sabugal, precisamente em frente da Casa do Castelo (Sabugal), no dia 2 de Abril. Nunca nos tínhamos visto. Foi deveras emocionante o nosso primeiro encontro real. O livro já estava feito, tinha acabado de chegar do Porto, que o tinha trazido o editor Joaquim Pinto da Silva. Ainda estava quentinho. O abraço que nos demos foi um abraço de amizade, depois de um intenso trabalho, na preocupação de fazer um livro dedicado a uma batalha que estava esquecida na rota das invasões francesas, mas que foi a última a ser travada em território português. Só depois da Batalha do Sabugal é que Portugal começou a ser um país livre, fora da alçada do jugo dos militares franceses que tanto dano causaram ao nosso país.»
Joaquim Tenreira Martins

Quando os grandes espíritos se encontram é um verdadeiro acontecimento. Mas quando os grandes espíritos se encontram à volta de uma boa mesa, onde o Bucho Raiano é senhor e rei, então é uma autêntica festa. Por natureza, o bucho é todo vaidoso. Vai da sua fisionomia. Aproveita a barriga para se ufanar e se mostrar todo pimpão.

o anfitrião apresenta o Senhor Bucho da esquerda para a direita: Pinto da Silva, Carvalho Rodrigues, Anfitrião, Pina Monteiro, Lopes da Silva e respectivas esposas, e ainda Alice e Guilherme conversando com o Gen. Pina Monteiro

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– À mesa não há melhor do que eu, pretende ele dizer.
– Cala-te, diria o anfitrião. Não fales muito depressa porque ainda vamos ver. Tens de convencer os convivas e, sobretudo, as senhoras e as crianças, porque, isto já não é como dantes. A variedade é tanta que já não estamos condenados a comer-te por tradição. Tens de te impor pelo sabor e pelo bom gosto para superares a tradição, porque, se assim fosse, então ficarias reduzido ao teu interior beirão raiano e só os que lá iam, no Inverno, é que teriam a coragem de te comer.
O Senhor Bucho compreendeu a observação e ficou calado, até porque à mesa do anfitrião se encontravam personalidades que não se compadeceriam do seu carácter anarquista e impulsivo, ás vezes quase sem educação. Se tudo aquilo é porco, o que é que se poderá esperar?
Pois é, mas ele é também muito inteligente. No centro da mesa, a sensibilidade intuitiva permite-lhe usar da sua argúcia para observar cada um dos convivas à sua volta. É o único que percebe quem gosta ou quem não gosta.
Já agora, Senhor Chanceler, permita-me que introduza algumas inovações na confecção do Senhor Bucho, pois temos de acompanhar a evolução dos tempos, à luz de novos conhecimentos científicos. Para evitar que se martirize durante 3 ou 4 horas a cozer dentro do molho inicial, o anfitrião decidiu espetar numerosos palitos à volta da barriga. Deste modo, o Bucho não corre o risco de rebentar e todo o molho gordurento sai pelos orifícios dos palitos. Evita-se aquela antiga receita de o envolver numa meia ou num saco de plástico. Que horror! O Prof. Carvalho Rodrigues, com o seu olho científico-clínico, e que se encontrava ao meu lado, confirmou que se tratava de um verdadeiro método para tirar as gorduras ao bucho.
Ficamos com vontade de saber se haveria alguma relação entre o Bucho e as invasões francesas. Teríamos de investigar se os franceses ou os ingleses teriam saboreado esta iguaria nas nossas terras raianas. E o editor Joaquim Pinto da Silva achava que poderia ser matéria para um próximo livro. O Tenente-Coronel Lopes da Silva, que já escreveu sobre a cavalaria no tempo das invasões francesas, prometeu-nos a sua preciosa ajuda.
E o Bucho continuava atento, a ouvir histórias de Casal de Cinza, do austero e míope Cónego Messias Coelho (não se podia dizer tudo por respeito pela sobrinha ali presente, e que bela coincidência!), grande teólogo da Guarda, venerador de cães por serem mais inteligentes que os homens e sobretudo as mulheres que considerava desprezíveis se não tivessem um mínimo de argúcia.
Já íamos fazer a reconstituição da Batalha do Sabugal, mas o General Artur Pina Monteiro achou por bem reservá-la para o próximo dia 31 de Maio, na Livraria Orfeu, onde ele próprio se propõe apresentar o livro “O Sabugal e as Invasões Francesas”. Mas que honra! Talvez por culpa do Bucho, divagou-se até à Flandres, para evocar a comemoração da batalha de La Lys, onde quase todos os presentes tinham acompanhado o General Pina Monteiro que ali representou, com a maior dignidade, as Forças Armadas Portuguesas. Recuámos até à guerra da restauração da independência de Portugal, às constantes escaramuças, ainda por escrever, (os historiadores estão muito preguiçosos, dizia o Prof. Carvalho Rodrigues!) entre os espanhóis e os portugueses da raia beirã.
O Bucho já mal ouvia, tinha quase desaparecido no interior de cada um de nós. Perante as qualidades inigualáveis do seu sabor, já todos pretendiam ter origens nas terras do Bucho, nem que fosse por um cabelo. Claro que quanto ao General Pina Monteiro e ao cientista Prof. Carvalho Rodrigues não restavam dúvidas. O Bucho reconheceu-os logo. Também não se fez rogado em reconhecer o historiador militar que já tinha percorrido em pensamento, em estudo e na realidade as nossas boas terras beirãs, e igualmente o editor que, por portas e travessas, recebe, na sua mansão da Foz, as cristalinas águas do Côa, indispensáveis na confecção do famoso Bucho Raiano.
Não admira, pois, que um jantar de Bucho Raiano, tão longe das nossas terras, possa torná-las tão presentes como se estivéssemos ali ao pé.
Joaquim Tenreira Martins

Comer Bucho Raiano fora do tempo, fora de Portugal, e com colegas e amigos fora da região onde o bucho nasceu, poderá ser uma ousadia gastronómica um tanto ou quanto aventureira.

Joaquim Tenreira Martins

Joaquim Tenreira MartinsNão é que eu tenha algum receio de servir bucho a qualquer altura do ano. Não. É mais por respeito pelo Senhor Bucho, pois nunca se sabe como é que este poderá reagir. Não pensem que não dá conta que, de um momento para o outro, não se encontra no seu meio natural. Ele é deveras inteligente! Mesmo que não se observem as suas reações, percebe bem as reações dos seus comensais. Observa mesmo quem o aprecia ou não. Claro que quem não o conhece, olha para aquela peça enorme, arredondada, fumegante e de cor acastanhada com muita curiosidade e apreensão. E quando o confrade o começa a esventrar, meu deus, que cheiro se espalha pelos ares! Os olhos dos convivas centram-se no Senhor Bucho. Mas, todo vaidoso, não lhe apetece dizer nada. Observa e regala-se todo, ao sentir que é o centro de todas as atenções. Ele é o Senhor Bucho! E, quando já esventrado, começa a pingar de untuosidade, então começa a olhar mais compenetradamente para os seus comensais. Constata que as narinas já estão repletas do delicioso cheiro bem característico que exala do seu corpo, e que os lábios não param de mexer de ansiedade, e que a saliva não tem mais paciência para se privar do famoso dito cujo, não cessando de engolir em seco.
Claro que o anfitrião e confrade, quando pega no bucho para o começar a cortar, não perde a oportunidade para dar algumas informações acerca do Senhor Bucho, sobretudo de o situar no contexto da tradição do calendário litúrgico e aldeão das nossas terras raianas beirãs; de dizer como era fabricado; em que altura se comia; o que normalmente contem, sem se privar de fazer uma pequena aula de anatomia porcina que acaba sempre, sem se dar por isso, por ferir as susceptibilidades das pessoas mais sensíveis
– Já chega de comentários, já chega de observações e de discursos sobre a especialidade raiana, meu caro anfitrião. Deixe-se de vaidosices. É o Senhor Bucho que nos vai convencer e não o senhor do bucho.
As minhas mãos caíram de pasmo. O garfo não entrou logo à primeira, e notei que a faca não encontrava o melhor sítio para começar a dividir o bucho, ou talvez este mesmo tenha hesitado, por um momento, em se dar a comer. Tive de me concentrar, não fosse o bucho apresentar um protesto por ter perdido a necessária atenção que lhe é devida. Olhei para ele mais uma vez. Não, não tinha vontade de protestar. Sentia um feliz ambiente, sereno, com vontade de se entregar, rendido à curiosidade de ser provado pela primeira vez.
O bucho deixou de se ouvir e ficou silencioso. Já estava nos pratos, ao lado das batatas belgas e dos grelos italianos, e olhava em contre-plongée para a cara de cada um dos comensais. Iam-no levando à boca, mastigavam-no e saboreavam-no com espanto e admiração, quase religiosamente. Mas, curioso, este mesmo bucho quis logo interromper o silencio e não resistiu à pergunta:
– E então? Que tal? Gostam, meus citadinos europeus?
E começaram logo todos a desembuchar.
– Que excelente iguaria! Que delicioso sabor!
E a curiosidade levou-os a escarafunchar com o garfo e a faca, à procura de descobertas anatomias do porco. Ouvem-se comentários: há focinho, há ossinhos, há pimentão e colorau, há poucos coiros e poucas gorduras.
E o bucho ouvia com satisfação, sobretudo o comentário daquelas senhoras que se preocupam em manter a linha.
– Afinal não é tão gordo como a gente pensava!
Também o bucho estava satisfeito. Depois de lhe terem extirpado a barriga já não podia colocar a mão em cima da mesma, para a acariciar e a rodear, em sinal de satisfação. Agora começava uma outra viagem na barriga dos outros. Sentia-os repletos e alegres com o delicioso manjar de bucho que pouco a pouco ia desaparecendo.
Todos estavam satisfeitos: o bucho, o anfitrião e os convivas.
Mas não sei se o Chanceler da Confraria teria ficaria satisfeito ao ver um confrade apenas com as insígnias e sem a farda apropriada numa cerimónia fora de muros e com um certo alcance mediático.
Promovido a confrade neste recente segundo capitulo, o autor destas linhas, ao organizar um jantar em sua casa, neste fim de mês de Abril, com os seus colegas da Embaixada, constatou que o Senhor Bucho, primeiro discreto e observador, depois satisfeito e efusivo, convenceu e não deixou de ouvir constantes elogios às suas qualidades: bom paladar, excelente cheiro, iguaria com sabor impar!
No dia seguinte, todos partilhavam de um momento inédito e ninguém se queixou de efeitos secundários. Apenas o anfitrião, se apresentou com as suas olheiras um pouco mais salientes que o habitual, mas desta vez com o motivo de ter passado a noite a lavar a louça, porque com o Senhor Bucho é sempre uma festa, antes, no próprio momento e depois de ser servido.
Joaquim Tenreira Martins

As cerimónias oficiais da evocação da Batalha do Sabugal no sítio do Gravato tiveram início no dia 2 de Abril de 2011 no Auditório Municipal do Sabugal. O professor Adérito Tavares abriu «as hostilidades» explicando (como só ele é capaz) o «expansionismo napoleónico na Península Ibérica: o princípio e o fim». Já no dia anterior, sexta-feira, no mesmo local, uma plateia repleta de alunos das Escolas do Sabugal tiveram oportunidade de aprender com o ilustre historiador natural de Aldeia do Bispo. Seguiu-se o lançamento dos livros «A Batalha do Gravato – Narrativas do famigerado combate do Sabugal» da autoria de Manuel Morgado e Marcos Osório e de «Sabugal e as Invasões Francesas» de Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão, Joaquim Tenreira Martins e Paulo Leitão Batista. O prefácio e a apresentação do livro escrito a «três mãos» esteve a cargo do filósofo e pensador sabugalense mestre Jesué Pinharanda Gomes.

Invasões Francesas - Batalha do Sabugal - Foto Natália Bispo

Na sexta-feira, 1 de Abril, os alunos do Agrupamento de Escolas do Sabugal encheram o Auditório Municipal do Sabugal para escutar e aprender com o historiador Adérito Tavares muitos pormenores pouco falados das chamadas batalhas napoleónicas entre franceses e ingleses (ajudados pelos portugueses).
No sábado, 2 de Abril, o Auditório voltou a encher-se de sabugalenses (e muitos militares fardados) para assistirem ao lançamento dos livros «A Batalha do Gravato – Narrativas do famigerado combate do Sabugal» da autoria de Manuel Morgado e Marcos Osório e de «Sabugal e as Invasões Francesas» de Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão, Joaquim Tenreira Martins e Paulo Leitão Batista.
O Presidente da Câmara Municipal do Sabugal, António Robalo, destacou no seu discurso de abertura: «Celebramos um percurso histórico que nos orgulha!» e quase a finalizar enfatizou que «tendo a História como única juíza das nossas acções, acreditamos profundamente ser este o caminho certo que melhor defende e promove o bem comum da comunidade que pretendemos servir e tendo no sorriso de quem servimos o único medidor de satisfação, acreditamos profundamente na força do nosso concelho e da nossa gente».
A vice-presidente da autarquia, Delfina Leal, ocupou-se da moderação encontro temático «Sabugal e as Invasões Francesas» onde marcaram presença Pinharanda Gomes, Adérito Tavares e os autores dos dois livros.
Mestre Pinharanda Gomes, com aquela humildade que todos lhe conhecemos, começou por dizer que «se sentia duplamente intruso na cerimónia». Em primeiro lugar «é mentira que tenha escrito um prefácio para o livro porque é um pós-fácio escrito depois da obra terminada mas como assim está instituído vamos então chamar-lhe prefácio» e o segundo acto de intrusão está relacionado com «a gentileza do convite dos autores que não necessitavam necessariamente da minha apresentação». «Agradeço a honra e a gentileza que me deram de estar aqui presente e vou dar o meu contributo pessoal apenas como leitor desta obra que foi editada pela livraria portuguesa e galega Orpheu. Sobre a temática do tenente-coronel Gouveia Mourão não me vou pronunciar porque não tenho competência para tanto. Fiquei livre da tropa e penso mesmo que nunca dei um tiro na minha vida». «Sobre o doutor Joaquim Tenreira Martins, natural de Vale de Espinho, o que posso dizer de alguém que é licenciado em Ciências Políticas na Universidade de Lovaine – um exclusivo que só apareceu em Portugal na Universidade Católica – e mestre pela universidade de Lille?». «O meu amigo doutor Paulo Leitão Batista aplica as palavras num modo estilístico. O prosador não tem de saber colocar o sujeito, o predicado, o complemento. A palavra para ser palato tem de sair do palato. A palavra sai do céu da boca para o papel. No caso do Sabugal temos depois de Manuel Leal Freire o Paulo Leitão Batista. Se lerem o livro «Terra Batida» temos as três memórias.»
Após a apresentação dos três autores mestre Pinharanda Gomes «explicou» a obra «dividida em três obras». «No primeiro texto tive que aprender a interpretar o ensaio político, táctico e militar acompanhado das dificuldades do terreno. Quando um autor é capaz de sonhar o sítio e descrevê-lo historicamente é uma arte. O texto beneficia desta virtude. Nas terceiras invasões francesas nem todos morreram no campo de batalha.» «O segundo livro é um estudo entre o sociológico e o militar nos séculos XVII, XVIII e XIX. Algumas passagens fazem lembrar o Hans Christian Andersen. A sua narrativa termina com o desastre de Napoleão.» «Finalmente o terceiro livro obedece ao canône histórico com pesquisa feita em fontes avulsas e chama ao palco as principais personagens da guerra – o Maneta era um general terrível, era um homem de cortar à faca – e termina, também, com a derrota de Napoleão que passou à condição de reformado em Liège com apenas 45 anos.
Para Jesué Pinharanda Gomes o livro «é um resumo das invasões francesas e uma separata do que se passou no Côa mostrando que o Wellington não quis envolver-se muito nas batalhas da fronteira porque talvez pensasse que era mais importante a defesa de Lisboa apesar de Napoleão a partir de certo momento idealizar não uma União Europeia mas uma Europa Imperial». A concluir recordou que «ainda hoje no retábulo da Sé da Guarda estão os sinais dos disparos das tropas francesas» não sabendo contudo se «alguma vez se fez algum inquérito aos males que os franceses fizeram aqui na Raia». «Felicito vivamente os autores, o editor e sugiro que comprem a obra», rematou Pinharanda Gomes.
jcl

As cerimónias oficiais da evocação da Batalha do Sabugal no sítio do Gravato tiveram início no dia 2 de Abril de 2011 no Auditório Municipal do Sabugal. O professor Adérito Tavares abriu «as hostilidades» explicando (como só ele é capaz) o «expansionismo napoleónico na Península Ibérica: o princípio e o fim». Já no dia anterior, sexta-feira, no mesmo local, uma plateia repleta de alunos das Escolas do Sabugal tiveram oportunidade de aprender com o ilustre historiador natural de Aldeia do Bispo. Seguiu-se o lançamento dos livros «A Batalha do Gravato – Narrativas do famigerado combate do Sabugal» da autoria de Manuel Morgado e Marcos Osório e de «Sabugal e as Invasões Francesas» de Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão, Joaquim Tenreira Martins e Paulo Leitão Batista. O prefácio e a apresentação do livro escrito a «três mãos» esteve a cargo do filósofo e pensador sabugalense mestre Jesué Pinharanda Gomes.

Invasões Francesas - Batalha do Sabugal - Foto Natália Bispo

O Coronel Manuel Mourão falou em nome dos três escritores: «O meu agradecimento a Jesué Pinharanda Gomes por se ter dignado escrever o prefácio do livro. O livro está incompleto. O tema é muito vasto e estamos muito longe de esgotar o tema. Há muitos pontos obscuros acerca desta batalha. É preciso estudar a batalha tendo em atenção a doutrina e as forças em confronto. É preciso estudar tudo o que anda à volta desta batalha. É preciso contar o que pensavam as pessoas que cá viviam sobre a chegada dos franceses. É importante saber a visão que tinham os militares franceses sobre esta batalha. Em nome dos três autores do trabalho o meu muito obrigado a todos por terem comparecido.»
O editor Pinto da Silva (Editora Orfeu) aproveitou para fazer alguns agradecimentos: «Vou contar uma cena porque sou funcionário de uma instituição comunitária. Um dia um comissário europeu (alemão) foi a uma reunião e começou o discurso desta maneira – É a segunda vez que estou aqui. A primeira vez foi de pára-quedas – E, claro, criou um grande mal-estar. Estou aqui por causa da família Tenreira Martins que me deram a beber chá de poejo e fiquei assim e estou aqui por causa da Casa do Castelo e a família Bispo. Agradeço aos autores. A Orfeu está sedeada em Bruxelas e produz há 25 anos onde passaram por lá muito dos políticos e da cultura portuguesa. A nossa condicionante é a cultura portuguesa e nunca a política. Democraria, cultura, abertura é o que nos interessa na Orfeu.
A intervenção do professor Adérito Tavares teve por tema «O expansionismo napoleónico na Península Ibérica: o princípio do fim». O historiador, natural de Aldeia do Bispo, começou por recordar que «tinha sido um grande privilégio ter falado aqui ontem para cerca de 200 alunos das Escolas do Sabugal que se portaram lindamente. Será um momento marcante destas cerimónias».
O historiador ilustrou a sua apresentação com excelentes cartoons britânicos contemporâneas das batalhas das invasões francesas disponíveis na página web da Universidade de Oxford. E foram muitos os tópicos abordados por Adérito Tavares começando por desmistificar um símbolo da cidade do Porto que muitos confundem e transportam para a clubite desportiva. «A estátua do Porto com o leão e a águia é a luta ibérica. A águia napoleónica recebeu feridas profundas nas batalhas ibéricas. Napoleão Bonaparte foi um plano megalómano que pretendeu unir a Europa mas não contou com o apoio da Inglaterra. A Inglaterra veio à Península Ibérica defender Portugal porque entender ser um excelente campo de batalha para combater os franceses. Na verdade, foi na Península Ibérica que a águia napoleónica começou a ser ferida de morte, como vemos no monumento da Rotunda da Boavista, no Porto. A Guerra Peninsular, como dizia Churcill a propósito de outros combates foi o princípio do fim para Napoleão Bonaparte e para o seu projecto megalómano. E a Batalha do Sabugal contribuiu para apressar o fim desse princípio», esclareceu.
«A ocupação da Península Ibérica fez-se graças a poderosos exércitos mas também à custa de uma bárbara repressão exercida sobre a população portuguesa e espanhola. Junot e as suas tropas rapinaram tudo quanto puderam (incluindo ouro) em Portugal. O povo português sofreu tal como o espanhol que tiveram Goya para retratar os assassínios nas 80 gravuras «Los Desastres de la Guerra».
«Os efeitos da passagem dos exércitos napoleónicos pelas terras do Sabugal foram devastadores. Por todo o lado os invasores aterrorizaram as populações, que preferiram abandonar as aldeias e refugiar-se nos campos. Depois da imensa calamidade que foram as invasões francesas veio a ocupação britânica. Se Portugal não morreu da doença (franceses) podia ter morrido da cura (ingleses)», concluiu Adérito Tavares.
Joaquim Tenreira Martins falou de Massena. «Massena foi nomeado por Napoleão e prometeu-lhe um grandioso exército bem equipado. Massena veio para Portugal acompanhado da sua amante e contam-se sobre o casal várias situações anedóticas. Antes da Batalha do Buçaco o ajudante de campo teve de lhe bater à porta do quarto para lhe lembrar que já estava atrasado cerca de uma hora. Massena esteve perto de ser capturado. Na Ruvina aconteceu um episódio burlesco. Ainda antes da Batalha do Sabugal a tentação da carne fez com que Massena tivesse de saltar para o cavalo sem roupa para fugir. A primeira tentação que Massena teve aconteceu em Celorico. O exercito de Portugal tinha chegado a Celorico sem sapatos nem farda. O moral estava de rastos mas Masssena queria provar que o seu exército ainda tinha capacidades. No dia 22 de Março deu ordem aos três corpos de exército que avançasse contra a Guarda e Sabugal. Michael Ney informou Massena que sem ordens expressas do Imperador não avançaria contra os ingleses e mesmo que fosse destituído ou condenado à morte não tomaria a decisão de avançar sobre Almeida.
Paulo Leitão Batista reescreveu a história recordando que «é comum falarmos de três invasões de Portugal perpretadas pelos exércitos napoleónicos e todos conhecemos, aliás, os comandantes franceses dessas três invasões: Junot, Soult e Massena». Porém «houve uma quarta invasão de Portugal, comandada pelo marechal Marmont, que poucos conhecem e que a história, por regra, omite. É contudo ousadia chamar-lhe invasão, pois tratou-se tão só de uma incursão ou sortida do exército francês em território português, ou ainda, usando a linguagem táctico-militar, de uma manobra de diversão».
Durante a sua intervenção Paulo Leitão falou da substituição de Marmont por Massena, da acção de Wellington em Portugal, do susto de Napoleão Bonaparte com a possível ofensiva sobre Badajoz, a invasão de Portugal pelo marechal Marmont, o malogrado plano de Trant e as atrocidades da quarta invasão.
O encontro finalizou com a intervenção do coronel Sodré de Albuquerque com o tema «a importância da ponte do Côa, no Sabugal, para o êxito do exército aliado na perseguição a Massena».
Para ficar a saber tudo, mas mesmo tudo, sobre as Invasões Francesas recordamos a sugestão de Pinharanda Gomes: «Comprem a obra!»

O Capeia Arraiana felicita os três autores pela qualidade do seu trabalho.
jcl

Como se diz no evangelho de S. João, «no princípio existia a palavra». Porém, para a feitura deste livro, eu preferiria dizer, no princípio havia muitas palavras, havia muitos textos. Os autores – o Coronel Manuel Veiga Mourão, o Dr. Paulo Leitão Batista e eu próprio – já tínhamos trabalhado muito sobre o tema da guerra peninsular, cada um no seu respectivo domínio.

Mas citando ainda a Bíblia, o livro da génese, poderíamos afirmar que «a terra estava ainda informe e vazia». Era portanto necessário dar um impulso à ideia de valorizar o trabalho de cada um. Para resumir, afirmaríamos, como no prefácio, que «ventos favoráveis e convergentes congregaram os autores deste livro…num intuito de recordar as invasões francesas em terras de Riba-Côa e, mais precisamente, no Sabugal».
Fazendo agora a leitura da génese do «Sabugal e as Invasões Francesas» podemos afirmar que a sua feitura assemelha-se a um conto de fadas que se pode contar assim. Era uma vez um coronel que passava os seus tempos de reformado a escrever sobre a história militar e mais particularmente sobre a participação do nosso bravo exército na chamada guerra peninsular. Os seus artigos, todos bem documentados, eram colocados gratuitamente à disposição na biblioteca digital, que alguns até desvalorizam, designada Wekipédia. Depois das minhas leituras de Charles Oman, Fortescue, Baron de Marbot, Thiers, Napier e tantos outros, voltava, de vez em quando aos artigos da Wikipédia e constatava que se encontravam ali valiosos e condensados resumos relativos a estudos que estava a realizar e, sobretudo, a batalhas travadas em terras de Riba-Côa: Sabugal, Almeida, Ponde de Almeida e cercos de Cidade Rodrigo. Era como que a repetição da matéria. Mão amiga encaminhou-me o mail do autor desses artigos e resolvi enviar-lhe os meus escritos que descreviam as mesmas épocas, em lugares coincidentes. Pela pronta resposta na volta do correio, percebi que textos destes lhe interessavam. Percebi também que estava diante de um militar que não poupava o seu sabre para cortar uma ou outra palavra, para corrigir um regimento em vez de uma divisão e, sobretudo, não consentir a despromoção de um qualquer oficial que eu não tinha colocado no seu devido posto.
A troca de mails intensificou-se e percebi que o seu saber deveria ser aproveitado para poder valorizar as gentes e as terras do Sabugal, as quais nem sequer faziam a menor ideia do valor do seu património histórico-militar. Aliando a sua generosidade e competência, o Coronel Manuel Mourão veio reconfortar-me no meu receio de não me apresentar como o profeta rejeitado da terra onde nasci ou como o santo que na sua própria terra não faz milagres. Ao meu desafio aceitou colaborar prontamente nesta aventura e trouxe-nos o seu saber técnico-militar para nos descrever a importante Batalha do Sabugal, baseada no melhor que existe actualmente sobre o assunto.
Tal como em qualquer manobra militar, o tempo é um elemento precioso muito difícil de gerir. A data das comemorações aproximava-se e apercebi-me que o escritor do Capeia Arraiana, Paulo Leitão Batista, já tinha quase um arrátel de livro escrito no seu assíduo blogue. Os dados estavam lançados. Só faltava um editor. E bati logo à porta da Orfeu, e já sabia que o Dr. Joaquim Pinto da Silva, não iria virar as costas ao Sabugal, a estas terras e a estas gentes que precisam de ser divulgadas nos seus feitos, valores e tradições. Também o grafista, Paulo Rocha, estava fiel ao seu posto. Entusiasmou-se com o manejar das armas, com os soldados que ia vestindo e revestindo para lhes colocar a devida cor das fardas da época. E até se lembrou de colocar a figura caracterizada de um soldado de cara rosada e numa posição bem british que se batia em terras portuguesas com os caçadores 3 e os Red Coat da famosa e temida Light Division.
Este trabalho escrito a três mãos foi uma verdadeira batalha ganha num tempo record. Mas, seguindo o exemplo de Lord Wellington, com tropas bem treinadas e disciplinadas pode-se manejar bem e rapidamente a escrita para ganhar ao inimigo o esquecimento, porque duzentos anos depois, é justo celebrar este acontecimento com dignidade e valor.
Além de ser um prazer para todos nós a sua escrita, este livro parece quase uma obra virtual. Por mais estranho que pareça e acredite quem quiser, nenhum dos autores se conhece pessoalmente. Nunca se viram antes. Só se conhecem por telefone e por mails. Iremos encontra-nos pela primeira vez na apresentação do livro, no auditório do Sabugal, no próximo dia 2 de Abril.
Esta é também a contribuição que os intelectuais, no bom sentido da palavra, animados num espírito cívico, pretendem ofertar às gentes e aos representantes do Sabugal, no momento em que se comemoram os duzentos anos em que o tempo de Napoleão poderia ser transformado num tempo de subserviência e subjugação perante o louco imperador que sonhou ter a Europa inteira a seus pés e que, tal como uma carraça, nunca mais largava Portugal.
Joaquim Tenreira Martins (Investigador do CAPP – ISCSP)

JOAQUIM SAPINHO

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